Vitória, a rainha
26. “Dois couraçados colidindo”: A rainha e o sr. Gladstone
26. “Dois couraçados colidindo”: A
rainha e o sr. Gladstone
Mein Gott! Que mulher, aquela! Com ela dá para negociar!
OTTO VON BISMARCK1
Às vezes os sujeitos mais esquisitos dão os maiores heróis. Homem magro, sempre mal-ajambrado, o general Charles George Gordon era muitas vezes considerado arrogante e presunçoso. Quando menino, gostava de pregar peças nos colegas de escola e sonhava em ser eunuco. Como cadete, batia nos mais novos com escovas ou vassouras. Na época em que era tenente do Exército britânico, era um cristão fanático que desprezava os confortos materiais, insistia em receber um baixo soldo e ansiava pela morte. Dizia que lutara na Guerra da Crimeia na esperança de que o matassem. Como no caso de Napoleão III, os olhos cinza-azulado de Gordon eram tidos como a chave secreta do misterioso controle que exercia sobre grandes contingentes humanos, principalmente, em seu caso, as forças tribais inimigas na China e na África. Quando não estava na guerra, Gordon cuidava dos doentes e pobres nos asilos de Kent e recolhia moleques de rua. Também tinha uma inexplicável predileção, provavelmente duvidosa, pela companhia de garotos.
Essa excentricidade não foi obstáculo para a celebridade de Gordon. Na metade do século, quando Vitória se afligia com a Questão Oriental e a queda do Império Otomano, Gordon desempenhou um papel fundamental no esmagamento da Revolta de Taiping na China, uma guerra civil brutal que se prolongou de 1850 a 1864, na qual morreram pelo menos 20 milhões de pessoas. O homem que conduziu o “Exército Sempre Invicto”, composto de soldados chineses, a uma sucessão de vitórias passou a ser conhecido como “Gordon Chinês” e seu nome viria a se converter em lenda imperial.
Em 1882, apesar da relutância de Gladstone, os britânicos ocuparam o Egito, que na época era nominalmente uma província turca. A política britânica era um tanto confusa, mas a intenção inicial era ajudar o trono egípcio a evitar um motim militar e a ruína econômica, bem como proteger o Canal do Suez e os investimentos britânicos feitos no Egito após a inauguração do canal, em 1869. Não muito depois, no vizinho Sudão, surgiu um místico carismático que declarou guerra santa pela independência da nação, libertando-se do domínio turco-egípcio. O místico se dava o nome de Muhammad al-Mahdi, o Messias Islâmico. Em 1883, o governo sudanês tentou esmagá-lo, mas não conseguiu. As tropas egípcias lá presentes não foram suficientes para repelir os rebeldes, e logo ficou claro que os egípcios no Sudão teriam de ser evacuados, junto com todos os cidadãos britânicos. O gabinete ministerial de Gladstone era ambíguo quanto à intervenção. A rainha não. Ela queria esmagar o Mahdi, mas outros, sobretudo liberais como Gladstone, queriam a retirada de todas as tropas.
O general Gordon parecia um candidato improvável para resolver o dilema. Agora com 51 anos, com sua fama já apagada, devia seguir para o Congo, onde suspeitava — ou esperava — que iria morrer. Os políticos que o admiravam em público consideravam em privado que ele não regulava bem. E. W. Hamilton, secretário de Gladstone, chamava-o de “fatalista semidoido”. Sir Robert Hart, funcionário consular britânico na China, achava que ele estava “plenamente em si”. Mas, depois que Gordon concedeu uma entrevista ao famoso editor W. T. Stead dizendo que trataria a crise do Sudão como havia feito na China — e que não deviam abandonar, e sim fortificar Cartum, a capital do Sudão —, a imprensa londrina mais sensacionalista passou a apregoar “Gordon para o Sudão”.
De início, Gladstone resistiu à pressão de encaminhar Gordon a uma missão indefinida. Não queria se envolver com o Egito, preferia abandonar totalmente o Sudão e não queria perder tempo ou recursos garantindo mais territórios. Por que enviar um aventureiro agressivo para organizar uma retirada? Apesar disso, e imaginando que a missão seria breve, ele cedeu aos argumentos de que Gordon poderia aconselhar na estratégia, sem a
executar pessoalmente.2 Vã esperança: Gordon era de gênio independente, com profundo desprezo pela autoridade. Achava que o gabinete ministerial britânico era composto de charlatães e julgava responder a uma autoridade muito mais alta, nos céus. Somos joguetes dos acontecimentos, dizia à irmã:
“Somos pianos”.3
E assim o concerto começou. Gordon enviou um telegrama tipicamente curto e grosso para o governador em Cartum: “Não seja covarde. Vocês são
homens, não mulheres, estou chegando. Diga aos moradores”.4 Ele conseguiu evacuar 2500 mulheres, crianças e feridos antes que os mahdistas rebeldes cercassem a cidade, deixando-o preso ali dentro. Gordon se encarniçou na luta. O governo britânico passou o verão de 1884 se perguntando se enviaria tropas para resgatá-lo; ele recebera ordens de deixar o Sudão, não de ocupá-lo. Gordon estava ciente de sua quebra da disciplina, escrevendo no diário em 19 de setembro: “Reconheço ter sido muito insubordinado ao governo de Sua Majestade e seus servidores, mas é
de minha natureza e não tenho como evitar”.5 Sua insolência o tornou ainda mais estimado entre o público. Charles Dilke, integrante do gabinete radical que apoiara o envio e o resgate de Gordon, alertara em março, depois de receber uma dúzia de telegramas “extraordinários”: “[Estamos] evidentemente lidando com um desvairado sob a influência daquele clima da África Central que age mesmo sobre o mais são dos homens como uma
bebida forte”.6
Passaram-se meses enquanto o governo debatia se enviariam soldados e, em caso afirmativo, de que espécie e em que quantidade, e por qual rota seguiriam. Vitória, colérica, insistia com Gladstone que apoiasse Gordon, a
quem tinha na conta de “homem absolutamente extraordinário”.7 Sentindo-se preocupadíssima com a segurança dele, resolveu entrar em contato direto com seus generais. Ao receber uma repreensão do ministro da Guerra, Lord Hartington, ela retrucou: “A rainha sempre telegrafou diretamente para seus generais e sempre procederá assim… A rainha não admitirá ordens. Não será uma máquina”. Então contrariou diretamente o conselho do primeiro-ministro, recomendando ao general Wolseley, ao ser enviado para Cartum,
que garantisse que os soldados ficassem no Sudão.8 Ela se queixou a Vicky que sua posição à frente do Império não dava nenhum prazer, pois, “apesar de advertir e escrever, insinuar e falar… não fazem nada enquanto não têm
uma pistola apontada para o peito”. 9 Disse ao primeiro-ministro em 9 de fevereiro de 1884 que “tremia” pela segurança de Gordon, o qual estava indo do Cairo para Cartum: “Se acontecer alguma coisa a ele, o resultado
será terrível”. 10
O cerco de Cartum começou em 13 de março de 1884. Somente em novembro o Exército britânico se pôs em marcha para ajudá-lo.
