Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 12 de 44

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Vitória, a rainha

9. Um escândalo no palácio

 

[Melbourne] tem uma menina jovem e inexperiente em suas mãos, cuja conduta integral e cujas opiniões devem necessariamente estar em total subserviência a

suas posições. Faço-lhe a justiça de crer que ele tem alguma percepção de sua

situação.

LORD ABERDEEN À PRINCESA LIEVEN1

 

Eles queriam me tratar como uma menina, mas vou lhes mostrar que sou a

rainha da Inglaterra.

RAINHA VITÓRIA2

 

O céu se abria acima de Lord Melbourne e da rainha Vitória, enquanto seguiam em carruagem aberta pela elegante pista hípica de Ascot em 30 de maio de 1839. Quando apareceram, ouviu-se uma vaia entre os murmúrios em voz baixa. Então, quando a rainha se dirigiu para a sacada real, um grito atravessou o ar: “Sra. Melbourne!”.

Entre risadas, a multidão se virou para olhar Vitória, que corava violentamente. Numa reação que lhe era pouco usual, Lord Melbourne parecia incomodado. A vaia vinha de duas tories, a duquesa de Montrose e Lady Sarah Ingestre. Vitória se enfureceu. “Aquelas duas mulheres abomináveis deviam ser açoitadas!”, disse, sem saber que Melbourne

provavelmente sentiria a maior felicidade em executar suas ordens.3 Ela sabia por que vaiavam. Era por causa de Lady Flora Hastings, amiga de sua mãe e de John Conroy, que emagrecera de maneira assustadora nos últimos meses. Quando Lady Flora entrou em Ascot, foi acolhida com vivas e repetidas aclamações. Vitória ferveu de raiva.

Lady Flora, de 32 anos, pertencente a uma poderosa família aristocrática tory, fora durante cinco anos uma das damas de companhia da duquesa de Kent. Vitória a considerava uma espiã “odiosa”, em larga medida porque

era próxima de Conroy, e disse a Lord Melbourne para ficar atento.4 Mas, numa noite durante o jantar, Vitória e Lehzen perceberam que Lady Flora estava com o ventre inchado. Lady Flora passara o Natal com a mãe na Escócia e voltara em janeiro de 1839 junto com John Conroy numa post chaise — carruagem fechada — sem acompanhantes. Logo que voltou, foi se consultar com o dr. James Clark, queixando-se de dores estranhas e problemas no estômago. Ele lhe receitou pílulas de ruibarbo e uma loção para esfregar na barriga. Pareceram ter certo efeito, mas, se o abdômen de Lady Flora não aumentou, tampouco diminuiu. Estava visivelmente arredondado.

A imaginação da corte real, principalmente entre as damas de companhia, começou a se agitar. Seria culpa de Conroy? Em 2 de fevereiro, Vitória

comentou sobre o “assunto esquisito” com Melbourne.5 Ele lhe recomendou que ficasse quieta, acrescentando que erros médicos eram bastante comuns e que não tinha em alto apreço os médicos ingleses. Mas, logo depois que Vitória saiu, Melbourne chamou dr. Clark, o qual disse que, embora não pudesse ter plena certeza sem fazer os devidos exames, havia razões para suspeitas.

Vitória concluiu que isso confirmava que Lady Flora e Conroy eram amantes. Melbourne lhe dissera crer que a proximidade entre Lady Flora e

Conroy provocava ciúmes na mãe de Vitória.6 As duas seriam rivais? Vitória, por fim, anotou em seu diário em 2 de fevereiro: “Não temos dúvidas de que ela está — para usar termos simples — esperando um filho! Clark não nega a suspeita; a causa pavorosa de tudo isso é o monstro e demônio encarnado cujo nome me abstenho de citar, mas que é a primeira palavra da segunda linha desta página”.

