Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 24 de 44

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Vitória, a rainha

21. “A casa inteira parece Pompeia”

 

Tenho, desde que ele me deixou, a coragem de uma leoa.

RAINHA VITÓRIA1

 

Ao saber que a rainha da Inglaterra queria uma audiência reservada, Alfred Tennyson ficou carrancudo. Reclamou com o amigo duque de Argyll: “Sou um bicho arredio e gosto de ficar na minha toca”. O poeta fez duas perguntas: como devia cumprimentar a rainha ao entrar, e se teria de sair da sala andando de costas, como era de praxe. O duque, o nobre escocês cujo filho viria a se casar com a princesa Louise, orientou Tennyson: devia se ajoelhar ou fazer uma profunda vênia respeitosa, e lhe estender a mão se lhe parecesse natural agir assim, e que a rainha sairia quando o encontro terminasse. Isso foi em abril de 1862, apenas quatro meses após a morte de Albert. O duque disse a Tennyson: “Fale com ela como faria com uma pobre mulher em aflição — é o que ela prefere”. E recomendou também que não se referisse ao príncipe consorte como “finado” e lembrasse a

“sólida realidade” da “crença [da rainha] na presença Viva dos Mortos”. 2

O poeta, com 53 anos de idade, pôs um terno e meias pretas para a ida até a Casa Osborne, num dia de frio rigoroso. Ele morava perto, a alguns quilômetros da residência da rainha na Ilha de Wight. Chegando lá, conduziram-no à sala de visitas de Vitória, e ele ficou ali de pé, com as costas voltadas para a lareira, enquanto esperava a rainha. Quando ela entrou, estava pálida, mas controlada. Fitou-o em silêncio: era o poeta que capturara à perfeição a dor que sentia. Tennyson havia escrito “In memoriam” após a morte de um amigo próximo, e Vitória relera centenas de vezes o poema, acrescentando suas anotações pessoais e sublinhando as palavras com seu nanquim espesso:

 

But I remain’d, whose hopes were dim,

Whose life, whose thoughts were little worth,

To wander on a darken’d earth

Where all things round me breathed of him.

 

[Mas fiquei eu, de parcas esperanças,/ De vida e pensamentos de pouco valor,/ A vaguear numa

terra escurecida/ Onde tudo em torno ressumava a ele.]3

 

Ele parecia um tanto estranho, pensou Vitória, mas viu que não havia “nenhuma afetação nele”. Tennyson se ajoelhou para lhe beijar a mão. Vitória se sentou e falou que o poema dele lhe fora de grande conforto, bem como sua recente dedicatória de Idylls of the King a Albert. Tennyson, com os olhos transbordando de lágrimas, disse-lhe que a morte de Albert era

uma grande perda para o país.4 Vitória lhe pareceu muito graciosa, como uma estátua triste e meiga. Quando Vitória lhe perguntou se queria que ela fizesse algo por ele, Tennyson respondeu apenas que poderia apertar a mão de seus dois filhos. Vitória convidou os meninos, Hallam e Lionel Tennyson, para uma visita a Osborne em maio do ano seguinte, junto com os pais.

Os Tennyson — Alfred, esposa e filhos — ficaram encantados com a rainha, considerando-a “muito bonita, nada parecida com seus retratos”, e totalmente despretensiosa. Até Hallam, de dez anos de idade, escreveu: “A rainha não é corpulenta. Sua Majestade tem uma mente ampla contida num

corpo pequeno”.5 Emily, a mulher de Tennyson, comentou a simplicidade de Vitória, sem constrangimento entre ambas. “A pessoa”, escreveu Emily,

“sente que a rainha é uma mulher pela qual vale a pena viver e morrer.”6

Tennyson, com suas firmes convicções sobre a imortalidade da alma e sua capacidade de despertar na rainha a sensação de ser entendida, foi de imenso reconforto para ela. Vitória escreveu no diário:

 

Tive uma conversa interessante com [Tennyson] e fiquei impressionada com a grandeza e

amplidão de seu intelecto, por trás de um exterior certamente rude. Falando da imortalidade da

alma e de todas as descobertas científicas que não interferem de maneira nenhuma nisso, disse ele:

