Vitória, a rainha
14. Rei para todos os fins: “Como um abutre em sua presa”
14. Rei para todos os fins: “Como
um abutre em sua presa”
Ele veio a se identificar tanto com ela que formam uma pessoa só e, como ele
gosta e ela não gosta da atividade, é evidente que, embora tenha ela o título, é
ele quem realmente desempenha as funções de soberano. Ele é rei para todos os
fins e propósitos.
CHARLES GREVILLE, 16 DE DEZEMBRO DE 18451
Nos meados do século XIX, o mês de janeiro costumava ser o pior para os que dependiam das ruas de Londres para sobreviver. O fedor estival de esterco, tabaco, peixe podre, pessoas que não se lavavam, curtumes, oficinas químicas, fogueiras de carvão e cloacas sob as casas era substituído por um frio enregelante. O ar ficava cortante quando o sol desaparecia no horizonte pálido. Gatos esqueléticos procuravam comida e os “coletores-caçadores” faziam um arrastão nos canos de esgoto procurando pregos, moedas ou pedaços de corda no escuro, muitas vezes tendo que afugentar as ratazanas. O frio enregelava os membros dos cadáveres frequentemente largados nas sarjetas e becos estreitos, por falta de túmulos: moças que morriam durante o parto, homens que congelavam enquanto dormiam, bebês esqueléticos com doenças misteriosas. O frio também entrava pelas fendas das janelas em quartinhos minúsculos, onde famílias inteiras se amontoavam para se aquecer. E no enorme Palácio de Buckingham, com pouco aquecimento, o mesmo frio obrigava o príncipe Albert a usar ceroulas para dormir e chinó ao desjejum. Em Londres, a fuligem caía em flocos como se fosse neve, encardindo com uma pátina preta chapéus, telhados e o rosto de quem olhasse para cima. O príncipe alemão sentia falta do ar puro e fresco de sua terra natal.
Em 27 de janeiro de 1846, à tarde, quando a carruagem real se deteve diante do Palácio de Westminster, o sol era uma mancha rosa-pálido por trás de uma floresta de chaminés. Uma grande multidão facilmente excitável se reunira para ver os parlamentares passarem com suas cartolas e fraques sob medida. As pessoas gritavam os nomes dos que reconheciam. Um homem vendia tortas de vitela e enguia; outro assava castanhas na esquina. Uma mulher anunciando linguiça de porco se encarapitou no lixo empilhado na sarjeta. Um garoto de uns doze anos, vestido de vermelho, corria atrás das carruagens para recolher o estrume dos cavalos, colocando-o num balde ao lado da rua, que depois seria vendido a hortas e sítios nos arredores de Londres. Um bando de crianças sujas e maltrapilhas perseguia pela rua um cachorro sarnento.
O príncipe Albert ia naquele dia ao Parlamento para dar apoio a seu amigo, o primeiro-ministro, Sir Robert Peel, durante o debate político que definiria a carreira de Peel. Filho de industrial, ele viera a acreditar que as tarifas impostas a uma série de produtos estrangeiros obstruíam o livre-comércio e o crescimento econômico e elevavam injustamente os preços para os cidadãos britânicos comuns. Os proprietários rurais, que tinham grande apoio de inúmeros tories, alegavam que a eliminação das tarifas — ou das “Leis do Trigo” — iria arruiná-los. Ao defender a suspensão completa dessas tarifas pelos próximos três anos, Peel estava pisoteando nos desejos de seu partido. Era coragem política, mas também suicídio da carreira. Vitória e Albert admiravam sua posição e tinham decidido apoiá-lo depois que Peel enviara a Albert uma série de memorandos sobre as Leis do Trigo. Vitória, muito trabalhadora, sentia o mesmo desdém de Peel pelos lordes ociosos e privilegiados, e em 1846 anotou no diário:
[Peel] acrescentou que era irritante ver “cavalheiros que não faziam nada além de caçar o dia todo
e tomar clarete e vinho do Porto à noite e nunca estudavam nem liam nada sobre essas questões,
passarem a pontificar e interferir com os ministros”. Isso é mais do que irritante e quando se pensa
como Peel sacrifica saúde, conforto, tempo e mesmo ligações partidárias, exclusivamente pelo bem
do país, para então ser recompensado apenas com insultos e vergonhosa ingratidão, realmente faz
ferver o sangue.2
Eram quase quatro e meia da tarde. A polícia havia montado um cordão de isolamento desde a uma hora, contendo a densa multidão, que aclamava qualquer parlamentar que fosse contrário às Leis do Trigo. Dentro de Westminster, Peel entrou na Câmara dos Comuns, fez uma graciosa vênia ao presidente da casa e avançou até o centro da primeira fila à direita, onde ficavam os ministros e líderes dos partidos. Tinha um porte confiante e altaneiro: era um homem alto, bem-apessoado, com cabelo claro e traços
finos, um nariz longo e afilado, testa alta e olhos escuros e graves.3 Houve quem descrevesse sua atitude como a de um banqueiro ou de um “comerciantezinho janota”. Os presentes o fitavam friamente, quatrocentos aristocratas ao todo, com as botas enlameadas pela caçada do dia.
