Vitória, a rainha
10. A virago apaixonada
Contei a Albert que ele viera como um anjo luminoso para me salvar… pois eu
sozinha não conseguiria. Eu era jovem e voluntariosa.
RAINHA VITÓRIA1
A rainha Vitória, mesmo quando estava perdidamente apaixonada pelo príncipe Albert, sempre o tratava como se fosse um garotinho de três anos de idade e ela
sua governanta.
GEORGE BERNARD SHAW2
Vitória estava no alto das escadarias atapetadas de vermelho, no Castelo de Windsor, fitando o primo Albert. Ele subia os degraus de pedra com o irmão Ernest, passando por uma estátua de Jorge IV e várias armaduras, para ir cumprimentar a jovem rainha. Começava a cair a noite de 10 de outubro de 1839, e os dois jovens tinham acabado de chegar de um dia de viagem de barco sob chuva, vindo do continente a Dover. À luz bruxuleante, Vitória olhava embevecida o primo: embora cansado e ainda mareado, era magnífico. Ganhara corpo desde a última vez em que o vira, três anos antes; tinha o peito largo, as coxas musculosas e um rosto de proporções perfeitas. A rainha, subitamente encabulada, estendeu-lhe a mão.
Vitória ficou fascinada. Naquela noite, escreveu no diário: “Foi com alguma emoção que fitei Albert — que é lindo”. No dia seguinte, ela entrou em mais detalhes sobre seus encantos físicos: era “extremamente bem-apessoado”, com “olhos lindos, um nariz primoroso e uma boca muito bonita, com bigodes delicados e umas leves suíças, bem leves; uma bela figura, de ombros largos e cintura fina”. Era um entusiasmo ardente que não conseguia conter. Ao fitá-lo, sentia as entranhas palpitarem: “Preciso segurar firme meu coração”. Quatro dias depois, perderia totalmente o domínio de si.
Albert passara a viagem se preparando para uma conversa difícil. O altivo príncipe alemão resolvera dizer à “prima Vitória” que não ia passar anos à sua disposição enquanto ela ficava cogitando se iam se casar ou não. Estava farto de ser deixado em suspenso e não queria receber ordens a esse respeito. Vitória pretendia que os dois irmãos chegassem vários dias antes, mas Albert disse a Ernest para deixá-la esperar. Estava ciente das reservas dela. O pai de Albert lhe dissera que Vitória era uma “rainha virago” — de
gênio forte e dominadora — e o palácio estava um tumulto.3 Albert a tinha na conta de hedonista, adorando festas e indo dormir tarde. Era um par curioso. O garoto que passeava feliz entre as matas que cercavam sua residência de verão, o Rosenau, procurando pedras, conchas e folhas para sua coleção de ciência natural. A menina que reclamava que detestava caminhar, pois as pedras entravam nas botas delicadas, mas que dançaria alegremente até as solas dos sapatos se gastarem e ficarem finas como uma folha de papel.
Enquanto as ondas cinzentas rolavam e batiam na proa do barco atravessando o canal, Albert ensaiava as frases da conversa que temia. Como dizer a uma jovem rainha que não se está disposto a esperar por seus favores?
Vitória era extremamente cautelosa em relação ao casamento. Depois de uma infância sufocante, agora era finalmente livre e capaz de fazer o que quisesse. Não tinha lembranças de seus pais juntos e nunca conhecera um casamento sólido e feliz — exceto o de seu tio Leopoldo e a segunda esposa, Louise, que tinha sido como uma irmã para ela. Sabia que os tios, em sua maioria, tinham sido infiéis e rudes com as esposas; por que iria se apressar para correr esse risco? As moças de vinte anos geralmente já estavam casadas ou comprometidas, mas Vitória, como escreveu no ano em que subiu ao trono, queria “aproveitar mais dois ou três anos” de sua “vida atual de mocinha” antes de assumir “os deveres e preocupações de uma
esposa”.4 Além disso, seu povo a amava como ela era, uma jovem rainha solteira. Todo aquele assunto, declarou Vitória, era “odioso”.
Quanto a Albert, bem, era jovem e de saúde frágil, tinha um inglês muito estropiado e lhe faltava sofisticação. A última visita, em 1836, não fora muito alentadora; Ernest saiu de lá achando que era o preferido de Vitória. Mesmo assim, mantiveram contato. Albert lhe enviou suas congratulações quando se tornou “rainha da terra mais poderosa da Europa”. Na carta, ele pedia: “Rogo-lhe que às vezes pense igualmente em seus primos em Bonn e mantenha para com eles aquela gentileza com a qual os agraciou até agora.
Tenha certeza de que nossos pensamentos estão sempre com você”.5 Vitória também determinou que Stockmar acompanhasse Albert numa viagem pela Itália, para ampliar sua educação. Foi um grande sucesso. Albert, sempre tão racional, ficou enlevado de êxtase perante a “inesgotável fonte de conhecimento”, embora não tenha apreciado o clima e a paisagem (nesse aspecto, tinha gostos contrários aos de Vitória; ela preferia mil vezes desenhar paisagens a percorrer museus).
Além do mais, Vitória era uma romântica e não queria um amor planejado ou calculado; queria que irrompesse nela com enorme força irresistível. Como iria acontecer uma coisa dessas com seu primo pálido e circunspecto? Em julho de 1839, poucos meses antes do encontro em outubro, Vitória tentou impedir a visita de Albert. Pediu a Leopoldo que não deixasse o primo alimentar muitas esperanças: “pois, afora minha juventude e minha grande aversão a mudar minha situação atual, não há nenhuma ansiedade manifesta neste país em relação a tal evento”. Se se apressasse em casar, isso “poderia gerar descontentamento”. O primo parecia maravilhoso no papel, mas Vitória comentou sensatamente que “talvez não
tenha o sentimento por ele que é necessário para assegurar a felicidade”.6 Pediu a Leopoldo que cancelasse a visita e deixasse claro a Albert que não havia “nenhum compromisso”. Todos os sinais indicavam um desengano. Ela chegou a sugerir, numa carta a Albert cada vez mais frustrado, que sentia uma queda por outro cavalheiro do continente: “Tivemos aqui o grão-duque da Rússia durante algum tempo. Gostei extremamente dele”.