“Se não existe a imortalidade da alma, não se entende por que haveria algum Deus”, e “Não se

pode amar um Pai que nos estrangula” etc.7

 

Doze anos antes, em 1850, Albert insistira que Tennyson fosse nomeado

como poeta laureado.8 Em 1862, Alice enviou uma mensagem ao poeta, perguntando se poderia escrever algo para marcar a morte de seu pai. Tennyson escreveu uma dedicatória dos Idylls, declarando-o “Albert, o Bom”. Nela, instava com Vitória que resistisse, em versos que ela recitava consigo mesma nas horas mais sombrias:

 

Break not, O woman’s-heart, but still endure;

Break not, for thou art Royal, but endure;

Remembering all the beauty of that star

Which shone so close beside Thee that ye made

One light together, but has past and leaves

The Crown a lonely splendor.

 

[Não te partas, ó coração de mulher, mas resiste; Não te partas, pois és régio, mas resiste;/

Lembrando toda a beleza daquele astro/ Que brilhou tão perto de Ti que juntos/ formáveis uma só

luz, mas passou e deixa/ A Coroa em solitário esplendor.]

 

Os primeiros meses sem Albert foram horrendos. Vitória tinha dificuldade em dormir, acordava se sentindo destroçada, sentia dores violentas no rosto

e enxaquecas constantes. Tudo parecia um “sonho pavoroso”.9 Sentia falta da ajuda de Albert nas mais variadas ocasiões: arrumar os papéis, escolher obras de arte, colocar quadros nas paredes, conversar sobre política ou sobre as Forças Armadas, reunir-se com as pessoas, pôr desenhos nos álbuns de viagens, supervisionar a poda dos arbustos, conversar com os médicos dos filhos, providenciar aposentos para as visitas, esconder os ovos de Páscoa, coisas que nunca tinha feito antes.

Tudo redespertava lembranças de Albert. Ficava transtornada diante de

plantas e árvores, pois ele conhecia todos os seus nomes. 10 O mesmo com as melodias das aves canoras, principalmente os rouxinóis. Examinava seus pertences, folheava seus papéis, olhava suas obras de arte favoritas — em especial os quadros de Rafael — e suas armas. O que mais a afligia eram as datas que relembravam a ausência dele: Natal, Páscoa, datas de aniversário. Ela passou a véspera de seu aniversário de 44 anos, em 1863, estendida no sofá, com enxaqueca. No dia seguinte, nem os graciosos presentes dos filhos conseguiram reanimá-la: “O que senti terrivelmente foi que não havia

nada de meu bem-amado”.11 No ano seguinte, o dia de seu aniversário foi “vazio” e ela passou mal. Jantou sozinha no quarto.

 

Alguns começaram a observar atentamente Vitória, procurando sinais de loucura. O palácio conhecia bem a aguda suscetibilidade e as tendências depressivas da rainha. Havia também a crença vitoriana generalizada de que as mulheres não tinham resistência, frequentemente eram maníacas ou histéricas, incapazes de lidar com as vicissitudes da vida. Lord Clarendon disse que todos tinham visto seu “equilíbrio [mental] vacilar” quando perdeu a mãe. Com a morte de Albert, o risco parecia ainda maior. “Perder

a razão”, disse ele, causaria uma “calamidade nacional”.12

Outros notaram a calma e o estoicismo de Vitória nas fases iniciais do

luto.13 Quatro dias após a morte de Albert, Florence Nightingale se disse espantada ao ver “essa mulher nervosa, ansiosa, inquieta, comportando-se

com uma firmeza que engrandeceria um herói”.14 Lord Clarendon imaginou

que ela estaria seguindo as instruções de Albert de não ceder à dor.15 Na verdade, ela se encontrava em estado de choque, que depois deu lugar à dor. Quando a mostrava abertamente, julgavam-na de modo injusto e apressado. A reação foi de censura quando ela disse à rainha Augusta da Prússia: “Sou

capaz de enlouquecer de desejo e saudade”.16 E Clarendon, quando foi convocado a Osborne poucas semanas após a morte de Albert, lamentou:

“A rainha mostrou uma emoção embaraçosa”.17

Vitória decretou o luto geral de toda a corte por um período oficial de dois anos, sem precedentes. (Terminado o período, suas damas de companhia e filhas puderam renunciar ao preto e passaram a usar luto leve, em cinzento, branco ou roxo-claro.) Muitos súditos decidiram aderir ao luto. Suas damas de companhia usavam joias de azeviche e crepe negro, um tecido de seda farfalhante, enrugado para parecer fosco. Vitória já usara preto durante boa parte da década anterior à morte de seu “anjo”, em homenagem à morte de

vários parentes e dignitários.18 O ritual grave e rigoroso do luto sempre

exercera atração sobre ela.19 Agora, Vitória passaria a usar seus trajes pretos (ou “fumos de viuvez”) pelo resto da vida. Quem se importaria com sua aparência? Deixou de lado os espartilhos, adotou roupas de baixo brancas com acabamento em fita preta e se assentou numa impávida meia-idade. Não havia necessidade de espartilhos no céu.

Os pertences e aposentos de Albert foram preservados exatamente como eram em vida. Vitória colocou o retrato dele por cima do lado que ocupava na cama de casal. Todos os dias, os criados estendiam cuidadosamente suas camisas e calças passadas na Sala Azul e providenciavam toalhas limpas e água quente para fazer a barba, a qual esfriava enquanto o relógio dele tiquetaqueava e o mata-borrão continuava intacto. Seus restos mortais foram sepultados num cemitério nas terras de Windsor e Vitória providenciou que um escultor, barão Carlo Marochetti, fizesse as efígies de Albert e dela própria, ambos com a mesma idade, para serem colocadas em seus túmulos. Era como se ela também tivesse morrido aos 42 anos. Em Windsor, Vitória ia diariamente ao mausoléu para rezar e contemplar sua estátua, e todas as noites visitava a Sala Azul.

A criadagem se acostumou a andar na ponta dos pés ao redor da rainha e a falar sussurrando nos corredores. Por mais melancólica que pudesse ser sua companhia, Vitória ainda insistia em reunir os filhos em torno de si e mantê-los próximos. De certa forma, queria compensar a perda do pai, declarando a Elphinstone, o preceptor de Arthur e Leopoldo, que “está ansiosa em não se separar deles mais do que o absolutamente necessário, pois agora que Deus levou o adorado pai deles que unia tudo, requisito necessário para ligá-los ao lar…, a rainha quer que seus meninos, especialmente os pequenos, fiquem muito íntimos dela e absorvam as

noções e hábitos que nós dois mantemos”.20 Vitória queria que respirassem o ar que Albert tinha respirado, embora a atmosfera se tornasse sufocante.

A casa toda girava em torno do sensível estado mental de Vitória. Quem voltava após uma ausência, como o menino Leopoldo, era avisado de que

ela não suportava “barulho, agitação etc.”.21 A Bertie, advertiram que não

fosse frívolo, fofoqueiro e superficial.22 Vitória se recusava a oferecer aos filhos qualquer alternativa ou pausa no luto. Em vez de protegê-los da dor, insistia em que se espojassem nela. Irritava-se quando os filhos riam ou falavam alto, tomando como sinal de insensibilidade à morte do pai. Juntava os filhos em pequenos grupos trajados de negro para várias fotografias soturnas, em que posavam fitando ao alto os bustos brancos e frios de Albert, e distribuía as imagens ao público. Na base de uma dessa

imagens, escreveu: “O dia se transformou em noite”. 23

A rainha queria que o público visse como Albert era extraordinário. Canonizava-o melhor do que faria qualquer papa com um santo, encomendando uma biografia e livros com seus discursos, além de uma infinidade de retratos e monumentos públicos. Ele aparecia nas pinturas com armadura dourada, de pé entre as nuvens. Albert, o Bondoso, o Belo, o

