Vitória, a rainha
18. A Crimeia: “Essa guerra insatisfatória”
18. A Crimeia: “Essa guerra
insatisfatória”1
Estamos e, na verdade, o país inteiro está totalmente absorvido por uma única
ideia, um único pensamento ansioso: a Crimeia… Estou muito orgulhosa de
meus caros nobres Soldados, que, dizem eles, suportam suas privações e a triste
enfermidade que ainda os persegue com grande coragem e bom humor.
RAINHA VITÓRIA AO REI LEOPOLDO DA BÉLGICA2
Muitos, tenho certeza, morreram por mera falta de assistência. Visitei o campo
e os gemidos dos feridos me atravessaram.
JOVEM OFICIAL NAVAL
Em 28 de fevereiro de 1854, de manhã cedo, Vitória se postou à janela da sala de estar no Palácio de Buckingham, perante a aclamação da multidão acenando lenços amarrados em varas. Quando o relógio bateu as sete horas, Vitória, que se vestira às pressas ao alvorecer com um vestido de lã verde-escuro, de toucado e xale combinando, inspirou fundo. Empurrou a porta e avançou até a sacada, para o alarido da multidão. Com seu pequeno binóculo de teatro, fitou orgulhosa os soldados à frente — o último batalhão das Guardas embarcando para a Crimeia. Ficou surpresa: dessa vez, nenhum soldado parecia bêbado!
Um regimento escocês de infantaria — a Guarda de Fuzileiros Escoceses — perfilava-se em túnicas vermelhas, calças pretas e quepes altos de couro de urso, com os rifles cintilando ao sol. O soldado britânico se sentia confiante e inconteste após a brilhante vitória que pôs fim às Guerras Napoleônicas. A própria Vitória queria ser um deles. “Numa ocasião” como a guerra, escreveu a rainha de 34 anos, “a pessoa se sente infeliz de ser
mulher.”3
As Guardas, famosas pela altura e pela coragem, tiraram o quepe e soltaram três grandes vivas — que, escreveu Vitória, “foram direto ao meu coração”. Observava os quepes girando no ar, arremessados ao balcão, aos gritos de “Deus salve a rainha!”. Os soldados então deram meia-volta e se puseram em marcha, sumindo de vista pelo Pall Mall, ao longo da Strand e atravessando a Ponte de Waterloo, até o terminal da South Western Railway. Dezenas de mulheres acompanhavam os maridos à guerra, caminhando ao lado das tropas. Preferiam se juntar ao destino incerto deles à preocupação
de ficarem para trás. 4
No Palácio de Buckingham, os jovens príncipes Bertie e Arthur brincavam com um leão de pelúcia à corda que abria a bocarra e engolia soldadinhos russos de um bocado só. Vitória saiu para caminhar, recebeu visitas e assistiu a uma peça. Sentada vendo os atores se debatendo com suas falas, a mente se distraiu e começou a pensar nos soldados. Mais tarde escreveu: “Nunca vou esquecer a cena comovente, linda, que presenciei
hoje de manhã”.5
A Guerra da Crimeia foi, em muitos aspectos, desnecessária. “Deus queira que não!”, exclamou Vitória ao mencionar pela primeira vez a possibilidade
do conflito.6 Poucos conseguiriam imaginar por que os britânicos haveriam de acorrer em defesa da Turquia contra a Rússia. Tinham pouco em comum com os dois países, e a paz reinava na Europa fazia quarenta anos, desde o final das Guerras Napoleônicas, em 1815. Mas o tsar russo Nicolau I — déspota que reinava num país atrasado, com uma população de mais de 22 milhões de servos — agora estava de olho no debilitado Império Otomano ao sul. Nas últimas décadas, o Império Otomano – ou turco — vivera uma estagnação econômica, fora lento na modernização e sofrera uma sequência de governos incompetentes que não hesitavam em capitular rapidamente às exigências dos países europeus. O tsar Nicolau se referia ao Império como o “homem doente da Europa”, queria retalhá-lo em áreas menores e distribuir os despojos. Era uma região de importância geográfica crucial: Constantinopla ligava a Europa e a Ásia por terra e por mar; era ali que o mar Negro encontrava o Mediterrâneo. Se a Rússia entrasse ao sul na Turquia, teria a capacidade de bloquear cadeias vitais de abastecimento — em especial, a rota britânica até a Índia — e de expandir seu poderio marítimo através de sua base naval em Sebastopol. Em 1853, quando a Rússia deslocou suas tropas ao sul, entrando no Danúbio inferior (na atual Romênia), o resto da Europa — sobretudo a França, a Grã-Bretanha, a Áustria e a Prússia — observava a situação no leste com nervosismo.
A guerra, para todos os efeitos, começou com uma discussão sobre o acesso aos santuários na Palestina. Mas o verdadeiro cerne da disputa era outro: a quem caberia o papel de protetor dos cristãos na Turquia muçulmana, a França católica ou a Rússia ortodoxa. O Império Otomano, que em seu apogeu ocupou amplas faixas da África, Europa, Ásia e Oriente Médio, era de maioria islâmica, mas tinha 13 milhões de cristãos ortodoxos
numa população aproximada de 35 milhões.7 A Rússia era a sede da Igreja Ortodoxa Oriental desde a queda do Império Bizantino, em 1453. O tsar Nicolau queria ser o guardião desses cristãos sob o domínio islâmico no Império Otomano e protegê-los contra perseguições. Tal alegação foi sua maneira de penetrar ainda mais numa região instável. Quando os líderes otomanos resolveram conceder o protetorado à França, a Rússia invadiu os territórios otomanos agora correspondentes à Romênia e à Moldávia.
