Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 32 de 44

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Vitória, a rainha

29. O Império de Diamante

 

Nunca ninguém, creio eu, recebeu uma ovação como a que recebi… A

aclamação foi realmente ensurdecedora, e todos os rostos pareciam cheios de

verdadeiro júbilo.

RAINHA VITÓRIA, 22 DE JUNHO DE 1897

 

Não há ninguém abatido nesta casa; não estamos interessados nas

possibilidades de derrota; elas não existem.

RAINHA VITÓRIA, 19001

 

Um reinado que se estendia por seis décadas, declarou Oscar Wilde, devia

ser celebrado em alto estilo. 2 Por ocasião do Jubileu de Diamante de Vitória, o dramaturgo resolveu dar uma festa magnífica para as crianças do vilarejo local, Berneval-sur-Mer, na França, para onde fora após sair da prisão na Inglaterra, condenado por indecência. Usando uma camisa turquesa-vivo, ele distribuiu “morangos com creme, damascos, chocolates, bolos e geleia de romã… um enorme bolo gelado com Jubilée de la Reine Victoire em açúcar rosado, uma roseta em verde e uma coroa de rosas vermelhas em volta de todo ele”. Wilde presenteou as crianças com instrumentos musicais e tentou organizá-las numa orquestra tocando o hino nacional britânico. Ficou como maestro enquanto sopravam as cornetas e

tocavam os acordeões.3

A importação de champanhe em 1897, o ano do Jubileu de Diamante de

Vitória, superou a de qualquer ano anterior da história britânica.4 Foi uma celebração do poder imperial e da contradição central do vitorianismo: grande expansão e enormes transformações, com uma monarca aparentemente inalterada. Celebrava-se Vitória como o centro de rotação do Império, quase como o próprio eixo da Terra. A senhora de 78 anos, vestindo roupas escuras, agora alcançara uma posição quase mítica. Era cultuada por tribos distantes na Papua e Nova Guiné, austeras estátuas suas se erguiam em cidades de todo o planeta, dizia-se enxergar seu perfil nas cordilheiras americanas. Em Review of Reviews, o periódico de W. T. Stead, sua imagem foi posta ao lado da de Abraham Lincoln: “O ponto alto do sucesso alcançado na Evolução da Humanidade”, dizia a revista, podia ser visto no “surgimento do supremo homem americano na pessoa de Abraham

Lincoln e da suprema mulher inglesa na pessoa da rainha Vitória”.5

Transportada em sua cadeira de rodas à sacada do Palácio de Buckingham, no dia do Jubileu de Diamante, uma voz entre os clamores

gritou: “Isso aí, velhinha!”.6 Vitória, com 78 anos, estava entrevada demais para sair da carruagem e assim o ofício religioso foi realizado ao ar livre, na frente da Catedral de St. Paul, para que ela pudesse assistir à missa ali de dentro. Vitória julgou que seus sessenta anos de trabalho lhe davam o direito de pedir para não precisar sair da carruagem, de não ser obrigada a pagar as despesas da celebração e de afirmar que não havia necessidade de uma cerimônia oficial muito pomposa. Não queria receber um bando de gente da realeza pela segunda vez numa década, com grandes despesas e inconvenientes, e assim determinou que não se convidasse nenhum rei ou rainha reinante. Isso incluía seu primeiro neto, o Kaiser Guilherme II, que ficou uma fera. O foco desse Jubileu, em vez de monarcas e aristocratas em visita, foi o Império — um território que agora se estendia por um quarto do globo.

Para muitos súditos, agora a rainha tinha um poder místico de controlar o céu: o sol refulgia brilhante enquanto a carruagem real percorria as ruas no dia do Jubileu. Quando um enorme balão com a inscrição VITÓRIA subiu dentre as árvores, uma menininha parou e exclamou: “Vejam! A rainha

Vitória está indo para os Céus!”.7 Vitória estava sentada sob sua sombrinha de renda negra, comovida e lacrimejante. Alix, esposa de Bertie, lhe afagava ternamente a mão. O autor Edmund Gosse declarou que o rugido da multidão, que parecia de um leão, resultava de “um magnetismo latente passando entre a rainha e seu povo, por cima de seus intérpretes oficiais. Era como se a rainha falasse aos súditos diretamente, como se sua mera

presença os hipnotizasse”.8 A densa cortina sonora que se erguia das multidões diante de sua carruagem nunca deixava de emocioná-la. O elo entre Vitória e os súditos estava mais forte do que nunca. A expectativa de vida naquela época era de 46 anos, e apenas um em vinte britânicos tinha mais de 65 anos. Para quase todos os presentes, Vitória era a única soberana que conheciam.

Os pares da rainha também estavam envelhecendo. Tennyson falecera cinco anos antes do Jubileu de Diamante, na imponente idade de 83 anos. Charles Dickens morrera após um derrame, em 1870, com 58 anos. O coração de Charles Darwin deixara de bater em 1882, tendo ele 73 anos. George Eliot — ou Mary Ann Evans — publicou Middlemarch oito anos antes de sua morte, em 1880, aos 61. O General Pequeno Polegar vivera apenas até os 45 anos de idade. Mas a impressionante Florence Nightingale, com 77 anos, que estava acamada fazia trinta anos por causa de uma enfermidade que provavelmente era brucelose crônica, decorrente da febre que contraíra na Crimeia, ainda prosseguia, apoiada nos travesseiros da cama, em seu fantástico trabalho de sanitarismo, de combate à fome e planejamento hospitalar. Nightingale providenciou que colocassem uma iluminação festiva na sacada de sua casa em Londres, por ocasião do Jubileu: um pano de musselina vermelha com luzes formando o acrônimo

VR 9 [Victoria Regina].

Com a idade, a vista de Vitória estava cada vez mais fraca. Mas a rainha ainda conservava certa elegância. Muitos, ao encontrá-la, se sentiam fascinados com a presença de espírito, os gestos graciosos, o sorriso, a voz argêntea da rainha. O escritor Arthur Benson, ao visitá-la dois anos antes de sua morte, ficou encantado com a voz de Vitória: “Era muito suave e pausada — com uma simplicidade extraordinária —, muito mais fina do que eu imaginava e sem nada de estridente ou imperioso ou… vacilante.

