Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 11 de 44

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Vitória, a rainha

8. Aprendendo a governar

 

Você leva uma vida que não é natural para uma jovem.

É uma vida para homens-feitos.

LORD MELBOURNE1

 

Vitória teve uma queda imediata por Lord Melbourne. Seu primeiro-ministro não tinha esposa e era extremamente atraente: bonito, charmoso, com cabelo escuro revolto e um ar de indiferença simulada. Ela prestava atenção em cada palavra dele, comentava muitas vezes sua bela aparência, principalmente quando estava com o uniforme azul e vermelho de Windsor ou quando o vento lhe despenteava o cabelo, e anotava detalhadamente seus gracejos no diário.

Amava-o “como a um pai”, escreveu ela.2 “Ele tem tantos conhecimentos, uma memória tão maravilhosa, conhece tudo e todos, quem eram e o que fizeram… Isso me faz um bem enorme, e suas conversas sempre aprimoram muito a pessoa.” Ela era uma moça órfã de pai que fora assediada pelo conselheiro da mãe; ele era um viúvo que fora gravemente ferido pela infidelidade escandalosa da esposa e cujo filho único morrera no ano anterior. Gostava de ser requisitado, admirado e prestigiado; ela adorava a afeição e a atenção dele. Como Greville notou com argúcia, os sentimentos de Vitória eram provavelmente “sexuais, embora não soubesse

disso”. Corriam rumores sobre o tempo enorme que passavam juntos.3 “Espero que você se divirta com a notícia do provável casamento de Lord

Melbourne com Vitória”, escreveu a condessa Grey a Thomas Creevey. 4

Vitória tinha confiança absoluta nele, porém nem sempre merecida. Lord Melbourne não tinha perfil de líder e fora reconduzido ao cargo de primeiro-ministro, dois anos antes da ascensão de Vitória ao trono, basicamente porque era o candidato com menor rejeição. Não era um apaixonado por política e não conseguia reunir energia suficiente para se

preocupar com os problemas sociais, muito menos para combatê-los.5 Às vezes, ao receber reformadores que iam defender melhorias como a redução da aplicação da pena de morte ou a implantação do ensino obrigatório, ele ficava tirando penas de um travesseiro, que lançava ao ar e soprava por cima da escrivaninha enquanto os outros falavam. William Lamb, como era seu nome de batismo, era um whig privilegiado, inteligente, formado em Eton, que passara grande parte da vida evitando esforços e conflitos. Por sua atitude despreocupada, era impossível saber que sofrera na vida pessoal uma dolorosa traição e uma perda excruciante. Sua relação com a rainha era muito especial e profunda e o afetava estranhamente. Para entender a razão disso — e como sua carência se equiparava à dela —, é preciso antes entender como a humilhação e a dor da vida pessoal de Melbourne haviam escandalizado a aristocracia londrina e empederniram seu coração.

 

No dia em que Lord Melbourne, então William Lamb, fez seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns, em dezembro de 1806, a pequena figura de um garoto se sentou na galeria pública, ouvindo-o extasiado. Era sua esposa, Caroline Lamb, criatura excêntrica e travessa que vestira as roupas do irmão. Foi conduzida sorrateiramente à galeria — na qual, naquela época, só se admitia a entrada de homens — pelo secretário de outro político whig, Lord Morpeth. Sua sogra ficou furiosa.

Caroline Ponsonby não era considerada especialmente bonita, mas era intensa, inteligente e cheia de disposição. Lord Melbourne ficou encantado e pediu sua mão em casamento quase na primeira oportunidade (depois que o irmão mais velho morreu e ele se tornou herdeiro de um título da nobreza irlandesa e de uma fortuna considerável). Sua família se preocupava com os notórios acessos de raiva e a volubilidade de Caroline, mas Melbourne a amava e eles se casaram em 1805. Foi uma relação tempestuosa, marcada pela tolerância quase inexplicável dele diante do comportamento destrutivo dela. Tiveram só um filho, que era epiléptico e provavelmente autista. O fato de Caroline não poder ter mais filhos era fonte de grande pesar e intensificava um processo de carência emocional já instável. Depois de poucos anos de casamento, William Lamb começou a receber cartas anônimas sobre o adultério da esposa.