Caiu o silêncio quando o príncipe Albert entrou na Galeria dos Visitantes. Lord George Bentinck, um tory apaixonado por corridas de cavalo, revirou os olhos: esse príncipe alemão achava mesmo que podia introduzir no debate o favorecimento real? Primeiro era a rainha com Melbourne; agora, Albert com Peel? Essa interferência da monarquia parecia extremamente irregular e errada. Mesmo “homens moderados”, disse Disraeli mais tarde, ficaram incomodados com sua presença.
Às 4h48, Peel se levantou, ajeitou os punhos (maneirismo que deixava Vitória especialmente irritada), relanceou o olhar por toda a Câmara e começou a falar. Prosseguiu por três horas a fio. Então Albert voltou às pressas para o palácio, enquanto Vitória se encaminhava para o jantar, e
informou que o discurso tinha sido “muito abrangente e excelente”.4 O debate se prolongou por várias noites até horas avançadas. No final de fevereiro, Lord George Bentinck, primo do escrevente do Conselho Privado Charles Greville, autor de diários, se pôs de pé e despejou escárnios sobre o príncipe, num discurso eletrizante. (Sua cólera lhe valeu a liderança do partido conservador, protecionista, na Câmara dos Comuns. Esse partido se formou com a cisão do partido tory por causa das Leis do Trigo — os peelistas defensores do livre-comércio permaneceram com o primeiro-ministro, enquanto os demais se reagruparam como conservadores.) Lord George Bentinck era uma figura marcante, com uma barba tingida de vermelho, usando fraque longo, colete de veludo e uma enorme turquesa que se salientava na corrente de ouro ao pescoço. Peel, disse ele, abandonara a honra dos aristocratas. E a Albert cabia a culpa de “ouvir maus conselhos” e se deixar ser “seduzido” por Peel a “vir a esta casa para anunciar, conferir brilho e, por assim dizer, por reflexo da rainha, dar a aparência de uma sanção pessoal de Sua Majestade a uma medida que, bem ou mal, uma grande maioria pelo menos da aristocracia fundiária da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda imagina vir carregada de grande dano, se
não de ruína, para eles”. 5
A presença no debate foi a única ação explicitamente partidária do príncipe, e foi um erro. Os tories nutriam suspeitas sobre o trono desde a coroação de Vitória, e Albert, que queria ser influente, mas neutro, comprometera-se a não dar mostras de parcialidade. Na biografia de Albert, encomendada por Vitória a Theodore Martin, a rainha defendeu o marido: “O príncipe, tal como o príncipe de Gales e os outros filhos da rainha fazem, simplesmente apenas foi uma vez ouvir um refinado debate, o que é muito útil para todos os príncipes. Mas isso, naturalmente, ele se sentiu
incapaz de fazer outra vez”. 6
Na época da votação no Parlamento, em março, a família real estava de férias na Ilha de Wight, de ar puro e sem poluição. Vitória estava saindo da praia quando um criado esbaforido apareceu correndo, com uma caixa de Peel: a Câmara dos Comuns revogara as Leis do Trigo com larga maioria. Vitória ficou olhando a carta, aliviada. Albert considerava Peel como espírito afim e, mais tarde, como um segundo pai. Ele escreveu a Stockmar dizendo que o líder tory “mostra imensa coragem e está com ótima disposição; todas as suas faculdades estão despertas [er fühlt sich] pela consciência de que, neste momento, ele está desempenhando um dos papéis
mais importantes na história de seu país”.7 (Cabe notar que a revogação não foi uma conquista individual. A Liga contra a Lei do Trigo, que provinha basicamente da classe média, era um grupo político muito unido e refinado, com boa sustentação financeira. Seus líderes eram oradores hábeis e eficientes em colocar os aristocratas na defensiva, denunciando-os como latifundiários ricos, políticos inertes e líderes moralmente falidos. Arregimentaram a opinião da classe média e os aristocratas foram criticados de uma maneira que nunca ocorrera antes; foi uma guinada política significativa.)
