Vitória, a rainha
30. O fim da Era Vitoriana: “As ruas apresentavam de fato uma estranha
30. O fim da Era Vitoriana: “As
ruas apresentavam de fato uma
estranha visão”
A rainha da Inglaterra morreu! As palavras ressoam tão pesadas como se
dissessem: “O sol não está mais no céu!”.
MARIE CORELLI1
Uma Inglaterra sem rainha é como pensar numa casa sem telhado.
ARTHUR BENSON2
Em 1º de fevereiro de 1901, pairava um lúgubre e profundo silêncio sobre Londres. Uma enorme multidão se aglomerava nas ruas e esquinas, nas janelas e nos telhados, tentando obter pelo menos um relance do ataúde de carvalho polido. O triste silêncio só era rompido pelo barulho da carreta que transportava o caixão da rainha Vitória. O romancista Maurice Baring disse: “Londres parecia uma cidade morta… A gente se sentia como se tivesse
trapaceado nas cartas”.3 Quando o trem a vapor, transportando o caixão de Vitória, passara ruidosamente pelos trilhos de Portsmouth a Londres, milhares de pessoas haviam se ajoelhado em silêncio nos campos úmidos, curvando a cabeça. Todos na multidão ao longo dos gradis do Battersea
Park tinham erguido o chapéu num suspiro. 4 A maioria, em toda a sua vida, não conhecera outro monarca a não ser aquela pequena rainha de 81 anos de idade, que comandara a Grã-Bretanha por 63 anos, sete meses e dois dias.
O caixão envolto em tecido branco fora posto numa carreta fúnebre e fazia seu percurso da Victoria Station a Paddington, antes de seguir para Windsor. As calçadas estavam apinhadas de pessoas de preto e olhos vermelhos, ali de pé ao ar gelado de fevereiro. Floristas em trapos de pano
preto se acotovelavam entre a multidão.5 Josephine Butler, a defensora dos direitos das mulheres, sentia como se tivesse perdido uma “querida amiga”: “Todos choram e as persianas das casas estão abaixadas. É um luto real,
pessoal”.6 Henry James observava pela janela o Portão de Buckingham, admirado com a multidão “incrivelmente, incomensuravelmente grande”:
“De início, todos nós nos sentíamos órfãos de mãe”. 7 Lady Monkswell, autora de diários, que assistia numa loja próxima, chorou e estremeceu à vista do caixão. “As ruas apresentavam de fato uma estranha visão”, escreveu ela, “lotadas de pessoas decentes, respeitáveis e de meia-idade, todas de luto… Despedi-me dela em silêncio. As pessoas permaneciam silenciosas e sem chapéu.”
Para os britânicos, a morte de Vitória trazia um estranho desalento — como se um edifício tivesse perdido seu alicerce e todos agora andassem sem prumo num novo solo. À dor se mesclava o alarme. Alguns que se mantinham sérios e calados, tentando captar um relance do caixão, murmuravam: “Deus nos ajude”. Arthur Benson ficou intrigado com a dor tão peculiarmente pessoal: as pessoas choravam abertamente em público, e mesmo republicanos que queriam o fim da monarquia se sentiam afetados. Florence Nightingale declarou que toda a sua casa estava de luto fechado,
querendo fazer algo “para mostrar que se importam”.8 Uma mulher, que foi ao Hyde Park assistir à passagem da procissão fúnebre, escreveu: “Multidão
imensa, nunca vi nada parecido, todos em silêncio”.9 O falecimento do monarca anterior, Guilherme IV, em contraste, mal tinha sido notado: ninguém chorou no funeral.