O amante mais conhecido de Caroline era o vistoso poeta Lord Byron, adulado por Londres desde que começara a publicar suas aventuras em 1812, em Childe Harold’s Pilgrimage. Caroline leu a obra assim que saiu e, depois de insistir num encontro, disse que ele era, numa frase que se imortalizou, “louco, maldoso e perigoso de se conhecer”. Os dois eram desse jeito, na verdade. Ficaram enfeitiçados um pelo outro, em mútuo reconhecimento e desejo. “Aquele belo rosto pálido”, escreveu ela a

respeito do segundo encontro de ambos, “é meu destino.”6 Tornou-se um dos casos amorosos mais escandalosos e lendários do século; inúmeros escritores usaram as aventuras de Caroline e Byron em personagens fictícios. O casal chocou Londres naquele verão, tão ostensivo e despudorado era o comportamento deles. Byron se sentia lisonjeado pelas atenções da vivaz esposa de um político. Ela estava encantada pela beleza, pela fama e, acima de tudo, pela habilidade literária dele, e com um ardor que, mais tarde, traria sofrimento a ambos. Trocaram uma infinidade de cartas de amor — numa delas, que se encontra numa pasta nos arquivos da British Library, Caroline incluiu um cacho ensanguentado de seus pelos púbicos — e tentaram fugir juntos (ainda há quem acredite que se casaram em segredo).

Depois de quatro ardorosos meses, Byron dispensou a amante. Caroline ficou arrasada e, após um dramático incidente durante um baile, em que cortou os braços com um caco de vidro, foi banida para a propriedade rural

de Brocket, onde ficou sob o regime de uma garrafa de xerez por dia.7 Quebrava os móveis, espatifava a louça, cutucava a criadagem com cabos de vassoura, aparecia seminua em público. Estava frequentemente bêbada e chapada de ópio. Essa vida esgotava Melbourne, que ficou grisalho aos 36 anos. Sua carreira política se afundou, mas ele não largou a esposa nem pediu divórcio.

Há três razões prováveis para a constância de Lord Melbourne: seu amor inabalado por Caroline, sua passividade (na escola, ele se afastava de brigas que sabia que não venceria) e os costumes muito pouco puritanos dos whigs. Nas décadas finais do século XVIII, durante o período de formação de

Melbourne, a fidelidade conjugal não era uma virtude que se exaltasse.8 Os casamentos eram vistos como contratos de convivência com o objetivo de gerar um herdeiro do sexo masculino. A própria mãe de Melbourne, como ele dizia a si mesmo, era “uma mulher notável, mãe devotada, excelente

esposa — mas não casta, não casta”.9 Teve muitos amantes e vários filhos com esses amantes. Era de conhecimento geral que o pai de Melbourne não era o marido de sua mãe, de quem recebeu o sobrenome, mas sim um dos amantes dela, Lord Egremont. O surpreendente era que Melbourne fosse fiel à esposa infiel. Segundo seu biógrafo David Cecil, naquela época um homem casado era tido como excêntrico se não tivesse uma amante “serelepe e de seios fartos”. Quanto às mulheres casadas, “a prática era

habitual demais para despertar comentários”.10

Mas muita gente fora do mundo dos whigs condenava sua liberalidade sexual. Arriscavam-se ao ridículo e, no caso das mulheres, à desgraça caso seus amores fossem expostos na imprensa ou na corte. A conduta explícita de Caroline chocou a muitos, ainda mais quando escreveu um livro levemente disfarçado sobre seu caso amoroso, Glenarvon. Publicado em maio de 1816, foi um campeão de vendas, mas prolongou a vergonha do marido. O livro, segundo o biógrafo L.G. Mitchell, “arremessava

obscenidades na cara de todo o mundo whig”.11 Melbourne ficou arrasado, mas anos se passaram até que a família conseguisse convencê-lo a se separar. Em janeiro de 1828, estando Caroline à beira da morte, por hidropisia, Melbourne deixou a Irlanda para ficar a seu lado.

Depois da morte da esposa, Melbourne teve duas ligações bombásticas que acabaram no tribunal. Nos dois casos, eram mulheres casadas divertidas e astuciosas, cujos maridos recebiam pródigos favores políticos de Melbourne até que decidiram processá-lo. Os dois julgamentos também pormenorizavam sua predileção pessoal pelo açoitamento e, em ambos, ele preservou as mulheres envolvidas, embora tenha sido absolvido nas duas vezes. A primeira delas era sua amiga irlandesa Lady Branden, a quem

pagou uma pensão anual pelo resto da vida. 12 A segunda era a bela escritora Caroline Norton, mulher de grande inteligência vítima das violências de um marido brutal.

