Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 16 de 44

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Vitória, a rainha

13. Os intrusos do palácio

 

 

Quando uma mulher está apaixonada, seu desejo de poder público diminui

cada vez mais.

HECTOR BOLITHO1

 

Na madrugada de 3 de dezembro de 1840, um rapazinho baixote e feio estava debaixo de um sofá de chintz florido na sala de estar da rainha, no Palácio de Buckingham. Edward Jones, garoto de recados desempregado, estava escondido ali fazia horas, na esperança de ver a rainha. Estava desperto, ouvindo os sons do palácio — os choros intermitentes da princesinha; os passos da pajem noturna no quarto da bebê, cantando cantigas de ninar em tom suave; os roncos e os passos ocasionais dos vigias noturnos. Três horas antes, a rainha estivera sentada naquele mesmo sofá sob o qual ele agora se escondia; era o pensamento que o acalentava. A princesinha real estava dormindo logo ali, no quarto vizinho! Enquanto as folhas das árvores farfalhavam ao vento lá fora, ele ficou pensando se deveria se arriscar e ir até a cozinha, para pegar mais alimentos, antes do amanhecer. Haveria mais batatas deliciosas na despensa? Queijo? Fazia alguns dias que Jones vinha se escondendo no palácio e sabia que a melhor maneira de passar a noite era procurando comida, explorando e buscando novos esconderijos.

Na antecâmara ao lado, a sra. Lilly, a pajem mensalista encarregada de cuidar da princesinha, estava acordada, ouvindo os leves grunhidos que vinham do berço ornamentado ao lado de sua cama. De repente, ouviu um rangido sonoro na porta da sala de estar da rainha. A sra. Lilly perguntou quem era, mas ninguém respondeu. Sentou-se e gritou alto enquanto a porta se abria mais: “Quem está aí?”. De repente, alguém fechou a porta.

A sra. Lilly saiu correndo do quarto, acordou Lehzen e mandou chamar Kinnaird, o escudeiro de vigia. Kinnaird examinou a sala de estar e espiou debaixo de um canto do sofá densamente estofado, no qual Vitória fora transportada para o quarto, horas antes. Pôs-se de pé num salto e recuou devagar. Lehzen o encarou, foi até o sofá e o afastou da parede. Cobriu o nariz com a mão e arregalou os olhos; o rapazote escondido ali embaixo estava imundo e cheirava mal. Agarraram-no e o levaram para baixo, enquanto ele dizia que não agira por mal, só viera ver a rainha. Albert e Vitória dormiam profundamente, enquanto a cinquenta metros dali as mulheres lutavam para segurar o intruso.

A notícia pegou fogo em Londres. Tal como Edward Oxford, o pretendente a assassino, esse invasor do palácio gostou de passar pelos severos interrogatórios das autoridades. Gabou-se de ter “sentado no trono” e que “viu a rainha e ouviu os choros da princesa real”. Tinha escalado o muro do jardim e então trepou pela parede e atravessou uma janela, passando três dias no palácio, escondido dentro de armários e debaixo de camas. Jones era o tipo de rapaz que poderia ter sucesso em Fleet Street; sonhava em escrever um livro escandaloso sobre o casal real e insistiu que esta era a única razão pela qual tinha invadido o local — queria “saber

como viviam no palácio” e ouvir as conversas entre a rainha e o marido.2 O pai de Jones alegou que ele sofria de distúrbios mentais, e os médicos declararam que sua cabeça tinha “uma formação muito peculiar”, o que

parecia confirmar as palavras do pai.3 Mas como o rapaz não estava armado e não roubara nada, o Conselho Privado o condenou apenas a três meses de

trabalhos forçados. 4

A segurança no palácio era notoriamente fraca naqueles tempos.5 Era frequente encontrar vagabundos e soldados bêbados, desacordados nos gramados do palácio, depois de pular pelos muros baixos, que ficavam ocultos sob a ramagem baixa e pesada das árvores. Muitos dos vigias eram de idade, tendo sido promovidos como reconhecimento pelo longo tempo de serviço, e costumavam dormir durante seus turnos. O Moleque Jones, como passou a ser chamado pela imprensa londrina, já tinha invadido o palácio antes, em dezembro de 1838. Foi capturado pela polícia na St. James’s Street, numa perseguição, e estava usando duas calças e dois sobretudos. Quando tiraram a calça de cima, muito estufada, caíram várias peças íntimas femininas. Ele estivera no quarto de dormir e no quarto de vestir da rainha e roubou uma carta que ali estava, junto com um retrato e as roupas de baixo. Consideraram sua ação uma “tolice de juventude” e ele foi

absolvido.6

Três meses depois que Lehzen flagrou o Moleque Jones, ele invadiu o palácio pela terceira vez. Foi descoberto à uma e meia da madrugada, com carne e batatas furtadas da copa e escondidas no lenço. Essa tríplice ocorrência lhe valeu o estatuto de celebridade. Charles Dickens escreveu ao pai do garoto logo a seguir, pedindo um encontro com a “vítima do palácio”, mais por curiosidade do que por admiração. Ele duvidava da opinião popular de que o Moleque Jones fosse esperto, mas infelizmente

não deixou nada escrito sobre o encontro.7 O romancista americano James Fenimore Cooper, autor de O último dos moicanos, foi visitar o pai de Jones quando esteve em Londres e se ofereceu para levar o filho para os Estados Unidos, onde achava que um garoto esperto como ele iria prosperar. Combinaram um encontro, mas Cooper ficou surpreso ao ver “um baixinho

raquítico e obtuso, que se sobressaía apenas pelo ar taciturno e turrão”.8

 

O príncipe Albert utilizou a questão das repetidas invasões do Moleque Jones como pretexto para examinar a onerosa administração do palácio, complicada e ineficiente. Estava decidido a livrar o palácio de todos os intrusos, inclusive a baronesa Lehzen, que assumira maior responsabilidade pelas crianças e pelas finanças da rainha, durante os períodos de repouso de Vitória antes e depois do parto. O príncipe, que gostava de estruturas sólidas, desprezava a visível incompetência na administração da Casa Real. Resolveu implementar uma nova ordem para Vitória, instilando disciplina em tudo, desde sua agenda diária até suas finanças e palácios destrambelhados.