Depois de um alarido inicial em Osborne, onde os repórteres corriam pela estrada gritando “A rainha morreu!”, rapidamente caíra o silêncio sobre a
Inglaterra.10 Para Henry James, o estado de espírito que veio a seguir era “estranho e indescritível”: as pessoas falavam aos sussurros, como se receassem alguma coisa. Ele ficou surpreso com a reação, pois a morte da rainha não era súbita nem misteriosa: era “um simples esgotamento do velho relógio usado”, a morte de uma viúva de idade que “lançara todo o peso de sua gordura na balança da decência geral”. Mas, nos dias subsequentes, o autor de origem americana sentiu uma inesperada tristeza. Como tantos, pranteou a “rainha de classe média maternalmente idosa e reconfortante, que mantinha a nação aquecida sob as dobras de seu enorme e horroroso xale xadrez”. Vitória se transformara numa espécie de símbolo do decoro e da estabilidade, um escudo contra alarmantes distúrbios. E agora sua apoteose estava completa. The Times publicou que os britânicos haviam perdido não só uma mãe, mas também uma “benfeitora pessoal” que tinham vindo quase a venerar. Para o New York Post, seu poder era uma “glória mítica”.
Vitória queria um funeral feito “com respeito — mas de forma simples”.11 Ao ver os funerais militares realizados para o príncipe Leopoldo e, depois, para Liko, o marido de Beatrice, ela decidira que também queria um funeral assim. Sem pompa, apenas oficiais de uniforme, gaiteiros escoceses de kilt e Beethoven. Insistiu que seu caixão fosse “sempre carregado por soldados
ou meus criados, e não por agentes funerários”.12 Também quis que a carreta recebesse amortecimento, para não fazer tanto barulho quanto o habitual. Em meio às salvas de tiros, plumas acenando e uma frota de navios de escolta, jazia o corpo imóvel da rainha. Seu mais recôndito segredo estava cuidadosamente envolto junto de si, oculto por camadas de gaze e flores, e então pelo acondicionamento em carvão e pelo caixão de madeira polida. Apenas quatro pessoas sabiam o que estava ali: o médico e três das damas de companhia de Vitória. Esse segredo continuaria enterrado com ela por um século.
Em 9 de dezembro de 1897, três anos antes de morrer, Vitória ditou as instruções pessoais e confidenciais para seu enterro, as quais deveriam, em qualquer hipótese, ser executadas pela pessoa mais graduada que estivesse
com ela, e abertas apenas após sua morte.13 Essas instruções estão nos arquivos do dr. Reid, conservados por sua família em Treton. Entre elas, há uma longa lista de objetos que Vitória queria que fossem colocados no caixão. Nas mãos, queria cinco anéis de Albert e anéis de Feodora, de sua mãe Victoire, de Louise e de Beatrice. Também queria um “anel de casamento simples, de ouro”, que pertencera à mãe de John Brown, a quem descrevia em termos efusivos. Brown usara a aliança por breve tempo, disse ela. Mas Vitória a usara “constantemente” desde a morte dele e queria ser enterrada com o anel na mão. Não disse em que dedo.
A rainha também estabeleceu que colocassem no caixão fotos emolduradas de Albert e de todos os filhos e netos. Queria ainda, como explicou detalhadamente, que uma foto em cores de John Brown, de perfil, fosse posta num estojo de couro com alguns cachos de cabelo dele, junto com outras fotografias de Brown (que costumava levar cuidadosamente no bolso), e colocada em sua mão. Também pediu que pusessem no caixão o molde da mão de Albert, que ela sempre deixara perto dela. Além disso, queria um dos lenços e um dos mantos de Albert e um xale feito por Alice; acrescentou que um lenço de bolso de “meu fiel Brown, aquele amigo que me foi devotado mais do que qualquer outra pessoa, seja estendido sobre mim”.
A família real, que logo se poria a destruir todos os registros do espadaúdo escocês, foi poupada a tal visão. Dr. Reid tinha instruções de envolver a mão de Vitória em gaze, depois de ter colocado os cachos de Brown ali, e por cima da gaze devia-se distribuir um discreto arranjo de
flores.14 Mesmo na morte, além de Albert e dos filhos, Brown estava com sua rainha: o anel de casamento da mãe em seu dedo, o retrato e os cachos em sua mão, o lenço cobrindo seu corpo.
O gentil e meticuloso dr. Reid, com as damas de companhia, arrumou
cuidadosamente o conteúdo do caixão da rainha.15 O corpo foi medido, preparado e trajado com um vestido longo de seda, com a Ordem da Jarreteira cruzando o peito. O cabelo foi cortado e flores brancas foram colocadas na base do véu que lhe emoldurava o rosto. Susan, a esposa de dr. Reid, comentou que a rainha estava muito bonita, “como uma estátua de
mármore”.16 Em 22 de janeiro, Bertie, o Kaiser, dr. Reid e mais alguns depuseram o corpo dentro do ataúde; o interior foi aprovisionado com carvão e a tampa aparafusada. Iniciou-se então a longa viagem a Windsor.