Parecia a voz de uma mulher muito jovem e serena”.10 São raríssimas as fotos da rainha sorrindo, o que é uma pena: preservaram-se apenas as de perfil severo. A razão disso, em parte, é que durante muito tempo a fotografia exigia um longo tempo de exposição. Como certa vez Vicky lhe escreveu, “o rosto de minha querida mamãe tem um encanto que…

nenhuma fotografia é capaz de reproduzir”.11 Mas Vitória realmente lançou uma foto “muito parecida”, sorrindo no Jubileu, em que se pode ver como um sorriso lhe transformava o rosto. E fez isso apesar das objeções das filhas Helena e Beatrice, que não julgavam apropriado que a rainha desse

um sorriso tão largo.12

 

Mark Twain se sentou num dos palanques provisórios de madeira no Strand, para assistir ao desfile do Jubileu. Soldados da Austrália, Índia, África, Canadá, Nova Zelândia e Índias Ocidentais marcharam pelas ruas de Londres, no circuito do Palácio de Buckingham até a Catedral de St. Paul. Twain, que naquela época estava morando na Europa e ficara incumbido de fazer a cobertura do Jubileu para o San Francisco Examiner, ficou deslumbrado. Escreveu: “A história britânica tem 2 mil anos de existência e mesmo assim, em inúmeros aspectos, o mundo avançou mais desde o nascimento da rainha do que a soma de todo o resto dos dois milênios… Ela viu um maior número de invenções do que qualquer outro monarca que já existiu”. Como Vitória subiu ao trono em 1837, a vida das pessoas de seu país e do mundo inteiro fora transformada com o surgimento de invenções como as ferrovias, os navios a vapor, o telégrafo, o telefone, a máquina de costura, a luz elétrica, a máquina de escrever, a câmera fotográfica e outras mais.

Vitória reinara por mais tempo do que qualquer outro monarca britânico anterior, e comandava o maior Império da história. O povo aclamava, escreveu Twain, “o poderio do nome britânico”, por “sessenta anos de progresso e desenvolvimento moral, material e político”. De 1558 a 1603, a rainha Elizabeth governou um território de 260 mil quilômetros quadrados e uma população com pouco mais de 5 milhões de habitantes, mas no final do século XIX Vitória reinava sobre um quarto da parte habitável do planeta, com 400 milhões de habitantes. Ao longo de sua vida, o número de habitantes do globo quintuplicou. Vitória presenciou a ampliação do direito de voto, a criação de jornais baratos e o desenvolvimento do copyright, da anestesia e do sanitarismo moderno. Duzentos crimes antes sujeitos à pena

de morte foram eliminados do código civil.13 Os cidadãos conquistaram o direito de se sindicalizar e tiveram uma redução na jornada de trabalho de doze para oito horas diárias. Houve um enorme avanço rumo à igualdade. Nos anos de seu reinado, escreveu Twain, Vitória viu “a mulher libertada da opressão de muitas leis injustas e pesadas; faculdades criadas para ela”; “em algumas regiões, a concessão de direitos que lhe permitem se elevar quase ao plano de igualdade política com o homem, e o surgimento de uma centena de profissões que lhe permitem ganhar o pão ali onde antes mal existia qualquer possibilidade — entre elas, a medicina, o direito e a enfermagem profissional”.

Quando Vitória nasceu, as mulheres eram obrigadas a desempenhar o papel de “anjos do lar”: eram vistas como guardiãs da moral, o que, na prática, significava ficarem presas dentro de casa. No final do século XIX, uma nova geração tentava romper os velhos esquemas. Agora muitas mulheres viviam sozinhas ou com outras mulheres, numa mudança que foi alcunhada de “a revolta das filhas”. As mulheres casadas também conquistaram gradualmente alguns direitos sobre seus rendimentos, seus filhos e seus corpos. Num processo judicial de importância histórica, Regina vs. Jackson, de 1891, um marido — o sr. Jackson — tinha sequestrado a esposa, prendendo-a dentro de casa e mantendo-a sob a vigilância de guardas. Ele ingressou com uma ação contra ela para a “restituição dos direitos conjugais” e perdeu. O juiz sustentou que ele não tinha esse direito. A decisão foi saudada como um marco que colocava um fim ao direito do marido de controlar o corpo da esposa. (Apenas dois anos antes, um juiz na ação Regina vs. Clarence sustentara que o homem tinha o direito de estuprar a esposa, mesmo sofrendo de gonorreia. O conceito de “estupro marital” só passou a existir na Inglaterra e no País de Gales em 1991.) Regina vs. Jackson se baseou nos Decretos de Propriedade das Mulheres Casadas de 1870 e 1882, que estipulavam que uma esposa podia controlar seus próprios bens e rendimentos (e que uma esposa era uma entidade jurídica separada do marido), e no Decreto de Guarda Infantil, que introduziu a ideia de que o bem-estar dos filhos era um fator a se levar em conta na concessão da guarda.

Aos poucos, as mulheres galgavam degraus na vida pública. Em 1894, a nova aprovação do Decreto do Governo Local tinha como efeito que todas as mulheres com bens próprios podiam votar nas eleições locais, ser guardiãs da lei dos pobres (função que consistia em administrar a assistência pública local para os desempregados, idosos e vulneráveis) e participar das diretorias de escolas. Em 1897, enquanto o país se preparava para mais uma rodada de celebrações do Jubileu e as tropas se reuniam na África, formou-se a União Nacional das Sociedades pelo Voto das Mulheres, reunindo uma infinidade de grupos menores sob a liderança da intrépida Millicent Garrett Fawcett. Pela primeira vez, a Câmara dos Comuns aprovou na segunda leitura um projeto de lei para conceder o direito de voto às mulheres. Cada centímetro nesse progresso era conquistado com muito esforço e a duras penas, mas, na época do Jubileu, esses pequenos avanços das mulheres eram enaltecidos como um triunfo do Império Britânico.

 

Homens, mulheres, jovens, velhos, britânicos e estrangeiros, o espetáculo inteiro do Jubileu de Diamante era uma exaltação do Império; os jornais louvavam as conquistas britânicas, todas elas encarnadas numa figurinha sólida e atarracada, coberta de negro. A Grã-Bretanha vencera guerras contra a Rússia, na Índia, Afeganistão, Etiópia, Ashanti, Burma, Canadá, Nova Zelândia e Egito. Citavam-se incansavelmente os sinais de progresso: os impostos sobre os cereais tinham sido revogados, as leis dos pobres retificadas, a comida era mais barata, a moradia melhor, os salários mais altos. Os parlamentares não usavam mais a antiga indumentária de calças de malha e meias de seda (como que “para uma festa ao ar livre”) e ninguém

mais cheirava rapé ao discursar na Câmara dos Comuns.14 Os congressistas americanos só renunciaram à caixa de rapé coletiva nos meados dos anos 1930.

