Vitória, a rainha
15. Prosperidade plena, imensa, perfeita
15. Prosperidade plena, imensa,
perfeita
Os dois jovens passaram anos se desmanchando com seus bebês, mais do que o
habitual mesmo entre os casais mais afetuosos, e, apesar das demandas
públicas que exigiam o tempo deles, passavam grande parte do dia brincando
com seus bonequinhos em forma de gente.
CLARE JERROLD1
Havia tranquilidade, recolhimento, simplicidade, liberdade e solidão.
RAINHA VITÓRIA SOBRE A ESCÓCIA2
O General Pequeno Polegar tinha apenas sessenta centímetros de altura e pesava não mais que sete quilos, mas estava absolutamente calmo no dia em que foi conhecer a rainha Vitória. O garoto americano tinha seis anos de idade, embora as propagandas normalmente anunciassem doze ou catorze anos. Charles Sherwood Stratton, que parara de crescer aos sete meses, parecia um homenzinho em miniatura. Tinha cabelo claro, olhos negros,
faces rosadas e roupas sob medida.3 O artista americano de teatro de variedades irrompeu confiante pelas portas que levavam à galeria de quadros da rainha, onde era aguardado por Vitória e Albert, percorrendo em passos firmes o extenso tapete.
A multidão ali presente prendeu o fôlego de surpresa. Seu empresário, P. T. Barnum, que o “arrendara” de seus pais, escreveu depois que o garoto parecia “um boneco de cera dotado de poderes de locomoção”. O Pequeno Polegar passou pisando duro por algumas das maiores obras-primas do mundo — quadros de Rubens, Van Dyck, Rembrandt e Vermeer, na maioria colecionados pelo rei Carlos I — e parou na frente da rainhazinha. Pelo menos uma vez, ela olhou para baixo para fitar alguém. Ele então fez uma profunda reverência: “Boa noite, senhoras e senhores!”. A corte caiu na gargalhada com a quebra da etiqueta: ele não tratara a rainha como Vossa Majestade. A rainha pegou a mão do Pequeno Polegar e juntos percorreram a galeria, enquanto ela lhe fazia perguntas. O garoto falou que a galeria de quadros era “coisa fina” e os membros da corte riram. Pelos sessenta minutos seguintes, o Pequeno Polegar cantou, fez uma imitação de Napoleão e deu um espetáculo ininterrupto.
Como ocorria a todos os visitantes, Barnum recebera instruções de sair da sala fazendo vênias e sem dar as costas para a rainha. A galeria era de extensão considerável — cerca de cinquenta metros de comprimento — e, conta Barnum, as perninhas do Pequeno Polegar não conseguiam acompanhar o passo do empresário; quando descompassava, virava-se, dava uma corridinha, punha-se às arrecuas outra vez e depois dava outra corridinha. Manteve esse procedimento enquanto os presentes na galeria se esbaldavam de rir. Aquela agitação atiçou o poodle de Vitória; o cão começou a latir e o Pequeno Polegar precisou afastá-lo com a bengala, o que fez as pessoas rirem ainda mais.