O mundo estremeceu à notícia da morte da rainha. Milhares de telegramas afluíram a Osborne. Em Londres, atores abandonaram o palco no meio da peça. O trânsito parou. Em Nova York, a bolsa de valores interrompeu suas
atividades por um dia.17 Na Nova Guiné, tribos rememoraram a Mãe sagrada e divina que pairara sobre elas. Na África do Sul, na Austrália, no Canadá, na Índia e nos mais remotos extremos do imenso Império Britânico, as pessoas pararam e rezaram. Vitória se transformara numa divindade materna arquetípica, atravessando fronteiras culturais e religiosas. Os muçulmanos em Londres rezaram pela “Soberana do maior
número de Verdadeiros Fiéis no mundo”. 18 Segundo o vice-rei indiano,
Lord Curzon, os indianos a consideravam quase uma santa.19 Um aristocrata bengali, o marajá Bahadur Sir Jotindra Mohun Tagore, declarou que ela era como “a Grande Mãe Universal, que é venerada como a Adya-
Sakti de nossa mitologia [hindu]”. 20 Na Pérsia, Vitória era “o anjo bom que
nos salvou da destruição”.21
Vitória, de uma maneira que não previa, mudara tudo para as mulheres. Ela incentivava algo difícil de nomear, uma vontade, um fortalecimento das atitudes; era a manifestação visível de uma mulher que adorava sua família, e ainda assim tinha plenos direitos e renda independente. Para H. G. Wells, no próprio momento em que foi coroada houve um “impulso de emancipação”. A mãe de Wells acompanhara a vida de Vitória — cada palavra, cada alegria ou dor — com uma “lealdade fervorosa”:
A rainha, mulher também miúda, era, de fato, a personalidade de compensação de minha mãe, seu
consolo mental para todas as restrições e sofrimentos que lhe eram impostos por seu sexo, seu
tamanho diminuto, sua maternidade e todas as infindáveis dificuldades da vida. A querida rainha
podia mandar no marido como súdito e fazer o tremendo sr. Gladstone se encolher de medo. Como
seria estar em tal posição? Eu diria isso. Eu faria aquilo. Não tenho a menor dúvida sobre os
devaneios de minha mãe. Em seus anos finais, com touca negra e vestido de seda negra, ela
lembrava sugestivamente a viúva suprema.22
Uma boa rainha abrandava os homens, disse a grande militante Josephine
Butler: “Dissolve-lhes uma parte da rudeza e desprezo pelas mulheres”.23 Mesmo as sufragistas, que lutavam por uma causa que não tinha o apoio da rainha, citavam o exemplo e a influência de Vitória. Emily Davison, que se tornou a primeira mártir do movimento sufragista em 1913, ao ser mortalmente ferida sob os cascos do cavalo do rei no Derby, escreveu uma carta a The Times sustentando que Vitória era a prova de que o tal “trabalho de mulher” não existia: Vitória lera todos os documentos, tomara suas decisões próprias e não era em absoluto “uma mera figura de proa”. Sem nunca ter lido o diário da rainha nem estudado sua correspondência, Davison tinha razão.
E exerceu efeitos nas mulheres de todo o mundo. Uma editora de uma revista japonesa saudou-a por “despertar mesmo nessas plagas remotas a
ambição de ser imperatriz sobre si mesma”.24 Ao conhecer a rainha Vitória em 1899 durante uma recepção em Windsor, Susan B. Anthony, líder do movimento americano pelos direitos civis, disse ter sentido um “frêmito… olhando seu magnífico rosto”. Amelia Bloomer afirmou: “Se é legítimo que Vitória ocupe o trono na Inglaterra, é legítimo que qualquer mulher
americana ocupe o Assento Presidencial em Washington”.25 A posição de Vitória despertava inveja nas mulheres inteligentes. “Pergunto-me”, escreveu a autora americana Sara Jane Lippincott — conhecida como Grace Greenwood — em 1883, “se Sua Majestade percebeu alguma vez seu venturoso privilégio de poder conversar livremente com ‘os grandes homens da época’, de poder expressar seu interesse pela política… sem
temer ser rebaixada como ‘mulher metida, saindo de sua esfera’.” 26 Mas Vitória estava tão ocupada se apequenando para que Albert pudesse se engrandecer que nem percebia como eram pouquíssimas as coisas pelas quais tinha que lutar.