Robert Peel, que herdara uma situação um tanto caótica, formava agudo contraste com Lord Melbourne, o último dos primeiros-ministros jorgianos, com sua filosofia do laissez-faire e sua notável impermeabilidade à energia dinâmica e construtiva da época. Melbourne não se deixara abalar pelos problemas que assolavam o país nos primeiros anos do reinado de Vitória: a depressão econômica, o alto desemprego, a criminalidade desenfreada, a miséria. Depois da inércia de Lord Melbourne, Peel comandou o que se chamava de “verdadeiro governo operante”. Em dois anos, converteu o déficit em superávit, apesar de cortar mais da metade das tarifas em seu primeiro orçamento, em 1842. Depois de 1845, o trigo era o único produto primário ainda maciçamente protegido. Ele implantou um imposto de renda de sete pênis por libra para os que ganhavam mais de 150 libras anuais — o equivalente a uma alíquota de 3%. (Quando Peel anunciou que a rainha concordara em pagar imposto sobre suas rendas, foi uma “enorme
sensação” na Câmara.)8 Ele reformou o sistema bancário, regulamentou as empresas, enfrentou questões complexas que proliferavam na esteira da industrialização e da rápida urbanização. Sabia da urgência em aplacar a insatisfação social que fermentava. O analista político e econômico Walter Bagehot disse que Peel tinha “medo de pegar uma revolução tal como as
velhas têm medo de pegar um resfriado”.9
A Inglaterra nos meados dos anos 1840 estava tomada por debates sobre dois produtos agrícolas: a batata e o trigo. O desastre da colheita da batata irlandesa em 1845, depois de um verão muito úmido e uma praga proveniente dos Estados Unidos, finalmente imprimiu um caráter de urgência no debate sobre a Lei do Trigo. Os preços elevados, resultantes dos impostos, tornavam o cereal proibitivo para os irlandeses pobres, e a maior parte era exportada para a Inglaterra, assim acabando com a alternativa de uma fonte alimentar fundamental para o país devastado. Peel sustentava que
“a eliminação dos obstáculos à importação é o único remédio eficaz”.10 Vitória tinha uma preocupação crescente com as notícias sobre a “extrema desgraça” dos irlandeses, aos quais faltava dignidade até mesmo na hora da
morte, sendo os cadáveres lançados à terra sem ritos nem caixões.11 Ela decidiu restringir o consumo de pão no palácio a uma libra diária por pessoa.
A reação do governo britânico à tragédia na Irlanda foi de uma impropriedade estarrecedora. Na primeira fase da fome, em 1845 e 1846, os britânicos se mobilizaram montando uma entidade assistencial, investindo em obras públicas e criando refeitórios públicos gratuitos. Deram 7 milhões de libras aos irlandeses, o que era apenas um décimo dos fundos que,
poucos anos depois, seriam destinados à Guerra da Crimeia.12 Mas em 1847, com o agravamento da fome, tais medidas apenas pioraram a situação: com o Decreto de Extensão da Lei dos Pobres aos Irlandeses, os pobres deixaram de receber roupas e alimentos gratuitos e passaram a trabalhar em asilos superlotados, sob condições pavorosas. Quem ocupava mais do que um quarto de acre de terra [cerca de mil metros quadrados de área] não tinha direito a assistência e muitos foram obrigados a renunciar aos terrenos arrendados. Não houve nenhuma tentativa séria de acabar com a dependência em relação à batata, de melhorar a agricultura ou de mudar o sistema de arrendamento. O espantoso foi que as exportações de alimentos da Irlanda para a Inglaterra prosseguiram durante esses anos da grande fome. Infelizmente, a revogação das tarifas sobre os cereais pouco ajudaria os irlandeses.