Vitória ficou preocupada com Barnum, achando que ele não tratava o Pequeno Polegar com gentileza suficiente; escreveu depois que era “a maior curiosidade que eu ou qualquer pessoa já viu na vida”:
Não existe descrição capaz de dar uma ideia dessa criaturinha, cujo verdadeiro nome era Charles
Stratton… É americano e nos deu seu cartão, que dizia General Pequeno Polegar. Fez a mais
engraçada das vênias, estendendo a mão e dizendo: “muito obrigado, madame”. É impossível
deixar de sentir grande pena pelo pobrezinho e desejar que o tratem com o devido cuidado, pois
seus exibidores troçam muito dele, creio eu.4
Estava-se em 1844, e aquela foi a primeira das três visitas do Pequeno Polegar ao Palácio de Buckingham, sempre cercadas de sucesso, durante
uma turnê de três anos pela Grã-Bretanha e Europa.5 Vitória lhe deu dinheiro e presentes, mas a maior dádiva foi sua atenção, o que o cercou de
prestígio e publicidade. 6 O General Pequeno Polegar se tornou o suprassumo da moda; as carruagens faziam fila na frente das salas de espetáculo onde ele se apresentava em Piccadilly. O Pequeno Polegar percorria as ruas de Londres numa pequenina carruagem elegante, branca,
vermelha e azul, puxada por belos cavalinhos.7 Logo adotou os trajes da corte: casaca de veludo castanho ricamente bordada e calções curtos, colete de cetim branco com estampas coloridas, meias e sapatos de seda branca, peruca, tricórnio e uma espada de mentira. Ele e seu famoso empresário Barnum sabiam entreter o público. Barnum dizia que seu jovem protegido era “um favorito de grande estimação” do primeiro-ministro Robert Peel e do duque de Wellington. A rainha o convidou para uma nova apresentação em 1856.
Vitória sentia enorme interesse pelas “curiosidades”, como então se dizia: animais exóticos, homens e mulheres incomuns, desde encantadores de cavalos a anões e bobos da corte. Pouco tempo depois de se casar com Albert, ela conheceu a “Dama dos Leões”, a primeira mulher de que se tinha notícia a entrar em grandes jaulas de tigres e leões e sair sem um arranhão. A Dama dos Leões se apresentou no pátio do Castelo de Windsor, enquanto a rainha assistia pela janela. Depois mandou chamá-la e elogiou sua coragem. “Pobre moça”, disse Vitória. “Rogo e espero que você nunca
se machuque. Deus a abençoe!”8
Vitória conservou a bondade para com os vulneráveis e a curiosidade pelo extraordinário durante toda a vida. Quando surgiu um cartaz anunciando o casal de noivos mais alto do mundo, ela os convidou para uma visita ao Palácio de Buckingham e deu à noiva um vestido de casamento e um anel
de diamantes.9 Já com setenta e tantos anos, a rainha solicitou frequentes apresentações do belo fisiculturista Eugen Sandow. Quando um elefante chamado Charlie, a que ela assistira uma vez, matou um homem que estava
a provocá-lo, Vitória escreveu uma carta de pêsames ao tratador.10
Foram anos felizes. Vitória se preocupava com as sucessivas gestações e a prole que se multiplicava rapidamente, afligia-se com a instabilidade na Europa, mas, nesse mesmo período, afirmou seus direitos, deu amplo espaço ao marido para executar seus projetos e adorava a vida em família. Cantava em dueto com Albert enquanto Felix Mendelssohn tocava concertos particulares para eles; construiu um teatro para encenar peças em casa; regalava-se com bons vinhos e boa comida. Às vezes talvez exagerasse um pouco: “Uma rainha não toma uma garrafa de vinho inteira
numa refeição”, disse-lhe severamente Stockmar num bilhete.11 O que ela realmente queria era privacidade, solidão e casas menores na costa e nas
Highlands. 12 Duas de suas palavras favoritas eram “aconchegante” e “abrigado” — ambas contidas no termo alemão gemütlich.
Foi na Ilha de Wight, com seus campos luxuriantes e os penhascos calcários junto ao mar cinzento, que Vitória e Albert criaram pela primeira vez seu próprio lar. A ilha tinha uma atmosfera encantada; as trilhas de passeio eram repletas de arbustos floridos e ramagens pendentes; os coelhos saltitavam pelos promontórios, os rouxinóis cantavam nas árvores. Na casa clara e arejada, chamada Osborne, quase todos os aposentos tinham vista para o mar. Vitória passara temporadas na ilha na época de menina; quando Peel os avisou que havia uma propriedade à venda, Albert conseguiu negociar um preço razoável, que pagou graças à sua prudente gestão orçamentária. Adorou a oportunidade de projetar e remodelar uma casa sem os empecilhos da intervenção de um departamento oficial. Contratou o famoso projetista e construtor Thomas Cubitt e se envolveu em tudo: a fachada e o andar térreo em estilo italiano, a disposição das porcelanas e objetos de arte, os jardins, a praia, o solo, o sistema de esgotos, o plantio das árvores. Albert construiu um depósito de gelo, uma lagoa para ser usada em caso de incêndios, uma casinha de praia decorada com mosaicos para Vitória e uma piscina flutuante ancorada no mar para as crianças (Vitória usava uma cabina rolante de madeira, da qual saía discretamente no mar).