Luís Napoleão Bonaparte, que fora eleito pelo voto popular para a presidência em 1848 e se declarou imperador Napoleão III em 1852, estava ansioso por recuperar a posição da França na Europa (e ampliar sua popularidade no país atuando como paladino dos católicos). A Grã-Bretanha — a maior potência naval do mundo — precisava, por sua vez, proteger as rotas comerciais até a Índia, que passavam pelo Egito e pelo Mediterrâneo oriental, as quais estariam em risco se a Rússia tomasse o controle do mar Negro. Lord Palmerston defendia a necessidade da guerra e conquistou o apoio do público britânico. Depois de semanas de um prolongado fogo cruzado diplomático um tanto canhestro, vários mal-entendidos foram tomados como sinal de desdém por parte dos russos e, com a ajuda de políticos e veículos de imprensa beligerantes, o país se viu gradualmente conduzido à guerra.
Vitória estava preocupada em sair de Londres e ir para a Escócia no final do verão de 1853, enquanto fervilhavam as conversas sobre a guerra, mas Lord Aberdeen — que se tornara primeiro-ministro em 1852 — lhe garantiu que não ficaria excluída das decisões essenciais. Assim, ela ficou uma fera quando descobriu em outubro que Lord Palmerston convencera o primeiro-ministro a enviar tropas para o mar Negro, em posição defensiva, sem pedir
seu consentimento. 8 Albert também estava muito preocupado com a propensão para o conflito. Queria que as quatro potências neutras — Grã-Bretanha, França, Prússia e Áustria — agissem em conjunto para evitar a guerra. Também estava preocupado com a precariedade de uma aliança
exclusiva com a França.9 O casal saiu imediatamente de Balmoral e voltou a Windsor, para exigir explicações de Lord Aberdeen.
Vitória estava cada vez mais inquieta que a Inglaterra estivesse assumindo os riscos de uma guerra europeia ao oferecer apoio à Turquia sem estipular
nenhuma condição para tal.10 Tentou freneticamente o apoio de seus
ministros, mas não conseguiu diminuir o ímpeto de lutar.11 Em 23 de outubro, a Turquia declarou guerra à Rússia. Em 30 de novembro, o massacre de quatrocentos turcos em Sinope catalisou o apoio britânico. A Rússia não ia transformar o mar Negro num “lago russo”, declarou The Times.
O inverno de 1853 foi rigoroso, escuro e gelado. O sol sumia por dias a fio e, com ele, as esperanças de paz de Vitória. Cinco dias antes do Natal,
ela anotou: “Está uma situação de ansiedade”. 12 No primeiro dia do novo ano, passeando conduzida numa cadeira pela superfície congelada do lago em Windsor, acompanhada por outras damas da corte, Vitória tentava não pensar no conflito que se aproximava. Vicky e Alice, agora com treze e dez anos respectivamente, estavam aprendendo a esquiar; Vitória assistia com curiosidade e decidiu tentar, cambaleando apoiada no braço de outra pessoa. As crianças faziam bonecos de neve e cervos vagueavam por ali.
Em 25 de fevereiro de 1854, o gabinete ministerial determinou que a Inglaterra enviaria à Rússia uma intimação para evacuar o Danúbio. Se a Rússia negasse ou não respondesse, a Inglaterra entraria em ação. Lord Aberdeen, o primeiro-ministro, foi ver Vitória logo a seguir e reclamou que tinha “enorme repugnância” a todas as formas de guerra. Finalmente convencida daquilo que então se tornara inevitável, ela se empertigou: “Falei a ele que nunca daria certo, que o necessário era evitar mais derramamento de sangue e uma guerra mais pavorosa, e isso devia ser feito
agora, pois uma escalada seria muito perigosa”.13 Resignou-se. Era hora de
manter a calma e rezar por uma guerra curta e relativamente incruenta.14 E a Inglaterra tinha um aliado fundamental: ao longo do inverno, a França e a Inglaterra tinham se aproximado mais e mais, vencendo uma entranhada inimizade para lutarem juntas pela primeira vez em duzentos anos.
A Rússia se negou a recuar e a Grã-Bretanha se preparou para entrar em guerra. Tinha sido um avanço peculiar, inexorável, composto de ultimatos, atitudes temerárias e um populacho imaginando insultos de bárbaros distantes, tudo isso inflamado por jornais e políticos intervencionistas. Com uma diplomacia mais hábil, teria sido fácil evitar o envolvimento da Grã-Bretanha e da França. Mas a opinião pública fora atiçada e estava frenética. O poeta Arthur Hugh Clough escreveu ao autor americano Charles Eliot Norton, em Boston: “Bom, aqui estamos entrando em guerra e as pessoas, depois de seu longo e árido período mercantil, parecem muito contentes; o
sentimento de que a guerra é justa, claro, é uma grande coisa”.15 Thomas Carlyle achava que era uma “coisa doida”, mas, na primavera de 1854,
anotou no diário: “Nunca se viu tal entusiasmo entre a população”.16 Houve alguma resistência, de Lord Aberdeen e outros, mas o ânimo de Vitória refletia o de seus súditos. Em 28 de março começou a guerra.
Seis meses depois, cães e gatos mortos boiavam na superfície das águas do porto de Scutari na Turquia, grotescos à luz do sol. Dali a algumas horas chegaria o navio Colombo, com montes de cadáveres e soldados feridos na Batalha de Alma, em 20 de setembro, com vermes fervilhando nas chagas abertas. Era a primeira batalha da guerra e, embora fosse saudada como uma vitória para a Grã-Bretanha e a França, as perdas foram grandes. O fedor era tão forte que o capitão passou mal durante cinco dias. Todos os cobertores foram atirados ao mar antes que o navio lançasse âncora entre os destroços boiando no porto.
