Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 20 de 44

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Vitória, a rainha

17. O que Albert fez: A Grande Exposição de 1851

17. O que Albert fez: A Grande

 

Exposição de 1851

 

Somos capazes de fazer praticamente qualquer coisa.

RAINHA VITÓRIA, 29 DE ABRIL DE 1851

 

Enquanto se dissipavam as nuvens escuras no céu de Londres, as ruas eram tomadas por uma imensa multidão. As pessoas subiam em telhados, escadas e caixas; comprimiam-se nas margens do rio Serpentine. No Palácio de Buckingham, o príncipe Albert abotoava o uniforme de marechal de campo. Bertie, com nove anos, estava pondo um kilt xadrez. Vicky, com dez anos, aguardava com paciência que lhe prendessem uma guirlanda de rosas silvestres no cabelo. Mas o que a multidão mais queria ver era a rainha. Vitória reluzia de diamantes: havia centenas deles costurados no vestido de seda cor-de-rosa, outros em um colar, outros cuidadosamente distribuídos pela cabeça. A Ordem da Jarreteira, uma estrela numa faixa azul larga, lhe atravessava o peito. Ela fitou o espelho e sorriu: o Primeiro de Maio de 1851 ia ser uma das maiores ocasiões de sua vida e da história de seu país.

Lá fora, enquanto aguardavam as carruagens reais, magotes de gente ficaram observando um sujeito com perna de pau, muito decidido, que subia a duras penas num grande olmo. O que levaria cinco minutos para um garoto lhe tomou cinquenta minutos; quando finalmente chegou a um galho desocupado, com o rosto coberto de suor, ele abriu um largo sorriso triunfal aos aplausos sonoros da multidão. Alguns momentos depois, o som das aclamações distantes anunciou que a rainha já estava à vista.

Como num anúncio, o sol apareceu quando a carruagem fechada de Vitória, revestida de aço, iniciou seu trote rápido pelas ruas. A polícia calculou 700 mil pessoas apinhadas nas ruas, esticando o pescoço para enxergar a figurinha minúscula. Ela resplandecia de autêntico orgulho pelo que Albert criara. Parecia uma cena de sonho; o calor no solo úmido criava

um vapor que conferia um ar de irrealidade ao espetáculo. 2 Finalmente, pensou ela enquanto observava as multidões abarrotando as ruas e ondulando em barquinhos ao longo do rio, seu marido teria o devido reconhecimento da Inglaterra por sua grande inteligência.

Entre o leve nevoeiro que se desfazia, o Palácio de Cristal cintilava ao sol, com bandeiras esvoaçando em todos os cantos do enorme edifício, construído com quase 93 mil metros quadrados de vidro. O Morning Post descreveu o edifício como um “estupendo rochedo de cristal, de uma beleza

que as palavras não são capazes de descrever”. 3 Quando Vitória entrou na enorme estrutura com Albert, as duas crianças mais velhas e a corte real, soaram cornetas, troaram canhões e o órgão tocou “God Save the Queen”. Vitória subiu ao trono provisório, uma poltrona indiana forrada com um rico tecido escarlate cercada de estátuas, um repuxo e tapetes de cores vivas. Ela se sentou muito ereta, juntou as mãos e fitou o marido com indisfarçada adoração.

A Grande Exposição de 1851 era o momento mais brilhante de seu reinado até aquele momento. Ao redor de Vitória, dezenas de milhares de pessoas lotavam os corredores da estrutura maravilhosa que fora construída em apenas sete meses por 2 mil operários. E tudo isso se devia a seu Albert, de pé, empertigado em seu uniforme vermelho e negro. Estava esgotado, mas ainda era lindo de se ver. Ela acordara naquela manhã e vira que ele estava deitado a seu lado, sem dormir, alerta e ansioso. O dia transcorreu sem nenhum deslize (exceto o entusiástico mandarim chinês que, depois de se prostrar diante da rainha, foi erroneamente tomado por diplomata e se juntou à comitiva oficial). Ficou para sempre na memória de Vitória como um conto de fadas:

