Vitória, a rainha
24. A fada rainha desperta
“Não sei o que você quer dizer com seu jeito”, disse a rainha; “aqui todos os
jeitos pertencem a mim.”
LEWIS CARROLL, DO OUTRO LADO DO ESPELHO, 1
Que fibra! Que força! Que energia!
BENJAMIN DISRAELI SOBRE A RAINHA VITÓRIA, 26 DE NOVEMBRO DE 18792
Numa manhã de junho de 1875, tomando o desjejum no chalé na área com o nome tão apropriado de Frogmore [Charco das Rãs], de repente Vitória percebeu uma “quantidade imensa de rãzinhas” pululando nos terrenos do
Castelo de Windsor. 3 Eram milhares, “saltando e se arrastando por toda a relva e trilhas, que pareciam crescer… dando a impressão de que a relva estava viva!”. Horrorizada, mandou que os criados ficassem varrendo os caminhos durante horas, até removerem todos aqueles seres “repulsivos”. As rãzinhas lhe deram comichão na pele. Um naturalista lhe falou que as rãs tinham vindo de longe para procriar no lago em Windsor, mas logo se dispersariam, mais ou menos como uma praga de gafanhotos. Vitória, que podia se dar a um grande trabalho para salvar a vida de uma tartaruga velha e chorava à mera ideia de cães sofrendo de dor, continuou a achar
“absolutamente pavorosa” a visão das rãs.4
Um ano depois, tinham ido embora. Os caminhos em Windsor estavam varridos, os gramados aparados, as sebes podadas. A vida da rainha era organizada e confortável; dobrava a natureza — e o mundo — a seus desejos. Mas a paisagem política ao redor estava mudando rapidamente, com o declínio do Império Turco, a diminuição do controle austríaco na Europa e o aumento da influência da Itália e da Alemanha, agora Estados unificados. A Europa se levantava após as bárbaras ações sangrentas dos mercenários turcos contra os búlgaros em revolta (a Bulgária, na época, fazia parte do Império Otomano). Em julho de 1876, quando estava num trem para São Petersburgo, o poeta russo Ivan Turguêniev escreveu um poema, “Croquê em Windsor”, comparando as bolas de croquê em que Vitória batia alegremente com o taco às cabeças cortadas das mulheres e
crianças búlgaras rolando aos pés da milícia turca.5 A bainha do vestido de Vitória estava empapada de sangue. A imprensa russa se negou a publicar o poema, por medo de ofender Vitória; assim, o poema circulou em cópias
manuscritas.6
As atrocidades turcas foram pavorosas. Transportavam crânios dos búlgaros empilhados em carroças ou fincados em ferros, grávidas tinham o ventre rasgado e filas e filas de fetos brandiam em baionetas, crianças eram vendidas para haréns e como escravas, mulheres eram brutalmente estupradas, trancavam-se pessoas dentro de igrejas, e então eram queimadas
vivas. 7 “Cabeças cristãs”, escreveu um correspondente, eram “atiradas pela
praça, como bolas, de um turco para outro.” 8 Mas poucos na Inglaterra se sentiram indignados com aquela que seria uma das maiores atrocidades da
Era Vitoriana. Disraeli descartou a questão como “conversa fiada de bar”.9 A rainha tinha certeza de que as histórias eram exageradas. Os turcos, afinal, eram seus aliados. Os britânicos tinham passado anos ajudando a proteger as fronteiras turcas contra os russos bárbaros.
O Parlamento foi indesculpavelmente lento em investigar as ações dos turcos. Minimizando a natureza das atrocidades, mesmo quando a extensão delas era patente, Disraeli subestimou grosseiramente o estado de ânimo do público. Planejava prosseguir na defesa de uma Turquia debilitada contra os avanços da Rússia, sobretudo para proteger a rota comercial britânica até a Índia. Seu instinto estava errado. Coube aos jornais — em especial ao Daily News, que publicou uma reportagem em 23 de junho, calculando o número de cristãos mortos entre 18 mil e 30 mil — pressionar os políticos para que
fizessem a devida investigação.10
Desde que os turcos otomanos tinham tomado posse da vizinha Bulgária — no lado oeste da fronteira turca ao norte —, quinhentos anos antes, os búlgaros se ressentiam com seu domínio (basicamente militar). Quando se revoltaram em 1876, as represálias foram imediatas. Muitas delas foram empreendidas contra cristãos por bashi-bazouks, mercenários implacáveis que, às vezes, tinham que ser refreados pelas próprias forças turcas para as quais trabalhavam. Nas palavras de Vitória, eram “mutiladores horrendamente cruéis… com rosto estreito, barba em ponta, sem nenhum uniforme… com muitas adagas enfiadas no cinto”. Ela era leal ao obstinado Disraeli, mas começou a perceber que os rumores não eram infundados.
