Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 23 de 44

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Vitória, a rainha

20. “Não há ninguém para me chamar de Vitória agora”

20. “Não há ninguém para me

 

chamar de Vitória agora”

 

Temo pela rainha.

CHARLES GREVILLE, 14 DE DEZEMBRO DE 18611

 

Bertie pôs a cabeça pela janela e observou a área do acampamento militar de Curragh. O último toque de recolher soara horas antes, à sua hora habitual, às nove e meia da noite. Saiu de seus alojamentos na caserna, passou depressa por duas pequenas barracas e pelas sentinelas, que não o viram. Andando na escuridão, encontrou a barraca que procurava e enfiou a cabeça pela porta. Lá dentro estava a voluptuosa atriz irlandesa Nellie Clifden, aguardando. Tinha sido introduzida sorrateiramente no acampamento pelos amigos de Bertie, como presente pelo aniversário de dezenove anos do príncipe de Gales.

As “mulheres despachadas” se tornavam cada vez mais comuns nos anos 1860, década de decidido avanço, embora agora esquecido, na emancipação feminina. Grande número de mulheres solteiras começava a se rebelar,

fumando, flertando, relacionando-se livremente com homens solteiros. 2 Os livros da época vêm repletos de reclamações sobre a permissividade das gerações mais jovens. Algumas moças até adotavam o termo “despachadas”, o que era um espanto para a sociedade elegante. Um romancista escreveu: “Ah, que uma jovem britânica não corasse, muito pelo contrário, sem o menor sentimento de vergonha até se jactasse de tal título!

Mas assim é, no ano de 1861”.3 Mesmo em 1868, viajando pela Suíça, Vitória notou entre a multidão reunida para vê-la “jovens damas inglesas independentes, espécimes da atual e tão criticável ‘jovem despachada’”. E

acrescentou: “Algumas eram, sem dúvida, americanas”.4

A bela Nellie Clifden geralmente é descrita como mulher de “virtude fácil”. Bertie tinha se encantado com seu mundo do teatro, tão diferente da corte real de costumes rígidos. Adorava a emoção das coisas proibidas quando estava com ela e com a diversão nos cabarés, onde sua condição de herdeiro não tinha igual. Bertie bebia, fumava, derramava uísque na cabeça dos sicofantas, flertava com as mulheres. Riam de suas piadas, atendiam a seus desejos e — o melhor de tudo — seus pais não estavam lá. Fumando seu cachimbo preto, escrevia sobre Nellie em sua agenda de compromissos, em código.

 

6 set. Curragh — N.C. 1ª vez

9 set. Curragh — N.C. 2ª vez

10 set. Curragh — N.C. 3ª vez5

 

O primogênito do devoto e brilhante Albert crescera com a lembrança diária de que, de alguma maneira, decepcionava os pais e nunca preencheria suas expectativas. A disciplina teutônica, a agenda regulamentada e as rigorosas instruções morais de Albert não conseguiram mudar o filho. Embora fosse um rapaz gentil e divertido, o caso do “pobre Bertie”, como o chamava Vitória, era sempre desapontador. Seguia uma estafante programação de ensino de sete dias por semana, que não conseguia lhe incutir gosto pelo aprendizado. O pai concluiu que lhe faltava capacidade de concentração, com um intelecto “de tanta utilidade quanto uma pistola

guardada no fundo de um baú” — inútil.6

Mesmo as farras secretas de Bertie em Curragh, no verão de 1861, se davam sob a égide do fracasso. Albert determinara que Bertie “seria submetido a um curso de treinamento de dez semanas na infantaria, sob a disciplina mais rigorosa que fosse possível conceber, no Acampamento

Curragh perto de Dublin”, para que criasse um pouco de fibra e disciplina. 7 Bertie não se saiu bem, e o oficial que era seu superior disse aos pais, no final do curso, que ele não seria capaz de comandar um batalhão. Vitória e Albert foram visitar o acampamento irlandês, observando o filho enquanto fazia os exercícios de treino e desempenhava mediocremente um papel secundário (embora Vitória tenha considerado que ele ficava muito bonito de uniforme). A visita deixou Albert abatido. Seu filho algum dia serviria para alguma coisa? Que espécie de rei se tornaria? A ironia era inegável: Bertie teria o título que Albert sempre ambicionara, mas sem o merecer. O casal lamentava que o primogênito tivesse saído mais à mãe do que ao pai. Bertie era a “caricatura” de Vitória, o que, deplorava ela, num homem

ficava muito pior.8 Vitória, quando menina, talvez tivesse tido mais interesse do que Bertie em ler e aprender, mas ambos tinham a mesma volatilidade, o mesmo gênio estourado e o mesmo gosto pela diversão.

