Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 28 de 44

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Vitória, a rainha

25. Suficiente para matar qualquer homem

25. Suficiente para matar qualquer

 

homem

 

A rainha por si só é suficiente para matar qualquer homem.

WILLIAM GLADSTONE1

 

É difícil apontar o momento exato em que a antipatia se petrifica em aversão. Mas, para Vitória, o ano de 1880 foi quando, para dizer o mínimo, sua má vontade em relação a Gladstone se transformou em hostilidade quase indisfarçada. Em abril de 1880, chegou a Baden-Baden, na Alemanha, onde a rainha estava de férias, um telegrama informando que Disraeli perdera as eleições parlamentares. Disraeli não estava preparado para esse resultado e tampouco preparara sua fada rainha. “É um telegrama terrível”, disse ela a seu secretário particular, Henry Ponsonby, que ficou chocado com a linguagem que ela usou. Disraeli escreveu que estava arrasado: “Suas relações com Vossa Majestade eram sua principal e, poderia quase dizer, sua única felicidade e interesse neste mundo. Elas lhe surgiram quando ele estava sozinho e o inspiraram e o sustentaram em seu

isolamento”. 2 Vitória escreveu em tom conspirador que esperava poderem trocar correspondência “sobre muitos assuntos privados e sem ninguém ficar se espantando ou se ofendendo, e, ainda melhor, sem ninguém ficar sabendo a respeito” (ela já tinha feito isso antes, com Melbourne. Não era propriamente ilegal, mas contrariava a convenção de que os monarcas não se correspondam com membros da oposição, pois isso pode ser visto como enfraquecimento do governo).

Ainda pior do que perder Disraeli era pensar que Gladstone o substituiria. Vitória voltou preocupada à Inglaterra, ainda naquele mês: como poderia impedir que “o William do Povo” se tornasse o primeiro-ministro do povo? Falou a Disraeli que seria impossível chamar Gladstone e lhe pedir para formar um governo, “pois a única coisa que eu poderia dizer é que não

consigo confiar nele nem lhe dar minha confiança” 3 (e, a rigor, não era obrigada a isso, pois ele já renunciara antes, como líder dos liberais). Henry Ponsonby lhe disse várias vezes que devia chamar Gladstone, mas, na tentativa de evitar isso, Vitória levou vários dias consultando outros liberais. Em 4 de abril, escreveu: “Ela prefere abdicar a chamar ou ter qualquer comunicação com aquele agitador semilouco que logo arruinaria tudo e seria um ditador. Os outros podem se submeter a seu comando democrático,

mas não a rainha”.4 Irrompeu outro acesso de autopiedade: uma viúva “não mais jovem” deve realmente aceitar um homem que tinha sido inimigo de

seu governo? 5

Mas Gladstone era muito mais velho, mais envolvente e com mais autoridade do que os outros dois candidatos possíveis que dividiam a liderança do partido liberal, agora no poder. Ambos tinham direito a recusar: Lord “Harty-Tarty” Hartington — o líder liberal na Câmara dos Comuns — e “Pussy” Granville, o líder liberal na Câmara dos Lordes. Disraeli, que passara dois dias aconselhando Vitória sobre a sucessão após sua renúncia em 21 de abril, disse-lhe para chamar Hartington. Depois que Hartington falou que não poderia formar um governo sem ter Gladstone como ministro, Vitória o instruiu a perguntar a Gladstone se ele estaria no gabinete sob Hartington. Gladstone ficou “assombrado” que até lhe perguntassem isso: claro que era óbvio, após seu eminente desempenho oratório na eleição, que ele tinha a confiança do povo e devia ocupar o cargo de premiê. Relutante (pois ele se opusera à lei que a fazia imperatriz da Índia), Vitória recorreu então a Granville, amigo próximo de Gladstone. Ele lhe disse que Gladstone tinha o apoio do público britânico e lhe garantiu que o GOM — Grand Old Man, como o chamavam — dificilmente ocuparia o cargo por mais de um ano.

Sem alternativa, em 23 de abril Vitória, emburrada, convocou Gladstone a

Windsor.6 Mais tarde, ele comentou alusivamente que ela o cumprimentou

com a “perfeita cortesia da qual nunca se afasta”. 7 Gladstone a informou que queria ser primeiro-ministro e também Chanceler do Tesouro, o que ela considerou excessivo, mas não questionou. Vitória então o repreendeu pela “linguagem muito forte” que usara contra Disraeli durante suas campanhas escocesas, e tentou sem êxito que Hartington fosse nomeado ministro da

Guerra. 8 Cinco dias depois, seu secretário particular Ponsonby lhe disse que Gladstone queria nomear o radical Joseph Chamberlain e o republicano Sir Charles Dilke para seu gabinete. Vitória respondeu com firmeza a Ponsonby que teria de ser “tranquilizada sobre as ideias de ambos” antes de consentir

que fossem nomeados ministros.9 Já dera a Ponsonby uma surpreendente lista de instruções para Gladstone — que não modificasse a política externa nem o domínio britânico na Índia, não cortasse gastos previstos nem

introduzisse “tendências democráticas”. 10 Apesar disso, escreveu Gladstone após o encontro canhestro com a monarca: “Considerando tudo, fiquei

muito satisfeito”.11

Naquela noite fria em que se reuniram em Windsor, as estrelas estavam com um brilho excepcional. Enquanto o vento agitava as árvores lá fora, Vitória fitou o rosto de traços fortes de Gladstone, perguntando-se por quanto tempo ele teria condições de ocupar o cargo. Estava com setenta anos, com dez anos a mais do que Vitória, mas com grande energia e vigor — ao contrário de Disraeli, então com 75 anos, que passara todo o seu primeiro mandato de premiê com problemas de saúde. Mesmo assim, ela garantiu a Disraeli que Gladstone parecia “muito adoentado, muito velho e esgotado, e com a voz fraca”, e que ele lhe dissera que não ficaria muito

tempo no cargo — promessa que não foi cumprida.12

 

Não havia muito que Disraeli pudesse fazer para evitar a derrota. O clima do país mudara e sua vitória no Tratado de Berlim já estava quase esquecida. Os britânicos tinham conquistado vitórias recentes no Afeganistão e na África do Sul, no intuito de manter e expandir seu enorme Império, mas a um alto preço, com muitas baixas sangrentas nas batalhas. Mais importante, porém, era que a economia reduzira seu ritmo após trinta anos de crescimento ininterrupto. Em 1877, o desemprego era de 4,7%; em

1879, subira para 11,4%.13 Os agricultores estavam em dificuldades, mas Disraeli se negava a implantar as medidas de proteção que tinham sido reduzidas nos primeiros anos do reinado de Vitória e que haviam sido retomadas pelos países vizinhos. Disraeli escreveu a Lord Lytton: “O aperto financeiro deste país é a causa e a única causa da queda do governo a que eu

presidia”.14 Publicamente, ele mostrava energia, mas na esfera privada estava abatido e cansado.