Depois de um cerco que durara mais de trezentos dias, Gordon foi morto pelos mahdistas. Fincaram barbaramente sua cabeça cortada numa árvore do acampamento. Sua morte se deu em 26 de janeiro de 1885. A expedição britânica de socorro chegou a Cartum após dois dias. A notícia da morte de Gordon chegou a Londres dez dias depois. Vitória rugiu de ódio. Era, para
ela, uma humilhação profundamente pessoal.11 Culpou o governo: “Sobre a cabeça deles”, escreveu a Vicky, “pesa o precioso sangue de Gordon e de milhares!”. Estava com a consciência limpa: “Adverti, insisti sem cessar, tudo em vão. [Mas] sr. Gladstone… ficará marcado para sempre com o
sangue de Gordon, aquele homem heroico”.12
A rainha concluiu que era hora de dar um passo extremamente irregular. Enviou um telegrama en clair — e assim todos poderiam lê-lo, pois não era secreto — a Gladstone, ao ministro das Relações Exteriores, Lord Granville, e ao ministro da Guerra, Lord Hartington. O chefe da estação de trem de Carnforth Junction entregou o telegrama ao primeiro-ministro, quando voltava de Lancashire — onde estivera hospedado com o duque de Devonshire — para Londres, ao saber da notícia da morte de Gordon. Ele abriu o telegrama e leu as palavras ásperas da rainha: “Essas notícias de Cartum são terríveis e é assustador demais pensar que tudo isso poderia ter sido evitado e muitas vidas preciosas estariam salvas se se agisse antes”. Furioso, Gladstone jurou que nunca mais pisaria em Windsor e pensou em renunciar.
Naquela noite, a rainha recebeu uma resposta firme e cuidadosamente elaborada. Gladstone escreveu que, embora não “pretenda avaliar os meios de julgamento de que dispõe Vossa Majestade”, não se sentia, pelas lembranças e pelas informações de que dispunha, “plenamente capaz de concordar com a conclusão que aprouve a Vossa Majestade anunciar”. Em outras palavras, ela estava equivocada. As forças britânicas, comandadas por Lord Wolseley, poderiam ter chegado a Cartum em tempo de salvar Gordon, escreveu ele, se não tivessem sido retardadas por tomar uma rota
sinuosa ao longo do rio, “por determinação expressa do general Gordon”.13 Tecnicamente, ele tinha razão, mas a questão não era propriamente essa. Vitória havia insistido na ação dez meses antes de ser empreendida; não era uma questão de dias.
Sofrendo novamente de “hiperatividade dos intestinos”, Gladstone
adoeceu e ficou com as mãos cheias de urticária.14 Foi assistir a uma peça em 19 de fevereiro de 1885, o mesmo dia em que chegou a notícia da morte de seu general, e mal mencionou Gordon no Parlamento — e não foi o elaborado lamento que Disraeli teria feito, como bem sabia Vitória. Gladstone tinha razão no sentido de que, estrategicamente, Cartum pouco significava para o Império Britânico, mas estava calamitosamente errado sobre o impacto da perda de um general do porte de Gordon para seu partido. Os tories adoraram receber tal munição com tanta facilidade, um símbolo da visível falta de ambição imperial dos liberais. O apelido de GOM (Grand Old Man) foi invertido para MOG (Murderer of Gordon, assassino de Gordon).
A essa altura, Gladstone mal conseguia ocultar seu desprezo pela rainha voluntariosa. Abria as reuniões do gabinete lendo em voz alta os ditames de Vitória, então enfiava suas cartas de volta no bolso e dizia em tom superior:
“E agora, senhores, ao trabalho”.15 Em abril de 1885, declarou que as
posições de Vitória eram “totalmente imprestáveis”. 16 O que ele não conseguia entender era que, bem ou mal, Vitória tinha um misterioso talento de expressar a opinião de muitos súditos seus. Desenvolvera instintos políticos melhores do que os de muitos ministros seus. E às vezes suas intervenções tinham êxito. Em 1884, por exemplo, o Parlamento estava empacado no Terceiro Projeto de Lei da Reforma, que estendia o direito de voto aos trabalhadores rurais. Vitória, de modo geral, era favorável à reforma eleitoral, mas não gostava das perturbações que isso causava. Estava otimista quanto ao projeto, mas horrorizada com as propostas de alguns liberais para a abolição da Câmara dos Lordes. Instruiu Gladstone a refrear “alguns de seus colegas e adeptos impulsivos” e declarou que a posição de monarca ficaria “totalmente insustentável” se não restasse nenhum equilíbrio do poder.
Vitória insistira que os liberais se entendessem com os tories, os quais mantinham a posição inflexível de que só aprovariam o Projeto de Reforma se, ao mesmo tempo, fosse apresentado um projeto de lei de redistribuição. A negociação resultou na concordância da Câmara dos Lordes em aprovar a reforma, enquanto um projeto de redistribuição recém-negociado dava entrada na Câmara dos Comuns. Lord Granville elogiou a “poderosa influência” da rainha e Henry Ponsonby lhe reconheceu o mérito de “martelar incessantemente os dois lados para serem moderados e insistir no
acordo entre eles”.17 Quando Gladstone lhe agradeceu, Vitória deu uma resposta um tanto teatral: “Poder ser útil é a única coisa que agora me
importa na vida”.18 Estava com sessenta e poucos anos e se concentrava no trabalho. Com seu êxito na negociação daquele acordo, Vitória se convenceu de duas coisas: a premonitória possibilidade de criar um terceiro partido, de centro, e a eficácia de sua influência pessoal.