O que Albert e Vitória não percebiam era que o filho poderia representar o trono não pelo intelecto, e sim pelo ânimo bem-disposto. A viagem de Bertie ao Canadá e à América em 1860, a primeira de um herdeiro da Coroa britânica, foi um tremendo sucesso. No Canadá, o rapaz de dezoito anos inaugurou pontes, dançou com grande energia e até concordou em conduzir um acrobata francês num carrinho de mão pelas Cataratas do Niágara, no que, porém, foi impedido por seus guarda-costas. Tinha imensa popularidade nos Estados Unidos, para onde ia incógnito entre seus compromissos. Em Nova York, foi ovacionado de pé, e o piso de um salão de baile cedeu sob o peso da multidão que se reunira para vê-lo. Os jornais americanos também noticiaram seus flertes explícitos com as moças,

“sussurrando ninharias melosas”. 9 A rainha aprovou por curto tempo e Bertie, ao voltar, lhe pareceu muito conversador. Ela atribuiu a acolhida entusiástica na América como resultado “principalmente do apreço (para

mim incrível) que sentem por meu indigno ser”.10 O próximo rei da Inglaterra estava destinado a ser um rebelde durante décadas.

O príncipe Albert ficou sabendo dos rumores sobre a relação do filho com a atriz Nellie Clifden inicialmente por intermédio do barão Stockmar, então na Alemanha, que vira o caso nos jornais europeus. O falatório circulava fazia semanas pelos clubes e cabarés londrinos. O veio hanoveriano subterrâneo que Albert temia no filho agora aflorava em público; parecia provável a repetição do constrangimento que os tios de Vitória tinham criado para a monarquia. Albert passou mal fisicamente e o estômago ardia de dor. A permissividade sexual era o calcanhar de aquiles psicológico de Albert: sua família fora destruída pela infidelidade conjugal, e seu único irmão contraíra sífilis. Albert era incapaz de ver os encontros amorosos como coisas casuais, inevitáveis ou sem importância; para ele, traziam necessariamente os germes da destruição. No século XIX, esse tipo de relação podia significar não apenas escândalo, mas também doença, gravidez, ações judiciais e ruína financeira.

Em 16 de novembro, quatro dias depois de ser informado por Stockmar sobre os boatos, Albert se sentou para escrever ao filho. Foi uma carta especialmente ríspida, ainda mais porque não era raro que os aristocratas se envolvessem com mulheres antes de se casarem. A carta começava: “Escrevo-lhe com o coração pesado sobre um assunto que me causou a maior dor que já senti na vida”, a descoberta de que seu filho, um príncipe,

“se afundou no vício e na devassidão”.11 Bertie sempre parecera ignorante e fraco, escreveu ele, mas “depravado” era uma nova sordidez. O pai o advertiu sobre as terríveis perspectivas: essa “mulher da cidade” podia engravidar — e levá-lo às barras do tribunal, se ele não reconhecesse a criança. Ela poderia apresentar “detalhes repugnantes de sua depravação” e o próprio Bertie poderia ser interrogado, atacado e humilhado. Bertie, com sentimento de culpa e vergonha, pediu perdão. Albert lhe disse que nada poderia restaurar sua inocência. Vitória sentia a mesma repulsa do marido: “Ah, aquele menino! Por mais pena que eu sinta por ele, nunca conseguirei olhá-lo sem estremecer”.

