Vitória, a rainha
11. A noiva: “Nunca, nunca passei uma noite assim”
11. A noiva: “Nunca, nunca passei
uma noite assim”
Se eu fosse rainha,
O que faria?
De você faria rei
E o esperaria.
CHRISTINA ROSSETI
Você esquece, meu queridíssimo amor, que sou a soberana e que o serviço não
pode parar e esperar em hipótese alguma.
RAINHA VITÓRIA1
À medida que o casamento se aproximava nas primeiras semanas de 1840, Vitória se sentia cada vez mais agitada. O tempo estava frio, úmido e ventoso. Estava ficando pálida e magra, não conseguia comer nem dormir, tinha febre, o corpo inteiro doía, e estava com uma gripe terrível. Até escrever cartas a deixava exausta. Dr. Clark a examinou e, em mais um caso de diagnóstico errado, disse que estava com sarampo. Deitada na cama, vendo a chuva abrir sulcos entre o encardido das janelas no Palácio de Kensington, tentando não se apavorar, sentia as dúvidas se infiltrarem no espírito. Esses dois últimos anos como mulher independente não tinham sido os melhores de sua vida? Essa pura liberdade estava para acabar. Vitória fechou os olhos e pensou nos preparativos que se ouviam por toda a cidade: assavam-se bolos, engraxavam-se sapatos, ajustavam-se casacas, aparavam-se jardins, lavavam-se carruagens, rolavam pelas ruas carroças atopetadas de grandes barris de uísque escocês e vitualhas para a festa de casamento.
A moça de vinte anos sentia as perguntas martelarem sem cessar. Como seria a vida de casada? Morria de medo de ter filhos. O que um homem e a esposa faziam quando estavam a sós era um mistério. Ela servia para Albert? Dali a alguns anos, ele olharia para outras mulheres, mais graciosas,
como sugerira Lord Melbourne com tanta indelicadeza?2 Por que tanta gente achava que Albert iria interferir politicamente, quando estava claro que era ela a dirigente, era ela que estava no comando? Ele tentaria controlá-la ou criticá-la? Seria um sacrifício excessivo para ele? Às vezes sentia-se indigna: ele tão bonito, ela tão sem graça. Vitória tinha o orgulho entranhado dentro de si e a força se tornara algo habitual, mas o amor estava sendo uma lição de humildade. Num poema publicado cinco dias após as bodas, Elizabeth Barrett (futura Browning) escreveu: “Se dizes: ‘Preserva a rainha!’/ sussurra-o apenas para ti./ Ela é uma mulher, e amada!/
E isso é o que basta”.3 Vitória aprendera em poucos anos a ser rainha, mas como se aprendia a ser esposa?
A única tarefa de Lord Melbourne foi animar o espírito de Vitória nos dias antes do casamento. Garantiu-lhe que era normal sentir ansiedade. Quando ela lhe lembrou que antes estava decidida a continuar solteira, ele falou que se casar era natural; seu trabalho como monarca é que era “muito pouco natural”. O homem que tivera um casamento tão atormentado e humilhante lhe ofereceu um conselho realista: “É uma grande mudança. Tem seus inconvenientes; todos se empenham ao máximo, e depende se você se empenhou bem; disso podem surgir dificuldades”.
Vitória anotou cuidadosamente as palavras dele, acrescentando: “Tudo isso é verdade”. Também havia uma necessidade latente de brilhar e se sentir bonita. Comentou com certa timidez ao primeiro-ministro que perdera peso e devia estar com uma aparência muito abatida. Ele insistiu que ela estava “muito bem”. E acrescentou que lera um artigo num jornal escocês em que o repórter dizia que Vitória tinha “grandes olhos penetrantes, narinas abertas ansiosas e uma boca firme”. Lord Melbourne repetiu esse elogio várias vezes, com lágrimas correndo pelo rosto. Disse em tom de aprovação que era “uma descrição muito verídica, não pode existir fisionomia mais fina”. Hoje em dia, poucas mulheres se sentiriam lisonjeadas ao ouvir que têm narinas abertas e ansiosas, mas a rainha sorriu e respondeu: “Tenho certeza de que nenhum amigo seu gosta de você tanto
quanto eu”.4 Ele respondeu: “Creio que não”. Com suas palavras gentis e encorajadoras, parecia um pai falando.
