Vitória, a rainha
12. Apenas o marido, e não o senhor
12. Apenas o marido, e não o
senhor
[Reconhecer] uma verdade importante [garantirá o sucesso do casamento]: é a
superioridade de seu marido pura e simplesmente enquanto homem. É muito
possível que você tenha mais talento, realize coisas mais importantes… mas
isso não tem nada a ver com sua posição como mulher, a qual é e deve ser
inferior à dele como homem.
SARAH ELLIS, THE WIVES OF ENGLAND1
Estou muito feliz e satisfeito em minha vida doméstica; mas a dificuldade em
ocupar meu lugar com a devida dignidade é que em casa sou apenas o marido,
e não o senhor.
PRÍNCIPE ALBERT, CARTA AO PRÍNCIPE DE LÖWENSTEIN, MAIO DE 18402
A pistola disparou. Todos se viraram e os cavalos puxando a carruagem se assustaram e pararam. Na trilha de pedestres estava um adolescente baixo e franzino com uma arma em cada mão, encarando fixamente a rainha. Era uma tarde de domingo, 10 de junho de 1840, quente e nublada. As pessoas passeavam pelo parque a pé ou a cavalo, e tinham olhado com curiosidade a carruagem real, que muitas vezes passava por ali naquele horário, nos finais de semana, seguindo a estrada que ia do Palácio de Buckingham até Hyde Park Corner. Albert, que notara “um homenzinho de aparência insignificante” cruzando os braços no peito logo antes de disparar, pegou a mão da esposa, exclamando: “Meu Deus! Não se assuste!”.
Vitória se limitou a rir. Pensou que era alguém atirando nos passarinhos do parque. “Garanti a ele que não estava com o menor medo, o que de fato era verdade. Depois do primeiro tiro, nunca me passou pela cabeça, nem
pela dele, que era destinado a mim.” 3 Era, sim. O rapaz se chamava Edward Oxford, e era um garçom de bar desempregado de Birmingham, com vagos sonhos revolucionários. Trajava-se respeitavelmente com um fraque marrom, calças claras e um colete de seda. Estava imóvel, fitando o casal real com olhos escuros intensos.
Um segundo tiro atravessou o ar. Vitória se abaixou e dessa vez a bala passou assobiando por cima de sua cabeça, cravando-se num muro mais adiante. Albert mandou que o condutor prosseguisse, enquanto os transeuntes agarravam Oxford e o arrastavam até a polícia. Vitória, desafiadora, continuou a subir pelo Constitution Hill, detendo-se na casa da mãe em Belgrave Square, para lhe contar o acontecido. O jovem casal, agora com quatro meses de casados, atravessou o parque em marcha lenta na volta para o palácio, para Vitória tomar “um pouco de ar” e “mostrar às pessoas do público que não havíamos perdido toda a confiança nelas por
causa do ocorrido”, como escreveu Albert à avó.4 A calma de Vitória foi objeto de admiração nas notícias dos jornais do dia seguinte.
Na volta ao Palácio de Buckingham em carruagem aberta, havia uma multidão crescente de londrinos que tinham tirado o chapéu e bradavam seu apoio. Um grupo de cavalheiros e damas a cavalo, que estivera passeando pelo parque, reuniu-se em torno da carruagem da rainha, escoltando-a até o
palácio. Foi, escreveu ela em seu diário, como um “desfile triunfal”.5 Mas, finalmente chegando ao quarto, Vitória se sentou na cama, pálida e abalada, pela primeira vez mostrando vulnerabilidade. Albert a abraçou e a beijou, elogiando sua coragem. Vitória sabia que escapara por um fio à morte, e escreveu: “Escapamos realmente por obra providencial”. Mais tarde, Albert lhe mostrou as pistolas que “poderiam ter acabado comigo”. Ela terminou as anotações do dia em seu diário com uma oração de graças e então se aninhou em Albert, procurando não pensar no que poderia ter acontecido. Mas Deus salvara a rainha, e a onda crescente de simpatia popular afogou qualquer resquício dos escândalos do ano anterior envolvendo Lady Flora Hastings e a Crise da Câmara Real.
Vitória continuou a aparecer em público naquele verão após o atentado, andando em carruagem aberta, sem ceder. Ela entendera rapidamente que mostrar coragem em público, numa “ótica” ampla, como dizem os líderes modernos, despertaria em seus súditos uma reação poderosa. Começava a entender como se comportar, não só como mulher e rainha, mas como símbolo do país: como Britânia, que sabia como liderar e governar. O rei Leopoldo, escrevendo de Laeken tão logo soube do episódio, disse a Vitória: “Que você mostrou grande fortaleza, não há dúvida, e causará enorme e ótima impressão”. Agora ela entendia a importância da força
simbólica. 6
No miserável burgo de Southwark, a polícia se pôs a revistar o quarto de Edward Oxford, procurando um motivo. Apreenderam uma espada, um invólucro com arcos vermelhos, balas, pólvora e documentos pertencentes a uma associação chamada “Nova Inglaterra”. A pista vital parecia ser um documento sugerindo que fora instigado a agir por “alguns comunicados de
natureza importante vindos de Hanôver”.7 Isso desencadeou um certo pânico público: o temidíssimo tio de Vitória — o duque de Cumberland, com sua cicatriz no rosto, tão malfalado e que agora era o rei de Hanôver — estaria tentando matar a rainha antes que ela gerasse um herdeiro que tomaria seu lugar como o próximo na linha sucessória? As pistolas de prata usadas por Oxford traziam o monograma ER, que alguns aventaram