 

A enorme aclamação, a alegria expressa em todas as faces, a imensidão do edifício, com todas as

suas decorações e objetos em exposição, o som do órgão (com duzentos instrumentos e seiscentas

vozes, que pareciam nada) e meu amado marido, o criador desse grande “Festival da Paz”,

convidando a indústria e a arte de todas as nações da Terra, tudo isso foi realmente emocionante,

um dia inesquecível.4

 

Para Vitória, agora Albert era mais do que um marido; era um “criador”, como uma divindade a ser reverenciada. Naquela tarde, o casal apareceu na sacada real do Palácio de Buckingham pela primeira vez. Inebriada com a atenção, Vitória sentia até dificuldade em expressar adequadamente o júbilo, o assombro maravilhado e a emoção do momento. “O caríssimo nome de Albert se imortalizou com essa grande concepção”, escreveu ela. “Foi o dia mais feliz, mais orgulhoso de minha vida, e não consigo pensar

em mais nada.”5 Num sóbrio contraste, Albert declarou que a inauguração

fora “muito satisfatória”.6 Era o ponto culminante de meses de trabalho. A estrutura inteira era um símbolo do progresso: um local de grande beleza onde a ciência e a criatividade se encontravam com a indústria. Talvez acima de tudo, era uma demonstração de unidade global, da glória do Império e da superioridade moral da Grã-Bretanha. Metade do espaço da exposição coube a países estrangeiros, para lhe dar um sabor internacional. Era a primeira vez que muitos cidadãos tomavam conhecimento das riquezas daqueles países distantes, da extensão e abundância do Império Britânico. Havia dezenas de globos expostos, mostrando as formas dos

continentes e os céus por cima.7 Um engenho mostrava o globo como um animal enrodilhado dentro de sua casca, cujo coração, ao bater, fazia as

marés dos oceanos avançarem e recuarem.8

 

Levaria pelo menos vinte dias ininterruptos para ver toda a exposição.9 Havia quatro setores: matérias-primas; máquinas; manufaturas; e escultura e belas-artes. Os objetos expostos eram extraordinários: dentes de cachalote, presas de elefante, esculturas de nus, equipamentos a gás, camisas sem botões para homens solteiros, colmeias de três andares, joias enormes, mobílias, fertilizantes, navalhas com trezentas lâminas, fontes jorrando perfume, meias xadrez incrustadas de diamantes, um piano dobrável, um piano duplo (Vitória achou “muito engraçado” ver duas pessoas tocando,

cada uma num dos lados do piano),10 flores feitas de cabelos humanos, champanhe de ruibarbo, um bolo que se esfarelava e se transformava em cerveja, bancos de jardim feitos de carvão, cadeiras flutuantes, uma charrete puxada por pipas de empinar (o charvolant), um púlpito com tubos que iam até bancos especiais da igreja, destinados a pessoas com problemas auditivos, e uma bengala oca para médicos, contendo clisteres. Os artigos americanos de maior sucesso foram uma colheitadeira, um revólver Colt, cadeiras reclináveis, uma cama dobrável que virava mala, um caixão fechado a vácuo para conservar o cadáver até a chegada dos parentes que morassem longe.

Foram usados os préstimos de policiais voluntários para a demonstração de um dos objetos de maior sucesso: um dispositivo, montado como um despertador, que inclinava a cama e derrubava o sujeito adormecido, de preferência na água gelada, segundo a sugestão do inventor. Havia um manequim de metal que mudava de tamanho para experimentar roupas. Havia também réplicas da rainha em zinco, cabelo e até sabonete, o que levou o economista Walter Bagehot a gracejar: “Deve ser divertido se lavar

consigo mesmo”. 11

Seis milhões de pessoas visitaram a exposição durante os cinco meses e meio em que esteve aberta. Muitas figuras ilustres de Londres estiveram lá. Nas palavras de Charlotte Brontë, era “imensa, estranha, inédita e impossível de descrever”. Parecia-lhe pura magia e era como se as multidões estivessem “subjugadas por uma influência invisível”. Entre a multidão de 30 mil pessoas, “não se ouvia nenhum barulho alto, não se via nenhum movimento irregular; a onda viva rolava silenciosamente, com um