Mais de vinte anos depois da Guerra da Crimeia, a Turquia — o homem doente da Europa — ameaçava ruir outra vez. A Questão Oriental não estava resolvida. Agora havia dois temas rivais de preocupação para a Grã-Bretanha: a estabilidade da Turquia aliada e o destino dos súditos cristãos
em terras turcas. 11 Os agitadores sustentavam que os demais países da Europa deviam intervir para proteger os súditos cristãos. O outro lado temia que isso apenas autorizaria a Rússia a entrar em guerra contra a Turquia, em defesa dos cristãos ortodoxos na Bulgária que contavam com a proteção russa. A Rússia ainda estava decidida a fragmentar a Turquia e ganhar acesso ao mar Mediterrâneo via Constantinopla, na mesma medida em que a Grã-Bretanha estava decidida a manter a unidade territorial, a preservar sua autoridade na região e seu acesso à Índia.
Ao ler as atrocidades nos jornais, Gladstone, agora com 69 anos e numa espécie de semiaposentadoria depois de renunciar à liderança do partido
liberal, foi tomado de raiva.12 Não era apenas uma batalha da civilização contra a tirania, a seu ver, mas das trevas contra a fé. Como cristão, que se dedicava a escrever livros de teologia desde sua renúncia, ficou especialmente furioso com a perseguição religiosa a outros cristãos. No leito, redigiu um panfleto tonitruante, exigindo que os turcos deixassem a Bulgária. Sua obra mais famosa, Bulgarian Horrors and the Question of East [Os horrores búlgaros e a questão oriental], saiu em 6 de setembro de 1876 e foi um sucesso de vendas instantâneo; No primeiro mês, foram vendidos 200 mil exemplares. Mas Vitória, que preferia a Realpolitik aos altos princípios e ao intervencionismo, declarou que ele estava apenas
jogando “lenha na fogueira”.13
Gladstone tinha mais habilidade do que Disraeli para perceber o ânimo popular; agora isso ficava claro. Era um intelectual preparado, que gostava de gravatas-borboleta e costumava manter um ar sério. Estivera na Câmara dos Comuns por 44 anos, ocupando uma série de cargos. Encadeando-se a discussão sobre a Turquia, logo se tornou a figura de mais autoridade na oposição. Ademais, detestava Disraeli: o desprezo mútuo e a concorrência entre ambos contribuíram para gerar a maior rivalidade política do século XIX.
No final de 1876, o país estava galvanizado e aumentavam as pressões para que o governo agisse. A opinião pública pendia cada vez mais para o lado de Gladstone, vendo a necessidade de agir para proteger os búlgaros. Thomas Carlyle, junto com John Ruskin (que chamava Disraeli e Gladstone de “duas velhas gaitas de fole”), liderou alguns dos comícios, que foram
organizados às centenas, contra os turcos e sua presença na Bulgária.14 Charles Darwin contribuiu com cinquenta libras para um fundo de
assistência.15 Victor Hugo satirizou a tendência de indivíduos como Disraeli em descartar os horrores como meros exageros: “A criança que foi atirada da ponta de uma lança para outra foi, na verdade, apenas perfurada com
uma baioneta”.16 Oscar Wilde, então com 22 anos, estudando os clássicos em Oxford e ganhando fama como esteta decadente de cabelo comprido que gostava de andar com girassóis, enviou a Gladstone uma cópia de seu
poema “Soneto sobre o massacre dos cristãos na Bulgária”.17
Mas Vitória — que tinha feito uma misteriosa acrobacia mental para culpar a Rússia pelas atrocidades turcas e responsabilizar Gladstone pela instigação do sentimento popular contra os turcos — ficou brava. Gladstone
era um mero “encrenqueiro e atiçador”.18 A rainha, cada vez mais conservadora, repreendeu a filha Vicky por mostrar simpatias pela causa liberal. Segundo o raciocínio de Vitória, para preservar o prestígio do Império Britânico, a Grã-Bretanha devia deixar claro para os russos que, caso invadissem Constantinopla, ela iria proteger os interesses da Turquia. O gabinete ministerial estava dividido sobre a questão, mas Disraeli concordou com a rainha; juntos, agiram secretamente para transmitir essa mensagem aos russos em agosto de 1877, numa iniciativa espantosa, ainda mais porque nem mesmo o ministro das Relações Exteriores estava ao par. Nas duas décadas desde o fim da desastrosa Guerra da Crimeia, ela fora minuciosamente analisada e muita gente, dentro e fora do Parlamento, era da opinião de que, se a Grã-Bretanha tivesse sido mais enfática em proteger a Turquia, a Rússia nem a teria invadido. A preocupação central de Vitória e Disraeli era proteger o poder britânico.