No fim, o sarampo de Vitória era nervosismo, que passou no instante em que viu Albert. Quando ele chegou ao Palácio de Buckingham, ela o aguardava impaciente na porta da frente: “ver o querido rosto dele me
acalmou em tudo”.5 Albert, embora tão mareado pela travessia que se comparou a uma vela de cera, de pálido que estava, mostrou-se tranquilo e resoluto. A única nota destoante foi uma carta bastante formal de Vitória, que ele recebera ao sair de casa em Coburgo. Ela não concordava que tivessem duas semanas de lua de mel, apesar da vontade de Albert de passarem pelo menos quinze dias a sós. Vitória disse, num leve tom de superioridade, que estava ocupada demais:
Querido Albert, você simplesmente não entendeu a questão. Você esquece, meu queridíssimo
amor, que sou a soberana e que o serviço não pode parar e esperar em hipótese alguma. O
Parlamento está em sessão e quase todos os dias acontece alguma coisa para a qual minha presença
pode ser necessária, e é absolutamente impossível eu me ausentar de Londres; portanto, dois ou
três dias já são muito tempo de ausência. Não sossego um instante se não estou no local, vendo e
ouvindo o que se passa… E, de todo modo, é isso mesmo o que eu quero.6
Tinha um profundo amor pelo marido, mas também pelo trabalho, e um profundo senso de dever. É isso o que se costuma esquecer nas descrições do ardente relacionamento de Vitória: quando se apaixonou por Albert, ela não tinha a menor intenção de se afastar de suas tarefas epistolares, da leitura dos documentos ministeriais e das consultas ao primeiro-ministro. Achava que, com Albert ao lado, conseguiria trabalhar mais, e não menos. Mas sabia que precisava ter cuidado para não castrar o marido, cuja renda, em sua maior parte, provinha do simples fato de ser casado com a mulher mais famosa do mundo.
Quando o arcebispo perguntou à rainha se queria retirar a palavra
“obedecer” do voto matrimonial, ela insistiu que permanecesse.7 Para Vitória, não era um voto de subserviência, e sim um lembrete de que não poderia ou, talvez, não gostaria de dominar o homem que desposava, ao contrário do que fazia com sua Casa Real, seu gabinete ministerial e seus milhões de súditos. Na época do casamento, ela já era complicada e contraditória como viria a ser até o final da vida: jurando em público obedecer ao marido no mesmo exato momento em que, na vida privada, passava por cima das vontades dele.
Vitória queria um casamento singelo: um vestido simples, um pequeno número de convidados, uma cerimônia discreta. Claro que, em se tratando de uma rainha, era uma vontade difícil de se atender. Melbourne conseguiu persuadi-la a realizar uma cerimônia mais elaborada, que considerava adequada a um monarca. Recomendou que ela tentasse vencer sua timidez em público e seu desconforto em ser observada. Melbourne a convencera a convidar não só o duque de Wellington, mas também Lord Liverpool, apesar da firme decisão da rainha de não ter nenhum tory durante as bodas. Ele também convenceu a rainha a realizar a cerimônia na Capela Real do Palácio de St. James, embora ela achasse a capela horrorosa. Vitória
suspirou: “Sempre se faz tudo tão desconfortável para reis e rainhas”.8
Em algumas coisas ela insistiu. Albert queria que as acompanhantes da noiva fossem filhas apenas de mães que ele considerasse virtuosas, mas Melbourne disse a ela, com a gloriosa hipocrisia dos privilegiados, que esse tipo de questão moral só era problema para as classes mais baixas. Vitória decidiu ignorar os desejos de Albert e escolheu suas doze damas de honra de acordo com a posição social. Num gesto ousado, chegou a incluir a filha da notória Lady Jersey, que fora amante de Jorge IV. Também quis que Albert dormisse no palácio na véspera do casamento, e descartou as
objeções da mãe e do primeiro-ministro como “tolices absurdas”.9 Sabia que dormiria melhor se ele estivesse por perto e gracejou com Lord Melbourne: “Falei rindo que ia mostrar que às vezes eu podia ter vontade própria, embora raramente me fosse permitido tê-la — o que fez Lord M.