Os ingleses eram firmes e convictos defensores da importância do laissez-faire. O governo era avesso a intervenções, supostamente porque os desfavorecidos deviam ser capazes de se livrar da miséria e da desgraça por conta própria. O temor era que se corromperiam caso recebessem auxílio. Além disso, havia na Inglaterra um preconceito entranhado contra os irlandeses. Como escreveu o irônico clérigo anglicano Sidney Smith: “No momento em que simplesmente se menciona o nome da Irlanda, os ingleses parecem se despedir da solidariedade, da prudência e do bom senso e agir
com a barbárie dos tiranos e a fatuidade dos idiotas”.13 A jovem rainha não era imune a tais sentimentos. Ela oscilava entre a raiva contra os proprietários rurais que tomavam para si as rações de trigo e o asco pelos
irlandeses que matavam esses senhores de terras.14 Quando soube do assassinato de um homem voltando para casa em sua carruagem, ela escreveu: “Realmente eles são um povo terrível e não existe em parte nenhuma um país civilizado que esteja em condição tão pavorosa e onde se cometam tais crimes! É uma fonte constante de ansiedade e
contrariedade”.15 Só foi visitar a Irlanda em 1849, quando já estava no
trono fazia doze anos.16
Nos anos 1840, a atenção política se voltava, de modo geral, para as condições de vida e trabalho das classes trabalhadoras. Em maio de 1842, o primeiro relatório parlamentar sobre o trabalho infantil apresentava ilustrações chocantes de crianças de seis anos de idade acorrentadas a carrinhos carregados de carvão. Segundo o relatório, as crianças menores eram empregadas para ventilar as minas, manter as portinholas fechadas e, quando um carrinho de carvão precisasse passar, deviam abri-las e voltá-las a fechar corretamente. Essas crianças, chamadas de trappers, tinham entre quatro e dez anos de idade. The Examiner noticiou que o que elas mais detestavam era a escuridão nas passarelas fundas das minas: costumavam pedir aos mineiros tocos de velas. As mulheres e as crianças de mais idade eram usadas para empurrar os carrinhos de carvão pelas passagens estreitas demais para os homens adultos. Rastejavam pelo chão como animais, entre
poças e pilhas de pedras.17 As meninas às vezes trabalhavam de peito nu, como os meninos; os homens muitas vezes trabalhavam nus no calor intenso, e os estupros e ataques sexuais eram comuns nas minas e poços de minas. Uma das preocupações era que as mulheres que trabalhavam nas
minas não poderiam mais se casar.18
Esses relatos atiçavam a imaginação do público e incentivavam as demandas de mudanças, que só ocorriam gradualmente, enfrentando grande
resistência.19 O Decreto das Minas de Carvão de 1842 proibiu a utilização de mulheres de qualquer idade e de meninos com menos de dez anos em trabalhos subterrâneos e determinou a presença de inspetores para garantir a aplicação da lei. O Decreto Fabril de 1844 limitou a jornada de trabalho nas indústrias têxteis a seis horas e meia para crianças entre oito e treze anos e a doze horas para as mulheres. Em 1847, foi aprovado um projeto de lei estipulando uma jornada de dez horas diárias. Até o final da década, foram drásticas as mudanças. Em 1851, apenas 2% das crianças entre cinco e nove anos e apenas 25% das crianças de dez a catorze anos compunham a força
de trabalho.20 Ao longo do reinado de Vitória, houve uma melhoria considerável nas condições de vida da maioria de seus súditos; mais gente votava, mais gente tinha proteções básicas no trabalho. Iniciara-se a verdadeira modernização do país.
Enquanto isso, naquela primavera de 1842, o Palácio de Buckingham se dedicava aos preparativos para um baile. Em 12 de maio, as personalidades mais elegantes, mais ricas e condecoradas do reino se reuniriam vestindo trajes de seda inglesa, como manifestação de apoio aos tecelões de seda empobrecidos dos Spitalfields. Tinha sido ideia de Albert, e Vitória vibrou com ela. Costureiras de Spitalfields passaram semanas mourejando para fazer os trajes; Vitória desenhou o seu no diário, em aquarela.
O baile foi um sucesso retumbante. Esgotaram-se os diamantes dos joalheiros londrinos. A rainha estava com um vestido deslumbrante debruado de peles brancas, por cima um manto prateado bordado com flores de fio de ouro, mangas de veludo bufantes e abertas, uma semicauda de veludo orlada de peles e braceletes cravejados de pedras preciosas. Na cabeça trazia uma coroa de ouro incrustada de joias. Albert usava um manto de veludo escarlate debruado de arminho e ornado com 1200 pérolas e rendas de ouro. O manto era fechado por um broche faiscante de diamantes, esmeraldas, rubis, topázios e outras pedras preciosas. Sob o manto, ele vestia um traje de brocado azul e dourado, com listras de veludo azul-real enfeitado de diamantes. A coroa de Vitória ficava escorregando sem parar e os saltos altos atrapalhavam na hora de dançar, mas ela declarou que a noite não podia ter sido melhor. Nunca a Inglaterra mostrara sua “supremacia em beleza feminina” de maneira tão cabal quanto naquela noite, dizia The Illustrated London News. A rainha dançou até as 2h45 da madrugada.
