Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 2 de 44

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Vitória, a rainha

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Introdução

 

Sente-se que a rainha é uma mulher pela qual vale a pena viver e morrer.

Emily Tennyson1

 

Uma megerazinha.

Reverendo Archer Cliver2

 

Estava pronta.

Mas, ao se sentar pela primeira vez no trono, os pés de Vitória não alcançavam o chão. Sob as imponentes arcadas da Abadia de Westminster, ela não passava de um pontinho, ardendo sob os olhares curiosos da multidão ali reunida, controlando-se para não balançar as pernas. Milhares de pessoas se apinharam nas ruas de Londres antes do amanhecer, na esperança de conseguir um lugar de onde pudessem enxergar a nova rainha da Grã-Bretanha, que acabava de completar dezoito anos e não chegava a um metro e meio de altura. Os reis anteriores tinham sido devassos, mulherengos, loucos ou usuários de ópio. O país estava apaixonado pela “bela rosa branca da perfeita feminilidade”, a nova dirigente, a pequenina adolescente sentada pouco à vontade numa grande abadia decorada com tecidos dourados e tapetes exóticos, enquanto a aristocracia recoberta de

diamantes mantinha os olhos fixos nela.3

Vitória sentia a cabeça doer sob o peso da coroa e sua mão latejava — haviam posto o anel de rubi da coroação no dedo errado; mais tarde, tiveram de usar gelo para removê-lo. Ao redor dela estavam seus conselheiros mais antigos, que se encontravam num estado lastimável. O primeiro-ministro estava grogue de ópio e conhaque, supostamente ingeridos para acalmar o estômago, e assistiu à cerimônia inteira fora de si. O arcebispo, não tendo ensaiado antes, atrapalhou-se na fala. Um dos lordes, ao se aproximar para beijar a mão da rainha, tropeçou e caiu nos degraus. Mas Vitória manteve a mais perfeita compostura. Sua voz saiu serena, firme e cristalina. Antigamente, ficava apavorada com a ideia de se tornar rainha, mas, ao crescer, queria trabalhar, ser independente e ter controle sobre a própria vida. Seu maior sonho era dormir sozinha, num quarto seu, libertando-se da presença sufocante da mãe. Os adolescentes geralmente recebem uma mesada; ela recebeu um reino.

Poucos apostariam que Vitória se tornaria a rainha das Ilhas Britânicas. Afinal, seu pai não era o primogênito e sim o quarto filho do rei. Como tantas vezes ocorre com o poder hereditário, foi só por causa de uma sucessão de tragédias familiares — as mortes, além das de recém-nascidos, de uma mulher durante o parto e de dois robustos tios, sem contar a sorte que teve seu pai militar, quando conseguiu escapar da morte às mãos de soldados amotinados e, já na meia-idade, mesmo sendo um príncipe quase falido, persuadiu a mãe de Vitória a se casar com ele — que, em 20 de junho de 1837, o destino de uma nação deu uma reviravolta e se deteve no corpo miúdo de uma mocinha de dezoito anos. Uma mocinha que lia Charles Dickens, preocupava-se com o bem-estar dos ciganos, adorava animais, gostava de cantar ópera, era fascinada por domadores de leões e detestava insetos e sopa de tartaruga; uma mocinha que, mesmo submetida a intimidações dos mais próximos, desenvolveu uma determinação de aço; uma mocinha de coração formado por um sólido entrelaçamento de emoção e estoicismo.

Não tinha sido fácil. Antes de completar um ano de idade, Vitória perdeu o pai. Antes de chegar aos dezoito, afastara-se da mãe. A coroa quase lhe escapou das mãos diversas vezes; tentaram arrancar-lhe a sucessão durante anos a fio. Ela precisara recorrer a toda a firmeza inata de seu caráter e cultivara uma força tenaz. Mas a menininha que fincava o pé, a garota que batia a tampa do piano, a adolescente que obrigava seus atormentadores a abaixar os olhos agora era rainha. A primeira coisa que ela fez, voltando da coroação para casa, foi dar um banho quente e cheio de espuma em seu cachorro, rindo enquanto ele se sacudia e lhe respingava sabão no rosto e nas roupas.

 

Hoje em dia esquecemos por quanto tempo Vitória reinou sozinha. Pode ter se casado com Albert dois anos após a coroação, mas, depois da morte do marido, ela reinou por si só durante 39 anos. No entanto, pouco sabemos sobre esse período. Isso se deve, em larga medida, à enorme e constante manifestação de sua dor. Ao andarmos pelas ruas de Londres, a cidade nos relembra que Vitória pranteou clamorosamente o finado por muito tempo. Desde então, ficou claro para todos que ela amava o marido alemão intensamente: um amor súbito que a tomou de surpresa e durou até sua morte. Duas décadas após o falecimento de Albert, ela ainda continuava a erguer monumentos — em Hyde Park, sua estátua musculosa se projeta no céu, com pernas douradas robustas, cercado por anjos e pelas Virtudes, como um deus. Vitória nunca se recuperou por completo e mais tarde, quando encontrou felicidade na companhia de outro homem, consultou um sacerdote, tomada de sentimento de culpa.