A ineficiência das Forças Armadas foi fatídica. Tinham levado quatro dias para transportar os feridos do campo de batalha até o navio, e vários homens morreram de cólera antes da partida, em 24 de setembro. Não se providenciou ninguém para carregar as macas dos feridos: um oficial comentou que um homem transportava seus camaradas como “um grande filho vigoroso de Netuno segurando um pobre soldado ferido como uma
enfermeira cuidadosa seguraria um bebezinho”.17 Lá do alto dos penhascos, mulheres russas fitavam os inimigos feridos. Um jovem oficial naval descreveu o desfecho da batalha:
Você não pode fazer ideia dos sofrimentos deles; homens que tinham sofrido amputação sendo
carregados nos ombros de outros homens por mais de dez quilômetros… Nunca vi tal falta de
organização. Os militares não tinham providenciado quase nada. Encontrei oficiais que me
disseram que, até receberem um pouco de conhaque com água de alguns médicos navais, não
tinham posto absolutamente nada na boca durante dois dias, e haviam passado 36 horas em campo
sem sequer ver um oficial médico. Muitos, tenho certeza, morreram por mera falta de assistência.
Visitei o campo e os gemidos dos feridos me cortaram o coração.18
Entre os 27 oficiais feridos, os 422 soldados feridos e os 104 prisioneiros russos no navio Colombo, apenas metade passara por exame médico antes de embarcar. Havia somente quatro médicos a bordo e a maioria dos feridos só foi tratada quase uma semana após a batalha. O correspondente de The
Times descreveu o tombadilho como “uma massa de podridão”.19 Eram tantos os corpos jazendo imóveis nos conveses que os oficiais não conseguiam descer até os sextantes de navegação e tiveram de seguir a rota até Scutari por intuição. Isso atrasou a viagem por mais doze horas; trinta homens morreram no percurso. Os afortunados foram arrastados devagar pela colina, puxados pelos pensionistas de idade que tinham sido convocados para trabalhar como equipe de socorro e eram, como escreveu o
correspondente do jornal, “totalmente inúteis”.20
A falta de preparativos básicos foi absurda. As Forças Armadas britânicas tinham enviado tropas para a batalha sem praticamente nenhum planejamento prévio para o atendimento médico. No hospital em Scutari, não havia assistentes nem enfermeiras. Não havia sequer material para fazer as bandagens dos ferimentos. Entre os 23 mil britânicos que morreram nos dois anos e meio da Guerra da Crimeia, apenas 4 mil foram mortos em ação; os demais sucumbiram às doenças, enfermidades e negligência (o que ficou pior ainda porque a caserna que os turcos tinham emprestado aos britânicos para usar como hospital era construída sobre a tubulação de
esgoto e fossas transbordantes, com pouca ventilação). 21 Logo ficou óbvio — principalmente para a mulher que se tornaria um símbolo da Guerra da Crimeia, Florence Nightingale — que teria sido fácil evitar muitas das baixas.
Na Inglaterra, The Times começou uma campanha para melhor atendimento aos feridos e publicou versões que diferiam dramaticamente das notícias oficiais. Os soldados, dizia o jornal, estavam sendo tratados como selvagens. O correspondente em Constantinopla e futuro editor de The Times, Thomas Chenery, torpedeou:
O que se dirá quando se souber que não há sequer pano para fazer bandagens para os feridos? Há
enorme piedade pelos sofrimentos dos infelizes internos de Scutari e todas as famílias estão
doando lençóis e roupas velhas para atender a suas necessidades. Mas por que não se atendeu a
essa necessidade claramente prevista? A expedição à Crimeia não foi objeto de conversa dos
últimos quatro meses?22
Em outubro de 1854, um áspero editorial em The Times convocou os cidadãos a doarem dinheiro para providenciar suprimentos básicos para a campanha da Crimeia. Naquele inverno, a campanha de The Times angariou mais de 20 mil libras. Todas as pessoas contratadas pela Grande Exposição doaram um dia de salário e o Victoria Theatre doou a bilheteria de uma
noite.23 E Florence Nightingale, na casa de veraneio da família em Derbyshire, devorava os relatos da guerra. Como Vitória, Florence tinha grande vontade de participar do tema em pauta. No caso, de impor ordem e eficiência naquela tremenda confusão armada por homens sem preparo suficiente. Ela odiava a guerra, mas considerava-a como parte da vida. O que realmente abominava era a ineficiência, a incompetência e a
estupidez.24 Em 10 de outubro de 1854, uma terça-feira, Florence foi até Londres. Na quinta, conversou com Lord Palmerston, então ministro dos assuntos internos e amigo da família Nightingale, dizendo que gostaria de ir para a Turquia, com uma outra enfermeira, a suas próprias expensas. Na sexta, recebeu cartas de autorização e apresentação do dr. Andrew Smith, do Departamento Médico das Forças Armadas. A viagem foi rapidamente
organizada.25 Em 21 de outubro, Florence Nightingale embarcou para Scutari, com um variado grupo de enfermeiras muito dispostas, agora quarenta ao todo. Numa curta semana, a história da assistência médica na Grã-Bretanha — e no mundo — se transformara para sempre.