O custo do Império, porém, era alto. Milhões de chineses morreram nas Guerras do Ópio entre 1839 e 1842, novamente em 1856-60 e mais uma vez na Revolta de Taiping de 1850-64, que o general Gordon ajudara a esmagar. Povos indígenas do Canadá, Argentina, Uruguai, Paraguai, Austrália, Nova Zelândia e Ilhas do Pacífico foram mortos em massa sob o comando de Vitória. Levavam-lhe nativos como espetáculo e troféu. Vitória se maravilhava com o exotismo deles, mas, como a maioria, não pensava no que a ocupação britânica das terras significara para os indígenas. O pressuposto de muitos ingleses era que a colonização significava apenas progresso, não subjugação. Havia ocorrido fomes devastadoras na Índia e guerras sangrentas no Afeganistão; a busca desenfreada de riquezas na África levara ao brutal espezinhamento dos direitos dos povos locais. Os espólios imperiais rebrilhavam nos colares e pulseiras de Vitória, pendiam em suas paredes, perfumavam as cozinhas de seu palácio. A pior das guerras, porém, ainda estava por vir, uma guerra bárbara que marcaria o início do fim da expansão imperial patrocinada por Vitória.

Criados indianos agora carregavam a frágil rainha-imperatriz de sala em sala. Uma vida de adulações e cega obediência significava que todos os seus desejos eram atendidos, e mesmo assim ela ainda desejava algo que não podia comandar: amor e companheirismo. Enquanto avançava trôpega pelas décadas finais da vida, os dias se passavam, em grande parte, marcando o que já pertencia ao passado. Apesar disso, ela também desejava longevidade; a cada Ano-Novo, rezava para que fosse poupada por mais um ano, que suas faculdades continuassem incólumes, principalmente o que lhe restava da visão, e que pudesse continuar a comandar o país.

Na Europa, crescia uma nova geração de líderes enquanto sinistras ondas nacionalistas voltavam a crescer e se avolumar junto às fronteiras nacionais. Os garotos que liam sobre o Jubileu de Diamante da rainha alimentavam fantasias sobre a grandiosidade de suas próprias nações. Adolf Hitler estava com oito anos naquela altura, brincando com a ideia de ser padre. Benito Mussolini estava com treze anos, rebelando-se contra os monges da escola, molestando os colegas, divertindo-se em dar tijolaços na cabeça de seu

único amigo. 15 Josef Stálin estava com dezoito anos, estudando com padres ortodoxos russos — e, como Guilherme, tinha um defeito no braço esquerdo que procurava disfarçar nos retratos. Os adversários britânicos e americanos desses futuros líderes megalomaníacos também estavam se formando em guerra e política. Franklin D. Roosevelt, com quinze anos na época do Jubileu da rainha, era um bom aluno de um internato episcopal, preparando-se para estudar em Harvard. Winston Churchill estava com 22, deixando de combater em campo e passando a escrever sobre as batalhas. Neville Chamberlain, aos 28 anos, era um armador de sucesso. Nos Estados Unidos, o reformador progressista Teddy Roosevelt, com 38 anos, acabara de ser nomeado assistente do ministro da Marinha; poucos anos depois, em 1901, o soldado-caubói se tornaria vice-presidente dos Estados Unidos. Mas a única pessoa que todos conheciam e de quem invejavam o poderio, os territórios e as riquezas era a rainha britânica.

 

É difícil imaginar que Vitória não tivesse nenhuma consciência dos efeitos brutais e nefastos da exploração na África, nas décadas finais do século XIX. Nesses anos, Bélgica, Itália, Portugal, Espanha, Alemanha, Inglaterra e França se apoderavam vorazmente de amplas áreas da África, procurando riquezas minerais. Os europeus haviam chegado ao extremo sul da África em 1488, quando o navegador português Bartolomeu Dias dobrou o cabo da Boa Esperança. Mas foi apenas em 1652 que os colonos huguenotes holandeses, alemães e franceses — os ancestrais dos bôeres ou africâneres — se assentaram na África do Sul em caráter permanente. Os britânicos começaram a chegar em 1795. A primeira grande ruptura com a Grã-Bretanha se deu no começo dos anos 1830, quando os britânicos aboliram a escravidão, a qual os bôeres consideravam importante para sua economia e condizente com seus conceitos de hierarquia racial. Muitos bôeres migraram para o norte, na “Grande Marcha” dos anos 1830 e 1840, para se libertarem do jugo britânico e, após uma série de batalhas sangrentas com os zulus autóctones, estabeleceram-se no Transvaal (também conhecido como República Sul-Africana) e no Estado Livre de Orange. O que agora conhecemos como África do Sul consistia, na época, em quatro entidades: o Estado Livre de Orange e o Transvaal, ambas repúblicas bôeres, e as duas colônias britânicas, a Colônia do Cabo e Natal.

O ouro e as pedras preciosas viriam a romper a frágil paz. Quando houve a descoberta de diamantes em Kimberley, uma cidade no Cabo Norte, em 1869, os britânicos abandonaram a atitude de vaga aceitação do controle bôer nas regiões africanas ricas. Começaram a pressionar por uma federação sul-africana em que teriam predomínio, em vista do número de súditos britânicos que se haviam assentado na região. Houve um grande fluxo migratório para o extremo sul do continente, em busca de ouro, e novos povoados se multiplicaram em planícies distantes.

