Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 22 de 44

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Vitória, a rainha

19. Pais reais e o Dragão da Insatisfação

19. Pais reais e o Dragão da

 

Insatisfação

 

Uma família no trono é uma ideia interessante. Traz o orgulho da soberania ao

nível da vida comum.

WALTER BAGEHOT, 18671

 

Continuo labutando na minha roda de moinho, como me parece ser a vida.

PRÍNCIPE ALBERT, 6 DE AGOSTO DE 1861

 

Durante séculos, o Tâmisa com sua cor de jade correra pelo centro de Londres, encimado por grandes bandos de cisnes e povoado de peixes; fervilhava de barcaças e dava sustento a milhões de pessoas. Os restos fétidos dos esgotos que se acumularam nas margens do rio no começo do século XIX também forneciam um sustento razoável para os que conseguiam aguentar o cheiro. As chamadas mudlarks, geralmente crianças de sete ou oito anos, catavam na lama e tiravam refugos do rio, vagueando pelas margens e pelas saídas das tubulações com tachos e cestos no braço, procurando pedaços de carvão ou de lenha, pregos de cobre ou qualquer descarte que fosse vendável. Pelos esgotos rastejavam homens tentando encontrar qualquer coisa útil: pregos, corda, moedas, parafusos, facas,

botões, objetos de metal em geral.2 A descrição definitiva dos pobres de Londres, feita por Henry Mayhew em meados do século, traz “muitos casos incríveis” de homens que se perdiam nos labirintos por onde corria o esgoto ou “coletores de sarjeta cercados por uma infinidade de ratazanas

enormes”.3 Era um trabalho imundo, mas surpreendentemente lucrativo.4

Um século antes, o rio a que César chamara de Tamesis era limpo. Mas, quando a privada com descarga substituiu a fossa nos meados dos anos

1800, com canos largos e escuros levando o esgoto da cidade até o rio,5 as

águas fluviais enegreceram em menos de cinquenta anos.6 Ao mesmo tempo, a população da capital disparou. Em 1801, havia 136 mil casas em

Londres. Em 1851, eram 306 mil. 7 Os moradores próximos ao rio notaram

o aumento crescente da acidez e turbidez das águas.8

Nos meados dos anos 1850, eram despejados anualmente no Tâmisa 80 milhões de galões de esgoto de mais de 3 milhões de habitantes londrinos. O problema parecia intransponível. Em 1852, morreu o engenheiro-chefe da Comissão de Esgotos Metropolitanos, Frank Forster, e sua morte foi

atribuída aos “constantes problemas e preocupações dos deveres oficiais”.9 No ano seguinte, uma epidemia de cólera se alastrou pela cidade, matando quase 12 mil pessoas. Os cientistas finalmente se convenceram de que a doença era transmitida não pelo ar poluído, e sim pela água. Mas o governo, paralisado pela inércia, pela falta de vontade e de percepção da urgência, não agiu.

A família real estava isolada, mas não isenta. O Palácio de Buckingham vivia com problemas de vazamento de excrementos e de infestação de

roedores.10 Vitória assistia enquanto seus cães caçavam as ratazanas em volta de seu dormitório em Windsor, tecendo elogios à “valente” vitória de um deles: “o rato fez um barulho medonho, embora tivesse sido morto bem

depressa”.11 Vitória empregava um apanhador de ratos pessoal, Jack Black, que andava a passos largos pelos corredores com culotes, colete e uma sobrecasaca vermelha reluzente, usando um cinto do qual pendiam ratos

fundidos em ferro.12 Quando Vitória e Albert percorriam o Tâmisa de

barcaça, passavam mal com “o cheiro pavoroso!”.13

Em junho de 1858, o cheiro já era tão fétido que espalhavam cal no rio no trecho em frente às câmaras parlamentares e, dentro delas, penduravam nos tetos lençóis ensopados de lixívia para que os cavalheiros pudessem falar

sem ter que ficar tapando o nariz com lenço.14 No começo do verão, uma longa estiagem havia reduzido o suprimento de água fresca vinda das áreas

mais altas e a temperatura da água estava batendo recordes de quentura. 15 Uma grossa camada de esgoto negro se estendia por trinta quilômetros. A crise resultante veio a ser conhecida como o Grande Fedor. Boa parte do comércio da cidade suspendeu as atividades; os tribunais se apressavam a

fim de evitar a exposição prolongada aos miasmas. 16 Charles Dickens escreveu que o “horribilíssimo” Tâmisa tinha uma “natureza extremamente

perturbadora da cabeça e do estômago”.17 Alguns londrinos tinham acessos involuntários de vômito ao súbito contato com os miasmas. A fetidez não

respeitava classes sociais; todos eram afetados. 18 O país governado por Vitória tinha dificuldade em acompanhar o ritmo da rápida modernização oitocentista; a indústria florescia, o comércio se expandia e o Tâmisa se tornara uma das rotas por água mais movimentadas do Império. Mas o governo tinha sérios problemas em assegurar os mais básicos direitos a seus súditos: água limpa, ar puro e serviços sanitários.

 

Vitória andava mais preocupada com o mundo dentro de seus palácios. A nona filha, sua amada Beatrice, nascera em 14 de abril de 1857. Albert e o médico novamente lhe deram clorofórmio para atenuar a dor, o que ela considerou um “grande alívio”. Dr. Clark lhe recomendou que, devido ao desgaste que lhe causava fisicamente, bem como pelo fato de já estar com quase 38 anos, aquele fosse seu último bebê. Temendo que isso pudesse afetar sua intimidade com Albert, Vitória perguntou ao médico: “Não posso

mais me divertir na cama?”.19 Durante a nona e última gravidez, ela enfrentara uma tosse grave e esgotamento, ao mesmo tempo pranteando a morte de seu meio-irmão, Charles, soldado e político bávaro. Pelo final da gravidez, Albert disse ao irmão que Vitória “mal consegue fazer o que se

espera dela”. 20 Mas a robusta rainha logo se recuperou animadamente do penoso parto. Dois meses depois, Vitória já tinha forças suficientes para passar a noite inteira dançando. “Desta vez tenho me sentido melhor e mais

forte do que jamais me aconteceu antes”, escreveu feliz. 21 “E como também agradeço a Deus por nos conceder uma menina tão linda e querida, que eu

tanto desejei!”22 Deu-lhe o nome de Beatrice, disse ela, porque significava “abençoada”. A menininha seria um enorme reconforto para a mãe. Depois de ficar observando Beatrice no banho, enquanto brincava e gorgolejava, Vitória escreveu: “É um patinho, quem diria, e um mimo do Papai, batendo

suas queridas mãozinhas no rosto dele”.23 Mãe e pai estavam apaixonados

por ela. Albert disse que era “o bebê mais divertido que tivemos”.24

Beatrice se desenvolveu rápido; era uma dádiva dos céus, uma graça divina. Vitória era doida por bebês com mais de quatro meses, principalmente os gorduchinhos. Escreveu no primeiro aniversário de Beatrice: “Ela é tão encantadora e uma delícia de beijar e acarinhar. Que

bom seria se pudesse continuar assim como está”. 25

 