Não faltavam pretendentes a Vitória. Era jovem, vivaz e poderosa. Os jornais dos Estados Unidos divulgaram os rumores de que o presidente Martin van Buren, viúvo de 54 anos, “pensa seriamente em pedi-la em
casamento”.7 O Daily Advertiser não via “nenhuma razão para não fazer o pedido ou não ter as mesmas chances dos insípidos príncipes e reis da Europa”. Haviam sido sugeridos inúmeros homens do Velho e do Novo Mundo como possíveis maridos da “rosa da Inglaterra”, mas ela não estava interessada em nenhum deles.
E, como já vinha se tornando hábito, Vitória estava sob a forte influência de uma opinião em particular: a de Lord Melbourne. Ele desaconselhara o casamento com Albert por três fatores: era alemão, era primo e era um Coburgo. Já que a mãe de Vitória e tia dele se tornaria então sua sogra, não haveria a possibilidade de que Albert tomasse o lado dela? Vitória, convicta da lealdade de Albert, assegurou a Melbourne que “não precisa ter nenhum
receio nesse aspecto”.8 O argumento mais convincente de Melbourne foi
pura e simplesmente que esse casamento “não era necessário”.9 Nisso concordavam. Havia uma ponta de interesse próprio de Melbourne por trás de seu argumento, pois não queria que a aconchegante intimidade entre eles fosse perturbada. Vitória também falou a Lord Melbourne que esperava que
não se casasse outra vez, como insistia a irmã dele.10
Acima de tudo, a grande preocupação da voluntariosa Vitória era que, casando-se, deixaria de estar no comando; como esposa, não poderia ser o tipo de rainha decidida e controladora que lhe agradava. Em abril de 1839, em plena crise do caso de Lady Flora Hastings, Vitória e Lord Melbourne haviam debatido como conseguiriam expulsar a mãe dos palácios que a rainha ocupava. Uma possibilidade era o casamento, mas Vitória a considerou uma “alternativa choccante [sic]” à sua vida atual. Disse que estava “tão acostumada a agir à minha maneira que pensei que havia uma probabilidade de 90% de não concordar com ninguém”. Melbourne respondeu, talvez de modo um tanto imprudente: “Ah! Mas continuaria
assim [à sua maneira]”. 11 Foi esse o modelo matrimonial implantado no espírito de Vitória. Manteria o poder intacto e o futuro marido é que seria uma espécie de esposa tradicional. Ela comandaria e ele seguiria atrás.
Albert estava cansado daquilo. O tio Leopoldo o avisou sobre as hesitações de Vitória e aumentou o prazo de espera de dois para quatro anos. Albert tomou isso como uma recusa e se preparou para dizer a ela que
não ia ficar parado esperando.12 E, de todo modo, de início ela não lhe causara mesmo nenhuma grande impressão. “A prima Vitória é sempre simpática conosco”, escreveu ele na primeira vez em que se viram, quando
adolescentes. 13 “Está longe de ser bonita, mas é extremamente gentil e animada.” Sua parente famosa sempre lhe fora apresentada como o destino de sua vida, mas agora, estando ambos com vinte anos, ele achava que ia fazer papel de bobo: “Se, depois de esperar durante uns três anos, eu descobrisse que a rainha não queria mais o casamento, isso me deixaria numa posição ridícula e, em certa medida, prejudicaria todas as minhas
perspectivas futuras”.14 Seu futuro dependia dos caprichos de uma jovem rainha. Ele entrou no Castelo de Windsor, exausto e nauseado, e ergueu os olhos para a pequena figura no alto das escadas, a mulher mais poderosa do mundo.
Em 13 de outubro, Vitória disse a Lord Melbourne que mudara de opinião sobre o casamento. Tinha passado os três últimos dias agitada, com anotações apressadas no diário enquanto ouvia as sinfonias de Haydn, olhando Albert de soslaio enquanto o greyhound dele roubava comida do
garfo dela.15 Albert era muito “simpático e bem-humorado”, disse Vitória a Lord Melbourne, admitindo seu próprio mau gênio e confessando que agora reconhecia “a vantagem da beleza”. Ao ouvir suas intenções, o primeiro-ministro recomendou que ela pensasse no assunto durante uma semana. Mas, no dia seguinte, Vitória respondeu que se decidira. Melbourne, gentil, mudou de tom e lhe garantiu que ela ficaria em situação muito mais confortável, “pois uma mulher não pode ficar sozinha em momento algum,
em qualquer posição que esteja”.16 Esse conselho seria repetido a Vitória ao longo de toda a vida: mulheres não podem nem devem comandar sozinhas. “Obrigada”, disse Vitória entusiasmada, “por ser tão paternal.”
Agora vinha a parte dolorosa. Como rainha reinante, o protocolo ditava que Vitória é que deveria fazer o pedido de casamento. Na prática, isso significava apenas informá-lo de sua decisão, mas, para uma jovem protegida, que não tinha pai e não confiava na mãe, a perspectiva era extremamente enervante. Vitória e Albert nunca tinham conversado sobre coisas como amor ou casamento; ela sentia câimbras no estômago só de pensar nisso. Naquela noite, para seu grande prazer, Albert lhe apertou a mão ao se despedir. Era algo encorajador.
Por fim, na terça-feira, 15 de outubro, ao meio-dia e meia, Vitória enviou uma convocação a Albert, que estava fora, caçando. Quando ele voltou a seus aposentos, viu a mensagem na penteadeira. Meia hora depois, foi vê-la. Vitória o fez sentar e então trocaram algumas amenidades. Ela tremia um pouco e então falou bem depressa:
Disse-lhe imaginar que ele sabia por que eu quis que viesse e que ficaria muito feliz se ele
concordasse com o que eu queria (isto é, casar-se comigo); abraçamo-nos várias vezes e ele foi
muito gentil, muito afetuoso; Ah! Sentir que eu era e sou amada por aquele Anjo que era Albert foi
um prazer enorme demais para descrever! Ele é a perfeição, a perfeição em todos os aspectos, em
beleza, em tudo!
