Vitória, a rainha
1. O nascimento de um “pequeno Hércules”
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1. O nascimento de um “pequeno
Hércules”
Meus irmãos não são fortes como eu… Sobreviverei a todos eles; a coroa virá
para mim e para meus filhos.
EDWARS, DUQUE DE KENT, PAI DA RAINHA VITÓRIA1
A rainha Vitória nasceu aos berros às 4h15 da madrugada, uma hora antes de o dia 24 de maio de 1819 amanhecer. Naqueles primeiros instantes, era como qualquer recém-nascido: nua, vulnerável, surpresa, contorcendo-se nos braços da mãe. Seu tempo de inocência duraria pouco. Logo afluiriam ao quarto os homens mais importantes do país — sacerdotes, chanceleres, militares e políticos —, comprimindo seus rostos corados na menininha que ainda não tinha nome. Dali a duas décadas, todos os homens presentes a seu nascimento que ainda estivessem vivos iriam se curvar diante dela como rainha — algo que poucos imaginariam em seu nascimento, pois era apenas a quinta na linha de sucessão. Mas era uma criança importante — iria comandar exércitos, escolher arcebispos, nomear primeiros-ministros. A partir desse momento, nunca ficaria sozinha; um adulto acompanharia cada passo dela, provaria cada bocado que comesse, entreouviria cada conversa que tivesse.
Enquanto o céu clareava, a mãe, duquesa de Kent, reclinou a cabeça nos travesseiros de seu leito de quatro colunas e fechou os olhos, exausta, inspirando o perfume dos lilases e das trepadeiras nos jardins embaixo. Era uma manhã nublada de primavera, com uma chuva fina que trazia alívio após três semanas de calor intenso. O quarto do Palácio de Kensington onde Vitória nasceu era inteiramente branco, com o cheiro do novo suntuoso tapete. Lá fora, carneiros pastavam e gaios cantavam entre as faias.
Como era de costume nas famílias reais, os homens do Conselho Privado tinham sido convocados de jantares, do teatro e da cama na noite anterior. Enquanto a duquesa arfava e se debatia entre contrações, os ministros de
Sua Majestade aguardavam num aposento contíguo.2 O duque avisara que não iria se juntar a eles, pois pretendia ficar ao lado da esposa, dando-lhe incentivo. Como ditava a tradição, esses homens de alta posição ouviram os gritos da duquesa durante as seis horas do parto e então se apinharam no quarto após o nascimento da criança, para comprovar que era de fato filha
daquela mãe.3 (Em 1688, quando Maria de Módena, a esposa católica de Jaime II, deu à luz um menino saudável, a maioria do público — sob a instigação de protestantes descontentes com a ideia de um herdeiro varão de boa saúde — acreditou que, na verdade, ela perdera a criança e fizera com que lhe trouxessem furtivamente outro bebê dentro de uma grande caçarola usada para aquecer a cama. Não era verdade, mas foi um dos fatores que
levaram à revolução que derrubou Jaime 4 II .)
A duquesa suportou a presença dos homens, que assinaram a certidão de nascimento e um atestado sobre “a aparência de perfeita saúde” do bebê. Murmuraram suas congratulações e voltaram cansados para uma cidade que despertava aos poucos; os cavalariços nos estábulos iam buscar água, a fábrica de velas ali perto emanava um cheiro de cera de abelha. O pessoal que vendia lanches para o desjejum estava montando suas bancas ao longo da Great Western Road, uma antiga estrada romana que passava pelo Hyde Park e era o principal caminho do sudoeste até Londres. Os operários seguiam às pressas para as fábricas, entre as diligências postais e as carroças rumo ao mercado sacudindo em meio à neblina, e passando por milhares de cabeças de gado que, extenuadas, eram conduzidas ao matadouro.
No Palácio de Kensington, o duque de Kent mal se continha de orgulho e entusiasmo. Em cartas aos amigos, desmanchou-se em elogios à “paciência e doçura” da esposa durante o parto e louvou “a atividade, o zelo e o
conhecimento” da parteira, Frau Siebold.5 Numa curiosa coincidência que mostra como eram próximos os mundos da realeza britânica e da realeza germânica naquela época, Frau Siebold, três meses depois, iria atender ao nascimento do futuro marido de Vitória, Albert de Saxe-Coburgo-Gota. O bebê Albert era “superbe — d’une beauté extraordinaire” [“magnífico, de
uma beleza extraordinária”], comentou a mãe orgulhosa.6 Desde a infância, Albert era elogiado pela sua beleza, assim como Vitória era elogiada pela sua força.