zumbido surdo como o som do mar à distância”. 12 A esposa do romancista Anthony Trollope, Rose, expôs um biombo dobrável feito de tapeçaria e ficou encantada ao ganhar uma medalha de bronze em sua categoria. Os visitantes provinham de todas as classes e faziam piqueniques entre as colunas ou em volta das fontes. Para a felicidade de todos, pela primeira vez havia à disposição, a um pêni por pessoa, algo similar a um banheiro dispondo de vaso sanitário com descarga — os “monkey closets” ou “reservados”.

 

Desde menino, quando conhecera as feiras de Frankfurt, que existiam desde o século XVI, Albert pensava de vez em quando numa grande

exposição.13 A mesma ideia ocorrera a Henry Cole, um servidor público cheio de iniciativa, conhecido por ter criado o primeiro cartão de Natal e ter

ajudado a inventar o selo postal.14 Cole voltou de uma exposição em Paris em 1849 e trocou ideias com Albert, que era seu colega na Real Sociedade

das Artes (a qual presidia na época).15 Albert sugeriu que a feira fosse internacional, e assim ela teve início.

Para Albert, a exposição era um evento com firmes bases morais e

patrióticas.16 Em setembro de 1847, ele escrevera ao primeiro-ministro Lord John Russell: “A missão, o dever e o interesse da Inglaterra são se pôr

à frente da difusão da civilização e da realização da liberdade”.17 Reconhecia o nascimento de uma nova era e via a Inglaterra como o farol moral do mundo. Num discurso para conquistar o apoio público, durante um banquete na Mansion House em março de 1850, ele resumiu suas posições:

 

Estamos vivendo um período de extraordinária transição, que tende rapidamente a alcançar aquele

grande fim a que se dirige toda a história — a concretização da unidade da humanidade…

Senhores, a Exposição de 1851 nos servirá como verdadeiro teste e quadro vivo do grau de

desenvolvimento a que toda a humanidade chegou nessa grande tarefa, bem como um novo ponto a

partir do qual todas as nações poderão direcionar seus esforços subsequentes.18

 

Albert foi nomeado presidente da comissão real que supervisionava a exposição. O projeto da estrutura foi elaborado por um inesperado candidato: um jardineiro chamado Joseph Paxton. Ele havia feito o esboço de um grande palácio arqueado em vidro — baseando-se numa estufa que construíra na Chatsworth House em 1837, em parte inspirado em nenúfares — durante uma reunião do conselho ferroviário. Ao publicar o esboço em The Illustrated London News em 6 de julho, as reações foram entusiásticas (embora o crítico de arte John Ruskin dissesse que tinha “a forma de um

pepino entre duas chaminés”). 19 Foi rapidamente aceito: faltavam apenas dez meses para a abertura da exposição. Alguns levantaram objeções ao projeto ambicioso e inusitado. Teriam que cortar as árvores? Não se quebraria durante os temporais? Contrataram-se centenas de homens para ficar pisoteando com força o alto da estrutura; a conclusão foi que ela era sólida e segura. Por sugestão do duque de Wellington, levaram falcões para lá, a fim de afugentar os pardais do parque que poderiam emporcalhar o vidro; surpreendentemente, deu certo. A criação concluída, declarou Albert,

era “realmente uma obra de arte maravilhosa”.20

A oposição pública foi intensa. Os críticos vituperavam invocando aglomerações, crimes, barulheiras, pestilências, assassinatos, motins e revoluções. Os políticos diziam que o Palácio de Cristal atrairia e juntaria no parque socialistas, ladrões, batedores de carteira, vagabundos, prostitutas e estrangeiros de higiene duvidosa que poderiam deflagrar uma epidemia. Um parlamentar da ala mais dura dos tories falou que era “o maior rebotalho, a maior fraude e a maior imposição que já se tentou impingir ao