Essa palavra era “J. C.” — John Conroy, vinte anos mais velho do que Lady Flora. Vitória ficou enojada e prontamente, a partir de um caso individual, passou a julgar todas as mulheres. Aquilo bastava, escreveu ela, para fazer a pessoa “abominar seu próprio sexo; quando são más, como as mulheres são servis e baixas, de uma maneira infame e repulsiva! Não me

admiro que os homens considerem o sexo desprezível!”.7

A intriga aumentava a cada nova tolice do dr. Clark. Primeiro, passou uma quinzena espiando Lady Flora, olhando de soslaio seu estômago, tentando imaginar o formato de vários ângulos. Dr. Clark, que fora cirurgião naval durante as Guerras Napoleônicas e depois tido como “talvez o médico real

mais incompetente de todos os tempos”,8 parecia desconhecer qualquer

outra razão capaz de levar a uma distensão do estômago.9 Intrigava-o a capacidade de Lady Flora em continuar a trabalhar, andar e funcionar normalmente, coisas que, dizia a si mesmo, não seriam possíveis se ela estivesse doente. Quis examiná-la por baixo das roupas, mas ela não deixou (melindre esse que, mais tarde, outros médicos disseram que serviu apenas para piorar o problema).

Então ele perguntou se estava secretamente casada. Ela negou, indignada. A essa altura, o inchaço já diminuíra em “grau considerável”, como escreveu depois a seu tio. Mas isso não impediu que o “rude” dr. Clark lhe dissesse que fora persuadido pela “convicção das damas do palácio de que

eu estava casada em caráter reservado”.10 Lady Flora tentou lhe mostrar que o estômago diminuíra. Então ele insistiu que confessasse para salvar sua reputação, mas ela se negou.

 

Então ele me disse que, a não ser que eu me submetesse a um exame médico, nada jamais os

satisfaria e eliminaria o estigma de meu nome. Descobri que o assunto fora levado à atenção da

rainha e que tudo isso fora debatido, combinado e informado a mim sem que se dissesse qualquer

palavra à minha própria senhora [a duquesa de Kent], sem que se insinuasse qualquer suspeita ou

que se obtivesse sua aprovação para proporem tal coisa a mim… Minha amada senhora, que

nunca, nem por um instante, duvidou de mim, disse-lhes que me conhecia bem demais e a meus

princípios e à minha família para ouvir tal acusação. Apesar disso, a ordem foi dada.

No dia seguinte, Lady Flora consentiu se submeter a um “exame extremamente rigoroso” e humilhante realizado por outro médico, Sir Charles Clark, além de dr. James Clark, a quem ela chamava de “meu

acusador”.11 Lady Portman também estava presente. Segundo Lady Flora, foi um “exame médico completo”, rude, longo e doloroso. Deram-lhe o que, em suma, era um atestado de virgindade, declarando que não havia “nenhuma razão para crer que se trate ou tenha alguma vez se tratado de

gravidez”.12

O fato de se ter considerado necessário demonstrar cruamente que Lady Flora ainda era virgem, na corte de uma rainha virgem, constituía uma tremenda ofensa à sua honra e dignidade. Ao saber do acontecido, o marquês de Hastings, irmão de Lady Flora, correu a Londres para verificar quem fora o responsável, insistir numa reparação e defender a honra da família. Esteve com Lord Melbourne e disse frontalmente a Vitória que ela fora mal-aconselhada e precisava descobrir quem dera origem à difamação, para ser punido.

Esse exame forçado fora um erro tremendo. Vitória enviou uma mensagem contrita e visitou Lady Flora, acamada e “extremamente agitada”. Era o primeiro encontro entre as duas desde o início da intriga. A rainha prometeu que deixariam tudo para trás, em consideração à sua mãe. Flora aceitou as desculpas, mas disse à rainha: “Devo observar respeitosamente, minha senhora, que sou a primeira e confio que serei a

última dos Hastings a ser assim tratada por seu Soberano. 13 Fui tratada como culpada sem julgamento”. Vitória garantiu que tudo terminaria por ali.

Vários fatores contribuíram para que esse insulto se convertesse num enorme escândalo que ocupou Londres durante meses: a recusa de Melbourne em acabar com os boatos ou punir dr. Clark (sem dúvida alimentada pelas suspeitas que continuava a manter, fomentadas por dr. Clark, de que Lady Flora ainda podia estar grávida); o fascínio da imprensa com o caso; a animosidade em curso entre Vitória e a mãe, que distorcia qualquer tentativa de comunicação; a vontade dos tories de desacreditar o governo Melbourne; a cólera ofendida dos Hastings, decididos a restaurar a

honra de Lady Flora e descobrir quem iniciara os boatos.14 A duquesa, extremamente leal a Lady Flora, demitiu dr. Clark. Vitória se recusou a