Brioso, o Ser Celestial vinha envolto numa “coroa de virtude”.24 Vitória queria consolidar sua fama de homem que inspirava o melhor das pessoas, um homem que fizera Luís Napoleão se sentir “mais disposto a fazer o

bem”. 25

Vitória também enlanguescia de saudades físicas do marido. Escolhera um retrato provocante de si mesma, aos 24 anos, para pôr entre as mãos dele no caixão. Ela aparecia com a cabeça reclinada num sofá vermelho, com seus grandes olhos azuis olhando por sobre o ombro esquerdo. O decote mostrava seu colo pálido e o cabelo caía ao lado do pescoço nu. Era uma mulher que apenas um homem conhecera. Mesmo na morte, Vitória continuava a desejá-lo. Mandou fazer uma réplica de mármore do rosto e das mãos de Albert, e mantinha as mãos perto da cama. Às vezes as trazia para perto e fazia de conta que o mármore frio era uma pele cálida. Dizia que era horrível se deitar sozinha: “Que contraste com o amor daquele

meigo amante! Totalmente sozinha!”.26 Deslizando sob os lençóis, fechava os olhos, passava um braço pela roupa de dormir de Albert e puxava seu casaco por cima de si.

A rainha desejava explicitamente morrer de dor. Escreveu a Herr Florschütz, que fora o preceptor de Albert na infância: “Meu único desejo é acompanhá-lo logo! Viver sem ele não é vida”. Consolava-se pensando que Albert estava próximo e que iria encontrá-lo no “lar real e eterno” de

ambos. Sem tal pensamento, dizia ela, “sucumbiria”.27 Refez seu testamento, nomeou tutores para os filhos e rezava para morrer.

Vitória conseguiu realizar uma reunião do conselho em 6 de janeiro, poucos dias após a morte de Albert. Pediu aos membros do gabinete que organizassem seus assuntos levando em conta a angústia dela e disse que não teria força ou energia para atendê-los num período de caos. Lamentou-se com Lord Clarendon que “estava com a mente levada a seu limite extremo — que antes nunca precisara pensar, porque o príncipe lia e organizava tudo para ela, poupando-lhe todos os problemas, explicando-lhe

as coisas que devia assinar etc.”.28 Declarou que uma mudança de ministério iria matá-la — “e ficaria imensamente grata com isso” — de

puro e simples enlouquecimento. 29 Certa vez, bateu dramaticamente na testa e exclamou “Minha razão, minha razão”, sabendo o impacto que isso

teria.30

Vitória também recorreu ao líder da oposição, Lord Derby, pedindo calma. Em 16 de junho de 1862, seis meses após a morte de Albert, a rainha pediu a Lord Clarendon que dissesse a Lord Derby “que, se a Oposição conseguisse retirar os ministros do cargo, seria ao risco de lhe sacrificarem a vida ou a razão”. Vitória falou que isso se aplicava apenas ao ano

parlamentar em curso, que ia até o fim de agosto.31 Alguns interpretaram o fato como apoio ao primeiro-ministro, Lord Palmer, seu antigo adversário, e não como o que realmente era: desejo de paz e estabilidade. Depois que sua mensagem chegou a Lord Derby, naquele ano parlamentar não houve mais ataques ao governo, poupando a Vitória uma carga de trabalho potencialmente enorme.

Ela estava cercada daqueles que, como Albert, acreditavam que não era capaz de governar sozinha. O idoso Palmerston, que desmaiara várias vezes ao ouvir a notícia da morte de Albert, falou: “A rainha seria uma perda

nacional menor”.32 Benjamin Disraeli também disse: “Enterramos nosso

soberano”.33 Ela mesma acreditava nisso. A robusta rainha que mandara soldados para a guerra e dera à luz nove filhos estava reduzida a uma solitária viúva em prantos. Em 1864, passados mais de dois anos após a morte de Albert, as pessoas perguntavam abertamente se ela não