Albert aceitou na hora. Vitória disse que não o merecia, pegou sua “querida mão” e a beijou várias vezes e então chamou Ernest, o irmão dele. A seguir, numa atitude significativa, Albert foi prestar seus respeitos a Lehzen, a quem Vitória realmente considerava como mãe. As anotações daquele dia e de vários dias subsequentes em seu diário impressionam pela alegria transbordante. Era como se tivesse topado inesperadamente com a perspectiva de felicidade, com sincera surpresa: uma cega que tropeça numa estátua de mármore e então passa a afagá-la incansavelmente. Depois, naquele mesmo dia, Vitória escreveu ao tio Leopoldo:
Ele parece a perfeição e penso que tenho a perspectiva de uma imensa felicidade diante de mim.
Amo-o mais do que consigo dizer e farei tudo o que puder para tornar esse sacrifício (pois, em
minha opinião, é isso o que é) o menor possível. Ele parece ter grande tato, coisa muito necessária
em sua posição. Esses últimos dias passaram como um sonho para mim, e estou tão aturdida com
tudo isso que quase nem consigo escrever; mas realmente me sinto muito feliz.17
Vitória manteve o fato em segredo da mãe durante quase um mês. Em sua polêmica biografia da rainha, publicada em 1840, Agnes Strickland afirmou que o compromisso foi “sancionado” pela duquesa de Kent. Vitória anotou à margem, com firmeza: “Nunca. A duquesa de Kent nunca soube de nada, até o momento em que a rainha lhe contou alguns dias antes da partida do
príncipe”. 18 Não confiava na mãe e convencera Albert de que ela iria espalhar a notícia e provocar estragos. A duquesa, sem dúvida, desconfiava de algo em andamento; duas vezes entrou de supetão nos aposentos da filha, sem bater à porta, quando sabia que ela estava com Albert, coisa que Vitória considerou uma enorme indiscrição. Finalmente, em 9 de novembro, a rainha convocou a mãe a seus aposentos. A duquesa de Kent se atirou abraçando Vitória e chorou; sabia que a filha não lhe pedira a bênção, mas disse que a daria assim mesmo. Então Albert entrou, abraçou Vitória e ficou de pé, de mãos dadas com ela. A duquesa, emocionada, comentou que ambos eram muito jovens — Vitória replicou que Albert tinha um caráter muito sólido — e prometeu que nunca se intrometeria no casamento deles. Também desandou a falar, de modo bastante inconveniente, sobre outros pretendentes que queriam desposar Vitória.
A alegria da duquesa arrefeceu um tanto ao voltar para seus aposentos. Não conseguia dormir, sabendo que Vitória esperara todo aquele tempo antes de lhe contar. Ficou se roendo por dentro, imaginando quem já sabia antes dela; perguntando-se se a decisão do casal não fora rápida demais; preocupando-se onde ia morar. Escreveu-lhe várias cartas sobre a questão da moradia, mas Vitória deu de ombros, considerando aquilo uma
amolação. A mãe, disse ela, era uma “grande peste”.19
Mas o ninho dos pombinhos era só luz. Albert ficou encantado com o eufórico pedido e a franqueza da rainha. Escreveu à avó:
Uns dias atrás, a rainha me chamou sozinho a seus aposentos e me declarou, numa efusão genuína
de amor e afeto, que eu ganhara todo o seu coração e que ficaria extremamente feliz se eu lhe
fizesse o sacrifício de dividir a vida com ela, pois falou que via aquilo como um sacrifício; a única
coisa que a preocupava era que não se considerava digna de mim. A alegre franqueza com que me
disse isso me deixou absolutamente encantado e fiquei totalmente arrebatado. Ela é de fato muito
boa e simpática, e tenho plena certeza de que o céu não me entregou em más mãos e de que
seremos felizes juntos.20
Foi a paixão de Vitória que deu impulso ao casal, mas a devoção mais lenta, porém sólida, de Albert viria logo a seguir. Comportavam-se como namorados ébrios de amor. Ele lhe pegava as mãos, acarinhava-as, admirava o delicado tamanho delas. Sentava-se a seu lado enquanto Vitória trabalhava, secando a tinta com mata-borrão quando ela lhe pedia. Ela se esgueirava por trás dele e lhe beijava a testa; corria atrás de Albert ao sair, para um último beijo. Albert tinha um espírito analítico e pragmático e sentia dificuldade em acompanhar as declarações apaixonadas de Vitória, reagindo com rodeios: “Liebe Kleine, Ich habe dich so lieb, ich kann nicht
sagen wie” [Queridinha, te amo tanto que nem consigo dizer]. 21 Estava realmente surpreso e encantado com a magnitude do amor dela, que brotara tão depressa. Em questão de semanas, Vitória deixara de ser aquela mulher que adorava estar e comandar sozinha e ficara totalmente consumida de paixão por seu bem-amado. Às vezes, Vitória o cumulava com um desejo quase indisfarçado: “Falei a Albert que devíamos ser muito muito íntimos juntos e que ele podia entrar e sair quando quisesse… Ah! Como ficarei
feliz em ser muito íntima com ele!”.22
Albert se sentia perplexo, dizendo a Stockmar que ficava “muitas vezes
atônito em crer que seria o caso de me mostrar tal afeição”. 23 Mas sua felicidade tinha alguns poréns; perturbava-o a ideia de deixar a Alemanha. Mesmo quando a rainha, sua Vortrefflichste [a incomparável], descrevia durante horas o futuro glorioso que teriam, ele se preocupava com o que estaria perdendo. Escreveu à avó: “Ah, o futuro! Não traz consigo o momento em que terei que me despedir de meu querido, querido lar e de vocês? Não consigo pensar nele sem que uma profunda melancolia se
aposse de mim”. 24 Albert sabia que estava não só se casando, mas também aceitando um emprego e que seu trabalho seria “decisivo para o bem-estar
de muitos”.25 Passara anos pensando na possibilidade de ingressar na alta esfera do poder por meio do casamento. Poucos meses antes, em seu aniversário de vinte anos, escreveu ao irmão dizendo que deviam se empenhar numa educação geral e “elasticidade mental”, que julgava ser o
que conferia “aos grandes homens o poder de comandar os outros”. 26 Albert almejava a grandeza.