O contraste não podia ser maior: os aristocratas cobertos de joias cintilando sob os candelabros e as crianças trabalhando o dia inteiro na escuridão, implorando tocos de vela. Naquela época, a opulência da corte real era tida como objeto de orgulho, símbolo do poderio e da riqueza da Inglaterra. A reação a esse baile, porém, revelou o aumento da indignação contra os ricaços. Um jornal operário satírico, Odd Fellow, escreveu: “Vários benévolos homens e mulheres da nobreza resolveram se fantasiar de tecelões famintos, para dar à sua Majestade uma leve ideia da ampla miséria agora existente. Quando esse grupo entrar, sua Majestade se sentirá profundamente comovida e os jornais comentarão na manhã seguinte que
ela verteu lágrimas”.21
O escárnio era evidente. O Northern Star comparou Vitória a Nero, tocando lira enquanto as chamas consumiam a cidade. Utilizando o dinheiro extorquido aos pobres com o monopólio do mercado, os aristocratas alugavam diamantes e se regalavam em festins numa “exibição infantil da
ruína de milhares”.22 A intenção de Vitória com o baile de Spitalfields era boa e logo os tecelões ficaram lotados de trabalho, mas foi algo efêmero. O declínio do setor era inevitável.
Numa época em que a maioria dos trabalhadores vivia na miséria, Vitória se sentia mais afetada pela compaixão diante dos indivíduos que conhecia do que pelos movimentos de reforma. Preocupava-se se as viúvas tinham dinheiro suficiente para viver e se os anões que se exibiam em espetáculos para ela estavam sendo bem tratados. Preocupava-se com o bem-estar de órfãos, de veteranos militares feridos, de vítimas de ataques sexuais. Quando viu como os delinquentes infantis “isolados”, presos na Ilha de Wight, passavam meses confinados em solitárias, sentiu-se afligida pela triste existência deles. Sempre sensível a questões estéticas, também ficou espantada com a aparência pouco atraente deles, “realmente medonhos” de ver.
Pediu que “o menino mais merecedor” de cada ala fosse indultado. 23 Mas, quando Lord Shaftesbury, político aristocrata com vinte anos de campanha pelos direitos dos trabalhadores pobres, apresentou uma emenda a um projeto para reduzir a jornada a dez horas de trabalho por dia, Vitória se opôs, concordando com Peel que isso prejudicaria a produtividade
econômica.24 Enquanto Albert se debruçava sobre projetos para tirar as pessoas da miséria e melhorar as condições habitacionais dos trabalhadores, Vitória precisava de uma motivação mais visual, imediata e individual.
Apesar de sua evidente boa vontade, Albert ainda tinha dificuldades em ser aceito na Inglaterra. Vitória ficava furiosa com a persistente hostilidade da família em relação a seu marido. Os tios viviam disputando a precedência, insistindo que deviam vir antes do príncipe alemão, o que levava a situações grotescas em que Vitória e Albert tinham que retirá-los fisicamente do caminho em cerimônias formais. Num casamento em julho de 1843, Albert, que acabava de se recuperar de uma gripe, deu um empurrão no rei de Hanôver (o duque de Cumberland) para obrigá-lo a descer dos degraus do altar e Vitória saltou de um lado para o outro do altar, para poder passar a pena a Albert depois de assinar o livro de registros do
casamento.25
Vitória temia que Albert ficasse com o orgulho ferido. Ficou irada quando, na Alemanha, o rei da Prússia destratou Albert ao colocar um arquiduque austríaco no assento ao lado de Vitória, assim demonstrando sua precedência. (Levou anos até ela aceitar novamente qualquer hospitalidade dos austríacos.) Em junho de 1842, a rainha falou com Peel sobre “a posição canhestra e penosa do querido Albert, e a grande estranheza de que não se tenha estabelecido nenhum dispositivo para a posição do consorte da rainha, o que eu gostaria que ficasse definido para a posteridade”. Sua preocupação, escreveu ela, era “que a posição de príncipe consorte deve ser penosa e humilhante para qualquer homem”, a tal ponto “que às vezes eu quase tinha a impressão de que teria sido mais justo para ele não o desposar.
Mas ele era muito bom e generoso e me amara por mim mesma”.26 Tentou, mas não conseguiu, que ele fosse reconhecido como rei consorte. Finalmente, em 1857, Vitória utilizou sua prerrogativa para torná-lo príncipe consorte com uma carta patente real.