representar Ernestus Rex, rei de Hanôver.8 Todavia, todos os documentos
parecem ter sido escritos pelo próprio Oxford: eram apenas artimanhas.9
Na delegacia de polícia, o indivíduo que Lord Melbourne chamava de “vermezinho” estava “desfrutando imensamente a atenção”. Ao ser interrogado, Oxford mostrava desdém, autocontrole e arrogância. De vez em quando, ria. Queria saber como a rainha e o príncipe Albert tinham reagido ao ataque. Ao lhe dizerem que nenhum dos dois se assustou nem se alarmou, deu de ombros: “Ah, sei que foi o contrário; pois, quando disparei a primeira pistola, Albert estava para sair da carruagem, mas, quando me
viu apresentar a segunda pistola, recuou imediatamente”. 10
Leopoldo ficou surpreso com o ataque; não só Vitória era uma monarca liberal, mas também “seria de se pensar que, sendo você uma dama, isso por
si só impediria uma conduta tão covarde”.11 Na verdade, Oxford deu a entender que quis matá-la justamente porque era mulher. Falou aos policiais que seu verdadeiro motivo era pensar que um grande país como a Inglaterra
não devia ser governado por uma mulher.12 Oxford foi acusado de alta traição e enviado para a prisão de Newgate e depois para um hospício, onde
passou 27 anos até emigrar para a Austrália. 13
Entre 1840 e 1882, sete homens tentaram matar Vitória: jovens desempregados, um marceneiro, um ajudante de bar, o assistente de um químico, um trabalhador rural e um ex-oficial do Exército. Todos gozaram de uma efêmera celebridade na imprensa e depois desapareceram. Todos eram esquisitos, alguns insanos e outros plenamente lúcidos, e a maioria foi deportada para a Austrália, que na época funcionava como prisão à distância para os criminosos da Inglaterra. Houve quem atribuísse a súbita sucessão de ataques contra uma jovem poderosa a uma estranha “erotomania” contagiosa, pela qual os homens que tinham alimentado fantasias de ser amantes da rainha passaram “aos ciúmes após contínua
decepção”.14 Depois de um segundo atentado em 1842, a poeta Elizabeth Barrett (depois Browning) escreveu uma carta intrigada com “essa estranha mania popular de atirar na rainha”.
Estou muito zangada… Quem atirou em Jorge IV? Não eu, diz o pardal. Pobre Vitória! A despeito
da frieza, há uma corrente oculta — ela é um ser humano e uma mulher! Além do mais, sabe muito
bem que, mesmo entre seus maiores críticos, ninguém alega que ela não queira beneficiar seu povo
de acordo com seu entendimento. E o resumo da história é que ela está marcada como alvo por
esses garotinhos em seus domínios que gostam de brincar com pistolas! Isso é péssimo. Ouço dizer
que agora as pessoas vão ver a pobre rainha sair do palácio para seu passeio na expectativa de
emoções, com a ideia de vê-la alvejada: todos os dias há uma multidão junto aos portões!15
A reação de Vitória a cada atentado era a mesma: desafiava a situação e mostrava bravura, mas por dentro ficava abalada. Por que tantos homens, com seus transtornos mentais, queriam desposá-la, submetê-la ou matá-la? Nem mesmo a rainha poderosa e privilegiada estava a salvo da violência.
Naquela tarde de junho, a primeira coisa em que Albert pensou foi no filho ainda no ventre. Quando Edward Oxford atirou em Vitória, ela estava quase no quarto mês de gravidez, o que torna sua bravura ainda mais surpreendente. Na época, havia a crença supersticiosa na impressão materna — isto é, a crença de que os acontecimentos que perturbassem o espírito ou a mente de uma grávida iriam prejudicar, deformar ou causar distúrbios mentais na criança. (A biografia de Joseph Merrick, conhecido como o Homem-Elefante — uma das “aberrações” vitorianas mais confrangedoras — apresenta tal teoria como explicação de sua deformidade: a mãe fora surpreendida e pisoteada por um elefante quando o carregava no ventre. A doença genética que afetava Merrick, ainda misteriosa — pensa-se que era neurofibromatose ou síndrome de Proteu — não tinha nada a ver com o útero materno, mas essa ideia definiu a triste vida do Homem-Elefante.
Todos os anos, Vitória lhe enviava um bilhete escrito de próprio punho.)16
A preocupação real e mais prática de Vitória, porém, não era a impressão materna, e sim a mortandade materna. Cálculos conservadores indicam que, nos anos 1840, na Inglaterra, de quatro a cinco mulheres entre mil morriam
ao dar à luz.17 Alguns meses antes, ela tinha escrito que “a única coisa que me apavora” era engravidar e ter muitos filhos. As mulheres em parto morriam principalmente por febre puerperal, para a qual não havia cura, apesar das generosas doses de ópio e conhaque ministradas pelos médicos. Quando a Sociedade Médica Feminina recomendou que os médicos não fizessem o parto com as mãos sujas e contaminadas nas salas de dissecação, The Lancet escarneceu. Os médicos diziam que o problema não era contaminação e sim excesso de “emoção mental” das mulheres que
morriam.18 Vitória também era perseguida pela lembrança da morte de sua querida prima Charlotte, outrora herdeira do trono que morrera ao dar à luz. As mulheres das classes altas não estavam isentas dos riscos do parto. Em 1839, a princesa Marie de Württemberg, esposa de seu primo, morrera depois de parir um menino.
