Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 34 de 44

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Vitória, a rainha

Nota da autora

 

Eu comecei a pensar na rainha Vitória após a campanha da eleição presidencial de 2008, quando trabalhava para a Newsweek em Nova York. Nossa equipe editorial tinha debatido com fervor a maneira como falamos sobre mulheres em posição de poder, e eu estivera escrevendo sobre a aparição improvável de Sarah Palin na corrida como a vice de John McCain, assim como a tentativa frustrada de Hillary Clinton de concorrer à presidência. Um dos argumentos mais fortes que tínhamos era como ainda parecemos incapazes de associar mulheres a poder; muitas vezes parece uma conexão estranha, surpreendente, improvável e perturbadora. Após uma dessas conversas, meu editor, Jon Meacham, sugeriu que a rainha Vitória não havia sido abordada de forma adequada fazia um tempo, e os seis meses que eu passei pesquisando a New York Society confirmaram isso; a repetição cansativa dos mesmos pontos de vista sobre Vitória, com quase nenhuma informação inédita, despertou meu interesse.

Desde então eu investiguei material de arquivos em Londres, Oxford, Escócia, Sydney, Alemanha e Estados Unidos, em uma busca para descobrir quem Vitória era: me debruçando sobre documentos antigos, decifrando caligrafias tenebrosas e decodificando símbolos em diários. Eu andei com calma e repetidas vezes nos aposentos em que ela viveu na Casa Osborne, na Ilha de Wight, no Castelo de Windsor, no Palácio de Buckingham e no Castelo de Balmoral na Escócia. A Casa Osborne está parada no tempo e ainda se encontra cheia de lembranças, quase que idêntica ao momento em que Vitória morreu: esculturas de bebês, fragmentos de cabelo de crianças, pinturas encomendadas por um marido jovem e rico, para o deleite dele e da esposa. Em Windsor, que Vitória detestava, pouca evidência sobrou dela. Balmoral é mais revelador não apenas pelos móveis em tartã ou pelos muitos retratos de cachorros queridos, mas pelo seu isolamento tranquilo e selvagem, mesmo no século XXI.

Mas havia um grande obstáculo que parecia impossível de superar: eu não consegui ter acesso à correspondência e aos diários pessoais de Vitória, nos Arquivos Reais no Castelo de Windsor, os registros mais importantes de todos. Eu enviei três solicitações: uma que não foi respondida, e duas que foram negadas com base no fato de esta ser a minha primeira biografia e eu ainda não haver publicado um livro sobre a família real. Continuei a pressionar, mostrando que eu tinha um ph.D. em história, assim como um contrato para escrever um livro, e assegurando que eu abordaria qualquer material de forma cautelosa e acadêmica. Mas foi só em meados de 2013, após Quentin Bryce, a governadora-geral da Austrália, e o seu secretário, Stephen Brady, intercederem a meu favor, atestando sobre meu caráter, que enfim consegui permissão para entrar. Fiquei eufórica, se não desconcertada, pelo fato de que nem meu projeto nem as minhas qualificações haviam mudado; foi apenas o status de meus defensores que abriu as portas.

Finalmente, em 2014, eu subi os quase cem degraus até a Torre Redonda do Castelo de Windsor. Os materiais lá são fartos, lindamente preservados e guardados com cuidado: toda vez que você vai ao banheiro, um acompanhante vai junto, para que você não tenha nenhuma tentativa de contrabandear documentos preciosos. Dias de verão tranquilos e gloriosos passaram rapidamente enquanto eu ficava lendo na fresca torre de pedra. Os membros da equipe eram gentis e solícitos, e os seus conhecimentos do material eram impecáveis.