Menos de um mês após o nascimento de Beatrice, a Índia explodiu num motim espontâneo brutal. Era uma guerra pela independência travada por razões políticas — os indianos se rebelando contra o domínio britânico — e religiosas, hinduístas e muçulmanos contra os cristãos. A revolta vinha na esteira de uma ampliação da influência britânica na Índia. De 1848 a 1856, Lord Dalhousie, o governador-geral da Índia, introduzira reformas de uma maneira muito controvertida, recorrendo à “doutrina da extinção do direito”, pela qual ele anexava terras quando o governante indiano era “manifestamente incompetente” ou morria sem herdeiro indiano inconteste, na tentativa de colocar todo o país sob controle britânico. Também fizera obras de infraestrutura — ferroviais, canais de irrigação, linhas de telégrafo, serviços postais, pontes e estradas — e aumentara em mais de um terço as terras pertencentes à Índia Britânica, inclusive o extenso Punjab ao norte. Centralizou e ocidentalizou o funcionalismo público e os setores administrativos do governo, e tentou acabar com costumes locais horrendos como os infanticídios femininos e os sacrifícios humanos. Algumas mudanças — como a legalização de segundas núpcias de viúvas hinduístas em 1856 — foram demasiado rápidas e vistas como um ataque contra a religião e o modo de vida dos indianos. Estes sabiam que tinham um número de soldados superior ao dos britânicos; a média geral era de cinco

soldados indianos para um soldado britânico.26

A causa imediata da revolta foi a introdução do rifle-mosquete Enfield em 1853. Os cartuchos usados nesse mosquete eram engraxados com gordura de porco e vaca, e projetados para ser abertos com os dentes, o que constituía uma ofensa para os soldados tanto muçulmanos quanto hinduístas (as duas religiões proíbem ou desaconselham o consumo de suínos e bovinos). O medo deles era que seus governantes britânicos os obrigassem a se converter à força ao cristianismo. Os cartuchos acabaram sendo substituídos, com a garantia de que a religião seria respeitada e a autorização para que os soldados abrissem os cartuchos com os dedos — embora persistissem os boatos de que continuavam a trazer a gordura ofensiva. O catalisador veio em 9 de maio de 1857, quando 85 indianos da guarnição de Meerut foram condenados a dez anos de prisão por se recusarem a carregar suas armas. No dia seguinte, veio a reação: três regimentos indianos mataram oficiais britânicos e respectivas esposas. Então marcharam até Nova Delhi, ao sul, e mataram todos os europeus que conseguiram (cerca de cinquenta, na contagem mais aproximada).

Alastrando-se o motim, Vitória tentou incentivar o gabinete a tomar

alguma providência.27 Havia soldados britânicos a caminho da Ásia, para lutar por maior reconhecimento do comércio e da diplomacia britânicos na Segunda Guerra do Ópio na China. Foram desviados para a Índia,

postergando a guerra chinesa por um ano.28 Foi um conflito brutal; os dois lados cometeram atrocidades. Em Cawnpore, 350 ingleses ficaram sitiados por 3 mil amotinados indianos durante três semanas. Um príncipe local, aliado aos rebeldes, ofereceu aos britânicos salvo-conduto pelo Ganges se abandonassem o entrincheiramento em Cawnpore. Os britânicos concordaram e se amontoaram em barcos a remo, ancorados na beira do rio. De repente soaram clarins, os remadores indianos saltaram e mergulharam no rio e os indianos dispararam canhões contra o grupo de ingleses, matando quase todos eles. Soldados indianos portando sabres entraram na água para passar no fio da espada quem tivesse escapado aos canhonaços. As 125 mulheres e crianças que sobreviveram ficaram prisioneiras numa villa ali perto e foram mortas um mês depois. Os britânicos chegaram no dia seguinte ao massacre, passando por poços lotados de cadáveres mutilados. Havia marcas vermelhas de mãozinhas e pezinhos nas paredes das

choupanas e sapatos infantis ainda contendo os pés das crianças.29 As represálias foram rápidas e ferozes. Antes de serem conduzidos à forca, os amotinados tiveram de lamber o sangue do chão.

Vitória passou mal, sem conseguir dormir, perseguida pela ideia dos pequeninos presos na villa. Sentiu “o sangue gelar”. Pediu à sua ex-dama de companhia Lady Canning, agora esposa do governador da Índia, que fizesse chegar ao conhecimento dos “que perderam seus entes queridos de maneira tão pavorosa que eles têm minha solidariedade. Uma mulher, e especialmente uma esposa e mãe, consegue entender até bem demais as

agonias sofridas com os massacres”.30

O público britânico clamava por vingança. Os rebeldes foram mutilados, mortos, desnudados e torturados por esporte. Uma unidade britânica ficou bebendo e ouvindo uma banda enquanto assistia ao enforcamento de

centenas de rebeldes.31 Quando o culto Lord Canning, governador da Índia, puniu seus soldados por essa conduta, a imprensa chiou e exigiu represálias

sangrentas.32 Vitória deu apoio a Lord Canning, dizendo que os gritos por vingança eram “vergonhosos”. Os responsáveis pela carnificina deviam ser punidos, disse-lhe ela, “à nação em geral — aos habitantes pacíficos, aos muitos nativos gentis e amistosos que nos auxiliam… a estes se deve mostrar a máxima bondade. Precisam saber que não há nenhum ódio à pele parda — nada a não ser o máximo desejo por parte de sua rainha em vê-los

felizes, contentes e prósperos”. 33

Em julho de 1858, foi assinado um tratado de paz. O Parlamento aboliu a Companhia das Índias Orientais, que governara a maior parte da Índia desde

1601, e assumiu responsabilidade direta pela governança do país.34 Vitória prometeu proteção legal à religião e ao culto de seus súditos indianos e insistiu que todos deviam ter empregos de acordo com sua instrução e

capacidade, e não por credo ou classe social.35 Eram ideias esclarecidas em comparação aos relatos que recebia de funcionários britânicos voltando da Índia, os quais se queixavam de que os indianos se comportavam “como

animais”.36

 

Em janeiro de 1858, nos últimos meses do motim, Vicky desposou seu príncipe prussiano, Fritz. Albert aprovara a união; Fritz não só era de um país que, esperava ele, lideraria uma Alemanha unificada, como também tinha convicções liberais, apesar de sua rigorosa criação militarista. Como Vicky tinha as mesmas concepções, o casal iria ter divergências incômodas com a família real prussiana, que era conservadora. A aliança não teve os efeitos que Albert esperava.