fazer o mesmo.15

Foi um caso extremamente embaraçoso, e Melbourne tinha culpa nisso. Continuou a ventilar irresponsavelmente a boataria, aproveitando-se para reforçar a aversão da rainha por qualquer coisa que tivesse a ver com a mãe. Greville ficou revoltado: “É inconcebível como Melbourne foi capaz de permitir esse escândalo nocivo e infame, que apenas rebaixa a corte aos olhos do mundo, e de uma participação da qual só é possível isentar a

rainha com o descrédito de sua juventude e inexperiência”.16

Greville estava certo. Todo o episódio pôs em relevo a imaturidade de Vitória. A certa altura, Melbourne sugeriu que Lady Flora deveria se casar para pôr fim aos boatos; a rainha escreveu malevolamente: “Isso me fez rir demais, pois eu disse que Lady F. não tinha riqueza, beleza nem coisa

alguma!”. 17 Melbourne também riu, segundo ela, pois considerava Lady

Flora a mulher mais feia que vira em toda a sua vida.18 Nos retratos, Flora nada tem de feia. Era uma mulher esguia, de ar inteligente, com olhos pensativos, uma boquinha redonda e cabelos castanho-escuros. Com sua parcialidade, os dois formavam um par maledicente e desagradável.

A mãe de Lady Flora resolveu apelar à rainha. Em 7 de março, por intermédio da duquesa de Kent, a marquesa-mãe de Hastings escreveu uma carta enfática a Vitória buscando ajuda. Pedia-lhe que refutasse “as calúnias” com um ato que mostrasse sua indignação e concluía: “Especialmente em se tratando de uma soberana, as mulheres de todos os níveis na Grã-Bretanha confiam encontrar proteção e (a despeito da

diferença de níveis) simpatia”.19 Mas Vitória não mostrou nenhuma simpatia; considerou a carta tola e, numa atitude de provocação, mandou-a

de volta à mãe sem dizer uma palavra.20 Esse erro de avaliação daria início a uma campanha pública cáustica e incessante dos Hastings para expor a corte real e lhe exigir que assumisse a responsabilidade final. A viúva, que estava doente e mortificada com o que sucedera à filha, escreveu então a Lord Melbourne, pedindo a remoção de dr. Clark. Melbourne considerou que a solicitação era “tão inédita e questionável” que nem responderia a ela,

dignando-se apenas a confirmar o recebimento da carta.21

A seguir, a família Hastings recorreu à imprensa. Em 24 de março, o tio de Lady Flora enviou ao Examiner uma versão do caso baseada numa carta que lhe fora enviada pela sobrinha; foi publicada na íntegra. Lady Flora culpava as damas de companhia whigs, bem como “certa dama estrangeira, cujo ódio à duquesa não é nenhum segredo”. Sua carta ao tio traz a data de 8 de março de 1839, e nela Lady Flora elogiou deliberadamente a duquesa de Kent:

 

Tenho plena certeza de que a rainha não entende ao que foi traiçoeiramente aliciada. Ela se

empenhou em mostrar seu pesar com sua cortesia para comigo e o expressou generosamente com

lágrimas nos olhos. A duquesa foi impecável. Uma mãe não teria sido mais bondosa, e tomou o

insulto como questão pessoal, sendo dirigido a uma pessoa ligada a seu serviço e devotada a ela.

Demitiu imediatamente Sir James Clark, negou-se a receber Lady Portman e não reapareceu nem

me obrigou a reaparecer à mesa da rainha por muitos dias.

 

Terminava dizendo: “Enrubesço por lhe enviar uma carta tão revoltante, mas quero que saiba a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade

— e esteja à vontade para divulgá-la”.22 A imprensa explodiu. O problema também era político: a rainha e o primeiro-ministro eram whigs e Lady Flora era tory. Avivava a paranoia dos tories, e muitos whigs julgaram que o escândalo estava sendo usado como trunfo político para caluniar uma rainha solteira e suas damas, bem como o primeiro-ministro. Enquanto isso, Lady Flora enfraquecia.