O isolamento de Albert se acentuou com a morte de seu pai, em janeiro de 1844. Passara quatro anos sem o ver. Enquanto pranteava o pai em caráter privado, queixou-se a Stockmar que havia “uma grande frieza do público
em nosso redor, insensível como pedra”. 27 O duque Ernst não fora um pai irrepreensível: traíra a mãe de Albert, infernizara-o pedindo dinheiro, tentara seduzir as damas da corte real e se zangara quando não deram seu nome ao primeiro filho menino de Albert. Mas Albert o amava e ficou desolado. Vitória também se entristeceu e escreveu no diário: “Não reveremos sua figura”. Albert estava “arrasado e desolado, embora feliz e
reconfortado no amor íntimo que temos um pelo outro”.28 A cada vez que
fitava o marido, seus olhos se enchiam de lágrimas. 29
Para Albert, a morte do pai foi um sinal de que agora devia se dedicar à segunda parte de sua vida, à esposa e à família que aumentava. Mais do que nunca, seu lar era a Inglaterra. Não tinha mais um lar paterno ao qual pudesse voltar, e escreveu ao irmão Ernest: “Nossos filhinhos não sabem por que choramos e perguntam por que estamos de preto; Vitória chora comigo, por mim e por todos vocês. Cuidemos, amemos e protejamos
[nossas esposas], pois nelas reencontraremos a felicidade”.30 A dor aproximou ainda mais Albert e Vitória: “[Vitória] é o tesouro em que se funda toda a minha existência”, escreveu ele. “A relação que mantemos entre nós não deixa nada a desejar. É uma união de coração e alma e, portanto, é nobre, e nela as pobres crianças encontrarão seu berço, para serem capazes um dia de garantir tal felicidade para si mesmas.”
Sempre pragmático, Albert declarou a si próprio, passada apenas uma semana, que se recuperara do falecimento do pai. Estava pronto para se
“fortalecer com a atividade constante” e para se dedicar à família.31 O príncipe foi à Alemanha para consolar o irmão e pôr ordem nos assuntos paternos. Era a primeira vez que deixava Vitória desde o casamento, e as cartas que escreveu à sua “querida mulherzinha” transbordavam de amor e de doces palavras tranquilizadoras.
Quando Albert voltou, após duas semanas de ausência, Vitória, ao ouvir o som de sua carruagem, desceu as escadas correndo. Estava tão entusiasmada que passou grande parte daquela noite acordada a seu lado,
observando-lhe o sono, “vibrando de alegria e gratidão”.32
Havia muito a agradecer. Passara os anos 1840 numa vida maravilhosa com o marido: os filhos cresciam belos e viçosos, tinham encontrado descanso na Escócia e na Ilha de Wight e ela se sentia encantada com o aconchego e o calor da vida doméstica. Escrevia feliz em seu diário sobre os filhos brincando no chão enquanto Albert e ela ficavam sentados juntos, lendo à luz de um lampião. Saíam para longas caminhadas, jogavam pino e tomavam chá de prímulas silvestres. Em final de 1843, ela manifestou seu pesar em trocar o Palácio de Buckingham por outra residência, mas sabia que não tinha do que reclamar: “Lá fui tão feliz — mas onde não sou feliz
agora?”.33
Vitória deu à luz o terceiro filho em abril de 1843. A menina se chamava princesa Alice Maud Mary, mas ganhou o apelido de Fatima, pois era muito bochechudinha. Vitória estava aliviada por ter sobrevivido a mais um parto. Dois dias depois, veio o tédio: “É muito sem graça ficar deitada imóvel,
sem fazer nada, principalmente nos momentos em que se está só”.34 Era conduzida na cama até a sala de estar e depois numa poltrona para a sala de
jantar.35 Examinava as joias que lhe tinham sido presenteadas por príncipes indianos e esperava Albert voltar a seu lado.
No entanto, Albert estava ocupado aumentando sua lista de responsabilidades e recebendo visitas oficiais em nome da rainha. Já com a gravidez de Alice muito adiantada, Vitória aceitara ver o duque de Wellington, mas Albert recebia vários outros ministros por ela, quando estava cansada. Reuniu-se com Peel para decidirem quais dos títulos usados pelo duque de Sussex, o tio “bastante peculiar” de Vitória, o qual morrera poucos dias antes que ela desse à luz o terceiro filho, deveriam agora passar para Albert: o cargo de Cavaleiro Grão-Mestre da Ordem do Banho e de Comandante da Torre Redonda.