Vitória estava mais nervosa com o casamento da filha mais velha do que ficara no próprio casamento; no seu, disse ela, pelo menos sabia que estava indo para casa com Albert. Tremia tanto na manhã gelada antes da cerimônia que sua imagem saiu borrada no daguerreótipo em que posava ao lado de Vicky e Albert; estes estavam absolutamente imóveis. Vicky, com dezessete anos, estava com um elegante vestido de seda amassada branca orlado de rendas e grinalda de mirto e flores de laranjeira. O casamento foi realizado na Capela Real no St. James’s Palace em 25 de janeiro de 1858 — o mesmo local onde Vitória e Albert haviam se casado dezoito anos antes. (Vitória escrevera ao conde de Clarendon, rejeitando qualquer hipótese de que o casamento se realizasse em Berlim: “Não é todo dia que alguém

desposa a filha mais velha da rainha da Inglaterra”.)37 A caminho da capela, Vitória, com um vestido de veludo malva, esforçava-se para não chorar:

“Mal consegui me controlar”. 38 Estava orgulhosa da compostura da filha, mas soluçou na despedida, alguns dias depois: “Meu coração apertado cedeu… Que momento terrível, que verdadeira dor no coração pensar que nossa querida Filha se foi e não saber por quanto tempo não voltaremos a

vê-la!”.39

Em 2 de fevereiro, num dia de neve, Albert atravessou o milhar de pessoas que se aglomeravam em Gravesend, conduzindo a filha adolescente até o iate que a levaria a uma nova vida na Alemanha. Havia por ali menininhas espalhando pétalas de flores pelo caminho. Albert receara aquele momento: amava muito a filha inteligente e talentosa que tanto se parecia com ele — era sua favorita, com grandes afinidades de espírito. A

ideia da separação era “especialmente dolorosa”. 40 Quando os dois entraram na cabine, Vicky afundou o rosto no peito de Albert, molhando-o

de lágrimas. Sentia que devia ao pai mais do que a qualquer outra pessoa.41 Albert ficou olhando fixo em frente, com a filha nos braços. Escreveu-lhe no dia seguinte, assegurando-lhe seu amor, apesar de sua rigidez: “Não sou de natureza expansiva e, assim, você dificilmente faz ideia de quanto

sempre me foi muito querida e do vazio que deixou em meu coração”.42

Nos dias que se seguiram ao casamento, Vitória ficou muito inquieta. Como havia dito a Leopoldo: “Ela melhorou muito em seu autocontrole e é tão inteligente (eu diria, assombrosamente inteligente) e tão sensata que podemos falar de qualquer coisa com ela. Assim, sentiremos muito sua

falta”.43 Seu consolo era que o príncipe Frederico Guilherme da Prússia, de 26 anos, era gentil e bondoso e estava visivelmente apaixonado. E logo se evidenciou que a distância aproximou ainda mais mãe e filha. Naquele ano, Vitória e Vicky iniciaram uma caudalosa correspondência, às vezes em cartas diárias, que em quatro décadas chegou a um total de quase 4 mil missivas.

 

No entanto, em 1858, o que mais preocupava Vitória e Albert, depois que a filha se instalara em seu novo palácio prussiano, era a ameaça de guerra na Europa. A Itália, naquela época, era dividida em vários estados, com a Áustria governando o norte, incorporando a Lombardia, o Vêneto e a Toscana (e suas respectivas capitais, Milão, Veneza e Florença), e o impulso

de unificação ganhara força.44 Houve três guerras de independência italiana entre 1848 e 1866, que terminaram com a unificação da península itálica. O domínio austríaco permanecera intacto após a primeira guerra, em 1848; uma década depois, iniciou-se nova guerra na qual a França entrou apoiando os nacionalistas italianos (Napoleão III queria que a Itália se unificasse sob um rei sardo). Os britânicos desconfiavam das intenções francesas. Vitória acreditava que a Itália seria um mero trampolim da França para o Reno, e Vitória e Albert estavam preocupados que a ambição de Napoleão III — amigo próximo do qual começavam a desacreditar —

desencadeasse uma grande guerra europeia.45

Em março de 1859, depois que Napoleão III deu seu apoio, o líder do poderoso estado democrático de Piemonte-Sardenha, no norte da Itália, iniciou a mobilização. Em abril, a Áustria enviou um ultimato exigindo que entregassem as armas. Quando se recusaram, a Áustria declarou guerra. A Inglaterra manteve inabalável neutralidade, apesar do apoio público à Sardenha. Albert e Vitória tiveram papel importante em pressionar o gabinete a manter essa posição neutra, enviando uma enxurrada de cartas aos belicosos Lord Palmerston e Lord John Russell. Os ministros intervencionistas queriam ajudar a França, mas Vitória e Albert os refrearam várias vezes. Entravam em constantes atritos com Palmerston, devido à sua simpatia pelos nacionalistas italianos durante seus anos como premiê, de 1855 até sua morte, em 1865 (exceto um interlúdio em 1858-9, quando Lord Derby ocupou o cargo de primeiro-ministro). Em 11 de julho de 1859, mesmo dia em que soou a primeira badalada do relógio da torre do Big Ben em Londres, houve um inesperado acordo entre a França e a Áustria num tratado de paz preliminar (que foi confirmado por um tratado assinado pelas três partes em novembro, e a Lombardia acabou sendo cedida à Sardenha). Evitara-se uma guerra geral, e o casal real

desempenhara um papel essencial para sustentar a posição britânica.46

Vitória e Albert agora estavam no auge de suas capacidades.47 Como observou mais tarde um dos editores da correspondência da rainha, Lord Esher, o trabalho de Vitória, junto com o dos primeiros-ministros Peel, Aberdeen, Palmerston e Derby, “foi de imenso valor… [Em] várias ocasiões muito decisivas, ela dera apoio à ação de um ministro, quando tal ação envolvia riscos e perigos que ele e seus colegas, mediante reflexão, julgavam que seria injustificável enfrentar”. Sem “a tenacidade da Coroa”, escreveu ele, a Inglaterra teria sido arrastada para a Guerra Austro-Italiana de 1859.