Primeiro, Albert forneceu a Vitória uma rotina diária. Tomavam o desjejum às nove, saíam para caminhar, então escreviam e desenhavam juntos e almoçavam às duas. Vitória recebia Lord Melbourne por algumas horas à tarde, e depois saía para um passeio em coche aberto com Albert ou com a mãe e damas de companhia. O jantar era às oito. Albert tomou providências para que essa agenda fosse seguida da forma mais estrita possível, assim vencendo o gosto de Vitória pelas altas horas da noite.

Segundo, o príncipe tentou controlar os gastos. Ficou boquiaberto ao ver que, em 1839, a rainha gastara 34 mil libras, cerca de 2,6 milhões de libras

em valores atuais, somente em obras de caridade e pagamento de pensões.9 Dedicou especial atenção aos registros financeiros do ducado da Cornualha, que rendeu valores substanciais para Vitória em 1840, provenientes sobretudo de suas minas de estanho — 36 mil libras, das quais um terço se evaporou na custosa administração. Enxugou, reestruturou e organizou o orçamento com sucesso. Em poucos anos, havia dinheiro suficiente para comprar uma casa particular para a família na Ilha de Wight. (Albert negava sistematicamente os pedidos de dinheiro que lhe fazia a família em Coburgo.)

Terceiro, o príncipe examinou o estado precário das Casas Reais de Vitória, em especial o Palácio de Buckingham, onde passavam vários meses por ano. O palácio era espaçoso, grandioso, situado na área imobiliária mais elegante de Londres, mas a ventilação era ruim, o aquecimento era irregular e os frequentes vazamentos de gás de vez em quando levavam a explosões na cozinha. Os alojamentos da criadagem estavam abarrotados e o quarto das crianças era inadequado para a prole crescente. O palácio fedia a emanações fecais: o piso de tijolos da cozinha servia de teto do esgoto que gorgolejava sob a despensa e os fornos. O banheiro no andar acima do quarto de vestir da rainha volta e meia transbordava na frente da janela. Depois de se descobrirem dezenas de cloacas transbordando de dejetos sob os pavimentos do Castelo de Windsor, em 1844, Albert substituiu todas as velhas retretes hanoverianas por privadas modernas com sistema de descarga.

No primeiro ano do reinado de Vitória, depois de reclamações sobre os maus cheiros, um encarregado do setor de madeiras e obras inspecionou o Palácio de Buckingham e declarou que os pavimentos inferiores estavam em condições sórdidas e eram inabitáveis. Na cozinha, ele encontrou “restos

de vegetais da horta e outras coisas no estado mais fétido e imundo”. 10 Havia vazamentos nos telhados e os drenos estavam esburacados, mas pouco se fez a respeito. Três anos depois, Albert pediu a Stockmar que o ajudasse a conduzir outra inspeção, mais completa. Encontraram uma estrutura arcaica e extremamente ineficiente, com a responsabilidade dividida entre o Lord Camareiro e o Lord Mordomo, com alguma contribuição do Mestre dos Cavalos e do setor de madeiras e obras. As lâmpadas no Palácio de Buckingham eram fornecidas pelo setor do Lord Camareiro, limpadas pelo setor do Lorde Mordomo e, em geral, acendidas pelo Mestre dos Cavalos.

As janelas viviam sujas, pois a parte de dentro e a parte de fora nunca eram limpadas ao mesmo tempo: o setor do Lord Camareiro era responsável pelo interior do palácio, enquanto o setor de madeiras e obras cuidava do exterior. A equipe do Lord Mordomo preparava e montava as lareiras, e era a equipe do Lord Camareiro que as acendia. Vidraças e guarda-louças quebrados ficavam meses nesse estado, pois, para consertá-los, o cozinheiro chefe tinha que preparar e assinar uma requisição, que então precisava ser assinada pelo Mestre da Casa Real, autorizada pelo setor do Lord Camareiro e entregue ao Encarregado das Obras, pertencente ao setor de madeiras e florestas. Albert nomeou um funcionário que moraria no palácio e representaria os três departamentos.

A seguir, havia a criadagem. Cerca de dois terços dos criados do palácio não tinham supervisão alguma, e assim faziam o que bem entendiam, sumindo à vontade. O pessoal era conhecido por sua grosseria. Raramente havia alguém disponível para conduzir os convidados a seus aposentos; muitos visitantes se perdiam pelos corredores labirínticos. Albert identificou uma série de fraudes e abusos praticados durante décadas pela criadagem: muitas vezes, pessoas externas ao palácio falsificavam a assinatura das damas de companhia da rainha para chamar uma carruagem, pondo o custo da viagem na conta da Casa Real; diariamente colocavam velas novas e os lacaios embolsavam as velas do dia anterior, muitas nem sequer usadas; ofereciam-se dispendiosos jantares da equipe a pessoas com remotíssimas ligações com a corte real. Albert reduziu os salários, em alguns casos em dois terços, visto que muitos criados trabalhavam apenas metade do ano no palácio.

No programa de Albert, vinha por último o que ele chamava de

“dignidade moral da corte”.11 As mesas de jogos de apostas desapareceram de Windsor. Ninguém tinha autorização de se sentar em presença da rainha — ou de Albert. (A esposa de Lord John Russell — que mais tarde foi primeiro-ministro — teve permissão de descansar numa cadeira depois de dar à luz, “mas a rainha, quando o príncipe se reuniu ao grupo, teve o cuidado de colocar uma dama de companhia bem gorda de pé na frente

[dela]”.)12 Os ministros em visita à rainha tinham que sair da sala andando para trás, pois dar as costas a um monarca feria a etiqueta. Os trajes da corte eram obrigatórios. (Se uma mulher não quisesse usar o estilo adequado, precisaria obter um atestado médico explicando por que isso prejudicaria

sua saúde e então pedir permissão ao departamento do Lord Camareiro.)13 Punia-se o “comportamento desonesto e sexualmente frouxo”.