povo deste país”. 21 Outros diziam que o abastecimento de alimentos ficaria comprometido, o parque circundante se estragaria e as pratarias das casas adjacentes seriam roubadas. Havia o receio de que os católicos aproveitassem a ocasião para fazer proselitismo e as mulheres descuidassem

de seus afazeres domésticos.* Um parlamentar fez votos de que “caísse do céu um raio ou uma chuva de granizo” para impedir a realização do

evento.22

Albert trabalhou como um possesso para obter verba, o apoio do governo e a aprovação pública de seu projeto, refutando tudo o que lhe parecia falta de imaginação e forma de alimentar o medo. Começou a perder o sono e os acessos de reumatismo voltaram. Duas semanas antes da inauguração, escreveu à madrasta: “No momento, estou mais morto do que vivo por excesso de trabalho. Os adversários da exposição fazem de tudo para criar

pânico entre todas as mulheres e me deixar louco”.23 Mas persistiu, conseguindo apoio de avalistas. Em menos de dois anos, a estrutura estava pronta. O vice-presidente da Real Comissão escreveu que, sem Albert, “a

coisa toda se desmancharia”.24

 

Os corredores do edifício da exposição vibravam com os sons de bombas de pistão, os silvos de vapor saindo dos tubos, o barulho geral das máquinas. Havia máquinas para limpar sapatos, fiar algodão, dobrar papel, refinar açúcar, fazer envelopes, mexer chocolate, mandar telegramas, cortar pedras, fabricar medalhas, pregos e velas, moer trigo, extrair óleo de linhaça, enrolar e embrulhar cigarros, pesar ouro, gaseificar soda e até tirar sangue (com uma sanguessuga mecânica). Era um panorama grandioso e miraculoso, um prenúncio da Era da Máquina que se aproximava. Entre os milhões de pessoas que fitavam embasbacadas essas criações, pouquíssimas percebiam quanto esses mecanismos iriam transformar suas vidas nas

décadas seguintes.25

A rainha era uma das observadoras mais entusiásticas, visitando várias vezes o setor de máquinas e passando horas com guias que lhe mostravam como funcionavam os aparelhos. Era, escreveu ela, “extremamente interessante e instrutivo, e a pessoa se enche de admiração com a

grandiosidade da mente humana”.26 Sentiu-se especialmente encantada com as limpadoras de algodão.

Em 9 de julho, um guia lhe mostrou o telégrafo elétrico, que lhe pareceu “realmente maravilhoso”. A aplicação prática da ciência, que lhe parecia abstrata e pouco inspiradora antes de conhecer Albert, agora era fascinante. Ele lhe despertara um entusiasmo inédito e genuíno sobre as potencialidades técnicas do conhecimento. A confiante capacidade de Albert de aplicar a teoria ao cotidiano e de conceber um futuro inacreditável nunca deixava de impressioná-la. Por trás do assobio das máquinas era possível ouvir as batidas suaves em staccato e o repique intermitente de centenas de relógios — de madeira, à prova d’água, de cronometragem — marcando a aceleração do tempo que se iniciara com a Revolução Industrial, um século antes. A Inglaterra ingressara na segunda metade do século XIX, e a exposição era o que melhor definia a energia crescente, a criatividade e a inventividade da Era Vitoriana. Em cinco meses e meio, a rainha Vitória esteve quarenta vezes na exposição.

 

Nem tudo era tão fantástico. Comerciantes e atores locais se queixavam amargamente de que o movimento tinha caído muito. Charles Dickens achou tudo aquilo uma tremenda confusão. Ele participara por curto tempo do Comitê Central das Classes Trabalhadoras para a Grande Exposição, encarregado de incluir e atender às necessidades dos trabalhadores, mas depois de quatro meses — por instâncias de Dickens — o comitê se desfez. Pareceu-lhe uma tarefa impossível. Irritara-se com a ideia de que aquele ano se consagrasse como um período de imenso sucesso e esplendor, quando tanta gente vivia na miséria. No começo de 1851, Dickens sugeriu em Household Words que se montasse uma segunda exposição, com os

