Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 7 de 44

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Vitória, a rainha

4. Uma estranha e impossível loucura

4. Uma estranha e impossível

 

 

loucura

 

A mais extrema de todas as extremas qualidades [de Vitória, aos dezoito anos]

era sua força de caráter… Nunca existiu ninguém menos sujeito a caprichos ou

vacilações. Depois de decidir o que faria, aferrava-se inflexivelmente à sua

decisão. Ceder não fazia parte de seu caráter.

DAVID CECIL1

 

Vitória estava deitada na cama, muito irritada. Nunca se sentira pior. A cabeça martelava, sentia-se fraca e nauseada, a febre alta se prolongava por dias e ela estava com o rosto tão encovado que mal se reconhecia no espelho. A seu lado se encontrava a baronesa Lehzen, mascando suas sementes de cominho. Em frente estava a duquesa de Kent, num elegante vestido de seda brilhante, os punhos cerrados de frustração. A mãe de Vitória se mantinha imóvel, de pé, olhando por uma das janelas do hotel que dava para a costa portuária de Ramsgate, luzindo de guarda-sóis e rostos corados pelo sol da tarde.

Conroy e a duquesa queriam duas coisas. Primeiro, que Conroy fosse nomeado como secretário particular de Vitória quando se tornasse rainha (a isso se seguiria um título de nobreza e um assento na Câmara dos Lordes, que era o que ele mais ambicionava). Segundo, que a duquesa ocupasse a regência e governasse no lugar de Vitória, caso o rei morresse antes que Vitória chegasse à maioridade. Vitória ainda era muito nova, dizia a duquesa, e todos eles viviam juntos e eram tão próximos… Não gostaria e não precisaria dos sábios conselhos de Conroy? Mas Conroy tinha provocado e atazanado Vitória por anos; então em vez de tê-lo à frente de seu futuro reinado, ela queria bani-lo. Vitória encarou friamente a mãe e respondeu: “Não”.

O grupo caiu em silêncio. Podiam ouvir lá fora o som de risos e de crianças brincando. De repente, Conroy irrompeu no quarto com a boca comprimida de raiva. Gritou com Vitória, acusando-a de ser tonta, estúpida, egoísta e irracional. Vivia com a cabeça cheia de bobagens, disse ele, com todas aquelas bonecas idiotas e a paixão pela ópera, que era evidente que não tinha condições de governar por conta própria. E ela lhe devia. Afinal, depois de tudo o que ele e sua mãe haviam feito por ela…

Então Conroy enfiou uma pena e um papel na mão de Vitória, tentando forçá-la a assinar o documento que o nomeava secretário particular. Vitória balançou a cabeça, fez uma careta e puxou seu querido cão Dash para mais perto de si. Ela notou o olhar que a mãe deu a Conroy, suplicante, quase covarde, e a cena lhe deu náuseas.

Vitória não chegou a registrar esse episódio. Enquanto enfrentava a doença e o assédio de Conroy, seu diário ficou em branco durante três semanas (fato raro). Somente mais tarde ela revelou seu trauma a Lord Melbourne: “Tudo o que aguentei lá; a tentativa deles (de mamãe e de JC) quando eu ainda estava muito adoentada de me fazerem prometer de antemão, à qual resisti apesar de minha doença e da crueldade deles —

apenas minha amada Lehzen me apoiando”.2

O trauma de Vitória provinha, em parte, da angústia de que a mãe não levava sua doença a sério; somente Lehzen. A duquesa e Conroy passaram dias fazendo ouvidos moucos aos apelos de Vitória por um médico. Conroy não queria que ninguém soubesse que ela estava doente, por medo de que fosse considerada incapaz de governar. (A imprensa local foi informada de que um criado estava doente e que Vitória tinha apenas um “leve resfriado”.)

 

Quando finalmente foi chamado, dr. Clark disse que ela estava com “febre biliosa”, mas o mais provável é que fosse amigdalite ou mesmo febre tifoide. Era visivelmente grave; ela ficou presa ao leito por cinco semanas, ao cabo das quais só conseguia dar poucos passos de cada vez e perdera chumaços de cabelo. Quando pôde sair do quarto, magra, cambaleante, ficou exasperada com a indiferença da mãe. Por outro lado, ergueu grandes louvores à governanta: “Minha preciosa queridíssima Lehzen foi e continua a ser (pois ainda demando muitos cuidados) INCESSANTE e INFATIGÀVEL AO MÀXIMO em seu grande cuidado por mim. Ainda estou MUITO fraca e fiquei

MUITO 3 magra”. Ela seguiu escrupulosamente os conselhos do médico, mantendo as janelas abertas, mastigando devagar, erguendo pequenos pesos para fortalecer os músculos. Aos poucos, recuperou-se.