Com a descoberta de enormes jazidas de ouro no Transvaal em 1873, o presidente Thomas François Burgers incentivou o assentamento de estrangeiros — Uitlanders — em seu Estado quase falido, chegando a lhes destinar dois assentos no Congresso local. Mas, em 1877, os britânicos anexaram o Transvaal, com o apoio de Disraeli (apesar de terem reconhecido formalmente sua independência em 1852). A Grã-Bretanha acabava de anexar extensos territórios em Fiji, Malaia e Costa do Ouro na África Ocidental, alegando que se vira obrigada a isso por causa da incompetência dos governos autóctones. O Transvaal, porém, era o refúgio final dos bôeres. Três anos depois, em 1880, ergueram-se para defendê-lo e tiveram algum êxito. Os britânicos derrotados concordaram em manter a república sob sua suserania, significando que a Grã-Bretanha teria algum controle, mas o Transvaal teria autonomia interna. Para Vitória, isso era uma concessão humilhante e culpou Gladstone pela negligente perda de

terra tão lucrativa. 16

De 1870 a 1914, o controle da Europa sobre a África passou de 10% para 90% de seus territórios. Muitos milhões de africanos morreram nessas décadas de saques e colonizações; um dos agressores mais violentos e ilustres era o primo de Vitória. O rei belga, Leopoldo II, primogênito de seu tio Leopoldo, foi responsável por alguns dos maiores crimes contra os direitos humanos no século XIX. Ele subiu ao trono em 1865, quatro anos após a morte de Albert, e assumiu o controle do Congo como cidadão particular. Explorava o comércio de marfim e borracha, obrigando as populações locais a trabalharem para ele. Os que não cumpriam os prazos eram mortos ou mutilados. O governo belga calculou que metade da população congolesa, de 20 milhões de pessoas, morreu sob seu domínio, antes que Leopoldo II fosse obrigado a transferir seu controle pessoal das terras para o Estado.

O rei Leopoldo II tinha uma cara sinistra e era de uma fealdade assustadora, com nariz especialmente grande. Em 1885, foi citado numa ação judicial pelo pagamento de 800 libras mensais para receber na Bélgica um suprimento regular de virgens inglesas; tinha preferência por meninas de dez a quinze anos (Bertie também fora citado como cliente do bordel inglês que mantinha ligações com o rei Leopoldo II). A rainha Vitória, sua prima, continuou a recebê-lo normalmente — talvez por respeito ao pai dele. Marie Mallet, uma das damas camaristas de Vitória, considerava-o repulsivo. Em 1897, ela recordou uma visita de Leopoldo II a Balmoral: “Ele só consegue dar um aperto de mãos usando dois dedos, pois tem unhas tão compridas que não se atreve a correr o risco de feri-las. É um velho monstro untuoso, muito cruel, creio eu. Imaginamos que ele pensa que uma visita à rainha lhe dá uma nova camada de verniz; do contrário, por que ele viajaria oitocentos quilômetros para participar de um almoço?”. Ao visitar Vitória, ele reclamou do Parlamento belga, que agora se mostrava favorável ao voto universal, o que, concordou ela, era “grandemente censurável”. Também falou sobre o Congo, mas Vitória não registrou o teor dos

comentários.17

Leopoldo II fez imensa fortuna com o Congo. A tributação dos habitantes era tão pesada que muitos passavam fome; mercenários canibais da região massacravam os devedores. As chocantes violações dos direitos humanos foram expostas em 1904 pelo cônsul britânico, Sir Roger Casement, e

depois satirizadas por Mark Twain. *

 

Durante o Jubileu de Ouro de Vitória, seu genro Fritz estava com um câncer se alastrando na garganta. Agora, após o Jubileu de Diamante, Vitória descobriu que um câncer provavelmente também se alastrava no peito da viúva de Fritz, sua amada filha Vicky. Vicky passara décadas sofrendo com uma série de problemas diversos: dor nervosa, artrite, cólica, dor nas costas, erupções na pele, febres, inchaço nos olhos. (Alguns continuam a aventar que ela e a mãe sofriam de porfiria, enfermidade amorfamente definida que acometera o rei Jorge III. Esse problema pouco explicado, com sintomas que vão da enxaqueca à loucura, é tão nebuloso que se tornou um diagnóstico geral para qualquer um, sobretudo os de linhagem real ou hanoveriana, que apresentasse uma variedade de moléstias.) Mas, em 1898, Vicky recebeu um diagnóstico muito mais sombrio: câncer do seio. Sobreviveu apenas cinco meses à mãe.

Todos os sete filhos restantes de Vitória haviam comparecido à comemoração de seus sessenta anos de reinado, bem como os cônjuges viúvos de Alice e Leopoldo (o príncipe Louis de Hesse e a princesa Helena de Waldeck e Pyrmont). Havia ocorrido muitas perdas na década desde seu último Jubileu. Bertie, grisalho, aos 55 anos, ainda pranteava a perda de Eddy, seu primogênito, e passara pelo constrangimento de outro escândalo em 1891, quando foi chamado para depor no tribunal por causa de um

amigo que trapaceara no baralho. 18 Agora com 52 anos, com problemas de saúde, Affie sofria de tédio em Coburgo, procurando se distrair dos problemas conjugais e financeiros na bebida. Helena, a filha que Vitória não incomodava nem favorecia tanto quanto os demais, agora estava com 41 anos, tinha quatro filhos (ela também perdera dois bebês; um nascera morto e outro morreu com poucos dias de vida) e se entregara de corpo e alma a obras de caridade. Seu marido, o príncipe Christian de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Augustenburg, tivera a desventura de perder um dos olhos, ao ser atingido por um disparo acidental de seu cunhado Arthur, durante uma caçada. Arthur tinha um casamento feliz e três filhos. Beatrice estava com quarenta anos, viúva e com quatro filhos. A beldade da família, Louise, que se assentara numa relação de afeto e companheirismo com o marido, Lord Lorne, deu um baile à fantasia na Devonshire House na noite do Jubileu; os convidados deviam comparecer com trajes históricos anteriores a 1820 (Vitória nascera em 1819). Bertie foi vestido como o grão-prior da Ordem de São João de Jerusalém, enquanto Alix foi como a bela e poética rainha francesa Marguerite de Valois.