Mas permanecia a questão se Albert não estava começando a interferir nos assuntos do governo mais do que seria apropriado. Em 1859, quase vinte anos depois de desposar a rainha da Grã-Bretanha, ele estava dando sinais de uma crescente estridência. Muitas vezes brigava com os ministros do governo para que mudassem o curso. Em 1905, ao ler a correspondência, Lord Esher notou que essa tendência só podia ter aumentado com o tempo:

 

O príncipe consorte estava tomando o leme do Estado com pulso cada vez mais forte e havia

batalhas constantes entre ele e os ministros, ele agindo em nome da rainha… Que havia atritos, é

indubitável. Se tivesse continuado em vida, sua tenacidade poderia ter se convertido em obstinação

e as relações entre ele e um governo fundado — como é o nosso — em instituições democráticas

teriam ficado muito tensas.48

 

O papel da monarquia sob a liderança de Albert, portanto, era de grande e enérgica influência, insistindo num refreamento na política externa e na democratização, para desgastar a autoridade da aristocracia e exercer influência por meio de um leque de ligações monárquicas que se expandia pela Europa numa rede de ações diplomáticas de bastidores, delicadas e cuidadosamente planejadas. Vitória e Albert estavam entre os diplomatas mais habilidosos da época, reunindo-se com reis e rainhas, escrevendo a imperadores e imperatrizes, procurando influenciá-los por meio da amizade ou da argumentação. Albert pretendia semear a linhagem de sangue real britânico nas cortes da Europa, com seus filhos. O primeiro passo foi colocar Vicky na corte real da Prússia, o que foi um triunfo estratégico, embora sua vida lá tenha sido muito infeliz.

 

Em 27 de janeiro de 1859, Vitória se tornou avó. Saiu em disparada pelos corredores do castelo para contar a Albert que Vicky dera à luz o primeiro filho, Frederick William Victor Albert, o futuro Kaiser Guilherme II. Vitória então despachou uma série de telegramas enquanto as luzes se acendiam e os sinos repicavam na cidade que se estendia em torno do Castelo de Windsor. De início, ela ficara horrorizada ao saber que a filha tinha

engravidado tão depressa; disse que era uma “notícia horrível”. 49 Vicky, como autêntica filha do pai que tinha, respondeu que estava orgulhosa em gerar uma alma imortal. Vitória revirou os olhos à ideia de que a gestação pudesse ser alguma espécie de esforço espiritual: “Nesses momentos, penso em nós muito mais como uma vaca ou uma cadela, quando nossa pobre

natureza se torna muito animal e nada estática”.50 Depois que a criança nasceu a salvo, Vitória se sentiu “aliviada de um grande peso”, em vista da

periculosidade de um parto naquela época. 51 Mas, dois dias depois, ela soube que o parto tinha sido “muito difícil”; o bebê estava em posição

invertida e quase morrera.52 Albert recomendou repouso, banhos gelados e

ar do mar.53 Vicky enviou à mãe um cacho de cabelos do neto.

Vitória tinha repreendido a filha por “escolher” dar à luz numa data em que não poderia estar junto com ela e mandou em seu lugar uma garrafa de clorofórmio, o médico dr. Clark e uma parteira com o curioso nome de sra. Innocent. Vitória anotou ciosamente todos os detalhes da recuperação de Vicky: quando se deitou pela primeira vez num sofá, quando conseguiu se sentar na poltrona, quando pôde se levantar, quando conseguiu andar. Somente quando Vicky foi visitá-la em maio de 1859 é que Vitória soube que o braço esquerdo do neto sofrera uma lesão durante o parto e pendia da

articulação frouxo e paralisado.54 Quando Vitória finalmente conheceu o pequeno Willy em 1860, numa viagem à Alemanha, disse que era uma

“bela criança robusta, com uma linda pele branca e macia”.55 Vitória era uma avó extremosa, que achava que os filhos de seus filhos eram “as

melhores crianças que vi na vida”.56

 

No final dos anos 1850, aproximando-se dos quarenta anos, a rainha

estava esbelta e contente.57 Finalmente se liberara do ciclo reprodutivo e aproveitava a privacidade da Ilha de Wight e a liberdade da Escócia. Frequentemente ficava com Albert num pequeno chalé de granito e madeira perto do Loch Muick; passavam horas de barco pescando trutas no lago e iam se deitar cedo, “muito pacíficos e felizes nesse pequeno chalé, longe de

todas as habitações humanas”.58 Os trabalhadores pobres que moravam nos chalés perto do Castelo de Balmoral continuavam a ser surpreendidos por visitas inesperadas da rainha. Vitória e Albert faziam longas excursões em locais remotos das Highlands, por onde viajavam incógnitos e se hospedavam em estalagens. Adoravam o jogo do anonimato, evitando perguntas de passantes curiosos e, quando eram reconhecidos, tentando adivinhar como tinham sido descobertos. Uma vez, o que os entregou foi a coroa no cabriolé, e os monogramas nos lençóis que tinham levado na viagem, além dos vários anéis que Vitória usava, despertaram a suspeita dos moradores locais de que seriam visitantes ricos vindos de Balmoral. Certa manhã, perceberam que haviam sido descobertos ao despertarem aos sons de pífanos e tambores e verem que a idosa estalajadeira estava com um

elegante vestido de cetim negro com fitas brancas e flores de laranjeira.59

Numa das excursões de 1859, tendo chegado ao topo da segunda montanha mais alta da Grã-Bretanha, Ben Muich Dhui, Albert comentou

que a rainha estava “especialmente bem, animada e cheia de energia”.60 Os passeios eram alegres; riam quando deslizavam pelas escarpas e escorregavam nas pedras, e se divertiam com os excêntricos ajudantes de caça. Vitória criou especial afeição por seu “inestimável criado montanhês” John Brown, que mais tarde diria ser seu melhor amigo, o qual conduzia seu cavalo, levava seus xales e a erguia nos braços para atravessar os trechos de terreno íngreme e pedregoso. Várias vezes, Vitória mencionou as inúmeras risadas que davam. Uma frase que repetia muito na época era “Ah, se pelo

menos o tempo não voasse tão rápido!”.61 O último registro de Albert em

seu diário, naquele ano, foi “Dançamos no Ano-Novo”. 62 Vitória, naqueles dias felizes, vivia dançando: valsas, trotes e principalmente quadrilhas. Raramente Albert conseguia acompanhar seu entusiasmo num salão de baile, mas não tinha importância. Quando voltava a andar após o período de resguardo dos partos, ela sabia que, na hora em que conseguisse dançar, estava pronta para encarar o mundo outra vez.