Vitória estava decidida a ser uma monarca participante e falou ao tio
Leopoldo: “Estou com todo o meu coração e alma na Crimeia”.26 Vivia em ansiedade constante, aguardando notícias das batalhas. A guerra fora imediatamente infestada por problemas maciços de doenças e enfermidades, que se alastravam com grande rapidez no verão úmido do Mediterrâneo. Milhares morreram de disenteria, diarreia e cólera antes mesmo de
empunhar uma arma contra o inimigo. 27 William Howard Russell, o correspondente de The Times, viu cadáveres flutuando no porto de
Scutari.28
Vitória ficou furiosa com as matérias de The Times — o tratamento dos homens era pavoroso, mas também era constrangedor que a incompetência
dos militares fosse revelada a aliados e inimigos.29 Por que deixar os russos saberem onde tinham falhado? Em maio de 1855, depois de um ano de guerra, um certo tenente-coronel Jeffreys lhe disse que as notícias sobre “a
miséria, o sofrimento, a falta completa de tudo, a doença etc.” 30 não tinham sido exageradas. Vitória lhe falou que as matérias da imprensa apenas encorajaram os russos, e escreveu no diário:
Ele admitiu que era um grande infortúnio, mas que, por outro lado, eles achavam que certas coisas
deviam ser conhecidas, do contrário não seriam remediadas, e o país precisava entender o que
andava acontecendo… As trincheiras, mal drenadas, estavam cheias de água e o soldado tinha que
ficar ali com água pela cintura. Era o caso até mesmo com os Oficiais, que mal tinham tempo de
trocar as botas, sendo constantemente obrigados a aparecer à noite. O que devia ter sido, então,
com os pobres sujeitos? Tinham que se deitar com as roupas molhadas, muitas vezes sem poder
trocá-las por uma ou duas noites. Congelavam de frio e quando de fato tiravam as botas, nacos dos
pés saíam junto com elas! Esse coronel Jeffreys tinha visto pessoalmente e, portanto, podia
declarar que não houve nenhum exagero dos jornais.
Vitória fez tudo o que podia: repreendeu o ministro sobre a evidente desorganização e desleixo, defendeu o envio de mais soldados, pressionou pela rápida confecção de medalhas para serem entregues aos que retornavam, tentou encontrar ocupação para os veteranos incapacitados, visitou no hospital os soldados feridos de regresso, insistiu em hospitais militares melhores. Falou a Lord Panmure, o ministro da Guerra, que
pensava constantemente em suas “queridas” tropas. 31
Onde mais se evidencia a empatia natural de Vitória é em seus relatos detalhados e cuidadosos dos encontros com soldados feridos. O diário para o ano de 1854 está repleto de casos de ferimentos à bala e rostos destruídos, pés desfigurados pelo frio gélido, bocas desdentadas por causa do escorbuto, mangas de camisa e pernas de calça pendendo tristemente vazias. Visitava frequentemente os soldados nos hospitais e ficava sempre angustiada à vista desses homens “valentes e nobres”. Procurava encontrar razões de otimismo: estavam com o couro cabeludo destroçado por disparos, mas as feições do rosto estavam bem; sobreviveriam, alguns até voltariam para a guerra. Gostaria de poder visitá-los diariamente.
Algumas poucas coisas a animavam: as notícias de que suas mensagens às tropas encorajavam os soldados; os êxitos militares dos britânicos contra os russos; as declarações de que seus homens não se queixavam e se conduziam com grande nobreza nas mais terríveis circunstâncias. Grande parte disso era propaganda dos generais que não queriam deixá-la transtornada. O diário de Vitória durante a guerra mostra com que frequência seu círculo próximo transformava mesmo as piores notícias em coisas positivas, a ânsia com que os generais queriam lhe assegurar que os soldados não se importavam em sofrer pelo seu país. Sir John McNeill, que fora enviado para inspecionar os hospitais da Crimeia como inspetor sanitário, apresentou a Vitória “relatórios extremamente interessantes, animadores e reconfortantes sobre o estado do bravo Exército” e minimizou
as notícias da imprensa.32 Ele descreveu o acampamento militar como uma espécie de Jardim do Éden: “O Acampamento era um dos mais felizes que se podiam imaginar; havia cantorias, danças, jogos, e havia uma incrível despreocupação com o perigo: ‘os soldados se preocupavam com tiros e balas tanto quanto se fossem maçãs e peras’… Não existe ‘um único homem naquele Exército que não daria alegremente sua vida para provar
sua devoção a V. Majestade”. 33
Vitória se agarrava a tais afirmativas, bem como a qualquer relato de heroísmo. Em 9 de outubro de 1854, por exemplo, ela recebeu o despacho “satisfatório” de Lord Raglan — o comandante das tropas britânicas na Crimeia — sobre a Batalha de Alma: “Também lemos com profundo interesse a lista de baixas tristemente extensa. A batalha foi extremamente brilhante e decisiva, mas muito sangrenta. Nunca uma bateria tão forte, tão bem defendida, foi derrotada em tão curto tempo, com tanto denodo e bravura”.
Naquela noite, Vitória foi dançar a quadrilha com os filhos em Balmoral.
A Batalha de Alma, logo ao norte de Sebastopol, em 20 de setembro de 1854 fora a primeira vitória decisiva para os aliados. A ela se seguiu a caótica Batalha de Balaclava em 25 de outubro, em que a cavalaria ligeira britânica e francesa, armada apenas com lances e sabres, enfrentou fileiras de russos armados de fuzis. Só da Brigada Ligeira britânica, 240 de seus 660 soldados foram mortos ou feridos pelos disparos (ao todo, 737 soldados
das forças aliadas foram mortos ou feridos ou desapareceram na batalha).34 O triste refrão de Tennyson foi publicado poucas semanas depois da carga: “Não lhes cabia contestar,/ Não lhes cabia questionar,/ Cabia-lhes apenas fazer e morrer./ Para o vale da Morte/ Seguiram os seiscentos”. A carga da Brigada Ligeira ficou para a posteridade como um momento de sacrifício glorioso, como tantas vezes ocorre com massacres desnecessários ordenados por generais sem visão.
Vitória tremia ao ouvir o despacho de Lord Raglan sobre o terrível
desfecho em Balaclava; naquela noite, passou horas insone na cama. 35 Quando desceu na manhã seguinte para o desjejum, recebeu outro despacho, ainda pior. Passou o dia tremendo, durante a caminhada matinal, o almoço e o jantar. Os militares tentaram lhe assegurar que a batalha tinha sido uma grande vitória, mesmo sem nenhum avanço das tropas. Vitória, que não conhecera nenhuma guerra na vida, ficou assombrada: “Que tempos pavorosos! Nunca pensei que viveria para ver e sentir tudo isso!”. Oscilava entre a dor e o orgulho: com sua empatia e imaginação, sentia-se
destroçada.36 Amofinava-se pensando nos homens e nas viúvas. Seu sono era intermitente e repetiu dezenas de vezes a palavra “ansiosa” no diário.