Passou a vigorar um novo e rigoroso código de conduta, que era cuidadosamente emoldurado e pendurado nos dormitórios das damas de

honra.14 Faz muito tempo que o nome de Vitória vem associado ao puritanismo preconizado por Albert na corte, mas foi ele, não ela, o

verdadeiro defensor desses padrões. 15 Melbourne logo percebeu que Vitória “não se importava muito com tais sutilezas da escolha moral”, ao passo que

Albert era “extremamente rígido”.16 O príncipe insistia num “caráter imaculado”, enquanto a rainha não se importava “nem um pingo a

respeito”.17 Ninguém escapava aos padrões de Albert. Mesmo seu próprio irmão lhe provocara um acesso de fúria, devido à sua licenciosidade sexual que havia resultado em graves “visitações” de doenças venéreas. Apesar de tudo, Vitória pouco fez para conter o fervor do marido; iniciara-se a era Albert, pelo menos dentro do palácio.

 

Enquanto isso, a esfera política fervilhava especulando quando o governo whig cada vez mais impopular de Lord Melbourne seria substituído pelos tories de Sir Robert Peel. Sempre preparado, Albert iniciara negociações secretas com Peel, enviando seu secretário, Anson, para tentarem criar um acordo que evitasse os constrangimentos da Crise da Câmara Real, em que Vitória vetara Robert Peel por causa de seu apreço por Melbourne. Albert também se pôs em conversações com Melbourne, comunicando ao primeiro-ministro que, a seu ver, Vitória (esperando o segundo filho) não conseguiria enfrentar ou “atravessar dificuldades” sozinha. Assim, ele queria ser incluído em qualquer conversa que Melbourne tivesse com a

rainha sobre os assuntos de Estado.18

Em 9 de maio de 1841, Anson se reuniu com Peel para debater a questão das damas na Casa Real. Em nome de Albert, Anson ofereceu a renúncia de três damas de companhia mais graduadas, casadas com whigs de alta importância e, portanto, aliados de Melbourne, o qual estava prestes a sair: a duquesa de Sutherland, a duquesa de Bedford e Lady Normanby. Peel, depois de assegurar várias vezes que seu principal objetivo era proteger a dignidade e os sentimentos da rainha, aceitou. Também pediu que Vitória o notificasse formalmente que aqueles três cargos estavam vagos. A mudança devia vir da parte dela, para não ser vista como condição de Peel para

formar um governo. 19

Depois do fiasco anterior, Peel se sentiu extremamente grato pela intervenção diplomática de Albert. Num memorando de 27 páginas, conservado nos arquivos da British Library, o entusiasmo, o indisfarçado sentimento de vitória e a gratidão de Peel ficam evidentes, bem como sua

preocupação de que nada fosse interpretado como uma desfeita à rainha. 20 Anson e Peel reconheciam explicitamente a superioridade intelectual de Albert em relação a ela; Anson citou o príncipe, que disse que a rainha tinha uma “modéstia natural em relação a suas posições constitucionais” e provavelmente aceitaria os argumentos de homens mais experientes do que

ela.21 Havia aí alguma verdade — Melbourne recomendou ao sucessor que escrevesse detalhadamente à jovem rainha, e “em forma elementar, pois Sua Majestade sempre gostava de ter pleno conhecimento de tudo o que se

passava”.22

Muitos historiadores supõem que Vitória, então no segundo trimestre da segunda gravidez, teria aceitado muito bem o arranjo que o marido fizera sem a consultar. Mas a troca de primeiro-ministro — facilitada pelo marido por trás de suas costas — foi um período muito difícil para ela. Na primeira semana de maio, Vitória e Melbourne debateram a necessidade de resolver a questão de suas damas antes de mandar chamar Peel. Enquanto ainda discutiam a questão, Albert agiu sem lhe dizer nada, oferecendo a Peel a renúncia das três damas whigs. Vitória ficou surpresa e, em 9 de maio, escreveu: “Meu caro e excelente Lord Melbourne me contou que Anson esteve com Peel (coisa de que eu não fazia ideia, mas que, claro, Albert devia saber)”. A ressalva é significativa — por que seu marido não lhe contara? No final do dia, escreveu que se “sentia muito abatida”. Naquela noite, ela teve pesadelos com a perda de Melbourne e acordou exausta e

deprimida, escrevendo: “Ah! Se fosse apenas um sonho!”. 23 Toda vez que pensava na perspectiva de perder seu estimado Lord Melbourne, Vitória sentia vontade de chorar. Disse a Leopoldo que era “muito, muito doloroso”, mas estava decidida a se manter serena, principalmente agora que tinha Albert. Depois de ler com atenção os memorandos Anson-Peel de maio de 1841, ela acrescentou uma condição: Peel devia entender que era a rainha, e não ele, quem nomeava as damas. Insistiu nesse ponto como um

“princípio”, sublinhando enfaticamente a palavra.24 Peel concordou.

Vitória se sentia dividida entre a conveniência política e a lealdade. Poucas semanas depois, começou a se preocupar achando que capitulara a Peel com excessiva facilidade. Albert falou que ela estava sendo influenciada por suas damas; Vitória chorou por algum tempo e admitiu que a família da duquesa de Bedford — que não queria sair — deixara uma carta para ela. Anson escreveu: “A rainha passou o dia todo muito abatida e disse que sentia um grande peso no espírito e achava que o marido e Lord

Melbourne a haviam apressado e levado a transigir”.25 Ela sabia que agora não tinha escolha a não ser fazer o que o marido sugeria.

Muitas vezes, Vitória ficava incomodada com o que lhe parecia ser uma renúncia a seu papel, transferindo-o para o marido. Quando Lord Melbourne lhe contou que Albert tivera uma acolhida triunfal num evento, ela respondeu: “Não gosto disso — em primeiro lugar, porque não gosto que ele esteja longe de mim, e depois porque não gosto que ele tome meu

lugar na política ou nos assuntos gerais do país”.26 Mas Albert tinha habilidade política. Ele e Anson estavam contatando os dois primeiros-ministros, o atual e o futuro, e combinando encontros por trás de Vitória. Em 15 de maio, Albert estava na sala quando Melbourne chegou para sua reunião com Vitória; dessa vez, ele permaneceu na sala.