abdicaria.34 Mas Bertie não era respeitado nem estimado, e muitos sabiam

que ele fora responsabilizado pela morte do pai.35 As relações entre Bertie e a mãe estavam num perigoso limite. Vitória não deixou que Bertie assumisse função alguma de Albert nem que tivesse qualquer atividade remunerada, apesar das pressões em contrário. A presença dele a

incomodava e até reclamava das pernas “feias” do filho. 36 Rezava para

sobreviver a ele.37 O primeiro-ministro estava cada vez mais preocupado

com a “aversão invencível” de Vitória por Bertie.38 O príncipe de Gales

vivia num estado beirando a “ociosidade forçada”.39 Em fevereiro de 1862, poucas semanas após a morte do pai, ele foi enviado para o Oriente Médio, numa viagem programada por Albert. Vitória se sentiu aliviada.

Albert, na morte, não só era hábil, inteligente e dominante, mas onipotente e onisciente. Vitória começou a construir um mito que seria implausível em vida de Albert: o de que ela era absolutamente incapaz, inútil e imprestável. Ficava furiosa se alguém sugeria que algum dia havia feito qualquer coisa que fosse, em se tratando dos assuntos de Estado ou dos filhos: “Eles deviam saber que era tudo ele, que ele era a vida e a alma da família e, na

verdade, de todos os conselhos dela”.40 Ao explicar por que não quis abrir o Parlamento em 1864, ela se definiu como uma pobre lebrezinha que por

infelicidade saltara dentro do mundo da política, “trêmula e sozinha”.41 Construir essa ficção lhe dava uma desculpa para se delongar e engrandecer sua perda. Encolher-se e inflar Albert era uma maneira de explicar sua dor e também sua relutância de reingressar no mundo: se ele tinha sido tudo, o que ela poderia fazer sem ele? Se o homem que ela pranteava era como uma divindade, todos deviam pranteá-lo também, ou pelo menos respeitar sua dor, pois a perda era de todos.

Vitória agora carregava as tarefas de duas pessoas, uma das quais tinha sido um tremendo trabalhador incansável. Ela perdera totalmente a confiança em si. Mesmo a mera leitura em voz alta de uma declaração pelo casamento de Bertie a um pequeno grupo foi “uma provação”; os filhos

ficaram aflitos com a palidez do rosto da mãe. 42 Nas conversas, ela vacilava em suas convicções e as velhas inseguranças voltavam. Falando com um convidado aristocrata sobre os turbilhões na Itália e na Polônia em abril de 1863, gostaria de ter tido “mais certeza sobre meus fatos para poder falar

mais”. 43 Voltou aos calhamaços reunindo as opiniões de Albert, que estudou meticulosamente. Era, sem dúvida, a melhor maneira de defender as

políticas que Albert gostaria que ela promovesse.44

Quando Florence Nightingale visitara Vitória e Albert em Balmoral, durante a Guerra da Crimeia, ficara impressionada pela diferença entre os membros da corte frívolos e entediados e o casal, tomado pelas preocupações com a guerra, a política exterior e “todas as coisas de importância”. Mesmo antes da morte de Albert, ela achava Vitória conscienciosa, “mas tão pouco confiante em si mesma, tão temerosa de não estar dando o melhor de si, que sua disposição fica muito abatida”. Com a morte de Albert, “agora ela até duvida se está certa ou errada pelo hábito de consultá-lo”. Para Nightingale, aquilo parecia comovente, um sinal de que Vitória “não foi estragada pelo poder”. Criara uma profunda estima pela rainha, tímida e modesta em “seu vestidinho surrado de seda preta”. Via que ela tinha profundidade, que não podia “agora passar pela vã exibição de

uma sala de visitas”.45

Vitória nunca mais deu nem foi a nenhum outro baile público. O casamento de Alice, realizado na Casa Osborne em julho de 1862, mais parecia um funeral. Vitória, com ar solene, ficou sentada numa cadeira, os quatros filhos protetores ocultando-a à vista de todos. Tentou conter as lágrimas durante toda a cerimônia e não conseguia parar de pensar que planejara aquele casamento junto com Albert. O “alvoroço” lhe parecia insuportável e faltou à recepção, jantando apenas com Alice e Louis num aposento separado. Estava gostando do novo genro, o príncipe Louis de Hesse-Darmstadt na Alemanha, mas repreendeu Alice por não passar tempo suficiente na Inglaterra. Mais uma filha que perdia. Vitória decidiu que uma filha casada teria que morar com ela e resolveu encontrar um “príncipe