Gladstone também empregara uma estratégia eleitoral inédita e surpreendente. Durante o que veio a ser conhecido como campanha midlothiana, ele inaugurou na Escócia uma campanha eleitoral ao estilo americano, discursando ao vivo para multidões com milhares de pessoas numa série de comícios públicos. Falava numa retórica ardente e tonitruante, atacando Disraeli, concentrando-se especialmente em sua política externa “pestilenta”, que consistia, segundo Gladstone, em pisotear os direitos dos pequenos países a determinar seus próprios rumos. Dez mil zulus na África tinham sido mortos, trovejou Gladstone, “pelo único delito de tentarem defender suas casas e lares, suas esposas e famílias contra a

artilharia [britânica] com seus corpos nus”. 15 Também falou da “santidade da vida nas aldeias montanhosas do Afeganistão”. Gladstone defendia a virtude na política externa — significando menor intervenção — e com isso

respondia ao clima de cansaço entre o eleitorado.16

Gladstone pregava um colonialismo mais brando, defendendo os princípios de autonomia local e governo próprio — a mesma posição que defendia para a Irlanda. Gladstone chegou a prometer que daria a independência ao Transvaal na África do Sul, que fora anexado pela Grã-

Bretanha em 1877. 17 Acautelava-se contra expansões na África e no Pacífico e qualificava os novos territórios brutalmente conquistados como “falsos fantasmas de glória”. Vitória ficou furiosa: as guerras, a seu ver,

eram meios necessários para proteger seu Império.18 Desqualificou Gladstone como “orador demagogo americano” e se sentiu pessoalmente insultada com seus ataques à política externa, da qual se considerava autora

ao lado de Disraeli.19 Mas acorriam enormes multidões para ouvir Gladstone falar — uma delas, em Edimburgo, contou com 20 mil pessoas — e as notícias de seus discursos se difundiam rapidamente. A sobrinha dela se divertiu ao vê-lo de volta, mostrando-se “um pouco vaidoso de si

mesmo”, o que escapava a seus hábitos.20 Disraeli — que Vitória, em agosto de 1876, elevara à Câmara dos Lordes como conde de Beaconsfield — se recusou a ler os discursos do adversário.

E assim foi: o GOM voltou a liderar o país. “A queda do beaconsfieldismo”, escreveu ele, “é como a desaparição de um grandioso

castelo num romance italiano.”21 Derrotara seu grande rival. Mas o que faltava a Gladstone era um plano detalhado. Estivera tão ocupado derrotando Disraeli que deixara de formular os detalhes de um programa legislativo próprio.

 

A derrota eleitoral sugou as energias de um Disraeli já fatigado. Na primavera de 1881, foi novamente atacado pela bronquite. Enquanto jazia doente na casa em Londres, embrulhado num robe vermelho e atendido por seu homeopata, Vitória enviava médicos e buquês diários de prímulas, as flores favoritas dele. Quando lhe perguntaram se a rainha o visitaria, Disraeli retrucou: “Não, melhor não. Ela só me pediria que leve uma

mensagem a Albert”. 22

Benjamin Disraeli morreu pacificamente logo antes do amanhecer. Era 19 de abril, um ano depois de perder a eleição. Quem deu a notícia à rainha foi John Brown, que estava especialmente pesaroso, pois Disraeli sempre o tratara com respeito. Vitória convocou o amado secretário de Disraeli, Montagu Corry, e passou horas indagando sobre os momentos finais de seu

“caríssimo e lealíssimo amigo”.23 O próprio Gladstone se pronunciou dizendo que falecera o mais “extraordinário homem” da Inglaterra e talvez

da Europa. 24 O ostentoso político não queria funeral oficial; pediu que fosse enterrado discretamente ao lado da esposa, Mary Anne, em sua casa em Hughenden. Para Gladstone, isso era mais uma mostra irritante de afetação, dizendo: “Morreu como viveu. Só exibição, sem conteúdo nem

autenticidade”. 25 Mas Vitória compreendia. A prímula simples e delicada havia se tornado, a seu ver, símbolo da aversão de ambos ao exagero. Os dois moravam em casas repletas de flores sofisticadas, mas ambos enalteciam a humilde prímula. Vitória enviou braçadas de prímulas ao

funeral, com um cartão dizendo “suas flores favoritas de Osborne”. 26 Gladstone revirou os olhos. (Insistia que Disraeli preferia os lírios e estivera apenas agradando à rainha.)

Os nomes de ambos virão sempre entrelaçados como os maiores rivais políticos modernos da Inglaterra: Gladstone e Disraeli, o Leão e o Unicórnio. Disraeli fora cáustico com Gladstone até o fim e não perdia ocasião de atacá-lo. Quando foi escrever uma homenagem a seu rival no Parlamento, Gladstone teve um acesso de diarreia. Proferir aquele discurso, disse mais tarde a um amigo, foi uma das piores experiências de sua vida. O problema de Gladstone era seu forte veio de honestidade: o que realmente queria era dizer que um Disraeli fraudulento tinha explorado “o lado fraco” dos súditos de Vitória. Todavia, Vitória abrandou por algum tempo sua atitude em relação a Gladstone, graças a suas palavras afáveis sobre o amigo da rainha.