Em junho, quando o governo de Melbourne perdeu um debate sobre a tributação do açúcar estrangeiro, Peel forçou um voto de desconfiança e o Parlamento foi dissolvido. Vitória ficou deprimida, mas Melbourne, agora mais velho, contemporizou: “Ora, ninguém gosta de sair, mas não estou

bem. Ando muito abatido e será um grande descanso para mim”.27 Vitória mostrou claramente suas preferências visitando a residência de whigs importantes durante as eleições, mas sem grandes efeitos. Os conservadores obtiveram ampla maioria em 19 de agosto. Pela primeira vez, a rainha não compareceu à sessão de abertura.

Nove dias depois, Melbourne finalmente foi obrigado a renunciar. Despediu-se de sua rainha poucas horas depois de sua última audiência oficial, “à luz das estrelas” no terraço de Windsor. A rainha chorou. Melbourne lhe disse com ternura: “Durante quatro anos, eu a vi diariamente e a cada dia gostava mais e mais”. Quando trocaram a despedida final em Claremont, quatro dias depois, ela soluçou. Vitória estava muito mais acessível a Peel do que dois anos antes. Ainda assim, disse a Melbourne que

se sentia “horrivelmente afetada” com a separação.28 No diário, ela repete várias vezes quanto se sentia “infeliz”, de “coração pesado” e com

“pressentimentos melancólicos”.29 Estava acostumada a vê-lo todos os dias; antes disso, o máximo de tempo que passara sem o ver tinha sido por onze dias. Um mês depois, ainda relutava com a mudança, passando muito menos tempo com o novo primeiro-ministro do que fazia com Lord Melbourne. A correspondência com Peel era mais fria e mais pragmática; a

afeição sumira da relação.30

Albert estava pronto para o trabalho. Tinha muito em comum com Peel: a reserva, a propensão para conversas intelectuais, o amor pela arte e pela literatura — em especial por autores alemães e pintores holandeses — e o empenho em reformas sociais (mas não na ampliação do direito de voto, pois Peel se opusera ao Projeto de Reforma de 1832). Albert chegou a persuadir Peel a aceitar seu veto a nomeações oficiais por conduta moral duvidosa, inclusive a do duque de Beaufort, que ficou muito surpreso (quando sua esposa morreu, ele se casara com sua meia-irmã, o que era proibido pelo direito canônico da Igreja da Inglaterra). O curioso é que Peel concordou.

O novo dirigente da Inglaterra era um indivíduo brilhante, que se destacara nos estudos clássicos e matemática na Christ Church, Oxford, ingressara no Parlamento com apenas 21 anos e fora nomeado ministro do Interior treze anos mais tarde. Quando estava no Ministério do Interior, Peel criara a Força Policial Metropolitana, cujos policiais foram desde então alcunhados de bobbies, em referência a seu nome. Estava seriamente empenhado em garantir a proteção dos trabalhadores e durante muitos anos fez campanha para revogar as Leis do Trigo, que consistiam numa tributação sobre o trigo importado, a qual protegia os latifundiários locais e encarecia o preço do pão, gerando muita miséria entre os trabalhadores e os desempregados. Peel foi o primeiro premiê a enfrentar a sério os problemas urgentes do crescimento populacional, da Revolução Industrial e da recessão. Mas nunca foi muito benquisto, em parte porque era canhestro e reservado. Segundo Lord Ashley, Peel parecia “um iceberg com um leve

degelo na superfície”.31 Segundo Greville, ele era “vulgar”, “mais um comerciantezinho janota do que um primeiro-ministro”, que usava faca para

cortar gelatina. 32 Vitória gostava de receber agrados, e Peel era incapaz disso. Já haviam comparado seu sorriso ao reluzir da placa prateada na

tampa de um caixão.33 Os dois não tinham muito o que conversar, e ela se

irritava com o jeito dele, que parecia “um professor de dança dando aula”.34 Vitória o apreciaria mais, disse Greville, “se ele conseguisse parar de mexer as pernas”.

 

Foi um verão muito quente. Grávida, Vitória tinha constantes dores de cabeça. Perdera seu amado primeiro-ministro, brigara com o marido e se preocupava com a saúde da filhinha irrequieta. Sentia-se bastante deprimida e disse a Leopoldo que a “grande provação atual, a maior que já precisei suportar”, de perder o contato diário com Melbourne era “um triste

desgosto”. 35 No final de agosto, Melbourne lhe escreveu insistindo para

“erguer o ânimo”.36

Albert, geralmente mais propenso à melancolia do que sua esposa, andava muito contente e animado. Tudo caminhava de acordo com suas esperanças. Ficou satisfeito com a saída de Melbourne num momento oportuno, que lhe permitia se tornar o único confidente da rainha. Disse a Anson para relembrar a Melbourne que “sempre fora do parecer de que, a partir desse momento, assumiria uma nova posição e a rainha, não podendo mais recorrer a Lord Melbourne em caso de necessidade, deveria a partir de agora se consultar e se aconselhar com [ele]”. Albert também teve a prudência de persuadir os aliados de maior confiança de Vitória a falarem em seu favor. Pediu a Anson que dissesse a Melbourne para “insistir com a rainha em não ter escrúpulos em utilizar o príncipe”.