A guerra finalmente culminou no pequeno porto de Sebastopol sob controle russo, no mar Negro. Lá ficava o forte que as forças aliadas da Grã-Bretanha, França, Sardenha e Império Otomano pretendiam capturar tão logo chegassem à Crimeia. Mas somente na Batalha de Inkerman, em 5 de novembro de 1854, que rompera a resistência russa, é que conseguiram cercar e sitiar o porto. O sítio se arrastou por todo o inverno de 1854; o forte fora planejado por excelentes engenheiros russos no começo dos anos 1800 e se demonstrara inexpugnável. A rainha e os ministros aguardavam notícias dia após dia. No Natal de 1854, o ânimo dos britânicos era soturno; o povo devorava os relatos diários de Russell sobre a miséria, a falta de alimentos, o insucesso em capturar o bastião russo. Lady Lyttelton escreveu a um amigo: “O peso e a tristeza oprimem o ânimo de forma medonha;
tenho a impressão de que nunca guerra alguma foi tão horrível”.37
Vitória era ativa como comandante suprema e participava de todos os debates sobre a guerra, ainda que não se considerasse muito competente em assuntos militares. Escreveu ao duque de Newcastle: “A rainha crê ser uma de suas mais altas prerrogativas e mais caros deveres se preocupar pelo
bem-estar e sucesso de seu exército”.38 Albert trabalhava a seu lado, escrevendo memorandos que resumiam as várias disputas e divergências políticas. Em janeiro de 1855, quando uma ampla maioria encaminhou uma moção para se realizar um inquérito sobre a condução da guerra, Lord Aberdeen renunciou ao cargo de primeiro-ministro. Em seu lugar entrou Lord Palmerston, para a satisfação de Vitória e Albert, que achavam que ele se sairia muito melhor como primeiro-ministro do que como ministro das Relações Exteriores.
Mas, junto com a guerra, veio algo estranho: uma onda de hostilidade contra Albert. Como apontou Stockmar, a desconfiança em relação ao príncipe derivava do fato de ser estrangeiro; não se vestia, não montava
nem dava um aperto de mão à “verdadeira maneira inglesa ortodoxa”.39 Sua reserva e sua “moral severa” se evidenciavam na recusa em rogar pragas,
apostar e ter amantes.40 Os protecionistas tinham ficado indignados com sua apresentação da indústria estrangeira na Grande Exposição. E havia o fato inescapável de que era alemão.
As suspeitas de uma influência estrangeira eram profundas na Grã-Bretanha. Muitos reclamavam da presença do príncipe aconselhando a rainha em qualquer função que fosse; outros argumentavam que era inconstitucional que ele aconselhasse a soberana em assuntos do Estado, que os debatesse com os ministros ou que sequer ficasse informado a respeito deles. Durante treze anos, o fato de ficar junto ao trono não merecera maiores comentários. Agora, quando fazia campanha explícita contra a desorganização e má gestão da guerra e defendia o envio de mais soldados, tornou-se vítima da xenofobia dos tempos de guerra. Foi acusado de intervenção excessiva, de influência quase sinistra sobre a rainha e de desejo em ganhar poder pessoal após a guerra. Culparam-no de ter bloqueado as investidas de Palmerston em favor da guerra contra os russos, bem como pelo breve afastamento de Palmerston do gabinete ministerial,
após uma discussão sobre um projeto de reforma.41 Alastraram-se os falsos boatos de que Albert fora acusado de traição.
Para Vitória, esses ataques eram “abomináveis”, “insustentáveis”,
“horrendos”, “infames e agora quase ridículos”.42 Magoado, Albert reagiu se retirando de alguns de seus compromissos até que o assunto fosse resolvido no Parlamento. Vitória discordou dessa sua retirada, achando que isso indicava sinal de culpa e criticou Albert por “temer fazer o que
considero correto”.43 Pressionou os ministros que jantavam à sua mesa para apoiarem uma moção parlamentar de repúdio público dos boatos. Gladstone lhe garantiu que os críticos estavam apenas agitados sobre “a Questão
Oriental e seu desejo de guerra”. 44 Para Lord Aberdeen, os boatos não passavam de propaganda antigovernamental sem maiores consequências. Quando o Parlamento retomou as sessões em 31 de janeiro de 1854, Russell presidiu ao debate na Câmara defendendo o papel de Albert como
conselheiro de importância fundamental.45 Isso acalmou os críticos e, três
semanas depois, Vitória anotou que o escárnio da multidão cessara.46
Muitos dos boatos, porém, eram verdadeiros: Albert tinha intenso envolvimento no trabalho da rainha e usurpara seu papel em muitos aspectos. Agora, apenas ele se reunia regularmente com o primeiro-ministro e conquistara o respeito do gabinete e de chefes de Estado estrangeiros; o imperador francês Napoleão III, que se encontrou com ele em setembro de 1854, declarou que “nunca conhecera uma pessoa com conhecimentos tão
profundos e variados”. 47 Em seu diário, Vitória mencionava esses encontros em tom casual, embora continuasse ativamente envolvida em assuntos políticos durante as gestações e os períodos de resguardo. Para Albert, era uma relação adequada segundo o modelo bíblico tradicional, em que o homem é o senhor da mulher.