rir”.10 O primeiro-ministro e a rainha trocavam risos enquanto Albert aguardava instruções, esperando sua vez.
O céu estava escuro e soturno na manhã de 10 de fevereiro de 1840. Vitória dormiu fundo, até tarde, acordando às 8h45. Era a última vez em que estaria sozinha na cama, pensou feliz. Espiou pela janela a escuridão lá fora e se sentou para escrever uma carta ao noivo:
Querido, como está você, dormiu bem? Descansei muito bem e hoje me sinto muito confortável.
Que tempo! Mas acho que a chuva vai parar. Mande uma palavrinha quando estiver pronto, meu
queridíssimo e amado noivo. Sua sempre fiel, VITÓRIA R.11
Vitória se manteve imóvel enquanto abotoavam cuidadosamente seu vestido de cetim branco, com folhos de renda e uma cauda de seis metros de comprimento com a orla enfeitada de flores de laranjeira. Suas mãos tremiam levemente enquanto colocava os brincos de diamantes turcos e punha um colar no pescoço, depois prendendo no peito um broche de safira que ganhara de Albert. Ficou com os pés estendidos para que as atendentes amarrassem em seus tornozelos as fitas dos delicados sapatinhos de cetim branco. O vestido era caído nos ombros, deixando à mostra a pele ebúrnea e macia do peito, e o cabelo, rigorosamente repartido ao meio, estava enrolado cobrindo as orelhas.
As roupas de Vitória tinham sido escolhidas com todo o cuidado para mostrar seu patriotismo. O tecido vinha dos Spitalfields, centro histórico da indústria de seda em Londres, e duzentos rendeiros de Devon trabalharam meses nele. O molde foi destruído a seguir, para que ninguém o copiasse. As luvas foram feitas em Londres, com pelica inglesa. Vitória encomendara um rolo enorme de renda de Honiton feita à mão, na tentativa de reavivar o setor em declínio (as imitações feitas à máquina andaram prejudicando o ofício). Pôs-se diante do espelho e olhou o reflexo um tanto descrente. Na cabeça trazia uma grinalda simples de murta e flores de laranjeira. Nos retratos, ela aparece pálida e juvenil, entre ansiosa e sonhadora.
A rainha pedira que, afora as damas de honra, ninguém mais usasse branco na cerimônia. Alguns interpretaram erroneamente a escolha da cor, como sinal de pureza virginal — como disse mais tarde Agnes numa efusão sentimental, ela escolhera se vestir “não como rainha em trajes deslumbrantes, mas de branco imaculado, como uma virgem pura, para ir ao
encontro do noivo”.12 Vitória escolhera usar branco basicamente porque era a cor ideal para ressaltar a delicadeza do rendado — na época, não era uma cor convencional para as noivas. Antes de se dominarem as técnicas de alvejamento, o branco era uma cor rara e cara, mais símbolo de riqueza do que de pureza. Vitória não era a primeira a usá-lo, mas seu exemplo deu popularidade à cor. Tecelões rendeiros de toda a Inglaterra ficaram entusiasmados com o súbito aumento na procura de seus trabalhos artesanais.