Ele também desenhou os berços de grades altas do quarto das crianças, as lâmpadas sobre a mesa de bilhar de ardósia, que giravam para fora na hora de limpar; as portas de correr na sala de estar, espelhadas para refletir as luzes dos candelabros à noite; e o Chalé Suíço, onde as crianças cultivavam plantas, colecionavam pedras e brincavam na fortaleza de brinquedo com suas armas de brinquedo. No Natal, ele compunha hinos para a família cantar ao acompanhamento de instrumentos de sopro.
Essa casa, para Vitória, era um “pequeno paraíso perfeito”. 13 Deliciava-se com a fonte, os carneirinhos, os rouxinóis, a folhagem (“as árvores parecem
cobertas de plumas”).14 Albert florescia ali. Em maio de 1845, Vitória escreveu: “Faz bem ao meu coração ver como meu amado Albert gosta de tudo, cheio de admiração pelo lugar e todos os projetos e melhorias que
pretende realizar. Mal para em casa por um instante”.15 Como observou três
anos depois, era uma forma de terapia para ele.16 Albert adorava trabalhar no jardim; fez experiências para converter as águas de esgoto em fertilizantes e ficou muito desapontado ao não conseguir que seguissem seu exemplo, principalmente em vista das condições dos esgotos em Londres. Também ganhou fama de bom patrão, que tratava bem os empregados.
A Vitória da Casa Osborne é uma mulher alegre, amorosa, no auge e frescor do jovem casamento. As escrivaninhas eram decoradas com retratos emoldurados da família e moldes de pezinhos e mãozinhas de bebês: mãos rechonchudas com a palma vincada, cotovelos com covinhas, rostos lisos e macios — os pais registravam os momentos de juventude que passam voando despercebidos se não forem capturados. Um quadro na ampla sala de estar amarela mostra o sutil espírito divertido e galhofeiro do casal naquela época. A pintura apresenta três mulheres sentadas sob a folhagem verdejante das árvores, tocadas aqui e ali pelo sol da tarde. Uma delas, com um sorriso misterioso, apoia-se no colo de outra. À primeira vista, parece um agradável piquenique inocente de verão. A um exame mais próximo, vê-se o formato das costas de um homem sob as saias da mulher sorridente reclinada, e da barra das saias despontam dois pés adicionais. Consta que essa pintura, La Siesta, de Franz Xaver Winterhalter, foi o primeiro quadro que a rainha comprou. É divertido pensar numa maliciosa Vitória rindo com Albert diante da cena, travessamente mostrando o quadro aos visitantes sem
indicar a presença do homem ali escondido.*
No final do verão ou começo do outono, a família foi para a região montanhosa costeira da Escócia, pouco povoada. Vitória esteve lá pela primeira vez em 1842, quando enfrentava a depressão após o nascimento de
Bertie.17 Ela e o marido ficaram fascinados com a paz e a beleza das Highlands selvagens. A família passeava pelos montes agrestes e solitários; Albert caçava ou perseguia veados enquanto Vitória desenhava ou conversava com os ghillies — os moradores locais que trabalhavam como ajudantes, principalmente na caça, na pesca e nas caminhadas — e as crianças brincavam. Albert admirava o “caráter sóbrio e grandioso” e o ar “admiravelmente puro e claro”, bem como as pessoas que eram “mais naturais, marcadas por aquela honestidade e simpatia que sempre caracterizam os habitantes de regiões montanhosas, que vivem longe das
cidades”.18 Recordavam-lhe seu lar de infância na Alemanha.
