Vitória, a rainha
22. Ressuscitando a viúva de Windsor
22. Ressuscitando a viúva de
Windsor
Todas as que me fazem companhia usam trajes de luto, o que penso que mais
condiz com nossa triste irmandade.
RAINHA VITÓRIA A LADY WATERPARK, SETEMBRO DE 18641
Uma dama inglesa de luto é um espetáculo impressionante e majestoso.
GEORGE BERNARD SHAW2
Em 16 de janeiro de 1862, apenas um mês após a morte de Albert, mais de duzentos homens e meninos ficaram presos no poço mais fundo da mina de New Hartley. A haste de ferro da máquina de bombeamento se quebrara e
caíra na única entrada, sepultando os mineiros lá embaixo. 3 Quando encontraram seus corpos, seis dias depois, era como se tivessem adormecido no chão. O menino mais novo tinha dez anos de idade. Vitória
ficou transtornada, declarando que “seu coração sangrava por eles”.4 Onze meses depois, tendo retornado de uma cerimônia de consagração dos restos mortais de Albert, ela recebeu uma elegante Bíblia, assinada no interior por muitas “Viúvas inglesas leais”, inclusive oitenta mulheres que haviam
perdido o marido na calamidade de Hartley. 5 Vitória se sentou à escrivaninha e escreveu para suas “gentis viúvas irmãs”, dizendo-lhes que o que a reconfortava na perda de Albert era “a sensação constante de sua
presença invisível” e a ideia de se unir a ele no futuro.6
Em sua ardente adoção da viuvez, a rainha converteu o que geralmente era um sinal de perda de identidade em algo nobre e significativo. A perda do ente querido transpunha todas as divisões. “Eu não hesitaria em abraçar junto ao coração a viúva mais pobre da Terra”, escreveu Vitória, “se ela tivesse amado realmente o marido e se compadecesse de mim, sendo eu
rainha ou qualquer outra em posição elevada.”7 Convidou Lady Eliza Jane Waterpark, depois de ter enviuvado, para ser sua dama dizendo: “Penso que entendemos uma à outra e sinto que a Vida terminou para nós, exceto no
sentido do dever”.8 Era uma vida melancólica. A rainha prometeu que pediria a Lady Waterpark que fizesse somente coisas em sintonia com seus sentimentos e acrescentou: “Todas as que me fazem companhia usam trajes de luto, o que penso que melhor condiz com nossa triste irmandade”. Essa irmandade fornecia a Vitória uma sucessão constante de conselheiras emocionais, mulheres com quem conversava e chorava junto. (Lady Geraldine Somerset, dama de companhia da duquesa de Cambridge, lamentava: “O lúgubre efeito doloroso de toda essa massa negra ao redor da
pessoa [era] também indizivelmente triste e pesado a um grau extremo”.)9 Quando Abraham Lincoln foi assassinado, em 1865, Vitória enviou suas condolências à viúva Mary. Ninguém poderia avaliar melhor, escreveu Vitória, o que ela estava passando do que essa rainha “de coração
totalmente destroçado”.10 Mary Lincoln respondeu que sabia que Vitória podia compreender.