Vitória tinha um instinto muito fechado para estender sua mercê à família Hastings. Quando a velha marquesa-mãe entregou toda a sua correspondência com Lord Melbourne ao Morning Post, Vitória disse que

ela era uma “velha tonta e ruim”. 23 Parara de ler jornais e disse que os editores deviam ir para a forca, junto com os Hastings. Não entendia a gravidade de seu erro nem a situação comprometedora em que sua intimidade com Melbourne a colocara. Os tories, na esteira do caso Hastings, reuniam forças e Melbourne vinha perdendo sua influência no poder.

Vitória balançou a cabeça. À sua frente estava o parlamentar tory Robert Peel, que sempre lhe parecera frio e desagradável. Três dias antes, em 6 de maio, a carreira política de Lord Melbourne sofrera um golpe fatal; seu governo venceu uma votação pela estreita margem de cinco votos num projeto de lei que implantaria a legislação antiescravista no comércio do açúcar jamaicano. (Essa vantagem tão estreita foi suficiente para desgastar sua liderança.) A partir daí, ficou claro que a escolha óbvia para o cargo de primeiro-ministro seria Peel — e que ele não contava com o pleno apoio de sua rainha. Não, disse-lhe ela, não iria afastar nenhuma de suas damas de companhia whigs só porque agora ele era primeiro-ministro.

Vitória, arrasada com a perda de Melbourne, passou dias chorando descontroladamente. “É mais fácil imaginar do que descrever o estado de angústia, dor e desespero em que isso me colocou! Toda, toda a minha felicidade se foi! Aquela vida pacífica feliz destruída, aquele caríssimo e bondoso Lord Melbourne não mais meu ministro… Solucei e chorei muito;

só conseguia ficar de camisola.”24 Em 7 de maio, parou do lado de fora do Salão Azul, onde Melbourne aguardava para lhe dizer que teve que renunciar, tentando se recompor:

 

Levou alguns minutos até que eu conseguisse reunir coragem para entrar. Quando entrei, realmente

pensei que meu coração se despedaçaria; ele estava de pé junto à janela; tomei aquela querida e

bondosa mão dele e solucei alto: “Você não me abandonará”. Ele me deu um olhar de grande

bondade, piedade e afeição e mal conseguiu dizer entre lágrimas “Ah, não!”, numa voz

comovente.25

 

Naquela tarde, Melbourne sugeriu que ela chamasse Wellington e Peel, acrescentando que confiasse neles, mas fosse cautelosa. Terminava seu memorando com uma observação crucial: “Seria melhor Vossa Majestade expressar sua esperança de que ninguém da Casa Real de Vossa Majestade, exceto os que estão envolvidos em política, seja removido. Penso que pode pedir isso”. Vitória pegou o documento e recomeçou a chorar, soluçando e ofegando dolorosamente. Segurou-lhe a mão por muito tempo, “como se sentisse que assim ele não me deixaria”. Melbourne estava ciente da difícil posição de Vitória. Naquele dia, declinou três convites dela para jantar, dizendo que seria impróprio se encontrarem durante negociações tão delicadas com seu adversário político.

Vitória ficou arrasada. Suas palavras de desespero revelavam a chaga aberta de uma adolescente se separando do homem amado. Quando ele saiu, Vitória se sentou para lhe escrever, com os olhos toldados de lágrimas:

 

A rainha se arrisca a afirmar uma coisa, que ela pensa ser possível: se ela saísse a cavalo amanhã à

tarde, poderia ver de relance Lord Melbourne no parque; se ele soubesse por onde passava, ela o

encontraria, como encontrou Lord Anglesey e vários outros — e seria um grande consolo;

certamente não haveria nenhum mal nisso; pois posso encontrar qualquer um; Lord Melbourne

pode achar isso infantil, mas a rainha está realmente muito ansiosa que assim seja; e enfrentaria

todas as suas provações muito melhor se pelo menos pudesse ver de vez em quando um rosto

amigo.26

 

Naquela noite não conseguiu comer e chorou convulsivamente até as nove. Vitória perdera um pai aos oito meses de idade. Agora, aos dezenove, perdia a figura paterna central de sua vida, o homem que lhe dera apoio contra Conroy e a mãe e a fizera se sentir pela primeira vez amada e encantadora. O irmão e a irmã estavam na Europa e ela não tinha pares. Era uma perda terrível.