Vitória ficou furiosa quando descobriu que seu maior medo se concretizara poucas semanas depois do casamento. Confidenciou à avó, a duquesa mãe de Saxe-Coburgo-Gota: “Está estragando minha felicidade; sempre abominei a ideia e rezava a Deus dia e noite para me manter livre disso pelo menos durante seis meses, mas minhas orações não foram atendidas e me sinto mesmo profundamente infeliz”. Se fosse uma “menina
feia”, disse ela, iria afogá-la.19
Vitória adorava estar casada e queria passar todos os minutos com o marido. A gravidez interromperia a paz recém-encontrada. Sem a gravidez, a vida conjugal era uma “felicidade sem fim — se a pessoa tem um marido que adora! É um antegozo do paraíso”, escreveu mais tarde à sua filha mais
velha.20 Uma vez, conversando com Vitória sobre outra pessoa, Lady Lyttelton usou a expressão “feliz como uma rainha”, antes de se dar conta do que dizia. “Não se corrija”, respondeu Vitória, “uma rainha é mesmo
uma mulher muito feliz.”21 Era uma rainha que entrava correndo de camisola no quarto de Lady Lyttelton, para arrastá-la e lhe mostrar “o arco-íris mais lindo do mundo!”. Era uma rainha que se inclinava atentamente sobre tulipas, gerânios e abelhas rainhas enquanto Albert explicava suas curiosas características. Vitória logo declarou no diário que agora gostava
mais do campo do que de Londres.22
Vitória não permitiu que a barriga mudasse drasticamente sua vida nem que fosse sinal de fragilidade. Com a gravidez já visível, ela chocou os circunstantes num baile, dançando mais do que “uma enfermeira ou
parteiro” aprovaria, segundo Lord Holland.23 Não se sentava nas festas nem ficava dentro de casa em dias de mau tempo. Gabava-se de sua boa saúde para a irmã Feodora: “Estou maravilhosamente bem. Todos os dias faço longas caminhadas, algumas com a maior ventania, e assim me mantenho ativa, mas grandona, como infelizmente devo reconhecer”. Poucas semanas antes do parto, Lady Lyttelton comentou que ela estava “muito ativa; hoje saindo antes das dez da manhã, e parecendo decidida a aguentar e não se
queixar de nada”. 24 Albert tentava mantê-la parada, lendo ou cantando para ela, deitada no sofá.
Charles Locock, seu obstetra, ficou espantado com a franqueza de Vitória em relação à gravidez: “Ela não tinha a menor reserva e estava sempre pronta a se expressar nos termos mais diretos possíveis sobre sua atual situação”. Locock tomou grande aversão pela rainha, sugerindo que lhe faltava delicadeza por conversar abertamente com ele sobre seu corpo. De maneira imprópria e maliciosa, ele confidenciou a algumas amigas que o corpo de Vitória parecia uma barrica: “Ela vai ficar muito feia e enorme de gorda… Não usa espartilho nem nada que segure suas formas; parece mais uma barrica do que qualquer outra coisa”. Fazia pouco tempo que a ideia de que todas as grávidas deviam usar espartilhos começava a se dissolver, e
ainda davam à luz com saias, camisolas e camisões.25
Albert procurou tranquilizar a esposa sobre o parto que se aproximava. Solícito, atencioso e inteligente: os pontos fortes de Albert se faziam cada vez mais evidentes. As mulheres do palácio se derretiam com seus olhos
azuis, seus “gostos e prazeres simples, seu gênio alegre e ativo”.26 Reconheciam-lhe o mérito de elevar a qualidade das conversas na corte acima do nível habitual dos mexericos palacianos, passando a incluir ciências, artes e botânica. Era sério e incentivava Vitória a ler à noite, junto com ele, as histórias das constituições, mas também a fazia rir. Recomendando à esposa que ela devia apenas sorrir em público, como faziam as dançarinas, Albert deu um salto e fez uma pirueta no ar para ilustrar o que dizia.
Albert, porém, não era tão feliz quanto sua amada rainha. Em parte, isso se devia à atmosfera sufocante da Casa Real. Sentia saudades da família. As conversas lhe davam tédio e geralmente preferia jogar xadrez sozinho. Muitas vezes cabeceava de sono durante concertos e jantares. Parecia-lhe um desperdício de tempo. Albert queria usar o brilho da corte para convidar e atrair grandes intelectos literários e científicos. A rainha, porém, relutava; essas pessoas a deixavam insegura. Temia que lhe faltasse instrução, como Albert lhe havia dito, e como Melbourne dissera a Anson: “Ela é de natureza franca e aberta demais para fingir que tem um grão a mais de
conhecimento do que realmente possui sobre tais assuntos”. 27 Gostava que o marido não ficasse passando o tempo à toa com os homens depois do jantar, mas parecia não notar que ele se sentia simplesmente entediado.
O príncipe passava por longos períodos de melancolia dos quais a esposa não conseguia arrancá-lo. Quinze dias depois do casamento, quando o pai de Albert voltou para a Alemanha, Vitória o encontrou soluçando no corredor; ele passou rápido por ela sem lhe dizer uma palavra. Vitória entrou de mansinho no quarto dele, preocupada. Albert se virou para a esposa, com os olhos vermelhos, e murmurou que ela não sabia como era abandonar uma família afetuosa. Tinha razão. Vitória, ao se casar, ficara contente em largar o passado, deixando para trás a mãe, Conroy e outras pessoas molestas. Perturbada, Vitória escreveu depois: “Deus sabe como é
grande minha vontade de fazer esse Ser amado feliz e contente”.28
Mas o verdadeiro empecilho à felicidade de Albert era considerável. Sentia-se impaciente em se tornar efetivamente rei. Ele era ambicioso, de grande vivacidade intelectual, apavorado à ideia de ser visto como cônjuge decorativo enquanto a esposa percorria os corredores atapetados do poder. Também queria ajudar Vitória a evitar os vários tipos de lapsos que cometera ao assumir o trono. Queria ocupar o mesmo pódio exclusivo de soberania em que estava Vitória. Os próximos a Albert logo viram o desequilíbrio. Seu irmão Ernest notou que Vitória lhe assegurara “uma vida tranquila, feliz, mas insípida e inglória”, ao passo que, “como rainha, ela se
move em outro nível”. 29
Vitória estava satisfeita com o arranjo. Sabia que Albert queria ser o chefe da casa e concordava que esse era seu lugar de direito. Chegara a tentar lhe obter o título de rei consorte em fevereiro de 1845, cinco anos depois do
casamento, mas sem sucesso. 30 A questão, porém, era: o que significava ser o chefe da casa? Certamente não significava que ela abandonasse suas funções. Vitória protegia a coroa pela qual lutara e pretendia manter casamento e trabalho separados, continuando a se reunir sozinha com Melbourne e seus ministros. Mas Albert não aceitava ser excluído ou relegado a segundo plano. A seu ver, o marido devia controlar todos os assuntos da esposa. Como um homem estabeleceria sua autoridade natural num contexto desses?, perguntava-se ele. Escreveu a seu amigo, o príncipe William de Löwenstein, em maio: “Em minha vida doméstica, estou muito contente e feliz; mas a dificuldade em ocupar meu lugar com a devida
dignidade é que em casa sou apenas o marido, e não o senhor”.31