Logo Vitória engravidou pela quarta vez. Em 6 de agosto de 1844, deu à luz um menino que recebeu o nome de Alfred Ernest Albert. Era muito bonito, com um tufo de cabelo comprido escuro, olhos azuis e nariz grande. O parto foi trabalhoso e o sofrimento de Vitória foi “severo”, mas a alegria de seu “menino enorme e sadio” apagou a lembrança das dores. Mais uma vez, Albert acompanhou todo o nascimento. Ampliando-se a família, Albert começou a planejar o futuro.
No batizado do menino, que apelidariam de “Affie”, Albert já tramava o casamento de Vicky, com quatro anos, e o filho do rei da Prússia, com doze. O plano de Albert era que Bertie fosse o futuro rei, Affie o duque de Coburgo — se seu irmão não tivesse herdeiros — e Vicky um engate fundamental na Europa, como esposa do rei prussiano. Claro que Vitória e Albert não poderiam prever as mudanças cataclísmicas na Europa no século seguinte, mas algumas das alianças que estabeleceram para os filhos iriam se demonstrar extremamente difíceis para a Inglaterra e penosas para eles.
Enquanto Vitória gerava quatro bebês nos cinco primeiros anos de casamento, Albert assumia responsabilidades sempre maiores. Peel o nomeou presidente da Comissão de Artes para a reconstrução do Parlamento, a qual supervisionava as obras de arte a serem instaladas no novo edifício do Congresso após o incêndio do Palácio de Westminster em 1834. Foi oferecida a ele também a reitoria da Universidade de Cambridge, onde ele deu contribuições marcantes e duradouras, com a ampliação e a modernização do currículo. As reformas da Casa Osborne, a residência familiar na Ilha de Wight, e do Palácio de Buckingham durante os anos 1840 também lhe tomavam muito tempo. Ele acrescentou uma área de cultivo, canis e um estabelecimento de laticínios ao Castelo de Windsor e desenhou projetos para a moradia dos trabalhadores. Stockmar atribuía o rápido e incansável progresso de Albert a “um talento prático graças ao qual ele percebe num átimo o que realmente importa em qualquer assunto e lhe lança suas garras, como um abutre em sua presa, e sai voando com ela para
seu ninho”. 36
A curiosidade de Albert parecia mesmo a de uma ave de rapina. Estudava seu novo país como se se preparasse sofregamente para um exame, avaliando projetos arquitetônicos, visitando galerias de arte, enfiando o pescoço dentro das máquinas das fábricas que visitava. Arquivava tudo o que podia, inclusive manuscritos preciosos conservados em Windsor, como a coleção Leonardo da Vinci. Estava na feliz posição de conseguir que implementassem muitas de suas ideias arrojadas; influiu com sucesso na votação proibindo os duelos e desenhou capacetes para o Exército, berços para os quartos infantis e fazendas-modelo para os filhos. Seus porcos
ganharam os principais prêmios em feiras agrícolas.37 Seu maior triunfo foi, talvez, calar “todas as zombarias impertinentes” sobre suas habilidades equestres, mostrando aos britânicos que sabia cavalgar “com coragem e
firmeza”. 38 Vitória estava desgostosa de que, para começo de conversa, o tivessem criticado.
A capacidade de trabalho, a frugalidade, o recato, a devoção religiosa e a vontade de Albert de canalizar as energias produtivas do século sintetizaram a Era Vitoriana, em muitos aspectos, melhor do que a própria Vitória. Também o tornaram forte candidato ao que hoje chamaríamos de esgotamento. Albert era dinâmico, mas de saúde delicada. Quando o casal andou de trem pela primeira vez, um curto trajeto de Slough a Londres em 1843, Albert passou mal com o movimento e teve vertigens com a velocidade de setenta quilômetros por hora. Vitória adorou: “Acho o movimento muito cômodo, muito mais do que uma carruagem, e não
consigo entender como alguém pode passar mal”.39 Albert era cercado de luxo e conforto, mas se negava descanso e deixou que o excesso de trabalho desgastasse sua saúde. Não tivesse sido assim, o século talvez ficasse conhecido como era albertiana.
