Vitória, a rainha
23. O garanhão da rainha
Brown era um sujeito grosseiro e mal-educado… mas tinha influência
desmedida sobre a rainha, a quem tratava com pouco respeito… Todos na casa
diziam que ele era “o garanhão da rainha”. Fisicamente era um belo homem,
embora de rude estofo.
WILFRED SCAWEN BLUNT1
Deus sabe como preciso que cuidem de mim.
RAINHA VITÓRIA, 18652
John Brown era, acima de tudo, uma presença física. Quando o guarda-caça estava com Vitória, remava para ela, conduzia-a na dança, servia-lhe de guia nas trilhas íngremes das Highlands. Erguia-a até a sela, enfrentava assaltantes, carregava-a quando ela não podia andar, ficava na boleia de suas carruagens. Pouco restou de Brown nos diários de Vitória que sua filha Beatrice editou; ele aparece de repente, como se saísse das sombras, chamado quando necessário, quando os rios eram fundos demais, os cavalos teimosos demais, as trilhas pedregosas demais, os caminhos encharcados
demais. 3 Mas, lendo essas menções dispersas, o leitor não perceberia que Brown estava quase sempre por perto. Viajava com a rainha para todas as partes: depois de poucos anos, ela não tinha nenhum pejo em dizer que Brown era seu melhor amigo. Havia insinuações de que ele era mais do que isso: os próprios filhos de Vitória chamavam o robusto escocês de “o garanhão da rainha”. De que outra maneira entender a incomum relação entre uma soberana e um servo? Como dirigente, Vitória era firme adepta do protocolo. Mas, como mulher, obedecia a seus instintos. Os fofoqueiros que se danassem. John Brown a fazia feliz.
Sempre atraída por atitudes diretas, sem pretensões nem afetações, Vitória ficara impressionada desde o primeiro momento pelo jovem ajudante de caça que trabalhava em Balmoral. Em 1850, quando estava com 31 anos, ela o descreveu como “um rapaz alto de boa aparência, de 23 anos, com
cabelo loiro crespo, muito bem-humorado e disposto”. 4 Mais de uma década depois, solicitado a atender a rainha após a morte de Albert, aceitou prontamente com toda a obediência. E viria a se tornar o amigo mais íntimo de toda a vida de Vitória — mais que Lehzen, mais que Melbourne, mais que todos os que chegaram e partiram. Vitória passou dezoito anos na companhia de John Brown, quase o mesmo tempo que viveu com seu amado Albert.
No final dos anos 1860, Vitória ainda continuava um tanto reclusa. Quando apareceu numa festa ao ar livre no Palácio de Buckingham, em 1868, sentiu-se atordoada com a multidão. Tinha passado quase sete anos no isolamento. Seus registros no diário desses anos eram insípidos, triviais e repetitivos, sem aquele seu habitual entusiasmo e curiosidade (com algumas exceções, como sua descrição da visita de uma dupla de mocinhas da
Carolina do Sul, filhas de escravos, que cantaram em dueto para ela). 5 O sedimento da dor comprimira seu mundo; mesmo importantes acontecimentos no exterior eram, pelo menos de início, descritos no contexto de seus sentimentos. A morte ainda lhe atormentava os dias. Num único ano, 1870, ela perdeu a condessa Blücher, o general Grey, seu médico
James Clark e sua leal governanta Lehzen.6 Em 1872, teve a perda
“irreparável” de sua irmã Feodora.7 Vitória, triste, mas resistente, estava sobrevivendo a muitas figuras importantes de sua vida. Enquanto seus velhos íntimos e amigos iam desaparecendo aos poucos, a rainha comia demais, mandava alargar as roupas, enfrentava reumatismo, enxaquecas e dores de dente.
Mas, enquanto os súditos aguardavam o aparecimento da rainha, corriam boatos sobre o homem que conquistara seu afeto e monopolizara sua atenção. Aquele escocês alto tinha sumido com ela? Vitória não tinha o menor sentimento de culpa quando era acusada de descuidar de seus deveres monárquicos quando estava na Escócia: considerava-se a única
juíza a decidir em que consistiam seus deveres.8 Não admitia adiar as viagens a Balmoral, mesmo quando era necessário abrir o ano parlamentar
ou gerir uma crise ministerial. 9 Sir Thomas Biddulph, o vedor da casa, dizia: “A rainha responderá como se fosse uma dona Maria e pudesse viver
onde bem quisesse”.10 Os homens de Estado coçavam a cabeça quando a carruagem da rainha ressoava nas ruas com uma conhecida figura de 1,90 metro de altura na boleia: Brown, com seu kilt, muito protetor, encarando feroz qualquer um que tentasse se aproximar de sua rainha.