Em fevereiro de 1899, menos de dois anos após o Jubileu de Diamante, o filho único de Alfred, também chamado Alfred, morreu do que anunciaram ser tuberculose. (Alfred filho, louco de raiva numa briga com a mãe por causa de uma plebeia com quem queria se casar, na verdade dera um tiro em si mesmo durante a festa de aniversário de casamento dos pais e sobreviveu apenas por duas semanas.) Para desgosto de Vitória, ele foi enterrado em 10 de fevereiro, data sagrada de seu próprio aniversário de casamento. (Ela nunca abandonou sua mania de datas de aniversários, fossem tristes ou alegres.) Alfred pai — “Affie”, então duque de Saxe-Coburgo — morreu de câncer na garganta no ano seguinte, poucos dias antes de completar 56 anos; foi o terceiro filho de Vitória a morrer enquanto ela ainda estava viva. Ao saber da notícia, ela exclamou: “Meu terceiro filho adulto, três caríssimos genros. É duro aos 81 anos!”. Ela sabia que Affie se debilitara muito após o tormento de perder o próprio filho. Era como se o ano não trouxesse “nada

além de tristeza e horrores de uma e outra espécie”.19

Enquanto Vitória passeava pelos jardins, empurrada em seu carrinho, sentiu-se penosamente tomada pelas vívidas lembranças de Affie quando jovem, bonito e inteligente. Era muito parecido com Albert, que tanto o amava, mas, ao se mudar para a terra natal do pai, em idade adulta, tornara-se uma pessoa infeliz e sem amor. O tempo recuou e Vitória voltou àquelas horas maravilhosas quando Affie, irmãs e irmãos montavam nas costas do pai, de quatro no chão, brincando de cavalinho, rindo quando escorregavam e caíam, naqueles tantos dias felizes que haviam passado em Osborne e Balmoral. Agora eram só sombras. No dia seguinte ao funeral de Affie, em 1900, os bôeres descarrilaram outro trem e capturaram prisioneiros britânicos. Poucas semanas depois, um dos netos de Vitória morreria lutando na África.

 

Em 11 de outubro de 1899, eclodiu a Segunda Guerra Anglo-Bôer. Poucas coisas absorviam tanto a mente de Vitória quanto os conflitos militares. Ela se despediu pessoalmente de muitos soldados e registrava no diário detalhes das batalhas com visível ansiedade. Agora estava com oitenta anos, mas conservava profundo interesse por suas Forças Armadas e continuava a pleitear mais homens e mais recursos. Embora não se considerasse pessoalmente uma imperialista por natureza — escrevendo sobre a China, por exemplo, que o mundo não deveria ter a impressão que nós não vamos

deixar ninguém além da Inglaterra ter qualquer coisa20 —, ela por fim foi persuadida a favor da guerra na África. Acreditava que a Grã-Bretanha devia proteger seus súditos e territórios. Impôs como condições que os pobres não fossem desproporcionalmente taxados com os impostos de guerra e que os cavalos enviados a combate fossem bem tratados.

O argumento em defesa da guerra era muito claro. O público foi informado de que precisava proteger os Uitlanders oprimidos no Transvaal, em sua maioria cidadãos britânicos, contra um presidente tirânico, Paul Kruger, e seu governo africâner. Mas vários países também estavam disputando o controle das enormes jazidas auríferas descobertas em 1886 no Witwatersrand do Transvaal. Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, foi à África do Sul como médico voluntário e afirmou que a guerra era simplesmente uma disputa por “uma das maiores arcas do tesouro do mundo”.

Em março de 1899, os Uitlanders sitiados enviaram a Vitória uma petição com mais de 21 mil assinaturas, fazendo um apelo direto por proteção e fazendo um alerta de que os bôeres estavam se preparando para a guerra. Queixaram-se da falta de uma imprensa livre, da expulsão de súditos britânicos ao bel-prazer do presidente e da excessiva tributação; tinham poucos direitos e não dispunham de liberdade de reunião. Arthur Bigge, o substituto de Henry Ponsonby, explicou que as forças policiais “são inteiramente compostas de bôeres e se comportam da maneira mais arbitrária e de fato opressora, e são responsáveis pelo assassinato de um

súdito britânico”.21 Arthur Balfour advertiu a rainha que, “sem a ameaça de

força, imediata ou distante, com certeza não se fará nada”.22 Em 10 de outubro de 1899, as repúblicas sul-africanas enviaram um ultimato dando 48 horas para que a Grã-Bretanha evacuasse suas tropas de Natal e do Cabo. Como ela não se moveu, os bôeres invadiram colônias britânicas e cercaram Mafeking, Kimberley e Lady Smith, cidades de importância crucial.

Vitória lia avidamente os relatórios que se sucederam durante o outono de 1899, nauseada com os detalhes. As derrotas iniciais foram esmagadoras. Ela anotava o contexto de todas as suas discussões, dissecava os frequentes telegramas que recebia dos comandantes na frente de batalha, visitava os feridos, escrutava a preocupação no rosto das esposas dos soldados e depôs pessoalmente o clarim de um garoto de catorze anos que fora atingido em campo. Defendia com veemência, como fazia em todos os conflitos que apoiava, o envio de mais tropas. O cerco de Lady Smith, entre novembro de 1899 e fevereiro de 1900, ocupou-a por meses. Mas, pelas anotações sobre o que lhe informavam, fica claro que Vitória estava recebendo mentiras e lorotas sobre o esforço de guerra, em parte, sem dúvida, para lhe erguer o ânimo, mas também para enaltecer o estoicismo de seus comandantes. Diziam-lhe sistematicamente que os homens estavam dando tudo de si, enquanto jaziam mortos nos campos; diziam-lhe que os homens não se incomodavam com os problemas da guerra e que estavam muito contentes por lá estarem combatendo.

Mesmo aos oitenta anos, Vitória exigia seus plenos direitos como monarca. Quando o gabinete ministerial resolveu substituir o comandante supremo Lord Wolseley por Lord Roberts, ela se declarou “profundamente ofendida” por não ter sido informada e por não terem procurado seus

conselhos. 23 Roberts se revelou um efusivo e frequente missivista com a rainha, a despeito de suas frequentes admoestações sobre o andamento da guerra. Ela anunciava constantemente suas opiniões sobre a condução da guerra. E também tricotava: cachecóis, mantas e gorros, a serem enviados

diretamente a seus “caros bravos soldados”. 24 Quando esses itens ardorosamente desejáveis foram abocanhados por seus oficiais, ela enviou a seus homens 100 mil latas de chocolate decoradas com um retrato seu, como presente de Ano-Novo. Uma dessas latas, guardada numa mochila, aparou e desviou uma bala, assim salvando a vida de um soldado. Procedeu-se à tentativa de reunir as imagens de todos os homens mortos em combate, para que a rainha montasse um álbum com elas; Vitória escreveu às mães e viúvas dos tombados. Também visitou os feridos; mesmo tendo de ser carregada da carruagem para a cadeira, decidira ir aos hospitais e às revistas das tropas, pois sabia o que sua presença significava para os soldados.