Enquanto Vitória se encaminhava à sua carruagem dourada, a multidão irrompeu em aclamações. Ela conservou os olhos baixos e “o sinal de reconhecimento se resumiu a um rápido olhar em torno e uma leve
inclinação da cabeça”.13
As chuvas torrenciais e os ventos fortes dissuadiram “um grande número” de pessoas a irem lhe desejar seus bons votos, mas a expectativa pública
não se deixou abater.14 Poucas coisas são capazes de unir os corações britânicos como um casamento real, e Londres passara semanas vibrando de emoção. The Satirist reclamou: “Estamos virando todos uns loucos de
pedra.15 Não se fala e não se pensa em outra coisa a não ser em pombinhos e cupidos, em arcos triunfais e lembrancinhas brancas, e por fim, mas não em último lugar, em lâmpadas coloridas e iluminações generalizadas”. O historiador Thomas Carlyle, impertinente e enfarado, se perguntava por que
tanto alvoroço: “Coitadinha”.16 (Mesmo de longe, disse ele, dava para ver que a mulher odiada pelos tories tinha “obstinação em abundância”.)
Todavia, depois de um ano de vaias, impropérios e ataques brutais pela imprensa, parecia que Londres se apaixonara novamente por sua rainha. Alguns estavam obcecados. Vitória tinha um bando de perseguidores maníacos e grotescos, alguns dos quais ficaram muito transtornados com a aproximação das bodas. Vários eram totalmente dedicados. Havia um que se postava ao lado dos portões do Palácio de Kensington e, quando aparecia sua carruagem, seguia-a diariamente. Outro, Ned Hayward, mandou uma enxurrada de cartas ao Ministério do Interior, querendo loucamente pedir a mão de Vitória. Afinal, um dia ele tentou deter sua montaria para lhe entregar pessoalmente uma carta, mas foi preso. Outro, crendo que era o legítimo rei e que Vitória daria uma excelente governanta, trepou no portão do Castelo de Windsor e declarou: “Exijo entrada no castelo como o rei da
Inglaterra”.17
Era tão generalizado o entusiasmo com o casamento que Charles Dickens brincou com os amigos, dizendo que ele também era vítima. Escreveu numa carta ao excêntrico poeta Walter Savage Landor: “A sociedade aqui anda desvairada com o casamento de Sua Majestade, e lamento acrescentar que
me apaixonei irremediavelmente pela rainha”.18 Três dias depois das bodas, Dickens escreveu a um amigo, fingindo ter sido um dos perseguidores de Vitória:
Na terça, demos um pulo até Windsor, rondamos o castelo, vimos o corredor e os aposentos
privados — até o próprio dormitório… iluminado com um brilho tão vivo, rubro e aconchegante
— indicando tanta alegria e felicidade — que eu, seu humilde criado, deitei-me na lama no alto da
longa trilha, abstendo-me de qualquer conforto.19
Continuando o gracejo, Dickens dizia ter voltado com os “bolsos cheios de retratos” sobre os quais “chorei em segredo”.
A multidão ensopada de chuva, aguardando para ver a noiva, exibia orgulhosamente medalhas nupciais de lembrança. A polícia montou cordões de isolamento ao longo do trajeto enlameado entre o palácio e a capela, contendo os espectadores mais turbulentos. Os larápios começaram a se esgueirar pelos becos e vielas de Londres, aproveitando que os policiais estavam ocupados em outra coisa naquele dia. Enquanto isso, no percurso do palácio à capela, despencavam galhos de árvore com o peso do pessoal agarrado neles.