O que mais chocava as pessoas era a familiaridade de Brown. Era inconcebível que um homem se dirigisse a uma rainha da maneira como ele fazia. O Lord chanceler tory, Lord Cairns, ficou boquiaberto ao observá-lo num Baile dos Florestais — quando membros da realeza e da aristocracia dançavam com os servos — em Balmoral: “Eu não imaginava possível que alguém fosse capaz de se comportar com tanta grosseria como ele faz com a
rainha”.11 Uma vez, um advogado observava enquanto Brown tentava prender com alfinete um xale xadrez por sobre os ombros da rainha, quando ela se mexeu e o alfinete lhe arranhou o queixo. Então Brown gritou: “Arre,
mulé, num consegue dexá tua cabeça parada!”.12 A imperatriz da Rússia
comentou que Brown tratava Vitória “como criancinha”.13
Mas o que os outros viam como impertinência era, para Vitória, uma revigorante franqueza. E essa falta de cerimônia era a marca distintiva da intimidade pela qual ansiava desde que perdera Albert. Uma vez, em passeio com Vitória e suas outras damas de companhia, Jane Churchill enroscou o pé na bainha do vestido e caiu. Brown, ao levantá-la, comentou sem rodeios: “Vossa Senhoria não é tão pesada quanto Sua Majestade!”. Vitória deu risada: “Perguntei: ‘Você acha que fiquei mais pesada?’; ‘Bom,
eu acho que sim’, foi a resposta sem rebuços”. 14
Para muitos, a flagrante desconsideração da rainha pelo decoro e pelos comentários era exasperante. Indignado, Lord Derby fez uma lista em seu diário de tudo o que a rainha fazia e “criava suspeitas”:
Longos passeios solitários a cavalo, em partes isoladas do parque: presença constante no quarto
dela: mensagens privadas enviadas por ele a pessoas de nível: escape à observação enquanto ele
conduz o cavalo dela ou guia seu pequeno coche: tudo mostra que ela escolheu esse homem para
um tipo de amizade que é absurdo e impróprio à sua posição. As princesas — talvez
irrefletidamente — brincam com o assunto e falam dele como “amante da mamãe”.
Vitória até tolerava e fazia vistas grossas ao alcoolismo de Brown. Certa tarde, quando Brown jazia desacordado de bêbado em seu quarto, incapaz
de levar a rainha a passeio, Henry Ponsonby* simplesmente saltou para a boleia no lugar dele. Não trocaram uma palavra (Vitória fazia vista grossa para o consumo alcoólico de seus criados. Ao receber o informe de que um lacaio, que era alcoólatra, derrubara uma lâmpada na escada, ela apenas
anotou à margem “pobre coitado”).15 Brown atuava cada vez mais como intermediário, o que aborrecia os de alta posição. Em vez de verem a rainha conforme esperavam, encontravam um escocês rude e barbado, que não tinha muito tempo para amenidades. Quando o prefeito de Portsmouth foi vê-la, para perguntar se podia ir passar as tropas em revista, Brown apenas
enfiou a cabeça pela porta da sala e falou: “A rainha diz, craro que não”.16 O prefeito se retirou ofendido. O receio de Derby era que ninguém se disporia a dizer à rainha como o resto do mundo via Brown e sua relação com ele.
O que Vitória deixou de perceber foi o impacto que Brown teve em seus filhos, que o desprezavam e dedicaram uma energia considerável a destruir todos os registros da intimidade da mãe com um guarda-caça. Seu hábito de beber, praguejar e ser mandão não era tão simpático ao pessoal mais jovem da casa. Bertie, Alfred, Louise e Leopoldo, em especial, vieram a detestar
Brown.17 Consideravam-no grosseiro e presunçoso, e se irritavam com a afeição que Vitória tinha por ele. Louise, quando noivou e estava planejando sua residência, disse a Ponsonby: “Não vou ter um homem
absurdo de kilt me seguindo por toda parte”.18
Vitória, que acreditava que o finado marido ainda estava presente no mundo físico, era atraída pelo sexto sentido que Brown parecia ter, o que era considerado comum aos escoceses. Quando a família real deixou Balmoral em 1861, Brown lhe falou que se cuidasse e, “mais que tudo, que não tenha nenhuma morte na família”. Houve três naquele ano, inclusive a de Albert. As palavras de Brown ficaram girando na cabeça de Vitória,
“como se tivessem sido uma espécie de estranho pressentimento”.19 Ela se convenceu dos poderes místicos do guarda-caça. Muitas pessoas ainda creem que ela utilizou Brown como médium durante sessões espíritas para ter contato com Albert; é possível, em vista do interesse de Vitória pelo espiritismo, mas nunca foi provado. Segundo um autor, Brown era um
“Raspútin de kilt”. 20 (A imperatriz Alexandra Feodorovna, que mais tarde seria cativada pelo verdadeiro Raspútin, conheceu John Brown quando
esteve em visita com a mãe, Alice, na casa de sua avó Vitória.)21
Vitória dobrou o salário de Brown, deu-lhe uma casa para a aposentadoria em Balmoral, promoveu-o a “criado escocês da rainha” e lhe concedeu várias distinções. Mandou que o administrador da propriedade em Balmoral rastreasse a árvore genealógica de Brown e vibrou quando se encontrou uma ligação de Brown com os clãs de maior prestígio da Escócia. Ela sabia que ele provinha de uma boa linhagem.
A rainha permaneceu oculta ao público por cinco anos desde a morte de Albert. Mas, em 1867, milhares de pessoas afluíram à Exposição de Primavera, evento anual da Royal Academy. Havia à mostra uma tela grande pintada por Sir Edwin Landseer, com o título de Sua Majestade em Osborne, 1866. A rainha aparecia montada de lado num cavalo negro lustroso, usando seu luto costumeiro. Estava lendo uma carta tirada do malote oficial no chão, perto de seus cães. Em frente havia uma figura alta de kilt e casaco preto segurando as rédeas do cavalo. Era a isso que a rainha vinha dedicando seu tempo desde a morte de Albert?