Vitória e Albert fizeram a primeira viagem até o “belo castelinho” de Balmoral em setembro de 1848. Andavam quilômetros subindo as montanhas, com panoramas cada vez mais esplendorosos, em absoluto silêncio: “Era maravilhoso não ver um ser humano, não ouvir um som, a não ser o do vento ou o chamado do galo silvestre ou do tetraz. Enchia-me
de especiais sentimentos de admiração e solenidade”, escreveu Vitória.19
Albert, introvertido, amava a “total solidão da montanha, onde raramente se vê um rosto humano”, e o que mais queria era caçar: “Eu, homem malvado, também estive me esgueirando sorrateiro atrás dos inofensivos
cervos e hoje matei dois gamos vermelhos”.20 Ele levava a caça muito a sério, e Vitória aguardava ansiosa para saber quantos couros conseguira: uma vez em que não trouxe nada, ela quase chorou. Passavam as tardes trabalhando, respondendo a inúmeros relatórios e informes do mundo exterior, sobre a Irlanda, a instabilidade na Europa, a inquietação na Índia; mas as manhãs eram calmas e tranquilas.
A rainha abandonou suas inibições em Balmoral e fez amizade com os locais. Dava saias novas às inquilinas de seus chalés, passava horas
conversando com as mulheres, às vezes ia tomar chá com elas. 21 Pareciam-lhe simples, diretas, de uma despretensão revigorante: “Nunca são vulgares,
nunca tomam liberdades, são muito inteligentes, modestas e bem-criadas”.22 O casal real estava apaixonado pela vida nas Highlands: usavam os tecidos de lã xadrez, Albert estudava gaélico, a rainha e as crianças tinham aulas de danças escocesas. Charles Greville ficou impressionado com a vida simples que levavam: “Vivem lá sem nenhuma pompa; vivem não só como fidalgos comuns, mas como pequenos fidalgos, e bem pequenos; casa pequena,
aposentos pequenos, renda pequena”. 23
A Escócia continuaria a ser o lugar onde Vitória se sentia mais feliz e mais autêntica até o final da vida. Sentava-se nas casas de barro e conversava interminavelmente sobre qualquer coisa. Podia dançar com os montanheses sem que nenhum aristocrata esnobe erguesse as sobrancelhas de reprovação, e trocava risadinhas com suas damas enquanto desciam com dificuldade as encostas escorregadias na área mais bela e remota. Em seu diário, Vitória escreveu em 11 de setembro de 1849 sobre um homem que a atendera numa de suas estadas e que viria a ser tão importante para ela em anos futuros: o bonitão “J. Brown”.
Mas nem todos se contagiavam com seu entusiasmo: depois de suportar um jantar cheio de longos silêncios constrangedores na Casa Osborne, Lady Lyttelton observava com certa inveja os homens a jogarem bilhar enquanto a rainha falava sobre “sua vida agreste nas Highlands, e com muito gosto — que o ar escocês, o povo escocês, as montanhas escocesas, os rios escoceses, as matas escocesas são muito melhores do que os de qualquer outra nação deste ou do outro mundo”. “O principal esteio de meu ânimo”, acrescentou Lady Lyttelton, “é que nunca verei, ouvirei ou presenciarei
esses vários encantos.”24 Mas era esta a grande magia do novo lar escocês do casal: Vitória e Albert o amavam como ninguém.