Se Conroy fosse um observador mais perspicaz, não se surpreenderia com a negativa de Vitória em transferir o poder a ele. A cordialidade e a persuasão teriam sido muito mais eficazes. Como lhe escreveu Leopoldo: “Ele imaginava que poderia colocá-la numa espécie de cativeiro, o que, estando eu perto de você, às suas ordens, era uma estranha e impossível

loucura”.4 Vitória tinha uma secreta e férrea firmeza que barrava quem a subestimasse. Nunca perdoou Conroy pela década de intimidações com que a assediou. Em 1833, quando completou catorze anos, ela fez uma pintura chamada “Amazonas em guerra”. Mostrava mulheres montadas, com a longa cabeleira solta, entrando em batalha, os cavalos pisoteando homens caídos; uma delas dispara uma flecha bem no rosto de um soldado e o mata.

 

O rigoroso e complexo conjunto de regras para converter uma mocinha de cabeça quente em rainha se chamava “método Kensington”. Desde os cinco anos, Vitória não podia ficar sozinha, só era permitida descer as escadas pela mão de um adulto e brincava com outras crianças apenas na presença de um tutor. Grande parte desse método era bem-intencionada, como forma de criar uma rainha adequada. A duquesa e Conroy também queriam criar uma rainha progressista, uma whig como Conroy, em vez de uma tory como o restante da família real. (Nas décadas iniciais do século XIX, os whigs defendiam a abolição da escravatura, a igualdade para os católicos, a ampliação do direito de voto e o livre-comércio, bem como uma monarquia constitucional, em que o rei ou a rainha atua como chefe de Estado e o poder legislativo cabe ao Parlamento.)

Mas o método Kensington não visava exclusivamente, ou nem sequer basicamente, ao benefício de Vitória. Seu meio-irmão Charles de Leiningen definiu os objetivos da seguinte maneira: 1) granjear popularidade para Vitória, isolando-a dos maus costumes e da má política da corte real; 2) obter a regência (devido à necessidade de “assegurar um futuro honroso e agradável também para a duquesa de Kent”); 3) nomear Conroy como secretário particular. O monitoramento para chegar a esses objetivos, escreveu ele, era exaustivo, incluindo “o mais ínfimo e insignificante

detalhe”.5

Outro espectro mais sinistro movia o esquema: a perspectiva de um assassinato. A duquesa e Conroy diziam crer que Ernest, duque de Cumberland, planejava matar a sobrinha para ter a coroa: ele era o seguinte na linha do trono. Conroy falou para a duquesa que o tio Ernest ia

envenenar o leite de Vitória, então a sequestraria e a deixaria à morte.6 Vitória troçou dessa ideia, dizendo que era “tudo invenção de Sir John”,

mas a mãe ficou assustada. 7 Providenciou que alguém provasse o desjejum da filha todas as manhãs.

 

Aos 64 anos, Guilherme IV foi o indivíduo mais idoso a ser coroado soberano em toda a história da Inglaterra. Depois da revolução francesa de 1830, que derrubou Carlos X, Guilherme IV procurou refrear o republicanismo local sendo mais frugal do que o opulento irmão mais velho e se envolvendo pessoalmente na política. Mas seu conservadorismo e sua indiferença pela reforma logo indispuseram os súditos cada vez mais descontentes. Em 1830, apenas 13% dos homens na Inglaterra e em Gales — os que tinham bens de nascença — podiam votar. Ainda existiam alguns pequenos “burgos podres”, onde o proprietário aristocrata local era quem de fato escolhia o representante local para o Parlamento, e muitas cidades manufatureiras não tinham nenhuma representação. Os 500 mil moradores de Birmingham, Leeds, Manchester e Sheffield, por exemplo, não tinham representantes parlamentares.