jovem e sensato” para Helena.46

Os filhos estavam passando pela puberdade, crescendo em altura, explorando outras terras, se apaixonando, tendo seus próprios filhos, tentando refazer a vida em torno do grande vazio criado pela morte do pai e pela dor da mãe. Em abril de 1863, Alice deu à luz uma menina, em Windsor. Alfred, com dezoito anos, andava aprontando com as mulheres em Malta. A cada ocasião que marcava o crescimento dos filhos — as crismas, os casamentos, os batizados —, Vitória se sentia cada vez mais desesperada. Não era apenas a falta de Albert; ela também se ressentia de ficar sozinha. Escondia-se pelos cantos, atrás dos filhos ou nos reservados da igreja, tentando se retrair e se reduzir a nada.

Vitória parecia tomar por certo que suas residências estavam cheias de companhias agradáveis. Sua depressão significava que se sentia mais perturbada com as partidas do que animada com as chegadas. Mesmo quando se sentia sozinha, sempre havia muita gente ao redor dela: os vários filhos amorosos, as damas de companhia, parentes, amigos, políticos, sacerdotes, poetas, criados e guardas-florestais. Chegou a encontrar sua governanta da infância, Lehzen, numa viagem à Alemanha em 1862, e

ambas ficaram “muito comovidas”.47 Não era de afeição que a rainha sentia

falta; era de iguais.48 Enquanto ficava sozinha naquela “terrível altura”, escrutando saudosamente os céus, tinha por trás de si uma multidão a

observá-la atentamente. 49 Ela não queria uma multidão; queria apenas Albert.

 

Quando Bertie se casou com a bela Alix da Dinamarca, em 10 de março de 1863, Vitória ficou num aposento reservado, acima do altar da St. George’s Chapel, no Castelo de Windsor. (Usara uma passagem interna pela residência do deão, para não ser vista.) Quando Benjamin Disraeli pôs o monóculo para enxergá-la melhor, recebeu um olhar gélido e não se atreveu a fitar outra vez. Os convidados tinham autorização de usar roupas coloridas, mas as damas da corte e as filhas da rainha estavam de meio-luto, usando principalmente branco e lilás. Vitória estava com um vestido de seda e crepe negro, com um longo véu no toucado, sentindo-se agitada. Ao ver

os filhos entrarem na capela, sentiu vontade de chorar.50 Bertie lhe fez uma vênia enquanto esperava Alix e continuou olhando com expressão ansiosa para a mãe no alto. Quando soaram os clarins, ela relembrou seu próprio casamento e quase desfaleceu.

Havia 38 pessoas apinhadas na sala de jantar, para um almoço em família, mas Vitória almoçou em silêncio com Beatrice, agora com quase seis anos, na sala ao lado. Naquela noite, recolheu-se ao leito em profunda infelicidade. Os filhos continuavam a deixá-la. Vicky, Alice e agora Bertie estavam com seus entes queridos, mas ela só podia se agarrar às roupas de dormir de Albert: “Aqui fico eu sozinha e desolada, eu que tanto preciso de amor e ternura, enquanto nossas duas filhas têm maridos amorosos e Bertie levou sua noiva linda pura meiga para Osborne — que joia de fato ele teve

a sorte de conseguir… Ah! Como sofri na capela!”.51

Ela sabia que não devia ter ciúme nem inveja dos filhos, mas mal conseguia suportar. O consolo era que o pobre Bertie finalmente se assentara, parecia contente e Alix era uma “joia”. Acordou no dia seguinte com dor de cabeça e um resfriado forte, sentindo-se podre.