 

***

 

Percorrendo os jardins do Palácio de Buckingham em 1º de junho de 1859, ao longo da margem lamacenta do lago, onde flamingos rosados enfiavam o bico na água, Vitória se deliciava com a nova intimidade que florescera entre ela e a filha mais velha. Conversavam sobre tudo: “Nós nos entendemos totalmente. É uma menina querida, boa, inteligente, amorosa e

somos como duas irmãs!”.63 Quando Vicky se tornou adulta, a relação com a mãe se pôs num plano de mais igualdade: as duas eram casadas e tinham

filhos.64

Mas Albert continuava a ser seu adorado instrutor, alimentando a filha em termos morais e intelectuais. Disse-lhe que ganharia o coração das pessoas pensando nos outros, incentivava-a a ser pontual e a manter a serenidade diante dos humores volúveis do público. Dava-lhe tarefas complicadas de tradução e se ofereceu para examinar o orçamento prussiano e ajudá-la a entender melhor. Albert também obteve sua promessa de que lhe contaria “honestamente os progressos de sua vida interior”, gesto de impressionante consideração de um pai intenso para uma filha intensa. Em troca, ele lhe prometeu que cumpriria seu “dever sagrado” de alimentar essa sua vida

interior.65

As cartas do príncipe Albert a Vicky ilustram a natureza abstrata e filosófica de seu intelecto. Quando ela comentava que sentia saudades de casa, por exemplo, a mãe respondia amorosamente que também sentia sua falta. Mas o pai redigia uma análise da condição da saudade. Garantindo-lhe que era uma condição natural, ele explicava que consistia num “anelo doloroso, que pode existir com total independência e em simultâneo com uma plena satisfação e uma plena felicidade”. Era um dualismo, dizia ele, em que “o novo eu” não consegue se dissociar do “eu anterior”: “Daí a luta

penosa e, eu até poderia dizer, o espasmo da alma”.66

Vitória queria saber tudo e pedia detalhes em um grau aflitivo sobre a nova vida de Vicky — a acolhida que teve, a moradia, a saúde, as roupas, os aposentos, a rotina diária. Comentou com Leopoldo que, nunca tendo ficado longe da filha por muito tempo, se sentia “numa inquietação e impaciência constantes em saber tudo sobre tudo. Para uma mãe que zelou ansiosamente pela filha dia após dia, é uma grande, enorme provação vê-la distante —

dependendo de si mesma!”.67 Logo após o casamento, Vitória escreveu a Vicky dizendo para deixar “as descrições das grandes coisas” aos outros, “mas a mim conte seus sentimentos — e suas impressões sobre as pessoas e as coisas, e pequenos detalhes interiores. 1º: Que vestido e que chapéu você estava usando ao desembarcar? E que chapéu usou nos dois dias seguintes? 2º: Que tipo de aposentos você tinha em Colônia e Magdeburg? 3º: Você jantou com o seu pessoal em Colônia e ceou em Magdeburg no dia 12? 4º: Que manto você usou na viagem, e tem desenhado? 5º: Você gosta da alimentação alemã, e como suas pobres damas têm enfrentado essa

correria?”.68

Vitória muitas vezes tinha o problema de fiscalizar minuciosamente a vida dos filhos, mostrando preocupação, mas também excesso de zelo e um

controle opressivo.69 Dando várias instruções a Vicky, Vitória escreveu: “Então você vê, querida, que embora infelizmente distante (coisa da qual

nunca me consolarei) — cuido de você como se eu estivesse aí”.70 Também criticava com muita frequência. Repreendia Vicky por não comer o suficiente durante o dia, por exagerar no uso de maiúsculas nas palavras, por não numerar corretamente as páginas, por confundir a data em que a mãe subira ao trono. Dizia-lhe para não rir alto demais nem se inclinar para escrever, para manter a higiene bucal — “pouca gente tem dentes bons no estrangeiro” —, estar sempre asseada e arrumada para o marido, não manter

familiaridade com ninguém na corte, exceto com os sogros e cunhados.71 “Realmente espero”, escreveu ela, “que você não esteja engordando de novo. Evite comer coisas macias e tenras ou beber muito — você sabe

como isso engorda.” 72 Também alertava a filha para não negligenciar o marido ou as obrigações por causa de excessivo amor pelos bebês. “Nenhuma dama e menos ainda uma princesa”, disse ela, estaria se conduzindo de maneira adequada em relação ao marido ou à sua posição se

“exagerasse a paixão pelas crianças”. 73 Vitória frisava que via seus filhos mais novos receberem banho e serem postos para dormir somente umas

quatro vezes por ano.74

Vicky ficou um tanto surpresa com esse súbito afeto avassalador da mãe,

tendo sido tão rigorosa em anos anteriores. 75 Mas as duas concordavam que

Albert era um semideus.76 Era com Vicky que Vitória confidenciava coisas de sua infância infeliz, contando como se sentia sufocar sem ter vazão para

seus “fortíssimos sentimentos de afeto”. 77 Era por isso que devia tudo a Albert, disse ela: “Além de marido, ele era meu pai, meu protetor, meu guia e conselheiro em tudo e (quase posso dizer) minha mãe. Creio que nunca ninguém mudou e se transformou tão completamente em todos os aspectos como eu pela abençoada influência do querido Papai. A posição do Papai em relação a mim é, portanto, de uma natureza muito especial e quando ele

está longe me sinto totalmente paralisada”.78 A rainha não sabia a que ponto essa total dependência viria a deixá-la vulnerável.