Ao acordar, Vitória chorou outra vez. Melbourne lhe recomendara que não mostrasse desdém pelos tories, em particular Peel, que era distante e retraído, mas um ótimo político; no entanto, os encontros não correram bem. Ela se queixava: “A rainha não gostou de suas maneiras tão diferentes, tão pavorosamente diferentes daquelas maneiras francas, abertas, naturais,

boníssimas e calorosas de Lord Melbourne”.27 Quando Peel lhe pediu inicialmente que afastasse algumas de suas damas de companhia alinhadas com os whigs, ela respondeu que mudaria apenas os parlamentares que integravam o palácio. Então fechou a porta e chorou. Lehzen foi consolá-la.

No segundo encontro com Peel, em 9 de maio, Vitória estava mais firme e intransigente. Convencera-se de que a reivindicação de Peel era um ultraje e decidira se manter leal a suas damas, tal como elas haviam sido durante o caso de Lady Flora Hastings. Vitória falou calmamente:

Eu disse que não renunciaria a nenhuma de minhas damas e que nunca imaginei tal coisa. Ele

perguntou se eu pretendia conservar todas.

— Todas — respondi.

Peel — A roupeira-mor e as damas camaristas?

Respondi:

— Todas.28

 

Vitória declarou que nunca falava de política com suas damas. Além

disso, elas tinham inúmeros parentes tories. 29 Rejeitou a sugestão de Peel de trocar apenas as damas mais graduadas — a roupeira-mor tinha precedência sobre as demais — alegando que nunca se fizera tal coisa antes. Seria correto lhe arrancarem suas acompanhantes do palácio só porque o governo mudara? Suas damas não eram políticas. (E repetiu que isso nunca acontecera com uma rainha; Peel insistiu que a situação era outra, visto que ela era rainha reinante. Ele tinha razão — desde 1714 não houvera nenhuma soberana mulher —, mas, desde então, nunca se pedira tal coisa a uma rainha.)

Depois que Peel se retirou, pálido e abatido, a rainha escreveu em tom triunfal a Lord Melbourne:

 

[Peel] se comportou muito mal e insistiu em que eu renunciasse a minhas damas, ao que respondi

que nunca consentiria, e nunca vi um homem tão atemorizado… Fui calma, mas muito decidida, e

penso que você gostaria de ter visto minha compostura e grande firmeza. A rainha da Inglaterra

não se submeterá a tal artifício. Mantenha-se de prontidão, pois logo poderá ser necessário.30

 

Peel então disse sem rodeios a Vitória que, se ela não concordasse em afastar algumas de suas damas, casadas com alguns de seus inimigos mais veementes, não poderia formar um governo. Vitória, contente com a perspectiva da volta de Lord Melbourne, disse a Peel que já resolvera e lhe escreveria dali a algumas horas ou na manhã seguinte, para lhe passar sua decisão final. Empolgada, escreveu às pressas a Melbourne contando que Peel admitira sua fraqueza e lhe pediu que viesse imediatamente.

Os ministros do gabinete de Melbourne passaram várias horas debatendo o que fariam. Foi por causa das cartas de Vitória que eles se dispuseram a voltar ao governo, para proteger a honra da rainha: “Não receie, pois estive

calma e controlada”, escreveu ela.31 “Eles queriam me privar de minhas damas, e imagino que a seguir me privariam de minhas camareiras e minhas criadas; quiseram me tratar como uma menina, mas vou lhes mostrar que sou rainha da Inglaterra.” Tirando a bravura, o comportamento dela não era adequado; a oposição não deveria estar aconselhando uma rainha sobre a melhor maneira de desafiar seu primeiro-ministro.

Em 10 de maio, Peel renunciou. Numa carta gélida, ele assegurou à Sua Majestade que ficara emocionado por até ter sido objeto de consideração

para o cargo de primeiro-ministro.32 O público se sentiu ultrajado. Vitória, porém, ficou em êxtase. Naquela noite, dançou até de madrugada num baile oficial que ofereceu ao tsarévitch Alexander, filho do tsar Nicolau I, a quem descreveu como “um prezado jovem encantador”. Depois de rodopiarem pelo salão, ela declarou: “Estou realmente apaixonada pelo grão-duque. Nunca me diverti tanto”. Ele lhe apertou a mão ao sair e lhe deu um beijo no rosto “de uma maneira muito calorosa e afetuosa”. Disse a Melbourne: “Uma jovem como eu às vezes precisa ter jovens para rirem juntos”. O duque de Wellington e Peel, ambos tories, porém, ficaram “muito