“pecados e omissões da Inglaterra”.27 Quando finalmente esteve no Palácio de Cristal, falou que era um “enorme engodo”. Escreveu em julho de 1851:

 

Acho que a exposição “acabou” comigo. Não digo que “lá não tem nada” — tem demais. Fui

apenas duas vezes. Muitas coisas me espantaram. Tenho um horror inato a espetáculos, o qual não

diminuiu com a fusão de tantos espetáculos num só. Fico com a impressão de que a única coisa

que vi foi o repuxo e talvez o Amazonas. É horrível ser obrigado a ser falso, mas, quando alguém

pergunta “Você viu?”, respondo “Vi”, pois do contrário a pessoa vai explicar — e isso não daria

para aguentar.28

 

Thomas Carlyle também torceu o nariz. A única coisa que lhe agradou foi

a estrutura em si, referindo-se a ela como uma “Gaiola Gigantesca”,29 uma

“grande Bolha de Sabão de Vidro”30 e “a casa mais bonita, imagino eu, já

construída no mundo”. 31 O resto ele desdenhou, dizendo que era a

“Exhibition of Winddustry”, uma exposição de meras coisas à toa.32

Apesar das boas intenções de Albert, seu ar distante, o trabalho incessante e as ideias elevadas incomodavam muitos aristocratas. Lady Lyttelton comentou incisiva que a exposição só iria “aumentar o desprezo de toda a sociedade fina pelo príncipe”. Segundo Llewellyn Woodward, ele tinha

“algo de pedante”.33 A simpatia e o humor de Albert não transpareciam em público e ele podia parecer canhestro e sem tato. Por isso tantos se surpreendiam ao conhecê-lo pessoalmente. Quando Carlyle encontrou Albert no Castelo de Windsor em 1854, impressionou-se na hora, descrevendo-o como um “jovem cavalheiro bem-apessoado, muito alegre… Era a própria cortesia encarnada, e com uma simplicidade elegante: e sensato, além disso”. Conversaram longamente sobre arte, Martinho Lutero e genealogia saxã. Albert ficava extremamente à vontade na companhia de pessoas como Carlyle: intelectuais, cientistas e artistas, que visitava regularmente em seus estúdios e gabinetes — quase à vontade demais, murmuravam alguns aristocratas.

Ainda no começo dos trinta anos, o poderoso casal confiava na melhoria

de sua imagem pública em 1851. 34 Na semana inaugural da exposição, os jornais enalteceram a superioridade da Grã-Bretanha, que ficava evidente no bom comportamento das multidões, na devoção à monarca e nas invenções nacionais. Os superlativos abundavam: a exposição era maior do que as pirâmides, declarou o Bristol Mercury. Albert se demonstrara “não

um estrangeiro” e sim um verdadeiro britânico, “nativo e de berço”.35 Vitória tinha certeza de que a exposição lançara uma espécie de sortilégio sobre Londres e exultou quando Lord Aberdeen lhe disse que até no Parlamento as coisas corriam bem por causa disso. Ela passou o resto da vida preservando e afagando esse momento.

 

Enquanto o mastodonte de vidro no Hyde Park mostrava a maravilhosa vastidão do globo, uma mulher chamada Florence Nightingale se sentia oprimida com a estreiteza de seu mundo. Ao contrário de Vitória, ela se via limitada pelas expectativas de classe média em relação às mulheres e, apesar de sua viva inteligência, não podia fazer o que queria. Nightingale, que sonhava em ser enfermeira, estava presa em conflitos agudos com a família, que queria que ela ficasse em casa. A irmã mais velha tinha acessos histéricos sempre que Nightingale viajava para outro país, a fim de visitar conventos e hospitais. A mãe desdenhava seus sonhos, que considerava tolices e loucas ambições. Nightingale se sentia amarrada pela convenção e pela insensibilidade social e rogava à família que a deixasse “seguir os

ditames daquele espírito interior”.36 Entrou em depressão, ficando longos dias na cama, negando-se a comer, pensando em suicídio. Passava os dias sonhando com uma vida em que pudesse usar sua inteligência e as noites desejando a morte: deitar-se após passar o dia em casa, escreveu ela, era como ir para o túmulo.