Bertie era um tema sobre o qual as duas divergiam. Vitória sempre reclamava do segundo filho, enquanto Vicky raramente respondia. Em março de 1858, Vitória disse à filha que estava “agoniada” com Bertie, então com dezesseis anos, que se preparava para a crisma no mês seguinte lendo sermões para a mãe. Dali a poucos meses, ele iria a Roma e iniciaria seus estudos em Oxford, mas Vitória se desesperava com sua eterna preguiça. Chamava-o de ignorante, obtuso, longe de ter qualquer beleza, “com aquela cabeça dolorosamente pequena e estreita, aqueles traços

fisionômicos enormes e falta total de queixo”.79 Menosprezava seu “nariz de Coburgo” encurvado — exatamente como o da própria mãe —, o

excesso de peso, a boca grande e o novo corte de cabelo. 80 A moda agora era cortar o cabelo curto e reparti-lo exatamente no meio, e assim, dizia

Vitória, “ele fica parecendo não ter cabeça, só rosto”.81

Vitória descrevia os filhos da mesma maneira com que descrevia a maioria das pessoas: brusca e muitas vezes ríspida. Sobre o filho Leopoldo, por exemplo, disse: “Ele é alto, mas seu porte anda pior do que nunca, e é um menino de aparência muito comum, rosto muito simples, inteligente,

mas esquisito — e, embora divertido, não é um menino simpático”. 82 O problema de Helena eram os traços do rosto, “tão grandes e compridos que

estragam sua aparência”.83 Arthur, Alice e Louise, atraentes, eram elogiados e apresentados como espécimes de beleza. Quando Vicky contou à mãe que Bertie, em visita na Alemanha, foi encantador, Vitória deu uma réplica escarninha: “Considero-o muito enfadonho; seus três outros irmãos são,

todos eles, muito divertidos e expansivos”.84 Vicky desanimou; era inútil

tentar defender Bertie.85

 

Agora Vitória era a mãe com dupla jornada mais famosa do mundo. A imagem de uma mãe que era rainha converteu uma monarca que antes parecia distante numa figura comum de carne e osso. Walter Bagehot escreveu em 1867 que ter uma família no trono “traz o orgulho da soberania

ao nível da vida comum”. 86 Vitória reinava sobre a Inglaterra aparentando, ao mesmo tempo, dedicar-se exclusivamente à vida doméstica. Na Inglaterra da época, mulheres que tinham emprego despertavam pena, mas o recenseamento de 1851 mostrou que 25% das esposas e 66,66% das

viúvas trabalhavam.87 Na segunda metade do século XIX, o número de

trabalhadoras aumentou rapidamente e se tornou considerável. 88 Porém ainda se acreditava que o trabalho dignificava os homens, mas enfraquecia as mulheres. Todavia, a rainha trabalhava sem nenhum sentimento de culpa.

No entanto, é apenas nessa fase, quando Vitória estava imersa na alegria da maternidade, que começamos a ver a raiva sub-reptícia que ela sentia diante das exigências impostas pela gravidez. Dizia que era o Schattenseite, lado sombrio, do casamento: questão pouco debatida ou nem sequer devidamente entendida, exceto pelas mulheres que estavam grávidas. Quando Vicky comentou que uma mulher casada tinha mais liberdade em sociedade do que uma solteira, a rainha retrucou que, em certo sentido, era verdade, mas não em outro sentido, o físico:

 

Dores — e sofrimentos, desgraças, incômodos — contra os quais você precisa lutar — e renunciar

a diversões etc. — precauções constantes a tomar, você sentirá o jugo de uma mulher casada… Por

nove vezes tive que lidar durante oito meses com esses inimigos acima citados e reconheço que

isso me aborrecia amargamente; a pessoa se sente muito presa — as asas cortadas — de fato, na

melhor das hipóteses… apenas metade de si mesma — principalmente na primeira e segunda vez.

É o que chamo de “lado sombrio” tanto quanto ser arrancada do lar que se ama, dos pais, irmãos e

irmãs. E assim penso que nosso sexo é muito pouco invejável.

 

O mundo oculto da maternidade oitocentista — da ignorância média e da falta de analgésicos — causava arrepios em Vitória, quando pensava no que

suas filhas iriam atravessar.89 Examinando pretendentes para a princesa Alice em 1860, Vitória estava melancólica: “Todo casamento é uma grande loteria. A felicidade é sempre uma troca, embora possa ser muito feliz. Mesmo assim, a pobre mulher é física e moralmente a escrava do marido.

Isso sempre fica entalado na minha garganta”.90

Mesmo o angelical Albert não conseguia entender o destino das mulheres. Vitória escreveu zangada a Vicky, em 1859, dizendo que Albert às vezes “escarnecia” dela e de outras mulheres com as provações físicas que tinham que enfrentar. Vicky andara reclamando que um dos primos de seu marido desprezava as mulheres e achava que só serviam como objeto decorativo. Vitória respondeu:

 

Esse desprezo pelo nosso pobre e degradado sexo está sempre um pouco presente na natureza de

todos os homens inteligentes; o querido Papai não está totalmente isento, embora não o admita —

mas ele ri e escarnece constantemente de muitas mulheres e de nossos inevitáveis incômodos etc.;

embora odeie a necessidade de afeição, de devida atenção e proteção delas, ele diz que os homens

que deixam todos os assuntos domésticos — e a educação dos filhos — à esposa estão esquecendo

seus principais deveres.91

 

O príncipe consorte veio a se cansar das queixas de Vitória sobre o efeito debilitante da gravidez. Quando ela entrava no quarto mês de sua última gravidez no outono de 1856, Albert a acusou numa carta de ser exigente e egoísta. Ao escrever, ele pretendia acalmá-la, mas também se mostrou irritado com suas reclamações sobre as restrições físicas que a exasperavam:

 

Eu, como todas as outras pessoas na casa, faço as mais amplas concessões ao seu estado…

Infelizmente, não podemos carregar seus sofrimentos físicos em seu lugar — você precisa

enfrentá-los sozinha — os morais provavelmente são causados por eles, mas, se você se ocupasse

menos de si mesma e de seus sentimentos e se interessasse mais pelo mundo exterior, veria que

este é o maior auxílio de todos.92

 

Albert insistiu com a esposa que confiasse na bondade de Deus para o alívio da dor, “degradação [e] indignação” que ela lhe descrevia. O que nenhum historiador mencionou, como fator na atitude ambivalente de Vitória frente à gravidez, é o custo da sua saúde física — e mental —, que ela manteve escondido pelo resto de sua vida.

Sob muitos aspectos, Vitória não era naturalmente maternal. Albert lhe disse que ela não gostava de crianças porque pensava, erroneamente, que a tarefa de uma mãe era disciplinar: “A raiz do problema está na ideia equivocada de que a função da mãe é estar sempre corrigindo, repreendendo, dando ordens e organizando as atividades dos filhos. Não é possível estar em termos amigáveis e contentes com pessoas que você acaba

de repreender”.93 Quando Bertie ainda era menino, seu preceptor — então Lord Clarendon — caracterizou “a severidade da rainha em tratar seus filhos” como atitude “muito pouco judiciosa”, principalmente com Bertie,

muito voluntarioso e categórico.94

Em junho de 1856, Vicky queimou o braço quando uma vela que usava para derreter cera e selar uma carta pôs fogo na manga da roupa. Vitória ficou diariamente ao lado da filha, enquanto faziam os curativos da queimadura.