desconcertados”.33

Com Melbourne de volta ao leme, tudo voltara à ordem no mundo de Vitória. Mas descera uma sombra sobre a corte, e ela não conseguia desfazer a sensação de desânimo. Melbourne deveria tê-la ajudado a entender que Peel queria apenas o afastamento das damas casadas com parlamentares whigs. Logo ela pediu que Melbourne a ajudasse a encontrar

uma dama tory para ser discretamente incluída na Casa Real. * Até o final do reinado de Vitória, a única substituição que lhe pediram foi a da roupeira-mor, sua dama de posição mais elevada. Mas a parcialidade da rainha sempre se manteve explícita. Era uma whig, como seus pais, e queria que seus primeiros-ministros sempre fossem whigs. Quando as multidões diante do palácio vaiaram Melbourne, a rainha se encolerizou: “Os tories são

capazes de qualquer vilania”.34

Nos anos finais de vida, Vitória admitiu que errara durante a chamada Crise da Câmara Real: “Sim, fiquei muito exaltada com isso e minhas damas também, pois assim fora criada sob Lord Melbourne; mas eu era muito nova, apenas vinte anos, e nunca agiria assim outra vez. Sim! foi um

erro”.35 Era assombroso pensar que uma rainha efetivamente dispensara um primeiro-ministro.

 

Em abril, Lady Flora Hastings estava muito debilitada. A campanha da família Hastings dera certo; as simpatias do público estavam visivelmente com Lady Flora, a qual continuava aparecendo em público para que ninguém pensasse que estava grávida. A duquesa de Kent, aflita, tinha certeza de que Lady Flora estava para morrer, mas, mesmo em junho, Vitória ainda minimizava a gravidade da situação, dizendo que não passava

de um “acesso bilioso”.36

Sua atitude em relação a Lady Flora se endurecera com os ataques que vinha sofrendo e se indignava, disse ela, por ter “de suportar tanto por causa de uma mulher dessas”. Os conselhos de Lord Melbourne continuavam a ser imaturos e impiedosos. No começo de abril, quando Vitória concluiu que Flora fora “extremamente rude”, Melbourne recomendou apenas que se

mantivesse mais distante. 37 No dia seguinte, os dois trocaram os mexericos que tinham ouvido: Lady Flora já dera à luz. A mãe, Lady Hastings, levou a culpa por não ter visto a barriga e ter insistido que ela ficasse na Escócia. Vitória disse a Melbourne que, se era para Lady Flora ir embora, melhor seria que continuasse por lá mesmo. Ele a alertou que isso não colocaria a rainha sob uma luz favorável. Vitória não manifestou nenhum sinal de dúvida no diário, onde citava a impertinência, a insolência e a silhueta ainda rotunda de Lady Flora. Suas anotações revelam uma alarmante falta de remorsos em relação a ela, sem a menor percepção do suplício contínuo que a enferma vinha sofrendo. A duquesa de Kent tentou várias vezes convencer a filha a falar ou pelo menos escrever a Lady Flora, mas Vitória não mudou um milímetro sua posição. Citava a impudência da família Hastings e a afronta ao decidirem levar a questão a público. Lord Melbourne, como de costume, disse à rainha que a família Hastings estava errada, incentivando-a a lhes relembrar que não fossem rudes. Vitória não entendia o que havia feito nem o que continuava a fazer. Lady Flora achava que lhe faltava

empatia: “Não lhe ocorre sentir pelo outro”. 38

Mas, quando finalmente foi rever Lady Flora no final de junho, sozinha, Vitória ficou mortificada:

 

Encontrei a pobre Lady Flora estendida num sofá na maior magreza que é possível a um ser ainda

vivo; literalmente esquelética, mas o corpo muito inchado como alguém com filho; um olhar

esgazeado, como o de uma pessoa à morte; a voz como sempre, e bastante força nas mãos; foi

amigável, disse que estava muito confortável e muito grata por tudo o que fiz por ela; e que estava

contente em me ver bem. Eu lhe disse que esperava revê-la quando estivesse melhor — ao que ela

agarrou minha mão, como que dizendo “Não vou vê-la outra vez”.39

 

Vitória se retirou depressa. Começou a rezar para uma súbita recuperação de Lady Flora e logo isso se tornou o único objeto de seus pensamentos e

conversas. 40 Passou a ter pesadelos com a aristocrata de traços finos e olhos esgazeados.

