Vitória, a rainha
5. “Cenas pavorosas na casa”
Eles a infernizam todo dia, a toda hora.
BARÃO STOCKMAR1
O rei Guilherme IV percorria as ruas de Londres olhando a cidade pela janela da carruagem. Era um dia frio e ventoso de agosto de 1836, e ele acabava de fazer um discurso encerrando o ano parlamentar.
Esperara anos até chegar ao trono, mas agora não podia desfrutá-lo. Os apelos incessantes por uma reforma parlamentar eram irritantes. No começo, ele apoiou a reforma e ficou contente em ser amado por isso. Mas depois os reformadores ficaram gananciosos demais. O rei não quis aprovar aquela lei da reforma, muito embora as classes baixas ameaçassem se rebelar. Ele disse ao primeiro-ministro que defenderia Londres, hastearia o estandarte real no arsenal militar em Weedon e combateria até a morte. É possível que Vitória tenha se alinhado com ele. Mas, por fim, o rei cedeu e a lei foi aprovada. Nem isso pareceu satisfazer por muito tempo os descontentes.
Enquanto a carruagem dourada real avançava lentamente ao lado do Tâmisa, o rei recordava a época em que se podiam apanhar salmões subindo a correnteza e as águas do rio eram verdes opacas, e não escuras com os dejetos dos esgotos. Logo ficariam escuras como as do rio Irwell em Manchester, com cadáveres aparecendo de vez em quando. Ele limpou o nariz com a ponta do indicador, como de hábito, e ficou observando o caos da rua: um tocador de realejo fazendo algazarra, um homem anunciando sabões, garotinhos vendendo fósforos, vendedores ambulantes negociando tortas, um mendigo indiano com um nariz devastado pela sífilis tocando tambor. O andar dos cavalos ressoava ruidoso nas pedras do calçamento, passando por montes de esterco que espirravam na bainha das roupas e convertiam as ruas numa estrumeira.
Pararam na entrada do Palácio de Kensington, que pertencia ao rei, embora ali morassem a duquesa de Kent, Vitória, o irmão mais novo do rei, o duque de Sussex, e sua irmã, a princesa Sophia. Poucos meses antes, a duquesa pedira permissão para se mudar para o andar de cima, longe da umidade dos esgotos subterrâneos, onde cresciam fungos e cogumelos e onde os operários descobriram cortiças, gatos, focas mortas, dentes postiços
e até cadáveres.2 Depois da doença de Vitória em Ramsgate, o médico havia recomendado aposentos mais arejados — mas o rei não acatou essa sugestão.
Guilherme IV subiu as escadas e entrou na Galeria do Rei, com suas amplas janelas dando para o parque. Indo contra suas ordens, ela fora reformada. Ele contou: agora a duquesa ocupava dezessete aposentos. Durante as três horas de viagem até Windsor, o rei, normalmente bem-humorado, refletiu sobre todas as atitudes de menosprezo que a duquesa demonstrara a ele e à sua família. Aliás, nunca gostara de seu irmão Edward. Agora, de certa forma, estava na posição de devedor à ingrata viúva.
Às dez da noite, o rei entrou no salão de Windsor onde celebravam seu aniversário. Foi até Vitória, tomou-lhe as mãos e disse que gostaria de vê-la com mais frequência. Então, em voz alta, falou à duquesa de Kent que sabia que ela ocupara aposentos em Kensington “não só sem o consentimento dele, mas contra suas ordens”, e que “não entendia nem toleraria uma conduta tão desrespeitosa”. Afastou-se, prometendo que impediria sua tentativa vulgar de agarrar o poder.