Vitória ficava às vezes enfastiada, às vezes encantada, com os filhos. Escrevia amorosamente sobre a meiga e graciosa “Lenchen” (Helena), a cordial e altruísta Alice e o hemofílico Leopoldo, que sofria de muitos

achaques, mas era “um menino inteligente, honesto e bem-intencionado”.95 Seus favoritos eram visivelmente Beatrice, Vicky e Affie, este último descrito como um “raio de sol na casa” e “muito parecido com seu querido

pai”. 96 Falando de Arthur, disse ela: “Os filhos às vezes são um grande reconforto para mim, pois a feliz e inocente inconsciência deles anima e

revigora o coração”.97 Quando Albert não deixou que ela levasse os filhos mais novos para visitar Vicky na Prússia, em 1858, Vitória disse que ele era

“um grande tirano de coração empedernido”. 98 Não muito tempo depois, quando Affie foi enviado para passar vários meses no HMS Euryalus, uma fragata a vapor que se dirigia ao Mediterrâneo via Gibraltar, Vitória falou a Vicky que “Papai é muito cruel a esse respeito. Garanto-lhe que é muito melhor não ter filhos do que tê-los apenas para renunciar a eles! É muita

desgraça”.99 Ela e os filhos observavam cometas e eclipses pelo telescópio, contemplavam as feiosas cegonhas bico-de-sapato no zoológico, certa vez se assombraram com uma apresentação notável do “encantador de cavalos” americano, que conseguia domar e amansar cavalos selvagens quase

instantaneamente.100 Era uma vida de grande estabilidade; Vitória e Albert, muito unidos, formavam o eixo em torno do qual giravam a família e a nação. Os filhos cresceram sob observação e controle, mas tinham suas próprias alianças e rebeliões, como Alice e Bertie, que saíam às escondidas para fumar.

Vitória consultava obsessivamente os calendários. Marcava no diário as datas e aniversários importantes — não só os aniversários de nascimento e casamento, mas também o dia em que Albert chegou à Inglaterra antes do noivado, o dia em que Albert chegou à Inglaterra para o casamento, o dia em que Fritz apresentou suas intenções de desposar Vicky, o dia em que

Vicky e Fritz ficaram oficialmente noivos, o dia em que se casaram.101 Ela anotava os aniversários de batalhas, da queda da família Orléans francesa, da inauguração da Grande Exposição, o dia em que Vicky teve as graves queimaduras no braço, a vez em que Albert saltou da carruagem em Coburgo, arranhando o rosto. Vitória se agarrava ao tempo como uma mulher pouco acostumada à felicidade e aterrorizada com a perspectiva de que terminasse. Não gostava de mudanças.

O ano de 1860 terminou com uma nota de ansiedade. Vitória estava preocupada com a guerra. Disse a Vicky que estava farta da “horrenda” política e do continente europeu em geral, e tinha vontade de fugir algum

dia com os filhos para a Austrália.102 Albert lhe beijou a testa e disse para

confiar em Deus; ele os protegeria como já tinha feito antes.103 Vitória também estava preocupada com a saúde da mãe. Quando a duquesa de Kent se recuperou de uma enfermidade em 1859, Vitória escreveu a Leopoldo dizendo que nunca sofrera tanto como naquelas quatro horas que passara aguardando a notícia se a mãe ia sobreviver ou não: “Nem eu mesma sabia direito quanto a amava ou como toda a minha existência parece ligada a ela, até que vi avançar na distância a terrível possibilidade que não vou

mencionar”.104 Sentia remorsos de sua obstinação na adolescência. Seu maior medo era a perda.

 

Em 16 de março de 1861, após vários meses de fraqueza, infecção e dor

nas costas, a duquesa de Kent morreu.105 Vitória estava sentada num tamborete segurando sua mão quando percebeu que ela parara de respirar. Enquanto Albert, em lágrimas, se inclinou para levantá-la e levá-la ao aposento ao lado, Vitória se mostrou arrasada: “Minha infância, tudo parece

se precipitar sobre mim”.106 Escreveu ao irmão da mãe, seu tio Leopoldo: “Neste, que é o dia mais terrível de minha vida, sua pobre menina de coração partido escreve somente uma linha de amor e devoção. Ela se

foi!”. 107

Vitória passou semanas chorando, deitada na cama e o quarto com as cortinas fechadas. Dormia mal e comia pouco, pensando na tolice de seu afastamento da mãe duas décadas antes e na falta que ela lhe fazia. Adotou o terrier escocês da mãe, encomendou um busto, esquadrinhou suas cartas e começou a dispor de seus bens. Vicky veio da Alemanha para ficar com ela, e a filha caçula, Beatrice, às vezes a reanimava com sua “doce vozinha

inocente”.108

Mas Vitória, então com 41 anos, entrara em depressão, que descrevia como uma nuvem opressora e cansativa. Não conseguia suportar multidões

e conversas em voz alta.109 Quinze dias após a morte da mãe, sentia apenas um grande vácuo, um “vazio ou desolação”, “Sehnsucht e Wehmut” (saudade e nostalgia). Seu único alívio era um acesso diário de pranto incontrolável. Tinha fortes e frequentes enxaquecas; sentia-se grata que as rodas de borracha de sua carruagem eram silenciosas. O mero som da voz de Bertie lhe causava enorme irritação.

Logo começaram a murmurar que ela estaria enlouquecendo; tais rumores nunca desapareciam totalmente, em vista do destino do rei Jorge III, avô de Vitória. Albert disse ao irmão: “Vitória está muito bem e não entendo como podem ter surgido esses rumores sórdidos e horrendos sobre sua condição mental. Aborrecem-me tremendamente, pois sei quais podem ser as

consequências”. 110

Mas Albert, ciente das tendências nostálgicas de Vitória, também lhe recomendava não se entregar à dor. Ela tinha como grande tarefa na vida,

disse ele, “controlar seus sentimentos”. 111 Albert lhe escreveu uma carta em outubro de 1861, vários meses após a morte da duquesa de Kent:

 

Meu conselho para que você se ocupe menos de si mesma e de seus próprios sentimentos é

realmente o mais benévolo que posso dar, pois se sente dor principalmente quando a pessoa se

detém sobre ela e assim pode ser intensificada a um grau insuportável… Se você tomar mais

interesse por coisas desvinculadas de sentimentos pessoais, verá se aliviar muito a tarefa de

controlar esses sentimentos em geral que você afirma serem sua grande dificuldade na vida.112

Vitória era uma pessoa sentimental por natureza, às vezes muito agarrada, que se apegava intensamente às pessoas e aos lugares; detestava sair de Osborne, depois de Balmoral, e, quando Albert saía para atender a algum assunto, ela ficava ansiosa até ele voltar. Anotava ciosamente no diário as idas e vindas de toda a família e lamentava sempre a ausência de qualquer um deles. Era especialmente propensa a profundos pesares, e havia uma parte do processo de luto com que se sentia gratificada, como se estivesse apertando um machucado. Em abril, disse a Vicky que não queria ser “arrancada” de sua dor. Era isso que prejudicava a campanha de Albert contra a absorção em si mesma.