A convicção fundamental de Albert era que as mulheres não deviam governar, muito menos sozinhas. Em sua terra natal, Coburgo, vigorava a lei sálica, que estabelecia que os soberanos deviam ser do sexo masculino; por isso, quando Vitória subiu ao trono, a coroa de Hanôver passou para o sucessor seguinte, o duque de Cumberland. Assim, Vitória se tornou o primeiro membro da casa hanoveriana a ser monarca apenas da Inglaterra. O barão Stockmar, o rei Leopoldo e Ernest também eram da mesma posição de Albert. Em 1850, Albert disse ao duque de Wellington que acreditava ser seu dever:
preencher todas as lacunas que, como mulher, a rainha naturalmente deixaria no exercício de suas
funções reais — observar atenta e continuamente todos os aspectos dos assuntos públicos, a fim de
poder aconselhá-la e assisti-la a qualquer momento em qualquer das questões difíceis e
multifacetadas que lhe são apresentadas, políticas, sociais ou pessoais… colocar todo o seu tempo
e suas capacidades ao dispor dela como o chefe natural de sua família, superintendente de sua casa,
administrador de seus assuntos particulares, seu único conselheiro de confiança na política e o
único assistente em suas comunicações com os membros do governo, seu secretário particular e
seu ministro permanente.32
Era um leque de deveres extremamente amplo e abrangente. Mas os tempos condiziam com as aspirações de Albert. No século XIX, apenas uma fração infinitesimal das mulheres da aristocracia tinha mais fortuna e mais poder do que o marido. Em sua maioria, elas eram propriedade pessoal, sem direito ao corpo, a bens móveis e imóveis e aos filhos. Surgiram várias teorias para justificar tal posição: as mulheres pertenciam por natureza à esfera doméstica, e podiam alcançar algum prestígio ou posição tendo filhos e não dormindo com outros homens. Em outras palavras, sendo guardiãs morais do lar.
Isso significava que as pretensões de Albert encontravam um apoio cultural considerável, visto que grandes intelectuais da época concordavam com a inferioridade inata das mulheres. John Ruskin afirmou em 1864 que o estado natural das mulheres era “a verdadeira sujeição conjugal”. As mulheres não tinham capacidade para a batalha, dizia ele, “e seu intelecto não se presta à invenção ou criação, mas à doce organização, arranjo e
decisão”.33 Charles Darwin concordava, escrevendo em 1871 que a seleção natural significava que as mulheres eram inferiores aos homens. Concedia que elas eram mais ternas, mais intuitivas, mais perceptivas e menos egoístas, mas acrescentava: “Pelo menos algumas dessas faculdades são características das raças inferiores e, portanto, de um estágio anterior e
inferior de civilização”.34 Quando as esposas prometiam obedecer aos maridos, era por boas razões. Como escrevera a autora Sarah Stickney Ellis em 1843, de uma coisa as mulheres precisavam ter clareza antes de se casar: “a superioridade do marido pura e simplesmente como homem”. Ela dedicou seu famoso livro The Wives of England à rainha. “É plenamente possível”, prosseguia Ellis, “que você tenha mais talento, com realizações mais elevadas, e também pode ser mais admirada de modo geral; mas isso não tem nada a ver com sua posição como mulher, que é, e deve ser, inferior
à dele como homem.”35 A falta de lógica dessa posição alimentou a insatisfação de gerações e gerações de mulheres.
Mas Vitória fora ensinada a acreditar em tudo isso, e Albert a incentivava a crer que sua instrução e suas capacidades eram menores do que as dele. O paradoxo do casamento entre ambos é que, enquanto o amor e o contentamento dela aumentavam, sua confiança em si mesma decrescia. Como recomendavam seus conselheiros do sexo masculino, ela que se
contentasse com a vida doméstica. 36
Em maio, com três meses de casados, Albert decidiu abordar diretamente a questão de seu papel com a esposa. Depois de seu aniversário de 21 anos, que Vitória disse ser o mais feliz de sua vida, Albert se queixou de que ela não falava de política nem mesmo de “assuntos triviais” com ele. Vitória contou a Lord Melbourne, confidenciando-lhe que, embora Albert se sentisse desgostoso com a “falta de confiança”, ela não queria fazer nada a respeito. Lord Melbourne descreveu o diálogo numa conversa registrada pelo secretário particular de Albert, o sr. Anson:
Ela disse que isso derivava totalmente da indolência; sabia que era errado, mas, quando estava com
o príncipe, preferia falar de outros assuntos. Minha impressão é que o principal obstáculo na mente
de Sua Majestade é o medo à diferença de opinião, e ela pensa que é mais possível ter harmonia
doméstica evitando assuntos que possam criar divergências. Minha experiência pessoal me leva a
pensar que, entre marido e mulher, é muito melhor discutir do que evitar os assuntos, mesmo
certamente trazendo divergências, pois essa segunda linha de ação com certeza gerará
desconfiança.37
Todos os homens na vida de Vitória apoiavam as pretensões de Albert a mais poder. Diziam à rainha para acreditar nele, amparar-se nele, confiar nele. Mesmo seu querido tio Leopoldo concordava que “não devia haver ocultamento de nenhum assunto”. O perspicaz barão Stockmar foi o único a recomendar a Albert que não tivesse demasiada pressa em tentar obter as chaves do poder. Disse a Anson que, embora fosse verdade que a rainha deveria “partilhar tudo gradualmente” com o marido, era “arriscado da parte dele querer que isso ocorresse de uma vez só”. O risco era que Albert errasse ou exagerasse, e sua ajuda não seria solicitada outra vez. Stockmar também sugeriu que o problema da jovem Vitória não era tanto indolência, e sim ignorância, e que ela simplesmente não entendia grande parte do que
lhe informavam sobre os planos e projetos de lei de seus ministros.38
Vitória ignorou essas pressões e continuou a se reunir sozinha com seus ministros, embora eles começassem a ficar com pena do marido. Albert ainda não tinha autorização para ver os documentos oficiais nem para se sentar na sala durante as conversas entre a rainha e Lord Melbourne. Ela se ofendia quando ele tentava orientá-la ou aconselhá-la. Certa vez, quando Vitória recebeu uma caixa de documentos oficiais com uma nota dizendo para “assinar imediatamente”, Albert se sentiu atingido em lugar da esposa e lhe recomendou que levasse um ou dois dias para responder, para que eles
não achassem que a rainha era uma mera funcionária.39 Vitória então pegou a pena e assinou no mesmo instante. Tendo passado a infância a fortalecer sua firmeza, Vitória não se curvava facilmente à vontade dos outros. Mesmo assim, agora seus aliados de infância vinham falando os mesmos tipos de coisas que os inimigos antes falavam: que ela não era capaz de entender plenamente a política e que devia abrir mão do controle. Vitória podia dar de ombros quando tal tipo de comentário vinha de Conroy, mas era muito mais complicado quando vinha do marido.