Vitória concebeu um casamento ortodoxo para a época, com muitas crianças, e foi fotografada erguendo os olhos para o marido em ar de adoração ou com as mãos em seus ombros enquanto ele lia, e por isso é fácil esquecer como a relação entre ambos fugia ao convencional. Ela era a mulher mais renomada da Grã-Bretanha, com palácios, um grande corpo de auxiliares e uma enorme responsabilidade. Ele era relativamente
desconhecido, proveniente de um ducado pequeno e pobre da Alemanha.27 O primeiro-ministro de Vitória lhe recomendara que escolhesse um consorte que ela pudesse controlar e que se curvasse em obediência a seus desígnios. Albert percebia como a noiva era resoluta e obstinada. Ele observou que, naqueles três anos que passara sem se ver, Vitória mal chegara a crescer três
centímetros, se tanto, mas “adquiriu uma firmeza muito maior”.28 Em muitos aspectos, Vitória desempenhava o papel do homem: foi ela quem fez o pedido de casamento e foi quem primeiro deu um anel a Albert e lhe pediu um cacho de cabelo. Não era obrigada a adotar o sobrenome dele, assim como as mulheres que se casavam com reis podiam manter os seus. As palavras carinhosas que empregava para descrevê-lo eram geralmente femininas: ele era seu “anjo” lindo e querido.
No sentido mais convencional possível, Vitória arranjara uma esposa. Seu companheiro intelectual era Melbourne, e Albert era seu objeto de desejo. Nos dias que se seguiram ao pedido de casamento, ela continuou a anotar suas longas conversas com Melbourne, enquanto o “querido” Albert aparecia rapidamente entre as cenas como primor de beleza, ótimo dançarino, companhia ao jantar. Suas ideias e palavras não recebiam o mesmo peso das de Melbourne, embora ela mencionasse rapidamente a
grande aversão dele a russos, a franceses e — coisa alarmante — a judeus.29 Lord Melbourne minimizou esse antissemitismo — com que Vitória não concordava — como traço tipicamente alemão. Vitória não se deteve no assunto. Admitiu duas vezes a Lord Melbourne que, ao se apaixonar, tinha
virado uma verdadeira pateta.30 Mas, ainda que a jovem rainha admirasse o físico atlético de Albert — principalmente quando usava calças justas brancas “sem nada por baixo” —, era seu intelecto polímata sempre ativo que conquistaria a estima de muitas gerações por aquele circunspecto
príncipe alemão que gostava de se deitar cedo.31
Albert era um menino curioso: depois de soltar seus primeiros berros ao
nascer, “olhou em volta de si, como um esquilo”.32 Quando criança, tinha opiniões claras e seguras; na adolescência, conheceu o papa Gregório XVI e conversaram em italiano sobre artes. Montou um museu de história natural com o irmão, escrevia poemas, compunha música e certa vez angariou doações para uma família pobre de seu povoado, que perdera a casa num incêndio. Aos onze anos, escreveu em seu diário: “Pretendo me formar para ser um homem bom e prestativo”. Desde cedo, adotava instintivamente um código de honra: quando menino, brincando com os amigos de soldados da cavalaria, seu grupo atacou uma velha torre em ruínas, onde os garotos do outro grupo estavam escondidos. Um amigo propôs que se esgueirassem por trás, o que lhes traria uma fácil vitória; Albert foi contra, dizendo que
não seria correto e era algo “muito impróprio num cavaleiro saxão”.33
Embora brincalhão e com talento para a mímica, Albert também era delicado, ainda aos quatro anos pedindo que o carregassem no colo para subir as escadas. O menino loiro com traços de querubim se cansava com facilidade, e às vezes, adormecendo à mesa, escorregava e caía da cadeira. A mãe, princesa Louise, tinha adoração por ele, e considerava o filho “magnífico, uma beleza extraordinária, com grandes olhos azuis… e sempre
alegre”.34 Albert herdou a jovialidade, a sensatez e a sabedoria da mãe, mas nunca a conheceu realmente. Seu pai, o duque Ernst de Saxe-Coburgo-Gota, era um mulherengo notório, descaradamente infiel à alegre esposa — que o
chamava de “senhor”.35 Então, quando a princesa passou a ter seus próprios flertes, e começou a dedicar muito tempo a um cavalariço quatro anos mais novo do que ela, o duque a acusou de conduta igualmente imoral. Expulsou-a num acesso de raiva e conservou a guarda integral dos filhos.
Louise, que então tinha apenas 23 anos, ficou destroçada. Os filhos, com cinco e seis anos, estavam com tosse na noite em que a mãe partiu;
pensaram que ela estava chorando por estarem doentes.36 Louise ansiava por vê-los e certa vez se disfarçou de camponesa, passando despercebida numa festa local comemorando as colheitas, para poder contemplá-los à
distância.37 O duque Ernst nunca lhe enviou nenhuma notícia dos meninos, apesar de seus reiterados pedidos, e interceptou cruelmente as cartas que ela
enviava.38
Albert se parecia muito com a mãe, não com o pai nem com o irmão, fato esse que levou alguns a sugerirem que não era filho do duque Ernst —
boatos esses infundados.39 De vez em quando, a imprensa ventilava boatos alimentados por antissemitas, alegando que o verdadeiro pai de Albert era um barão judeu, o camarista-mor da corte. Já as suspeitas do duque Ernst recaíam sobre um amigo de infância, Alexander Graf zu Solms. Como castigo, ele mandou Louise de volta para a casa da família por algum tempo, exilou Solms e conduziu um inquérito oficial espúrio que se arrastou por anos. Num claro exemplo de uso flagrante de dois pesos e duas medidas, Louise foi acusada de muitos casos escandalosos inventados e foi
chamada de meretriz e “pecadorazinha sem vergonha”.40 O biógrafo Hector Bolitho examinou os papéis de divórcio nos arquivos do duque de Saxe-Coburgo e descobriu que “não havia nos documentos nem sequer um indício de que a duquesa tivesse sido infiel, fosse com judeus ou cristãos, pelo menos por quatro anos após o nascimento do príncipe Albert; ele já estava na escola quando a mãe se divorciou, em 1826. Sete meses depois,
ela se casou com Alexander von Hanstein, citado nas atas como corréu”.41 Louise foi tratada com extrema injustiça, em vista da própria conduta do marido. Foi a mulher que foi banida, não o homem, e foram os filhos que sofreram.