Na Era Vitoriana, as mulheres pranteavam a morte por mais tempo e de forma mais sonora do que os homens. Os viúvos tinham probabilidade muito maior de se casar outra vez e voltar ao trabalho, geralmente se isolando por poucas semanas e logo voltando ao mundo. Na segunda metade do século XIX, uma em três mulheres de 55 a 64 anos era viúva, mas
apenas um em sete homens era viúvo. 11 Para a maioria delas, escreve Patricia Jalland em seu fascinante estudo Death in the Victorian Family [A morte na família vitoriana], “a viuvez era um destino final, um
compromisso involuntário com uma forma de exílio social”.12 A rainha, porém, tinha escolha; seu exílio era voluntário e contava com privilégios que outras não possuíam, e havia quem, reservadamente, criticasse sua falta de estoicismo. A autora escocesa Margaret Oliphant, por exemplo, enfrentara a morte do marido em 1859 e a de três filhos ainda na idade de colo. Sustentou a prole restante com seu intelecto, escrevendo dezenas de livros. Quando Vitória encontrou Oliphant em 1868, quatro anos depois que a escritora perdera sua última filha sobrevivente, a rainha comentou em tom aprovador que Oliphant era uma viúva simples. Mas Oliphant não aprovou a conduta da rainha. Escreveu a seu editor:
Se alguma de nós, pessoas comuns, fosse tratar seus amigos, visitas e a sociedade em geral da
mesma maneira [como faz Vitória], iríamos… perder visitas e amigos. Duvido que nous autres
pobres mulheres que precisamos lutar totalmente sozinhas com o mundo, sem grande
solidariedade, poderíamos assumir o caráter “sem precedentes” dos sofrimentos da rainha. Uma
mulher é sem dúvida uma coitada se, com uma grande prole feliz e afetuosa em torno de si, não é
capaz de ter ânimo para cumprir seu dever, queira ou não.13
Mas ninguém conseguiria obrigar a rainha a fazer algo que ela não quisesse. O aço inato que ajudara a levar uma adolescente a tomar a coroa agora levava uma mulher a insistir numa dor clamorosa e impenitente.
Por trás das portas do palácio, Vitória continuava a trabalhar. Agora dividia seu ano entre Windsor, Osborne e Balmoral. Evitava o Palácio de Buckingham ao máximo possível, pois guardava lembranças vivas demais do passado. Continuava a se corresponder intensamente com seus ministros, a se envolver na outorga de honrarias e na aprovação de nomeações e a insistir em seu direito de examinar todas as recomendações ministeriais para cargos, muitas vezes levantando objeções ou fazendo sugestões, principalmente quando se tratava de bispos e arcebispos. Conservava seu poder, mas esse trabalho ficava oculto ao público.
Prosseguia o clamor das vozes insistindo que Vitória se mostrasse em público. Isso a enfurecia. Repreendia quem se atrevesse a pressioná-la, por não entender quanto ela era frágil. Em 1863, o secretário de Vitória, Charles Phipps, disse a Palmerston que os três médicos da rainha eram “categoricamente” da opinião de que seria “muito indesejável” para sua
saúde aparecer sozinha em público, vestida a rigor. 14 Os médicos não queriam colocar por escrito, pelo receio de que isso fosse mal interpretado.
Em 1º de abril de 1864, The Times protestou oficialmente contra a ausência de Vitória. Em dezembro do mesmo ano, no terceiro aniversário da morte de Albert, The Times protestou outra vez. Poucos dias antes, Vitória dissera a Lord Russell que não poderia abrir as sessões do Parlamento, pois isso lhe causaria um “choque moral”. Sentira-se segura quando Albert estava a seu lado, mas, agora que ele partira, “nenhuma criança pode se sentir mais retraída e nervosa” do que ela à ideia de aparecer em público. Escreveu a Lord Russell:
Seus nervos estão tão estraçalhados que qualquer emoção, qualquer discussão, qualquer esforço
causa muito sofrimento e perturbação a toda a sua constituição. As ansiedades constantes
inseparáveis de sua posição difícil e nada invejável como rainha e como mãe de uma grande
família (e, aliás, uma família real), sem um marido para guiá-la, assisti-la, acalmá-la, confortá-la e
animá-la, são tão grandes que seu sistema nervoso não tem nenhum poder de recuperação, mas,
pelo contrário, debilita-se cada vez mais.15
Fisicamente, Vitória estava mais saudável do que admitia. Mentalmente, estava frágil. Sua grande ansiedade provocava dores de cabeça, desmaios e dores reumáticas no rosto e nas pernas. Em maio de 1866, Vitória disse a
Lord Russell que continuava a recear “um colapso completo”.16 Muitas
vezes declarava que logo morreria. 17 A ideia de milhares de olhos voltados
para sua pessoa lhe despertava um estado de grave nervosismo.18 Quando estava em público, tremia da cabeça aos pés e muitas vezes tinha dificuldades em se recompor. Fora alvo de disparos, recebera uma bastonada na cabeça, fora agredida e enviuvara; o que queria agora era se sentir em segurança, ter alguém que a protegesse. Seu refúgio logo se materializou numa pessoa altamente improvável.