Lendo a correspondência deles nessa época, Lord Esher observou que “eram os verdadeiros ministros da Coroa, e mesmo Palmerston, de vez em
quando, tinha que ocupar assento ao fundo”.48
Mas, ao mesmo tempo que era suspeito de exercer demasiado poder, Albert era também motivo de chacota por lhe faltar poder. A perspectiva de uma mulher com função mais poderosa do que a do marido foi alimento constante dos cartunistas daquelas décadas e inspirou uma infinidade de anedotas apócrifas. Numa delas, atribuída ao pintor E. M. Ward, Albert está jantando com o Conselho da Real Academia quando chega um mensageiro da corte e lhe diz que a rainha precisa dele com urgência. Albert assente e volta ao jantar. Depois de mandar embora mais dois mensageiros, finalmente entra na carruagem e diz ao condutor para se desviar do palácio
e seguir diretamente para Claremont, a casa de campo do tio Leopoldo.49
A anedota talvez mais conhecida é a do biógrafo eduardiano Lytton Strachey. Albert entra e tranca a porta de seu quarto; vem Vitória, batendo com força:
Vitória: “Abra a porta!”
Albert: “Quem é?”
Vitória: “A rainha da Inglaterra!”
Silêncio. Uma torrente de pancadas na porta.
Vitória: “Abra a porta!”
Albert: “Quem é?”
Vitória: “A rainha da Inglaterra!”
Silêncio. Mais pancadas.
Vitória: “Sua esposa, Albert.”
Imediatamente a porta se escancara.50
Mas, para todos os que conheciam o casal, era óbvio que a figura dominante era Albert; criara-se entre ambos o entendimento de que Albert tinha dotes superiores. Uma carta inédita que ele escreveu ao irmão em março de 1841, não muito depois de se casar, permite vislumbrar suas ideias sobre a inferioridade intelectual das mulheres. Dizia ele:
É agradável saber que você tem frequentado a sociedade com artistas excelentes. Mas não posso
concordar que você só ganhe em conversas com damas/ mulheres inteligentes/ espertas. Perderá
em virilidade e clareza de suas percepções do mundo; pois, quanto mais inteligentes são essas
damas, mais confusas são em princípios e ideias gerais. Preferiria vê-lo em contato próximo e
íntimo com homens de mais idade, que têm experiência de vida, realizaram algo e alcançaram um
equilíbrio entre eles mesmos e a humanidade em geral.51
Albert não se interessava especialmente por mulheres, inteligentes ou não. Ao contrário de muitos outros políticos e aristocratas, não crescera cercado por mulheres intelectuais — como a escritora reformadora Elizabeth Montagu ou a mãe de Lord Melbourne, Elizabeth Lamb, que mantinham salons e estavam no centro da vida cultural sofisticada na Inglaterra oitocentista. Desde pequeno, Albert crescera sem mãe; tinha um preceptor, um advogado e todo um corpo de assistentes domésticos do sexo masculino. Em vez de incentivar a esposa a confiar em suas capacidades próprias, ele insistia que ela precisava de “aprimoramento”.
Para Vitória, agora Albert era seu “Senhor e Mestre”.52 Em 1854, no aniversário de catorze anos de casamento, ela suspirava encantada: “Poucas
mulheres são tão abençoadas com um marido assim”. 53 Ela revirou sua mesa para encontrar a baixela do casamento: “Sinto-me muito marcada pela promessa que fiz de ‘amar, cuidar, honrar, servir e obedecer” a meu marido. Possa ela ficar para sempre devidamente impressa em meu espírito e no de todas as mulheres”. Ela zombava das mulheres que dominavam o marido,
em particular de Lady John Russell, esposa do primeiro-ministro.54 Quando a rainha de Portugal morreu, Vitória lamentou a perda de “uma esposa extremamente devotada e amorosa, mãe exemplar e verdadeira amiga
estimada”.55 Não mencionou o fato de que a amiga também era monarca.
Quanto mais elevava Albert, mais Vitória caía em sua própria estima. Vinha dando sinais cada vez mais frequentes de falta de confiança em suas capacidades pessoais, numa grande mudança em relação à sua determinação na adolescência. Isso pouco admira, pois o marido lhe dizia que sua filha
mais velha tinha mais capacidade intelectual do que ela.56 Dezoito anos após subir ao trono, Vitória escreveu: “Acredito que tenho tentado cumprir meu dever, embora sinta como sou incompetente, como mulher, em relação ao que deveria ser. Muitas vezes penso como seria bom que o querido
Albert fosse rei, e não eu!”. 57 Vitória tinha boa educação e curiosidade intelectual; conversava sobre astronomia com Lord Rosse, inclusive temas como o peso das estrelas e planetas distantes como Júpiter. Mas era frequente que se sentisse intimidada e cada vez mais insegura. Em outubro de 1854, depois de vários meses de despachos vindos do fronte da Guerra da Crimeia, hesitou antes de escrever sobre a guerra no diário: “Sou tão pouco versada em assuntos militares que não conseguirei descrever adequadamente em que consistem as dificuldades, mas tentarei pôr em
poucas palavras o que quero dizer”.58
As qualidades que haviam permitido à rainha lutar pela coroa eram as mesmas que agora Albert dizia destruírem seu caráter e sua capacidade de governar: teimosia, obstinação, força, crença em si mesma. Ela queria agradá-lo. Quando ele fez 35 anos, em 1854, ela se arrumou cuidadosamente com um vestido de musselina branca e cor-de-rosa, ficou observando o rosto dele enquanto abria os presentes e refletiu como se sentia indigna. (Ela iria transmitir esse receio a Vicky, que era uma criança precoce de inteligência prodigiosa e mais tarde parceira intelectual em pé de igualdade com o marido, Fritz; naquela época, tal era o destino de uma mulher ligada a um homem inteligente e dominador.) Certamente “nenhuma
esposa jamais amou e venerou o marido tanto quanto eu”, escreveu ela.59 Vitória se sentiu transbordar de alegria quando todos os militares receberam instruções para deixarem crescer o bigode, exatamente como Albert. Em 4 de agosto de 1854, disseram-lhe que os bigodes eram “muito populares”
entre as Guardas.60 Ela queria que os filhos fossem parecidos com Albert, que os soldados espelhassem Albert, que seus ministros consultassem Albert, que seus súditos respeitassem Albert.