Na noite seguinte, em 21 de agosto, cem convidados do palácio se sentaram à mesa para um banquete de aniversário, à luz de velas. A duquesa de Kent se sentou à direita do rei e uma das irmãs dele à esquerda. Guilherme IV esvaziou seu cálice de vinho e se levantou para falar, o rosto vermelho quente, e a volumosa barriga comprimida sob o colete:
Confio em Deus que minha vida possa se prolongar por mais nove meses, e decorrido este período,
no caso de minha morte, não haveria mais regência. Eu teria então a satisfação de deixar a
autoridade real a cargo do exercício pessoal daquela jovem dama, herdeira presuntiva da Coroa, e
não nas mãos de uma pessoa próxima de mim, que está cercada de maus conselheiros e é
incompetente para agir com propriedade na condição em que se colocaria. Não hesito em dizer que
tenho sido insultado — grosseira e continuamente — por essa pessoa, mas estou decidido a não
tolerar mais um modo de conduta tão desrespeitoso comigo… Entre muitas outras coisas, devo
reclamar especialmente da maneira como aquela jovem dama foi afastada de minha corte; foi
repetidamente afastada de minhas salas, onde sempre deveria estar presente… Sou rei, e estou
decidido a fazer respeitar minha autoridade, e para o futuro insistirei e ordenarei que a princesa
esteja presente em todas as ocasiões em minha corte, como é de sua obrigação fazer.3
Vitória caiu no choro. Os criados lançaram olhares furtivos ao rosto ruborizado da duquesa de Kent, que ensaiava réplicas que jamais pronunciaria. Pratos de geleia de morangos, pães de ló e bolos de creme e frutas ficaram intocados, enquanto os convivas se retiravam rapidamente. A duquesa partiu para Claremont no dia seguinte.
Em 1837, a atmosfera no Palácio de Kensington estava sufocante. As brigas se tornavam cada vez mais intensas, agressivas e frequentes. Infeliz, Vitória se queixava de enxaquecas, dores estranhas e cansaço. A duquesa pediu a seu filho — e meio-irmão de Vitória —, Charles de Leiningen, que
agisse como mediador. 4 Charles ficou chocado com o “ódio terrível” de Conroy por Lehzen e o tratamento grosseiro que lhe dispensava, mas sempre estimara Conroy e tomou prontamente seu lado. Concluiu que Vitória estava sendo irracional e tomou seu desprezo por Conroy como mero “capricho infantil”, instigado por Lehzen. Suas tentativas de pacificação falharam: não conseguiu persuadir Conroy a se desculpar, nem Vitória a confiar em Conroy, nem Leopoldo a orientar Vitória a estender o
período de regência até completar 21 anos.5 Vitória ficou arrasada; fora traída pelo próprio irmão.
Na segunda quinzena de maio, Leopoldo, que estava na Bélgica, decidiu enviar seu conselheiro de confiança Stockmar até a Inglaterra, para avaliar a situação. Perspicaz, Stockmar concluiu que as causas do conflito eram a “personalidade inata da princesa” e “o comportamento de Sir John em relação à própria princesa”. O problema de Sir John, disse ele, era ser rude, sentir-se como se estivesse em seu direito e agir como se fosse “o controlador de toda a máquina”.
Ainda assim, Vitória detinha o grande trunfo. Tornava-se dia a dia mais
ciente de si mesma e “mais consciente de sua própria força”, 6 mas o assédio incessante a deprimia: “Eles a infernizam todo dia, a toda hora”, disse
Stockmar a Leopoldo.7 A mãe lhe passava recriminações à vista de todos, relembrando-lhe sua pouca idade e dizendo que devia todo o seu sucesso à boa reputação materna. A mulher que insistira em amamentar a filha ao peito e se encantava com suas bochechinhas redondas se tornara fria, tomada por uma ávida ganância pelo poder, seduzida por sua própria narrativa vitimista de mãe longamente sofredora. Reiterava constantemente que renunciara à sua vida em outro país para se dedicar à criação da filha
para ser rainha.8 Vitória logo deixou de falar com ela.