O moral era uma das principais preocupações da rainha. Quando o ministro interino do Ministério de Relações Exteriores, Arthur Balfour, foi vê-la em Windsor com a triste notícia de uma fragorosa derrota em dezembro de 1899, ela foi muito clara: “Por favor, entenda que não há ninguém abatido aqui nesta casa; não estamos interessados nas

possibilidades de derrota; elas não existem”.25 Foi também por causa do moral que Vitória resistiu ao longo de toda a guerra às constantes solicitações para um inquérito sobre a condução da Guerra dos Bôeres. Ela previu corretamente que tal investigação poderia abater o moral, mas o adiamento teve o efeito colateral muito pior de encobrir — e permitir que prosseguissem — os erros e abusos britânicos que estavam ocorrendo na África do Sul. Ela escreveu:

 

A rainha deve frisar energicamente ao sr. Balfour a necessidade de resistir a essas críticas injustas e

antipatrióticas a nossos generais e à condução da guerra. Se o governo for firme e corajoso, o país

o apoiará… Todos vocês devem mostrar uma frente firme e não deixar que se suponha sequer por

um instante que vacilamos o mínimo que seja. Será possível realizar uma investigação depois que a

guerra acabar, mas não agora. Sem dúvida, o Ministério da Guerra está em grande erro, mas é o

sistema todo que precisa ser mudado, e isso não pode ser feito agora.26

 

Vitória receava que os problemas chegassem aos ouvidos dos bôeres e outros, manchando a reputação britânica, quando o necessário era manter a unidade e o ânimo forte. Ficou tão grata com a presença de destacamentos irlandeses combatendo no esforço de guerra que cancelou um período de férias no continente e foi à Irlanda, em sua primeira viagem até lá em 39 anos. Também tinha aguda consciência das relações raciais dentro das Forças Armadas britânicas. Espantava-se e se irritava que os soldados indianos fossem “auxiliares”, geralmente operando na retaguarda das outras forças. Em fevereiro de 1900, ela argumentou com Salisbury: “Por que não convoca a força completa? Seria possível… Os bôeres não só invadiram a Zululândia, como empregaram nativos para nos combater. Certamente isso

justifica que usemos indianos”.27

Vitória passava os dias lendo telegramas. Lord Kitchener enviava notícias desalentadoras sobre a oposição aos soldados britânicos na África do Sul, afirmando que as derrotas iniciais sofridas pelos britânicos tinham aumentado significativamente o número de recrutas bôeres. Enquanto aguardavam meses até sobrevir a vitória do distrito sitiado de Lady Smith, Vitória insistia que Salisbury enviasse mais homens, argumentando que o governo não investia no aumento das tropas armadas desde os anos 1870, a despeito de suas recomendações. Estava “horrorizada” com as “terríveis” baixas noticiadas e insistia que não se fizesse nenhum movimento sem um número maior de soldados. E perguntou: “Seria possível recomendar aos jovens oficiais que não se exponham mais do que o absolutamente

necessário?”.28 O que ela não sabia na época era que o conflito registrava muitas mortes resultantes de “fogo amigo”; se soubesse, ficaria arrasada. O último registro de 1900 em seu diário, no dia 31 de dezembro, era sombrio: “As notícias da África do Sul não foram muito boas. Uma guarnição de nossas tropas foi tomada de assalto pelo inimigo e um canhão foi capturado.

Mas reocupamos a guarnição”.29

Na Grã-Bretanha, crescia a inquietação com a guerra. Aumentava a raiva na Europa e na Irlanda perante a intervenção britânica, tida como desnecessária. Em 1900, um manifestante italiano de quinze anos de idade tentou matar Bertie e Alix num trem em Bruxelas. (Saíram ilesos.) Então, um dos netos que Vitória mais adorava, o príncipe Christian Victor, o primogênito de Helena e fã de críquete, morreu de febre intestinal enquanto combatia na guerra. Estava com 33 anos e lutara como oficial em várias campanhas na África. Vitória, já abatida pela dor das derrotas, agora se sentiu arrasada. Christian foi enterrado em Pretória, ao lado dos camaradas de armas, como era sua vontade. Na Escócia, a avó rainha perdeu o apetite, não conseguia dormir e passou a se mostrar indiferente a tudo. Quando dr. Reid foi vê-la em 29 de outubro de 1900, Vitória chorava quase sem cessar

e se mostrava “abatidíssima”.30 Seu diário estava repleto de mortes de parentes e amigos, além da tragédia daquela guerra pavorosa; tudo se tornara insuportável.

A rainha enfraquecia aos poucos. Durante anos, recomendaram-lhe que comesse menos; o tamanho de sua cintura atestava seu apetite e a incapacidade, às vezes, até de andar para fazer um pouco de exercício. Mas, em 10 de novembro de 1900, já estava “emaciada” e perdera qualquer vontade de comer. Dr. Reid, de quem agora dependia, tentou que dormisse dando-lhe Dover’s Powder, à base de ópio. O médico escreveu a Bertie avisando sobre o estado de saúde de sua mãe, e recomendou que não fizesse viagens. No entanto, as pessoas próximas a Vitória, em sua maioria, não sabiam da gravidade da situação, e Bertie não era exceção. O homem que herdaria o trono relembrou ao médico: “A rainha tem uma energia e uma

vitalidade extraordinárias”.31 Mas em dezembro, em Osborne, a rainha não saiu do quarto, tomando apenas um pouco de sopa e leite.

 

Enquanto Vitória estava acamada, enferma e infeliz, a reformadora Emily Hobhouse preparava cuidadosamente fardos com alimentos e remédios para as mulheres e crianças confinadas em campos de concentração britânicos na África do Sul. Em 1900, na tentativa de combater a tática de guerrilha dos bôeres, os britânicos haviam começado a incendiar sistematicamente as casas dos bôeres no Estado Livre de Orange e no Transvaal, na chamada “política de terra queimada”. A quantidade de gente nos campos de concentração aumentava sem cessar, com separação entre brancos e negros. Hobhouse — que Kitchener chamava de “aquela mulher danada” — trabalhara como militante defensora da assistência social e estava decidida a levar suprimentos médicos aos campos. Hobhouse, uma mulher notável de quarenta anos e olhos castanhos intensos, tomou um navio para a África do Sul em janeiro de 1901. Ficou horrorizada com a mortandade e a esqualidez

nas barracas dos campos, que descreveu como um “túmulo vivo”.32 Havia escassez de alimentos, remédios e higiene, e os campos fervilhavam de tifo e hematúria. Em 1902, 28 mil brancos e 14 mil africanos negros já tinham morrido nessas condições horrendas, quase o dobro de soldados britânicos mortos em combate.