Disraeli errou em não condenar inequivocamente as atrocidades em público. Temia que um melhor destino para os eslavos balcânicos poderia trazer problemas internos; pareceria mais lógico que a Irlanda ganhasse autonomia. Mas seus objetivos não eram claros, afora o rompimento da insultuosa Liga dos Três Imperadores — uma aliança entre a Alemanha, a Rússia e a Áustria-Hungria que Bismarck formara em 1873. O propósito da Liga era controlar a Europa Oriental — “o que Disraeli considerava uma
afronta ao prestígio britânico”.19 Para Gladstone, a política externa era uma questão de moral. Para Disraeli, era uma questão de poder.
Benjamin Disraeli era um primeiro-ministro bastante diferente. Vestia-se como um dândi, com trajes de veludo chamativos, anéis por cima das luvas e um cacho no meio da testa. Ostentava cavanhaque, ruge nas bochechas e uma expressão levemente enfarada e zombeteira. Abrira caminho até o centro da sociedade britânica usando seu charme, mas Disraeli era um intruso (até hoje, continua a ser o único primeiro-ministro da Grã-Bretanha de origem judaica). Entre os dois períodos em que ocupou o cargo, escreveu seu 16º romance — Lothair —, que foi um sucesso. O talento para a literatura popular naquela época, dos meados ao final do século XIX, era considerado um tanto suspeito: em vez de se dedicar, como faziam outros cavalheiros, a “estudos clássicos, históricos ou constitucionais”, ele escreveu um “romance sentimental afetado” que, para alguns, “ressuscitava todas as dúvidas anteriores se um literato judeu, dotado de tanta imaginação e com aparência tão pouco convencional, era a pessoa adequada para levar
um partido conservador à vitória”.20
Mas, em 1874, Disraeli desafiou os críticos. Seu partido conservador obteve, pela primeira vez desde 1841, a maioria dos assentos no Parlamento. Vitória, encantada, escreveu em tom conspirador a Vicky: “Você já viu algum dia um resultado tão geral e esmagador de uma Deposição contra um ministro, como há contra o sr. Gladstone? Mostra
como confiam pouco nele e como é impopular!”.21 Albert, em vida, gostava de Gladstone, com seu rigor intelectual e devoção religiosa. Mas Vitória desconfiava dele e chegara à conclusão de que era “um grande infortúnio”. Julgava-o muito inteligente, mas péssimo estadista, forçando leis simplesmente por princípio, a um alto preço político. Vicky compartilhava do liberalismo paterno e naturalmente se identificava com Gladstone, mas também achava que ele era contraditório e “incompreensível” — um político medíocre. Vitória ficava perplexa com sua popularidade e exultou quando ela se dissipou: “O sr. Gladstone é um ministro muito perigoso — e
assombrosamente antipático”.22
Gladstone, além disso, era insosso e distante. Pior, não tinha a menor
graça: não contava nenhuma indecência nem fofocas maliciosas.23 A poeta e romancista Emily Eden comentou que Gladstone não falava, apenas pontificava: “Se o mergulhassem em água fervendo, enxaguassem e torcessem até o fim, imagino que não sairia uma única gota engraçada”. Seus informes eram complicados e enfadonhos. Vitória reclamava que ele falava com ela como se fosse um comício público. Disraeli, todo presunçoso, disse: “Gladstone trata a rainha como um departamento
público; eu a trato como uma mulher”.24 Os grandiosos dons retóricos de Gladstone não encontravam ouvidos junto à rainha, e ela veio a detestar o que lhe parecia ser condescendência. A Gladstone faltavam totalmente quaisquer cordialidade e intimidade que Melbourne, Brown e Disraeli lhe haviam proporcionado. Nas palavras de Lady Rosebery, “o sr. Gladstone pode ser um assombro de erudição, mas nunca entenderá um homem e