Foi um escândalo. O crítico de arte da Saturday Review escreveu: “Se a pessoa ficar ao lado desse quadro por quinze minutos e ouvir os
comentários dos visitantes, verá a grande imprudência que foi cometida”.22 Não demorou muito para que os falatórios se tornassem bastante crus. A rainha e o sr. Brown eram amantes? Estava grávida dele? Tinham se casado em segredo? Em 1868, um visitante americano comentou sua estupefação com as piadas constantes e grosseiras sobre a rainha, tratada como “a sra. Brown”. “Disseram-me”, escreveu ele, “que a rainha estava insana e John Brown era seu guardião; que a rainha era espírita e John Brown era seu
médium.” 23
Vitória adorou a pintura e encomendou uma gravura. Recusou-se a mudar de conduta. Quando lhe sugeriram delicadamente, em 1867, que não levasse Brown em sua companhia para uma revista militar em Hyde Park, pois imaginavam que ele seria motivo de zombaria para a multidão, ela ficou furiosa. Rechaçou a ideia com sua habitual mistura de turronice e compaixão por si mesma, declarando que ficaria nervosa e transtornada e que Brown era um reconforto para ela. O gabinete ministerial, após uma longa discussão sobre a sanidade mental da rainha, resolveu não a pressionar. O médico real dr. Jenner lhes informara que qualquer “estímulo forte (e pouquíssimas coisas a estimulam) lhe causaria vômitos violentos”. E que se a “Natureza” não lhe oferecesse tal alívio, “isso poderia ter um
efeito perigoso sobre sua mente”. 24 Os homens de Estado se entreolharam espantados à mesa ministerial. A rainha teria um acesso de vômito se lhe pedissem que deixasse Brown em casa? E se não vomitasse, ficaria louca? A revista das tropas foi adiada.
Nos momentos de calma, fitando as montanhas das Highlands ou os gramados verdes de Windsor, Vitória se sentia remoer de culpa. O fato de sua dor estar diminuindo significava que estava sendo desleal a Albert? Era errado procurar consolo na companhia de outrem? Confidenciou suas dúvidas ao deão Wellesley, que lhe garantiu que uma “firme resignação à dor” era plenamente apropriada e constituía uma prova mais permanente de amor do que a dor dilacerante inicial. E foi além, dizendo-lhe que devia
considerar esse reconforto como uma dádiva divina.25
Existem poucos temas de tantas especulações desvairadas e de tão escassa documentação quanto o relacionamento entre a rainha Vitória e John Brown. A maioria dos boatos é infundada. A história de que Vitória saltou de uma carruagem, se enfurnou num chalé para dar à luz um filho de John Brown, então ressurgiu radiante tomando champanhe, por exemplo, é de fazer rir qualquer pessoa que já tenha presenciado ou passado por um
parto.26 Grande parte dos relatos se baseia em casos intrigantes de documentos que desapareceram misteriosamente ao longo dos anos. O autor E. P. Tisdall alega ter recebido uma versão de uma carta supostamente escrita com a letra de Vitória para John Brown, declarando sua adoração por ele, a qual fora recolhida do cesto de lixo em que Brown, depois de rasgá-la, a teria jogado. Mas essa carta se perdeu, e sua veracidade e alegada semelhança com a letra de Vitória nunca se comprovaram.
Uma fofoca muito repetida vinha de uma das notórias amantes de Bertie, Catherine Walters. Quando Bertie contratou o escultor Joseph Edgar Boehm para capturar os belos traços da amante, Boehm disse a ela que vira muitas atividades suspeitas nos três meses que passara em Balmoral, esculpindo uma estátua de Brown por solicitação da rainha. Walters então confidenciou a um amigo:
Brown era um sujeito grosso e mal-educado… Tinha influência desmedida sobre a rainha, a quem
tratava com pouco respeito, aproveitando-se de todas as maneiras de sua posição junto a ela. Todo
o palácio dizia que ele era “o garanhão da rainha”. Fisicamente era um belo homem, embora de
rude estofo, e tinha belos olhos (como os do finado príncipe consorte, dizia-se), e a rainha, que
havia amado apaixonadamente o marido, meteu na cabeça que o espírito do príncipe encarnara de
alguma maneira em Brown e, quatro anos após a viuvez, estando muito infeliz, concedeu-lhe todos
os privilégios… Costumava ir com ele a uma pequena casa nos montes, onde, a pretexto de
proteção e “para cuidar dos cães dela”, ele tinha um quarto próximo ao dela, ficando as damas de
companhia no outro extremo da casa… Boehm viu familiaridades dele para com ela suficientes
para não deixar dúvidas de que lhe eram permitidos “todos os privilégios conjugais”.27
Encontram-se boatos sobre casamento não só nos jornais, mas também
nos diários dos importantes e poderosos.28 Um sacerdote que fora capelão de Vitória, o reverendo Norman Macleod, confessou em seu leito de morte, em 1872, que oficiara o casamento entre a rainha e John Brown — história registrada por alguém muito distante. Em vista da convicção de Vitória de que as viúvas não deviam se recasar e do fato de que Brown quase se casara com outra pessoa em 1870, isso é improvável. Mas é plenamente possível que houvesse algum tipo de promessa, de troca ou ritual, em que Brown deu o anel de casamento de sua mãe para a rainha; de fato, ele renunciara ao casamento para servir e amar apenas a ela.
Outra coisa de que podemos ter certeza, porém, é que a família real tomou todas as providências possíveis para destruir qualquer prova da relação entre Vitória e Brown, tanto em vida quanto após a morte da rainha. O ódio de Bertie ao criado escocês de sua mãe sobreviveu à sua ascensão ao trono como Eduardo VII, e a família se sentiu extremamente constrangida que a matriarca e monarca tivesse se embeiçado por um plebeu que bebia e rogava pragas. Muita coisa se perdeu. E é por isso que o mais tênue pedacinho de um novo dado pode contar a mais expressiva história.