Chegando à Capela Real de St. James, carmim e dourada, Vitória foi até as damas que segurariam a cauda, todas com vestidos brancos desenhados por ela. Deu a cada uma um pequeno broche turquesa em formato de águia, como símbolo de força e coragem. Albert aguardava no altar, muito elegante num uniforme justo vermelho-vivo, com a corrente e a estrela da Ordem da Jarreteira, ordem mais alta da cavalaria na Grã-Bretanha, com os olhos azuis pousados em sua solene noivinha que se aproximava. Segundo registrou Florence Nightingale, que, como a maioria das pessoas, achava
Albert um “jovem de aparência admiravelmente agradável”, 20 uma sra. Lefevre, a qual ficara perto de Vitória durante a cerimônia, disse que ela estava:
com toda a compostura e falava bem, com clareza, mas cada flor de laranjeira da grinalda
tremulava e ela estava muito pálida, com os olhos vermelhos como se não tivesse dormido. Mas
assinou o nome com muita firmeza e estava tão ansiosa para que o PA [príncipe Albert] se
destacasse que tocava seu cotovelo toda vez que ele estava para fazer algo errado, mostrou-lhe
onde devia assinar o nome e corrigiu quando ele pôs a aliança no dedo errado. Depois do
casamento, ela relaxou e parecia plenamente feliz.21
No dia seguinte, a única notícia que Vitória quis corrigir foi que teria
chorado: “Não derramei uma única lágrima o tempo inteiro”.22 Fora educada na arte da compostura e não pretendia ser vista como uma rainha instável.
Após a cerimônia, os recém-casados roubaram meia horinha no quarto de Vitória, antes de enfrentar as multidões no banquete nupcial. Vitória pôs um anel no dedo de Albert, enquanto ele dizia que não devia jamais existir nenhum segredo entre ambos. Vinte e três anos depois, ela escreveu no
diário: “Nunca houve”. 23
Vitória trocou de roupa, colocando um vestido também branco, ornado com plumagem de cisne, e um chapéu com uma aba enorme, dentro do qual daria para ela se esconder.
A festa foi um frenesi de mesuras, acenos de cabeça, sorrisos radiantes e apertos de mão. O casal finalmente saiu às quatro da tarde, partindo de maneira simples enquanto os raios de sol começavam a atravessar as nuvens, com três coches de acompanhamento e o povo saudando e correndo ao lado. Greville reclamou que eles “saíram em estilo muito pobre e desleixado” num velho coche de viagem, mas a rainha nem percebeu; enquanto o sol coloria as nuvens antes de se precipitar no horizonte, a única
coisa era “Eu e Albert a sós, o que era tão delicioso”.24 Este seria um refrão constante no casamento: o que ela mais queria, sempre, era ficar a sós com Albert.
Depois de três horas de viagem, o casal exausto chegou ao Castelo de Windsor. Vitória estava com dor de cabeça; trocou de roupa e se deitou no sofá, repassando mentalmente as imagens daquele dia caótico. Albert tocava piano enquanto ela descansava. Lá era muito mais tranquilo do que Londres: que alívio. Vitória relembrou as últimas horas: a expressão no rosto do caro Melbourne, tentando conter as lágrimas. A felicidade do instante em que Albert lhe colocou a aliança no dedo, e pronto. O denso oceano de rostos ao longo do percurso até a capela; no palácio, a calorosa atmosfera de benevolência, os aplausos ensurdecedores, a visão de Albert elegante em seu uniforme. A tremenda aclamação dos garotos em Eton quando entravam em Windsor. A profundidade do sacramento. “A cerimônia foi muito imponente, elegante e simples”, escreveu ela no diário, “e penso que deve causar uma impressão indelével em quem promete diante
do altar cumprir o prometido.”25
O que mais lhe agradou, porém, foi que, parados diante do arcebispo, eram tratados apenas como Vitória e Albert. E pensou com uma alegria crescente que, pelo resto da vida, ela seria apenas Vitória para Albert. Não era uma rainha ou uma dirigente; era uma esposa e amante. Virou-se de lado e olhou o marido com os dedos deslizando pelas teclas do piano, tocando uma de suas composições pessoais. Albert ergueu os olhos e foi até ela, dando-lhe um beijo. Às 22h20 foram para o quarto, “claro, na mesma
cama”, como disse Vitória.26 Deitou-se ao lado dele, aninhada em seus braços e peito, sorrindo no escuro enquanto ele lhe sussurrava.