Mas a política externa foi uma área em que a influência de Vitória ficou praticamente paralisada durante o mandato de Gladstone. Gladstone tinha uma aversão congênita ao chauvinismo e à expansão como fim em si mesmo, mas o país continuava imperialista. Relutante, teve de ser empurrado para entrar em guerras coloniais na África do Norte e do Sul, bem como na Ásia Central. Como escreveu seu biógrafo Roy Jenkins, Gladstone ficou com “o pior dos dois mundos… Desde o começo, um governo eleito com uma plataforma amplamente anti-imperialista se viu na
incômoda posição de chapinhar em inúmeros atoleiros imperiais”.19 A política externa resultante era incoerente — se as forças britânicas se retiraram do Transvaal em 1881, em 1882 ocuparam o Egito; se o gabinete enviou Gordon para resgatar os britânicos no Sudão, negou-se a socorrê-lo quando estava sitiado. No Castelo de Windsor, havia num corredor um busto de mármore do general Gordon como fria lembrança de sua morte.
Por sete penosos meses em 1884, o silêncio em torno da mesa real tinha sido glacial. De maio a novembro, Vitória e Beatrice deixaram de se falar, passando bilhetinhos pela mesa a fim de se comunicarem, enquanto garfos e facas tilintavam na porcelana dos pratos. O grande bloco de gelo que Vitória costumava colocar nas mesas de jantar para refrescar o ar durante o verão se tornou quase dispensável. Era uma situação muito constrangedora, sobretudo em vista da usual proximidade entre elas. Até aquele momento, a filha caçula de Vitória sempre mostrara obediência. Mas agora tinha se apaixonado pelo belo príncipe Henry de Battenberg, bem debaixo do nariz
de Vitória.* Quando Beatrice, a filha tímida e respeitosa de 27 anos, confessou que o príncipe Henry lhe cativara o coração, Vitória se mostrou previsivelmente egoísta e melodramática: “O prazer morreu para sempre em
minha vida”.20
Fazia tempo que ela temia esse momento. Tentara impedir que se pronunciasse a palavra “casamento” na frente de Beatrice. Assegurara que a filha nunca ficasse sozinha num aposento com um homem e nunca dançasse com ninguém, a não ser com os irmãos. Postergara sua crisma. Queria proteger sua amada caçula de uma instituição que via com grande ceticismo; afinal, Vitória agora dizia odiar o casamento. Adorara o seu, claro, mas considerava as contínuas gestações traumáticas e dolorosas, a perda de um filho constituía uma dor insuportável e, além do mais, os casamentos eram, em sua maioria, infelizes. Sua própria família era prova disso. Vicky era infeliz na Prússia, submetida aos sogros críticos e controladores; Louise desposara um homem tido como homossexual e se entregara a uma série de amantes; Alice morrera numa terra distante; apenas a introvertida Helena vivia feliz com o marido, ali perto. Vitória falou desconsolada: “Quanto mais eu vivo, mais acredito que raramente os matrimônios trazem verdadeira felicidade. A maioria é de conveniência — não de verdadeira felicidade —, embora, claro, quando o é, seja
grandemente valorizado, mas é muito raro que dure”.21
De um ponto de vista moderno, o controle de Vitória sobre Beatrice parece egoísta e sufocante, e de fato era, em muitos aspectos. Mas, no século XIX, também era prática usual que as filhas mais novas se dedicassem aos pais idosos. Todo o resto devia ser sacrificado a isso. Muitas filhas de classe média se exasperavam com os limites da existência
de solteironas; não era o caso, porém, da dócil Beatrice.22 Mas agora ela tinha uma chance de felicidade com “Liko”. Beatrice também podia ser teimosa, contrapondo seu próprio silêncio ao obstinado silêncio materno. Liko era um ótimo partido: gentil, elegante e espirituoso. O silêncio finalmente foi rompido quando três protetores masculinos — Bertie; o grão-duque Louis de Hesse, viúvo de Alice; e seu irmão, o príncipe Louis de Battenberg — saíram em defesa de Beatrice. Vitória apresentou suas condições para aprovar o casamento: o casal teria de morar com ela, sempre, sem ter nenhuma morada própria. Cansada, Beatrice prontamente concordou — e Liko também, pois afinal nem tinha muitas posses.
As bodas se realizaram em 23 de julho de 1885, um dia quente e ensolarado, numa igreja perto de Osborne. Foi pequeno o número de presentes à cerimônia; Vitória, notadamente, não convidou Gladstone. Beatrice usava renda branca e flores de laranjeira, como usara a mãe, e tomou de empréstimo seu véu de noiva. Vitória, emocionada, comentou que
Beatrice estava “muito doce, pura e calma”.23 Na noite anterior, a rainha saíra discretamente com Beatrice de uma movimentada soirée, acompanhando-a até seu quarto, e lhe deu um grande abraço apertado,
chorando. 24 Em certo sentido, deixava partir a última filha, depois de mais de quarenta anos de maternidade. Saiu dali com lágrimas nos olhos e foi se deitar, olhando pela janela as decorações iluminadas em volta da casa e dos jardins, rezando e pedindo que Beatrice fosse feliz e nunca a deixasse. Vitória se sentiu “profundamente infeliz” depois do casamento, mas logo foi conquistada pelo genro alegre e afável (inclusive, de modo bastante surpreendente, permitindo-lhe que fumasse com os amigos após o jantar). Beatrice estava aliviada em ter ganhado certa independência da mãe taciturna e controladora.
Beatrice logo engravidou do primeiro dos quatro filhos que teria. E cedo se evidenciou que era portadora da temida hemofilia. Um dos meninos — também chamado Leopoldo — herdou a doença. A única filha, Victoria Eugenie, viria a ser tremendamente impopular quando se casou com o rei Alfonso XIII e transmitiu a doença à família real espanhola.