Os arquivos de Sir James Reid, médico de Vitória durante vinte anos, estão guardados numa mansão de pedra numa cidadezinha na ponta do extremo sul das Lowlands escocesas. Dr. Reid era um homem íntegro e respeitado que atendeu e teve a confiança de Vitória desde 1881 até o final da vida; ela morreu em seus braços. A rainha deixara instruções estritas que somente Sir James — conhecido pelo tato e discrição — erguesse e transportasse seu corpo após a morte. Ele mantinha diários impecáveis numa letra clara e miúda, registrando suas atividades e consultas médicas diárias. Um dia, em 1883, ele anotou uma cena muito curiosa. Ao abrir a porta do quarto de Vitória no Castelo de Windsor, ele viu a rainha “andando um pouco” e flertando com John Brown.
Brown, erguendo o kilt, diz: “Ah, achei que estava aqui”.
Ela responde rindo e erguendo a saia: “Não, está aqui”.29
A anotação não esclarece “o que” estaria aqui ou ali.30 O que fica claro é que Sir James achou aquele diálogo interessante e significativo o suficiente para registrá-lo em seu caderninho preto. Revelava um grau extraordinário de intimidade. Nunca saberemos a natureza exata de tal intimidade, mas esse fragmento, que nunca fora publicado antes, sugere que a proximidade ultrapassava o que seria normal não só entre uma rainha e seu criado, mas entre qualquer homem e mulher apenas amigos. Elizabeth Longford, a primeira a ter pleno acesso aos diários de Vitória, autora de uma biografia de admirável perspicácia publicada em 1964, insiste há muito tempo que a relação entre Vitória e Brown teria sido apenas platônica. Recentemente, Longford escreveu que, se Brown tivesse sido amante de Vitória, “algum de seus numerosos cortesãos, cavalariços, damas de companhia, roupeiras, ‘massagistas’, leitores ou outros atendentes teria visto por acaso alguma
coisa em algum momento”.31 O que Longford não sabia é que Sir James viu.
O episódio que mais dá a pensar, descoberto somente graças à preservação dos cadernos do médico em outro local que não os Arquivos Reais, é talvez a notícia de que Bertie foi chantageado com um lote de cartas entre Vitória e Alexander Profeit, o administrador de Balmoral, o qual, ao que consta, nutria profunda antipatia por Brown. Havia cerca de trezentas cartas ao todo, trocadas entre Vitória e Profeit, cujo filho descobrira o esconderijo delas e sabia da importância e potencial lucratividade de sua descoberta após a morte da rainha. Sir James Reid foi incumbido, em nome de Bertie, de pegar as cartas com o filho de Profeit, o que levou a cabo em 1905, após seis meses de negociações. Não se sabe o montante pago por essas missivas, nem o conteúdo delas. Foram imediatamente queimadas. Reid fez algumas anotações sobre elas num caderno de capa verde, destruído após sua morte. A única coisa que nos restou foi uma referência a essas notas em seu diário.
As cartas, escreveu ele, eram “muito comprometedoras”.32
Apesar de tudo isso, os pesquisadores têm evitado concluir que Vitória estava apaixonada por John Brown. O implícito aí é que isso sugeriria que Vitória e John Brown mantiveram uma relação sexual ardente, envolvente e duradoura. Vitória nunca escondeu seu relacionamento com Brown — se fossem amantes consumados, sem dúvida não teria se comportado de
maneira tão desafiadora. 33 Mas era uma relação inegavelmente coquete, intensa e próxima. Passavam longas horas sozinhos nas charnecas, bebendo uísque — ou o que John Brown chamava de “árcol” — e ficavam em alojamentos remotos em quartos pegados. É difícil imaginar que uma mulher tão passional e solitária tivesse ficado imune à atração de um vigoroso escocês. Nunca saberemos o que aconteceu de fato; se ele segurava a mão dela, ou se a abraçava ali sentados, isolados nas montanhas de Balmoral, a quilômetros de qualquer vista humana. Existem mil possibilidades de intimidade no espectro que vai de amigo a amante. Vitória pode ter se aninhado uma ou duas vezes junto a ele, para lembrar como era sentir o calor de outro corpo perto do seu; ela tinha mais de trinta centímetros a menos que ele. Para os que creem que alguns breves momentos de ternura não entrariam em conflito com a moral e o comportamento de uma monarca, pouco importa a forma assumida pela relação física entre ambos.
O que é certo é que a rainha Vitória era apaixonada por John Brown. Este, de fato, é o verdadeiro escândalo. Não era o amor que conhecera com Albert, em que era a devotada subalterna que trabalhava para “se aprimorar”, sob a orientação de um homem a quem considerava não como um igual, mas como um deus. Ela nunca conheceu o amor do pai, por muito tempo duvidou do amor da mãe e Lord Melbourne foi mais um mentor do que uma companhia jovial. Seu amor por John Brown era único. Ele tinha sete anos a menos do que ela, e havia um fosso social intransponível entre ambos. Mesmo assim, ele a tratava como mulher, não como rainha. Para Vitória, o casamento era uma relação entre um “senhor” e uma esposa adoradora e claramente subserviente. A ideia de um casamento entre uma mulher que comandava o mundo e um homem que cuidava de seus cavalos era-lhe absurda e violava sua concepção básica do relacionamento matrimonial. Mas ela o amava, como uma mulher que ama o homem que a protege e a venera.