Quando a relação abertamente afetiva dela com Melbourne se tornou objeto de mexericos, o sr. Norton levou o caso ao tribunal. Melbourne jurou até o fim da vida que nunca fora amante da sra. Norton, embora muitos, inclusive seu irmão, duvidassem disso. A ação impetrada pelo sr. Norton foi julgada em nove dias, em junho de 1836, e ele perdeu. Embora inocentado, Lord Melbourne passou meses deprimido, sem conseguir comer nem dormir. Tornou-se cruel, dizendo a Caroline Norton que não lutasse pela guarda dos três filhos e a aconselhando a voltar para o marido violento. A sra. Norton passou a lutar por mais direitos para as mães e, em 1839, foi aprovada uma lei permitindo que as mulheres pedissem a guarda de filhos com menos de sete anos. Vitória era simpática à sua causa e, quando Melbourne nem sequer apareceu para votar o projeto de lei, ela lhe passou uma reprimenda. Muito embora, ou talvez exatamente porque ele não tivesse direito algum em sua própria família, ele respondeu: “Não creio que se devam dar direitos demais a uma mulher. Não podem existir dois poderes

conflitantes… O direito na família deve caber ao homem”.13

Como podiam atestar suas amigas, Lord Melbourne era obcecado por disciplina. Chegava a conversar a esse respeito com a rainha Vitória, especialmente quando o assunto era bater em crianças. Ao que parece, isso era resultado de suas experiências em Eton, onde se empregava amplamente a punição física, embora, para sua decepção, ele tenha sido açoitado apenas

três vezes em três anos. 14 Essas surras, disse Melbourne à rainha, “sempre

tinham um efeito admirável”. 15 Defendeu até o final da vida o açoitamento como castigo para crianças ou criadas. Existem indicações de que ele recorreu à prática com a esposa, pelo menos com uma das amantes e com uma jovem órfã chamada Susan Churchill, que morou por algum tempo

com a família. *

Suas vítimas pareciam se dispor ao tratamento, embora não seja muito

plausível supor o consentimento de uma jovem órfã.16 L. G. Mitchel crê que Melbourne tentava punir todas as mulheres pelos pecados daquela que o traíra. A única mulher que iria adorá-lo incondicionalmente era a rainha.

 

“Certamente é um sujeito estranho para ser primeiro-ministro”, escreveu

Greville. 17 Não tinha nenhum programa de reforma, nenhum projeto para um país novo e melhor, nenhuma política que quisesse ver convertida em lei. Sua sagacidade era muitas vezes subestimada, mas a imobilidade era a posição preferida de Lord Melbourne. Sua frase política favorita era: “Por que não deixar como está?”.

Nesse sentido, não era um homem para sua época; encarnava governos do passado que tinham como principais preocupações apenas garantir a

segurança, evitar guerras e administrar crises. 18 Numa época de energias turbulentas e mudanças profundas na Inglaterra, o parlamentar tinha enorme apreço pelas palavras “adiar” e “protelar”. A ironia era que Melbourne era um whig. Parlamentares whigs anteriores, sobretudo Lord Grey entre 1830 e 1834, haviam implantado leis de bem-estar social, acabaram com a escravidão e ampliaram o direito de voto. Mas Melbourne chegou a dizer certa vez ao arcebispo Whately que não teria feito “absolutamente nada”

quanto à escravidão.19 Não admira que os whigs tivessem perdido força em meados dos anos 1830. O governo de Melbourne, durante os sete anos em que foi primeiro-ministro, de julho a novembro de 1834 e de abril de 1835 a agosto de 1841, realizou poucas coisas. Ele simplesmente não entendia as causas profundas de qualquer revolta social. Os debates parlamentares mais importantes de sua época não discutiam quais as políticas capazes de transformar uma nação descontente com a desigualdade, e sim “o grau de repressão que era necessário para manter os trabalhadores descontentes —

ou, com mais frequência, os desempregados — em seus devidos lugares”.20

A onda de ternura que Melbourne sentiu por Vitória lhe causou surpresa e prazer. No ano em que ela subiu ao trono, seu filho único, Augustus, então com dezenove anos, morrera. Os médicos diziam que ele tinha a idade mental de uma criança de oito anos. Nada funcionou: as sanguessugas aplicadas com regularidade em seu crânio, os jejuns, a magnetização da cabeça, a queima do crânio com ácido cáustico. Morou com Lord Melbourne após a morte de Caroline, passando horas a fitar o vazio. Melbourne se esforçou em amá-lo, mas, ao perder o único filho, relembrou a mulher que amara no passado, sentiu a perda da pequena família destroçada e viu que estava novamente sozinho.