O ajudante de caça escocês John Brown, homem de sua confiança, foi chamado no inverno de 1864 para conduzir o cavalo de Vitória em Osborne. O médico lhe dera ordens de continuar a montar, e nas Highlands ela havia se acostumado a ter Brown conduzindo à sua frente: “Um desconhecido me deixaria nervosa… Ai de mim! Agora sou tão fraca e nervosa, e muito dependente daqueles a que estou acostumada e nos quais tenho
confiança”.19 Alto, bem-apessoado, protetor, Brown animava Vitória com sua autoridade vigorosa e sua força serena. Ele chegou em dezembro; em fevereiro, sua função se tornou permanente, recebendo o título de “criado escocês da rainha”. Em novembro, recebeu o título de Esquire. Brown começou a ocupar um lugar invulgarmente elevado na residência real, acompanhando Vitória de Londres à Escócia e mesmo à Europa. Vitória se sentia encantada com sua lealdade: “Ele é tão devotado a mim — tão simples, tão inteligente, tão diferente de um criado comum e tão disposto e
solícito”.20 Era exatamente o tônico de que precisava uma rainha solitária e desconsolada.
Finalmente Vitória abriu o Parlamento em fevereiro de 1866, pela primeira vez desde a morte de Albert. Fez questão de que o primeiro-ministro, Lord Russell, ficasse ciente de que era uma “provação muito
grande” para ela. 21 Chegado o dia, Vitória estava nervosa e não conseguiu se alimentar. Pôs um vestido de noite simples, com um pequeno diadema de safira e diamante sobre o toucado de viúva. O vento batia no véu enquanto ela seguia em silêncio numa carruagem aberta, passando pelas multidões de curiosos, muitos dos quais estavam anos sem ver sua rainha. No Congresso lotado, por onde ela entrou por outra passagem para evitar a galeria com “pessoas encarando”, Vitória achou que ia desfalecer. No dia seguinte, falou ao primeiro-ministro que estava “tremendamente abalada, esgotada e
passando mal pelo violento choque nervoso” do esforço que fizera. 22 Disse dramaticamente que só tinha alguma vontade de viver por causa dos filhos e do país.
Mas, aos poucos, ela começou a aparecer mais em público, recebendo no Palácio de Buckingham, passando as tropas em revista em Aldershot, indo ao casamento do primo, inaugurando obras hídricas e desvelando uma estátua. Quando a filha Helena se casou, em 12 de junho de 1866, Vitória chegou a conduzi-la ao altar (embora o arcebispo lhe dissesse que “não
[era] usual” que uma mulher fizesse isso).23 Em 1867, abriu novamente o ano parlamentar, embora insistindo que não lhe pedissem o mesmo no ano seguinte. Nos últimos 37 anos de seu reinado, Vitória abriu o Parlamento apenas sete vezes, e em nenhuma vez leu seu discurso em voz alta. Quem lia para ela era o lorde chanceler.
Enquanto Vitória prosseguia no luto na década de 1860, um esforço concentrado de luta pela democracia desencadeou uma série de tumultos, passeatas e manifestações públicas. John Bright, o líder radical da Liga pela Reforma que lutava pela ampliação do direito de voto, discursava em comícios de massa por toda a Inglaterra. Em 1867, o Parlamento aprovou o Segundo Projeto de Lei da Reforma — que dobrava o número dos homens que podiam votar na Inglaterra e em Gales, passando de 1 milhão para 2
milhões.24 Vitória receava a democratização, mas deu firme apoio ao projeto quando ficou evidente que ele contava com a maioria na Câmara dos Comuns. Via-se como a rainha dos pobres, lamentando muitas vezes “a frivolidade das classes altas e o pouco sentimento que tinham pelos que
estavam abaixo delas”.25 Mas sua influência nessa legislação foi mínima.