Em 1852, Nightingale escreveu um ensaio de notável antevisão, inicialmente concebido como romance, chamado Cassandra. O título provinha do nome da bela deusa grega de cabelos ruivos, que tinha o dom da profecia mas foi amaldiçoada por Apolo após rechaçar suas investidas. Assim, embora anunciasse a verdade, ninguém acreditava em seus avisos. Quando moça, Cassandra queria se dedicar a ajudar os outros e usar sua inteligência, como faziam os homens. Cassandra, evidentemente, era Florence Nightingale. Ela escreveu:

 

Por que as mulheres têm paixão, intelecto, atividade moral e um lugar na sociedade em que não

podem exercer nenhum dos três?… Ora, por que tecer lã e sair todo dia de carruagem é mais

ridículo para um homem do que uma mulher? Por que riríamos se víssemos de manhã um grupo de

homens sentado em volta de uma mesa na sala de estar, e acharíamos normal se fossem mulheres?

O tempo do homem é mais valioso do que o da mulher?… As próprias mulheres aceitam essa

situação, escrevem livros dando apoio a isso e aprenderam a considerar qualquer atividade que

façam desprovida desse valor para o mundo ou para os outros.37

 

Esse ensaio, escrito durante a exposição, é um enérgico lembrete de que as ambições de Vitória haviam desaparecido por trás das visões muito mais luminosas e elevadas do marido. Nightingale escreveu: “Por trás do destino dele, a mulher precisa se anular, ser apenas seu complemento. Uma mulher se dedica à vocação do marido… Mas, se ela tem algum destino, alguma

vocação própria, precisa renunciar a tal em nove entre dez casos”. 38 “Despertem”, exclamava, “vocês mulheres, todas vocês despertem desse

sono!”39 Tais palavras poderiam se aplicar diretamente a Vitória. Mas a natureza da própria função de rainha significava que, em larga medida, ela estava dispensada das preocupações domésticas; ela sonhava não com uma vida pública, como Florence Nightingale, e sim com a vida privada. Seu diário mostra como a política se entrelaçava intimamente com seu cotidiano, quão consciente estava de seu trabalho, a meticulosidade com que procurava se informar. Preocupava-se desesperadamente com o país. Suas ambições políticas pessoais estavam sendo sepultadas aos poucos sob o peso da devoção conjugal e do esgotamento materno, mas sua grande paixão continuava intacta. A paixão de Florence Nightingale era usar sua

inteligência e cuidar dos doentes. A da rainha Vitória era Albert.40

Porém, o casamento com Albert a levara a pensar que a função de governar era para os homens, que o poder era, talvez, intrinsecamente masculino. Para adotar tal concepção, ela teve que sufocar seus próprios instintos. Mas, quanto mais se dedicava a Albert, mais temia uma incompatibilidade fundamental entre ser boa esposa e ser boa dirigente. As “mulheres de bem” da época nem sequer trabalhavam, que dirá possuírem imenso poder. Quando Vitória se entediava com seu trabalho ou quando Albert demonstrava maior habilidade natural, ela atribuía isso a seu sexo — que outra explicação poderia haver? Como disse ao tio Leopoldo em 3 de fevereiro de 1852, Albert “gosta cada dia mais de política e de negócios e é tão maravilhosamente talhado para ambos — tanta perspicácia e tanta

coragem — e eu cada dia gosto menos e menos deles”.41 Não era apenas ela: “Nós, mulheres, não somos feitas para governar. E se somos boas mulheres, devemos desgostar dessas atividades masculinas; mas há momentos que nos forçam a ter interesse por elas mal gre bon gre [sic; “queiramos ou não”], e eu também, claro, intensamente”. Levaria décadas até que Vitória parasse de fingir que, para ser boa mulher, era preciso desdenhar o poder. Ela não cedia com facilidade a ninguém, mas só se sentiu plenamente à vontade reinando sobre um Império quando não tinha marido.