Sendo o relacionamento tão improvável, Vitória podia se permitir tomá-lo como uma profunda amizade ardente. Fica evidente, pelo que Reid vislumbrou no mundo privado de ambos, que havia um grau de intimidade que teria escandalizado a sociedade. A extensão ou a natureza do relacionamento físico entre os dois são algo que nunca saberemos. A relação entre Vitória e Brown era como um segundo casamento, com uma dinâmica de poder muito diferente — e que, por mais que ela se recusasse a admitir, combinava muito bem com a rainha. Aos poucos, sua vida voltou a ganhar cor. Quando Louise se casou no mês seguinte, a mãe, além de
diamantes, usou rubis. 34
Na Europa, Otto von Bismarck sonhava com uma Alemanha unificada que se ergueria como superpotência continental. O apetite de Bismarck aumentara com a guerra austro-prussiana de 1866, depois da qual 22 estados germânicos setentrionais formaram uma confederação, comandada pela Prússia. Agora ele queria aproveitar qualquer oportunidade de aproximá-los ainda mais sob um governo centralizado, abrangendo também os estados do sul da Alemanha que ainda eram independentes, inclusive a Baviera e Hesse-Darmstadt. Uma maneira de chegar a isso, a seu ver, era instigar uma guerra contra a França, a fim de obrigar os estados germânicos do sul a se juntarem aos estados do norte, de grande força militar, para combater o inimigo comum. A França se sentia ameaçada pela ambição explícita de Bismarck e, quando se pensou num príncipe prussiano como possível rei da Espanha, a França foi estrepitosamente contrária. O nome do príncipe prussiano acabou sendo retirado, mas posteriores desfeitas diplomáticas (exageradas pelo manipulador Bismarck, que reescreveu os termos de um despacho crucial) convenceram a França de que devia atacar:
ela declarou guerra à Alemanha em julho de 1870. 35 Depois que o sul da Alemanha se juntou ao norte, o número de soldados do Exército prussiano-germânico era praticamente o dobro do número de soldados do Exército francês.
Após os horrores da Guerra da Crimeia, dezesseis anos antes, Vitória queria a todo custo manter a neutralidade britânica. Examinava as listas de feridos nos jornais e insistia reiteradamente com Gladstone na “absoluta
necessidade” de aumentar o número de soldados britânicos.36 Exigia que a mantivessem a par do estado de prontidão para a guerra, os contingentes do Exército e da Marinha, as condições dos estaleiros.
Vitória até podia não ver muito sentido no conflito e ficava aflita com a participação dos genros na guerra. Insistia: “A única maneira é deixar o assunto o mais quieto possível e esperar as pessoas se acalmarem. Para mim, tentar fazer qualquer coisa, além de pregar prudência e neutralidade,
seria inútil”.37 38 Mas seu coração estava com a Alemanha. (Isso, porém, não a impediu de concordar que a Grã-Bretanha continuasse a vender armas e cavalos para a França, o que a Prússia tomou como um ultraje.) Rezava apenas que a guerra acabasse e reconfortava Vicky e Alice, esta com a gravidez muito adiantada; as duas filhas cuidavam dos feridos nos hospitais, enquanto aguardavam notícias dos maridos soldados. Voltando às Highlands, Vitória parou na loja local de Balmoral e comprou gaze para bandagens.
A guerra durou menos de um ano. Após a Batalha de Sedan em setembro de 1870, o líder francês Napoleão III se rendeu e foi capturado com 104 mil
de seus homens.39 A vitória da Prússia foi decisiva. Seus efetivos eram maiores, em parte graças ao recrutamento obrigatório, às ferrovias, ao uso da artilharia de aço Krupp e à mobilização bem coordenada. Foi o final do equilíbrio de poder na Europa, com a hegemonia da Inglaterra e da França por meio século. Agora ascendia o Império germânico. A Alemanha abocanhara a Alsácia e metade da Lorena, que a França tentaria recuperar na Primeira Guerra Mundial. Agora a Alemanha estava oficialmente unificada sob o rei Guilherme I da Prússia; tornou-se um único país em janeiro de 1871. Na mesma época, a Itália capturou e anexou os Estados Vaticanos, que estavam sob comando direto do papa desde os anos 700 e perderam seu protetor em Napoleão III. A paisagem do poder europeu mudava a cada ano.
No meio da guerra, a França se tornara república com o golpe
revolucionário da Comuna de Paris, em 4 de setembro de 1870.40 A imperatriz francesa Eugénie buscou refúgio na Inglaterra. Vitória, solidária, foi recebê-la, registrando a fuga e os horrores enfrentados por Eugénie em detalhes minuciosos — desde o garoto que a reconheceu por sob o chapéu e a capa e gritou “À la guillotine!” até a viagem infernalmente desconfortável,
espremida numa carruagem percorrendo estradas pedregosas.41 As Ilhas Britânicas foram mais uma vez poupadas à revolução; a robusta rainha não corria nenhum perigo.
Com o passar dos anos, Vitória pendia gradualmente para o conservadorismo. Na juventude, sentira vivo interesse pela vida dos pobres, tal como a descrevia Charles Dickens, mas não viera a se interessar pelas causas da pobreza e muitas vezes criticava os que protestavam contra a miséria. Apoiou o primeiro dos Decretos das Terras irlandesas em 1870, que determinava o ressarcimento dos arrendatários por quaisquer melhorias que fizessem na propriedade, mas se apressou em apontar ao primeiro-
ministro a “evidente falta de sensibilidade com os proprietários”.42 Era injusto, escreveu ela, lançar a “culpa toda” dos problemas sobre os proprietários e disse que os arrendatários não deviam achar que podiam se comportar mal..