No dia em que o governo de Gladstone caiu em 1885, quatro meses após a morte de Gordon, Vitória se rejubilou “como uma aluna que acabou de
entrar de férias”.25 O governo foi derrotado numa questão secundária — uma proposta de aumentar o imposto sobre a cerveja —, mas vinha tendo problemas de legitimidade desde a morte do general Gordon. O governo também estava profundamente dividido sobre a questão candente da independência irlandesa. O Parlamento foi dissolvido e Lord Salisbury, tory, se tornou primeiro-ministro — função que desempenhou por três vezes. No primeiro mandato, encabeçou um governo minoritário em junho de 1885, que durou apenas alguns meses.
Indivíduo alto, com início de calvície e uma barba espessa, Salisbury era um conservador que renunciara em 1867, após a aprovação do projeto de reforma de Disraeli. Sua desconfiança em relação a mudanças condizia perfeitamente com a de Vitória. Mantinham uma relação sem percalços e Vitória veio a sentir grande afeto pelo cavalheiresco Lord Salisbury. Era cortês, intelectual, divertido e, tal como a rainha, contrário à autonomia local.
Salisbury foi também o primeiro premiê de Vitória a ser mais novo do que ela, e o último político aristocrata a liderar o governo britânico a partir da Câmara dos Lordes. O Titã Vitoriano, como o chamou seu biógrafo Andrew Roberts, viria a obter maiorias esmagadoras para os tories em 1895 e 1900, consolidando um longo período de governo conservador.
Vitória adorava o tempo que passava com Salisbury e disse a um de seus bispos que ele ocupava “igual lugar entre os mais excelsos de seus
ministros, inclusive Disraeli”.26 Sua filha Violet observou certa vez, depois de presenciar uma conversa dos dois na França: “Nunca vi duas pessoas se entenderem tão bem; a polidez das maneiras, o respeito e a estima entre
ambos constituíam uma visão muito agradável”.27
O respeito era mútuo. Salisbury acreditava que a rainha tinha uma misteriosa capacidade de refletir as posições do público; ao conhecer a opinião de Vitória sobre algum assunto, ficava com a impressão de que agora “sabia com bastante certeza quais as posições que os súditos
adotariam, especialmente os da classe média”.28 Salisbury e a rainha também tinham a mesma preocupação com as condições de vida dos pobres. Em 1883, ele escrevera um artigo sustentando que os problemas habitacionais levavam não só a problemas de saúde, mas também a problemas morais. Essa relação também tinha espicaçado o interesse de Vitória. Ficava horrorizada com a descrição de cortiços locais que o reverendo Andrew Mearns apresentara em The Bitter Cry of Outcast
London, publicado em outubro de 1883.29 O ensaio descrevia as condições infamantes de superlotação e trazia relatos de incestos, e foi divulgado por aquele grande vigilante autonomeado em sua cruzada contra a sujeira, o
vício e a exploração em Londres, o editor W. T. Stead. ** Vitória, ainda pranteando a morte de Brown, ocorrida poucos meses antes, escreveu a Gladstone dizendo que estava desolada com os relatos da “condição deplorável das casas dos pobres em nossas cidades grandes” e perguntou se não era o caso de implantar um programa de obras públicas e de se abrir
uma investigação sobre o tema.30 Diante da relutância de Gladstone, ela pressionou outros políticos mais simpáticos à causa e membros do clero. Em fevereiro de 1884, foi nomeada uma comissão real para examinar a questão habitacional das classes trabalhadoras; entre os integrantes estavam Salisbury e Bertie.
Em 1885, Salisbury, como primeiro-ministro, apresentou um decreto na Câmara dos Lordes tornando os proprietários responsáveis pelos problemas higiênicos das habitações e conferindo aos conselhos governamentais locais o poder de fechar moradias sem condições sanitárias. Foram leis graduais, mas importantes; incentivaram o público a pensar sobre as soluções possíveis para as condições dos cortiços, e seguiram-se novas investigações e créditos habitacionais.
Em janeiro de 1886, Salisbury renunciou após a derrota na votação de um projeto de lei fundiário. Os 86 nacionalistas irlandeses no Parlamento arregimentaram os votos contra ele, na esperança de que Gladstone — que agora apoiava a autonomia local — voltasse ao poder. Vitória deu início a uma vigorosa campanha organizada para garantir que Gladstone não retornasse ao cargo de primeiro-ministro. Primeiro, ela se negou a aceitar a renúncia de Lord Salisbury. Segundo, tentou criar uma aliança entre conservadores e whigs moderados para afastar os liberais. Vitória disse a George Goschen, liberal unionista moderado, que mudar o governo seria
“um grande desastre”, acrescentando: “Estou apavorada pelo país”.31 Insistiu que ele criasse uma aliança com os tories centristas e recuasse do apoio a Gladstone, pois ele apenas “arruinará o país se puder”. Disse a Salisbury que recusaria qualquer “pessoa objetável” caso Gladstone entrasse. Terminou um memorando se lamentando: “Que coisa terrível perder um homem como Lord Salisbury para o país, para o mundo, e para
mim!”.32
Não houve alternativa que Vitória não explorasse a fim de impedir o retorno de Gladstone ao cargo de primeiro-ministro. Chegou a pedir a Tennyson — o qual acabava de voltar de uma viagem com o amigo Gladstone num cruzeiro marítimo até a Escandinávia — que tentasse
dissuadir Gladstone de concorrer na próxima eleição.33 Tennyson declarou
que não tinha muita influência sobre ele.34
A intervenção de Vitória se deu em um grau espantoso: não disfarçava sua antipatia por Gladstone, tentou afastá-lo — e mantê-lo afastado — do poder, procurou ativamente formar outras alianças e governos, e esperava ter palavra decisiva quanto aos nomes selecionados para o gabinete ministerial. Não havia simulação alguma de imparcialidade. O secretário e os ministros de Vitória a alertaram várias vezes sobre o fato de que, se o público viesse a saber dessas maquinações, a exporia a críticas e talvez a um escândalo. Goschen, liberal moderado, recusou-se taxativamente a visitá-la por receio de “comprometer” a situação (posição pela qual ela o
castigou mais tarde).35 Ele recomendou a Vitória que mandasse chamar Gladstone, dizendo que os liberais ainda estavam sob o domínio do GOM.