Em maio de 1837, o rei Guilherme IV decidiu intervir. Escreveu a Vitória, alguns dias antes de seus dezoito anos, dizendo-lhe que asseguraria sua independência no aniversário: solicitaria ao Parlamento 10 mil libras anuais para seu uso próprio e lhe permitiria nomear seu vedor da casa, isto é, seu administrador financeiro, que responderia apenas a ela, e lhe conferiria o poder de montar e organizar sua própria Casa Real. O rei deu instruções ao portador, o Lord Camareiro, que se assegurasse de entregar a carta nas mãos de Vitória. Conroy e a duquesa tentaram se apoderar da carta, mas Vitória a pegou e leu cuidadosamente antes de repassá-la à mãe. A duquesa ficou furiosa, acima de tudo porque achou que o rei não demonstrara nenhum respeito por seu trabalho como mãe. Ela sabia que sua chance de conseguir a regência expiraria em menos de uma semana. Então, sem dizer nada a filha, resolveu recusar a oferta em nome de Vitória.
Depois de ouvir a ladainha materna, Vitória foi para seu quarto. Anotou
no diário: “Muito infeliz e agitada. Não desci para jantar”.9 Adoraria aceitar a proposta do rei, mas sabia que a mãe não permitiria e ainda vivia sob a autoridade dela. Sem lhe ocorrer outra opção, Vitória havia obedientemente copiado uma carta que a mãe escrevera a conselho de Sir John Conroy e a
enviou como sua resposta formal.10 Invocou sua juventude e inexperiência e declarou que desejava permanecer sob os cuidados da mãe, a qual deveria receber todo o seu dinheiro. O rei não se deixou enganar: “Não foi Vitória
quem escreveu essa carta”.11
Na manhã de 24 de maio de 1837, uma bandeira de cores vivas se agitava contra o céu cinzento e nublado, sobre o Palácio de Kensington, trazendo
uma única palavra: 12 VITÓRIA . Finalmente completara dezoito anos. As vitrines das lojas estavam fechadas, enquanto músicos tocavam e menestréis dançavam pelas ruas de Kensington, forradas de flores. Às sete da manhã, uma banda de harpas e instrumentos de sopro tocou no terraço, sob a janela de Vitória: “Eis as gratas lágrimas de uma nação/ para a mais bela flor de maio”. Vitória, olhando pela janela, pediu que tocassem outra vez. Sentindo-se aliviada, escreveu no diário:
Hoje faço dezoito anos! Que adulta! E, no entanto, como estou longe de ser o que deveria ser. A
partir de hoje tomarei a firme resolução de estudar com renovada assiduidade, de manter minha
atenção sempre concentrada no que estiver fazendo e de me esforçar em ser cada dia menos frívola
e mais adequada para aquilo que, se os Céus quiserem, algum dia serei!
A jovem princesa passara a se entusiasmar mais com seu destino depois de brigar com a mãe, passando a ansiar por outra vida, uma que pudesse controlar e em que sua mãe tivesse que responder a ela.
Naquela tarde, quando Vitória percorreu de carruagem os parques, na companhia da mãe e do irmão, foi saudada com uma onda de afeição. Sentiu-se comovida com a multidão nas calçadas, erguendo os olhos para vê-la: “A ansiedade do povo em ver essa pobre tonta era muito grande, e devo dizer que fiquei muito emocionada e sinto orgulho, como sempre senti, por meu país e pela nação inglesa”. Mas a aclamação pública apenas punha em destaque a austeridade de sua vida doméstica, e Vitória se sentiu desanimada à medida que prosseguiam as comemorações. Nem mesmo um grandioso baile de aniversário e seu vestido amarelo-claro coberto de flores em botão foram capazes de lhe levantar o ânimo.
Lord Liverpool desceu de sua carruagem no Palácio de Kensington em 15 de junho de 1837, sob o céu azul de verão. Vestia trajes cinza e cartola — a cartola agora era tida como marca distintiva dos cavalheiros, muito embora o primeiro homem a usá-la em público, quarenta anos antes, tivesse sido preso a pretexto de que ela tinha “um brilho lustroso deliberado para alarmar as pessoas tímidas” (quatro mulheres tinham desmaiado ao vê-la e
fora objeto de vaias dos pedestres).13 Lord Liverpool, tory como quase todos na família real e meio-irmão mais novo do ex-primeiro-ministro, era uma das raras pessoas que tinham a confiança tanto da duquesa quanto de sua filha. Sua tarefa era resolver o impasse.