Em 1830, houve um movimento de mudança com a chegada de um grande número de whigs progressistas ao poder. Em 1831, quando a Lei da Reforma não conseguiu ser aprovada pela segunda vez, o país explodiu. Castelos e casas foram incendiados, houve centenas de mortos e feridos nas revoltas em Derby, sobretudo pelas mãos do Exército. Quatro revoltosos foram enforcados. Os políticos ficaram nervosíssimos com a possibilidade de uma revolução, caso não se ampliasse o direito de voto. No ano seguinte, 1 milhão de homens obtiveram o direito de voto após a aprovação da Lei da Reforma, na terceira tentativa. Agora, 18% da população masculina adulta podia votar. Novas cidades que haviam surgido durante a Revolução Industrial receberam assento na Câmara e os burgos mais corruptos foram

erradicados.8 A Câmara dos Comuns, com seus membros eleitos, cresceu em estatura, enquanto a Câmara dos Lordes encolheu. Aquela década marcou o auge da eficiência whig: em 1833, a escravidão foi finalmente abolida em quase todo o Império Britânico, trinta anos antes da abolição na

América.9

 

Em novembro de 1830, a duquesa de Kent chorou de alegria com a aprovação de um projeto de lei na Câmara dos Comuns que fornecia um acréscimo de 10 mil libras para o palácio e para a educação de Vitória. Além disso, designava a duquesa para a regência, caso Guilherme IV falecesse sem deixar herdeiros. (A alternativa — o duque de Cumberland — era inconcebível.) “Este é o primeiro dia realmente feliz que passo desde

que perdi o duque de Kent”, disse ela. 10

A partir daí, a hostilidade entre a casa do rei e a casa da duquesa vazou para o público. Numa ocasião, a duquesa visitava a rainha Adelaide quando um dos filhos (ilegítimos) do rei entrou no aposento; ela gelou e partiu

imediatamente.11 Também aproveitava todas as oportunidades para lembrar ao rei que Vitória era a próxima na linha do trono, provocando-o deliberadamente ao mandar hastear o estandarte real quando a filha estava em Ramsgate e ao encorajar salvas militares a “Sua Alteza Real” quando

estava no mar.12 Conroy e ela exibiram Vitória por todo o país naquela que veio a ser sua primeira turnê real, para incentivar uma publicidade favorável e mostrar a princesa a seus futuros súditos. Em registro de 31 de julho de 1832 em seu diário, Vitória descrevia uma dessas viagens, quando foi a Gales. Ela ficou atônita com o impacto da mineração de carvão na área em torno de Birmingham:

 

Homens, mulheres, crianças, casas e campo são todos negros. O campo é muito desolado por todas

as partes; há carvão espalhado e a grama está totalmente arruinada e enegrecida. Acabo de ver uma

construção extraordinária ardendo em chamas. O campo continua negro, máquinas flamejando,

carvão em abundância, fumaça e montes de carvão ardendo por todas as partes, entremeados com

palhoças miseráveis, carroças e criancinhas esfarrapadas.

 

Era um mundo por onde Vitória, boquiaberta, passou rapidamente. Sua habitual franqueza foi mais tarde eliminada das publicações oficiais, selecionadas e montadas a partir dos diários. Não havia mais as reclamações sobre as paisagens feias, as densas multidões de pedintes, gente bêbada nas cidades e um infeliz episódio em que sua carruagem atropelou um pedestre. Brigou energicamente com a mãe sobre a necessidade de fazer essas viagens exaustivas. Mas, enquanto percorria o país, sua grande popularidade ficou evidente; e a afronta de Conroy irritou o rei.

A rixa entre as duas famílias logo virou um dramalhão público. A duquesa se negou a comparecer à coroação de Guilherme IV, julgando que ele havia destratado Vitória ao impedir que ela ocupasse o lugar atrás dele na procissão. Enviou um bilhete ao rei dizendo que a filha caíra, arranhando o joelho, e por isso não poderiam estar presentes à cerimônia. Preferiram ir para as areias cinzentas da Ilha de Wight, ignorando a subsequente crítica generalizada àquela impertinência. The Times escreveu um artigo sarcástico sobre a atitude desdenhosa da duquesa, atribuindo-a a uma “oposição sistemática e deliberada” a qualquer coisa que o rei quisesse. Em novembro de 1833, em seus diários, Thomas Creevey descreveu a duquesa como “o

demônio mais incansável, mais perseverante e mais incômodo possível”. 13

Guilherme IV, por sua vez, não perdia oportunidade de humilhar publicamente Conroy. No meio de uma reunião na sala de estar, ele mandou que os cavalheiros que acompanhavam a duquesa de Kent — entre eles Conroy — saíssem, pois apenas cavalheiros do rei e da rainha tinham autorização de estar ali. Quando Conroy foi excluído da cerimônia de crisma de Vitória, em 1835, ela ficou furiosa. Sua crisma tinha sido “um dos acontecimentos e feitos mais solenes e importantes de sua vida”, tendo ido

com “a firme determinação de se tornar uma verdadeira cristã”.14 Vitória saiu dali fumegando de raiva, humilhada por ter que aguentar uma imposição daquelas, estragando um dia de tão grande importância, mesmo que tenha acontecido contra um homem que ela desprezava.