Todavia, a grande dor de Vitória gerou quase imediatamente um mito no qual muitos ainda acreditam: que ela abdicou de quase toda a sua autoridade e seu poder, transferindo-os para seu habilidoso marido em vida, e que deixara de reinar após a morte dele. Quando foi coroada, as pessoas ficaram surpresas que Vitória pensasse com clareza e falasse sem tropeços. Quando se casou, convenceram-se de que ela havia cedido todas as decisões importantes a Albert. Quando ele morreu, ela ficou reduzida a uma viúva pesarosa e distante. Tudo isso está equivocado. A rainha Vitória era uma dirigente decidida, que reclamava do peso de suas tarefas ao mesmo tempo que mandava sem parar em seus primeiros-ministros. “A rainha, por si só”, disse o primeiro-ministro Gladstone, “é o suficiente para matar qualquer homem.” Mesmo assim, nossa geração, nisso bastante parecida com a geração vitoriana, parece não entender como uma mulher dessas podia exercer o poder com gosto e competência. Essa incompreensão se deve em parte à pura e simples dificuldade de atravessar as várias camadas de lendas e hipérboles para chegar à verdadeira Vitória.

 

Para entendermos de forma clara essa tarefa, precisamos voltar a 10 de maio de 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial. Foi o dia em que Adolf Hitler estendeu sua ditadura por tempo indeterminado, os soldados americanos se preparavam para expulsar o Japão das ilhas do Alasca e Winston Churchill chegava a Washington para uma reunião crucial com Franklin D. Roosevelt, um dia antes de os países do Eixo se renderem aos Aliados na África do Norte. Beatrice, filha de Vitória, com 86 anos, estava sentada em sua casa em Sussex, na Inglaterra, tremendo. Décadas antes, ficara incumbida da infeliz tarefa de editar os volumosos diários da rainha. Foi o que ela fez durante dez anos, transcrevendo-os à mão em cadernos azuis e queimando os originais, num dos maiores atos de censura histórica do século. Agora era uma senhora idosa que se dedicava a traduzir os arquivos da família, para se distrair das “ansiedades” da guerra. Nesse dia, ela pegou um papel de correspondência para escrever uma carta suplicante — nunca antes publicada — a seu sobrinho-neto, o rei Jorge VI, pai da rainha Elizabeth II. Ficara estarrecida com a última remessa dos materiais de arquivo. Tratando-o de “Bertie”, ela escreveu:

 

Acabei de receber do bibliotecário um livro com breves cartas de meu pai para minha mãe, em

inglês e em alemão, mas de natureza tão íntima, tratando de briguinhas pessoais passageiras, que

não conseguirei lidar com elas. Havia também anotações sobre os vários resguardos de minha mãe.

Esses papéis não têm absolutamente nenhum valor histórico ou biográfico e, se fossem vistos, só

poderiam ser mal interpretados em prejuízo da memória dela. Talvez você não saiba que fiquei

como executora da biblioteca de minha mãe. Como tal, sinto que devo recorrer [a você] para me

autorizar a destruir qualquer carta penosa. Sou sua única filha viva e sinto que tenho o dever

sagrado de proteger sua memória. Como essas cartas chegaram a ser… mantidas nos arquivos, não

consigo entender.4

O bibliotecário do Castelo de Windsor, Owen Morshead, desculpou-se com Sir Alan Lascelles, guardião dos Arquivos Reais, por ter enviado inadvertidamente “material perigoso” (“Sei que o príncipe e a rainha nem sempre concordavam durante os primeiros anos do casamento”, escreveu ele de maneira muito prosaica, “mas não suspeitei de qualquer revelação

nesse volume específico”). 5 O livro foi devolvido a Beatrice, que o queimou rapidamente.