Vitória acordou no dia seguinte após poucas horas de sono. Ficou deitada imóvel, olhando o rosto de Albert à luz matinal, admirando sua garganta pálida, que até então vira apenas de relance. Era “lindo, angelical”. Estava satisfeita e emocionada com uma intimidade que tanto se esforçara em imaginar. Para a sorte dela, a mortificante tradição de virem membros da corte observar o casal real ao partilharem o leito pela primeira vez saíra de moda desde Jorge III. E também para sua sorte, Albert, ao que parece, era um amante terno e competente. A noite de núpcias de Vitória foi a coisa mais próxima do êxtase que ela já conhecera. Seu júbilo ficou evidente no diário:
NUNCA, NUNCA passei uma noite assim! MEU QUERIDO, QUERIDÍSSIMO Albert se sentou
num tamborete a meu lado, e seu extremo amor e afeto me proporcionaram sentimentos de amor e
felicidade celestial que antes eu jamais esperara sentir. Tomou-me em seus braços e nos beijamos
vezes e mais vezes! Sua beleza, doçura e delicadeza — de fato, como poderei algum dia agradecer
o suficiente por ter tal marido! Ah! Este foi o dia mais feliz de minha vida!27
Era uma espécie de fascínio sensual. Durante o desjejum, Vitória o contemplava, notando outra vez que estava sem camisa por baixo do casaco de veludo negro, “mais lindo do que consigo dizer”. No dia seguinte, ela arrulhava extasiada: “Já é o segundo dia desde nosso casamento; seu amor e delicadeza ultrapassam tudo, e beijar aquela querida face macia, pressionar meus lábios nos dele é um êxtase celestial. Sinto uma sensação mais pura, mais sublime do que jamais senti. Ah! Terá algum dia existido mulher tão abençoada quanto eu!”. O que mais amava eram os pequenos gestos íntimos: quando Albert lhe calçava as meias, quando ela o observava se barbear. Ele se deitava a seu lado, beijando-a inúmeras vezes; adormeciam entrelaçados. Quando Lord Melbourne comentou que ela parecia estar “muito bem”, Vitória respondeu que a “gentileza e afeição” de Albert “ultrapassam tudo”. Nesses dias, suas anotações falavam do toque e da beleza de Albert, ao mesmo tempo continuando a registrar fielmente o assunto e a natureza de todas as conversas com seu Lord M.
Há muito tempo os historiadores reconhecem que Vitória tinha uma libido fogosa. Alguns sugeriram que ela era uma espécie de predadora sexual que devorava o marido tolerante, porém exausto. Era, sem dúvida, extremamente ardorosa, fato esse que colide com as fortes associações com a velhice rígida e a condenação puritana que muitas vezes vêm vinculadas a Vitória. Considerando como o sexo era uma questão complicada para as mulheres naquela época — com pouco acesso à contracepção e aborto e sem nada para aliviar as dores do parto —, a franca e desenfreada fruição física de Vitória com o marido é admirável.
No século XIX, julgava-se que as mulheres com libido forte eram casos patológicos: o desejo feminino era considerado perigoso e potencialmente explosivo; pensava-se que a natureza animal da mulher venceria sua
vontade frágil e ela perderia o controle.28 Eram chamadas de “ninfomaníacas” por sonhar, pensar ou ter o que se julgava ser uma quantidade excessiva de relações sexuais. Algumas passavam pela remoção do clitóris ou aplicavam-se sanguessugas no períneo. Outras deviam se abster de carne e conhaque, e recomendava-se que usassem travesseiros de crina, tomassem duchas de bórax, recebessem lavagens intestinais geladas ou adotassem dietas vegetarianas estritas. Em 1886, um médico declarou que as candidatas mais prováveis à ninfomania eram virgens, viúvas ou
loiras entre dezesseis e 25 anos.29 Essa projeção predominava na medicina vitoriana.