Isso não significava que a rainha fosse contrária a uma melhoria no destino dos pobres. Quando esteve com Charles Dickens em março de 1870, descreveu-o como pessoa “muito agradável, com voz e maneiras afáveis”. Quando Dickens morreu, apenas três meses depois, aos 58 anos de idade, Vitória escreveu: “Ele tinha um intelecto amplo e amoroso e a mais forte simpatia pelas pessoas mais pobres. Acreditava que o tempo traria uma melhor sensibilidade e uma união de classes muito maior. E rezo
sinceramente para que isso ocorra”.43 Apesar disso, a rainha não sugeriu nem contemplou providência alguma capaz de aliviar essa pobreza, como seu marido teria feito em vida.
Vitória preferia o escapismo à investigação. Escreveu livros de imenso sucesso sobre as estadas na Escócia — Leaves from the Journal of Our Life in the Highlands em 1868 e More Leaves em 1884 —, versando sobre a vida doméstica, concentrados ternamente na família, e os livros alimentaram a crença de que vivia na ociosidade. Mas, como assinalou Arthur Ponsonby, Vitória continuava a ter opiniões decididas como sempre:
Não exigiria muita pesquisa pegar uma data qualquer registrando algum episódio insípido e
insignificante e encontrar em sua correspondência no mesmo dia alguma carta ao primeiro-
ministro ou ao secretário particular, manifestando em sua linguagem mais veemente o desejo de
interferir em altos assuntos de importância nacional. Mas isso ficava excluído dos livros, e o
público geral, inclusive radicais e mesmo republicanos por algum tempo, ficava satisfeito por não
poder haver mal nenhum numa monarca que passava todos os seus dias com tanta inocência num
refúgio escocês.44
Como mãe viúva, ela sentia agudamente o peso do bem-estar dos filhos. Continuava a se corresponder com sua adorada Vicky. Vitória também se afeiçoara mais a Bertie desde que se casara com a meiga e elegante Alexandra da Dinamarca e elogiou a popularidade do filho, embora ainda lhe recomendando abandonar a conduta precipitada e temerária. Bertie, que morava na casa Sandringham em Norfolk, continuava a beber, apostar e namoriscar enquanto a esposa enfrentava uma série de enfermidades e gestações. A tentativa da rainha de controlar a vida social de Bertie e
Alexandra foi motivo de muitos comentários. 45
Em 1869, o marido de uma de suas alegadas amantes — Harriet Mordaunt — expôs os pecadilhos de Bertie, criando-se um tremendo escândalo. Sentado para escrever uma carta à mãe, Bertie se sentiu mal, lembrando a decepção que causara ao pai logo antes de morrer, a propósito de Nellie Clifden. Em 10 de fevereiro de 1870, ele escreveu à rainha: “É meu doloroso dever (digo doloroso, pois deve lhe ser penoso saber que seu filho mais velho deve comparecer como testemunha num tribunal de Justiça) informá-la que fui intimado pelo Conselho de Sir C. Mordaunt a comparecer como testemunha no sábado junto ao Tribunal de Lord
Penzance”.46 A rainha lhe deu apoio e acreditou em sua inocência. O primeiro-ministro, W. E. Gladstone, também. Depois do depoimento de Bertie em tom muito seguro, o juiz declarou Harriet insana. Bertie continuou feliz da vida farreando e correndo atrás de rabo de saia. Ele pouco se preocupava com as calúnias cometidas contra seu nome, mas era amplamente considerado um devasso.
Agora era com os filhos do meio que Vitória tinha problemas. Aos 26 anos, Affie bebia muito e se envolvera num romance com uma moça em Malta, quando servia lá. A mãe desconfiava do jeito reservado do filho, o
qual lhe parecia “melindroso, vago e teimoso”. 47 Mas, com Alice, a filha de 27 anos, conseguira uma espécie de reaproximação. Vitória criticava Helena
por gerar bebês “simples demais”,48 por ser atarracada e de saúde frágil, por
parecer mais velha do que seus 24 anos.49 O casamento de Louise era tenso e infeliz. Leopoldo, o filho intelectual, não gostava de ficar preso em casa lutando contra várias hemorragias e lesões na perna. Os irmãos protestavam contra a atitude materna em relação a ele, a qual lhes parecia demasiado protetora e sufocante; Vitória insistia enfaticamente que era melhor pensarem não no que Leopoldo estava perdendo, e sim em tudo o que ele ainda podia fazer. Os filhos eram ingratos, pensava ela, e tolos por não
aceitarem seu conselho.50 Era quase impossível dar conta de ser ao mesmo tempo soberana e chefe de família. Uma pena que Bertie fosse tamanha decepção.