 

Quarenta anos após a coroação, finalmente Vitória, aos sessenta anos de idade, estava segura de si. Agora tory convicta, escarnecia do que julgava ser brandura e incompetência do gabinete ministerial de Gladstone. Dizia consigo mesma que não era ela que mudara, e sim os partidos: os liberais tinham passado para o socialismo, ao passo que os verdadeiros liberais e verdadeiros defensores do Império eram os conservadores. Disraeli, no ano de seu afastamento, continuara a se corresponder com ela, escrevendo 22 cartas ao todo. A maior parte da correspondência era de caráter pessoal, mas uma vez ele entrou em terreno inconstitucional. Em janeiro de 1881, Vitória fez objeções a algumas palavras em seu Discurso do Trono — que o escritório de Gladstone lhe dera para ler em voz alta — afirmando que os soldados deviam sair de Kandahar. Ela não ia proferir o discurso contendo essas palavras; seus ministros não as retiravam. Depois de uma reunião ministerial acalorada em Osborne, vários ministros ameaçaram renunciar. Vitória, furiosa, disse que nunca fora tratada com “tal falta de respeito” em

todos os seus anos no trono.27 Ficou encarando implacavelmente seu gabinete, anotando que “saíram quase tropeçando uns por cima dos outros”.

O tema da disputa era importante — a quem a rainha falava quando abria o Parlamento? Quando Sir William Harcourt, ministro do Interior, lhe disse que o discurso era, na verdade, “o Discurso dos Ministros”, a cólera de Vitória cresceu. Disraeli contradisse Harcourt e assegurou a ela — incorretamente — que a posição de Harcourt era “um princípio desconhecido à Constituição britânica” e não passava de “mero falatório

parlamentar”.28 Leopoldo, que gostava de intervir na política e a quem Vitória considerava o mais inteligente dos filhos, também respaldou a mãe,

argumentando que era, obviamente, o discurso da soberana. 29 Por fim, Vitória concordou em fazer o discurso naqueles termos, embora condenasse o parágrafo sobre o Afeganistão numa carta a Gladstone. Era mais um caso em que afirmava sua autoridade, sem fazer à maneira que gostaria.

Não era façanha pequena conseguir arrancar uma soberana decidida do solene isolamento. Para Disraeli, Vitória tinha obrigação de ressurgir como monarca politicamente ativa, o que, ao final, pode ter sido a maior vingança dele contra Gladstone. Ela havia recuperado as energias e agora estava convicta de seu direito de interferir na política, e parara de falar de seu trabalho como um fardo. Chegou a ameaçar os ministros de ter uma interferência maior do que a Constituição permitia. Disse a Granville em junho de 1881: “Um Soberano Constitucional tem na melhor das hipóteses uma tarefa extremamente difícil, e pode se tornar quase impossível, se

permitir que as coisas prossigam como têm sido nos últimos anos”.30

Enquanto o papel de monarca na política britânica vinha se reduzindo ao de consigliere constitucional com a ampliação do direito de voto e o aumento da influência da Câmara dos Comuns, Vitória continuava a exigir espaço. O fato de ter sido incentivada a respeitar seu próprio julgamento, logo antes de herdar um novo primeiro-ministro com posições em sua maioria opostas às dela, criava a situação ideal para uma batalha. Não admira que o GOM da política britânica achasse que Disraeli havia “exagerado um pouco na educação da [sua] pupila”. Gladstone considerava “intolerável” que a rainha insistisse em ter detalhes íntimos das reuniões ministeriais, como Disraeli fazia no passado.

 

Enquanto a rainha lutava pelo poder e exigia ser ouvida, as mulheres britânicas também estavam se agitando mais e começaram a defender o direito de ter rendimentos próprios, de se divorciar nos mesmos termos dos homens, de ter proteção contra a violência e guarda compartilhada dos filhos, já que, durante grande parte do século, ao se divorciarem ou se separarem da esposa, os homens é que ficavam com a guarda exclusiva dos filhos. Vitória pouco compreendia o tormento, pois não precisava — e tinha pouco interesse ou simpatia pela causa. Suas próprias lutas pessoais e a dos

filhos já a esgotavam.31

Acabar com a ideia de que as mulheres eram propriedade do marido levou décadas. Até 1870, todo o dinheiro que as mulheres recebiam pertencia ao marido, e até 1882 suas propriedades também, mesmo após divórcio ou separação. Segundo o princípio multissecular da coverture, a legislação inglesa via a esposa não como entidade separada, mas como “femme coverte”, sob a “proteção e influência do marido, seu barão ou senhor”. Em outras palavras, o estatuto de uma esposa era o de serva. O Segundo Decreto sobre a Propriedade das Mulheres Casadas de 1882 estabelecia as esposas como entidades distintas — “femme sole” — que podiam possuir, herdar e arrendar propriedades e ter representação própria num tribunal. Aos poucos, as mulheres ganharam mais direitos de cuidar dos filhos após o divórcio; a partir de 1886, podia-se levar em conta o bem-estar deles para decidir se as mulheres teriam alguma guarda (limitada) sobre os filhos.

O primeiro projeto de lei pelo voto feminino foi debatido no Parlamento em 1870. Foi fragorosamente derrotado, mas uma pequena vitória houve — mulheres que possuíssem propriedades poderiam concorrer à eleição das diretorias das escolas. (Elizabeth Garrett Anderson, a primeira mulher a se formar em medicina na Grã-Bretanha — em 1865 —, concorreu e foi eleita para seu conselho local cinco anos depois.) Em 1889, a ativista Emmeline Pankhurst fundou a Liga do Sufrágio das Mulheres, com seu marido advogado Richard, para obter o direito de voto feminino nas eleições locais. (O casamento dos Pankhurst era de um raro igualitarismo, e as três filhas do casal, Christabel, Sylvia e Adela, se tornaram importantes sufragistas.)