Ao nascer, Vitória era apenas a quinta na linha do trono. Mas, nos anos anteriores, seu pai, Edward, duque de Kent — quarto filho do rei Jorge III —, fizera uma revisão radical em sua vida ao perceber que seus irmãos não estavam gerando herdeiros e que talvez algum dia o trono passasse a ele e à sua progênie. O duque de Kent já tinha uma companheira, uma amável francesa chamada Julie de Saint-Laurent. Contratara-a, supostamente, para cantar numa festa com sua banda em 1790, durante seu primeiro exercício no cargo de governador em Gibraltar, mas na verdade ela fora introduzida na casa para dividir o leito com ele. Apesar desse início não muito romântico e do fato de que, mesmo que se casassem, o rei jamais reconheceria a união, os dois formavam um casal que se dava admiravelmente bem, numa relação que atravessou os períodos em Gibraltar e no Canadá, bem como um escandaloso amotinamento dos
soldados de Edward.7
Todavia, a despeito das três décadas que passara com a devotada Julie de Saint-Laurent, Edward decidiu que precisava de uma esposa legítima, que lhe possibilitasse pagar suas dívidas nada desprezíveis, visto que os príncipes recebiam mesadas adicionais ao se casarem. Quando sua sobrinha Charlotte, herdeira do trono, morreu durante o parto, também ficou claro para ele que, se arranjasse uma esposa mais jovem, ela poderia ter uma criança que talvez viesse a reinar sobre a Inglaterra.
O duque de Kent, quando tomou sua carruagem e se lançou às pressas da Alemanha para o oeste, semanas antes do nascimento de Vitória, estava tentando vencer seu rival mais imprevisível: a biologia. Ele queria que sua esposa alemã, com gravidez adiantada, chegasse à Grã-Bretanha em tempo de dar à luz uma criança que, segundo suas esperanças, algum dia poderia vir a ocupar o trono. O duque estava convicto de que qualquer futuro monarca seria mais amado pelos súditos se tivesse soltado seu primeiro choro em solo inglês. Fitava o rosto pálido da esposa, iluminado pelo suave sol de primavera, e sorria. Edward estava com 51 anos e não tinha um tostão: era quase um milagre que tivesse conseguido uma esposa tão jovem, bonita e simpática. A princesa Victoire de Saxe-Coburgo-Saalfeld, um pequeno principado que encolhera ainda mais depois que Napoleão se apoderara de territórios no sul da Alemanha, era alegre, rechonchuda e baixinha, com cabelo encaracolado castanho e o rosto corado. Victoire, que enviuvara pouco tempo antes, tinha dois filhos do primeiro casamento e foi necessária certa insistência para que concordasse em se casar com o duque de Kent. Mas em pouco tempo criaram uma relação muito afetuosa e Victoire logo engravidou.
Ao iniciar a longa viagem de Amorbach até a Inglaterra, o duque não estava apenas correndo para a Grã-Bretanha; em suas esperanças, estava também na corrida pela coroa. Um ano antes, a mera ideia de que o duque de Kent fosse gerar um herdeiro do trono despertaria risadas. Estava apenas num distante quinto lugar na linha de sucessão, depois do irmão mais velho, Jorge, o príncipe regente. Depois de Jorge vinha sua única filha, a amada Charlotte. Abaixo dela estavam os outros irmãos mais velhos de Edward, Frederick e Guilherme. O rei Jorge III, que estava enlouquecendo, tivera quinze filhos com a esposa, a rainha Carlota, dos quais doze ainda estavam
vivos.8 Os sete filhos restantes tinham precedência sobre as cinco irmãs — e se algum deles tivesse filhos, a coroa passaria para seus herdeiros e não para as irmãs. (Até 2011, o trono britânico foi ocupado pela primogenitura preferencialmente masculina, de forma que a coroa passava para os filhos, por ordem de nascimento, antes de passar para as filhas, por ordem de nascimento.)
Charlotte, filha única do filho mais velho do rei Jorge III, o príncipe regente que se tornaria Jorge IV, ascenderia ao trono depois do pai. Charlotte era uma moça muito alegre e atraente, que se apaixonou perdidamente pelo elegante príncipe Leopoldo de Saxe-Coburgo-Saalfeld, com quem veio a se casar em 1816. A Inglaterra comemorou a sua gravidez, que se deu rapidamente. Mas Charlotte detestava se sentir enorme — e ouvir constantemente como estava enorme — e entrou em depressão. Os médicos lhe impuseram uma dieta rigorosa nos meses finais da gravidez e lhe aplicaram sangrias. Muitos pacientes morriam dessa prática duvidosa, que era o tratamento mais usado para os pacientes diagnosticados com “maus humores”, sobretudo aqueles que já estavam enfermos e malnutridos.