Antes de começar a trabalhar nos Arquivos Reais, que são dirigidos pela Casa Real, é preciso assinar um acordo que garanta que você esteja ciente de que eles têm controle absoluto de todo material que está prestes a ver. (Esses registros, fechados para o público, não são liberados automaticamente após trinta anos, como acontece com outros registros britânicos governamentais, e estão isentos do Freedom of Information Laws [Leis de Liberdade de Informações].) O acordo declara que: “Todas as requeridas citações dos registros nos Arquivos Reais, e todas as requeridas passagens baseadas em informações obtidas por esses registros, devem ser submetidas para o Assistente Guardião nos Arquivos Reais em Inglês. Qualquer publicação ou disseminação de qualquer tipo de material desse tipo, em qualquer forma de mídia, está sujeita à permissão prévia do Assistente Guardião. Citações devem aparecer dentro de contexto. O texto não deve ser enviado para a editora antes que essa permissão seja concedida”. Eu assinei.

Quando terminei o rascunho do livro, a Arquivista Sênior, a srta. Pamela Clark, me lembrou em um e-mail: “Como enunciado em nossos regulamentos, que você assinou, é preciso que você me envie qualquer trecho do seu texto que é baseado no material dos Arquivos Reais, mostrando as passagens importantes dentro do contexto dos parágrafos e dos seus comentários”. Como eu havia utilizado muito material do arquivo, enviei meu manuscrito completo.

Vários meses depois, recebi uma resposta da srta. Clark que incluía alguns comentários úteis e pequenas correções. Para a minha surpresa ela também pediu que eu removesse trechos grandes do meu livro baseados em material que eu encontrara não dentro mas sim fora dos arquivos. A preocupação dela estava nos documentos do médico de Vitória, Sir James Reid, que estão em posse da família dele na Escócia, e em particular “os documentos em que a rainha delegou instruções sobre quem deveria cuidar dela na sua derradeira doença, arranjos para o seu funeral e que itens deveriam ser colocados em seu caixão”. A srta. Clark também destacou os registros de Reid de “detalhes da condição médica da rainha”.

Essa era uma decisão difícil de ser tomada, já que eu tinha um grande respeito pela família real e estava muito grata pela oportunidade de estudar o material guardado no Castelo de Windsor. Mas, após deliberar muito, eu decidi publicar os trechos baseados nas observações do dr. Reid, seguindo algumas considerações. Primeiro, o acordo que eu assinei tinha a ver apenas com o material dos Arquivos Reais, que foram tratados de forma cuidadosa e precisa. Eu cumpri à risca o acordo. Segundo, grande parte desse material já fora publicada por Lady Michaela Reid, em seu livro sobre Sir James e também em um artigo subsequente, apesar de ter sido desde então ignorado ou omitido pela maioria dos biógrafos (por motivos que agora se tornavam claros). Lady Michaela me dera permissão para citar esses documentos. As anotações do avô de seu marido se mantêm em mãos da família Reid. Terceiro, como historiadora é difícil anuir a um pedido — e a retirada desses trechos foi um “pedido” — que significa editar um material, muito do qual já se encontra em domínio público, sobre eventos que aconteceram mais de um século atrás. O pedido de remover todos os trechos baseados em informações de Reid era evidência extra da vontade recorrente da Casa Real de esconder a verdade sobre o relacionamento de Vitória com o seu criado escocês, John Brown.

Os guardiões dos Arquivos Reais, que fazem esse trabalho há mais de dois séculos, desde Jorge III até os dias atuais, são autoritários, meticulosos e preocupados com a exatidão. Mas o sigilo e a falta de transparência em relação a esse material essencial vão contra a própria história: uma análise rigorosa, extenuante de evidências primárias que permitirá um melhor entendimento de como tudo aconteceu e das pessoas que agiram, testemunharam, e estavam no centro dos acontecimentos. Pedir a um historiador que abandone um trabalho com base em documentos mantidos pela família do autor — os quais você tem os direitos de publicar — só pode significar uma tentativa de censurar ou obscurecer um relato verdadeiro da história.

É a minha esperança que aqueles que lerem este livro entendam como eu pesquisei com minúcia e retidão a vida da rainha Vitória, e como seria incompatível com essa forma de trabalhar a remoção de grandes trechos do livro por nenhum motivo concreto. O propósito deste livro foi ver além dos mitos, e não criar mais deles.

Julia Baird

Julho 2016