muito menos uma mulher”.25
Disraeli entendia as mulheres. Depois de se sentar ao lado de Gladstone e conversar com ele, uma mulher declarou: “Julguei-o o homem mais inteligente da Inglaterra. Mas, quando me sentei ao lado de Disraeli,
julguei-me eu a mulher mais inteligente”.26 Esta era a grande essência do charme: o foco exclusivo e lisonjeiro. Mesmo quando discordava de Disraeli, Vitória o considerava encantador, dizendo a Lord Rosebery: “Ele tinha uma maneira, quando discordávamos… de dizer ‘cara senhora’ muito
persuasiva e de inclinar a cabeça para um lado”.27 As boas graças de Vitória ainda tinham importância suficiente para fazer diferença para um primeiro-ministro; era uma fonte de apoio para Disraeli e de mágoa para Gladstone.
Vitória vicejava na presença de um homem que a encantasse, confiasse nela e procurasse sua aprovação. Albert fazia as pessoas se sentirem burras — assim como Gladstone. Disraeli fazia Vitória se sentir de novo segura de si. Quando foi visitá-la em Osborne, ele achou que ela até lhe daria um abraço: “Estava cheia dos sorrisos e, enquanto tagarelava, deslizava pela
sala como um pássaro”.28 Em atenção à gota de Disraeli, a rainha até o convidou a se sentar — o primeiro premiê a quem concedia tal honra desde Lord Melbourne. Como Melbourne, Disraeli também estava pranteando a morte da esposa, Mary Anne, com quem estivera casado durante 33 anos.
Ele criou uma afeição profunda e genuína por Vitória. 29 “Amo a rainha”, disse ele à dama viúva Ely após a morte da esposa, “talvez a única pessoa
que me restou neste mundo que realmente amo”.30
Em muitos aspectos, Disraeli era o oposto de Albert. Segundo seu biógrafo Robert Blake, ele era “arrogante, exibido, de inteligência rápida, generoso, emotivo, briguento, extravagante, teatral, doido por uma
conspiração, amante de intrigas de bastidores”.31 Ao contrário de Albert,
Disraeli via as mulheres como iguais em termos intelectuais.32 Ao escrever sobre seu secretário Montagu Corry, ele disse: “Gosto muito mais dele do que de qualquer outro homem, mas, como regra, exceto nos negócios, a
companhia masculina não me agrada muito”.33 Mesmo seus romances se dirigiam basicamente a mulheres. Provavelmente era uma pena para ele que as mulheres não votassem; não admira que fosse favorável à ideia do voto feminino.
Suas roupas janotas, o espalhafato, o gosto por banhos turcos, as amizades íntimas com homens e seu amor por mulheres mais velhas levaram alguns historiadores a sugerir que Disraeli era homossexual ou bissexual. Não existem provas conclusivas que apoiem tal hipótese e, de fato, ele teve um casamento longo e feliz. William Kuhn examinou minuciosamente os livros de Disraeli em busca de sinais de homoerotismo e tendências afeminadas, sustentando que as narrativas eram autobiográficas numa época em que era preciso manter o amor homossexual em segredo: fazia pouco tempo, desde
1861, que a sodomia passara a ser crime sujeito à pena de morte. 34 Kuhn conclui que Disraeli “adotou uma espécie de duplicidade, uma ambiguidade deliberada, de forma que amava homens e mulheres tanto sexual quanto romanticamente”, e que ele fora “mais do que simples amigo” de Montagu Corry. A seu ver, Disraeli podia ter sido “o que hoje chamaríamos de
gay”.35 Seu grande biógrafo, Robert Blake, simplesmente sugeriu que ele era como o ostentoso Oscar Wilde, que mantinha relações sexuais com homens durante seu casamento com uma mulher — e os paralelos são evidentes.