Em termos políticos, porém, Vitória nada perdera de seu ardor. Os primeiros-ministros tinham se acostumado a levar trancos de uma rainha peremptória que insistia em se dizer fraca e enfermiça. Lord Stanley foi repreendido por enviar despachos que não tinham recebido sua aprovação,
assim como ocorrera anos 26 antes com Palmerston. Ela descartava a maioria das solicitações oficiais, mesmo aquelas que depois vinha a aceitar. Era frequente que relutasse em receber dignitários estrangeiros e, quando
recebia, pedia ao governo britânico que pagasse.27 Em 1867, por exemplo, o conde de Derby, um whig que substituíra Lord Palmerston no cargo de primeiro-ministro, suplicou à rainha que adiasse por três dias uma viagem a Osborne, para poder receber o sultão da Turquia durante dez minutos no Palácio de Buckingham. Sua resposta foi virulenta: “A palavra desagradável dificilmente se aplica ao tema; estaria mais próximo da verdade dizer extremamente inconveniente e prejudicial à saúde da
rainha”.28 Apesar disso, ela concordou em adiar a viagem por dois dias, pediu ao sultão que viesse um dia antes e mandou que seu médico fosse até Lord Derby, para reiterar como era frágil sua condição nervosa, assim ressaltando novamente o peso daquele fardo. Ameaçou mais uma vez um “colapso completo”, dizendo que se recusava a ser incomodada e a receber ordens. Esta era a tática de negociação original e eficiente de Vitória: alegar desamparo numa forma de combate hostil e insistir em sua fragilidade em reiteradas manifestações de força. Seus ministros não estavam preparados para lidar com uma rainha briguenta e teimosa. Somente um percebeu que a rainha solitária queria ser mimada, festejada e adorada.
Benjamin Disraeli entendia o poder do encantamento. Em 1868, assumiu repentinamente o cargo, declarando-se em relação à rainha: “Ele só pode
oferecer devoção”. 29 Embora Disraeli fosse tory, Vitória, quando ele se tornou primeiro-ministro, anunciou o fato como uma vitória para as classes trabalhadoras. Ele não tinha posição nem fortuna e era filho de um judeu, coisa praticamente inédita nos círculos políticos. Tinham-lhe recusado qualquer cargo sob a liderança do primeiro-ministro Peel e fora de grande importância na formação do partido conservador protecionista, quando houve a cisão dos tories com a derrota das Leis do Cereal. Era visto como um forasteiro estranho, embora dotado de talento, com pendor para escrever romances populares. Ao se tornar primeiro-ministro, Disraeli declarou com
orgulho que tinha “chegado ao alto do pau de sebo”. 30
Disraeli era uma figura curiosa. Passara décadas se vestindo como dândi, com blusas de babados, cachos tingidos e meias coloridas, imitando Lord Byron, o poeta que seduzira a esposa de Lord Melbourne lá em 1812. Aos doze anos, convertera-se do judaísmo ao anglicanismo, depois que o pai teve uma divergência com a sinagoga local; isso lhe permitiu pensar numa carreira política, visto que na época os judeus eram proibidos de ocupar cargos. Adorava a esposa, Mary Anne Lewis, uma viúva rica, inteligente, cativante, doze anos mais velha que ele.
Disraeli também era romancista popular de sucesso, com gosto por sentimentos espalhafatosos. Seu grande talento com as palavras foi muito útil na relação com a rainha. Tinha a esperança, escreveu ele:
de que, nos grandes assuntos de Estado, Vossa Majestade não condescenderá em lhe retirar o
benefício da orientação de Vossa Majestade. A vida de Vossa Majestade se tem passado em
comunicação constante com grandes homens e no conhecimento e condução de importantes
transações. Mesmo se Vossa Majestade não fosse dotada de tais grandes habilidades, que todos
agora reconhecem, essa rara e seleta experiência certamente dá à Vossa Majestade uma vantagem
na capacidade de julgamento com a qual poucas pessoas vivas, e provavelmente nenhum príncipe
vivo, podem rivalizar.