Por tudo isso, o trabalho de Vitória deu um impulso implícito constante à campanha sufragista. Na época de sua morte, o Reynold’s News escreveu que sua vida “nos mostrou o poder que voluntariamente deixamos que se perca entre as mulheres da nação… existem muitos milhares de potenciais Vitórias no reino. Não se pode mais afirmar… que as mulheres são
inadequadas às funções públicas”.27 Ela era um símbolo da força e da inteligência feminina. Mas talvez sua singularidade residisse naquilo que a tornava aceitável numa época de persistente desigualdade. Era uma mulher comandando, uma, apenas; para a maioria das pessoas, isso não significava que se seguiriam outras. Vitória herdara o poder; não teve de lutar por ele nem de arrebatá-lo dos homens. O poder lhe fora gentilmente deposto sobre a fronte, como uma obrigação divina.
Não se pode duvidar, porém, que as mulheres defendidas por Vitória eram, em sua grande maioria, brancas e ocidentais. Enfurecia-se ao saber que alguma mulher fora apalpada num trem na Inglaterra ou que alguém como Lady Florence Dixie fora agredida perto de Windsor. Mas, durante seu reinado, foi incontável o número de mulheres na Índia, Afeganistão e África estupradas, mortas e enviuvadas na sucessão das “pequenas guerras” que estenderam as fronteiras do Império Britânico. Milhões morreram de
fome.* A incongruência do Império pesava sobre Vitória — sua principal motivação era a grandeza da Grã-Bretanha, mas ficava abalada ao saber a que preço se alcançara tal grandeza. Enquanto agonizava no leito, as piores atrocidades do século ocorriam nos campos de concentração britânicos na África do Sul.
Em 4 de fevereiro de 1901, o corpo de Vitória foi deposto no mausoléu em Frogmore, ao lado de Albert. Enquanto a família cerrava as portas da cripta de mármore, o granizo que caía lá fora se transformou em neve, trazendo o silêncio, a imobilidade e a brancura que sempre sonhara para seu funeral. O caixão estava envolto em branco, os cavalos que conduziam o ataúde eram brancos, o mármore da tumba era branco. Os panos por toda parte deviam ser brancos e dourados, e ela determinou que não se visse
preto em parte alguma.28 Vitória foi inflexível: a morte devia vir associada não à escuridão, e sim à luz. Fora Tennyson quem lhe dera essa ideia, dizendo que a morte já era por si só bastante assustadora; por que, então,
“revesti-la com tudo que a faça pior?”.29
Vitória não seria a rainha do escarlate, do verde ou do rosa; fazia muito tempo que abandonara as plumagens e as pretensões de beleza pessoal, preferindo se cercar de pessoas bonitas. Sua conduta simples e desadornada levou um pastorzinho a perguntar: “Por que ela não usa roupas para que as
pessoas possam saber quem ela é?”.30 Para Vitória, era preto ou branco, sem nuances, e comandava e amava com a mesma ênfase. E na morte a viúva voltou a ser uma noiva. Pediu para ser enterrada em seda e caxemira branca, com capa e véu sobre o rosto. Vitória vivera quase o dobro do tempo do marido, e reinara sozinha pelo dobro do tempo que haviam reinado juntos.