Os filhos mais novos ainda eram meigos e adorados. Arthur, que aos vinte anos ainda se parecia muito com o pai, só incomodava a mãe quando
repartia o cabelo ao meio.51 Beatrice, com treze, era a franca favorita e, entre toda a prole, a filha que Vitória estava mais decidida a manter em casa, junto com ela. Tentava retardar seu ingresso na idade adulta, impedindo-a de sair à noite e adiando seu début em sociedade ao máximo que pôde. “É a última que tenho”, queixou-se Vitória, “e não poderia viver
sem ela.”52 Adorava os netos — principalmente os bonitos —, que riam e corriam pelos palácios, mas ao mesmo tempo reclamava da quantidade deles. Procurou diminuir as vindas dos netos: interessava-se por talvez dois ou três deles, mas “quando vêm numa frequência de três vezes por ano”, disse ela a Vicky, que se desculpava maternalmente pelos filhos, “é causa de mera ansiedade para meus próprios filhos e sem nenhum grande
interesse”.53
Na década desde a morte de Albert, Vitória se tornou cada vez mais egoísta. Com a dor e a depressão sem freios, ela passou a enxergar todas as interações através de uma lente centrada nela própria — até mesmo a política internacional era avaliada, de início, conforme o impacto que exercia em seu estado de espírito. Os mais sensíveis a suas necessidades,
como John Brown e Beatrice, eram objeto de louvores.54 Os demais, como Gladstone, eram excluídos. A rainha acusava os filhos de não entenderem seu fardo. Quando a filha Louise noivou, Vitória não ficou feliz por ela;
entristeceu-se à ideia de perder mais uma filha.55 Quando Affie se casou em São Petersburgo, recusou-se a comparecer. Escreveu a Vicky dizendo que era deprimente que os filhos se casassem. Era o primeiro casamento de um deles a que não comparecia, mas comentou com Vicky: “Agora me desagrada assistir a casamentos, e muito, e considero-os tristes e dolorosos,
principalmente o casamento de uma filha”.56 Também faltou à cerimônia de crisma do neto Willy, na Prússia. Aos protestos de Vicky, mãe de Willy, ela
respondeu: “Estou muito cansada”.57
A franqueza da rainha também se aplicava aos dignitários que passavam pelo palácio. Quando conheceu o escritor Thomas Carlyle, por exemplo, comentou que era “um velho escocês excêntrico de aparência estranha que, numa voz melancólica arrastada e um forte sotaque escocês, discorre sobre
a Escócia e a profunda degeneração de tudo”.58 (Ele, por seu lado, derramou-se sobre o “pequeno sorriso bondoso” e a aparência “bastante atraente” da rainha. Impossível, disse ele à irmã, “imaginar uma
mulherzinha mais gentil”.) 59
Em 1870, Vitória despertava quase pânico no palácio e no governo. Como conseguiriam que ela voltasse a aparecer em público? Filhos e ministros tinham a mesma impressão negativa: a reclusão dela estava prejudicando a
monarquia.60 Quanto mais se recolhia das vistas públicas, mais diminuía o apreço dos súditos. Ponsonby estava desalentado: “Se ela não é a chefe do Executivo, nem a fonte de honra, nem o centro da exposição, a dignidade
real irá totalmente por água abaixo”.61 Até Disraeli estava abatido. Seu receio era que a monarquia estivesse em perigo não por qualquer hostilidade ou por algum movimento republicano, mas pela “gradual perda de prestígio”: a rainha levara as pessoas a crerem que podiam muito bem
passar sem ela.62 Tinha-se cada vez mais a impressão de que o afeto pela monarca não se renovava sozinho, mas podia se esgotar devido à sua
ausência.63
No final de 1871, Vitória adoeceu — nunca se sentira tão mal desde a febre tifoide na adolescência. Quando ainda se recuperava, Bertie teve uma febre súbita, com sintomas misteriosamente idênticos aos que Albert sofrera exatamente dez anos antes. A família entrou em pânico. Vitória foi três vezes a Sandrigham, onde Bertie morava com Alix, temendo que iria beijar uma fronte já fria. Apreensiva, punha-se atrás de um biombo no quarto dele e ficava ouvindo sua respiração. Nunca o amara tanto quanto nesses momentos, quando pensava que ia perdê-lo. Houve uma enxurrada de milhares de cartas e telegramas; a dor pública foi extraordinária. A multidão
se aglomerava nas gráficas e escritórios dos jornais, aguardando boletins.64 Os sacerdotes clamavam a Deus nos sermões dominicais, rogando que Bertie se mantivesse em vida. A nação se comovia à visão de uma família oscilando tragicamente à beira do precipício de uma grande perda. Assim como os britânicos só vieram a reconhecer as qualidades de Albert após sua morte, um jornal aventou se não ocorreria a mesma coisa com Bertie. Suas qualidades eram de outra espécie, mais populares do que intelectuais: uma “jovialidade” em cumprir obrigações cerimoniais, um “amor inglês aos esportes” e, por fim, uma característica de grande utilidade numa pessoa da família real: a “visível boa vontade em colocar seus serviços à disposição de quem queira lançar uma pedra fundamental ou inaugurar um bazar
beneficente”.65
Bertie sobreviveu, o que foi tido como um milagre. Vitória escreveu com gratidão: “Todos nós sentimos que, se Deus poupou sua vida, foi para lhe
permitir conduzir uma vida nova”. 66 Gladstone agarrou a oportunidade de aproveitar o ressurgimento da afeição pela monarquia e propôs que se realizasse uma grandiosa missa de ação de graças em 27 de fevereiro de 1872, na Catedral de St. Paul. Vitória ficou entediada na igreja e achou a catedral “fria, lúgubre e sombria”, mas os gritos e aclamações dos milhões de pessoas que estavam lá fora no frio, sob um céu cor de chumbo, deram-lhe uma sensação de triunfo e a rainha apertou a mão de Bertie num teatral
floreio dramático. 67 Foi “um grande dia santo” para o povo de Londres,
disse The Times, muito solene.68 O povo quis mostrar à rainha que era amada como sempre. O prazer ao vê-la em pessoa foi causa de comemoração, tanto quanto a recuperação de Bertie.