Na próxima vez em que Vitória viu Disraeli, saudou-o com “um rosto
muito radiante”. 31
Não era apenas que Disraeli praticava a bajulação de uma forma artística. Em suas confiantes missivas à rainha, ele lhe tornava a política interessante pela primeira vez, desde Lord Melbourne. Explicava os debates e acontecimentos políticos com clareza, com detalhes e muito estilo. Vitória disse a uma amiga que nunca recebera cartas assim, Disraeli acatava sabiamente seus desejos nas nomeações, principalmente quando se referiam
a eclesiásticos, dizendo que ficava encantado em obedecer a suas ordens. 32 Também a tratava com respeito. Quando Vitória publicou Leaves from the Journal of Our Life in the Highlands, em 1868, uma seleta a partir de seus diários, a tiragem de 20 mil exemplares se esgotou rapidamente. A partir daí, para lisonjeá-la, Disraeli durante as conversas dizia “nós, autores”. Não conseguia convencê-la de tudo, mas tinha tanto êxito em manipulá-la que acabou por converter a rainha antes inequivocamente whig à causa do conservadorismo tory.
Mas o primeiro mandato de Disraeli como premiê durou apenas dez
meses.33 Foi derrotado por seu maior rival político, o liberal William Gladstone, nas eleições de dezembro. Gladstone era um homem imponente, intelectual, com olhos de águia e sólida fé cristã, que havia contado com a aprovação de Albert; os primogênitos de ambos tinham viajado juntos. Gladstone, muitas vezes chamado de “o William do Povo”, era um chanceler popular e frugal decidido a implantar reformas. O que lhe faltava era o tato sutil necessário para lidar com uma soberana irritadiça — o tipo de tato que homens como Melbourne e Disraeli tinham. Sua esposa lhe
dissera para “mimar a rainha”, mas ele não sabia como.34 E tampouco conseguia explicar as ações políticas de maneira simples. Muitas vezes deixava Vitória confusa, a qual detestava se sentir obtusa ou tratada de modo paternalista. O deão Wellesley tentou explicar de outra maneira: “Toda a consideração, a gentileza e eu diria até mesmo a ternura que você
mostrar em relação a ela nunca serão demais”.35
Demonstrando ao mesmo tempo ampla visão e coragem política,
Gladstone disse que sua grande missão era “pacificar a Irlanda”.36 Em seu primeiro mandato, de dezembro de 1868 ao começo de 1874, Gladstone se preocupou basicamente em desinstalar a Igreja Protestante da Irlanda — como era conhecida, embora fosse uma igreja minoritária ligada à Igreja da Inglaterra —, que era encabeçada por Vitória. Isso significava separar juridicamente a igreja do Estado e liberar os irlandeses — que eram de maioria católica — de pagar o dízimo a ela. Vitória não apoiou o projeto de lei — argumentou que os direitos fundiários deviam ter prioridade e que seria uma provocação aos nacionalistas extremados. Sem dúvida, uma preocupação pessoal maior era a de que a Escócia seguisse o exemplo — e talvez até a Inglaterra — e também a removesse da liderança de sua igreja. Mas a maioria esmagadora na Câmara dos Comuns — que Gladstone
declarou ser o “veredito enfático da nação” 37 — obrigou Vitória a reconhecer que a decisão não cabia a ela e que um choque entre as duas
câmaras parlamentares seria “perigoso, se não calamitoso”.38 Depois de suas maquinações iniciais contra o projeto, ela auxiliou Gladstone atuando como mediadora e ajudando a obterem uma solução de compromisso com a Câmara dos Lordes. Chegou até mesmo a adiar — com relutância — uma viagem a Osborne para garantir a aprovação do projeto de lei (embora relembrando energicamente a Gladstone que tal arranjo conciliador era algo muito incomum e não devia ser tomado como precedente). O Decreto da Igreja Irlandesa foi aprovado em 1869.