Melbourne concordava que Albert deveria ocupar naturalmente seu lugar, mas recomendou que ele não alarmasse Vitória a fazendo pensar que “o

príncipe estava em tratativas com Peel sem seu conhecimento”. 37 Então, conscienciosamente, Melbourne escreveu uma carta à rainha, elogiando e indicando Albert — e não Peel — como seu verdadeiro substituto, louvando

seu “julgamento, temperamento e discrição”.38

Enquanto Melbourne perdia seu papel dominante e Albert vinha a ocupar o primeiro plano, Vitória começou a reconhecer uma nova fonte de bem-estar na vida. Agora conhecia o amor: um amor que era seguro, profundo e permanente. Revendo o passado, agora como esposa e mãe, sentia-se constrangida com seu comportamento quando estava apaixonada por Lord Melbourne. Anotou no diário em 1º de outubro de 1842: “Revi e corrigi um de meus antigos diários, que agora não despertam sentimentos muito agradáveis. A vida que levava então era muito artificial e superficial. No entanto, eu pensava que era feliz. Graças a Deus, agora sei o que significa a

verdadeira felicidade!”.39

Essa percepção a acompanhou durante meses: “a verdadeira felicidade” foi um marco fundamental durante seu amadurecimento e florescimento no matrimônio. Em dezembro de 1842, Vitória conversou com Albert sobre o que fora sua “ilimitada afeição e admiração por Lord Melbourne”. Disse que não sabia bem de onde aquilo vinha, “exceto pelo fato de que me agarrei a alguém e tinha sentimentos muito calorosos”. Albert comentou que ela “se convencera de algo que realmente acabou por ser uma grande

tolice”.40 Albert provavelmente era sensato demais para algum dia se convencer de qualquer tolice, mas descartou os sentimentos da esposa com excessiva rapidez. Melbourne dera uma sensação de segurança a Vitória nos primeiros anos mais vulneráveis de seu reinado, e a afeição dela por ele era genuína e correspondida. A despedida era dolorosa.

Lord Melbourne, em seu declínio, tornou-se uma figura um tanto patética e solitária. Fitava o palácio com ar melancólico ao passar por ali e, nos anos após a renúncia, ficava aguardando cartas de Vitória. Tinha a esperança de ser chamado de volta ao Parlamento em 1846, mas a rainha lhe disse que se abstivera por causa da saúde dele. Ao saber que ela estava com depressão pós-parto, Melbourne lhe escreveu dizendo que ele também andara

deprimido: “Sei como é difícil lutar contra isso”. 41 Seu biógrafo David Cecil diz que Melbourne sentia saudades da rainha. Os dias que passara

com Vitória tinham sido os mais felizes e plenos de sua vida.42 Ela o adorava e tinha necessidade dele. Quando mencionavam o nome da rainha,

seus olhos se enchiam de lágrimas.43

Vitória continuava a enviar cartas e presentes a Melbourne, e lhe fazia empréstimos em dinheiro, mas agora sua atenção estava dividida: num baile em abril de 1842, havia uma fila tão comprida de gente esperando para se despedir da rainha que Melbourne saiu discretamente e embarcou desalentado em sua carruagem. Escreveu-lhe no dia seguinte, contando que passara pela frente do palácio e pôde ver seus aposentos, “a ponto de distinguir os quadros, as mesas etc., as velas sendo acesas e as cortinas

abertas. Vossa Majestade estava saindo naquele instante para a Ópera”.44

Pouco depois sofreu um derrame e morreu em 1848. 45

 

A baronesa Lehzen e Albert tinham atritos constantes enquanto ela tentava proteger seu território e ele procurava expandir o dele. Stockmar disse a Lord Granville que Lehzen era “tola” em contestar a influência de Albert e não reconhecer que sua posição mudara, agora que Vitória estava casada. Mesmo Leopoldo, antes amigo, dizia que Lehzen era um “grande

perigo futuro” para Albert.46

Os homens da corte começaram a observá-la e cercá-la. Em dezembro de 1840, voltando de dez dias de viagem, Anson ficou furioso com Lehzen, que “se intrometeu e causou estragos sempre que teve oportunidade, desde

o momento em que parti”.47 Embora Melbourne lhe assegurasse que a interferência de Lehzen não conseguiria diminuir o amor de Vitória por Albert, Anson não tinha tanta certeza: “Ela estava sempre no caminho da rainha, apontando e exagerando qualquer pequena falha do príncipe, distorcendo-o constantemente, tentando enfraquecê-lo nas afeições da

rainha”.48 Não existem muitas indicações de que Lehzen realmente agisse assim — antes elogiara Albert, como “pessoa muito boa e de espírito humilde” —, mas está claro que ela fortaleceu a decisão de Vitória de

preservar suas prerrogativas.49 John Conroy tinha sido uma lição para Lehzen e ela procurava instintivamente proteger a rainha. Era importante, dizia ela, que Albert reconhecesse que “a rainha não admitiria nenhuma interferência no exercício de seus poderes, dos quais ela era extremamente

ciosa”.50 Este era o cerne da disputa: a luta sobre os poderes da rainha.

A hostilidade logo vazou para o público. Quando Albert disse a Lehzen para deixar o palácio em 1842 — coisa que ele não tinha o direito de fazer, retrucou ela —, a baronesa deixou de falar com o príncipe. Lehzen se sentia ofendida que Albert tentasse mudar coisas com que ela e Vitória haviam concordado. Albert achava que ela era grosseira, desrespeitosa, ambicionando o poder — e que fora promovida acima de seu nível. Ele ficou furioso quando viu Lehzen, plebeia e integrante da criadagem, sentada no chão com Pussy no colo, no quarto das crianças (mesmo as amas de leite tinham a recomendação de amamentar de pé, por respeito ao bebê real a

seus cuidados).51 Quando ela deixou de contar a Albert que o capitão Childers, um dos cortesãos da rainha, se apaixonara por Vitória, ele a acusou de incompetência. Lehzen replicou que havia contado ao Lord Camareiro e não a ele pela simples razão de que Albert tinha sido tão grosso com ela que era impossível falar com ele.

Quando uma mulher como Lehzen ameaçava a autoridade de Albert, ele ficava excepcionalmente malévolo. Ela era vista de modo geral como uma

“duende solteirona”.52 Em cartas ao irmão, Albert se referia a ela como die Blaste — a bruxa. Quando Lehzen pegou icterícia naquele Natal, ele a

apelidou de “a dama amarela”.53 Albert a responsabilizava pelas falhas de Vitória: sua educação, que ele considerava abaixo do padrão — muito embora fosse melhor em línguas, fluente em inglês, alemão e francês e um pouco de italiano —, e seu nervosismo nas conversas com estudiosos e políticos muito mais velhos do que ela. Albert criticava muito a esposa nos meses anteriores à partida de Lehzen, mas, depois que ela foi embora, ele declarou ao irmão que Vitória “era a companheira mais perfeita que um homem poderia desejar”.