Estava decidido: Bertie tinha que se casar. Vicky passara meses folheando o almanaque de princesas europeias disponíveis e aceitáveis, procurando uma noiva apropriada para o irmão mais jovem. Detivera-se na princesa Alexandra da Dinamarca, que faria dezessete anos em dezembro de 1861, por causa de sua beleza, das maneiras aristocráticas, mas não afetadas, e pelo gênio bondoso. Ficou combinado que se encontrariam casualmente numa catedral alemã em 1861, numa visita turística. Vicky se encantara com Alexandra — ou Alix — e achava que, se Bertie não se apaixonasse por ela, não se apaixonaria por ninguém. Bertie gostou dela, mas não tinha nenhuma pressa em se casar. Vitória, frustrada, se perguntava se ele era

“capaz de se entusiasmar com qualquer coisa neste mundo”.12 O único contratempo sério era o país natal de Alix. Uma das principais disputas políticas dos anos 1860 se dera entre a Alemanha — ou Prússia — e a Dinamarca por causa dos ducados de Schleswig-Holstein. Os alemães queriam obter o controle dos ducados majoritariamente dinamarqueses, a fim de ganhar acesso ao mar do Norte; Holstein fazia parte da Alemanha e Schleswig era de maioria dinamarquesa, mas alinhada com Holstein. Assim, era difícil uma aliança do herdeiro do trono britânico com o inimigo da Prússia; o príncipe Albert, porém, declarou que Bertie ia se casar com a princesa — não com o país. A união não seria uma “vitória da

Dinamarca”. 13 O tempo era curto, pois a bela Alexandra tinha outros pretendentes.

Albert estava doente e andava insone, perseguido pelas visões de um futuro devasso para o filho. Resolveu visitar Bertie em novembro, em Cambridge, onde estava estudando, e saíram para uma longa caminhada sob a chuva. Os remorsos de Bertie eram genuínos e Albert, no final, encharcado até os ossos, perdoou-o pelo escândalo com Nellie Clifden. Enquanto Vitória passeava pela floresta, rezava para que o marido fatigado conseguisse dormir naquela noite.

Não seria justo culpar Bertie pela insônia de Albert. O príncipe consorte estava com 42 anos, mas tinha a saúde frágil de um homem muito mais idoso. Trabalhava furiosamente e, à medida que mergulhava cada vez mais fundo em suas tarefas de Sísifo — comitês, compromissos, assuntos de Estado —, ficava mais e mais irritadiço, perdendo a paciência com Vitória com frequência sempre maior. Ela reclamou com Vicky que ele era “muito exasperante com enorme frequência — em sua pressa e amor excessivo

pelos negócios”.14 Era seu papel, como sempre, animá-lo. Vitória sempre foi muito mais alegre do que Albert, mas se sentia cada vez mais frustrada com ele. Não conseguia penetrar na nuvem negra que agora o cercava.

O príncipe consorte, mais do que qualquer outra coisa, estava solitário. Sentia-se isolado na corte e não tinha amigos íntimos com os quais pudesse se abrir. Perdera Anson e Robert Peel, e o velho Stockmar se mudara para a Alemanha. Ficou profundamente mortificado quando soube que seu primo, o jovem rei Pedro de Portugal, morrera de febre tifoide aos 24 anos de idade. Tinha o bom e diligente Pedro na conta de um filho — o filho que gostaria que Bertie fosse. Também estava solitário no casamento. Como disse a Stockmar, “muitas tempestades” haviam “varrido” sua relação com

Vitória.15 Por mais que ela tentasse, não conseguia conversar demoradamente sobre os assuntos que mais o afligiam. Espiritualmente, combinavam; intelectualmente, não. Vitória sabia disso, e mais tarde escreveu que muitas vezes rezara “para ser uma companhia mais adequada para ele”. Stockmar era a única pessoa com quem podia falar sem

reservas.16

A constituição de Albert sempre fora frágil. Quando menino, segundo seu

velho tutor Florschütz, ele “nunca [foi] muito robusto”. 17 Seu irmão Ernest comentou que seu “crescimento físico não acompanhava o rápido desenvolvimento de suas admiráveis capacidades mentais; ele precisava de

proteção”.18 Nunca foi um adulto muito saudável, como se esperava, e seus problemas de estômago eram fonte constante de queixas. E nenhum de seus palácios era especialmente confortável. Vivia tremendo, em parte devido à insistência de Vitória em manter o ambiente frio; ela achava que o ar quente causava resfriados e estragava a pele da pessoa. Os dois acreditavam que duchas geladas e banhos fortificantes eram bons para o sistema de imunidade do corpo. (Albert brincava com Vicky, dizendo que a mãe dela ficaria muito aborrecida se acordasse e descobrisse que ele tinha acendido a lareira naquela hora matinal que reservava para si, para trabalhar, escrever e