Durante esses anos, Vitória de vez em quando se afligia à ideia de que sua felicidade talvez não durasse. Queria parar o tempo. Sentada sozinha em seu quarto na passagem do ano de 1847 para 1848, ela escreveu:
Quando a pessoa é feliz como somos, sente-se tristeza com o rápido passar dos anos, e sempre
tenho vontade de que o Tempo pudesse se deter por um tanto. Este ano nos trouxe muitos motivos
de gratidão; as crianças estão muito bem, e os dois mais velhos realmente avançaram muito. Tenho
pensado sobre meus defeitos — o que devo evitar, o que devo corrigir, e com o auxílio de Deus e
perseverança de minha parte espero vencer minhas falhas.25
Vitória dava à luz um filho após o outro sem nunca interromper seu
trabalho.26 Prometeu que tentaria ser uma pessoa melhor para o marido. Mas oscilava nas atitudes em relação ao trabalho e aos filhos, devido ao massacre físico imposto pela maternidade. Era robusta, mas vivia constantemente esgotada, adorando Albert, mas sentindo-se ressentida com ele, orgulhosa da família que vinha criando, mas cada vez mais afetada pelos sacrifícios exigidos. O poder e o triunfo de Vitória como monarca se baseavam na vida comum de mãe e na evidente satisfação como esposa. Era a “rainha doméstica”, e por isso a veneravam. Mas, enquanto isso, em seu coração se enraizou e cresceu a percepção de como era injusto o quinhão que cabia às mulheres — que só veio a expressar em palavras quando já era avó.
A pior parte era o preço físico. O estrago no corpo de Vitória fica evidente em sua crescente aversão pessoal à parte física da gestação; no diário, não falava de dor, desconforto ou desgaste, mas estar grávida, ela disse, a fazia sentir-se como um animal.
Vitória tinha uma “aversão absolutamente insuperável” pelo aleitamento
materno.27 Zangou-se quando, mais tarde, sua filha Alice decidiu amamentar pessoalmente seus bebês, e uma novilha nos currais de Balmoral
logo ganhou o apelido de Princesa Alice.28 Vitória considerava a
amamentação vulgar e inapropriada para as mulheres das classes altas.29 Também a julgava incompatível com o desempenho dos deveres públicos, argumento talvez persuasivo numa época em que não existiam bombas de
sucção de leite. 30 Antes da generalização dos alimentos infantis comerciais nos anos 1860, a maioria das vitorianas de classe média e mesmo da aristocracia combinava o aleitamento materno com leite animal ou papinhas até o bebê alcançar alguns meses de vida. As amas de leite eram caras, e frequentemente suspeitas de corromper sua função com uma moral
duvidosa.31 Mas Vitória não hesitava em empregá-las, acreditando que era melhor para as crianças serem amamentadas por uma mulher menos
refinada e “mais como um animal”.32 Mandou chamar a ama de leite do seu filho mais velho, Mary Ann Brough, da Ilha de Wight, para aleitar o
príncipe de Gales quando ainda estava em trabalho de parto.**
Apesar de sua posição privilegiada, a rainha, tal como as outras mulheres, não tinha o menor controle sobre o processo complexo geralmente debilitante da gestação. Oito em dez mulheres davam à luz antes de completarem um ano de casadas, tal como Vitória. A maioria das inglesas da época passava uma média de doze anos em gestação ou amamentação;
Vitória passou, ao todo, dezesseis anos.33 Mas deu à luz quase o dobro da
média de então, de 5,5 filhos.34 Muitos historiadores comentam essa proeza, ignorando seu custo físico e emocional, o desamparo que isso gerava. Disse à filha que a gravidez era “uma violência total a todos os sentimentos de decoro (que, sabe Deus, já recebem um grande choque com o
casamento)”.35
***
O maior reconforto de Vitória nos primeiros anos das gestações era Albert. Ele se envolvia muito mais na vida dos filhos e sofrimentos da
esposa do que o homem médio vitoriano.36 Sentia-se inteiramente à vontade no quarto das crianças. Também “supervisionava os princípios” da criação dos filhos, que, escreveu ele em 1846, eram “difíceis de sustentar diante de
tantas mulheres”.37 O príncipe consorte ficava com Vitória durante os partos, transportava-a nos períodos de resguardo e, numa atitude humanitária, pôs fim ao costume de se reunir uma dúzia de homens de Estado no aposento ao lado, durante o trabalho de parto da rainha. Tinha a mesma ternura com os filhos. Lady Lyttelton narrou um episódio quando uma babá tentava calçar uma luva na mãozinha do príncipe de Gales, então com dois anos e meio de idade; não conseguindo, jogou a luva, frustrada.