Lehzen tinha ciúmes de Albert, mas não era o duende de sua imaginação. Lord Holland louvava sua “sensatez e informação, grande capacidade de

julgamento e força de espírito ainda maior”.54 Greville, usualmente azedo, dizia que Lehzen era uma “mulher inteligente e agradável”, “muito amada pelas mulheres e muito estimada e apreciada por todos os frequentadores da

corte”.55 A dama de companhia Georgiana Bloomfield dizia que ela era uma figura “bondosa e maternal” para as mulheres da corte, sobretudo as

mais jovens.56 Da mesma forma, Lady Lyttelton a considerava bondosa, prestativa e devotada. Mas Albert não admitiria nenhum rival nas afeições de Vitória e, em vez de ceder a suas ambições, Lehzen as combateu tal como, anos antes, combatera Conroy e a mãe de Vitória. Foi castigada por defender sua rainha.

Durante a segunda gravidez de Vitória, suas damas ficaram maravilhadas com sua saúde robusta. Mas, na verdade, a jovem mãe se sentia indisposta,

“infeliz”, “desanimada e deprimida”. 57 Não queria outro filho tão rápido e se ressentia muito com as restrições de sua vida — como se suas “asas estivessem cortadas”. Foi perdendo o interesse pelo trabalho e muitas vezes

explodia em acessos de mau humor. 58

Em 9 de novembro de 1841, nasceu um bebê gordo e sadio. Vitória ficou entusiasmada que fosse um menino, mas estava abatida após um parto

torturante.59 Escreveu no diário:

 

Não direi muita coisa, mas meus sofrimentos foram realmente muito grandes e desconfio que teria

morrido se não fosse o grande reconforto e apoio de meu amado Albert… Finalmente, faltando

doze minutos para as onze, dei à luz um belo meninão! Ah, como me senti feliz e grata que a

Providência Onipotente me tivesse abençoado tanto e me preservado tão misericordiosamente ao

longo de tantos dias e provações. Embora cansada, senti-me muito bem depois que a criança

nasceu.

 

Albert lhe deu um broche com o timbre do filho; então ela caiu num sono profundo pelo resto do dia, mais uma vez aliviada por não ter morrido. Mas Vitória não sentia nada pelo bebê quando o tinha nos braços, nem amor ou afeto. Passou um ano com depressão pós-parto. Durante todo o mês de novembro, Albert continuou a carregá-la da cama para a poltrona. Sentia-se fraca, deprimida, e tinha problemas para dormir. Os membros do palácio a observavam nervosos, na suspeita de que a loucura de seu avô ressurgiria e se apoderaria dela.

Vitória levou muitos meses para afastar a tristeza, que lhe parecia inexplicável, visto que Albert a fazia muito feliz. Estava com os nervos “tão esfrangalhados”, disse a Leopoldo em abril de 1843, que “sofri um ano

inteiro com isso”. 60 Mais tarde, comentou com a filha mais velha que o problema fora ter dois filhos em seguida, numa sequência tão rápida: “Bertie e eu sofremos e ele sempre sofrerá por ter vindo tão logo depois de

você”.61 Como primeiro filho, Albert Edward — futuro Eduardo VII — nasceu para ser rei, mas a irmã mais velha sempre seria mais inteligente, mais bonita e mais amada.

Em 16 de janeiro de 1842, Albert e Vitória voltaram o mais rápido possível de Claremont para Windsor. Haviam passado uma curta temporada na propriedade inglesa de Leopoldo, na tentativa de sanar a melancolia de Vitória, mas tinham sido chamados porque Pussy, cuja saúde estivera ruim durante meses, estava piorando. Por muito tempo, Albert culpara Lehzen por problemas no quarto das crianças, mas, quando a filhinha adoeceu, ele ficou bravo e nervoso. Pussy ficara fraca e inquieta com poucos meses de idade, e Lehzen e a ama de leite não conseguiam acalmá-la nem fazê-la ganhar peso. A rainha escreveu: “Até o final de agosto, ela era uma criança tão gorda, forte, magnífica, que é um grande pesar vê-la tão magra, pálida e

alterada”.62 Dr. Clark receitou leite de jumenta e caldo de galinha com creme, que ela não conseguia digerir, bem como calomelano com mercúrio e láudano, que tirava o apetite. O nascimento de um irmãozinho, o menino que os pais tanto queriam, apenas fez piorar o estado da pequena Pussy. No dia seguinte ao nascimento, Vitória escreveu: “Vi os dois, Pussy aterrorizada e nada satisfeita com o irmãozinho”.

Os dois mantiveram silêncio durante grande parte da viagem: muitas

crianças morriam antes mesmo de aprender a andar.63 Quando o coche parou no pátio retangular de Windsor, subiram correndo até o quarto das crianças. Lá, ficaram espantados ao ver Pussy magrinha e de olhos fundos, mas balbuciando e sorrindo radiante para eles. Encolerizado, Albert disse alguma coisa que despertou uma reação agressiva da pajem. Ele se virou para Vitória e murmurou: “Isso realmente é maligno”. Vitória explodiu,

nervosa: ele queria que ela, a mãe, saísse do quarto dos filhos?64

Os dois perderam a calma: Albert disse a Vitória que ela tinha uma paixão irracional por Lehzen e que as duas haviam descuidado da criança — queriam matá-la? Vitória, por sua vez, acusou-o de querer controlar tudo, inclusive o quarto das crianças, de invejar sua posição, de ter ciúmes de sua preciosa amizade com Lehzen, de pensar o pior sobre ela, de não deixar que ela tomasse suas próprias decisões. Depois de se apoderar de grande parte de seu papel cerimonial, agora Albert queria controlar também a criação dos filhos, o que deixava Vitória furibunda. Finalmente afloravam os meses de tensão subterrânea. E Vitória gritou que lamentava ter se casado com ele.