Albert empreendera seu trabalho sob as vistas plenas do público; tornava patente não só a respeitabilidade, mas também a produtividade da monarquia. Sem ele, Vitória se retraiu às vistas, e se espraiou o ressentimento público em relação à monarquia dispendiosa e sempre crescente. A família real incorria em despesas cada vez mais altas a cada casamento e novo nascimento, e Bertie se conduzia como um esbanjador. Entre 1871 e 1874, foram criados 85 Clubes Republicanos na Grã-Bretanha, protestando, entre outras coisas, contra o “alto custo e inutilidade da
monarquia” e o “exemplo imoral” de Bertie.39 Gladstone escreveu a Granville em 1870: “A rainha é invisível e o príncipe de Gales não é
respeitado”.40 A economia estava fraca, pagava-se demais à corte real e a França se convertera em república em 1870; por que a Inglaterra não faria o
mesmo?*
Uma das maiores ameaças à ordem pública vinha da Irmandade Feniana, que fora criada na América em 1858 com o objetivo de derrubar o domínio britânico na Irlanda e fundar uma república irlandesa. Em 1866, a irmandade tentou invadir o Canadá, sem êxito. Em 1867, seus membros iniciaram uma campanha de terror na Grã-Bretanha, explodindo o muro de uma prisão e matando um policial. Três membros foram executados em represália e se tornaram mártires. O enorme pânico resultante deixou Vitória irritada, e ela aconselhou os ministros a reagir a qualquer ameaça de violência simplesmente suspendendo o habeas corpus, o que significava que as pessoas podiam ser detidas ou presas sem razão, mas eles consideraram a sugestão inapropriada. Em 20 de dezembro de 1867, Vitória foi avisada de que oitenta integrantes da Irmandade Feniana tinham embarcado em dois navios em Nova York e estavam vindo atacar o governo britânico. Cem fuzileiros escoceses se instalaram nos estábulos de Osborne e navios ficaram patrulhando as costas. Vitória se sentia presa numa armadilha, mas
ficou ainda mais aborrecida quando nenhuma das ameaças se concretizou.41
Três meses depois, numa viagem à Austrália, um feniano atirou no príncipe Alfred, então com 23 anos, em Sydney. Ele se dirigia à Cabbage Tree Beach para “ver os aborígines, estando prontos para um pouco de esporte”, quando recebeu um tiro nas costas e caiu de quatro. A bala se alojou no abdômen. Passou três dias sem conseguir respirar, como disse
mais tarde à mãe.42 O agressor irlandês, por volta dos 35 anos, loiro e bem vestido, foi executado posteriormente. The Sydney Morning Herald qualificou o ataque como uma “calamidade gigantesca, afetando todas as
classes do povo”.43 Como outros movimentos revolucionários britânicos, a Irmandade Feniana se extinguiu depois disso e desapareceu por alguns anos.
Albert queria uma Alemanha unificada e poderosa. Colocara sua filha mais velha, Vicky, na corte prussiana com a esperança de levar seus ideais liberais ao estado que, em suas esperanças, lideraria uma futura nação alemã. Nos anos 1860, o astuto e oportunista diplomata prussiano Otto von Bismarck estava decidido a unificar todos os estados germânicos sob o comando prussiano. Em 1871, já conseguira em larga medida. A Guerra da Crimeia em 1854 e a Guerra Italiana em 1859 tinham desestabilizado as alianças entre as grandes potências da Europa — a Grã-Bretanha, a França, a Áustria e a Rússia —, deixando um vácuo do qual Bismarck se aproveitou com seu exército bem equipado e bem organizado. “As grandes questões da época”, disse ele em 1862, “não serão resolvidas com discursos e decisões
majoritárias, mas a ferro e sangue.”44 Em 1866, Bismarck invadiu a Áustria com o apoio da Itália, naquela que veio a ser conhecida como Guerra das
Sete Semanas.45 A Prússia impôs uma derrota decisiva à Áustria e o tratado resultante estipulou a unificação de 22 estados numa Confederação da
Alemanha do Norte, tendo Bismarck como líder e chanceler.46 Mas a Áustria, que comandara a Confederação Germânica desde o final das Guerras Napoleônicas em 1815, ficou excluída.
Na nova federação, Schleswig, Holstein e Hanôver se tornaram estados prussianos. Vitória concordava com Albert, dizendo a Lord Stanley: “Uma Alemanha forte, unida, liberal seria um aliado extremamente útil para a
Inglaterra”.47 Mas ela desconfiava de Bismarck e considerava sua conduta
agressiva “monstruosa”.48 O marido de Vicky, seu genro Fritz — cujo tio era então rei da Prússia —, também discordava de uma unificação imposta pela violência, como estava fazendo Bismarck. Fritz havia considerado um “fratricídio” entrar em guerra contra a Áustria, mas se demonstrara equivocado diante da vitória prussiana. A rainha Vitória insistiu que o rei da Prússia fizesse concessões aceitáveis para garantir a paz e evitar que se desencadeasse uma guerra maior.