Em 1831, a mãe de Albert morreu de câncer de útero em Paris, poucos meses antes das revoltas antimonarquistas descritas por Victor Hugo em Os miseráveis. Tinha apenas trinta anos de idade. Seu desejo foi o de ser sepultada com o segundo marido, o homem que a amara apesar de sua reputação manchada. Albert e Ernest não aceitaram; depois que o pai morreu, em 1846, desenterraram o caixão da mãe, em St. Wendel na Alemanha Ocidental, e o reenterraram na tumba ducal em Coburgo, ao lado
do pai.42 Transferiram novamente os caixões em 1860 para um mausoléu grandioso que construíram especialmente para os pais em Coburgo. Ainda que talvez fosse errado passar por cima dos desejos maternos, os irmãos tentavam alcançar aquilo que lhes escapara quando os pais estavam vivos — uma família unida. Até o final da vida, Albert teve horror visceral à infidelidade, conduta essa que dilacerara sua família e lhe tirara a mãe. Albert sempre falou de Louise “com ternura e pesar” e sentia-se torturado
com os relatos da dolorosa doença materna.43 Num gesto de reveladora doçura, um dos primeiros presentes que ele deu a Vitória foi um pequeno alfinete de turquesa que pertencera à mãe. A determinação de Albert em ser fiel era tão entranhada que nunca se mostrou difícil para ele; criou um casulo em que Vitória sempre se sentiu em segurança. Ambos tinham perdido um dos genitores em tenra idade e, embora Albert não tivesse conflitos com o pai como Vitória tinha com a mãe, os dois ansiavam por uma vida doméstica idílica com que haviam sonhado na infância.
Vitória se sentou diante do Conselho Privado em 23 de novembro de 1839, usando um vestido matinal simples. Trazia no pulso um bracelete do qual pendia uma minúscula efígie de Albert. Oitenta e três pares do reino estavam num salão no andar térreo do Palácio de Buckingham, fitando-a com expectativa. Vitória se sentia levemente adoentada. Abaixou a cabeça, tentou controlar o tremor das mãos e leu em voz alta uma declaração que Melbourne redigira na noite anterior:
Fiz com que fossem convocados neste momento para poder lhes dar a conhecer minha resolução
num assunto que afeta profundamente o bem-estar de meu povo e a felicidade de minha vida
futura. Tenho a intenção de contrair casamento com o príncipe Albert de Saxe-Coburgo-Gota.
Grandemente impressionada com a solenidade do compromisso que estou prestes a assumir,
cheguei a essa decisão não sem madura consideração e não sem sentir grande segurança de que,
com a bênção de Deus Todo-Poderoso, ela trará minha felicidade doméstica e, ao mesmo tempo,
servirá aos interesses de meu país. Julguei adequado dar-lhes ciência dessa resolução o mais cedo
possível, para que fiquem plenamente informados de um assunto de tão alta importância para mim
e para meu reino, e que creio será muito bem-vinda por todos os meus afetuosos súditos.
Então Vitória se retirou tão logo a polidez permitia, deixando atrás de si um Lord Melbourne lacrimejante. No dia seguinte, ela ainda continuava a tremer. Numa carta a Albert, que voltara à Alemanha duas semanas antes, comentou que ter que anunciar a estranhos essa notícia tão íntima foi “um
momento terrível”. 44
Terminada a reunião, a duquesa de Gloucester — antes princesa Mary — perguntou-lhe se ficara nervosa. “Fiquei”, respondeu Vitória. “Mas pouco
tempo atrás fiz uma coisa que me deixou muito mais nervosa.” 45
“O que foi?”, perguntou a duquesa.
“Pedi o príncipe Albert em casamento.”
A notícia foi recebida com entusiasmo moderado. Albert foi tido como escolha razoável. Os críticos frisavam que ele era jovem, inexperiente e pobre, enquanto outros falavam bem de suas habilidades poéticas e musicais. O público tinha muitas perguntas sobre o noivo da rainha. Além da curiosidade superficial, muitos queriam saber o grau de poder que lhe caberia, quanto receberia e o que se poderia fazer para garantir que um príncipe estrangeiro não exercesse demasiada influência sobre a rainha.
The Spectator foi depreciativo. O marido de uma grande rainha britânica, escreveu o articulista, certamente não teria virilidade alguma:
Um fantoche dourado, que não pode realizar nenhuma ação condizente com o nascimento elevado
e a alta posição; que não pode empreender nenhuma atividade digna de um guerreiro ou de um
estadista; cuja importância inteira é um reflexo; e que não pode professar nenhuma opinião
(exceto, talvez, sobre uma peça de roupa, um móvel ou um cavalo), mesmo que o destino e o
caráter da esposa estejam em jogo, sem violar a Constituição do país que o adotou!46
Historicamente, maridos de rainhas nunca foram muito amados na Inglaterra. E fracassaram estrondosamente em procriar com as esposas. Filipe II da Espanha não tinha nenhum afeto especial pela rainha Maria I, a filha católica de Henrique VIII, de cabelo ruivo-alaranjado, que executou mais de 280 protestantes e ficou conhecida com Maria Sanguinária [Bloody Mary]. Foi um casamento por conveniência política e reinaram juntos, embora Filipe não pudesse tomar decisões sem o consentimento da esposa e seu reinado tenha terminado com a morte da rainha. Maria, que tinha 38 anos ao se casarem, não teve filhos e morreu aos 42.