 

Ao fazer 42 anos, em 1861, Vitória pediu que não houvesse música sob sua janela. Queria apenas gozar o “terno amor e afeição” de Albert, o que já se tornara um ritual íntimo de aniversário. Seu querido marido era “tudo” para ela e “a quem, tenho certeza, Deus sempre abençoará pelos anos

futuros e nunca me deixará sobreviver a ele!”. 113 À medida que a idade avançava, ela ficava mais aflita com a perspectiva de perder qualquer pessoa próxima a ela. Quando Feodora fez cinquenta anos de idade, Vitória, que acabara de perder seu meio-irmão Charles, escreveu: “Que Deus preserve por muito tempo essa querida e única irmã! Agora tremo tanto por

todos os que me são caros!”. 114

Albert tinha saúde frágil; sofria de problemas estomacais crônicos, com câimbras violentas; era sensível ao frio e tinha frequentes enxaquecas, febres, dores de dente e principalmente catarro. Disse a Stockmar em maio de 1859 que o excesso de trabalho e de agitação deixava suas “membranas

mucosas num estado de irritação constante”.115 Às vezes, o estresse lhe causava acessos de vômito. Vitória atribuía à sobrecarga de trabalho e

ficava sempre impaciente para que se recuperasse logo.116 Pessoalmente, ela acreditava que ele fazia alarde demais, como se fosse uma espécie vitoriana de “dengo masculino”. Enquanto Albert repreendia a esposa pela fragilidade emocional, ela o repreendia pela debilidade física. Afinal, era a mulher que não se deixava abalar pelos vários atentados que sofria. Ela se queixou numa carta a Vicky, em 1861:

O querido Papai nunca reconhece que está melhor nem tenta superar, mas faz uma cara tão infeliz

que as pessoas sempre pensam que ele está muito doente. Comigo é sempre o contrário; posso

fazer qualquer coisa na frente dos outros e nunca mostrar, e assim as pessoas nunca acreditam que

estou doente ou sequer com dor. Seu sistema nervoso se agita e se irrita com facilidade e ele fica

totalmente dominado por tudo.117

 

As mulheres, dizia ela, “nasceram para sofrer”.118

O príncipe consorte estava profundamente esgotado. Em setembro de 1860, numa viagem a Coburgo para visitar seu irmão (agora duque de Saxe-Coburgo-Gota), Albert foi arremessado para fora do veículo em movimento quando os cavalos da carruagem dispararam num tranco. Ele se arranhou e se machucou. Stockmar, olhando os pequenos cortes de Albert, disse baixinho a Ernest: “Deus tenha piedade de nós! Se algum dia acontecer algo

sério com ele, vai morrer”.119 Ernest também notou sinais de morbidez em Albert, que estava muito sentimental. Quando saíram para dar o último passeio juntos em Coburgo, em outubro, Ernest disse que “Albert parou e, de repente, se pôs a procurar seu lenço de bolso… Fui até ele e vi que lhe corriam lágrimas pelo rosto… continuou dizendo que sabia que aquela era a

última vez na vida que estaria aqui”.120 Albert estava deprimido e “o dragão da insatisfação” o consumia.

O pai de nove filhos era incapaz de parar de trabalhar. A vida, para ele,

era uma labuta interminável.121 Via-se como uma espécie de animal de carga, como escreveu ao irmão: “O homem é uma besta de carga e só é feliz se tiver de arrastar seu fardo e não possuir muito livre-arbítrio. Minha experiência me ensina diariamente a entender cada vez mais a verdade

disso”.122 Suas infindáveis escapadas solitárias para caçar cervos pareciam incapazes de diminuir seu cansaço. Vitória havia criado uma profunda dependência dele e se incomodava com suas ausências de uma maneira que se tornara opressiva. Quando Albert esteve fora por uma noite, indo a Aberdeen para fazer um discurso, ela disse a Leopoldo: “Sinto-me muito

perdida sem ele”. 123 Esquecera sua tremenda força pessoal, que ficou dormente por anos, enquanto venerava e se apoiava no marido dinâmico, porém enfermiço.

Num sábado de junho de 1861, houve um grande incêndio em Londres. Vitória e Albert, que estavam nos jardins do Palácio de Buckingham, viram o céu se iluminar de uma maneira estranha e subiram ao alto do palácio para observar o fogo.

 

A visão era assustadora, o céu totalmente claro e as chamas subindo furiosamente… iluminando

toda a cidade e apresentando um aspecto aterrorizante de destruição… A cena toda foi estranha e

impressionante, as torres brancas de Westminster se erguendo à direita da conflagração, a lua

brilhando lindamente, a noite quente e ainda interrompida pelas badaladas do “Big Ben” na Torre

de Westminster e pelo toque de recolher do Quartel.124

 

O incêndio da Tooley Street teria começado por combustão espontânea entre os depósitos abarrotados de juta, cânhamo, algodão e especiarias. O fogo logo se alastrou por quatrocentos metros ao longo da margem sul do Tâmisa, criando uma muralha de chamas de trinta metros de altura. Os espectadores subiam e desciam remando pelo rio, que cintilava dourado entre a luz das labaredas. O fogo prosseguiu por mais dois dias, e só se extinguiria totalmente duas semanas depois; morreram seis pessoas, inclusive o chefe da equipe de bombeiros, quando um depósito caiu em cima dele.

Vitória ficou no alto do palácio durante horas, olhando os rolos de fumaça e as explosões de chamas vermelhas. O que ela não sabia, quando finalmente deu as costas ao incêndio e se recolheu para dormir, era que, antes do final daquele ano, sua própria felicidade seria destruída também.