De repente, Melbourne encontrava em Vitória a filha, a companheira e o afeto que tanto desejara. Ela lhe contava tudo. Em julho, estavam conversando, como escreveu ela no diário, sobre “coisas muito importantes

e até para mim dolorosas”.21 Ele atendia bondosamente a seus explícitos pedidos de consolo. Quando se queixava de que “todos crescem, menos eu”, ele respondia: “Penso que está bem crescida”. Ela não era tímida ou acanhada, dizia ele, apenas tinha um “temperamento sensível e

suscetível”.22 Sabendo que Vitória não gostava da mãe, Melbourne também criticava a duquesa de Kent. Num registro de seu diário, Vitória anotou que

havia conversado por um “longo tempo” 23 com Melbourne sobre a mãe. Ele disse: “Nunca vi mulher tão tola”. Vitória acrescentou: “O que é muito verdade; e rimos com Stockmar, que dizia ‘que mulher mais burra’, o que,

lamento dizer, também é verdade”.24 A familiaridade entre ambos era impressionante.

Vitória e Lord Melbourne se viam diariamente durante cerca de cinco horas. Era uma relação calma e aconchegante, conversando, fazendo lautas refeições, jogando xadrez, passeando a cavalo pelos parques. Quando Melbourne estava perto dela, escreveu a princesa Lieven com sua perspicácia, “ele parece amoroso, satisfeito, um pouco emproado;

respeitoso, à vontade… e alegre e sonhador — tudo ao mesmo tempo”.25 Os dois se arreliavam carinhosamente: Vitória brincava com a pronúncia dele — Melbourne dizia goold em vez de gold, Room em vez de Rome — e com sua propensão a cochilar durante as sessões.

A pequena rainha, mais feliz do que nunca, anotava cuidadosamente em seu diário os aforismos e ironias espirituosos de Melbourne. Achava muita graça nele e em sua irreverência. Sobre a reforma: “Melhor não tentar fazer nada de bom, pois assim não se entra em nenhuma enrascada”. Sobre os médicos: “Os médicos ingleses matam a gente, os franceses deixam morrer”. Sobre as mulheres: “É muito raro que as mulheres sejam gentis umas com as outras”. Sobre jardinagem: “Todos os jardins são sem graça, um jardim é uma coisa sem graça”. Quando o duque de Richmond disse que era chocante que as pessoas saíssem da prisão piores do que entraram, Melbourne respondeu: “Creio que há muitos lugares de onde a pessoa sai pior do que entrou; muitas vezes se sai pior de um salão de baile do que

quando se entrou”. Ele fazia Vitória “morrer de rir”. 26

O melhor de tudo era que Melbourne lhe dava uma sensação de segurança. No entanto, estava longe de ser seu parceiro ideal. Ele falhava em três coisas: a primeira, em atenuar as tensões com a mãe (embora dissesse a ela como era importante ser vista como filha obediente); a segunda, em convencê-la de que era rainha de um país inteiro, não só dos whigs; a terceira, em incentivar sua incipiente consciência social: ele imprimiu fortemente em Vitória a ideia de que todos os protestos, revoltas ou reivindicações de mudanças eram conduzidos por um pequeno grupo de descontentes. Manteve-a afastada da explosiva realidade ocorrida durante a Revolução Industrial, na qual grandes contingentes foram lançados à miséria urbana, e barracos caindo aos pedaços e abarrotados de gente cresciam rapidamente em torno das cidades grandes, sem nenhuma alternativa e voz no Parlamento.