Depois de um trabalho de parto que se estendeu por cinquenta horas, o filho de Charlotte nasceu morto. Ela estava esgotada, sangrando profusamente. Os médicos a entupiram de vinho e conhaque e a rodearam com bolsas de água quente, mas não conseguiram salvá-la; Charlotte
morreu em 6 de novembro de 1817. 9 (Seu accoucher, isto é, seu parteiro, Richard Croft, ficou tão abalado que, três meses depois, atendendo a outro parto muito demorado, pegou uma arma e deu um tiro na testa.) O luto pela morte de Charlotte, presumível futura rainha da Inglaterra, pesou durante semanas como uma mortalha nas ruas de Londres. Faltavam tecidos pretos em todo o país.
Inesperadamente a linha sucessória se abrira; agora a coroa passaria para os irmãos, já com certa idade, ou para seus filhos, e não para Charlotte, jovem amada que mal acabara de sair da adolescência. O povo se perguntava: quem seria o próximo herdeiro do trono?
O rei Jorge III e a rainha Carlota levavam uma vida tranquila e respeitável, aos moldes da classe média britânica. Mas seus filhos eram devassos, gordos, preguiçosos, impopulares. Curiosamente, o único honesto, direito e disciplinado era aquele que os pais menos pareciam amar: Edward, duque de Kent, o pai de Vitória.
Em 1818, o rei Jorge estava surdo, cego e mentalmente perturbado, sofrendo, segundo alguns, de um raro distúrbio metabólico chamado
porfiria, embora pudesse muito bem ser demência ou distúrbio bipolar.10 Moradores do castelo ouviam “risadas desagradáveis” nas alas por onde ele andava, e muitas vezes o encontravam dedilhando um cravo, usando mantos
roxos.11 Era perseguido por visões apocalípticas em que se afogava numa grande inundação; falava com amigos invisíveis; abraçava árvores, achando que eram dignitários estrangeiros. Em 1811, aos 73 anos, foi oficialmente declarado insano.
O príncipe regente, que viria a se tornar Jorge IV, tinha uma inteligência afável e mediana. Aos cinquenta e poucos anos, estava acabado. Sofria de gota e tomava grandes doses de ópio para aliviar a dor nas pernas. A relação
com a esposa, a princesa Caroline, era nefasta e brutal. 12 O príncipe regente chegou a proibir a presença dela na cerimônia de sua coroação em 1821 (bateram-lhe a porta na cara quando chegou à Abadia de Westminster, enfeitada da cabeça aos pés). Três semanas depois, a rainha Carolina morreu. Desconhece-se a causa, mas correram boatos de que o rei a envenenara.
Quando a filha do príncipe regente morreu, em 1817, os sete filhos de Jorge III já estavam na meia-idade; o mais novo tinha 43 anos. Qual, então, geraria um herdeiro? Ernest, o duque de Cumberland, era o único oficialmente casado e que se dava bem com a esposa.
Quando ainda eram pequenos, Jorge III havia decretado que ninguém da prole real poderia se casar sem o consentimento do rei e a aprovação do Parlamento. O resultante Decreto dos Casamentos Reais de 1772 oferecia aos príncipes uma justificativa muito conveniente para se desvencilhar de qualquer compromisso com suas amantes. Eles agiam, segundo disse mais
tarde Lord Melbourne à rainha Vitória, como “animais selvagens”.13 O resultado foi uma montanha de netos ilegítimos — 56 ao todo, nenhum deles capaz de ocupar o trono. Charlotte fora a única neta gerada num casamento oficialmente reconhecido. Assim, o que estava em jogo não era apenas aquela geração, e sim o controle da geração seguinte. (Lá no fim da
linha sucessória,14 distantes demais para serem levadas em conta, estavam as cinco filhas vivas do rei Jorge III, todas acima dos quarenta anos e sem
filhos.)15
Poderia uma família enorme como essa se extinguir? Hoje parece até engraçado pensar que a dinastia hanoveriana, que começou com o rei Jorge I em 1714, podia ter terminado com os filhos do rei Jorge III. Mas era plenamente possível, em vista do comportamento da progênie. Quando Charlotte morreu, houve um grande tumulto em relação ao futuro do trono e o Parlamento insistiu que os quatro irmãos solteiros se casassem.
Os irmãos imediatamente empoaram seus cabelos e voltaram os olhos para as cortes reais da Europa. A França estava em desvantagem devido às décadas de batalhas com Napoleão. Preferia-se a Alemanha, em parte porque se acreditava que uma educação luterana formava esposas castas e obedientes. Três dos quatro irmãos logo atenderam à ordem, casando-se em meados de 1818. O príncipe real mais novo, Adolphus, duque de Cambridge, enviou um pedido de casamento a Augusta, a princesa alemã de
Hesse-Cassel, que aceitou.16
O pai de Vitória, Edward, duque de Kent, agora era o quarto na linha sucessória, sendo o único filho que adotara o modo de vida espartano e disciplinado dos pais. Tinha mais de 1,80 metro, era altivo e musculoso e se dizia “o mais forte dos fortes”. Embora admitisse reservadamente que era um tanto presunçoso, vangloriava-se de que viveria mais do que os irmãos: “Levo uma vida comum”, dizia muitas vezes, “sobreviverei a todos eles; a
coroa virá para mim e para meus filhos.”17 Nele se mesclavam os opostos que mais tarde se refletiriam na filha: gentil e ríspido, compassivo e carente, áspero quando contrariado e terno quando amado.