Na primavera de 1877, finalmente a Rússia invadiu a Turquia, numa jogada para apoiar os búlgaros e unificar os cristãos ortodoxos. Vitória tomou o fato como afronta pessoal. A cada mês que se passava em guerra, sua resolução aumentava e seu ódio aos russos se intensificava sob a capa
do patriotismo. “Exulto”, disse ela, “a cada derrota russa.” 36 Ponsonby culpou Disraeli por reduzir a disputa a um jogo de xadrez entre a rainha e o tsar. Disraeli jogou bem suas cartas, refreando a rainha com a divisão de seu
gabinete e atiçando seu gabinete com a posição inabalável da rainha.37 Para Vitória, os que discordavam dela eram tolos ou traidores. Considerava que ela e Disraeli representavam “a política imperial da Inglaterra”, enquanto Gladstone não passava de um cruzado “sentimental”. Começou a mencionar “o Leão britânico” em sua correspondência, ameaçando que ele iria
“morder, agora que o provocaram”.38 A Rússia precisava saber que a Grã-Bretanha, se necessário fosse, estava pronta para lutar.
Em tempos de crise, os pontos fortes e fracos de Vitória se emparelhavam alternados: a lealdade, o patriotismo e o senso de dever, ao lado da incapacidade de enxergar a posição do adversário, a teimosia e a tendência de enquadrar as coisas como batalhas épicas maniqueístas entre o bem e o mal. Julgava fracos e inseguros os que vacilavam, dizendo a Disraeli que
gostaria de ir pessoalmente fustigar os russos.39 Quando não conseguia dobrar o Parlamento à sua vontade, sentia-se uma pobre infeliz. Entre abril de 1877 e fevereiro de 1878, por cinco vezes ameaçou abdicar do trono,
preferindo renunciar a ver seu país “beijar os pés dos grandes bárbaros”.40 Vituperava contra os parlamentares, dizendo que lhes faltava patriotismo e decência: “É uma desgraça ser uma rainha constitucional e não poder fazer o que é correto. De bom grado eu jogaria tudo para o alto e me recolheria à
paz e tranquilidade”.41
As cartas saíam dos castelos e residências de Vitória como nuvens de morcegos. Disraeli contou à sua amiga Lady Bradford que “a Fada [como agora gostava de chamá-la] escreve todos os dias e manda telegramas de
hora em hora”. 42 Disraeli e a rainha agora trabalhavam em parceria, e Vitória se referia à dupla dizendo “nós”. Quando Disraeli obteve o apoio de seu partido para chamar o Parlamento, aumentar as forças britânicas e estabelecer uma mediação direta, ela o recompensou com uma demonstração pública de apoio. Pela primeira vez desde sua visita a Lord Melbourne em Brocket, em 1841, ela foi almoçar em Hughenden Manor, a residência do primeiro-ministro.
No verão de 1878, Vitória recebeu 11 mil telegramas nas quatro semanas que passou em Balmoral — a maioria deles sobre a Questão Oriental. Em março daquele ano, os russos tinham imposto o Tratado secreto de San Stefano à Turquia, criando uma Bulgária independente e de extensão territorial alarmante. Mas o Congresso de Berlim, que teve início em 13 de junho, anulou o acordo; Disraeli e Lord Salisbury, ministro das Relações Exteriores, passaram um mês negociando novos termos entre a Rússia e a Turquia, com o auxílio da Prússia e da Áustria, e acabaram com o Tratado de Santo Stefano sem precisar recorrer a guerras. A Bulgária se converteu em estado independente, mas menor e menos ameaçador não só para os estados vizinhos, mas também para a Grã-Bretanha.