 

Flora Hastings morreu na madrugada de 5 de julho de 1839. Lehzen informou Vitória logo ao acordar. Morrera serenamente, “e apenas ergueu

as mãos e arquejou uma só vez”.41 Lady Flora manifestou sua última vontade com a família em lágrimas ao redor dela: desejava que fizessem um exame pós-morte que por fim demonstrasse cabalmente sua inocência. Ainda corriam rumores na corte sobre um natimorto. Mesmo na manhã em que morreu, um manifestante escreveu num cartaz que Lady Flora morrera

de um aborto malfeito. 42 Mas o relatório da autópsia, que Vitória aguardou com ansiedade ao longo do dia, mostrou que Lady Flora tinha um fígado

tremendamente inchado que pressionava o estômago.43 O relatório também informava que “o útero e seus apêndices apresentavam as características

usuais de um estado virgem sadio”.44 Mesmo na morte, investigou-se sua castidade.

A fúria popular renasceu com as notícias; Vitória e Melbourne foram vaiados em público; muitos mantiveram o chapéu à passagem da carruagem da rainha em gesto de desrespeito; muitos mantiveram silêncio durante o brinde real, e não faltaram murmúrios sobre um assassinato. A mãe de Vitória lhe dizia que ela não conhecia “seu próprio país” e, nessa ocasião,

ela estava certa.45 A rainha não pensara em seus súditos. Pela primeira vez na vida, fechara-se numa camarilha, e poderosa; a onda de escândalos, vinganças e boatos maldosos tinha sido enorme. E especialmente por se tratar da sexualidade de outra mulher, que Vitória considerava inimiga devido à sua amizade com Conroy. (Era um exemplo do que hoje chamaríamos de slut-shaming.) E não só ela tinha queda por seu conselheiro como, além do mais, ele era seu primeiro-ministro. Foi uma combinação nefasta de fatores, e Vitória era jovem demais para entender as consequências. Esse episódio seria por muito tempo considerado constrangedor: hoje em dia, não se encontra nenhuma referência à doença ou à morte de Lady Flora no diário de Vitória (volume editado por sua filha, a princesa Beatrice), e as várias cartas de Vitória sobre Lady Flora Hastings foram, em sua maioria, destruídas por ordens de seu filho mais velho, rei

Eduardo VII.46 Ele e o editor ficaram chocados ao descobrir o

“conhecimento precoce” de Vitória.47

O caixão de Flora Hastings foi retirado do palácio no escuro da noite, numa carruagem, esperando dessa maneira que fossem evitadas manifestações de protesto. A lúgubre cavalgada seguiu devagar até o East End de Londres, até chegar ao cais de Brunswick, Blackwall, ao raiar do dia. O corpo foi colocado no vapor Royal William, para ser levado à Escócia, terra de seus ancestrais. Reuniu-se uma multidão para prestar seus respeitos ao ataúde da mulher injustiçada pela corte real. Um homem bradou: “Ah, aí está a vítima, mas onde está o assassino?”, enquanto outro brandia a bengala à carruagem da rainha, gritando: “De que servem os

ouropéis [de Vitória] depois que a matou?”.48 Alguns apedrejaram a carruagem real, apesar da forte presença policial ao longo do caminho entre o palácio e as docas.

Passeando pelos jardins do palácio no dia seguinte à morte de Lady Flora, Vitória sentiu uma vontade irreprimível de rolar várias vezes na grama verde, até entontecer e conseguir de alguma maneira esquecer sua

vergonha.49 As matérias na imprensa raramente citavam seu nome, mas não

raro lhe atribuíam culpa direta pela morte de Lady Flora.50 Alguns

repórteres acusaram sem rodeios a corte de assassinato.51 Vitória insistia com frequência que não sentia remorsos, mas ficava profundamente perturbada com seu papel: “Não consigo imaginar o que me possuiu”. Jurou que nunca mais faria juízos precipitados sobre a aparência das pessoas. Sabia que o brilho de sua coroa se empanara.