Ao contrário dos irmãos, Edward era inteligente, eloquente, um missivista consciencioso. Era progressista, favorável ao ensino popular, à emancipação católica e à abolição da escravatura. Apesar de sua fama de militar tirânico, era bondoso. Também era extravagante: entre os caprichos que se permitia, havia uma biblioteca de 5 mil livros trazidos do exterior, fontes instaladas em gabinetes, degraus forrados de veludo para subir na cama, luzes de todas as cores dispostas no caminho de entrada. Mantinha na equipe de empregados um cabeleireiro para si e seus criados.
Quando o duque pediu a mão de Victoire, não havia garantia de que ela aceitaria. Seus dois filhos, Charles e Feodora, estavam com treze e dez anos respectivamente, e a vida independente de uma viúva era, em muitos aspectos, preferível à de uma esposa. Mas, dias após a morte de Charlotte, o viúvo Leopoldo, que era irmão de Victoire, escreveu-lhe uma carta recomendando que reconsiderasse o pedido do duque de Kent. Agora, de repente, Edward tinha melhores perspectivas: estava muito mais perto do trono. Por fim Victoire concordou. Edward, em resposta, foi terno e
romântico, prometendo à jovem noiva que a faria feliz.18
Edward e Victoire tiveram sorte: foram pouco a pouco se encantando um com o outro e se acomodaram numa rotina doméstica. Em 31 de dezembro de 1818, Edward escreveu à nova esposa um bilhete amoroso: “Deus te abençoe. Ama-me como amo a ti”. Ao repicar dos sinos do Ano-Novo, havia três novas esposas grávidas. Deitaram-se junto aos respectivos maridos, com barrigas redondas e doces esperanças, pensando no ano que se iniciava.
Em 1819, a corrida começou para valer. Em 26 de março, Augusta, esposa de Adolphus, irmão mais novo do duque de Kent, deu à luz um filho sadio. Em 27 de março, Adelaide, esposa de Guilherme, irmão mais velho de Edward, teve um parto prematuro e a menina sobreviveu apenas algumas horas. E, em 28 de março, Edward, o duque de Kent, partiu de Amorbach, na Alemanha, com destino a Londres. Victoire, no oitavo mês de gravidez, enfrentou um percurso de quase setecentos quilômetros por estradas ruins e mares agitados. O receio do duque era que a viagem antecipasse o trabalho de parto. Mas Victoire estava cheia de “alegres expectativas” com a vida que a aguardava na Inglaterra. Enquanto ia se sacudindo ao lado do marido, passava continuamente as mãos no ventre, os dedos acompanhando na pele os pezinhos minúsculos que chutavam e os membros que faziam cócegas na barriga.
Em 18 de abril, a longa caravana de crianças, enfermeiras, parteiras, padres, médicos e uma enxurrada de criados, cachorrinhos e papagaios chegaram a Calais, a cidade portuária francesa que fica na parte mais estreita do canal Inglês da Mancha. O príncipe regente permitira relutante que o irmão usasse o iate real para a travessia. Atravessaram o canal uma semana depois. Ventava forte e Victoire estava pálida; havia vomitado várias vezes durante as três horas de viagem. Depois de finalmente desembarcarem em Dover, seguiram direto para Kensington. Na época, Kensington era um pequeno vilarejo rural e o vasto palácio estava em ruínas. A umidade havia tomado as paredes e o lugar cheirava a podre. O duque, pródigo e ativo decorador de interiores, prontamente comprou cortinas, tecidos e guarnições: branco para os dormitórios e vermelho para a sala de jantar. (Em caráter reservado, também enviou cartas ansiosas a amigos, perguntando como estava Julie, sua ex-companheira.) Enquanto Victoire e ele se preparavam para o nascimento da filha, que reinaria sobre o Império Britânico durante grande parte de um século, pouca gente se interessou no assunto. Era mais um príncipe barrigudo, esbanjador, com mais uma esposa alemã grávida. Os únicos que prestaram atenção foram os que mais tinham a perder com o nascimento de Vitória: a família real. Não muito depois de a primeira lufada de ar encher os pulmões da bebê, já corriam rumores de que seus tios malvados planejavam matá-la.