À mesa de jantar, as guerras rendiam conversas um tanto constrangedoras. Vicky era casada com um príncipe prussiano amante da paz que combatia pelos prussianos, Alice com um príncipe alemão que combatia pelos austríacos, Bertie com uma princesa dinamarquesa e Helena com um príncipe alemão nascido na Dinamarca. Quando Vitória começou a planejar o futuro de Louise, no final de 1869, desistiu da insistência de Albert em matrimônios geopolíticos complicados. Escreveu a Bertie: “Os tempos mudaram muito; as grandes alianças externas são vistas como causas de problemas e preocupações e não servem de nada. O que pode haver de mais doloroso do que a posição que nossa família se encontrou durante as guerras com a Dinamarca e entre a Prússia e a Áustria?”. Em vez disso, a bela Louise se casou com um súdito, um político liberal amante de poesia chamado John George Edward Henry Douglas Sutherland Campbell, Lord Lorne. O casal vivia separado e não teve filhos; ainda persistem os rumores
sobre a sexualidade de Lorne.49 Louise, escultora de talento, tinha seus próprios segredos; dizem que teria mantido um caso com o escultor Joseph Edgar Boehm, o qual teria morrido enquanto faziam amor. Uma biografia recente afirma que ela teve um filho que foi discretamente entregue para
adoção. 50 Mas Helena se casou com o príncipe Christian de Schleswig-Holstein, apesar das objeções políticas maternas.
A progênie real continuava a se multiplicar. A relação de Bertie com a mãe melhorou depois de se casar com Alix, embora Vitória ainda não lhe permitisse desempenhar nenhum papel com responsabilidade oficial. Alice, grande admiradora e amiga de Florence Nightingale, trabalhou como enfermeira na guerra austro-prussiana de 1866 e fez um casamento feliz, embora mais tarde tenha se afastado um pouco da mãe, provocando sua ira ao sugerir que aparecesse mais em público. Quando Vicky perdeu um dos filhos, Sigismund, com apenas 21 meses de idade, que morreu de meningite, Vitória ficou desesperada por não poder ficar ao lado da filha para reconfortá-la. Continuava a se afligir com Leopoldo e sua hemofilia; depois que ele teve uma hemorragia em 1868, Vitória resolveu que ele seria
seu “principal objeto de interesse na vida”.51 Todas as noites,
religiosamente, despedia-se dele com um beijo.52 Mesmo quando Leopoldo
estava bem, Vitória sentia “ansiedade constante em relação a ele”.53 Atormentava-se continuamente pensando como a perda do pai afetara a vida dos filhos. Tentava compensar a ausência dele, mas não se sentia à altura. Assim, em vez disso, controlava, repreendia, mandava nos filhos e os venerava, num turbilhão de emoções. Parou de desenhar no diário as cenas domésticas aconchegantes que enchiam suas páginas quando Albert estava vivo. A partir de agora, eram basicamente as montanhas distantes da Escócia que ela desenhava nos momentos de calma.
Em 10 de dezembro de 1865, quatro anos após a morte de Albert, Leopoldo, o querido tio de Vitória, morreu. Ela ficou “estupefata e
assombrada” com a perda do pai substituto. 54 Aos 46 anos, ser soberana, mãe viúva de nove filhos e matriarca de uma família frequentemente fraturada pelas guerras entre países europeus era um fardo bem pesado de se carregar sem o conselho sábio e a companhia de um parente próximo. Na falta disso, Vitória decidiu que seu norte seria o legado de Albert, e ela repetidas vezes jurou levar a cabo os sonhos dele. Mas, na prática, ela achou mais fácil erguer estátuas do que executar as ideias de Albert.