A única pessoa que não achava que Vitória devia se submeter a Albert era a baronesa Lehzen, ela também uma mulher com grande experiência em oferecer resistência. Lehzen dissera à sua protegida que Albert devia desempenhar o mesmo papel dela: influente, mas invisível, posição admirável para uma mulher cujo papel oficial fora o de governanta. Mas, logo depois do casamento, Albert decidira que Lehzen devia ir embora. A esfera de influência da baronesa se ampliara: agora administrava as finanças de Vitória e atuava como sua secretária, controlando os diários e preparando ordens de pagamento. Para Albert, a mulher que se mantivera inabalável ao lado de Vitória durante sua difícil adolescência agora a controlava em um grau pouco saudável. Certa vez, andando pelo terraço com a rainha, Lady Lyttelton notou “o rosto pálido de madame Lehzen (o único rosto que sempre vejo que parece entender o que realmente se passa) com seu habitual olhar meio ansioso, sorridente, fixo, seguindo a rainha de uma das
janelas do castelo”.40 Lehzen via tudo. Para Vitória, era tranquilizador. Para Albert, era sinistro.
Albert, com sua habilidade, veio a intuir que não ganharia poder à força ou à base de exigências, e sim com uma ternura atenta. Enquanto a cintura da esposa crescia e diminuía, numa ciranda de gestações, ele a incentivava a aceitar seu apoio. Albert tentou uma espécie de paciência estratégica. Conseguiria as coisas por meio da vontade, da inteligência e, acima de tudo, de sua dedicação e solicitude para com a esposa. Ela resolveu lhe dar o que ele queria e precisava. Foi uma espécie de meiga rendição.
Nove dias antes que Edward Oxford apontasse sua arma contra a rainha grávida, Albert fez um discurso na Sociedade contra a Escravidão, que lhe dera bastante trabalho para preparar, embora tivesse apenas 165 palavras. As 5 mil ou 6 mil pessoas na plateia aplaudiram sonoramente, o que, disse ele, “é recompensa suficiente para o medo e o nervosismo que tive que
vencer antes de começar meu discurso”.41 Albert queria respeito. Levava suas obrigações a sério e vinha rapidamente encantando a corte. Lord Holland escreveu a Lord Granville comentando que “agora [era] moda
elogiar o príncipe Albert”. 42 Uma mulher, sentada a seu lado durante um jantar, escreveu afoitamente sobre a “conversa profundamente interessante
sobre os mais importantes temas”:43 “sobre o princípio religioso, sua influência nos soberanos e sua importância na educação dos filhos; e sobre as formas de culto, nossas posições a respeito delas… também sobre a formação das crianças de modo geral; sobre a guerra e a paz; sobre as prisões e as punições”. O príncipe consorte era um polímata por natureza.
A deliberada execução de Albert de seu projeto de governar a Inglaterra não significava que seu amor por Vitória tivesse diminuído. A posição de marido da rainha da Inglaterra fazia parte de um caminho que haviam escolhido para ele desde a mais tenra infância, o que significava que seu casamento também era sua carreira e ele sempre fora ponderado a esse respeito. Sabia que seria difícil e “profusamente semeado de espinhos”, mas decidiu que seria melhor que servisse “a algum objetivo digno e importante
do que a fins triviais e insignificantes”.44 Nas semanas subsequentes ao casamento, Ernest, o irmão de Albert, manteve o tio Leopoldo informado sobre os progressos do irmão. Em cartas inéditas que se encontram nos arquivos alemães, Ernest contava que “Albert fizera o certo ao não hesitar em dar sua opinião a respeito de tudo. Isso fez com que todas as ordens dentro do palácio e nas cavalariças passassem por ele e assim se tornara ‘o
grande canal pelo qual a vontade da rainha’ se expressava”.45 Quanto mais vulnerável e presa à terra se tornava a esposa grávida, mais se elevava a posição oficial de Albert.
Nos meses que se seguiram ao atentado, os homens em torno de Vitória começaram a se preparar discretamente para a possibilidade de sua morte — fosse por um disparo, durante o parto ou por qualquer outra causa imprevista. Em 2 de julho, três semanas após os tiros, Melbourne disse a Vitória que queria tratar de um assunto de “grande importância e de grande urgência” — Vitória sabia a que ele se referia? Não, não sabia. “É sobre uma Lei para uma Regência”, respondeu ele. Em julho de 1840, quando foi concedido a Albert o direito legal de governar no lugar da esposa em caso de morte, ele escreveu triunfante ao irmão Ernest: “Serei regente — sozinho — regente, sem um Conselho. Você há de entender a importância desse assunto e que isso confere à minha posição aqui no país um novo
significado”. 46 Melbourne disse a Vitória que o motivo da decisão do Parlamento foi exclusivamente o bom caráter de Albert, muito embora isso significasse que, se a rainha inglesa viesse a morrer, um príncipe alemão ocuparia a função.