Quando falava de seus maiores desejos, a palavra que Vitória mais repetia ao longo da vida era “simples”. Queria uma vida simples. Evitava espartilhos, e sua preocupação maior era o conforto. (Revirara os olhos ao saber da “nova moda de vestidos bem justos” em 1867.) Onde se sentia mais feliz era em Glassalt Shiel, um chalezinho escocês isolado na “encantadora região agreste e evocativa” das Highlands, longe de mansões
e castelos, de inúmeros olhos e exigências. 31 Como escreveu G. K. Chesterton não muito depois de sua morte, a “desafiante humildade” de Vitória se instalara no centro do Império: “Ninguém há de negar que, para os mais humildes, ela representava a mais concisa e indestrutível verdade humana: depois de todos os problemas e criadores de problemas se manifestarem, ainda podemos continuar com nosso trabalho até o pôr do
sol, podemos continuar com nossa vida até a morte”.32 Era verdade. Mas, se desafiava com sua humildade, seu desafio nada tinha de humilde.
Vitória não queria morrer. Talvez a maior contradição de sua personalidade fosse acreditar que desejava a morte; na verdade, agarrava-se à vida. Sempre que se via em perigo, instintivamente voltava atrás; quando sua carruagem capotou na Escócia, ou quando a velhice pesava muito, suplicava por mais tempo. Três anos antes de morrer, ainda escrevia no diário: “Minha forte coxeadura etc. me faz sentir quanto a idade avança. 78 anos é uma boa idade, mas rezo para ser poupada por mais um pouco de
tempo por causa de meu país e de meus entes queridos”. 33
Ela nunca parou de trabalhar. Nos meses finais de vida, Vitória reclamou que, mesmo gostando de tirar uma soneca depois do almoço para combater a insônia noturna, isso era “perder tempo”. Três dias antes de morrer, mesmo com fluido nas juntas e dificuldade para falar, comentava com dr. Reid sobre a África do Sul e se preocupava com a guerra. Uma mulher que passara a maior parte da vida rezando para estar com o seu Albert no céu ainda rogava ao médico mais tempo para ela na terra. Ainda havia mais coisas para decidir, catástrofes a impedir, guerras a travar, soldados a proteger.
Sempre havia mais. Vitória não considerava que sua maior obra — melhorar a si mesma, como Albert lhe havia recomendado — estivesse concluída. Nas instruções a Bertie e Beatrice para seu funeral, escreveu:
“Morro em paz com todos, plenamente ciente de meus muitos defeitos”.34 Os que a rodeavam no leito de morte conheciam seus defeitos: a índole caprichosa, o gênio explosivo, a atitude dominadora com os filhos, a mania de reparar em tudo, a tendência a sentir pena de si mesma, o egoísmo ilimitado, a crença de estar sempre com a razão. Mas também conheciam a bondade, a lealdade, o senso de humor, a dedicação ao trabalho, a fé, a despretensão, a falta de preconceitos, a resistência de Vitória. Como escreveu Laurence Housman: “A coisa mais impressionante em relação à rainha Vitória foi sua permanência: na era de transformação a que deu seu
nome, ela se manteve estável”.35 Foi por isso que, em vida, passou de adolescente a totem do Império.
O coração de Vitória continuou a bater com vigor até o último suspiro,
fato que dr. Reid fez questão de mencionar. 36 Essa é a principal pista para entender a mulher que ajudou a moldar o mundo moderno e para desfazer os mitos sobre sua suposta passividade, sua suposta dependência dos homens e aversão ao poder. Ela pode ter reclamado muito, mas persistiu. Sofreu por décadas, mas, como várias gerações de estadistas viram, nunca desistiu de lutar. Sua presença constante e inflexível, depois de tomar o manto do poder, moldou um século em que as outras mulheres não tinham poder algum. Hoje, sobrevoando Londres e vendo sua figura imponente que avulta sobre a cidade, admira-nos como uma viúva reclusa, mãe de nove filhos, alcançou essa grandeza sem paralelo. A resposta é simples: Vitória resistiu.
* Mesmo acamada, Florence Nightingale estava trabalhando na Índia, onde quase 29 milhões de pessoas morreram de fome sob o domínio britânico, em decorrência de um ciclo interminável de fome. Nightingale passou muitos anos tentando obrigar o governo britânico a aliviar a miséria na Índia, com campanhas pela melhoria no sistema de irrigação e pela reforma agrária. (Mark Bostridge, Florence Nightingale, p. 473.) Ficou profundamente desapontada quando, mesmo após a fome de 1877, em que morreram 4 milhões de pessoas somente em Bombaim e Madras, não se adotaram os programas que ela defendia.