A falha mais problemática, no longo prazo, era a terceira. Melbourne achava que as crianças deviam trabalhar em vez de passar fome e que seriam infelizes se estudassem. Dizia que “não gostava de nenhum dos pobres, mas aqueles que são pobres por sua própria culpa eu simplesmente

detesto”.27 Troçava do interesse de Vitória pelo mundo descrito por Charles Dickens. Quando ela comentou com ele, no Ano-Novo de 1839, o “vício esquálido” e “a fome nos Reformatórios e Escolas” na história de Oliver Twist, Melbourne respondeu: “Não gosto dessas coisas: quero evitá-las. Não gosto delas na realidade e, portanto, não gosto de vê-las representadas”. Vitória discutiu em vão com ele. Pelo resto da vida, ela se absteria de apoiar tentativas de diminuir a pobreza ou de melhorar as condições básicas de vida e trabalho. O problema de Vitória não era a falta de preocupação pelos problemas sociais, e sim a falta de contato com eles.

Mas, em termos mais imediatos, a falha principal foi a segunda: a falha em instruir a rainha em seu dever constitucional de imparcialidade, como Leopoldo sempre fizera no passado e Albert faria no futuro. Vitória era uma whig inabalável como seu pai e amigos, e usava “nós” ao se referir a si

mesma e ao governo Melbourne.28 O que ela não percebia era que Melbourne era conservador por natureza e whig mais por formação do que

por convicção.29 De vez em quando, ele tentava convencê-la de que os tories não eram más pessoas e que teria que trabalhar com eles no futuro, mas ela dava de ombros, chamando o líder da oposição Robert Peel de “vil

patife”.30 Quando os whigs venceram por larga margem a primeira eleição geral do reinado de Vitória, o tory Benjamin Disraeli escreveu: “O fato é

que a pequena rainha bateu palmas”. 31 Os tories observavam aborrecidos o aprofundamento da relação entre a rainha e seu principal ministro. Charles Arbuthnot, um importante conservador, disse: “Com a rainha jovem e tola

contra nós, poucas esperanças podemos ter”.32 Vitória ainda se recusava a conversar sobre política com qualquer outra pessoa além do primeiro-ministro.

 

No final de 1838, depois de um pouco mais de um ano no trono, Vitória já se sentia entediada com sua nova e deslumbrante vida. O trabalho era incessante, estava cansada dos bailes e banquetes, e as pessoas ao redor dela, na maioria, tinham décadas a mais do que ela. Começou a se perguntar se era tão capaz quanto se julgara. Em dezembro, andava irritadiça,

deprimida, ansiosa: “Senti como eu era inadequada à minha posição”.33 As pessoas também se perguntavam como Melbourne conseguia aguentar aquilo, as noites de “uíste a um xelim com a duquesa de Kent [e] seis horas por dia de tête-à-tête com a rainha” e a necessidade de se impor um “controle constante para não praguejar nem falar banalidades”. Era um comportamento estranho por parte do homem que devia estar governando o país. Melbourne ficava na defensiva quando questionavam se sua vida de mentor, tutor e bobo da corte paternal não o distraía dos assuntos de Estado. Mas, num momento vulnerável, quando Greville o congratulou pela atenção que dava a Vitória, ele exclamou: “Por Deus, fico nisso de manhã, de tarde

e de noite!”.34

Vitória também se sentia fisicamente esgotada. Melbourne achava que estava “pálida”. Exagerava na comida sempre que podia, por puro tédio. Melbourne lhe disse que a solução mais simples era caminhar e só comer quando estivesse com fome. Ela respondeu que, nesse caso, passaria o dia comendo. Andar lhe dava enjoos. Melbourne também sugeriu que ela parasse de tomar cerveja, hábito que adorava. Em dezembro, uma Vitória “ranzinza e abatida” descobriu, para sua tristeza, que estava com 57 quilos