No ano seguinte, 1944, Beatrice morreu. O que não lhe haviam contado era que, antes de lhe devolverem o livro de documentos, alguém fotografara o material e guardara cuidadosamente numa seção dos Arquivos Reais. Continuam guardados lá, ordenados numa caixinha branca, amarrada com uma fita. Não se sabe como isso aconteceu. Foi o bibliotecário que se rebelou contra as ordens? Ou foi o rei que mandou que acatassem a vontade da velha senhora, mas preservassem as provas dos conflitos conjugais da bisavó? Sabemos que Jorge V e a rainha Maria tinham ficado contrariados ao ver Beatrice destruindo os papéis particulares da mãe e expurgando os registros remanescentes. Como ainda existem alguns relances do diário original de Vitória na obra de Theodore Martin, a quem ela encarregara de escrever uma biografia de Albert, fica claro que Beatrice, ao reescrever o

material, tornara a mãe mais dócil, menos emotiva e mais sensata.6

Os editores das cartas de Vitória também desvirtuaram os registros históricos. Como Yvonne Ward tão bem demonstrou, Arthur Benson e Lord Esher, os dois homens incumbidos da tarefa de selecionar e editar a correspondência de Vitória, apresentaram uma versão distorcida da rainha. Houve cortes óbvios — a eliminação de alguma crítica ácida demais aos franceses ou aos filhos, ou a retirada de termos “vulgares” para purificar sua linguagem —, mas:

 

conhecimentos e opiniões especialmente afiados e concisos da rainha foram amenizados para que

ela ficasse parecendo feminina e inocente. Sua correspondência com outras mulheres foi omitida

para evitar trivialidades. Sua correspondência europeia foi reduzida para atenuar qualquer

impressão de alguma influência estrangeira sobre ela.7

Cortaram todas as palavras que pudessem sugerir que Vitória era “excessivamente categórica, pouco feminina ou ofensiva”, bem como

politicamente tendenciosa. 8 Pior ainda, a maioria das cartas nos quatro volumes oficiais foi escrita por homens; apenas quatro de cada dez cartas

são da rainha.9 Benson e Esher também eliminaram muitas das cartas destinadas a outras mulheres e as menções aos filhos, de forma que as amizades femininas de Vitória foram removidas e suas confidências maternas desapareceram.

As reproduções dos documentos destruídos por Beatrice durante a Segunda Guerra Mundial — que são citadas neste livro — são raras preciosidades que permitem vislumbrar o relacionamento íntimo entre Vitória e Albert, em que ele a chamava de “criança” e ditava seu comportamento. Mas essa correspondência também mostra a extrema dificuldade de se tentar captar os pensamentos e sentimentos de uma rainha cujas palavras foram adulteradas, reescritas, cortadas, ocultadas e destruídas. Calcula-se por baixo que Vitória escreveu 2500 palavras por dia

durante seu reinado, num total aproximado de 60 milhões de palavras.10 Mas boa parte desse material foi suavizada, encoberta ou eliminada. A família queimou uma quantidade incalculável, principalmente toda e qualquer correspondência relacionada com seu amigo íntimo escocês John Brown, seu criado indiano Abdul Karim e o episódio mais vergonhoso do início de seu reinado — a pressão sobre Lady Flora Hastings.

A rainha Vitória continua soterrada sob uma montanha de mitos, criados por observadores, bajuladores, monarquistas, republicanos e por ela mesma, e desde então encorajados pela família real. Mitos como: quando Albert morreu, ela morreu também. Que detestava os filhos. Que era uma rainha bem-comportada, impecavelmente constitucionalista. Que não gostava do poder, faltava-lhe ambição, amava apenas a vida doméstica. Que era simples produto dos homens que a aconselharam e lhe deram forma, como uma galateia que passou a falar e a andar. E, claro, que seu criado John Brown era apenas um bom amigo. E há também os mitos que ela mesma criou: que Albert era irrepreensível e o casamento era perfeito. Que ele era rei e ela apenas sua humilde sombra. Tudo isso é bobagem.

Oscar Wilde achava que as três grandes personalidades do século XIX eram Napoleão Bonaparte, Victor Hugo e a rainha Vitória. Disse que ela parecia “um rubi montado em azeviche”, imagem mais majestosa do que propriamente lisonjeira. De fato, Vitória era uma grande personalidade. Mas também era cáustica, egoísta, muitas vezes depreciativa, propensa à autopiedade e obstinada. Milhões de pessoas morreram de fome e doenças durante seu reinado, mas ela parecia cega à situação. Era exigente e grosseira com as pessoas de quem não gostava. Desprezava as elites, criticava os membros da Câmara dos Lordes por passarem os dias caçando, bebendo e farreando, desdenhava os membros da sociedade que eram indolentes e amantes do sexo, muitas vezes deixava de apoiar reformas importantes se não gostasse pessoalmente de seus propagadores, e não raro fugia de suas obrigações públicas para se refugiar na paz e na solidão da Escócia.