Disraeli conseguiu igualmente abocanhar Chipre para os britânicos, sem nenhuma justificativa aparente. Ele atualizava diariamente a rainha, por carta. O premiê de 73 anos, persistente e cheio de energia, passou semanas articulando, manobrando, socializando e fumando charutos com o corpulento Bismarck, apreciador de champanhe, até concluírem um acordo e Disraeli ficar exausto. Esse acordo vigorou até 1918; por ora, a expansão russa no Mediterrâneo fora contida e a Europa preservada. Bismarck louvou seu novo amigo britânico: “Der alte Jude, das ist der Mann” (“O velho
judeu, este é o homem”).43
Disraeli retornou à Inglaterra em 16 de julho, acolhido por multidões entusiasmadas e aclamações calorosas: foi seu momento mais alto como primeiro-ministro. Evitara-se a guerra e a Grã-Bretanha obtivera o que queria. Vitória lhe enviou uma carta e um buquê. As flores faziam parte da amizade deles desde muito tempo: ela lhe enviava prímulas e galantos de Osborne, que ele chamava de “presente da fada”. Vitória agora era uma tory tão ferrenha quanto fora whig sob Lord Melbourne. Depois do êxito nas negociações no Congresso de Berlim, ela jurou vingança contra os liberais:
“O dano que causaram ao país é irreparável e nunca o esquecerei”.44 Estava mais velha, mas sua força aumentou, as energias voltaram e seguia inadvertidamente o conselho de Albert de se dedicar a algo externo para vencer a infelicidade. Abriu três vezes o Parlamento no mandato de Disraeli
como premiê.45 E nunca perdoou Gladstone.
Rainha. Igreja. Império. Era assim que Disraeli definia a filosofia de seu
partido e foi como modelou a retórica tory para o século seguinte.46 Vitória era sua rainha encantada, a quem levava títulos e vastas extensões territoriais, simplesmente para agradar-lhe. Os despojos imperiais eram troféus agradáveis. A primeira coisa que Disraeli conseguiu obter foi quase metade do Canal de Suez, que adquiriu em 1875 de um turco falido, o quediva do Egito, por 4 milhões de libras. As parcelas restantes do Canal eram francesas e, como três quartos dos navios que atravessavam o Canal eram britânicos (rumando, na maioria, para a Índia), Disraeli agarrou a oportunidade para impedir o controle total dos franceses. No dia seguinte, Vitória escreveu em tom aprovador a Theodore Martin, biógrafo de Albert, que Disraeli tinha “ideias muito amplas e uma noção muito elevada da posição que o país deve ocupar. Sua inteligência é muito maior, mais ampla e sua apreensão das coisas grandes e pequenas muito mais rápida do que as
do sr. Gladstone”.47
Benjamin Disraeli modernizou quase sozinho o partido tory. A política, em sua concepção, devia se concentrar na justiça social, na reforma e no bem-estar dos britânicos. Seu governo era socialmente progressista, numa guinada radical passando do partido tory da aristocracia e da classe média alta para um novo partido da democracia e das massas. Com uma hábil manobra, prevalecera sobre Gladstone em 1867 derrotando-o no Projeto de Reforma, que ampliava o direito de voto a todas as unidades domiciliares — e que daria aos homens de fortuna mais de um voto —, e então apresentando seu próprio projeto, ligeiramente mais progressista. Quando esse projeto não passou, ele o simplificou propondo apenas o sufrágio por unidade domiciliar; ao ser aprovado, recebeu os créditos por toda a reforma. Era uma política de mestre, consolidando sua posição como futuro líder do partido, humilhando Gladstone e preparando uma redefinição de conservadorismo. Como disse um observador, Disraeli vislumbrara a existência de um novo tipo de eleitor tory nas classes trabalhadoras, tal
como um escultor enxerga “os anjos no mármore”.48 Desde então, o conservadorismo das classes trabalhadoras tem sido um traço definidor da política britânica, para pessoas como Stanley Baldwin, Winston Churchill, Harold Macmillan e Edward Heath — bem como, em data mais recente, Margaret Thatcher e John Major. Mas Disraeli, além de ter seus princípios, era um indivíduo pragmático. Tão logo conseguiu a aprovação do Segundo Decreto de Reforma, trabalhou para garantir proteção aos assentos parlamentares dos conservadores eleitos pelas áreas rurais, contra os eleitores das classes trabalhadoras recém-habilitadas a votar, que poderiam
desbancar os tories.49
Sob a liderança de Disraeli, os cortiços foram derrubados e substituídos por novas unidades habitacionais e se implantaram medidas para incentivar a poupança. Em 1875, ele aprovou uma série de decretos avançados, protegendo os direitos trabalhistas, sustentando que eram tão importantes
quanto os direitos de propriedade.50 Duas dessas leis asseguravam aos trabalhadores a mesma indenização que tinham os patrões com o rompimento dos contratos e reconheciam a legalidade dos piquetes pacíficos, protegendo os sindicatos de acusações de conspiração. O Decreto dos Arrendamentos Agrícolas determinou que os arrendatários poderiam receber pelas melhorias que fizessem na propriedade. O Decreto de Saúde Pública tornou obrigatórios o calçamento e a iluminação das ruas, instituiu autoridades sanitárias locais e determinou que as novas construções tivessem sistema de esgoto e água corrente. O Decreto Fabril de 1878 proibia o emprego de crianças com menos de dez anos, estipulava a jornada máxima de meio período para as crianças de dez a catorze anos e, para as mulheres, a jornada máxima de 56 horas semanais. Outras novas leis dispunham sobre o empréstimo de recursos aos municípios para a
construção de habitações para as classes operárias.51 Gradualmente, Vitória via a Inglaterra se tornar um país mais justo e mais moderno.