Temendo que a imprensa descobrisse a relutância de Vitória em chamar Gladstone, Ponsonby se pôs em ação, perguntando se podia convocá-lo
imediatamente, para “pôr fim ao inquieto desassossego”.36 O último recurso de Vitória foi uma atitude passivo-agressiva. Ponsonby foi correndo encontrar Gladstone tarde da noite, já prestes a vestir seu camisolão de dormir, para lhe perguntar se formaria um governo; quando o encontrou ele disse que “Vossa Majestade entendera pela reiterada manifestação de seu desejo de se retirar da vida pública que ele não aceitaria cargos e, portanto,
ao enviar essa mensagem, ela o deixava livre para aceitar ou não”.37 Não era uma acolhida propriamente calorosa.
O GOM, agora já habituado à desaprovação da rainha, aceitou e se tornou primeiro-ministro mais uma vez. Ponsonby frisou as escolhas da rainha para a seleção do gabinete: não aceitaria Charles Dilke, que fora mencionado num caso escandaloso de divórcio e era um franco republicano. Gladstone resmungou, mas concordou. A rainha também objetava à inclusão de Lord Granville, amigo de Gladstone, com o que ele também concordou. Depois, concordou igualmente em não nomear Hugh Childers para o Ministério da
Guerra, o que lhe pareceu um “grande sacrifício”.38 (Em vez disso, Childers foi nomeado ministro do Interior.) Vitória lhe lembrou que suas objeções
não eram de caráter pessoal, e sim “pelo país”.39 O que mais lhe interessava apurar eram as intenções exatas de Gladstone em relação ao governo autônomo da Irlanda: ele iria investigar a reivindicação irlandesa de autonomia, como dizia? Ou era apenas um preparo diplomático do terreno
para sua implantação?40 Era esta a questão decisiva da política britânica da época: iria se permitir que os irlandeses amotinados tivessem governo próprio? A ardorosa convicção de Gladstone de que a questão devia ser pelo menos avaliada seriamente custou-lhe caro. Veio a ser seu projeto de maior
fôlego e de maior visão. No entanto, o mais autodestrutivo.41
Na década de 1880, a Questão Irlandesa dominava o Parlamento britânico. A Irlanda vinha sofrendo uma prolongada depressão agrícola, com catastróficos ciclos de fome e incessantes explosões de violência. Crescia o apoio aos fenianos republicanos irlandeses. Já nos anos 1840, antes da fome da batata, Gladstone via a Irlanda como uma “tempestade que se aproximava”. Nas décadas seguintes, observou enquanto as nuvens se enegreciam. Em 1868, quando lhe disseram que ia ser primeiro-ministro, enquanto derrubava árvores na sua propriedade, ele parou e declarou: “Minha missão é pacificar a Irlanda”.
E tentou. Primeiro, liberou os agricultores católicos de pagarem dízimo
depois de desinstituir a Igreja da Irlanda, em 1869.42 A seguir, tentou lidar com a cultura dos senhores latifundiários (na maioria, ausentes) implantando medidas de proteção aos rendeiros irlandeses. Em 1870, aprovou leis que garantiam aos rendeiros despejados a indenização por melhorias que tivessem feito nas propriedades durante sua permanência. Em 1881, criou o Segundo Decreto de Terras Irlandesas, que fornecia alguma segurança efetiva ao permitir que os rendeiros requeressem valores justos pelo uso da terra, estabilidade da parceria ou liberdade para transferir seus contratos de arrendamento. (Os agricultores irlandeses, em sua grande maioria, não eram donos da terra e a arrendavam dos proprietários que, em sua maior parte, moravam na Inglaterra. Em 1870, apenas 3% das terras
eram ocupadas por agricultores proprietários da área.) 43
A tarefa mais colossal, porém, era a autonomia local. Constituía um anátema para a imensa maioria da Câmara dos Lordes, para muitos de seus correligionários liberais e para a própria rainha. A incerta economia irlandesa, as consequências da fome e da longa depressão, a estrondosa violência republicana e o descontentamento agrário formavam uma fonte coletiva de embaraços para a Grã-Bretanha. Enquanto o Império Britânico procurava enaltecer as liberdades civis e, de vez em quando, o reconhecimento dos direitos dos povos nativos no cenário mundial, fazia-se mais do que óbvia a acusação de hipocrisia junto de casa. Gladstone julgava que o ciclo de fúria era um câncer que se espalhava pelo corpo político britânico.
A rainha não estava convencida de que a Irlanda merecia ou precisava de autonomia. Achava que Gladstone estava “sempre desculpando os
irlandeses”44 e várias vezes lhe relembrava a oposição a seu “terrível”
projeto de lei. 45 De fato, a violência, de certa maneira, acabou sendo culpa dele. Sua insistência em promover o debate, disse ela, provocava desassossego e fazia da Irlanda um “estado de terror total”. A rainha
defendia a lei marcial e tentou fortalecer sua influência no Parlamento.46 Incentivou os contrários à autonomia local a se unirem, de qualquer partido
que fossem, para proteger o Império e derrotar o projeto de lei.47 Censurava constantemente Gladstone, já cansado, e pediu que ele redigisse um
memorando sobre suas exatas intenções.48 A carta de Gladstone, expondo seu desejo de simplesmente “examinar” o assunto do governo autônomo, não a acalmou, embora a determinação dele fosse, em parte, motivada pelo
reconhecimento da vontade dos irlandeses.49 Vitória disse a Gladstone que nunca interpretasse seu silêncio sobre o assunto como aprovação por parte dela, que “via apenas perigo para o Império” no curso de ação dele, e que não lhe daria apoio “quando a união do Império corre o risco de
desintegração e séria perturbação”.50 Gladstone relembrou à rainha suas responsabilidades legais, declarando que estava “muito humildemente ciente” de seu desejo “de dar um apoio constitucional invariável àqueles
que têm a honra de ser os conselheiros de Vossa Majestade”.51 Ele sabia muito bem que o apoio da rainha era extremamente variável, mas, por lei, era obrigada a dá-lo. No entanto, tal como o general Gordon, Vitória julgava responder a um poder mais alto.