Vitória tinha clara consciência de seus defeitos. Suas roupas eram tidas como desajeitadas, estava sempre mais gorda do que gostaria e se cercava de beleza por vontade de compensar sua própria falta de beleza. Mas amava com dedicação, era bondosa e sincera, tinha um agudo senso de justiça, desprezava os preconceitos raciais e religiosos, desenvolvia com a criadagem ligações tão fortes que eram consideradas incomuns e até suspeitas. E também sobreviveu a oito tentativas de assassinato. Ao final do reinado, o prestígio da rainha Vitória era fenomenal. Os americanos a nomearam a mulher mais sábia do mundo. Mulheres mais velhas acreditavam que a rainha podia curar doenças com o toque de sua mão, homens idosos diziam que passavam a enxergar melhor depois de uma visita dela, uma mulher afro-americana de 76 anos economizou durante cinquenta anos para fazer a longa viagem dos Estados Unidos e falar alguns minutos com ela.

A rainha nasceu numa época de profundas mudanças. O povoado modorrento que cercava o Palácio de Kensington se transformaria, no final de sua vida, numa metrópole agitada, com chaminés soltando fumaça que bloqueava o sol, casinhas geminadas abarrotadas de gente, com cinco famílias em cada cômodo, rios entupidos de dejetos e água de esgoto, navios cruzando orgulhosamente o mundo para hastear bandeiras britânicas nos continentes estrangeiros. Sublevações iriam abalar a Igreja, a aristocracia e o Parlamento. Durante seu reinado, a Grã-Bretanha atingiria uma grandeza que jamais conhecera antes. Essa rainha viria a governar um quarto da população do mundo, toda uma época seria designada com seu nome, seu perfil severo iria se associar para sempre com um período paradoxal de crescimento, poderio, exploração, pobreza e democracia.

Vitória foi a rainha mais poderosa e a mãe com dupla jornada mais famosa do planeta. Com Vitória submersa há tanto tempo na memória pública em suas sombrias camadas de luto, esquecemos que ela lutou por sua independência, por seu prestígio e pela honra da Coroa desde a adolescência, com grande êxito e, em larga medida, sozinha. Também esquecemos que ela lutou por um Império e por valores em que acreditava, trabalhou até seus últimos dias, aconselhou e debateu com dez primeiros-ministros, povoou as cortes reais da Europa e manteve a estabilidade da monarquia britânica durante as revoltas políticas que abalaram a Europa no século XIX. Esquecemos que ela voltou a amar, que ria com os netos brincando a seus pés, que ajudou a evitar uma guerra com os Estados Unidos, que não perdia a oportunidade de demitir ou consagrar premiês. Esquecemos que todos os movimentos pela ampliação do direito de voto, contra a miséria e contra a escravidão no Império Britânico remontam a seu reinado monumental, ao lado de uma profunda reavaliação da vida familiar e do surgimento da dúvida religiosa. Quando morreu, em 1901, era a monarca com mais tempo no trono em toda a história inglesa, e assim se manteve até 2015, quando sua tataraneta Elizabeth quebrou o recorde.

 

O legado de Vitória foi enorme: um século, um Império, nove filhos, 42 netos. Hoje, na frente do Castelo de Windsor, entre sorveterias e quiosques cheios de souvenirs, ergue-se no meio da rua a estátua de uma mulher corpulenta, séria, olhando acima dos transeuntes para o horizonte. O castelo foi construído no século XI por Guilherme, o Conquistador e passou por reformas sob vários reis, entre eles Carlos II e Jorge IV; Vitória o considerava grande, triste, parecendo uma prisão, mas é ela que o protege

hoje em dia.11 A guardiã desse castelo é uma mãe que protegeu o povo britânico ao se encaminhar com passos firmes para a democracia, num século fermentado de turbulências. É uma mãe que ia atrás do marido de sala em sala enquanto brigavam, esbravejavam e gritavam, e que lutava para reconciliar sua determinação inata com a insegurança que sentia em relação a si mesma. É uma mulher comum, que foi lançada a um papel incomum.

Vitória enfrentou muitas questões que as mulheres enfrentam hoje — lidar com relações desiguais, acalmar o cônjuge zangado, tentar criar bem os filhos, combater crises de insegurança e depressão, passar anos se recuperando dos partos, ter saudades de um amor perdido, apoiar-se na força de outra pessoa quando queremos nos esconder do mundo, tomar decisões sobre nossa própria vida com independência e moldar o mundo em que vivemos. Ela desejou e lutou pelo poder numa época em que as mulheres não tinham poder nenhum. A vida de Vitória é uma história de prestígio incomparável e imenso privilégio, de enfrentamento e desintegração, de intervenção e energia, de devoção e profunda dor e, por fim, de uma vigorosa capacidade de resistência que definiu a mulher pequenina no centro de um Império. É, acima de tudo, uma história de força surpreendente. O que realmente esquecemos hoje é que Vitória é a mulher sob cuja proteção se constituiu o mundo moderno.

 

Julia Baird

Shelley Beach

Outubro de 2015