Aos dezesseis anos, Vitória já chegara à flor da idade. Para seu grande aborrecimento, ainda media apenas 1,48 metro e também era “infelizmente

muito gorda”.15 Leopoldo escreveu que soubera que “certa princesinha… come um pouco demais e quase sempre rápido demais”. Suas maneiras à mesa eram horríveis, devorando e engolindo a comida de uma vez só, roendo os ossos, fazendo “coisas inomináveis com os aspargos” (o que

provavelmente significava comê-los com as mãos).16 Mesmo assim, com o passar dos anos, ela ficou esbelta e as pessoas admiravam sua pele, os olhos azuis de um tamanho impressionante, os cabelos longos e cheios e a saúde de ferro. Nessa idade, afrouxaram um pouco as rédeas; ela teve autorização para ler alguns romances, escolher seus próprios penteados, ter aulas de italiano e de canto e frequentar mais as festas da mãe, onde podia se entregar ao prazer de ficar olhando os rapazes bonitos e de dançar com eles pelo tempo que lhe fosse autorizado. Vitória adorava música e ópera; seus ídolos de adolescência eram bailarinos e cantores — um dos quais, o grande Luigi Lablache, foi contratado para ensiná-la a cantar.

Era “amplamente conhecido”, escreve Dulcie Ashdown, “que Vitória se tornara uma mulher” com essa idade, mas, felizmente, seu “primeiro

período menstrual nunca foi anunciado oficialmente”.17 Sem dúvida ficou perplexa com o que então se chamava de “regras”, “período” ou “incômodo”. A menstruação não era um assunto que se costumasse comentar, e a maioria das pessoas acreditava que ela incapacitava as mulheres. Os médicos recomendavam que as moças evitassem dançar em salas aquecidas, não tomassem chuva nem frio e tentassem não pensar muito. O escritor James McGrigor Allan disse à Sociedade Antropológica de Londres em 1869:

 

Nesses períodos, as mulheres ficam inaptas para qualquer grande esforço mental ou físico. Sofrem

uma languidez e uma depressão que as deixam incapacitadas de pensar ou agir. Torna-se

extremamente duvidoso até que ponto podem ser consideradas seres responsáveis enquanto dura a

crise… No trabalho intelectual, o homem ultrapassou, ultrapassa e sempre ultrapassará a mulher,

pela razão óbvia de que a natureza não interrompe periodicamente sua reflexão e utilidade.18

 

O mais impressionante em relação a Vitória é que, afora ao desejo de ser mais alta e mais magra, ela dava pouca importância à sua aparência física. Sabia que não era nenhuma beldade e não se detinha nisso. Brincou a respeito com sua meia-irmã, escrevendo que ficava “muito feliz em saber

que o retrato de minha cara feiosa lhe agradou”.19 Todavia, apreciava genuinamente a aparência estética dos outros, homens e mulheres. Ficava encantada em especial com seu primo de segundo grau Charles, duque de Brunswick, de bigode escuro e casaco com gola de pele que usava para

montar. Admirava muito o cabelo dele, que caía “rebelde no rosto”.20

Vitória era considerada um ótimo partido. Muitos homens ficaram obcecados por ela, e vários jornais discutiram uma longa lista de possíveis parceiros. Robert Browning escreveu que Vitória, quando adoeceu, estava “resolvida a não se casar com ninguém, a não ser com Lord Elphinstone”,

um rapaz vistoso dois anos mais velho.21 Em fevereiro de 1836, depois de se recuperar e quando o médico finalmente a autorizou a ir para o Palácio de St. James, Lord Elphinstone desenhou seu retrato, entre os bancos da igreja. Ela posou com um ar muito compenetrado, com uma bela capa parisiense de cor cinzenta, sentindo o peso do olhar dele. A duquesa de Kent tomou suas providências para que o capitão do Exército e camarista de

Guilherme 22 IV fosse enviado para a Índia. Corria o boato de que Vitória e

ele estavam apaixonados, e bastou esse boato para que ele fosse afastado.23 Circularam rumores sobre outros pretendentes, entre eles os irmãos Orange, George Cumberland, o duque de Orleans, o duque de Nemours, um dos Württemberg, o rei Otto da Grécia e até, muito estranhamente, seu tio Leopoldo.