Em agosto, o príncipe se encarapitou orgulhosamente num trono ao lado do de Vitória no encerramento do ano parlamentar, depois que Melbourne descobrira precedentes autorizando isso. Em setembro, Albert foi nomeado membro do Conselho Privado, e se gabou a Stockmar que agora recebia uma enxurrada de “documentos interessantes”. Ficara “extremamente satisfeito” com Vitória nos últimos meses, escrevendo num tom de leve condescendência: “Ela ficou de mau humor apenas duas vezes… no geral, a
cada dia ela deposita mais confiança em mim”.47 Em novembro, logo antes de dar à luz o primeiro filho, Vitória pediu e conseguiu que o nome de Albert fosse incluído na liturgia, como o do filho.
Mas a rainha não diminuiu o ritmo — trabalhou com afinco ao longo de todas as gestações. Estava preocupada com a Questão Oriental, como se dizia então: o impacto da decadência do enorme Império Otomano. Fundado em 1299, com seu centro na Turquia, veio a cobrir na época de sua maior extensão, nos séculos XVI e XVII, vastos territórios na Europa meridional, Oriente Médio, África do Norte, Corno da África e Ásia Ocidental. Mas, depois de décadas de baixo desenvolvimento econômico e de incompetência administrativa, o Império que ligava os mares Mediterrâneo, Egeu e Negro se enfraquecera: era o “homem doente da Europa”, como dizia o tsar Nicolau. A Inglaterra e a França pretendiam apoiar a Turquia e manter a Rússia fora do Mediterrâneo. Mas, quando o sultão otomano morreu e seu filho adolescente ocupou o poder em 1839, o vice-rei turco no Egito quis separar o país da Turquia. A Inglaterra, a Rússia, a Prússia e a Áustria estavam apoiando a Turquia, mas a França deu apoio ao Egito. Conseguiram evitar a guerra por pouco, e em 1840 foi assinado um acordo de paz em Londres. Vitória disse ao tio Leopoldo que dava “a esses assuntos minha mais séria atenção” e gracejou: “Creio que nosso filho, além de seus outros nomes, devia ter os de Turco Egypto, pois
não pensamos em outra coisa… Espero que eu tenha agido bem”.48
Não demorou muito e Albert providenciou que as duas escrivaninhas de madeira maciça, a dele e a de Vitória, ficassem juntas, para poderem trabalhar lado a lado. Logo antes do nascimento da criança, ele escreveu ao irmão: “Gostaria que você pudesse nos ver aqui e visse em nós um casal unido no amor e na concordância. Agora Vitória também está disposta a ceder alguma coisa em meu favor, e eu tudo em favor dela… Não pense que levo uma vida submissa. Pelo contrário, aqui, em que é essa a posição do
homem por lei, conquistei uma vida de valor por mim mesmo”.49
***
O parto de Vitória se adiantou em três semanas, em 21 de novembro de 1840, à tarde. As contrações haviam começado na noite anterior, ao despertar com o barulho da chuva batendo nas janelas. Ela acordou Albert e passou as horas seguintes sofrendo muitas dores. (Como de hábito, mais tarde ela alegou que, iniciado o trabalho de parto, não sentiu a mais leve ponta de nervosismo.)
Numa iniciativa incomum na época, Albert esteve com ela durante todo o parto, junto com o médico e a enfermeira. Na sala ao lado, estavam políticos do Estado, um bispo, um arcebispo e Lord Melbourne, todos aguçando os ouvidos enquanto a rainha arquejava e tentava não gritar. (Lord Erroll, o lorde administrador da Casa Real, alardeou mais tarde que a porta ficara aberta e assim ele teve visão completa da rainha.) Terminado o suplício, uma menininha vermelhusca, remexendo-se, foi conduzida ao outro aposento para inspeção. Estava em perfeita saúde, mas os pais (e muitos súditos) ficaram decepcionados com o sexo. Quando o médico anunciou à rainha: “Ah, senhora, é uma princesa”, Vitória respondeu: “Não
faz mal, o próximo será um príncipe”. 50
Vitória se reclinou nos travesseiros da cama de mogno com dossel, declarou se sentir muito melhor e olhou orgulhosa para o marido, que sorriu e lhe apertou a mão: “O querido Albert praticamente não me deixou um
instante e foi o maior conforto e apoio”.51 Logo, porém, ele engoliu às pressas um almoço rápido, antes de disparar escadas abaixo para, pela primeira vez, representar a rainha no Conselho Privado. Ela estava aliviada: sobrevivera. Lá fora, estrugiram canhões. Albert estava em êxtase. Tornara-se pai e representante da rainha no mesmo dia.
Vitória ficou de resguardo na cama por duas semanas, como era costume. Levavam-lhe a bebê duas vezes por dia, quando estava em seu quarto de vestir, e assistia ao banho que lhe davam a cada duas ou três semanas. Chamava-a de “a Criança” até ser batizada como Victoria Adelaide Mary Louisa, quase três meses depois. Em anos futuros, Vitória revelou que não achava os bebezinhos bonitinhos, especialmente os recém-nascidos, com seus membros magros e sarapintados e os reflexos assustados. (Criticam-na por dizer que os bebês “pareciam rãs”, mas isso não era depreciativo; qualquer pessoa que tenha alimentado, banhado ou soprado o estômago de um bebê de poucos dias sabe muito bem que os membros se mexem como se levassem um susto, no chamado reflexo de Moro. Parecem mesmo umas rãs deitadas de costas.) Por causa disso, em quase todas as principais biografias aparece o mito persistente e entranhado de que a rainha não tinha nenhum instinto materno.