Vitória não tinha nenhuma simpatia pelas sufragistas. Escreveu ao biógrafo de Albert, o poeta escocês Theodore Martin: “A rainha tem o grande desejo de convocar todos os capazes de falar ou de escrever a se juntarem para conter essa louca e perversa insensatez dos ‘Direitos das Mulheres’, com todos os seus horrores concomitantes, a que se inclina seu pobre sexo, esquecendo qualquer senso de decoro e sentimento feminino”. Comentou a propósito de uma mulher, Lady Amberley, que comparecera a um evento sufragista, que ela “devia levar umas boas chicotadas”. “As mulheres devem ser o que Deus determinou”, esbravejou a rainha, “colaboradoras do homem — mas com deveres e vocações totalmente

diferentes”. 32

A parte enganadora de ser rainha era que o serviço era o mesmo de um rei, mas soava como posição feminina e, portanto, parecia apropriada. Vitória defendia a ideia de que as mulheres fossem “educadas com sensatez” e “empregadas sempre que possam ser úteis”, mas não que

ingressassem nas profissões sérias nem que votassem.33 Durante toda a sua vida, Vitória foi paradoxal: um modelo de autoridade feminina numa cultura marcada pela domesticidade feminina. E, significativamente, quatro das cinco filhas da rainha se tornaram defensoras dos direitos das mulheres.

Vitória se dizia, de modo muito conveniente, “anômala”.34 Sustentava que as mulheres não deviam ter poder e, ao mesmo tempo, se fazia cada vez mais atenta à proteção de seu próprio poder. De fato, deu uma risadinha quando Lord Dufferin lhe contou que um grupo de mulheres defendera o direito de voto argumentando que “raramente os homens eram adequados

para o trabalho”.35 Não faria diferença se Lord Dufferin estivesse falando da atitude de Vitória em relação a Bertie — ela se considerava muito mais capaz de liderança e trabalho político do que seu primogênito, e a ideia de abdicar em favor dele era um anátema.

A ideia de moças na sala de dissecação, diante de partes do corpo “que não podiam ser nomeadas na frente delas”, provocava náuseas na rainha. Numa coisa concordava com Gladstone: a ideia de formar mulheres em

medicina era “repulsiva”36 (no entanto, ela foi favorável à formação de mulheres obstetras ou clínicas gerais para trabalhar na Índia com pacientes pobres do sexo feminino, cuja religião as proibia de procurar auxílio médico masculino).

A rainha reservava especial desdém pelas mulheres que eram “despachadas”, em especial as que se dedicavam a atividades tradicionalmente masculinas, como caçadas. Quando Lady Charles Kerr fraturou o crânio durante uma caçada a cavalo, Vitória considerou o fato instrutivo. Escreveu a Vicky em 1872:

 

Que sirva de advertência a muitas daquelas jovens despachadas que são realmente assexuadas. E

também aos maridos, pais e irmãos que permitem que suas esposas, filhas e irmãs se exponham de

maneira tão pouco feminina. Em outros aspectos, essa pobre jovem era muito calada e não muito

forte — mas imagine ela indo caçar sozinha, enquanto o marido estava passeando por Londres!37

 

As mulheres “despachadas” eram acusadas de muitas coisas na Inglaterra vitoriana: o afrouxamento dos códigos morais, a masculinização das damas e uma epidemia de doenças venéreas que debilitara as forças de defesa da

Grã-Bretanha na Crimeia, na Índia e na Inglaterra.38 Em 1864, quase um terço do total de soldados britânicos deu entrada no hospital por sífilis ou

gonorreia.39 Como a culpa era atribuída não aos soldados, e sim às mulheres com quem se deitavam, a solução a que se chegou foi simples: o Exército e a Marinha precisavam de prostitutas asseadas. Em 1864, o primeiro dos Decretos sobre Doenças Contagiosas criou bordéis oficiais para os militares.

As leis também traziam dispositivos surpreendentes para o controle das mulheres andando em público: a polícia podia prender qualquer mulher suspeita de prostituição, sem provas. As mulheres ficavam sujeitas a exames internos humilhantes de doenças venéreas, fosse num hospital ou no próprio local, e registradas na delegacia local para exames periódicos (ou prisão). Se protestassem, eram contidas com camisa de força e as pernas mantidas abertas à força com braçadeiras. Se se descobrisse que uma mulher tinha uma doença venérea, podia ficar confinada num hospital por três meses. Num “certo clima de caça às prostitutas”, como disse Ronald Pearsall, as profissionais do sexo — não seus clientes — eram objeto de

difamação no púlpito e no Parlamento.40 Foi provavelmente o exemplo mais claro e público do duplo critério vitoriano, que punia a conduta sexual

das mulheres enquanto os homens escapavam a escrutínio e condenação. 41

Apesar disso, muitos homens viam as prostitutas como elementos essenciais à estrutura social. Tolstói, por exemplo, não conseguia imaginar Londres sem suas “Madalenas”. “O que seria das famílias?”, escreveu ele em 1870. “Quantas esposas ou filhas se manteriam castas? O que seria das leis da moral que o povo tanto gosta de observar? Parece-me que essa categoria de mulheres é essencial à família nas atuais formas complexas de

vida.” 42 Os divórcios ainda eram raros e os homens, em princípio, esperariam ter estabilidade financeira antes de se casar. O desemprego criava uma larga faixa de solteiros.

A prostituição foi tema de muitas especulações, mas de poucas pesquisas rigorosas na Inglaterra daquela época. As estimativas do número de mulheres profissionais do sexo em Londres, na metade do século, variavam de 80 mil a 120 mil, numa população total de 2,3 milhões de homens e

mulheres.43 Uma porcentagem significativa sofria de doenças venéreas,

principalmente de sífilis,44 45 que também infectavam os filhos. Antes da descoberta da penicilina, os tratamentos utilizados não tinham eficácia; o uso generalizado de mercúrio em pastilhas, banhos e cremes levava apenas

à queda dos dentes, à falência renal, ao envenenamento e lesões bucais.46 (Os tratamentos preventivos — óleo, vinagre e álcool — eram igualmente inúteis.) Era quase impossível ter sexo seguro — na metade do século havia preservativos, mas continuavam caros — e, para as mulheres, controle contraceptivo.