A rainha protestante Maria II, quando soube que teria que se casar com seu primo holandês Guilherme III, chorou durante dois dias. Veio a gostar dele, mas também não tiveram filhos. Após a invasão da Inglaterra, os dois pediram a regência conjunta por motivos práticos: as pretensões de Maria ao trono eram mais sólidas, mas Guilherme III tinha força por causa de seu protestantismo, após a Revolução Gloriosa e a derrubada do pai católico de Maria, Jaime II. Reinaram juntos de 1689 a 1694; Guilherme III reinou sozinho após a morte prematura da esposa, aos 32 anos. Anne, a irmã mais nova de Maria II, que foi rainha da Grã-Bretanha de 1702 a 1714, era devotada ao marido, príncipe George da Dinamarca, mas foi um tormento tentar criar os filhos. Obesa e manca devido à gota, ficou grávida dezessete vezes, tendo sofrido doze abortos espontâneos. Quatro dos cinco filhos restantes morreram antes de completar dois anos de idade, e o último deles morreu aos onze. No caso de Vitória, não havia nenhuma razão evidente para uma monarquia dual — ela era estimada e tinha idade suficiente para reinar sozinha —, sobretudo sendo Albert um príncipe estrangeiro.
Por trás de grande parte da insatisfação com Albert havia certos preconceitos latentes: contra os alemães e contra casamentos entre primos. Esse hábito era comum na época entre os círculos burgueses e muitas vezes
era incentivado nas famílias aristocráticas, para manter a família unida. 47 Em 1874, George Darwin escreveu a seu pai, Charles, citando estatísticas do cartório de registros gerais que mostravam que os casamentos entre primos eram “pelo menos três vezes mais frequentes em nosso nível do que
nos mais baixos!”.48 Era especialmente frequente entre os grandes clãs familiares, como os Darwin-Wedgwood, com cerca de 10% de casamentos
entre primos de primeiro ou segundo grau.49 Primos casados estavam em seleta companhia, incluindo a escritora Margaret Oliphant, as filhas de Thackeray, Elizabeth Gaskell, o poeta laureado Robert Southey, a tia de Anthony Trollope, os pais de Lewis Carroll e John Ruskin. Havia casamentos entre primos nos romances de Dickens, Emily Brontë, Thomas Hardy, Thackeray e Trollope. Mesmo personagens de livros infantis se apaixonavam por primos ou primas: “Quando Benjamin Bunny cresceu”,
escrevia Beatrix Potter, “casou-se com a prima Flopsy. 50 Tiveram muitos filhos e foram muito alegres e felizes.”
No livro Fertilisation of Orchids [A fertilização das orquídeas], publicado em 1862, Charles Darwin criticou a “autofertilização contínua” e sugeriu que o casamento entre parentes próximos era “de certa maneira igualmente
prejudicial”.51 Durante quatro décadas, ele tivera problemas com uma série de enfermidades misteriosas que lhe provocavam tonturas, náuseas, inchaços, exaustão, nervosismo, fraqueza e depressão. Darwin passou muitos desses sintomas para os filhos e se preocupava com a hereditariedade; até que ponto tudo isso derivava do fato de seus pais serem
primos e ele mesmo ter se casado com uma prima?52 Após um debate cada vez mais acalorado nos meados do século, seu filho George resolveu investigar se a endogamia era prejudicial e começou a reunir dados com o auxílio do pai. (Florence Nightingale levantara preocupações semelhantes; escreveu em 1852 que “o casamento entre parentes é uma contravenção aberta das leis da natureza para o bem-estar da espécie; prova disso são os quacres, os nobres espanhóis, as estirpes reais, os vales isolados de países montanhosos, onde a loucura, a degeneração da espécie, os defeitos físicos
e o cretinismo florescem e se multiplicam”.)53
Os Darwin não encontraram provas que corroborassem a crença de que a consanguinidade provocava cegueira ou surdez; apenas um baixo percentual dos ocupantes de manicômios era de filhos de primos (3% a 4%). A única descoberta inquietante foi que uma pequena porcentagem das equipes de remo de Oxford e Cambridge era de filhos de primos. Todavia, refletindo o preconceito da época, George Darwin concluiu que o casamento entre primos na aristocracia e na burguesia apresentava poucos riscos, ao passo que, entre os pobres, os riscos eram maiores. Mas, no final da época vitoriana, a despeito do feliz casamento entre Vitória e Albert, a maioria das pessoas condenava a prática. A essa altura, a medicina era unanimemente
contrária.54 Os estudos modernos demonstraram que os filhos de casais de primos têm maior risco de apresentarem defeitos cognitivos e incapacidades físicas e intelectuais, bem como maior índice de natimortos.
Mas a questão mais séria era, talvez, a herança germânica de Albert. As objeções mais fortes de Lord Melbourne se referiam ao casamento com alemães — os quais, dizia ele, nunca lavavam o rosto e fumavam demais —, mais do que ao casamento entre primos. Na metade do século XIX, a Alemanha era desdenhada como terra selvagem e atrasada, mesmo sendo um concorrido destino turístico. O autor Henry Mayhew disse em 1864 que os alemães eram um povo pouco civilizado, “esfomeado, bajulador,
gabola”, que vivia “num estado repugnante de desleixo e sujeira”. 55 Naquela época, a Alemanha consistia num grupo de estados reunidos numa federação bastante frouxa, formada após as Guerras Napoleônicas, sob a pressão de reformadores que queriam um país unificado, com eleições populares e um único imperador. Muito longe de serem campônios imundos, os intelectuais, compositores e poetas alemães mais refinados e sofisticados da época vitoriana começavam a se infiltrar nos círculos intelectuais britânicos. No século XIX, embora persistisse a hostilidade em relação à França, a grande inimiga das Guerras Napoleônicas, houve um forte ressurgimento do interesse pela filosofia, pela literatura e pelo pensamento alemães, liderado por madame de Staël, e, mais tarde, por escritores como Thomas e Matthew Arnold, Dickens, Goethe, Carlyle,
Coleridge e George Eliot.56 O sentimento antigermânico decorria, em parte, da ideia de que cônjuges e consortes alemães tinham uma influência insidiosa na monarquia: entre 1714 e 1901, todos os monarcas britânicos se casaram com alemães. Vitória, que era meio-alemã, seguiu alegremente a tradição.