Foi bonito ver [Albert] chamar o menino ao colo e calçá-la num instante, com sua grande
habilidade e maneiras gentis; o principezinho, com uma evidente satisfação em ser ajudado, olhava
com grande suavidade o belo rosto do pai. Parecia um quadro num quarto de crianças. Não me
contive: “Não é todo papai que teria essa paciência e bondade” e recebi um olhar de gratidão tão
refulgente da rainha!38
Na criação dos filhos, Albert era uma figura de diversão, ensino e assistência na vida deles: punha ordem no quarto das crianças, mostrava orgulhoso os bebês às visitas, organizava os batizados, planejava suas aulas, construía chalés e fortes para brincarem, levava-os ao teatro, ao zoológico e ao museu de cera de Madame Tussaud. Alegre e barulhento, conta Vitória, ele empinava papagaio com os dois meninos mais velhos, brincava de esconde-esconde com Vicky e Bertie, ensinava Bertie a virar cambalhota no feno. A rainha se encantava ao vê-lo brincando de cavalinho com os filhos
nas costas e puxando-os pelo chão num grande cesto.39 Ela escreveu: “[Albert] é tão bom com eles, brinca com tanto prazer e lida com eles de
uma maneira muito bonita e firme”.40 Punha uma criança em cada joelho e ficava fazendo upa-upa enquanto tocava musiquinhas bobas no órgão.
Em 1859, Vitória comentou com Vicky, sua primogênita, então com dezoito anos, que Albert levava muito a sério o cuidado com a família: “Papai diz que os homens que deixam todos os assuntos domésticos e a educação dos filhos a cargo da esposa esquecem seus primeiros e principais
deveres”. 41 Vitória atribuía a vida dissipada dos tios à má criação que
tiveram: “Parece que Jorge 42 III cuidava muito pouco dos filhos”. Durante muitos anos, Albert ministrou pessoalmente uma hora de aula aos filhos. Também monitorava a segurança deles, desde que recebeu cartas ameaçadoras da “mais horrenda espécie” dirigidas às crianças, nos anos dos constantes atentados contra Vitória. Sempre levava no bolso uma chave dos aposentos dos filhos e se certificava de que ficassem muito bem protegidos, com “voltas complicadas, cadeados e quartos de vigias, e várias precauções
cerradas”. 43
Para Vitória, estar presente era um componente importante da criação.44 Visitava o quarto das crianças todos os dias e exibia orgulhosamente sua
prole.45 Mesmo as damas de companhia comentavam o número de horas
que ela passava com os bebês.46 Num memorando sobre a educação, de 1844, Vitória declarou que as crianças deviam ficar “o máximo de tempo possível com os pais e aprender a depositar sua máxima confiança neles em
todas as coisas”.47 Lia e rezava com os filhos e as filhas e lhes ensinava a Bíblia: queria que aprendessem uma religião de amor, bondade e tolerância,
e não de “temor e tremor”.48 O diário de Vitória trazia notícias quase diárias sobre os filhos: colhendo prímulas, violetas e anêmonas nos bosques em torno da Casa Osborne, procurando ovos de Páscoa, vendo os carneiros durante o banho na herdade, rindo com os palhaços no circo, entrando em seu vestiário quando se despiam, visitando os ursos no zoológico, desenterrando batatas na horta. No aniversário de casamento de 1852, Vitória escreveu com gratidão que os filhos, mesmo sendo “muitas vezes fonte de preocupações e dificuldades”, eram “uma grande bênção e alegram
e iluminam a vida”. 49
Já nos primeiros anos de vida do filho mais velho, o príncipe de Gales, Vitória e Albert começaram a se concentrar em sua educação, tarefa importante para um futuro rei. Era um menino voluntarioso que tinha verdadeiros acessos de fúria, como a mãe. Esses surtos o esgotavam tanto que, depois, ficava estendido no chão, como se estivesse dormindo de olhos
abertos.50
Era inevitável que se desapontassem com Bertie, que detestava aprender, nunca seria um estudioso e seus avanços eram sempre menores do que os de sua irmã mais velha, a precoce Vicky. A rainha o descreveu, aos cinco anos,
como “uma criança muito boa a quem não falta inteligência”.51 Um ano depois, Vitória disse que ele estava “mais atrasado” do que a irmã (Greville
disse sem rodeios que a rainha o achava burro). 52 Aos oito anos, teve seu cérebro examinado por um frenólogo, a pedido dos pais. Os resultados confirmaram seus receios: “inaptidão para o trabalho mental e aversão a ele em determinados momentos; e… os órgãos da Combatividade, Destrutividade e Firmeza [eram] todos grandes. Os órgãos intelectuais são
apenas moderadamente desenvolvidos”. 53 A natureza afetuosa e sociável de Bertie, infelizmente, era de pouca serventia para os objetivos de uma cultura acadêmica. Jamais seria fácil ser filho de alguém como Albert.