Vitória estava errada em sua opinião de Lady Flora, que julgava fingida e dissimulada. Lady Flora era uma mulher de grande orgulho, fé e sensibilidade. Passou seu longo período de tormentos tentando perdoar os que a feriram. Não se afundaria no ódio, disse ela: “Quanto a mim, sinto que essa provação foi enviada por amor, levou-me mais perto de Deus, removeu alguns sentimentos mundanos e promoveu uma profunda análise

interior”.52 Em 20 de junho, quando recebeu a extrema-unção no leito, o bispo de Londres lhe perguntou se perdoara seus inimigos. Ela respondeu que sim, e que não guardara nenhum ressentimento em relação a eles. A duquesa de Kent, que estava ajoelhada a seu lado, chorou. Ao sair do quarto, tomou a mão de Sophia, irmã de Lady Flora, e perguntou: “Perdoa

minha pobre filha?”. 53

Alguns disseram que Lady Flora morreu de tristeza. Em 20 de julho de 1839, o corpo foi sepultado sob a abóbada de uma antiga igreja em Ayrshire, cercada pelas montanhas escarpadas do sul da Escócia. “Toda a

cerimônia”, escreveu um repórter de The Times, “foi muito imponente.” 54 Milhares e milhares de pessoas compareceram ao funeral; tornara-se mártir, principalmente para os tories. “Sua memória está embalsamada pela solidariedade e afeição de um nobre povo”, escreveu The Corsair, acrescentando que, se a corte inglesa não mudasse, “não haverá segurança

para a vida, a felicidade ou a reputação da rainha da Inglaterra”.55

 

Foi um verão melancólico para Vitória. Andava mal-humorada, irritadiça, solitária e se sentia gorda. Depois de ter suas decisões questionadas tão publicamente, tornara-se suscetível a questionamentos de sua autoridade. Se desconfiasse que algum ministro não a consultara sobre algum assunto, escrevia discursos coléricos e enfaticamente sublinhados, exigindo explicações. Harriet Martineau escreveu que a infelicidade de Vitória era patente a todos. A autora acusava Melbourne:

Em sua ascensão ao trono, fiquei agradavelmente surpresa com sua aparência. A parte de cima do

rosto era realmente bonita e havia um ar sereno e sincero que parecia repleto de promessas. No

final do ano, a mudança foi melancólica. A expressão de seu rosto estava totalmente alterada.

Agora se tornara atrevida e descontente. Hoje se supõe que foi a parte menos feliz de sua vida.

Liberada das salutares restrições da juventude, adulada e mimada pelos jubilosos whigs que a

mantinham só para si, mal orientada por Lord Melbourne e não tendo ainda encontrado seu lar, não

era a mesma jovem de antes.56

 

A saga se arrastou por meses, com o irmão de Lady Flora publicando uma correspondência condenatória e dr. Clark lançando um resumo de seu exame invasivo. Aquele período sombrio para a rainha, porém, de súbito cessou por completo, um dia depois que dr. Clark publicou sua defesa. Vitória acordou abatida, com uma tremenda dor de cabeça e dos olhos, e viu que haviam apedrejado as janelas do quarto de se vestir, estilhaçando as vidraças. Era um sinal misterioso, mas adequado, do que vinha pela frente. Naquela manhã, enquanto ela contornava os cacos nas pontas dos pés, o príncipe Albert, irritadiço, desembarcava em solo britânico e iniciava a jornada por terra para ir vê-la. No instante em que ele desceu da carruagem no Castelo de Windsor, tudo mudou. Vitória sempre recordaria a data de 10 de outubro de 1839. Foi o dia em que seu coração se fez em pedacinhos.

 

* Quando Peel se tornou primeiro-ministro, dois anos depois, o secretário particular de Albert, Anson, contou-lhe que não só havia três importantes damas whigs que deixariam a Casa Real, mas que já o teriam feito em 1840. Peel ficou perplexo: “Se a rainha tivesse dito que essas três damas diretamente ligadas ao governo haviam entregado suas renúncias, eu teria ficado plenamente satisfeito e consultaria os sentimentos da rainha para a substituição delas” (Philip Ziegler, Melbourne, p. 298). O orgulho, a precipitação, as dores do coração impediram que o assunto fosse resolvido na época.