Na segunda metade do século, uma mulher chamada Josephine Butler lançou uma campanha maciça e de grande efeito contra o abuso e a exploração sexual das mulheres — procurando desmascarar o que havia de hipócrita, a seu ver, em atribuir vergonha moral apenas às mulheres, não aos

homens que as procuravam.* A Comissão Real para os Decretos de Doenças Contagiosas, de 1871, declarou que não havia termo de comparação entre prostitutas e clientes: “Com um sexo, o crime é cometido como questão de ganho; com o outro, como satisfação irregular de um

impulso natural”.47 Mas, como disse uma profissional do sexo depois de ser encarcerada: “O duro mesmo, dona, foi que o magistrado no tribunal que deu o voto de desempate para minha prisão tinha me pagado vários xelins

um ou dois dias antes, na rua, para ir com ele”.48

Bracebridge Hemyng declarou que as profissionais do sexo estavam

“envenenando o sangue da nação”.49 O “Grande Mal Social” do país se tornou um ímã atraindo os reformadores mais ativos e ardorosos da época: cristãos evangélicos que se empenhavam a sério em reformar e reabilitar prostitutas. O mais famoso de todos era William Gladstone, que se entregou a uma obsessão quase doentia de “salvar” as mais encantadoras meretrizes da Inglaterra. Era o maior defensor das prostitutas que o mundo político conhecia. E ele tinha certeza de que era por causa disso que a rainha o

odiava.50

 

Gladstone era um homem íntegro e excêntrico. Alto e magro, chegava a passar quatro meses brandindo um machado nas árvores de uma propriedade rural, pensando nas questões que o consumiam. Era um autocrítico constante, decidido a melhorar seu caráter, realizar sua missão divina e fazer a obra de Cristo na terra. As orações iniciavam e encerravam seus dias. Ia diariamente à igreja e fazia um sermão semanal à sua criadagem. Lord Salisbury disse a Vitória que era difícil imaginar Gladstone

ouvindo um sermão sem “se pôr a replicar”.51 Mesmo o horário das refeições era ocasião de pregar a virtude: ele defendia a ideia de que cada bocado devia ser mastigado 32 vezes — uma para cada dente — antes de engolir. Ele viveu até os 89 anos, proeza significativa na Era Vitoriana.

Não se sabe bem quando teve início o fetiche de Gladstone pelas “mulheres perdidas”, mas é visível que o período de maior atividade foi por volta de 1850, quando fazia dezoito anos que estava no Parlamento. Ele começou a trabalhar em 1848 para uma entidade beneficente chamada Associação Penitenciária da Igreja pela Recuperação das Mulheres Perdidas, e depois passou para uma espécie pessoal de vigilantismo. Ficava horas conversando com profissionais do sexo que encontrava nas ruas, tentando convencê-las a escolher outra vida. Lia-lhes Tennyson e Thomas Malory, providenciava que pintassem seus retratos e veio a se apegar profundamente a elas.

O político alto e taciturno era especialmente atraído pelas prostitutas bonitas, coisa que não escapou a comentários. Em 1852, descreveu um de seus grandes interesses como, “em boa parte, uma estátua extremamente

encantadora, de desmedida beleza”.52 Seu colega Henry Labouchere comentou: “Gladstone consegue combinar sua interferência missionária

com uma arguta apreciação de um rosto bonito”.53 Alguns colegas preocupados tentaram alertá-lo sobre as possíveis ramificações de sua conduta, mas ele não quis parar. As profissionais do sexo o chamavam de “Old Glad-eye”. Tentou salvar algo entre oitenta e noventa prostitutas nos cinco anos desde 1849, mas não teve muito sucesso. Admitiu: “Sei apenas de uma que abandonou a vida miserável e que posso atribuir com justiça

esse fato a uma influência minha”.54

Para muitos biógrafos, esses encontros eram castos, movidos por excitação sexual, mas sem consumação. Quando um escocês tentou chantagear Gladstone em 1853, depois de espreitar uma conversa sua com uma prostituta, Gladstone avisou pessoalmente à polícia e aos tribunais, sem nenhuma hesitação — conduta não usual num culpado. Mas, quando seus diários foram publicados, em 1968, lançou-se uma luz mais ambígua. Remoendo-se de vergonha, às vezes ele se flagelava após encontros com prostitutas, desenhando no diário um pequeno chicote em miniatura (que apareceu pela última vez em 1859). Seu biógrafo Roy Jenkins afirma que suas “crises emocionais religioso-sexuais” eram “excepcionais mais pelo

tremendo peso da culpa que geravam do que pela força da tentação”.55 Embora seja extremamente improvável que tivesse mantido relações sexuais completas com tais mulheres, o próprio Gladstone reconhecia com sentimento de culpa que suas incursões eram de natureza “carnal”, uma espécie de tentação sexual que o atraía para penhascos perigosos. Eram o “principal peso” de sua alma. E se não fossem carnais, escreveu ele, “não deixariam tamanho vazio”. Em alguns registros misteriosos do diário, Gladstone qualifica as duas horas que passou com a bela e escultural Elizabeth Collins como “estranhas, questionáveis ou mais”, seguindo-se o

símbolo de um açoite.56 Seus pensamentos sobre a cortesã Marion

Summerhayes “precisaram ser cortados e expurgados”. 57

Perto do final da vida, Gladstone disse aos filhos que achava que as histórias a seu respeito, “fossem verdadeiras ou falsas”, deviam ter chegado

até Vitória, gerando sua frieza para com ele.58 (Mais tarde, assegurou ao filho Stephen, sacerdote, que nunca fora “culpado do ato que é conhecido

como infidelidade ao leito conjugal”.)** Era improvável que a hostilidade de Vitória se devesse às histórias que ouvia sobre Gladstone e as profissionais do sexo; dizia com frequência que ele era bom homem, mas estadista fraco e “louco”. Seu desagrado não era moral e sim visceral; passou anos tentando depor William Gladstone. Não tinha nada a ver com as paixões dele; tinha tudo a ver com o fato de que não sabia como tratar a rainha.