A rainha não tinha a menor ideia das atrocidades que os britânicos praticavam nesses campos; os detalhes só vieram à tona após sua morte,

gerando enorme controvérsia. Ela teria se sentido mortificada.33 Mesmo sua instrução sobre os cavalos fora inútil; centenas de milhares foram chacinados.

Era contrária à ida de mulheres “histéricas” para a África do Sul, “muitas vezes sem razões imperiosas”, e julgava que constituíam uma amolação

para os soldados e os oficiais de lá. 34 Lord Roberts, para agradar à rainha, proibiu a entrada de mulheres no Estado de Orange, a menos que lá

estivesse um filho ou marido ferido.35 A historiadora Jenny de Rueck afirma que os bárbaros campos de concentração sul-africanos “provavelmente estabeleceram o padrão dos sofrimentos de civis posteriormente impostos aos hereros no sudoeste germânico da África, aos judeus da Europa, aos russos sob Stálin, aos cambojanos sob Pol Pot e, mais

recentemente, aos civis de Ruanda e em toda a antiga Iugoslávia”.36 Gladstone morrera um ano antes do início da guerra; sem dúvida, também teria ficado furioso ao descobrir tais excessos.

Pessoas como Conan Doyle alardeavam as glórias da guerra, do combate ao lado de “guarda-caças das florestas de cervos de Sutherland, habitantes das savanas no interior australiano, durões calejados de Ontário, dândis esportistas da Índia e do Ceilão, cavaleiros da Nova Zelândia”. Doyle anunciava exultante que, “nas planícies da África do Sul, foi selada a

irmandade de sangue do Império”.37 Mas as agruras da guerra também eram noticiadas, e as matérias dos jornalistas correspondentes se intercalavam diariamente com a propaganda do governo. O editor W. T. Stead, numa denúncia de grande alarde, acusou os soldados britânicos de estuprarem mulheres. Lá havia um grupo de nomes ilustres, combatendo ou enviando reportagens. Mahatma Gandhi — que simpatizava com os bôeres, mas apoiava o Império, organizou o Corpo Indiano de Ambulâncias. Lord Baden-Powell comandou uma guarnição durante os 217 dias de sítio em Mafeking. O poeta e escritor britânico Rudyard Kipling, o futuro primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o escritor australiano Banjo Paterson trabalharam como correspondentes de guerra. (Segundo Paterson, Churchill era “uma curiosíssima mescla de habilidade e bravata”, acrescentando numa estocada: “Pessoas com complexo de inferioridade perceberiam”.) Era a primeira guerra que os britânicos travavam contra europeus — ou descendentes de europeus — desde a Guerra da Crimeia, em 1853.

 

Foi também a última grande guerra imperialista e expansionista, quando o Império forçou os limites em terras que rejeitavam seu domínio. A brutalidade dos soldados deixou uma cicatriz nos sul-africanos que permaneceu por gerações. E, ponto crucial, cortou-se o vínculo entre guerra e glória, entre Império e grandiosidade militar. Mais problemático para a classe política foi, talvez, o desmascaramento da justificativa britânica de que o Império representava o melhor da democracia, que se revelou falsa — como mostrara a Guerra dos Bôeres, os direitos do povo local tinham sido espezinhados pela ganância econômica, mulheres e crianças nos campos haviam perdido a vida por descaso e desumanidade.

No final de 1900, o aspecto moral da guerra já era profundamente questionado. Como escreveu Stanton Coit, editor de Ethical World: “Nesta geração, nunca houve entre ingleses de todas as classes tanta dúvida, tanto

autoquestionamento, como agora”.38 Antes que a guerra terminasse, o mundo de Vitória começou a encolher e tremer, e seu robusto símbolo ficou magro e frágil. Passando do século XIX para o século XX, o Império se debilitava, e sua grande rainha também.

 

Vitória andava enferma fazia algum tempo. Mostrava-se cada vez mais distraída e melancólica. A catarata lhe toldava a visão. Tinha dificuldade em dormir, mas mesmo assim, contrariando seu feitio, mostrava-se muito plácida e não se perturbava com coisas que antes a irritavam. No começo de dezembro de 1900, estava “cheia de ideias mórbidas sobre dores

imaginárias”. 39 Dr. Reid a acalmou com opiáceos. Em 7 de dezembro,

segundo ele, Vitória estava “nervosa, lamurienta e infantil”.40 Foi para Osborne no Natal e tomava leite e gemada, mas saltava a maioria das refeições e se recolhia cedo. No Dia de Natal, Lady Churchill, que estivera por meio século na corte de Vitória, morreu em seu leito em Osborne. A notícia foi contada de forma gentil para uma debilitada Vitória. “O pior para

mim”, escreveu em seu diário, “é não contarem nada.”41

Na virada do ano para 1901, quando a Austrália foi oficialmente declarada uma federação, Vitória anotou no diário: “Mais um ano começa e estou me sentindo tão fraca e indisposta que mal ingresso nele”. Dr. Reid procurou uma segunda opinião, a qual confirmou que tinham sido muitas semanas de

“degeneração cerebral”. 42 Em 16 de janeiro, depois de duas décadas de serviços, era a primeira vez que Reid via a rainha na cama. Estava magra e letárgica, enrodilhada sobre seu lado direito. Ficou “impressionado como

ela parecia miúda”. 43 Ao contrário do habitual, não sentia nenhum incômodo. No dia seguinte, Vitória foi transferida para sua cama menor, protegida por um biombo, para que os homens não a vissem. Quando as princesas chegaram para visitá-la, enfileirando-se solenemente ao lado da cama, Vitória não as reconheceu. Alix e Bertie passaram a noite seguinte em vigília, falando suavemente com ela. Enquanto planejava sua morte, Vitória temia que Bertie talvez passasse por cima de suas instruções, e

assim, em 18 de janeiro, disse a Reid que não queria ver o filho.44 Mas, em seus momentos finais, enterneceu-se e pediu ao primogênito que lhe desse

“um beijo no rosto”.45 O médico observava, preocupado, enquanto ela ficava cada vez mais infantil.