Albert ficou furioso e estarrecido com essa cena pública. Murmurando “Preciso ter paciência”, foi para seus aposentos e se recusou a falar com Vitória durante vários dias. Stockmar fazia as vezes de intermediário. Vitória lhe escreveu no mesmo dia, contrita, dizendo que a discussão parecia um pesadelo. Queria que ele dissesse a Lehzen que fora um “pequeno desentendimento”, acalmasse Albert e lhe dissesse que a rainha estava transtornada demais para ver qualquer pessoa. Ainda se recuperando do parto difícil de Bertie, poucas semanas antes, Vitória não parava de chorar. “Sinto-me tão perdida e estou com uma enorme dor de cabeça! É como se eu tivesse tido um sonho pavoroso. Espero que você consiga

aplacar Albert. Ele ainda parece estar muito zangado. Eu não estou”.65

Ele estava, sim. Albert não iria mais moderar suas palavras. Obrigaria a rainha a escolher entre marido e governanta. Escreveu a Stockmar:

 

Lehzen é uma intrigante louca, vulgar, estúpida, obcecada com a ânsia de poder, agora se vê como

uma semideusa e quem não a reconhece como tal, como um criminoso… Eu, por outro lado,

considero que Vitória tem por natureza um bom caráter, mas desvirtuado por uma criação errada…

Não haverá nenhuma melhoria enquanto Vitória não enxergar Lehzen como ela realmente é, e rezo

para que esse dia chegue.66

 

Os surtos emocionais de Vitória iam e vinham, mas a cólera de Albert era gélida e duradoura. Queria infligir dor à esposa. Escreveu-lhe alguns dias depois, num tom gelado: “Dr. Clark cuidou mal da criança e a envenenou com calomelano e você a fez passar fome. Não terei mais nada a ver com isso; leve embora a criança e faça o que quiser, e se ela morrer você ficará com isso em sua consciência”. Vitória disse a Albert que lhe perdoava as “palavras irrefletidas” e pediu que lhe dissesse se estava preocupado com alguma coisa. Mas Albert declarou raivoso numa carta a Stockmar: “Vitória é precipitada e acalorada demais para que eu consiga falar mais sobre minhas dificuldades. Ela não me ouve, mas fica furiosa e me cobre de críticas, acusando-me de suspeitas, falta de confiança, ambição, inveja etc. etc.”.

Os dois homens estavam de acordo: a rainha devia se render. Stockmar escreveu uma mensagem confidencial a Vitória, ameaçando renunciar caso tais cenas se repetissem. A rainha respondeu depressa: “Albert precisa me dizer o que lhe desagrada, e eu vou corrigir, mas ele também precisa prometer me ouvir e acreditar em mim; quando (pelo contrário) fico com uma raiva que, espero, já não me acomete muito, ele não deve acreditar nas coisas estúpidas que digo, como me sentir infeliz por ter me casado e assim

por diante, que saem quando não estou bem”.67

Vitória reconhecia que tinha defeitos. Passava por tais explosões — que Albert chamava de “incendiárias” — desde que era criança. Mas Albert parecia incapaz de aceitar que, de vez em quando, ela precisava desabafar ou surtar. Em vez disso, ele ralhava e mandava que controlasse suas emoções: um trabalho de Sísifo.

Vitória continuou a defender Lehzen. Sensatamente, declarou que queria reconhecer a bondade e a lealdade de sua ex-governanta e mantê-la na casa como recompensa pelos serviços de toda uma vida. Reconhecia, porém, que a posição de ambos era “muito diferente da de qualquer outro casal” porque “Albert está em minha casa e não eu na dele”, mas, ao fim e ao cabo, ela se

submeteria a ele porque o amava.68 Prometeu que tentaria controlar seu temperamento, escrevendo em 20 de janeiro de 1842:

 

Muitas vezes há em mim uma irritabilidade que (como no domingo passado, que deu início a toda

essa desgraça) me faz dizer coisas ruins e odiosas nas quais não acredito que vão ferir Albert, e nas

quais ele não deve acreditar. Eu me esforçarei em dominá-la, embora eu soubesse antes de me

casar que isso seria um problema; por isso não queria me casar, como nos dois anos e meio em que

eu era tão plenamente dona de mim mesma que ficava difícil me controlar e me curvar à vontade

de outra pessoa, mas confio que serei capaz de vencer isso.69

 

Três meses depois, Lady Lyttelton foi nomeada governanta. Era a escolha ideal: meiga, competente, tradicional, de maneiras brandas. As crianças a adoravam e ela agradava tanto ao príncipe, por quem tinha profunda admiração, quanto à rainha, cuja “índole de ferro” ela notou

imediatamente.70 Acabaram por concordar que a agitação em torno de Pussy fora excessiva e que os médicos não ajudaram muito.

Em 25 de julho, sem consultar a esposa, Albert demitiu Lehzen. Então mentiu para Vitória, dizendo que Lehzen quis voltar para a Alemanha por causa da saúde. Ficaria fora dois meses. Albert acrescentou que concordara. Naquela noite, Vitória escreveu no diário: “Naturalmente fiquei bastante transtornada, embora tenha certeza de que é para nosso bem e para o bem

dela”. 71

Sempre empenhada em proteger Vitória, Lehzen se mostrou alegre quando a rainha entrou agitada em seu quarto, e procurou tranquilizá-la. Repetiu o refrão de Albert, “dizendo que julgava necessário partir por causa de sua saúde, pois, claro, agora eu não precisava tanto dela e encontraria outras pessoas para me ajudarem”. Vitória saiu do quarto, momentaneamente aliviada. Mais tarde, sentada ao lado do marido, tocando um dueto ao piano, ela comentou que controlara sua vontade de chorar. Estava resolvido. Albert quisera assim. A rainha escreveu no diário: “Fiquei bastante desconcertada e abatida com o acontecido e naturalmente a ideia da separação próxima de minha querida Lehzen, que tanto amo, me deixou muito triste”.