 

Em 1886, os Decretos sobre Doenças Contagiosas finalmente foram revogados. Tinham sido de uma ineficácia absurda: a incidência de doenças venéreas no Exército continuava exatamente igual à de 1865, sem nenhuma alteração durante os vinte anos de vigência da lei. Agora as mulheres não eram mais responsabilizadas como suas únicas portadoras, e a atenção pública passara para os homens. Houve até algumas sugestões de que as mulheres estavam sendo exploradas. Alguns, como George Bernard Shaw, inclusive ousaram sugerir que era hora de examinar criticamente a questão. Em 1893, Shaw escreveu no prefácio à sua peça sobre as profissionais do sexo, Mrs. Warren’s Profession [A profissão da sra. Warren], que a prostituição é causada não pela “depravação feminina” ou pela “licenciosidade masculina”, mas pela “sub-remuneração, pela

subvalorização e pelo excesso de trabalho” das mulheres.59 As prostitutas continuavam a ser objeto de desprezo, bem como de piedade e desejo, mas a briga contra os duplos critérios insuflara energia numa geração de mulheres que tinham em Vitória uma musa involuntária e geniosa. Iniciava-se a lenta marcha rumo ao voto feminino. Vitória seria a inspiração mas não apoiaria; ela ficaria como uma musa geniosa, a mulher mais poderosa do mundo, que passava os dias tentando controlar homens.

E homens continuaram tentando atirar nela. Brown estava com a rainha em 2 de março de 1882 quando outro louco atirou na rainha, que descia do trem em Windsor. Foi o sétimo atentado à sua vida; um condutor de trem deteve o homem — Frederick McLean — e dois alunos de Eton o atacaram com guarda-chuvas. A Grã-Bretanha estava enfurecida. Mas a rainha se deleitou com a simpatia que o ataque criou, como sempre fez. “Vale a pena levar um tiro”, disse Vitória com satisfação, “para vermos quanto somos

amados.”60

 

Florence Dixie era uma mulher pouco convencional. Escritora, viajante, feminista e correspondente de guerra, Lady Florence Dixie caçava na Patagônia, escrevia livros de viagem, corrigia Charles Darwin em erros fatuais e teve um papel fundamental para criar o futebol feminino na Grã-

Bretanha.61 Em 1880, foi à África do Sul como a correspondente estrangeira do Morning Post durante a Primeira Guerra dos Bôeres, após a anexação britânica do Transvaal em 1877, quando Disraeli ocupava o cargo de primeiro-ministro. Lady Florence Dixie tinha algumas ideias controvertidas — que as filhas primogênitas do rei ou da rainha deviam poder herdar o trono, que o ensino devia ser misto, que as mulheres deviam

poder usar calças e que os casamentos deviam ser igualitários.62 E também, fatidicamente, mais tarde se mudou para uma casa perto do Castelo de Windsor (foi obrigada a colocar seu jaguar de estimação num zoológico, pois ele não parava de matar todos os veados do parque em volta do castelo).

Numa tarde de março de 1883, Lady Florence Dixie, então com 26 anos, estava passeando lá fora quando, disse ela, foi derrubada por dois homens com véus e capas compridas, que tentaram esfaqueá-la. Por fim, Hubert, seu cão são-bernardo, afugentou os homens. De início, o ataque foi atribuído aos fenianos republicanos irlandeses, que se sentiram provocados com o apoio de Lady Florence Dixie à autonomia local da Irlanda, em vez da independência completa, embora tenham surgido dúvidas sobre a

veracidade dessas suas alegações. 63

Inquieta com tal ataque ocorrendo a meros quatro quilômetros do castelo, a rainha enviou uma mensagem gentil a Lady Florence Dixie e tentou descobrir o que acontecera. John Brown ficou horas fazendo uma vistoria minuciosa na área, ao ar livre do inverno, procurando respostas para a rainha. Então passou uma semana carregando de um lado e de outro a rainha, que estava com o joelho muito inchado devido a uma luxação. Enquanto isso, Brown enfrentava uma gripe forte. No fim de semana seguinte, Brown adoeceu de erisipela, uma síndrome dolorosa que provoca o inchamento de todo o rosto, inclusive pálpebras, além das orelhas. Nos dezoito anos e meio em que estava no Castelo de Windsor, nunca havia tirado um único dia de folga, e Vitória ficou “zangada” que ele não pudesse atendê-la.

Brown morreu dois dias depois.

 

Vitória ficou arrasada. “Ele era o melhor coração, o coração mais sincero que já existiu”, escreveu a Jessie McHardy Brown, cunhada de Brown. Sentia uma dor “desmedida, pavorosa e não sei como suportá-la ou julgá-la

possível”. 64 Ela caíra das escadas em 17 de março de 1883, dez dias antes da morte de Brown, e desde então não conseguia andar sem amparo. A partir daí, para seu constrangimento, tinha de se agarrar ao encosto das cadeiras para percorrer os aposentos e andar mancando apoiada em duas bengalas. Precisava ser carregada para subir as escadas e, para passar da carruagem para o trem, tinha de ser conduzida numa cadeira especial. Alguns súditos sugeriram vários remédios — inclusive uma sra. Cash, que achava que as pernas da rainha melhorariam se usasse um triciclo. Ponsonby, com olho clínico para perceber os absurdos, escreveu à esposa:

“Imagine a rainha num triciclo”.65

A semelhança com 1861 e a morte de Albert era marcada. Vitória sentia o coração outra vez dilacerado, a velha chaga sangrando uma nova dor. A rainha, referindo-se a si na terceira pessoa, escreveu ao conde de Cranbrook em 30 de março, dizendo que perdera não só a “mais sincera e cara” companhia, mas também uma amizade sem igual: “A rainha sente que a vida se tornou pela segunda vez extremamente penosa e triste de suportar,

privando-a de tudo de que tanto precisa”.66 Alguns dias após a morte de Brown, ela disse a Ponsonby:

 

A rainha se esforça vivamente em se ocupar, mas está absolutamente esmagada e sua vida sofreu

mais um daqueles choques como em 1861, quando todos os elos foram abalados e arrancados e a

cada ocasião e a cada momento a perda do braço forte e do conselho sábio, do coração afetuoso e o

modo alegre e original de dizer as coisas e a simpatia em todas as circunstâncias grandes e

pequenas — se faz sentir crudelissimamente.