A oratória de Gladstone, em seu discurso na Câmara dos Comuns sobre a questão da autonomia local em abril de 1886, foi eletrizante. O projeto de lei apresentado à casa contemplava um governo e um Parlamento próprios em Dublin, os quais controlariam todos os assuntos irlandeses, exceto a política exterior, a defesa e o comércio. (Também removia os parlamentares irlandeses de Westminster, o que despertava objeções em muitos parlamentares liberais, pois perderiam votos com que contavam.) “Este, se bem entendo”, disse Gladstone com sua voz forte e de entonação cantadinha no final, “é um daqueles momentos dourados em nossa história, uma daquelas ocasiões que podem chegar e passar, mas que raramente
ressurgem.”52
O momento passou, porém. Em 8 de junho, o projeto foi derrotado, por 341 a 311. Os liberais se dividiram, e 93 votaram contra. Os liberais unionistas se separaram do partido liberal e até 1914 se mantiveram alinhados com os conservadores na oposição à autonomia local. Gladstone tinha mais antevisão do que habilidade política, e não conseguiu arrebanhar número suficiente de correligionários.
Foi uma vitória para Vitória. Ao receber um telegrama de Gladstone em 20 de julho de 1886, informando a renúncia de seu governo, ela escreveu no
diário: “Não posso deixar de me sentir muito grata”.53 A dedicação de Gladstone àquela medida não fazia sentido algum para Vitória, para quem ele se tornara “quase fanaticamente” fervoroso “em sua crença de se estar
quase sacrificando pela Irlanda”.54 Como sempre, ela tinha a habilidade de sentir os ventos políticos — e ajudar a soprá-los quando podia. Encorajou ativamente políticos importantes contrários ao projeto e continuou a insistir com os liberais moderados para chegarem a um termo comum com os conservadores moderados.
Naquele verão e outono após a votação de 1886, houve dezenas de mortes em tumultos políticos em Belfast e várias centenas de prisões. Gladstone não desistiu, mesmo depois da renúncia. Em 1887, escreveu em seu diário:
“Um rogo absorve todos os outros: Irlanda, Irlanda, Irlanda”.55 Voltou a lutar pela autonomia local na eleição de 1892, e em 1893 conseguiu dar entrada a um projeto de lei mais brando: a versão foi prontamente, rotundamente rejeitada pela Câmara dos Lordes. O engajamento de Gladstone na questão do governo autônomo na Irlanda era fascinante: baseado em princípios, era politicamente impossível. A Câmara dos Lordes jamais o apoiaria. Em vez de trazer unidade às Ilhas Britânicas, ele dividira seu partido e viria a ser responsabilizado pela ausência dos liberais no governo durante quase vinte anos. Mas, se a Grã-Bretanha tivesse aprovado o projeto de lei de Gladstone em 1886, teriam sido evitados 35 anos de
tumultos e derramamentos de sangue.*** Gladstone tinha razão — era uma oportunidade única, e foi perdida.
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Nessas décadas de 1870 e 1880, Vitória estava em seu apogeu político. Demonstrou-se mais hábil com os mecanismos do poder do que a maioria dos homens ao redor dela. Muitos dos contemporâneos tinham dificuldade em entender como — ou se — uma mulher podia exercer tanto poder. Segundo escreveu Arthur Ponsonby, seu pai, Henry Ponsonby, que se tornara secretário particular da rainha Vitória em 1870, teria considerado seu cargo intolerável se se resumisse a “adular uma senhora de meia-idade obstinada que pouco sabia e menos ainda se importava com o que se passava”. Mas Ponsonby logo formou “uma elevada opinião sobre as capacidades dela e ficava constantemente surpreso com sua diligência”. Considerava-a uma “pensadora clara, sensata, honesta, que em algumas
coisas era excelente mulher de negócios”. 56 Mas não é fácil discernir claramente nesses relatos o grau de eficiência de Vitória. Muitas vezes, as atitudes de ambos pareciam somente reproduzir a opinião de Samuel Johnson sobre as mulheres pregadoras: o surpreendente era que
existissem. 57
O que hoje é mais surpreendente é descobrir até que ponto Vitória era uma monarca enérgica e intervencionista. Forçava sistematicamente os limites de seu papel. Tentava ao máximo possível garantir que decidiria questões de política externa junto com o ministro das Relações Exteriores, sem que precisassem ser examinadas no gabinete ministerial. Passava por cima do primeiro-ministro para dar suas diretrizes pessoais aos generais. Tentou impedir que Gladstone ganhasse e mantivesse o poder. “A rainha era menos propensa a ceder aos ditames ministeriais do que geralmente se supõe”,
escreveu Sir Edmund Gosse em 1901.58 E, no entanto, Vitória cultivava tão ciosamente a imagem de uma rainha dócil, reclusa e cordata que os livros saídos após sua morte, ao darem a entender que ela tinha opiniões próprias, foram considerados radicais. O grau de sua interferência na política — e o arrojo de sua influência — só ficou evidente a partir dos anos 1920 e 1930, quando foram publicadas as cartas dos últimos anos de seu reinado. Até mesmo Lord Salisbury — seu primeiro-ministro por três vezes — escreveu: “Posso dizer com segurança que nenhum ministro em seu longo reinado jamais desconsiderou seu conselho nem a pressionou para desconsiderá-lo sem sentir que incorrera numa perigosa responsabilidade… Ela sabe do que
está falando”.59 Como assinalou um dos editores de suas cartas, Lord Esher, a rainha sempre cedia lugar às posições de um gabinete unido, mas “nem
sempre cedia prontamente à opinião de um ministro só”.60
Assim, qual era exatamente o papel constitucional da rainha? A Grã-Bretanha não tem uma Constituição escrita, mas sim pedaços de inúmeros materiais: estatutos, julgamentos, obras de referência, tratados e convenções. Em 1867, durante o período de luto e reclusão da rainha, Walter Bagehot, em sua obra fundamental The English Constitution, observou que não havia nenhuma exposição clara, em parte alguma, do papel constitucional do monarca. Porém afirmou que a falta de compreensão do papel da rainha aumentou seu prestígio: “Quando houver um comitê eleito acima da rainha, o encanto da realeza se desfará. O que lhe dá vida é seu mistério. Não podemos deixar a luz iluminar a magia. Não podemos trazer a rainha à arena de combate da política, ou ela deixará de ser reverenciada por todos os combatentes; tornar-se-á uma combatente
entre muitos outros”. 61
Bagehot concluiu que o monarca tinha três direitos: “o direito de ser
consultado; o direito de incentivar; o direito de advertir”.62 Embora o monarca fosse o “rosto” da democracia, escreveu ele, seu papel era basicamente cerimonial e simbólico. Mas foi apenas depois que Bertie subiu ao trono que essa monarquia de tipo cerimonial e simbólico se tornou
norma.63 Vitória exercia muitos outros direitos além dos enunciados por Bagehot: o direito de repreender, de tirar apoio, de moldar os gabinetes, de maquinar contra os primeiros-ministros e de instruir oficiais militares.