O maior problema para Vitória, porém, não era o país de Albert e sim o Deus a quem rezava. A rainha da Inglaterra podia se casar com quem quisesse, mas não com um católico. Depois que o rei pró-católico Jaime II foi expulso do trono na Revolução Gloriosa de 1688 e substituído pelo protestante Guilherme III, foi aprovada uma lei proibindo os monarcas ingleses de seguirem o catolicismo ou de se casarem com católicos. Ainda hoje é assim. Albert era luterano estrito com profunda fé pessoal, mas na família predominavam os católicos. O discurso de Vitória ao Conselho Privado, que não trazia a palavra “protestante”, despertou suspeitas. Melbourne recomendara excluí-la, o que foi uma tolice, em vista do intenso anticatolicismo no país e da posição crucial de Vitória como Defensora da Fé. Depois que o duque de Wellington levantou o tema no Parlamento e a imprensa tory fez comentários mordazes, o termo foi reinserido na versão oficial. De volta à Alemanha para se preparar para o casamento, Albert redigiu uma genealogia detalhada, provando suas irrepreensíveis credenciais religiosas. Martinho Lutero, afinal, compusera salmos em Coburgo.
Seguiram-se outras dificuldades enquanto Vitória tentava obter posição e dinheiro para o bem-amado. A votação sobre o rendimento anual de Albert foi humilhante. Melbourne propusera 50 mil libras anuais, o mesmo dos consortes anteriores. Os tories deram voto enfaticamente contrário e sua renda foi estabelecida em 30 mil libras. Albert, aborrecido e embaraçado, censurou Vitória por não lhe dizer sequer uma palavra em solidariedade, “pois aqueles amáveis tories cortaram minha renda pela metade (o que era
de se esperar), e isso me deixa numa posição não muito agradável.57 Seria difícil imaginar que alguém pudesse se comportar de maneira tão mesquinha e infame como eles se conduziram em relação a você e a mim. Isso não vai lhes valer grande coisa, pois ficará difícil manter por mais tempo qualquer respeito por eles”. Vitória prometeu: “Enquanto eu viver, nunca perdoarei aqueles salafrários infernais com Peel — vil patife — à
frente”.58
A seguir, vinha a questão da precedência. Vitória queria que Albert ficasse logo depois dela na hierarquia oficial do país, o que significava que ele a acompanharia logo atrás nas procissões oficiais, mas os tios de Vitória e os líderes tories protestaram. Vitória ficou furiosa, mais uma vez: “Pobre Albert querido, como estão destratando cruelmente aquele caríssimo anjo!
Monstros! Vocês tories serão punidos. 59 Vingança, vingança!”. Pôs a culpa no duque de Wellington, que esbravejara contra a religião de Albert no Parlamento e não dera apoio à proposta de um rendimento maior. Melbourne teve que empregar uma dose considerável de persuasão para lhe conseguir um convite para o casamento. Mesmo assim, Vitória permitiu que ele comparecesse apenas à cerimônia, e não ao banquete nupcial.
Albert era introvertido e não tinha costume de expressar suas emoções. Mais tarde, naquele mesmo ano, reconheceu a Vitória: “Que pena. Sou normalmente de natureza bastante fria, e é preciso um apelo muito forte
para me emocionar”.60
Mas escreveu muitas cartas à noiva com declarações de amor, tentando
bravamente corresponder ao ardor dela.61 Em 30 de novembro, escreveu de Coburgo uma carta especialmente longa e cheia de devaneios:
Vitória bem-amada, anseio em falar com você; de outra forma, a separação é penosa demais. Sua
querida imagem está em minha mesa, à minha frente, e quase nem consigo tirar os olhos dela…
Que delícia que será percorrer toda a minha vida, com suas alegrias e tristezas, com você a meu
lado!… Meu amor por você enche todo o meu coração… De vez em quando pense com amor em
seu Albert, cujo coração bate sincera e honestamente por você, e cujo mais caro desejo é que seu
amor possa continuar… Mil beijos. Deus a abençoe!62
Albert se afligia quando as cartas de Vitória levavam nove dias para chegar, devido aos serviços irregulares do correio. Seu amor era genuíno.
Mas às vezes, depois dessas doces efusões, vinham palavras secas e sucintas. Quando se tratava de assuntos da corte, Albert procurava afirmar sua vontade, sobretudo em relação aos homens que formariam sua Casa
Real.63 Tinha a disposição ferrenha de que não fossem simplesmente whigs, o partido a que se aliava a futura esposa, e sim homens de respeito, posição e inteligência. “Se é para eu me manter realmente independente de todos os partidos”, escreveu ele, “meu pessoal não pode pertencer apenas a um lado… acima de tudo, o que quero é que sejam homens de boa educação e caráter elevado.” Não lhe agradou a sugestão de tomar o secretário particular de Lord Melbourne como seu administrador financeiro: “Pessoalmente nada sei a respeito do sr. George Anson, afora a vez em que
o vi dançar uma quadrilha”.64 Albert fez uma campanha durante semanas insistindo que Vitória permitisse a ele, que afinal estava deixando seu lar e sua terra natal, escolher pelo menos os homens que constituiriam seu
círculo mais próximo.65 Certamente era mais importante agradar a Albert
do que ao sr. Anson, ou não?66 Albert foi categórico:
Esgotei todos os meus argumentos sobre esse ponto e escrevi até ficar quase cego para fazê-la
entender como tudo isso é desagradável para mim. Foi o primeiro e único pedido em que apelei ao
seu amor, e não quero fazer um segundo; mas declaro com toda a serenidade que não aceitarei por
ora o sr. Anson nem ninguém mais.