 

Muitas vezes se supõe que a frase de Tennyson a Vitória — que ela estava “totalmente sozinha numa terrível altura” — fora após a morte de Albert. Na verdade, ele disse tais palavras após a morte de John Brown. Quando Tennyson lhe escreveu para consolá-la da morte de Brown, Vitória ficou tão comovida que lhe pediu que fosse visitá-la. Embora trôpego e semicego, Tennyson lhe disse que podia ver quanto a rainha estava isolada e prometeu fazer tudo o que pudesse para reconfortá-la, no pouco tempo de vida que

restava a ele.67 O velho poeta contou depois ao filho que chorara ao se

despedir da rainha, pois ela era “muito feminina e muito solitária”.68

Vitória escreveu a Tennyson agradecendo-lhe a gentileza e dizendo a respeito de Brown:

 

Ele não pensava em nada a não ser em mim, em meu bem-estar, meu conforto, minha segurança,

minha felicidade. Corajoso, generoso, totalmente desinteressado, discreto ao mais alto grau,

dizendo a verdade sem medo e me falando o que ele achava e considerava ser “justo e correto”,

sem lisonjas e sem dizer coisas agradáveis se não as julgasse corretas… O consolo da minha vida

cotidiana se foi — o vazio é terrível —, a perda é irreparável!

 

A Circular da Corte trazia 25 linhas sobre Brown e o “doloroso choque”

da rainha. Tinham sido apenas cinco linhas quando Disraeli morreu. 69 Os sinos dobraram, os gaiteiros foram proibidos de tocar perto do castelo e Vitória ordenou que o manto xadrez que ela e Brown levavam em suas caminhadas escocesas fosse usado como mortalha sobre o caixão. Empenhou-se em garantir que Brown fosse lembrado não apenas como um criado comum — ou um “doméstico”, como lhe escreveu Gladstone com certa grosseria, sem reconhecer o óbvio e imenso afeto da rainha pelo indivíduo. Gladstone expressou seus votos de que ela iria “escolher um bom e eficiente sucessor”. Vitória não queria nem conseguiria imaginar um sucessor; as pessoas, para ela, eram insubstituíveis. Albert era insubstituível, e John Brown também. Seu coração podia estar crivado, mas ela não tentava tampar os buracos.

Pelo contrário, Vitória encomendou alfinetes de gravata, bustos, monumentos e estátuas de Brown, pediu versos a Tennyson para colocar em sua lápide, dedicou-lhe marcos miliários e cátedras. Então, ainda motivada pelo recente sucesso do lançamento de seus diários da Escócia, Vitória anunciou que iria escrever uma memória de John Brown, destinada, segundo ela, apenas a uma edição particular. Aqui, seus conselheiros adotaram uma posição de invulgar firmeza. Henry Ponsonby escreveu inquieto, pedindo que Sua Majestade o perdoasse “por expressar uma dúvida se esse registro dos sentimentos mais íntimos e sagrados de Vossa Majestade deve se tornar público ao mundo”. Sua preocupação era que as palavras de Vitória fossem mal interpretadas por desconhecidos, atraindo

um tipo errado de atenção, que seria “doloroso para a rainha”.70 Ela respondeu: “Certamente não posso concordar”, e disse-lhe que precisava corrigir a impressão de que Brown era apenas um criado, quando, na verdade, era “muito mais do que isso”. Era isso que ela queria que o mundo

entendesse.71

Então um rascunho da biografia foi encaminhado a Randall Davidson, o novo e jovem deão de Windsor, que era o chefe espiritual dos sacerdotes na St. George’s Chapel, no Castelo de Windsor, e que ganhara prontamente o respeito de Vitória. Falaram durante horas após a morte de Brown, numa conversa que, segundo ele, foi “extremamente tocante, solene e interessante, mas terrivelmente difícil”. Davidson entrou em pânico quando soube que Vitória havia escrito uma memória de Brown, e descobriu que ela fizera extensas citações do diário de Brown. Vitória já havia dedicado More Leaves from the Journal of a Life in the Highlands a Brown, para o grande desagrado da família real. Era repleto de narrativas sentimentais de uma

vida mansa nos ermos das Highlands.72 (Em 1884, uma versão satírica das Leaves e More Leaves parodiou a relação de Vitória e Brown: “Fazemos questão de tomar o desjejum todas as manhãs de nossa vida… Brown me empurrou (num carreto de mão) até o alto de um morro e então me fez descer correndo outra vez. Fez isso várias vezes e nos divertimos muito… Então ele me pôs num barco no lago e me embalou por uma meia hora. Foi

muito divertido”.) 73

O deão disse a Vitória que não devia publicar uma biografia de Brown, com o argumento um tanto incomum de que alguns das “classes mais

humildes” não eram “dignos de tais confidências”.74 Quando Vitória insistiu na publicação, ele se propôs a renunciar ao cargo. Ela deu um gelo nele durante duas semanas, e depois retomou as relações. O livro nunca foi publicado. Não admira que Ponsonby tenha adorado a chance de queimar os diários de Brown, embora a perda deles — e da Vida de Brown de Vitória — faça uma grande falta. Bertie, quando subiu ao trono, destruiu também os restos mortais de Brown e até mandou converter os aposentos de Brown no Castelo de Windsor — que Vitória havia lacrado após a morte dele — numa sala de bilhar.

Mas Vitória assegurou que Brown não caísse no esquecimento. Permitiu que sua adoração pessoal por ele se tornasse pública porque, para a rainha, a relação entre uma mulher poderosa e um criado nunca poderia ser um casamento, nem mesmo um romance a sério. Ela nunca o chamaria de “senhor”; era ela a senhora dele. No entanto, os dois usavam uma linguagem de um curioso tipo de amor. O autor Tom Cullen declara que encontrou um trecho do diário da rainha, transcrito por Vitória e enviado a Hugh Brown (irmão de John) depois da morte dele. Vitória revelou que Brown jurara cuidar dela até a morte, dizendo: “Você não tem criado mais devotado do que Brown”. Vitória prosseguiu: “Depois eu lhe disse muitas vezes que ninguém o amava mais do que eu nem tinha melhor amiga do que

eu. E ele respondia: ‘Nem você do que eu. Ninguém a ama tanto’”. 75

 

Em 1884, um ano depois da morte de Brown, Vitória ainda estava abatida, preocupada com os tumultos na Índia, Egito e Irlanda, certa de que a vida