Segundo Bagehot, a primeira função de uma família real era ornamentar a
política “com o devido acréscimo de eventos bonitos e agradáveis”.64 Sua segunda função era despertar lealdade entre os incultos ou simplórios: “Ser um símbolo visível de unidade para aqueles de instrução ainda tão
insuficiente que precisam de um símbolo”.65 A terceira era receber dignitários e ministros estrangeiros. A quarta era oferecer um exemplo de moral (mas observando que muitos dos antecessores de Vitória falharam nesse quesito). A última era oferecer estabilidade em épocas de transição, que serviria como uma espécie de “disfarce” para mudanças de governo.
Os maiores poderes do monarca eram exercidos durante a queda e a criação de governos. Quando um partido estava dividido e não era capaz de escolher um líder, o monarca, segundo Bagehot, poderia “escolher entre as fileiras do partido dividido seu melhor líder”, desde que seu juízo fosse
imparcial.66 Mas quem iria julgar o discernimento do monarca?67 Bagehot concluiu que, devido à fraqueza precocemente adquirida das dinastias hereditárias, poucos monarcas estariam realmente capacitados para tal tarefa: “Provavelmente, na maioria dos casos, a máxima sabedoria de um
rei constitucional se mostraria na inação deliberada”.68 Mas, claro, o poder estava ali, e Vitória o usava sempre que podia, mesmo quando não havia divisões nos partidos. Em termos técnicos, só poderia ocorrer uma divisão quando houvesse mais de uma pessoa capaz de comandar uma maioria na Câmara dos Comuns. E isso ocorreu apenas uma vez durante o reinado de Vitória, em 1894. Todavia, ela escolheu também Lord Aberdeen em 1852 e Lord Rosebery em 1894 — ambos foram legítimas escolhas reais. Durante a cisão por causa da autonomia local da Irlanda, Vitória tentou forçar o duque de Argyll a criar um novo partido de moderados para “salvar o país e a Constituição”. Também incentivou os liberais contrários à autonomia local
a formarem um grupo separado de liberais unionistas. 69
É evidente que Vitória também acreditava ter o poder de demitir um primeiro-ministro e o ministério, mesmo que nunca o tenha exercido. Quando o rei da Grécia demitiu seu gabinete inteiro em 1892 por “levar o país à bancarrota”, Vitória considerou que ele estava em seu pleno direito:
“mas se é sábio exercer tal direito é algo que depende das circunstâncias”. 70 Ela fazia objeções à nomeação ministerial de certos homens, mas não julgava correto demiti-los depois de nomeados. Seus protestos costumavam ser, pelo menos na aparência, de ordem moral — como no caso de Henry Labouchere, que morara com uma atriz antes de se casar com ela —, e não só de ordem pessoal (Labouchere também criticara a monarquia). Gladstone protestou, mas acatou o veto e, tal como fez com Dilke, deixou ambos de fora.
Apesar de serem os chefes dos executivos, esperava-se que reis e rainhas concordassem com os conselhos dados por seus ministros. Mas, para Vitória, a ideia de simplesmente apor o sinete real a políticas que lhe eram entregues era insultante: ela não era uma “mera máquina”. Afinal, Stockmar lhe havia dito que o monarca era o “premiê permanente” e o primeiro-
ministro era apenas o “líder temporário do gabinete”.71 Disraeli também a incentivara a ter uma noção bastante altaneira de seu lugar, chamando-a de “Ditadora” e “Árbitra”. Henry Ponsonby agia em sentido oposto, passando muitos anos inquietos a tentar garantir que Vitória se baseasse no conselho
de seus ministros, e não simplesmente em sua própria opinião. 72 Mas ela nunca vetou propostas ministeriais, ainda que lutasse para derrotá-las. Quando Gladstone apresentou um projeto de lei para desinstituir a Igreja irlandesa, por exemplo, Vitória se manifestou contrária ao projeto e, ao mesmo tempo, ofereceu auxílio para aprová-lo.
No final do reinado de Vitória, a Inglaterra estava mais próxima de se tornar uma democracia — agora dois terços dos homens podiam votar (embora as mulheres ainda não) e os poderes do monarca eram consideravelmente menores. Como rainha, Vitória se empenhou numa contínua redefinição. Trabalhou freneticamente para preservar seus poderes, mas em caráter privado. Era uma analista política inteligente e enérgica, mas se apresentava habilmente aos súditos como simples mãe passeando pela Escócia. Isso dá provas de sua aguda intuição política; ela sabia que os súditos a amavam quando parecia ser um deles, mas, com seus ministros, agarrava-se com tenacidade a seus poderes nada convencionais. Vira Bismarck corroer a influência do imperador germânico, sogro de Vicky, e não tinha a menor intenção de deixar que isso acontecesse com ela. Procurava ignorar que Gladstone era o líder do partido e contava com o apoio popular, mas foi obrigada a reconhecer o fato quando suas maquinações se demonstraram inúteis. O ponto em que ela insistia — ameaçando abdicar se não a ouvissem — era a pertinência de seu papel.
Nos anos 1880, Gladstone já passara a considerar sua rainha como “um
tanto descortês”. 73 Ela o importunava mais do que importunara qualquer outro primeiro-ministro — e ele revidava quase no mesmo nível, dizendo que suas exigências de se manter informada sobre as disputas ministeriais eram “intoleráveis” e “inadmissíveis”. Gladstone queria que ela abdicasse em favor de Bertie e admitia que sua confiança na monarquia estava abalada. Com o tempo, ele passou a se importar menos com as opiniões dela a seu respeito. A antipatia de Vitória por Gladstone era tão cabal e indisfarçada que em 1886, na segunda vez em que ocupou o cargo de primeiro-ministro, ele já estava resignado com as farpas e reprimendas da rainha. Tinha plena consciência de que ela ia adorar a queda de seu governo poucos meses depois, na esteira da cisão irlandesa.