Pensava-se que a maioria das doenças femininas derivava de problemas nos órgãos pélvicos. Supunha-se que as maiores fontes de conhecimento sobre os órgãos femininos eram ginecologistas do sexo masculino, e assim o corpo feminino era um segredo até mesmo, ou talvez principalmente, para as mulheres. (A Lei de Registro Médico de 1858 proibia que as mulheres se
formassem em medicina.)30
A educação sexual para meninas era algo inconcebível. O médico britânico William Acton, autor de livros sobre masturbação, chegou a afirmar que alguns casais eram tão mal informados que nunca consumavam
o casamento.31 Em vista de uma declaração sua de 1857, é impossível deixar de sentir alguma compaixão por sua esposa: “A maioria das mulheres (felizmente para elas) não é incomodada por espécie alguma de
sensação sexual”.32 Muitas procuravam evitar o orgasmo pois diziam que o
orgasmo engravidava. 33 Em 1877, Robert Tait escreveu:
A maioria das mulheres ingressa no casamento apenas com uma noção muito vaga das funções do
casamento… há entranhado em nossa vida inglesa um falso pudor nesses assuntos que tem de ser
pago com muito sofrimento entre as mulheres.34
Para muitas esposas, o sexo era uma obrigação, não um prazer.35 Dada a ignorância sobre o corpo feminino, o gosto de Vitória pelo prazer sexual era um exemplo de genuína contracultura. Albert não registrou suas opiniões sobre o sexo, mas é evidente que ele satisfazia a esposa. E certamente a admirava, escrevendo ao irmão sobre seu busto tão elogiado. Poucos meses depois do casamento, Albert disse a Ernest, um tanto na defensiva, que Vitória “mudou muito e para melhor” e que estava encantadora no jantar da noite anterior: “Estava com uma roupa muito decotada, com um buquê de
rosas entre os seios que saltavam do vestido”.36
Apesar da intensidade e da evidente carnalidade da relação entre Albert e Vitória, a qual tinha certeza de ser a única mulher com quem ele fizera amor na vida, existem algumas especulações de que ele seria homossexual. O que chamava a atenção de seus contemporâneos era que Albert parecia imune aos encantos das grandes beldades londrinas, volta e meia esquecendo os nomes delas; não flertava e não se impressionava com a aparência. Quando fez dezoito anos, Albert prometeu de brincadeira a Stockmar que iria “dar
mais atenção às damas”.37 Stockmar disse que Albert era apenas “indiferente e reservado demais” em companhia do sexo oposto, acrescentando: “Ele sempre terá mais sucesso entre os homens”. Em parte
era verdade.38 Albert amava a esposa, mas, em termos sociais e intelectuais,
preferia a companhia masculina.39 Essa preferência ficou evidente, entre outros, para Lady Clarendon, esposa de um político que tentou entabular conversa com ele num jantar e notou que as únicas mulheres com quem ele
falava eram da realeza.40 Embora Albert não gostasse de ficar bebendo Porto com os outros homens após o jantar nem dos gracejos masculinos, como era o costume na época — geralmente saindo para jogar xadrez sozinho ou cantar duetos com Vitória —, suas amizades mais próximas eram masculinas.