As ambições do príncipe eram grandes e impacientes, e ele realmente queria dar assistência à esposa. Quando o duque de Wellington lhe ofereceu o cargo de comandante supremo em 1850, ele declinou porque Vitória precisava de sua ajuda:
A rainha, como uma senhora, nem sempre tinha condições de desempenhar os vários deveres que
lhe eram impostos; além disso, não tinha nenhum secretário particular que trabalhasse para ela, ao
contrário de soberanos anteriores. A única pessoa que a ajudava e podia assisti-la, na
multiplicidade de trabalho que deve ser realizado pelo soberano, era eu mesmo. Lamentaria muito
assumir qualquer obrigação que absorvesse meu tempo e atenção num único departamento a ponto
de interferir em minha utilidade geral para a rainha.61
Sentado em seus aposentos no Castelo de Windsor em 6 de abril de 1850, à luz da lâmpada verde que trouxera da Alemanha, Albert escreveu um memorando expondo como entendia seu papel pouco usual:
Essa posição é muito peculiar e delicada. Requer que o marido deva mergulhar totalmente sua
própria existência individual na da esposa — que não almeje nenhum poder por si ou para si —
evite qualquer divergência — não assuma nenhuma responsabilidade exclusiva perante o público,
mas torne sua posição uma parte totalmente integrante da dela — preencha todas as lacunas que,
como mulher, naturalmente deixaria no exercício de suas funções majestáticas — observe atenta e
continuamente todos os aspectos dos assuntos públicos, a fim de poder aconselhá-la e assisti-la a
qualquer momento em qualquer das múltiplas e difíceis questões ou obrigações apresentadas a
ela.62
Em 1857, finalmente Albert se tornou príncipe consorte, para a grande
satisfação de Vitória. 63 A essa altura, escreveu Greville, a rainha perdera em envergadura perante o domínio impressionante do marido sobre a política do governo em todos os seus detalhes e “age em tudo por inspiração
dele”. 64 Albert assumiu seu comando sem reforçar o dela. Em vez de contar com um amplo leque de conselheiros, Vitória contava apenas com ele; dependia totalmente dele e sua autoconfiança saiu prejudicada. Mas Albert subestimava a inteligência, bem como a energia e força da esposa.
Enquanto a guerra prosseguia ao longo de 1855 e 1856, Vitória sentia inveja da mulher a quem se referia como “a célebre Florence Nightingale”. Procurava nos jornais menções à “Dama da Lâmpada”, e discorria longamente no diário sobre o apreço dos soldados pela fantástica
enfermeira. Ela também tinha vontade de cuidar de seus soldados feridos.65 Vitória falava de seus soldados em tom maternal; quando lhes entregou pessoalmente suas medalhas da Guerra da Crimeia, em março de 1855, ficou emocionada, escrevendo como era extraordinário que “a mão áspera do bravo e honesto soldado” entrasse em contato com a mãozinha miúda e
macia da rainha. Agradou-lhe saber que muitos choraram naquele dia.66
A rainha, em 20 de janeiro de 1856, deu a Nightingale um broche com a inscrição “Abençoados sejam os Misericordiosos”. Mais tarde, no mesmo ano, convidou a enfermeira agora amplamente renomada a visitá-la em Balmoral. Vitória lhe escreveu em janeiro de 1856: “Será para mim uma enorme satisfação, quando finalmente voltar a estas plagas, conhecer
alguém que tem dado um exemplo tão brilhante para nosso sexo”. 67 Nightingale aceitou prontamente o convite, esperando ter a oportunidade de
conseguir um encargo real. 68
No encontro em Balmoral, Vitória achou Nightingale magra, miúda, consumida de preocupações — tinha contraído durante a guerra a chamada “febre da Crimeia” (julga-se que era tifo). Viajando incógnita como “Sra. Smith”, junto com a tia, ela voltara à Inglaterra sofrendo de brucelose crônica, uma infecção bacteriana feroz que a atormentou pelo resto da vida. Vitória ficou surpresa: esperava uma mulher fria e austera e encontrou uma pessoa “gentil, agradável e envolvente, extremamente refinada e muito
inteligente, clara e abrangente em suas concepções sobre tudo”. 69 Mas o que a rainha mais admirou foi a firmeza de intenções de Nightingale:
Sua mente está única e exclusivamente tomada pelo único objetivo ao qual sacrifica sua saúde e ao
qual se dedica como uma santa. Mas é isenta de entusiasmos absurdos… realmente simples,
serena, piedosa nas ações e concepções, mas sem a menor mostra de religião ou qualquer partícula
de fingimento. E, junto com isso, um desejo sincero de nunca aparecer — viajando sob nome
fictício para não ser reconhecida e recusando todas as manifestações públicas.70
Nightingale falou principalmente sobre a falta de “método e organização” na assistência médica militar, que levara a tanto sofrimento na Crimeia, e sobre a importância de melhorá-la. Vitória se emocionou quando Nightingale lhe agradeceu pelo “apoio e solidariedade dizendo que todos os soldados, sem exceção, tinham se comovido e apreciado o auxílio e o
interesse”. 71 Albert debateu longamente o assunto com Nightingale, concordando que os problemas poderiam ficar ainda piores antes que a guerra terminasse. Nightingale tomava cuidado com as palavras, ansiosa em despertar solidariedade e apoio à sua causa. Seus êxitos vinham se tornando amplamente conhecidos; poucos anos depois, o governo dos Estados Unidos lhe pediu conselhos sobre a assistência médica aos feridos na
Guerra Civil americana.72 Ela passou o mês seguinte na casa de Sir James Clark, perto de Balmoral, causando grande surpresa a Vitória quando cortou todo o cabelo, na tentativa de se livrar de uma infestação de piolhos que contraíra no hospital. Ao final de sua estada e para sua grande satisfação, concordaram que se criaria uma comissão real para a saúde nas Forças Armadas.