Mas Leopoldo já escolhera um par para a sobrinha — Albert, seu primo em primeiro grau — e tentou explicitamente orquestrar a união. Em maio de 1836, Albert e seu irmão Ernest fizeram a primeira visita a Vitória, em

seu aniversário de dezessete anos.24 Vitória adorou os primos, “muito muito alegres, divertidos e felizes, como devem ser os jovens”. Albert, atlético, pareceu-lhe “extremamente bonito”. “Seus olhos são grandes e azuis”, escreveu ela, “e tem um belo nariz e uma boca muito suave com dentes bonitos.” Mas Albert também era frágil, propenso a desmaios, e não conseguia acompanhar o ritmo da prima. No baile da festa de aniversário em St. James, Albert se recolheu cedo; “estava pálido, e todos nós receamos

que desfalecesse; portanto ele se retirou”.25 Passou o dia seguinte inteiro no quarto, sem comer, devido a um “ataque de bílis”, e depois apareceu “pálido e delicado”. Vitória escreveu a Leopoldo, com uma ponta de frustração:

“Lamento dizer que temos em casa um inválido na pessoa de Albert”.26

No final, Vitória lhe agradeceu com cortesia: “[Albert] é muito sensato, muito gentil e bondoso e muito simpático também”, acrescentando que ele tinha, “além disso, a aparência e o exterior mais agradáveis e encantadores

que se possam imaginar”. 27 Mas Vitória não tinha o menor interesse em se casar. Convidou o pai de Albert para sua coroação, mas não os filhos. Os dois voltariam a se ver três anos depois.

 

Ao longo de todo esse período, a conduta de Conroy era realmente intrigante. De onde vinham aquelas suas liberdades? Como podia supor que tinha lugar à mesa real? Por que disse a Vitória que “as filhas dele eram tão

altas quanto eu”?28 Anos depois, ela continuava espantada: “Realmente

nunca consegui entender por que ele me ofendeu e insultou”.29 A resposta se encontra numa velha igrejinha em Oxford, onde os arquivos Conroy estão conservados em Balliol College. Num diário castanho desbotado, com fecho quebrado e páginas endurecidas, o neto de John Conroy registrou uma mensagem secreta datada de dezembro de 1868. Estava escrita num código que parece se basear no alfabeto utopiano de Sir Thomas More: “Diz-se que

Lady Conroy é a filha do duque de Kent”. 30 Em outras palavras, John Conroy acreditava que sua esposa, Elizabeth Fisher, era filha ilegítima do duque de Kent, pai de Vitória, concebida quando ele morava no Canadá.

Assim, ela seria meia-irmã de Vitória.31 E com isso, evidentemente, Conroy seria cunhado de Vitória — um igual, não um subordinado. Em seu leito de morte, Edward, o primogênito de John Conroy, afirmou a mesma coisa. Era algo tecnicamente impossível, interesseiro e inverídico, mas explica a atitude controladora e a familiaridade de Conroy. Era claro que Conroy não queria ser conselheiro da rainha; queria governar em seu lugar, junto com a duquesa.

Não havia dúvidas quanto às conotações eróticas do relacionamento entre Conroy e a duquesa, a qual estava sozinha fazia muitos anos. Vitória temia que fossem amantes. O detestável duque de Cumberland já dissera isso na

frente dela, quando pequena.32 O duque de Wellington disse a Greville que Vitória presenciara algumas “familiaridades” entre a mãe e John Conroy, contara a Späth e esta então repreendera a duquesa.

Mais tarde, Vitória negou que a mãe tivesse sido amante de Conroy, apesar de suas suspeitas durante a infância. É provável que a duquesa viúva tivesse desenvolvido uma profunda afeição por um homem conhecido por sua misteriosa habilidade de enfeitiçar as mulheres. Isso certamente explicaria o controle dele sobre ela. O rei Leopoldo dizia que Conroy era

“um verdadeiro Mefisto”33 e falou a Vitória, então com dezenove anos, que ele dominava a duquesa com “um grau de poder que antigamente alguém

julgaria ser obra de bruxaria”. 34 Mesmo na velhice, a temível rainha

estremecia à lembrança do homem a quem chamava de “monstro”.35

Conroy inventava novas estratégias a cada instante: enquanto penteava o cabelo que vinha raleando, enquanto bajulava os parlamentares entre garrafas de vinho, enquanto aguentava intermináveis rodadas de uíste com a duquesa. Quanto mais exasperante ele se tornava, mais firme era a posição de Vitória. Ela aprendera a ter controle e paciência diante das perseguições. Foi seu tio, o rei Guilherme IV, que finalmente explodiu, furioso com as pérfidas e explícitas maquinações de Conroy. E sua cólera gerou um enorme escândalo.