Como demonstrou Yvonne Ward, da Universidade La Trobe, a seleção das cartas de Vitória para publicação foi feita por dois homens, que deixaram de lado a correspondência da rainha com outras mulheres sobre temas como bebês, dentição e gravidez, por considerá-la mais amena e de menor
importância.52 Isso significa que os comentários francamente rebeldes e heterodoxos de Vitória à filha Vicky — sobre os problemas e dificuldades do nascimento, escritos depois que quase todos os nove filhos já eram crescidos — são tomados como prova de que ela desprezava a prole. Nessas cartas vibra a aversão ao sofrimento físico de dar à luz — e, no caso de Vitória, de dar à luz um número tão grande de filhos. Nessas cartas, ela não comentava o efeito dos partos sobre o corpo, mas falava várias vezes da dor; não deve ter sido pequena para a constituição miúda de uma mulher que não chegava a um metro e meio de altura. É provável que tenha sofrido prolapso do útero nesses anos, e existem evidências que ela tenha sofrido problemas ginecológicos persistentes e dolorosos. Mas o que ela escreveu no diário, na época em que teve os filhos, revela uma ternura e um otimismo que têm sido esquecidos.
Vitória era, em muitos aspectos, uma mãe coruja. Os diários mostram seu afeto e amor pelos filhos e quanto adorava brincar com eles. Quando Vicky estava com três semanas de vida, Vitória escreveu que “nossa querida filhinha” ficava “a cada dia mais bonita”: “Tem olhos azuis grandes e brilhantes e um lindo narizinho e boquinha, uma aparência muito boa com
um leve colorido nas bochechas, muito incomum para um bebê tão novo”.53 Quatro semanas depois do nascimento, ela escreveu: “Parece um sonho, ter
filho”. 54 O diário no começo de 1841 é um registro de alegrias: exibir a linda menininha, brincar com Vicky enquanto Albert toca piano ao lado, olhar Albert empurrando Vicky num carrinho lá fora. Ria às tentativas da filha de se pôr sentada, brincava de upa-upa nos joelhos. Escrevia que era
uma “querida”, “uma gracinha”. 55 Enquanto escrevia em seu diário, segurava-a no colo com um dos braços, deixando-a brincar com uns berloques.
No Natal de 1840, comentou maravilhada sua grande sorte: “Neste dia, no ano passado, eu era solteira, e neste ano tenho um marido que é um anjo e
uma querida menininha com cinco semanas de idade”.56 Quando Vicky estava com um ano e meio, Vitória escreveu que ela se tornara “uma verdadeira bonequinha para nós e uma grande diversão, sempre sorrindo
com muita doçura quando brincamos com ela”.57 A rainha passava com Pussy, o apelido que dera à filha, mais tempo do que se esperava. Lady Lyttelton, que passou a ser a governanta das crianças em 1842, escreveu que Vitória estava “constantemente” com a menina e se preocupava com seu desenvolvimento: “A rainha é, como todas as mães jovens, exigente e nunca considera que o bebê está crescendo o suficiente ou está suficientemente
bem.58 Fica sempre com ela e pensa sem cessar nela, e também parece cada vez mais amorosa e devotada ao príncipe”.
A maternidade foi uma surpresa para Vitória. A mocinha que invejara a vida doméstica aconchegante dos ciganos agora estava surpresa ao se ver no centro de uma família amorosa. Albert era sempre gentil, atencioso e bondoso. Anos depois, relembrando essa época, a rainha não conteve seus arroubos, escrevendo em terceira pessoa:
Os cuidados e a devoção do príncipe eram indescritíveis… Ficava contente em se sentar a seu lado
[da rainha] num quarto sombreado, para lhe ler ou escrever por ela. Era o único, sempre, a erguê-la
da cama e levá-la para o sofá, e sempre ajudava a transportá-la em sua cama ou sofá ao aposento
contíguo. Quando era chamado para tal finalidade, vinha imediatamente de qualquer parte da casa
para atendê-la. Com o passar dos anos, e estando ele sobrecarregado de trabalho, muitas vezes isso
lhe trazia grandes inconvenientes; mas sempre vinha com um sorriso meigo na face. Em suma, ele
cuidava dela como uma mãe e não poderia existir pajem mais meigo, sábio e judicioso.59
Em muitos aspectos, era Albert que assumia o papel tradicionalmente feminino enquanto Vitória recuperava a saúde. Era a pajem terna e a mãe vigilante. Pussy corria para ele, e era ele que a erguia no ar, rodopiando pelo aposento, para fazê-la rir. Vitória não sentia o menor ciúme; também adorava Albert e, naquela época, o instinto materno não era glorificado nem elevado acima do paterno. Simplesmente ele era o genitor mais natural. Vitória contou a Leopoldo: “Nossa jovem senhorita floresce exuberante… Creio que você se divertiria em ver Albert dançando com ela nos braços; ele dá uma pajem maravilhosa (o que não sou, e ela está pesada demais para eu
conseguir carregá-la), e já parece feliz em ficar com ele”.60 O que Vitória mais queria era que os filhos se parecessem com o pai.
As crianças fascinavam o intelecto inquisitivo de Albert. Quando Pussy estava com dois anos e meio, ele escreveu à madrasta comentando seu prazer em ser pai:
Há certamente um grande encanto, além de um profundo interesse, em observar o desenvolvimento
dos sentimentos e faculdades numa criança pequena, e não existe nada mais instrutivo para o
conhecimento de nossa própria natureza do que observar numa criaturinha os estágios de
desenvolvimento que, quando nós mesmos passávamos por eles, mal pareciam existir para nós.