 

Lord Palmerston certa vez disse gracejando que apenas três pessoas entendiam o conflito Schleswig-Holstein: o príncipe consorte, agora finado, um professor alemão que enlouquecera, e ele mesmo, que agora se esquecera. Quanto a Vitória, se a política era complicada, suas lealdades eram muito simples. A Dinamarca governava os dois ducados já fazia décadas, mas os alemães — liderados pelos prussianos dominantes e beligerantes — continuavam a cobiçá-los. Vitória era favorável à neutralidade britânica e queria evitar uma guerra geral após o desastre na Crimeia, mas suas simpatias estavam com a Prússia. Quando o rei da Dinamarca morreu, em novembro de 1863, e a ele se sucedeu o pai de Alexandra, Cristiano IX, os prussianos se prepararam para atacar, com o respaldo da Áustria.

A batalha dividiu a família. Alix, que naturalmente apoiava seu país natal, a Dinamarca, teve um parto prematuro em janeiro de 1864 e deu à luz um filho, Albert Victor. No mês seguinte, a Prússia e a Áustria invadiram Schleswig. Quando Bertie, leal à esposa, sustentou que os britânicos deviam intervir e apoiar a Dinamarca, Vitória pediu a Clarendon que lhe dissesse para moderar suas posições. Afinal, seu cunhado Fritz, marido de Vicky, estava combatendo no Exército prussiano. O tema se tornou tabu nos

jantares da família.52

A correspondência acalorada de Vitória sobre o assunto contradiz a imagem que dava de si naqueles anos, a de uma “pobre lebre perseguida”. Enviava inúmeras cartas e memorandos cheios de grande convicção, insistindo na neutralidade. Ficou tão absorvida que mal percebia que estava trabalhando. A rainha Sofia dos Países Baixos disse a uma das damas: “Ela tem o hábito do poder e, uma vez adotado, é praticamente impossível viver

sem ele”.53 Vitória continuava a se ver no centro da política externa do governo, orientando Palmerston a garantir que, quando ela fosse a Coburgo, “não se dê nenhum passo nos assuntos exteriores sem obter sua aprovação

prévia”.54 Pressionou o gabinete deixando claro que não queria ser contrariada. Ao escrever a Vicky sobre os atritos na Europa, em 1863, Vitória lamentou não ter a ajuda de Albert, mas acrescentou que, apesar de sua dor, ainda tinha os múltiplos “olhos de Argos”: “Tenho, desde que ele me deixou, a coragem de uma leoa se vejo perigo, e nunca deixarei de dar ao meu povo minha decidida opinião e mais do que ela! Sim, enquanto houver vida nesta carcaça alquebrada, meu dever será cumprido com

destemor!”. 55

Nem todos gostavam dos rugidos da leoa. Em 10 de maio de 1864, um “impertinente” Palmerston a informou que as pessoas estavam achando que suas “opiniões pessoais” sobre a questão Schleswig-Holstein eram muito fortes. Alguns pensavam que ela havia influenciado o governo para não ir em ajuda da Dinamarca, rompendo seu dever constitucional de imparcialidade. Em 26 de maio, Lord Ellenborough insinuou que Vitória não tinha sido tão neutra quanto monarcas anteriores como Jorge III. Havia, disse ele, uma “forte impressão no continente, especialmente na Alemanha”, de que em assuntos referentes à Alemanha, os ministros de Sua Majestade tinham dificuldade em “executar uma política puramente

inglesa”, o que havia desgastado a autoridade e a influência deles.56 Vitória se entregou nos diários a uma caudalosa compaixão por si mesma:

 

Que acusação cruel, contra uma pobre viúva desprotegida, que não é mais amparada pelo amor e

sabedoria de seu amado marido, sendo que continuo a viver apenas para labutar e trabalhar pelo

bem de meu país e estou semidestroçada de ansiedade, dor e responsabilidade, vendo este país se

degradar e entrar em mais e mais dificuldades — e, acima de tudo, sempre procurei ser tão

imparcial! Tais calúnias monstruosas fazem que me sinta muito mal. Ah, estar sozinha e não ter

ninguém para me proteger é terrível demais!57

 