No final dos anos 1840, estrangeiros em visita a Londres ficaram impressionados com o fervoroso amor do povo por Vitória. O reverendo D. Newell aguardava a chegada da rainha numa consagração pública da Lincoln’s Inn, que abrigava a ordem dos advogados, e comentou a “onda de gente afluindo de todos os lados” para ver a rainha. Era impossível obter sequer uma vista de relance, disse ele, mas “a ocasião não foi desperdiçada, pois, no meio dessa poderosa confluência de britânicos, pudemos, em certo
sentido, ver e perceber as fortes pulsações do coração de uma nação”.54 Vitória atribuía esse mérito à família. Em outubro de 1844, escreveu a Leopoldo: “Dizem que nenhum soberano jamais foi tão amado quanto eu (tomo a liberdade de dizer), e isso por causa de nosso lar doméstico, do bom
exemplo que ele dá”.55
A rainha tinha clara percepção de seu poder simbólico e compreendia seu
povo com grande perspicácia.56 Vitória representava uma vida caseira simples e agradável em vez das extravagâncias do ócio, e isso ajudaria a vacinar a monarquia inglesa contra as revoluções que dominariam a Europa nos anos seguintes, quando outros países se ergueram contra os excessos de suas monarquias.
Enquanto Vitória e Albert se entretinham na Casa Osborne e trilhavam os montes verdejantes da Escócia, sobre o continente se adensavam as nuvens da divergência. Num aposento em Bruxelas, em 1848, Karl Marx e Friedrich Engels redigiam O manifesto comunista, convocando o proletariado: “Famintos, despertai do torpor”. Enquanto o Palácio de Buckingham passava por obras de reforma e ampliação, a realeza europeia era derrubada do trono. Enquanto Albert supervisionava com prazer suas residências tranquilas, hordas raivosas enxameavam os palácios de Paris, Berlim, Viena, Praga e Budapeste. Em maio de 1848, no Palácio de Buckingham, ufanou-se a Stockmar: “Conosco está tudo bem e o trono
nunca esteve numa posição tão alta na Inglaterra”.57
* Vale notar que Michael Hunter, curador da Casa Osborne, embora dizendo que “o arranjo da composição é bastante sugestivo”, também assinala que a pintura foi restaurada no passado; “seria interessante verificar — com exames de raio X — até que ponto o restaurador retocou a obra”. Correspondência com a autora, 12 fev. 2015.
** Treze anos depois, a sra. Brough degolou seus seis filhos na cama e tentou se matar depois, sem conseguir. Foi considerada insana. As matérias alardearam que ela fora a ama de leite do príncipe de Gales; para Vitória e Albert, que já então estavam preocupados com a capacidade mental e o espírito taciturno de Bertie, a leitura dessas matérias foi motivo de grande nervosismo. (“The Murders at Esher Coroner’s Inquest, Esher, Monday Night”, The Times, 12, Coluna C, 13 jun. 1854.)