Não existem provas de que ele tenha mantido relações carnais com outro homem, mas muitos desconfiavam que sim. Lytton Strachey declarou que Albert não puxou ao pai infiel por duas possíveis razões: sua “criação peculiar” ou por “uma idiossincrasia mais fundamental”, a saber, “uma
acentuada aversão pelo sexo oposto”.41 Outros apontam as amizades masculinas que travou na Universidade de Bonn e sua proximidade com Johann Christoph Florschütz, um intelectual talentoso que dividiu uma
pequena mansarda com Albert e Ernest durante quinze anos.42 Albert tributa a Florschütz, não ao pai, os anos mais felizes de sua vida. Seu grande apego ao preceptor não é de surpreender, em vista da ausência da
mãe. 43 Outros também assinalaram a forte cultura homoerótica presente no século XIX em muitas faculdades masculinas, como as de Oxford e Cambridge, e escolas públicas como Eton, e não há razão para pensar que Bonn estaria isenta. Comportamentos íntimos — apaixonadas declarações de amor, beijos e compartilhamento da mesma cama — que hoje seriam chamados de homossexuais não recebiam esse rótulo.
É extremamente improvável que a discussão sobre a sexualidade de Albert avance algum dia para além da mera especulação. Teve com Vitória um casamento íntimo e satisfatório, e foi ela a principal protetora e criadora da memória de Albert. Ninguém realmente bisbilhotava a esse respeito enquanto ele estava vivo, sendo uma época em que a homossexualidade não era vista como uma identidade e sim como algo que de vez em quando as pessoas faziam, geralmente meninas e garotos na fase da adolescência. Segundo Michel Foucault, o início do entendimento da homossexualidade
como identidade só se deu a partir de 1870.44
E, no final das contas, o fato de Albert não ficar admirando ou namoriscando outras mulheres era uma das coisas que Vitória mais amava no marido. Isso lhe dava sensação de segurança e proteção. Era também uma ótima revanche sobre as mulheres de sociedade pretensiosas e afamadas que rodeavam a corte real. Comentou satisfeita com Melbourne sobre o fato “de Albert não dar muita importância à beleza e detestar
aquelas beldades que são tão festejadas, disposto sempre a desdenhá-las”. 45 Vitória ficou furiosa quando Melbourne sugeriu que esse tipo de interesse por mulheres podia surgir mais tarde. Era uma bobagem dizer tal coisa e
Vitória ficou irritada: “Nunca o perdoarei por isso”.46 Mas, claro, já no dia seguinte o perdoou. Melbourne se desculpou e disse que estava se referindo apenas à timidez de Albert.
O casamento entre Vitória e Albert é um dos maiores romances da história moderna. Foi genuíno, devotado e fecundo. Juntos, foram os arautos de uma era em que a monarquia passou do poder direto para a influência indireta, de fruto da aristocracia para símbolo da classe média. Eles restauraram e elevaram a estatura da monarquia, preservando-a das revoluções que derrubaram as famílias reais e aristocráticas na Europa nos mesmos anos em que Vitória e Albert eram amplamente festejados na Grã-Bretanha. A figura de Albert viria a crescer e, por breve tempo, ultrapassar a da esposa em termos de influência, mas não em longevidade, energia ou força de vontade. Albert alcançou grande altura; Vitória permaneceu.
Ao dar a Albert plena liberdade para trabalhar a seu lado durante suas nove gestações, Vitória logo descobriu que o marido, com sua inteligência e vivacidade intelectual, era de enorme valia. Ela passou cerca de oitenta meses grávida nos anos 1840 e 1850 — mais de seis anos ao todo — e ainda mais tempo recuperando-se dos partos. Nesses períodos, ela podia transferir o trabalho para alguém de grande inteligência e de toda a confiança. Mas o marido não tinha a menor intenção de ser um parceiro num papel subordinado, e isso desencadeou os conflitos mais acirrados do casamento. Mesmo quando menino, Albert mostrara “grande desagrado em
estar a cargo de mulheres”.47 Casara-se então com uma mulher que tinha um Império a seu cargo. Quando ingressaram na vida de casados, cada qual tentou afirmar sua vontade no relacionamento que, tradicionalmente, era o mais desigual de todos: marido e mulher, monarca e consorte. Nesse caso, quem tinha o trunfo era o consorte: nunca precisaria gerar filhos.