Em 1881, Gladstone anotou sobre uma audiência que teve com a rainha: “Recebido com muita cortesia, tive audiência longa, mas sempre por fora de um círculo de ferro: e sem nenhuma vontade, se eu pudesse, de atravessá-
lo”.74 Ele escreveu a Charles Dilke: “Tenho certeza, por uma centena de sinais, de que ela aguarda ansiosamente o dia de minha retirada como um
dia, se não de júbilo, pelo menos de alívio”.75 Ele tinha razão, e mesmo assim ambos viveram até idade muito avançada, sempre às turras. Vitória sempre subestimou a potencial longevidade de Gladstone. Toda a vez que o via, dizia que ele estava doente e depauperado. Ela também envelhecia, andando com o auxílio de uma bengala e recebendo massagens diárias para aliviar a dor do ciático e diminuir o reumatismo.
É muito possível que Vitória tivesse inveja de Gladstone, como concluiu o secretário dele, Edward Hamilton, principalmente de sua extraordinária influência sobre os súditos da rainha. Muitas vezes, advertia-o para não discursar como fizera na Campanha Midlothiana. Dizia-lhe para ter cuidado com as palavras, tratando-o como um adolescente precisando de supervisão constante, embora ele tivesse dez anos mais do que ela. Mandava-lhe bilhetes antes de discursos importantes: em 1881, ela recomendou que fosse
“muito cauteloso”;76 em 1883, que fosse “muito contido em sua
linguagem”.77 Em setembro de 1883, Hamilton escreveu:
Ela se sente, como diz [Gladstone], ofendida pela indevida reverência demonstrada a um homem
de idade do qual o público é constantemente relembrado, e que continua a trabalhar pelo povo
além do tempo designado, ao passo que S. M., devido à vida que leva, se mantém longe das
vistas… Ela não suporta ver as letras em corpo grande que encabeçam as colunas dos jornais com
“os movimentos do sr. Gladstone”, enquanto abaixo vem em corpo pequeno a circular da corte…
Ela se vê com um primeiro-ministro que tem uma posição única neste país e diferente da de
qualquer outra pessoa que ela conheça ou, na verdade, que qualquer predecessor seu tenha
conhecido.78
Entre todos os homens de Estado com quem Vitória trabalhou, Gladstone era o mais visionário. Era totalmente diferente de Lord Melbourne, chistoso e indiferente, que preferia a inércia ao esforço. Gladstone lidava com as principais questões de sua época, decidido a avançar, mesmo que sozinho. Não tinha paciência para grupos de debate nem pesquisas de opinião — preferia a persuasão e a liderança. Ele introduziu as primeiras leis de ensino nacional com o Decreto de Ensino de 1870, rompeu a influência política dos latifundiários irlandeses com o Decreto do Voto Secreto de 1872, desinstituiu a Igreja Anglicana na Irlanda, tentou acabar com a compra de votos com o Decreto contra as Práticas de Corrupção, introduziu o exame de mérito para a contratação de servidores públicos e eliminou o costume de se pagar pela patente de oficial nas Forças Armadas.
O fato de Vitória transpor as linhas constitucionais talvez não tenha gerado maiores controvérsias porque raramente alcançava grande êxito; se tivesse conseguido afastar Gladstone do poder ou convencer algum de seus aliados centristas a formar um governo, o público ficaria chocado e ela seria condenada. Os súditos a imaginavam flanando pela Escócia, e não serrando o galho de um primeiro-ministro popularmente eleito. Havia entre eles um
grande choque de vontades e personalidades.****79
* Aconteceu no casamento de Victoria, a filha mais velha de Alice, com Louis, o irmão mais velho de Henry. Vitória ficara desconcertada ao descobrir que o viúvo de Alice, Louis, duque de Hesse, acabara de se casar com sua amante, uma divorciada russa. A rainha imediatamente providenciou a anulação do casamento e enviou Bertie para avisar a desafortunada. (Ela deu à luz um filho do duque, mas entregou-o para adoção.) “Somos uma família unida quando estamos todos de acordo”, disse Bertie. E um tanto brutal.
** Como editor da Pall Mall Gazette, Stead veio a realizar uma grande cobertura pormenorizada do comércio de sexo infantil em Londres – The Maiden Tribute of Modern Babylon – em 1885, com a colaboração da reformadora feminista Josephine Butler. Vitória ficou horrorizada com a publicação dos casos pavorosos para consumo público e, quando Stead foi preso por obscenidade, ela se recusou a intervir. Gladstone, que mostrou surpreendente desinteresse pelas histórias, acelerou a reforma no Parlamento, sabendo que Stead podia ter os nomes de alguns parlamentares envolvidos. (Gladstone disse que “não [estava] muito satisfeito com a maneira como essa massa de horrores foi coligida nem com o efeito moral de sua ampla divulgação com a venda nas ruas”. 15 de julho de 1885, H.C.G. Matthew, Gladstone, pp. 541-2.) Mas a idade de consentimento foi aumentada de treze para dezesseis anos e as penas foram agravadas. Stead, que estava no Titanic e morreu no naufrágio nas águas geladas do Atlântico Norte, ganhou fama duradoura.
*** As duas casas do Congresso só aprovaram a autonomia local em 1914, cuja implantação foi então adiada devido à eclosão da guerra. Somente em 1921, com a assinatura de um tratado após uma guerra de guerrilha dos nacionalistas, a Irlanda ganhou sua independência. A Irlanda do Sul se separou no ano seguinte — chamando-se Estado Irlandês Livre —, enquanto a Irlanda do Norte se manteve sob domínio britânico.
**** Por ironia, uma das poucas coisas em que Vitória e Gladstone concordavam é que ambos achavam absurdo dar às mulheres o direito de voto ou qualquer poder político. Segundo Gladstone, isso minaria a fonte de poder das mulheres: “a delicadeza, a pureza, o refinamento, a elevação de sua natureza própria”. Vitória concordava, ao mesmo tempo disparando um fogo cerrado de cartas e telegramas ao campo do inimigo, seu primeiro-ministro, exigindo sua rendição. Gladstone para Samuel Smith, 11 abr. 1892, cit. in Susan Bell e Karen Offen, Women, the Family, and Freedom, v. 2, p. 224.