— um “peso inacreditável para minha altura”.35 As pessoas começavam a cochichar que agora suas roupas eram feitas em tamanho maior e que, aos dezoito anos, já estava perdendo a beleza. Melbourne lhe garantiu que o vinho lhe faria bem e que, em todo caso, a melhor silhueta para uma mulher

era “cheia, com um belo busto”.36 Lord Holland observou polidamente que ela tinha “talvez a aparência de um corpo bem mais cheio do que os bons e

vigorosos observadores da saúde aprovariam”.37

Vitória passou a se exasperar com sua imagem no espelho. Não só estava engordando, mas o cabelo estava escuro e as sobrancelhas eram finas demais (perguntou a Melbourne se ficariam mais grossas se as raspasse; ele desaconselhou). O rosto ainda era jovem, com uma pele sedosa, olhos grandes, expressivos e intensos, nariz reto e boquinha rosada. Na verdade, o problema não era a aparência. Andava preguiçosa; em alguns dias, a rainha de invulgar energia dizia que tinha simplesmente “vadiado”. No final de abril, escreveu: “Este ano não estou sentindo prazer em nada… muito diferente do ano passado”. Vitória se afundava cada vez mais no desânimo. Parou de tomar banho e de escovar os dentes, e vinha com uma infinidade de desculpas esfarrapadas para evitar exercícios. As criadas tinham que aguentar o tranco de seus maus humores, principalmente as que a vestiam, incumbidas de uma tarefa que agora ela odiava — ajudá-la a se espremer em roupas cada vez mais apertadas.

O mau humor de Vitória passava por cima de qualquer etiqueta e muitas vezes ralhava com a mãe, cuja simples presença lhe causava irritação. Ela escreveu a respeito de uma ocasião dessas: “Contei a Lord Melbourne que me impus a mamãe sobre o fato de aparecer em meu quarto sem pedir

licença. Primeiro ela ficou brava. Tive que lembrar-lhe quem eu era”.38 Nem Melbourne escapava a suas ocasionais explosões. Numa noite de verão, estando adoentado demais para falar, ela reclamou que sua companhia era tediosa. Começou a repreendê-lo por roncar durante os sermões e comer demais. Tinha ciúmes dele quando outras mulheres atraíam sua atenção ao jantar e quando passava a noite no animado salão da casa Holland. Certa vez, Vitória chegou a lhe perguntar se achava Lady Holland mais bonita do que ela. E escreveu no diário, rabugenta, que ninguém se importava com ele tanto quanto ela.

A firmeza obstinada que tão bem lhe servira nos confrontos com Conroy agora se enrijecera, com os inebriantes prazeres do poder, assumindo ares de soberba. Stockmar a comparou a seus tios hanoverianos, dizendo que era “irascível como uma criança mimada”. Quando se ofendia, jogava “tudo para o ar, sem exceção”. Começou a achar que ninguém podia dizer a alguém em sua posição o que fazer ou o que pensar. Stockmar temia que Lehzen a encorajasse nisso, “como a babá que repreende a pedra em que a

criança tropeçou”.39

A jovem rainha estava cercada de caluniadores e confidentes indulgentes. O tio Leopoldo sempre lhe recomendara que fosse inflexível, para mostrar que, depois de tomar uma decisão, “nem uma força sobrenatural a fará mudar”.

Uma moça já teimosa não precisaria de muito incentivo para teimar ainda mais, em especial quando já eram tantos os que relutavam em contradizê-la. Isso ficaria dolorosamente evidente nas duas calamidades dos meses seguintes, quando suas duas grandes paixões — o amor por Lord Melbourne e o ódio por Conroy — a levariam a um tremendo erro. Ela aprendera a amar e aprendera a odiar, mas ainda não aprendera a governar. Vitória estava terrivelmente despreparada para o que a aguardava.

* Sua esposa Caroline, numa carta à sogra, contou que Melbourne a tinha chamado de puritana, e deu a entender que as práticas bizarras do marido haviam corrompido seus princípios morais: “[Ele] dizia que eu era reprimida e se divertia me instruindo em coisas de que eu nunca tinha ouvido falar nem sabia. A repulsa que senti no começo com a perversidade do mundo da qual até então eu nunca tinha ouvido falar deu lugar em muito pouco tempo a uma frouxidão geral de princípios que aos poucos sem que nenhum de vocês percebesse foi corroendo as poucas virtudes que tive algum dia” (Lady Caroline a Lady Melbourne, abril de 1810, In: Paul Douglass, The Whole Disgraceful Truth, p. 53). Em quarenta cartas a Lady Branden, apenas quatro não fazem menção a açoitamentos (Philip Ziegler, Melbourne, pp. 106-7). Melbourne lhe dizia que devia açoitar os filhos com mais frequência e foi a solução que sugeriu no caso de uma criada preguiçosa: “Algumas varas de bétula aplicadas à pele nua de uma jovem produzem com pouco esforço uma sensação muito notável”.