Sinto isso todos os dias ao observar nossa jovem prole, de personalidades totalmente distintas e
ambas mostrando muitas qualidades adoráveis.61
Albert encomendou ao pintor favorito da família real, Edwin Henry Landseer, um retrato seu em pastel, em seu aniversário de 23 anos, para dar a Vitória. Ele aparece embalando a princesinha no berço, fitando-a com ar de adoração. A dedicação de Albert era uma maneira de curar a fragmentação do lar de sua infância. Escreveu ao irmão: “A vida de casado é a única coisa capaz de compensar as relações perdidas de nossa
meninice”.62
Como grande parte do trabalho físico de cuidar das crianças ficava a cargo de suas criadas, em um mês Vitória já estava de pé, planejando uma viagem a Windsor. Nas cartas ao tio Leopoldo, no começo de 1841, ela começou a passar dos assuntos de bebês para os de política externa: “Sua sobrinha-neta cresce maravilhosamente; a cada dia ganha saúde, força e, diria eu, beleza; terei orgulho em apresentá-la a você. O desfecho da Questão Oriental foi
muito infeliz, não é?”.63 Quando Leopoldo respondeu encantado com votos de uma família numerosa e feliz, ela retrucou ríspida, dizendo-lhe para não
alimentar ilusões.64 Ainda se via, em primeiro lugar e acima de tudo, como a dirigente do país e nisso consistia sua responsabilidade:
Penso, caríssimo tio, que você não pode realmente desejar que eu seja a “mamãe d’une nombreuse
famille”, pois creio que concordará comigo quanto ao grande inconveniente que uma grande
família seria para todos nós, em especial para o país, independentemente do sofrimento e
inconveniente para mim mesma; os homens nunca ou, pelo menos, raramente pensam como é duro
para nós mulheres passarmos por isso com grande frequência.65
Assim, quando se viu grávida outra vez, passados apenas três meses após o parto, Vitória chorou e rangeu os dentes. Não teve o auxílio contraceptivo natural — ainda que imperfeito — da amamentação ao peito, pois se recusava a amamentar os filhos como fizera sua mãe, e o controle contraceptivo era, de modo geral, visto como pecado. Algumas mulheres tentavam revestir a vagina com óleo de cedro, oliva, grafite ou olíbano, na
crença de que isso impediria que a “semente” se implantasse.66 Em 1838, muitas aristocratas usavam uma esponja “do tamanho que se pudesse introduzir com facilidade, tendo antes amarrado um barbante ou uma fita
estreita para retirá-la”.67 Mas não existem indicações de que Vitória sequer tivesse ouvido falar disso. Aconselhava-se também que as mulheres, se quisessem evitar a gravidez, mantivessem relações sexuais na época da ovulação, que agora sabemos ser justamente a fase em que a maioria engravida. A rainha ficou tristíssima, e mais tarde disse a Vicky, já adulta, que os dois primeiros anos da vida de casada foram “totalmente estragados”
pela gravidez. 68 Tinha que desgrudar do marido, e mais tarde se queixou de que não aproveitou nada naquela época. Já Albert estava adorando sua nova vida.
No final de 1840, Albert recebeu as chaves de bronze das caixas retangulares vermelhas, em que vinham materiais confidenciais para serem despachados. Dentro delas, estavam os documentos revelando as ideias do primeiro-ministro, do gabinete ministerial e dos outros homens que discutiam as grandes questões sociais, econômicas e geopolíticas da década. Albert, enfiando a chave na fechadura pela primeira vez sem estar sob os olhos da esposa, vibrou. Ele sabia que grande parte de seu sucesso se devia ao resguardo da esposa, precisando ser erguida do sofá para a cama, mas também fora por mérito próprio. Seu secretário e paladino, Anson, observou:
Isso sucedera porque o príncipe havia recebido e feito anotações sobre todas as questões do
gabinete durante o confinamento da rainha, fato esse que evidenciara à rainha sua competência no
assunto e sua capacidade de ajudar no exame e nas explicações… [Agora ele era] de fato, embora
não de nome, o secretário particular de Sua Majestade.69
Bastaram apenas dois dias desde o parto para o príncipe persuadir a esposa a ser ele a receber as caixas de documentos. Em 24 de novembro, alardeou ao irmão, que estava a cargo de um pequeno ducado alemão: “Estou com as mãos muito ocupadas, pois também cuido dos assuntos
políticos de Vitória”.70
Por esforço, mérito e encanto, Albert conquistara sua nova posição como
chefe da casa e monarca em exercício.71 Em julho de 1841, quando Vicky estava com oito meses de idade, Anson registrou a satisfação dele:
Ontem o príncipe passou em revista os vários passos que deu para chegar à sua posição atual, tudo
em dezoito meses de casamento. Os que pretendiam impedi-lo de ser útil à rainha, por medo de
que ele tocasse nas prerrogativas dela, viram-se totalmente frustrados… A corte, do mais alto ao
mais baixo escalão, tem agora o devido senso da posição do marido da rainha. O país demonstrou
confiança em seu caráter aprovando a Lei da Regência nem. con. [por unanimidade; nemine
contradicente]. A rainha vê o valor de um braço direito ativo e de um cérebro capaz que lhe dão
apoio e conselho em caso de necessidade. Os ministros do gabinete o tratam com deferência e
respeito.72
No aniversário do primeiro ano de casamento, em 1841, Albert deu à esposa um broche em formato de berço com um bebê: “a coisa mais estranha que eu já vi e muito bonita”, escreveu Vitória. Esse ano, declarou
ela, fora de “felicidade perfeita”. 73 Albert era responsável por isso, mas suas perspectivas se estendiam muito além das paredes do berçário. Gostava de música, artes, ciências, medidas de saneamento e simetria, e queria aumentar a presença delas na Grã-Bretanha. Agora que lhe fora concedido entrar nas discussões políticas do mais alto nível, Albert iria trabalhar muito por um país que ainda o via como estrangeiro. Restavam apenas dois consideráveis empecilhos a seu poder: Lord Melbourne e a baronesa Lehzen, as duas pessoas de quem Vitória era mais próxima. Para conseguir o que realmente queria, ele precisava que fossem embora.