 

Em 27 de junho de 1850, Vitória foi agredida por um súdito. Estava a caminho de visitar o duque de Cambridge quando um homenzinho pálido, chamado Robert Pate, saiu da multidão que rodeava a carruagem, e Vitória se sentiu “violentamente empurrada por um golpe para a esquerda da carruagem”. Ele lhe batera no rosto com uma bengala revestida de cobre. Seu toucado se afundou e a ponteira de metal lhe feriu a testa e deixou um vergão vermelho (a marca permaneceu por muitos anos). Vitória ficou furiosa:

Certamente é muito duro e horrível que eu, uma mulher — uma jovem indefesa e rodeada por

meus filhos, esteja exposta a insultos de tal espécie e não possa sair em paz para um passeio. Esta

é, de longe, a coisa mais sórdida e covarde que já foi praticada; pois um homem bater em qualquer

mulher é extremamente brutal e eu, bem como todas as pessoas, penso que isso é muito pior do que

um atentado a tiros, o que, por malévolo que seja, pelo menos é mais compreensível e mais

corajoso. As Crianças ficaram muito chocadas, e o pobre Bertie ficou muito vermelho na hora. Foi

a segunda vez que Alice e Affie presenciaram tal fato.42

 

Era “como um sonho horrendo”. Pate, ex-oficial do Exército britânico, cujos advogados alegaram que ele havia perdido a razão por um instante, foi degredado para a Tasmânia, mas Vitória nunca esqueceu o episódio. Meio século depois, em 1899, quando uma casa de leilões tentou vender a famosa bengala de metal, receberam de Osborne uma carta peremptória e

retiraram a bengala do leilão.43

Em abril de 1853, quando Vitória deu à luz mais um filho, uma criança frágil a quem deu o nome de Leopoldo, durante o parto ela usou clorofórmio pela primeira vez. (Ela não tivera tanta sorte quando Arthur nasceu, três anos antes.) Dr. Simpson, um anestesista, foi chamado de Edimburgo para vir ministrá-lo. Embebeu um lenço num pouco de clorofórmio e o inseriu num funil por onde a rainha podia inalar os vapores. Vitória anotou no diário: “O efeito foi tranquilizador, calmante e

indescritivelmente prazeroso”. 44 O exemplo de Vitória incentivou uma geração de mulheres a experimentar durante o parto o primeiro analgésico disponível na época. Com isso, deixavam de lado as objeções de médicos que sugeriam que o clorofórmio podia despertar a excitação sexual das mulheres, que então tentariam seduzi-los durante o parto, e de sacerdotes que insistiam na perversidade de tentar escapar às consequências do pecado original. Era um pequeno passo na longa marcha das mulheres durante o século seguinte para tentar obter o controle sobre o próprio corpo. Milhares de mães aliviadas em toda a Inglaterra seguiram o exemplo da rainha. A primeira paciente do dr. Simpson, em 1847, ficou emocionada: o bebê ganhou o apelido de Anestesia.

Antes que a exposição se encerrasse, em outubro de 1851, e fosse transferida do Hyde Park para Sydenham, onde permaneceu até 1936, quando foi destruída por um incêndio, ela rendera um lucro de quase 200

mil libras.45 Albert planejava investir o dinheiro em quatro instituições para abrigar matérias-primas, máquinas, manufaturas e artes num terreno perto do Palácio de Cristal. Foi desse projeto que nasceu o conjunto de museus em South Kensington, incluindo o Victoria and Albert Museum, o Albert Hall, o Museu de História Natural, o Imperial College e o Royal College of Music. Albert terminou o ano de 1851 com um raro sentimento de realização e pleno êxito, escrevendo ao irmão: “Não posso me queixar do ano passado. A Grande Exposição, que me deu tanto trabalho e preocupação, terminou de modo espantosamente satisfatório”.