Em 1845, Albert era rei de fato. Em dezembro, Lord Lansdowne e Lord John Russell visitaram Windsor e ficaram impressionados com seu firme controle da Coroa:
Antigamente a rainha recebia sozinha seus ministros; comunicavam-se apenas com ela, embora,
claro, o príncipe Albert estivesse a par de tudo; mas agora a rainha e o príncipe estavam juntos,
receberam juntos Lord L. e J. R., e ambos sempre diziam Nós… É evidente que, embora ela tenha
o título, é ele quem realmente desempenha as funções do soberano. Ele é rei para todos os fins e
propósitos.40
Vitória estava então em sua quinta gravidez. Dizia que o marido era um representante mais inteligente do que ela; às vezes ficava assombrada com sua capacidade. Os editores das cartas de Vitória, Arthur Benson e Lord Esher, atestaram o afinco com que Albert trabalhava e como era visível o auxílio que dava à esposa. Organizava e anotava os documentos da rainha e escrevia “inúmeros” memorandos. Mas Vitória continuava a ser rainha. Ainda que muitos rascunhos das respostas da rainha estivessem na letra de Albert, ela corrigia e reescrevia algumas partes e redigia pessoalmente boa parte de sua correspondência. Benson e Esher escrevem:
Uma quantidade considerável dos rascunhos é do próprio punho dela, com correções e acréscimos
interlineares do príncipe, e são num estilo tão semelhante ao dos rascunhos na letra do príncipe que
fica claro que a rainha não se limitava a aceitar sugestões, mas que tinha opinião própria muito
firme sobre assuntos importantes e essa opinião vinha devidamente expressa.41
Seria um erro supor, como fazem alguns, que as iniciativas e opiniões de Albert obliteraram as de Vitória. Quando se tratava de questões como a tolerância religiosa, por exemplo, Vitória tinha posições firmes desde cedo. Quando Robert Peel quis aprimorar o ensino terciário para os católicos e aumentar as verbas para a faculdade católica de Maynooth para a formação de sacerdotes, Vitória lhe deu apoio, a despeito da onda de protestos na Inglaterra. Ela tinha posições admiravelmente progressistas sobre a religião: “Enrubesço pela forma de religião que professamos, tão vazia de todos os sentimentos corretos e tão carente em caridade. Levaremos esses 700 mil
católicos, que têm educação sofrível, ao desespero e à violência?”. 42 Vitória louvou Peel por se levantar contra a “onda de intolerância e fanatismo
cego”. 43
O triunfo de Peel na Lei do Trigo lhe custou a carreira. Em 25 de junho, o primeiro-ministro perdeu uma votação importante na Câmara dos Comuns, em parte porque os protecionistas haviam se unido para votar contra ele. Ele renunciou e se retirou da vida pública, e os whigs voltaram ao poder. A rainha, que passara a gostar muito de Peel, disse-lhe que ela e o príncipe o
consideravam “um bom e verdadeiro amigo”. 44 Peel pediu um retrato de Vitória e Albert junto com o príncipe de Gales — que nascera logo depois que Peel se tornara o premiê — com as “roupas simples” em que tantas
vezes os vira.45 A maior qualidade de Peel era sua determinação unívoca de fazer o melhor pelo país, e seu maior defeito era a incapacidade de
convencer seu partido de que aquilo era o melhor. 46 Até hoje é lembrado como traidor do partido.
Vitória soube da queda política de Peel quando se restabelecia do difícil nascimento do quinto filho, uma menina forte e roliça, a princesa Helena Augusta Victoria, em maio de 1846. Embora se entristecesse, sua alegria doméstica a tornara mais ponderada. Foi um absoluto contraste com sua reação à perda de Melbourne, cinco anos antes. “Realmente, quando a pessoa é tão feliz e abençoada em sua vida do lar, como eu sou, a política (desde que meu país esteja em segurança) deve ocupar apenas um segundo
lugar.”47 Essas palavras são citadas com grande frequência para assinalar a suposta aversão da rainha à política. Mas, passados apenas quinze dias desde seu quinto parto, vendo o tratamento brutal que pérfidos adversários políticos davam a um verdadeiro líder que ela viera a admirar, Vitória estava apenas enunciando uma verdade que muitos políticos abrigam em seus pensamentos em épocas de crise: a família é o que mais importa. A ressalva que ela acrescentou também é importante: desde que o país estivesse em segurança.
Lord Melbourne se fora, e agora Robert Peel também. Mas o casal real não precisava mais de mentores. Na altura em que ambos completavam os trinta anos, em 1849, a rainha e o príncipe já trabalhavam como uma tremenda força conjunta. O primeiro-ministro, o importante whig Lord John Russell, foi incumbido não só de aplacar e ajudar os irlandeses, que morriam aos milhares, mas também de controlar seu arrogante ministro das Relações Exteriores, Lord Palmerston, que Vitória e Albert tinham vindo a detestar. A batalha que travaram contra ele iria moldar a fase seguinte da política externa britânica e demonstrar a força da rainha e do príncipe, quando concordavam e lutavam juntos.