Esse momento revelou uma coisa que Bertie logo captou, e que a mãe não captara: o público britânico exige pompa e circunstância e a chance de ver o soberano em toda a sua glória. O que os súditos desejavam não era uma república, mas uma rainha visível. Como disse Lord Halifax, o povo queria uma rainha que parecesse rainha, com cetro e coroa: “Querem os dourados
em troca do dinheiro que dão”. 69 Para Vitória, era uma coisa invasiva, mas o filho entendeu instintivamente a importância desse tipo de apresentação. Levantou-se para acenar e fazer uma vênia ao país que a mãe achava que devia amá-la em qualquer circunstância.
Apenas dois dias depois, Vitória sofreu novo atentado quando a carruagem entrava no Palácio de Buckingham. Brown, com sua “grande presença de espírito e rapidez”, como disse a rainha, agarrou o homem pelo pescoço e o obrigou a largar a pistola — “Somente Brown o viu surgir por
ali e suspeitou dele”. 70 Por causa disso, ela criou uma nova honraria — a “Medalha de Serviço Devotado a Vitória”, por um “gesto muito especial de devoção à Soberana”, que era de ouro e trazia sua efígie num dos lados. (Ao
que parece, Brown foi o único a receber essa medalha.)71 Também lhe prendeu ao peito largo, com muita satisfação, uma medalha de prata por
“longos e fiéis serviços”. 72 Enquanto a carruagem percorria a distância até as Highlands, Vitória ficou pensando e repensando que Brown não só lhe
devolvera o entusiasmo por viver como também lhe salvara a vida.73
Vitória ainda sonhava em se entocar em casas cada vez menores. Tornou-se mais introvertida com a idade, e sua aversão ao barulho aumentou, empatando com sua aversão ao calor. Irritava-se com o barulho de crianças gritando e berrando, e achava que seus nervos — desgastados pelo trabalho,
pelas ansiedades e pelos filhos rebeldes — nunca se recuperariam.74 Escreveu a Vicky:
Sei que você tem muitas grandes dificuldades — e que sua posição não é fácil, mas a minha
também não é, cheia de problemas e dificuldades e uma carga enorme de trabalho — exigindo
aquele descanso que não posso ter. A família muito grande, com suas novas famílias e interesses
crescentes, é uma imensa dificuldade e tenho que aumentar meu fardo. Sem um marido e pai, o
trabalho de satisfazer a todos (o que é impossível) e de ser justa, equânime e bondosa — e ainda
manter a tranquilidade, da qual preciso demais — é absolutamente assustador.75
O único lugar onde podia ter pleno descanso era no pequeno chalé chamado Glassalt Shiel, escondido entre os abetos dos montes cobertos de neve, em torno do Loch Muick, o lago de águas negras como tinta nas
Highlands. 76
Aos poucos, suas forças voltaram. Vitória começou a dançar e a viajar outra vez. Até se permitiu olhar novamente suas partituras, reavivando as lembranças de Albert diante dos livros de duetos ao piano. Finalmente as recordações traziam mais alegria do que dor: “O passado pareceu afluir
sobre mim de uma maneira estranha e maravilhosa”.77
Vitória raramente sonhava com Albert. Em vez dele, sonhava com a mãe: “A vida de casada cessou por completo”, escreveu ela, “e imagino que é por
isso que sinto como se estivesse morando de novo com ela”.78 No aniversário de 52 anos, em 1871, anotou: “Sozinha, sozinha, como sempre
será”.79 Não tinha marido e nenhum parceiro oficial em seus deveres de dirigente e mãe. Mas tinha Brown, numa relação que desafiava classificações: melhor amigo, conselheiro, confidente, companhia, íntimo.
Vitória lhe dizia frequentemente: “Ninguém ama você mais do que eu”. 80 E ele respondia, sério: “Nem você — mais do que eu. Ninguém ama mais você”. Era mais próximo dela do que os próprios filhos e era a única pessoa, disse Henry Ponsonby, capaz de “brigar e conseguir que a rainha fizesse o
que não queria”. 81 Quando adoeceu, não se chamaram os filhos e as filhas: chamou-se Brown. Se a família viesse, advertiu Thomas Biddulph, o administrador financeiro (ou vedor da casa) de Vitória, “isso a mataria na
hora”.82 Vitória explicou a Vicky:
Quando o amado marido se foi e os filhos estão casados, sente-se que um amigo ou amiga… que
pode se devotar inteiramente a você é a única coisa de que realmente precisa para ajudá-la e para
se solidarizar inteiramente com você. Não que você ame menos os filhos, mas sente, quando eles
crescem e se casam, que pode não ser muito útil para eles e eles para você (principalmente nas
Classes Altas).83
Em 1º de janeiro de 1877, Vitória enviou um cartão a Brown com uma figura de camareira na frente. Ela escreveu no alto: “A meu melhor amigo
JB 84 / De sua melhor amiga VRI” . Dentro, dizia:
I send my serving maiden
With New Year letter laden,
Its words will prove
My faith and love
To you my heart’s best treasure,
Then smile on her and smile on me
And let your answer loving be,
And give me pleasure.
[Envio minha jovem criada/ Com a carta de ano-novo/ Suas palavras mostrarão/ Minha fé e amor/
A você, maior tesouro de meu coração,/ Então sorria a ela e sorria a mim/ E que sua resposta seja
amorosa,/ E me dê prazer.]
Brown respondeu dando sua vida.
* O diplomático Ponsonby tinha sido camareiro de Albert e se tornou secretário particular da rainha em 1870. Como liberal, ele teve grande influência democrática na residência real, junto com a esposa feminista, Mary Bulteel, que a rainha achava de uma inteligência intimidadora. Mas veio a confiar em Ponsonby e agradava-lhe sua tolerância em relação a Brown — a quem ele se referia como “Filho da Natureza”.