O príncipe consorte estava contente, mas perigosamente extenuado com a tensão de cuidar da exposição, e também com as disputas com Palmerston. As fotos mostram um homem com as faces caídas, a cintura maior e um olhar mortiço, longe do jovem esbelto e vivaz de dez anos antes, quando se casara com Vitória. Nunca deixara de trabalhar e a família lhe demandava tempo e lhe causava preocupações. Vitória e Albert se inquietavam constantemente com o primogênito, Bertie. Procuravam impor uma educação rigorosa, compatível com as expectativas para um futuro rei, mas Bertie tinha acessos de raiva — “surtos de fúria primitiva”, como disse o bibliotecário de Albert. Vitória também se afligia com o bebê Leopoldo, que era magrinho e não crescia. Levou algum tempo até perceberem que ele tinha hemofilia (nesse caso, hemofilia B, transmitida por homens afetados ou por mulheres assintomáticas). Três filhas de Vitória iriam transmitir o gene, com consequências calamitosas para as Casas Reais da Europa, especialmente para a Rússia no começo do século XX.

Passados dez anos, os atritos no casamento de Vitória e Albert começaram a transparecer. As diferenças de temperamento ficam óbvias nas cartas ponderadas que Albert redigia após as divergências entre ambos, insistindo que Vitória se mostrasse racional. Com seu gênio explosivo, Vitória começava a se irritar com o preço que os partos lhe custavam — em 1853, já dera à luz oito filhos — e com o fato de Albert estar isento desse fardo. Esbravejava e se enfurecia, exigindo ser ouvida, seguindo-o se ele deixasse o aposento. Albert lhe recomendava que se controlasse e conversasse com Deus. Em maio de 1853, não muito tempo depois do nascimento de Leopoldo, ele iniciou uma longa carta com “Querida Criança”, insistindo com a esposa para “considerar calmamente os fatos em questão”. Ela tinha explodido por causa de uma pequena divergência e Albert lhe relembrou que não fora ele o causador de sua infelicidade, tendo apenas servido de

faísca, pois ela vinha “amontoando com imprudência uma pilha de lenha”.46 Não podia ajudá-la pois, se analisasse as reclamações da esposa, ela se zangava; se as ignorasse, sentia-se ofendida; se saísse do aposento, ela seguia em seu encalço.

Albert, trabalhador analítico incansável, tinha dificuldade em entender as ondas hormonais liberadas pelo parto, e ficava desconcertado com o que lhe parecia ser um comportamento irracional da esposa (como disse a ela certa vez, “uma longa cadeia de raciocínio solidamente concatenada é como uma

bela composição musical”).47 Não conseguia entender quando o nervosismo dela brotava de algo mais profundo. Vitória, que registrava no diário sua gratidão pelo “incansável amor, ternura e atenção” de Albert, às vezes

chorava de frustração ao ler as austeras recomendações do marido. 48 Suas necessidades eram muito mais simples do que ele reconhecia e Vitória se ressentia das admoestações.

Encontra-se um sinal do grande problema na comunicação entre ambos numa carta que Albert lhe escreveu em fevereiro de 1855: “O que faço eu exceto, no máximo, não a ouvir por tempo suficiente quando tenho assuntos

a tratar em outro lugar?”.49 Vitória só queria ser ouvida e abraçada. Mas ainda era, de modo geral, um casamento feliz e de mútuo apoio. Comiam juntos, caminhavam juntos, falavam durante horas, dividiam tudo. Nas estadas na Escócia, enquanto Albert caçava veados, Vitória desenhava com giz ou nanquim, Seus diários estão cheios de descrições exuberantes de dias alegres, lindos céus, paisagens montanhosas indescritivelmente belas: picos, bosques, crepúsculos. Era lá que eram mais felizes. A cada vez que iam embora, a sentimental Vitória imitava a esposa de Lot, olhando tristemente para trás.

* O Punch publicou uma charge em que um homem ouve horrorizado a criada explicar que a esposa dele está no Palácio de Cristal e ficará lá até a hora do chá. O título era “O Terrível Resultado de Dar um Bilhete de Temporada para Sua Esposa”. (Em outra charge, “mamãe” sumiu — escapando disfarçadamente para um local afastado, junto com um bonitão.)