Liverpool começou se reunindo com Conroy, o qual explicou, numa conversa de homem para homem, que Vitória e Lehzen haviam criado uma aversão irracional por ele. Em primeiro lugar, disse ele, Lehzen tinha que ir embora. Em segundo, a “insuperável objeção [de Vitória] à sua nomeação para o cargo de secretário ou conselheiro político particular” era ridícula, pois ela seria incapaz de agir sem a orientação dele. Vitória era totalmente inadequada para avaliar assuntos de Estado e, mesmo que agora tivesse dezoito anos, era “mais jovem em intelecto do que em idade”. Conroy explicou que a princesa era frívola e “facilmente cativada pela elegância e pelas aparências”. Poderia Lord Liverpool lhe incutir alguma sensatez? Conroy, claro, estava pensando apenas no bem dela.
Lord Liverpool negou categoricamente o pedido de Conroy para um cargo oficial junto à rainha, alegando que ele era muito impopular. Como concessão, ele poderia ser nomeado vedor da casa, que cuidava dos assuntos financeiros do monarca, e receberia uma pensão, desde que não interferisse na política e deixasse suas posições “claras a todos”. Depois de “alguma reflexão”, Conroy concordou. Os dois trocaram um aperto de mãos.
A seguir, foi a vez da princesa recalcitrante. Vitória aguardava Lord Liverpool sozinha, tendo preparado uma lista com vários itens. Concordou que não teria secretário particular e se reportaria diretamente ao primeiro-ministro, Lord Melbourne. Mas trabalhar com Conroy estava fora de cogitação. Sem dúvida, Lord Liverpool estava ciente, disse ela, “dos muitos menoscabos e incivilidades de que Sir John era culpado em relação a ela”, mas, além disso, “sabia coisas sobre ele que lhe tornavam totalmente impossível colocá-lo em qualquer posição de confiança”. Não admitiria que Conroy ocupasse o cargo de vedor da casa. Lord Liverpool pressionou para ter maiores informações. Que coisas ela sabia? Vitória respondeu apenas que sabia coisas sobre Sir John que “retiraram completamente a confiança dela nele, e que sabia pessoalmente, sem que nenhuma outra pessoa a
informasse”.14 Vitória estava com uma carta que fora ditada por Lehzen, em que se recusava a ficar tolhida por qualquer promessa. Por fim, a adolescente pediu ao ex-primeiro-ministro que abrisse os olhos do indivíduo que a atormentava “quanto à dificuldade da posição em que me colocam”. Ela estava no firme comando da situação.
Lord Liverpool falou à duquesa que não conseguiu mudar a postura de sua filha. Conroy praguejou ao saber disso. Nos dias subsequentes, Vitória se manteve em seu quarto e falava apenas com Lehzen. Conroy decidiu que era hora de pôr em prática sua desesperada cartada final: trancafiar Vitória e obrigá-la a concordar. Seu aliado, James Abercromby — advogado que então era o presidente da Câmara dos Comuns —, dissera-lhe que, como Vitória não ouvia o bom senso, agora devia usar a força. Conroy foi até a duquesa e declarou que “ela deve ser coagida”.
Enquanto Vitória enfrentava parentes e assediadores, os homens no Parlamento discutiam se as mulheres poderiam ser autorizadas a assistir na galeria pública aos debates parlamentares. No dia da visita de Lord Liverpool, 15 de junho, um certo sr. Grantley Berkeley indagara à Câmara dos Comuns: “Quanto à presença de senhoras… quando eles tinham um buquê de flores em seus aposentos, o ar não lhes parecia mais doce?”. Os respeitáveis cavalheiros não concordaram e votaram contra a proposta.