 

Na noite de 29 de setembro de 1842, Vitória sonhou com Lehzen. Era a mulher que lhe sorrira na Abadia de Westminster quando puseram a pesada coroa da Inglaterra em sua cabeça, que lhe dera forças quando John Conroy tentara lhe usurpar o poder, que lhe colocara compressas frias na testa para diminuir a febre que quase lhe tirou a vida aos quinze anos de idade. A mulher que lhe fora mais próxima do que sua própria mãe. Ela sonhou que Lehzen entrava no quarto para se despedir, abraçando-a com sua habitual ternura. Vitória acordou engasgada de dor: “Foi muito doloroso para mim… Já tinha ouvido falar disso — essa sensação esquisita ao acordar —, mas

nunca me acontecera. É muito desagradável”. 72

No andar térreo, a baronesa abotoava o casaco. Inclinou-se para pegar e levar sua última mala até a carruagem que esperava no pátio do Castelo de Windsor. O céu começava a clarear; desceu depressa pelas escadas. Não queria perturbar Vitória, pois sabia que ambas tentariam manter a compostura. No desjejum daquela manhã, Vitória recebeu uma carta de Lehzen, “em que pedia licença para me escrever, julgando que seria menos doloroso do que me ver. Isso naturalmente me transtornou e lamento muito não poder abraçá-la mais uma vez… Nunca vou esquecer que, por muitos

anos, ela foi tudo para mim”.73

Com grande dignidade, a baronesa voltou para a Alemanha, indo morar com a irmã, que morreu poucos meses depois. Lehzen viveu sozinha até o final da vida, recebendo a generosa pensão anual que Vitória providenciou. Sua devoção à rainha nunca arrefeceu. Em 1858, ficou horas de pé na plataforma da estação de Bückeburg, esperando o trem com Vitória e

Albert, que iam visitar Vicky, que acabara de se casar. 74 Enquanto os vagões percorriam a estação sem se deter, Lehzen ficou ali, acenando um lenço, tentando vislumbrar Vitória.

Lehzen fora o esteio que fortalecera a firmeza de Vitória ao crescer; sentia um enorme orgulho por ela. Vitória lhe fez uma última visita em 1866, depois da morte de Albert, em Reinhardsbrunn. Abraçaram-se e choraram; Vitória sabia que Lehzen, agora frágil, ainda assim entenderia a magnitude de sua dor. Lehzen falava constantemente de sua rainha nos meses finais de vida, quando a mente começou a vaguear e estava retida no leito com uma fratura no quadril. Morreu em 1870, aos 85 anos. Vitória continuou a reinar por mais três décadas.

 

No final de 1842, Albert já não tinha mais rivais. Melbourne renunciara e Lehzen estava exilada na Alemanha. Agora ele tinha as chaves das caixas de Vitória, o controle de suas finanças (tanto da Casa Real com seu corpo de servidores quanto das propriedades particulares) e acesso a seus ministros. Agora não estava apenas representando e sim eclipsando a rainha. Em seu papel de secretário particular — cargo que fora cobiçado por John Conroy —, ele redigia as cartas, lia os documentos de Estado, aconselhava a rainha em todos os assuntos e dominava as reuniões. Com Peel, preparou-se para fazer o trabalho de um rei: um rei excepcionalmente ativo, disciplinado e competente. Estava pronto para iniciar o verdadeiro trabalho nas “coisas mais graves e mais elevadas”.

Havia muito a fazer. As questões que mais preocupavam Albert eram a reforma do Exército, a educação (principalmente ciências e geologia), a escravidão, as condições de trabalho e as relações externas, especialmente com a Alemanha e a França. Interessava-se por música, artes, habitação e arquitetura. Assumiu papel oficial em grupos como a Real Sociedade Agrícola, a Sociedade Filarmônica, a Associação Britânica, a Sociedade para a Melhoria das Condições das Classes Trabalhadoras, a Conferência Mundial do Congresso de Estatística, a Conferência Nacional da Educação, a Exposição de Dublin, a Exposição Universal, a Sociedade das Artes, a Sociedade para a Extinção da Escravidão e a Real Comissão de Belas Artes (esta em função da construção das novas câmaras parlamentares). Trabalhava até tarde da noite e acordava cedo, para ter tempo de se dedicar a seus projetos especiais. Albert era muito dinâmico, mas de forma um tanto desordenada; felizmente para a Grã-Bretanha, seu trabalho logo teria aplicações de grande impacto transformador.

 

Albert também assegurou que o Natal de 1841 fosse muito agradável. Importou pinheiros de Coburgo — popularizando a tradição da árvore de Natal, embora, além de ser montada no chão como hoje, também ficasse pendurada no teto — e esquiaram, fizeram bonecos de neve, andaram de

trenó pela neve estralejante.75 Vitória mal conseguia acreditar que tinha dois filhos, uma menina de um ano e um menino de dois meses e uma vida doméstica tão gemütlich, isto é, aconchegante. Em 26 de dezembro, Anson, no Castelo de Windsor, registrou satisfeito que a rainha “se interessa cada

vez menos por política” e estava “muito ocupada com a princesinha real”. 76

Albert, por sua vez, ocupava-se cada vez mais com a política. No continente, a Europa fervia de ardor revolucionário. De momento, a realeza britânica parecia notavelmente imune à ameaça da guilhotina, mas não se sabia como e quando os ventos poderiam virar. O príncipe lutara para ter seu lugar como homem da casa, providenciara que as sebes fossem devidamente aparadas e o palácio se mantivesse asseado, afastara ou demitira os amigos mais próximos da rainha. Agora voltava sua atenção para a situação da Inglaterra e a sobrevivência da monarquia britânica. Estava decidido a inaugurar uma nova era: a de uma monarquia nobre, apartidária, imparcial. Também estava decidido a não cometer os mesmos erros da esposa. Governaria sem favorecimentos. E não seria mais objeto de troça como consorte dócil e submisso; haveriam de reconhecer e respeitar seu domínio sobre a esposa. Começara a era Albert.