“fica cada vez mais triste e mais penosa”.76 Então avisaram-na que seu filho hemofílico Leopoldo havia sofrido uma queda em Cannes e machucara o joelho. Logo depois, teve convulsões e morreu de hemorragia cerebral. A esposa estava grávida, esperando o segundo filho. O que atenuou a dor de Vitória foi saber quanto Leopoldo tinha sido infeliz, após uma “sucessão de provações e sofrimentos”, atormentado por “um incessante anseio pelo que

não podia ter”, que só aumentara com a idade. 77 Intelectual intenso e angustiado, Leopoldo sonhava em levar uma vida normal, mas se sentia sufocado pela atitude protetora da mãe e decepcionado por ser causa de ansiedade constante para ela, devido à doença. Era uma existência infeliz — feria-se com facilidade, era desprezado por alguns membros da corte e até cruelmente arreliado por John Brown e seu irmão. A mãe vigilante considerava o filho “muito feio” e desajeitado. Morreu dez dias antes de completar trinta anos de idade.

Não se entendia muito bem a hemofilia no século XIX, embora fosse objeto de extensas pesquisas, principalmente na Alemanha. Poucos hemofílicos chegavam à idade adulta; a expectativa média de vida era de apenas onze anos. Cair do cavalo, escorregar de uma cadeira, arrancar um dente, tudo isso podia acarretar a morte. O mais leve ferimento podia ser mortal: um barbeiro morreu depois de arranhar o nariz com uma tesoura e, em 1860, um bebê morreu ao cortar o lábio num suporte de charuto. As brincadeiras infantis podiam ser fatais; até uma simples contusão podia

matar uma criança.78 Perante a impotência médica, a vida do genitor de um hemofílico era de constante vigilância, preocupação e sentimento de culpa. “Ninguém sabe o medo constante que sinto por ele”, escreveu Vitória, que

procurava estar sempre perto do filho. 79

Em 1868, quando Leopoldo estava com quinze anos, recuperando-se de outra hemorragia, o British Medical Journal publicou como matéria principal um artigo afirmando que Leopoldo não devia fazer muito

esforço.80 Pensava-se que ele tinha “veias frágeis” ou algum tipo de menstruação masculina; foi somente em 1891 que os pesquisadores

mostraram que o sangue dos hemofílicos demorava mais para coagular.81 Vitória seguiu os melhores especialistas, que defendiam alimentação saudável, cuidado com a higiene, a abstenção de brincadeiras violentas de

meninos, e assim por diante.82 Assim, Leopoldo devorava montanhas de

livros, ganhando o título de “o Príncipe Erudito”. *** Tinha posições convictamente conservadoras em política, das quais Vitória viria a sentir falta.

Ao crescer, Leopoldo procurou desesperadamente afirmar sua independência. Em 1878, aos 25 anos, não quis ir com a mãe para Balmoral e foi para a Europa; Gladstone achava que ele queria “viver ou morrer

intensamente”.83 Queria encontrar uma esposa e viver como um homem normal. Na época, o casamento para os hemofílicos constituía tabu, e era raríssimo — havia a preocupação não só com a longevidade e a capacidade

de trabalhar e ter renda própria, mas também com a progênie.84 O médico de Leopoldo era da firme convicção de que se devia evitar o casamento por causa da perspectiva de transmitir “a herança de uma doença tão

pavorosa”.85

Vitória sabia que, para o filho frágil, o casamento seria “um grande risco e

tentativa”, mas autorizou.86 Em abril de 1882, ele desposou a valente e imponente princesa Helen, do estado germânico de Waldeck. Na véspera do casamento, à noite, ele escorregou numa casca de laranja e teve um sangramento perigoso. No dia das bodas, a mãe o observava atentamente,

“ainda manco e trêmulo”, “no dia mais importante de sua vida”.87 Pela primeira vez em 42 anos, Vitória usou seu véu nupcial branco sobre os trajes negros. Agora, não tendo decorrido nem dois anos, Leopoldo morria e ela voltava a se vestir apenas de preto.

 

* Era frequente afirmar que, depois que uma mulher “caía” na prostituição, seria inevitável uma morte prematura. Um especialista calculou que, depois que uma mulher decidia “pegar cliente” na Inglaterra vitoriana, ela tinha, em média, só mais quatro anos de vida. Segundo os registros de entrada no Lock Hospital em Edimburgo, nove em dez prostitutas “desapareciam aos trinta anos de idade”. Para muitas jovens, era apenas uma atividade temporária antes do casamento.

** Isso foi logo antes da morte de Gladstone, em 1898. O biógrafo H. C. G. Matthew conclui que foi uma “declaração precisa e com óbvias ressalvas”, que não foi utilizada mais tarde pelo filho Herbert, quando estava defendendo a reputação do pai no tribunal, em 1927, contra as sugestões caluniosas do capitão Peter E. Wright, segundo o qual Gladstone falava em “linguagem dos mais altos e rigorosos princípios” em público, enquanto na vida privada tinha o costume de “perseguir e possuir mulheres de toda espécie”. Os advogados de Herbert consideraram que a ressalva implícita na declaração poderia sugerir ao júri que as relações de Gladstone com as dezenas de profissionais do sexo com as quais se dava não eram, de fato, totalmente inocentes. O tribunal confirmou a integridade moral de Gladstone (H. C. G. Matthew, Gladstone: 1809-1898, p. 630).

*** O problema de saúde de Leopoldo — que nos anos 1860 já era descrito como “veias frágeis” — despertou um debate importante e mais extenso sobre as causas e o tratamento da hemofilia. A partir dos anos 1870, a família real britânica tinha a clara consciência de que sua linha de sangue estava sendo questionada, e Vitória continuou a insistir que não herdara a doença. Os casos de mutação espontânea — ou casos de novo — constituíam um absoluto mistério. (Stephen Pemberton, The Bleeding Disease: Hemophilia and the Unintended Consequences of Medical Progress [Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2011], p. 35.) A única hipótese com alguma base empírica era o casamento entre parentes, segundo um tratado publicado por John Wickham Legg em 1872. Não existem registros de que isso tenha sido discutido com Vitória e, visto que até o final do século XIX não se entendia direito a genética, é pouco provável que tal conversa tenha ocorrido.