Quando viu um grupo de ciganos acampados na estrada perto da residência inglesa de Leopoldo, a Claremont House, Vitória ficou encantada com a simpatia deles. Visitou-os várias vezes em janeiro de 1837, desenhou seus retratos, enviou-lhes sopa, tentou conseguir educação para as crianças. Quando uma das jovens ciganas deu à luz, Vitória mandou entregar alimentos e cobertores. Resolveu que, se lhe pedissem que fosse madrinha da criança sem pai, iria lhe dar o nome de Leopoldo. A mocinha bondosa não mostrou a menor sombra de preconceito em relação ao bebê ilegítimo. Invejava e ficava fascinada com o ambiente alegre e acolhedor dos lares ciganos:
Enquanto andávamos pela estrada perto das tendas, a mulher que disse se chamar Cooper,
geralmente a porta-voz do grupo, veio das tendas até a estrada e, quando viramos e paramos,
aproximou-se com um bando inteiro de crianças. Seis, creio eu. Foi uma cena curiosa e, ainda
assim, bonita e pitoresca. Ela sem nada na cabeça, o cabelo negro despenteado e solto pelos
ombros, e o grupo de molequinhos enxameando em volta dela, com cabelos escuros desgrenhados
e roupas escuras, todos pequenininhos e lindinhos… Os ciganos são uma raça curiosa, peculiar e
muito resistente, como nenhuma outra!
Na época, os ciganos tinham má fama. Eram considerados pagãos preguiçosos, toscos, sujos, párias que vagueavam pela Europa e enchiam as
alas dos reformatórios.15 Mas Vitória achava que eram “falsamente acusados, injustiçados e maltratados”. Junto com Lehzen, ela leu um livro chamado Gipsies Advocate, de um certo sr. Crabbe, e se convenceram de
que os pobres respondiam à bondade.16 Conroy discordava.17
Em 1837, o rei Guilherme IV estava surdo e acabado. Vitória mal o mencionava no diário, mas, quando ele adoeceu gravemente em maio de 1837, manifestou seu pesar: “Pessoalmente, ele sempre foi bondoso
comigo”. 18 Em meados de junho, ficou claro que o rei estava à beira da morte. A pressão sobre Vitória era enorme e, segundo Stockmar, que a visitou em 16 de junho, sua mãe agora era de extrema severidade com ela. Se alguém fora do palácio soubesse que Vitória era uma “pessoa oprimida”,
escreveu ele, todos “viriam correndo em seu auxílio”. 19 Mas não vinha ninguém. Em vez disso, Vitória aprendeu, nas palavras de Stockmar, a “viver em termos exteriormente submissos e afetuosos com pessoas de que
não gostava e das quais desconfiava”.20
Lehzen passou a servir de para-raios para a insatisfação dos partidários de Conroy. Ao fortalecer os brios de Vitória, ela prejudicava os planos deles. Conroy e aliados lhe dirigiam olhares ferozes e a tratavam com rispidez. Depois da doença de Vitória em Ramsgate, a meia-irmã Feodora ficou tão preocupada que demitissem Lehzen que escreveu à duquesa de Northumberland — então governanta de Vitória —, pedindo-lhe que
ajudasse com sua influência.21 Quando Conroy percebeu que a duquesa de Northumberland fizera amizade com Lehzen, foi “tratada de acordo”: a governanta nunca viu Vitória a sós ou chegou a conhecê-la e, desgostosa, renunciou ao cargo. Mais tarde, Vitória comentou o que sua especial aliada Lehzen havia “suportado”: chegara a temer por sua vida durante as “cenas
pavorosas na casa”.22
À noite, deitada na cama sob a manta de edredom, ouvindo o tique-taque do velho relógio de casca de tartaruga que pertencera ao pai, Vitória tecia fantasias de vingança: faria a mãe se arrepender por tê-la maltratado; baniria Conroy; daria bailes, convidaria os rapazes mais bonitos que conhecia, dançaria e flertaria a noite toda, se banquetearia com doces.
Àquela altura, a menina que chorara ao descobrir seu destino se tornara uma adolescente decidida, no auge das forças. Escreveu resoluta ao tio Leopoldo: “Aguardo o acontecimento que parece vir em breve com calma e serenidade. Não estou alarmada com ele, mas não me julgo de forma alguma à sua altura; confio, porém, que com boa vontade, honestidade e
coragem, em todo caso, não falharei”.23 Essas palavras se tornaram seu mantra: “Não falharei”.