A dor de Vitória era clamorosa e se prolongava sem fim. O público se perguntava: por que ela não aparece no Parlamento e desempenha seu papel de monarca? Por que não pode deixar seu sofrimento de lado por um instante e fazer o trabalho pelo qual é paga? Mas há pelo menos duas coisas que certamente deveriam atenuar o desdém por uma mulher que deixou de operar devidamente durante anos. Primeiro, Vitória não relutava em trabalhar; relutava em aparecer em público. A aguda ansiedade que sentia após a morte de Albert parecia uma espécie de fobia social, da qual ela tinha consciência, mas não conseguia controlar. Segundo, apenas em anos recentes (desde a metade dos anos 1980) é que os psicólogos começaram a examinar a sério a natureza da dor persistente — uma dor complexa, traumática ou prolongada — para entender por que algumas pessoas sentem
um sofrimento mais agudo do que outras.55 É um tema controverso, pois muitos resistem a patologizar uma dor compreensível, mas agora foi catalogada no apêndice de DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, [Manual estatístico e diagnóstico de transtornos mentais], 5ª edição), como Transtorno do Luto Complexo Persistente (PCBD, Persistent Complex Bereavement Disorder). Os estudos desse transtorno, que se estima afetar 10% dos que sofreram uma perda, lançam luz sobre as razões da especial vulnerabilidade de Vitória a um luto profundo e
corrosivo.56
As mulheres têm mais propensão do que os homens a sentir uma dor prolongada, e são particularmente suscetíveis se perderam um genitor na infância, se foram ameaçadas ou tiveram pais controladores, se perderam um cônjuge que lhes dava apoio e com o qual mantinham uma relação de
alta dependência ou se a morte foi súbita e inesperada.57 Outros fatores que contribuem para esse transtorno incluem um histórico de transtorno dos estados de ânimo e um estilo de apego por insegurança. Vitória era terreno
fértil para ele.58 Embora os vitorianos aceitassem um longo luto, o isolamento de Vitória ultrapassava decididamente o que se considerava
apropriado para uma rainha viúva.59 A simpatia inicial desaparecera nos meados da década, poucos anos após a morte de Albert.
Hoje, além de exercícios regulares e boa alimentação, provavelmente se prescreveriam antidepressivos e psicoterapia. Em lugar disso, a rainha capaz de controlar um Império, mas não o próprio coração, reunia em torno de si outras mulheres tristes e se entregava à infelicidade. Detestava que lhe
dissessem que voltaria a ser feliz.60 A sugestão de que as coisas melhorariam parecia uma grosseira deslealdade à memória de Albert. E a ideia de um substituto era impossível, tornando a perda ainda mais profunda. Quando um alto dignitário religioso lhe disse que, de agora em diante, ela devia se pensar como uma noiva de Cristo, Vitória respondeu: “É
o que chamo de palavrório vazio”.61
O tempo atenuou a angústia. Mas, quando ela passou, Vitória sentiu falta, como escreveu a Lady Waterpark: “A dor violenta passou — quase sofro pela falta dela, pois mesmo nela há doçura, mas o luto constante e a melancolia são sempre permanentes”. Apesar disso, disse ela, estava pronta para “continuar a lutar com ânimo”. Passara quase três anos dizendo que queria morrer, mas agora dizia que queria viver para a família e os
amigos.62
À medida que se fortalecia e se reanimava, conseguia reencontrar prazer na natureza. Retomou aos poucos o registro de belas cenas no diário. Em novembro de 1866, às altas horas da noite, Affie pediu à criada de Vitória que fosse acordá-la e lhe dissesse que o céu estava repleto de estrelas cadentes. Vitória saiu do leito estremunhando e se enrolou no roupão. Postando-se à janela, viu um espetáculo extraordinário de grandes estrelas cintilantes e meteoros atravessando o céu como foguetes. Ficou ali durante meia hora e mandou os criados acordarem o maior número possível de pessoas. Não queria que ninguém perdesse o espetáculo.
* Helena recebera um dote ao se casar em 1866; Louise recebera dote em 1871; Arthur ganhara uma subvenção ao fazer 21 anos em julho de 1871; o príncipe Alfred ganhara renda anual ao fazer 21 anos e mais outra ao se casar em 1873.