A primeira impressão de Nightingale foi que Vitória podia ser curiosa, mas era “tola — a pessoa mais insegura que já tinha conhecido na vida”; quando queria conversar, procurava Albert. Mas Nightingale mudou radicalmente de opinião depois de passar mais tempo com a rainha. Quanto a Albert, concluiu que ele “parecia oprimido com sua situação, muito inteligente, conhecedor de todos os assuntos”, mas capaz de grandes equívocos. “Ele pensava que o mundo poderia ser administrado à base de prêmios, exposições e boas intenções.” Concluiu de maneira premonitória
que ele parecia “alguém querendo morrer”.73 O significado dessas palavras não é claro, e foi uma observação que ela fez retrospectivamente em 1879. A impressão pode ter sido causada pelo esgotamento ou pela saúde frágil dele, mas era deprimente, vindo de uma mulher cuja especialidade consistia em tentar ajudar os outros a ficarem vivos.
Um elemento inevitável de ser rainha em época de crise nacional é a incongruência. Enquanto a violência e o derramamento de sangue prosseguiam na Crimeia, Vitória escrevia sobre o reflexo da lua nas águas do mar, sobre a neve, as flores, o azul do céu e o “peculiar efeito
tranquilizante” de uma semana de sol em Osborne.74 Enquanto os soldados embarcavam para o Oriente e tremiam nas encostas sem tendas nem
agasalhos, Vitória procurava ovos de Páscoa com os filhos,75 brincava com ratinhos de pelúcia e se aninhava calmamente junto à lareira enquanto
Albert caçava veados.76
Os filhos espichavam em altura. Vicky, a primogênita, de repente já era uma moça. Em 1855, durante a guerra, enquanto a família real veraneava em Balmoral, Frederico Guilherme, filho único do imperador Guilherme I da Prússia, pediu a Vitória e Albert a mão da filha inteligente e dotada, então com quase quinze anos. Os pais concordaram felizes, mediante a promessa dele — e dos homens de Estado em quem confiavam — de não dizer nada a Vicky até ser crismada no ano seguinte, com dezesseis anos. Vitória vibrou, dizendo a Leopoldo: “É um querido jovem, excelente, encantador, a quem teremos toda a confiança em conceder nossa amada filha. O que nos agrada muito é ver que ele é realmente encantado por
Vicky”.77 Vitória receava que a filha não fosse de beleza suficiente para seu pretendente. Mas também sentia o coração apertado; logo perderia a amada filha para a Prússia.
A mãe de Vitória, a duquesa de Kent, agora era uma avó muito amorosa e tinha presença fundamental na família, as malquerenças esquecidas havia muito tempo. Mãe e filha agora viam com pesar o conflito causado por Conroy. A duquesa escreveu a Vitória comentando que a morte de Conroy em 1854 lhe doía: “[Ele] foi de grande utilidade para mim, mas
infelizmente também causou sérios danos”.78 Pediu que a filha não se detivesse no passado, quando “paixões daqueles que se interpunham entre nós” tinham gerado desconfiança. Vitória, agora mais sensata, assegurou à mãe que aquele passado estava muito longe.
Vitória se afligia constantemente com a possibilidade de perder toda a sua felicidade, conquistada a tão duras penas. Em seu aniversário de 34 anos, em 1853, ela escreveu: “Quantas bênçãos não desfruto! muitas vezes fico surpresa em ser tão amada, e estremeço à minha grande felicidade, temendo
que eu seja feliz demais!”.79 Osborne era um “paraíso”, com seus rouxinóis, rosas e flores de laranjeira. Era de fato uma felicidade robusta, a despeito das inquietações.
A Guerra da Crimeia foi a única guerra envolvendo mais de duas potências europeias entre 1815 e 1914. Marcou uma interrupção do longo período de paz que se estendeu do final das Guerras Napoleônicas à Primeira Guerra Mundial. A Grã-Bretanha não demorou muito para perceber que tinha pouco em comum com seus aliados turcos, que comandavam um império despótico e amplamente corrupto; logo abandonou também a incômoda aliança com os franceses. A Guerra da Crimeia, com seus dois anos e meio de duração, estaria associada para sempre à cegueira oficial e expôs a incompetência não só das Forças Armadas, mas também da elite parlamentar britânica. A tarefa de Florence Nightingale foi gigantesca: foi preciso uma enfermeira, pioneira na utilização de gráficos e diagramas circulares, para demonstrar a obtusidade dos generais.
No outono de 1855, chegou a notícia tão esperada: após 349 dias de sítio,
Sebastopol foi tomada pelas tropas aliadas. 80 Vitória e Albert, depois do jantar, subiram a colina de Craig Gowan e acenderam uma fogueira (fora montada no ano anterior, após uma falsa notícia de rendição do forte). Os cavalheiros do vilarejo escocês, com botas e casacos por cima das roupas de dormir, apareceram com seus criados, peões e guardas-florestais. Enquanto observava do alto as figuras dançando ao redor do fogo, disparando salvas de tiros na escuridão, bebendo e tocando gaitas de fole, a rainha voltava a pensar, como sempre, nos soldados. Muitos tinham morrido, outros voltaram mutilados. O pacto estabelecido ao final da guerra não trazia nenhuma concessão importante para a Grã-Bretanha, mas os combates agora estavam encerrados. Depois de meses de negociação de um tratado que serviu apenas para conter a Rússia por alguns anos, o tremendo ônus da guerra deixava de pesar nos ombros de Vitória; Albert voltou da festança ao redor da fogueira e contou que tinha sido “a coisa mais frenética e
empolgante”.81