Houve também as leis que Disraeli implantou apenas para agradar à rainha. A primeira foi o Decreto de Regulamentação do Culto Público de 1874, para remover as influências católicas da igreja. (Gladstone se opôs.) A segunda foi o Decreto contra a Crueldade aos Animais de 1876, que obrigava os pesquisadores a demonstrar que qualquer experiência dolorosa com animais era absolutamente indispensável e assegurava que, nesse caso, eles seriam anestesiados. Por fim, Disraeli impôs por lei que se concedesse a Vitória o título de imperatriz da Índia, apesar da firme oposição e das acusações de que isso se destinava apenas a garantir a precedência da rainha em relação à nora, a grã-duquesa Marie (filha de Alexandre II da Rússia) — a qual insistia em receber o tratamento de “Sua Altera Imperial” em vez de “Sua Alteza Real” —, e à sua filha Vicky, que se tornaria imperatriz quando Fritz herdasse o trono prussiano. Outros sugeriram que era uma manobra para conceder aos filhos de Vitória uma posição mais elevada nas cortes
germânicas, acusação que Vitória qualificou de “absoluta falsidade”.52 Ela considerava que o título era informalmente seu desde que a Grã-Bretanha assumira o controle da Índia em 1858, e ficou perplexa com a oposição a isso. Afinal, Bertie acabara de fazer uma triunfal viagem à Índia, onde encantou os anfitriões e pôde se exibir entre caças ao tigre e ao elefante. Em 1º de maio de 1876, a rainha foi formalmente anunciada como imperatriz da Índia. Foi um de seus momentos de maior orgulho. Mergulhou a pena no tinteiro e assinou com todo o capricho “Vitória R e I” (Regina et Imperatrix).
Mas a tragédia continuava a espreitar nos bastidores da vida de Vitória. Estava envelhecendo, quinquagenária avançada, e a cada ano aumentavam as perdas e tristezas. Em certa manhã de maio de 1873, os dois meninos de Alice, Ernest e Frederick William (que chamavam de Fritz ou “Frittie”), estavam brincando de esconde-esconde. Alice se afastou por um instante, pôs a cabeça pela porta e chamou a pajem, para vir cuidar das crianças. De repente, o pequeno Fritz foi até a janela, subiu no parapeito e perdeu o equilíbrio, caindo no balcão abaixo. O grito da mãe atravessou as paredes; os circunstantes nas ruas olharam para cima. O menino, hemofílico, estava inconsciente. Não quebrara nenhum osso, mas teve hemorragia cerebral e morreu.