Os últimos vinte anos tinham sido uma tortura física para Vitória. Quando ela foi examinada de forma adequada pela primeira vez, em seu leito de morte, seu doutor descobriu que Vitória tinha prolapso uterino e hérnia no ventre — fontes de considerável dor e desconforto —, ambos provavelmente causados pelos partos difíceis e piorados pelo seu ganho de peso subsequente. Talvez alguns considerem impróprio, pessoal demais, revelar os problemas de saúde de uma rainha. Mas tais males também explicam algumas dores crônicas e os problemas de locomoção de Vitória. Desde 1883, desde sua queda e a morte de John Brown, ela tinha

dificuldade em andar sem apoio.46 Outras dores ela escondeu e suportou em silêncio. Devido a essa vulnerabilidade, Vitória sentia especial gratidão pelos que lhe davam amparo físico — John Brown e, depois, os criados indianos. Mostrou-se extremamente suscetível à questão de quem poderia tocar seu corpo após a morte — estipulou que apenas dr. Reid e auxiliares

do sexo feminino estariam autorizados.47

Seu médico se incumbiu discretamente da situação. Sabendo que “as princesas desaprovariam”, Reid enviou um telegrama sigiloso ao Kaiser Guilherme, que lhe pedira que o mantivesse informado sobre a saúde da rainha. O telegrama dizia: “Surgiram sintomas inquietantes que despertam

considerável preocupação. Isso é confidencial. 48 Reid”. As princesas — em especial Helena — também não queriam a presença de Bertie e

providenciaram que ele recebesse mensagens falsamente otimistas.49 Por insistência de dr. Reid, Helena se abrandou e Bertie foi chamado em 19 de janeiro. Naquela tarde, foi emitido o primeiro boletim público e oficial: “A rainha está sofrendo de grande prostração física, acompanhada de sintomas que geram preocupação”. Arthur iniciou a jornada de Berlim à Inglaterra, na companhia do Kaiser Guilherme. Beatrice e Helena entraram em pânico e prometeram fazer o que fosse preciso para impedir que o controverso sobrinho pisasse em solo inglês, enviando às pressas um telegrama para Arthur. Se dr. Reid mostrava uma intrigante brandura em relação a Guilherme, era porque reconhecia instintivamente a ternura de que mesmo um indivíduo cruel e arrogante era capaz. Belicoso e agressivo, Guilherme não só maltratava a própria mãe, mas contrariava abertamente e enfurecia a temível avó com seu apoio aos bôeres. Mas também nutria grande afeto e

profundo respeito por Vitória, amando-a mais do que à própria mãe.50

Às seis da tarde de 21 de janeiro, Vitória recobrou um pouco as forças e perguntou a Reid se estava melhor. Então concentrou sua atenção nele, preocupada se não estaria cansado, precisando de ajuda. A seguir, comentou que havia “hoje notícias muito melhores da África do Sul”. Deitada no leito, frágil e enferma, pediu a Reid que se pusesse a seu lado e o fitou diretamente nos olhos. Disse-lhe em tom firme que não estava pronta para morrer. “Gostaria de viver um pouco mais, pois ainda tenho algumas coisas para acertar. Arrumei a maioria das coisas, mas ainda sobraram algumas, e quero viver um pouco mais”. Tinha grande sede de viver, em acentuado contraste com a passividade do marido, quatro décadas antes. Reid registrou: “Ela apelou a mim dessa maneira tocante, com grande confiança,

como se pensasse que eu poderia prolongar sua vida”. 51

No andar de baixo da Casa Osborne, Bertie, Helena e Beatrice ainda tinham esperança de impedir a visita de Guilherme. Bertie decidiu ir a Londres e dizer a Guilherme que de momento não poderia ver a rainha, e que nem ele mesmo ainda a vira, o que era verdade. No andar de cima, Reid e as criadas transferiram Vitória para uma cama menor. As instruções que ela determinara em 1875 estipulavam que “ninguém a não ser John Brown” poderia presenciar sua morte, com suas atendentes. Na ausência de Brown, a tarefa passara para Reid.

A vista de Vitória estava fraca demais para enxergar as pessoas no pequeno aposento verde que dividira com Albert. A pobre Vicky, agora com sessenta anos, estava confinada em seus aposentos na Prússia, enquanto o câncer se espalhava pelos órgãos. Muito infeliz, escreveu à mãe dizendo que às vezes as pessoas na rua podiam ouvir seus gritos de dor. Não conseguia comer nem dormir; a dor era como “muitas navalhas sempre

cravadas em minhas costas”.52 Mas três das filhas de Vitória lá ficaram a noite toda — Helena, Louise e Beatrice, bem como Bertie, Alix, Guilherme e dr. Reid, além das enfermeiras e criadas. Dr. Reid ficou com pena de Guilherme e permitiu que visse Vitória por cinco minutos. Um bispo e o vigário local permaneceram ao pé da cama, rezando e recitando versículos da Bíblia. Vitória se agarrava encarniçadamente à vida. Reid escreveu à sua esposa: “Não posso deixar de admirar sua determinação em não desistir da

luta enquanto puder”.53 As orações prosseguiram por horas, até os homens ficarem roucos. Pediram-lhes que parassem até se evidenciar que a morte era iminente. Vitória jazia impassível, obstinada, respirando.

Às quatro da tarde de 22 de janeiro de 1901, saiu da Casa Osborne um

boletim franco e direto: “A rainha está lentamente declinando”.54 Dr. Reid se postou num dos lados e Guilherme no outro, como duas sentinelas da dor, enquanto os outros entravam e saíam do quarto. Às cinco, os dois se ajoelharam, cada qual num dos lados da cama, e, colocando o braço por trás das costas de Vitória, ampararam-na em posição semierguida. Bertie estava sentado em silêncio na ponta da cama. Louise se ajoelhou ao lado do dr. Reid. Vitória soltou um último suspiro sereno e morreu nos braços do médico e do neto. Guilherme, que dali a catorze anos entraria em guerra com a Inglaterra, apertou silenciosamente a mão de Reid, com emoção e

gratidão. Mas foi Bertie quem fechou os olhos da mãe, cerrando-os à luz.55

 

* Leopoldo II nunca mudou seus hábitos. Aos 67 anos, engravidou uma prostituta adolescente; instalou-a numa mansão e lhe conferiu um título. Casou-se com ela poucos dias antes de morrer, em 1909. Os belgas soltaram vaias durante o desfile fúnebre.