Ela disse a Lord Granville que era seu “dever com Deus e meu país” impedir que entrassem em guerra na Europa, a despeito do grande apoio público. Muito diplomático, Granville lhe assegurou que ela salvara o país

de “muitos passos em falso”. 58 Em junho, a Dinamarca foi derrotada. Em outubro, Holstein e as áreas de língua alemã de Schleswig foram cedidas à

Prússia e à Áustria.59

Este se tornou o novo padrão de Vitória: chorar com as mulheres e mandar nos homens, ao mesmo tempo se protegendo com uma dor profunda e dramática. Mas, enquanto Vitória se retirava totalmente das vistas públicas, recolhendo-se em seus castelos e mansões distantes, a imensa simpatia pública por ela começou a declinar. Alguém afixou um cartaz nos portões do Palácio de Buckingham: “Esta imponente área deverá ser desocupada ou posta à venda, devido ao declínio das atividades da última ocupante”. O cartaz foi retirado e a presença policial foi duplicada, mas ele reapareceu

poucos dias depois. 60

 

Em 7 de outubro de 1863, nevava levemente nas Highlands escocesas, e Vitória passou o dia passeando a cavalo com Alice e Helena, parando para tomar um chá antes de voltarem para casa. Estava escuro e o guia não enxergava direito o caminho; o criado de Vitória, John Brown, descia constantemente da boleia para ajudá-lo. Vinte minutos depois, a carruagem começou a se inclinar — Alice disse devagar: “Estamos virando” — e as mulheres foram arremessadas ao chão. Aquele momento foi um marco para Vitória. Mais tarde, anotou no diário que teve apenas um instante para pensar “se morreríamos ou não”, mas concluiu que “ainda havia coisas que eu não tinha resolvido e queria resolver”.

 

Bati o rosto com muita violência no chão, mas, com uma força da qual eu não me julgaria capaz,

logo consegui me erguer, vi Alice e Lenchen caídas no chão, perto da carruagem, os dois cavalos

no chão e Brown gritando em desespero: “Senhor Todo-Poderoso, tende piedade de nós! Quem já

viu uma coisa dessas antes — pensei que todas tinham morrido!”.61

 

Vitória passou os dias seguintes na cama, com um pedaço de carne crua no olho preto, cuidando do pescoço dolorido e de um polegar deslocado,

que ficaria torto para o resto da vida.62 Seu “desamparo” era muito penoso, lamentou-se Vitória, mas mostrara que sua vontade de morrer, alimentada pela dor, tinha sido superada por uma vontade de viver mais forte e

subliminar.63

Aos poucos, com visitas regulares ao corpo de Albert no mausoléu em

Frogmore, idas a Osborne, longas horas de preces,64 passeios por Balmoral

e o terno afeto dos filhos, Vitória foi se acalmando.65 No aniversário de três anos da morte de Albert, com milhares de visitantes percorrendo o mausoléu para ver sua tumba, ela parecia mais resignada. Comentou com sua amiga também viúva, a condessa Blücher:

 

Triste e solitária como era minha vida agora, ainda assim percebi e senti mais e mais quanto eu era

necessária para meus filhos e país e para a realização dos desejos e planos do caríssimo Albert. Por

tudo isso preciso me esforçar e continuar a viver por mais um tempo! Meu sofrimento continua

grande como sempre, mas há resignação e submissão, o que no começo era muito difícil para

mim.66

 

Vitória, a despeito de si mesma, aos poucos ficou mais serena. Alice insistiu com a mãe para voltar a se apresentar ao público em carruagem e a cavalo. De início, depois que Albert morreu, Vitória relutava até em caminhar. As pessoas comentavam como emagrecera; mas ela queria se encolher e envelhecer para mostrar o peso do sofrimento e dar sinais visíveis das dores no coração. Verificava ansiosamente se lhe vinham cabelos brancos. Mas as faces que logo recuperaram a cor e os ocasionais períodos de animação traíam sua constituição ainda robusta. Vitória viveria por mais 37 anos.