Quase exatamente três anos depois, em 1876, o bebê de Helena teve uma série de convulsões e morreu. Distante na Escócia, muito infeliz, Vitória continuava tendo visões do bebê à sua frente, tendo pensado que ele iria se recuperar. A família enterrou mais um caixãozinho, dessa vez na cripta da St. George’s Chapel, em Windsor. Vitória passou a usar um medalhão contendo um cacho do menino: por que essa dor interminável?, pensava ela. Pobre Helena. E pobre Alice. Quando o duque de Hesse-Darmstadt morreu, em 1877, Louis, marido de Alice, foi seu sucessor no trono, e a carga de trabalho de Alice triplicou. Precisava providenciar umas férias para a pobre menina, pensou Vitória. Mesmo durante a guerra, estando grávida, Alice percorria os hospitais, fazendo curativos nos soldados e arrumando as enfermarias. No verão de 1878, Vitória pagou as férias de toda a família em Eastbourn, um balneário muito frequentado na costa sul da Inglaterra.
A doença parecia nunca se afastar da crescente progênie real. No final de 1878, a difteria infectou a família de Alice em Hesse-Darmstadt. Alice ficou velando os cinco filhos, com os olhos vermelhos de preocupação. Em 16 de novembro, a filha May, de três anos, morreu. Logo Alice também adoeceu. Ao saber que Alice fora atingida, a rainha chorou, enviou seu médico a Hesse e ficou aguardando nervosa as notícias. Consultou Bertie e Leopoldo e, supersticiosamente, foi rezar na Sala Azul, onde Alice havia cuidado do pai nos dias mais negros de sua vida. Em 14 de dezembro, dia em que morrera Albert, Alice também morreu: exatamente dezessete anos depois. Tinha apenas 35 anos.
John Brown levou os telegramas a Vitória e ficou a seu lado enquanto a rainha soluçava:
Que essa filha doce, querida, talentosa, notável, de coração terno e espírito nobre, que se conduziu
tão admiravelmente durante a doença de seu querido pai e depois me apoiando e me ajudando de
todas as maneiras possíveis — fosse chamada de volta junto ao Pai, no próprio dia de aniversário
de sua morte, parece quase inacreditável e profundamente misterioso!53
A dor aproximou a família. Bertie ficou dilacerado com a perda de sua adorada parceira de travessuras na infância e balbuciou a Vitória: “Os bons
sempre são levados, os maus ficam”.54 Então, passados apenas três meses, o filho caçula de Vicky, Waldemar, morreu de difteria. Vicky ficou arrasada, mais uma vez. Chorava ao final de suas estadas na Inglaterra; queria estar lá com mais frequência, mas Vitória nem sempre autorizava. A inteligência rigorosa e filosófica de Vicky — que Albert cultivara com tanto cuidado — era de pouca valia em seu novo papel de esposa e mãe. “De modo geral”, disse pensativa a Vitória, “pode-se dizer que as mulheres sem inteligência são as mais felizes, como se passar pela vida da maneira mais plácida
possível realmente constitua a felicidade.”55 Seu primogênito, Guilherme, o futuro Kaiser, cujo braço estropiado tanto a perturbara, estava crescendo e
se tornando rude, antipático e desrespeitoso.56
A partir de então, Vitória veio a dedicar especial interesse aos filhos de Alice, seus cinco netos órfãos. O que ela não sabia é que um deles seria responsabilizado por provocar uma revolução. Alexandra, a filha de Alice que se casou com o tsar Nicolau II, transmitiu o gene da hemofilia a seu filho Alexis. Ela viria a cair sob a influência de Raspútin, que se dizia monge, por causa de sua habilidade aparentemente sobrenatural de acalmar o menino e até deter seus sangramentos.
Em 1879, a rainha completou sessenta anos. Finalmente estava criando cabelos brancos. Sentia o peso da idade e a perda de Alice lhe “retirara a
elasticidade”.57 Agora estava consideravelmente rotunda e parecia ter
diminuído de altura.58
Em 17 de março de 1879, Lady Cavendish escreveu em seu diário que, embora a rainha tivesse se apresentado muito bem num casamento, com um vestido amplo e longo em branco e preto, “penso que diminuiu e está mais
baixa do que nunca”. 59 Vitória insistia em ser pintada com expressão séria condizente com um monarca, mas em reservado criticava sua “cara feia e
velha”.60 Aos olhos da neta Sophie, porém, parecia uma bonequinha: “Minha querida vovó é bem pequenininha — uma garotinha muito, muito
graciosa”.61 Ela se fortalecera ao calor do afeto de seus dois homens, Brown e Disraeli. Era quase impensável que, em apenas quatro anos, os dois grandes alicerces de sua vida desapareceriam.