Mas Vitória e Melbourne acabaram se impondo. O sr. Anson foi nomeado. A única concessão foi que Anson teve que deixar a equipe de Melbourne. Não demoraria muito, Anson e Albert iriam rir desse episódio, pois se tornaram bons amigos. Foi um dos poucos episódios, ou talvez o único, em que Albert mais tarde ficou contente em não prevalecer. Mas seus instintos originais estavam corretos e ele tinha razão em insistir que a Coroa se colocasse acima da política. Guilherme IV fora tory, Vitória era whig declarada, mas Albert teve pulso firme e acabou por conduzi-la à posição de que o apartidarismo era essencial para um soberano. Esse seu êxito ajudou a preservar a Coroa da revolução.
As cartas iniciais de Albert mostram que estava confiante e decidido a se fazer ouvir e respeitar. Manifestava calmamente seu desagrado em receber ordens ou ser desatendido, e então soprava mil beijinhos para Vitória. Ao discutir com a noiva a sugestão de ter alguém para cuidar de suas finanças, ele foi claro sobre a perspectiva da dependência financeira. “Como marido da rainha”, escreveu no começo de janeiro de 1840, “estarei numa posição dependente, mais dependente do que a de qualquer outro marido, em minhas condições domésticas. Minha fortuna pessoal é a única coisa que me resta da qual posso dispor. Assim, não estou sendo injusto ao solicitar que o que me pertence desde que atingi a maioridade quase um ano atrás (e que de fato cabe a qualquer homem adulto) fique sob meu controle.” Concluía essa carta muito firme dizendo: “Com um ardoroso amor por você, seu fiel
Albert”.67 Disse a Vitória que não confundisse negócios e assuntos pessoais, e que divergências não significavam “uma diminuição de meu amor por você, o qual nada pode abalar”.
Uma das grandes certezas de Vitória era que Albert não podia passar a impressão de exercer qualquer influência indevida sobre ela nem de ter qualquer poder independente. Leopoldo incentivara Albert a solicitar assento na Câmara dos Lordes, mas Vitória recusou. O que ela queria para o marido era o nível de realeza: perguntou a Melbourne se havia alguma possibilidade de Albert se tornar rei. O primeiro-ministro disse que não, que a monarca era ela e ele era consorte, para “apoio e assistência” em tempos difíceis. Assim, o problema de Vitória era como reconciliar o papel de esposa e o de rainha poderosa. Resistir ao papel tradicional de esposa submissa pelo menos nas aparências seria algo inédito e penoso.
Um mês e meio antes do casamento, em 29 de dezembro de 1839, Melbourne escreveu uma carta a Albert, por sugestão de Vitória, dando as diretrizes. Primeiro, era fundamental que Albert e Vitória mostrassem concordância em todos os assuntos. Segundo, ele não devia se envolver em política: “Será absolutamente necessário que Vossa Alteza seja considerado apoiador e defensor da política adotada pelo governo atual da rainha”. Terceiro, devia escolher para seu palácio homens geralmente simpáticos ao governo. Albert ficou irritado. Escreveu a Vitória: “Espero que Lord Melbourne não pense que queremos levar uma vida de atritos e dissensões em vez de amor e unidade; não se podem ditar as opiniões de uma pessoa, pois uma opinião é fruto de reflexão e convicção, e você não respeitaria um marido que nunca formasse uma opinião enquanto você não formasse a sua,
e cujas opiniões fossem sempre iguais às suas”. 68 Albert não ia ser um marido decorativo. Vitória sempre o adorou, e tiveram um casamento feliz. Mas o que ela não comentava, a não ser com a filha mais velha após a morte de Albert, eram os conflitos e dificuldades do casamento, o preço que custou, quanto ela teve que se empenhar para dar certo. O nó do problema era que ambos amavam o poder: Vitória, pela liberdade que lhe trazia, como mulher vivendo num século em que a maioria das mulheres não a tinha; Albert, pela possibilidade que lhe dava de liderar, influenciar e realizar mudanças.
Enquanto tentava ficar imóvel numa sessão de provas e ajustes em seu vestido branco de noiva, todo rendado, Vitória percorria mentalmente as listas de tarefas a cumprir para o casamento. Não podia se esquecer de dizer a Albert — pensou enquanto a costureira ajustava as barbatanas de marfim em seu corpo agora esguio — que não barbeasse o rosto para a cerimônia. Se havia alguma coisa em que ela insistiria, seria que ele mantivesse o bigode fino que usava quando se encontraram. Ficou tão impressionada com ele que comentou com Lord Melbourne que toda a cavalaria devia deixar crescer um bigode igual, ao que Melbourne “não viu nenhuma
objeção”.69 Vitória queria que fizesse parte do uniforme oficial. A imagem é engraçada: filas de homens em uniforme a cavalo, todos com bigodes finos idênticos, por causa de uma jovem rainha apaixonada. Só de pensar em Albert, Vitória quase saía do sério; sentia vertigens à ideia de toda aquela pompa, alvoroço e escrutínio do dia de seu casamento.
Nos dias que antecederam as bodas, Vitória estava preocupada com a luta que teria para que o Parlamento e principalmente os tories entendessem que Albert, como seu marido, devia ser reconhecido como o homem mais importante em seu reino — muito respeitado e bem remunerado. Sua prece no Ano-Novo de 1840 foi simples: “Livrai-nos dos tories, Senhor
amado”.70 O antagonismo de Vitória contra os tories também afetaria Albert. O noivo estava decidido a esvaziar a influência de Melbourne: faria o primeiro-ministro sofrer pelos tolos erros de Vitória em seu primeiro ano como rainha. Albert não queria ser apenas bom; queria ser grande.