se aquecer.) 19

Logo a depressão de Albert se transformou em passividade e, depois, em fatalismo. Entretinha-se com a ideia de morrer. Homem de sólida fé cristã, no final de 1861 disse a Vitória que não lutaria contra a morte, quando ela chegasse. Se fosse acometido por uma doença grave, iria se submeter a ela: “Não me prendo à vida. Você, sim; mas eu não dou valor a ela. Se eu soubesse que meus entes amados estão bem atendidos, estaria plenamente

pronto para morrer amanhã”.20

Quando voltou de Cambridge para Windsor, Albert estava doente, com nevralgia nas costas e nas pernas. Vitória pôs a culpa em Bertie e deu a entender a Vicky que estava com “um grande pesar e preocupação”, que “transtornou muito a nós dois — mas principalmente a ele — e o deixou

muito abalado”. Nunca o vira “tão abatido”.21 Albert também comentou com Vicky que estava numa “maré muito baixa”. Quando foi assistir às manobras dos voluntários de Eton, era um dia quente, mas Albert tremia em seu casaco forrado de peles; tinha a sensação de água gelada lhe correndo

pela espinha. 22

Naquele final de semana de 30 de novembro de 1861, Albert redigiu o documento mais importante de sua carreira. Havia estourado a Guerra Civil americana, logo após a posse de Abraham Lincoln como presidente. Em 19 de abril de 1861, a União decretou um bloqueio naval para impedir a entrada e a saída de qualquer produto ou equipamento — especialmente armas — nos Estados Confederados do Sul. Em 13 de maio, a rainha Vitória emitiu uma declaração de neutralidade, proibindo que os súditos britânicos se juntassem a qualquer dos lados. Então, em 8 de novembro — quando Albert se preparava para sair na chuva em Sandhurst —, um navio britânico chamado Trent, transportando malas postais, foi interceptado pelo USS San Jacinto no canal das Bahamas, perto de Cuba. Dois homens a bordo, diplomatas confederados com destino à Europa, foram capturados e retirados do Trent.

Os ianques estavam furiosos que o Trent, de propriedade britânica, estivesse transportando confederados, embora Lincoln não quisesse correr o risco de uma guerra por causa desse episódio. O público britânico também se enfureceu com o insulto à sua neutralidade e liberdade de movimento.

“Tolere-se isso, tolera-se tudo!”,* bradavam; esse ato de provocação certamente teria de levar à guerra. Vitória escreveu a Vicky: “O grande acontecimento do dia, que absorve a todos, é a ofensa americana! Que

bandidos!”. 23 O gabinete deliberou que era uma violação brutal do direito internacional. O ministro de Relações Exteriores redigiu o rascunho de um ofício ao embaixador britânico em Washington, com uma série de exigências em termos duros. Foi enviado ao Castelo de Windsor em 29 de novembro.

Albert, debilitado, levantou-se às sete da manhã de 30 de novembro, depois de uma noite insone, para redigir uma resposta. Sua preocupação era que o tom curto e grosso da mensagem do ministro ofendesse a União, na prática obrigando a Grã-Bretanha a entrar em guerra com os Estados

Unidos. Vitória era da mesma opinião. 24 Embrulhando-se no robe de veludo e pondo um chinó na cabeça para se aquecer, Albert atenuou as exigências, empregando uma linguagem muito mais diplomática, e ofereceu ao governo Lincoln uma saída sugerindo que os britânicos supunham que o San Jacinto devia ter agido sem o conhecimento e aprovação da União:

 

O governo dos Estados Unidos certamente tem plena consciência de que o governo britânico não

permitiria que se insultasse sua bandeira nem que se pusesse em risco a segurança de suas

comunicações postais, e o governo de Sua Majestade reluta em acreditar que o governo dos

Estados Unidos pretendesse deliberadamente insultar este país e aumentar seus vários problemas

penosos impondo-nos uma questão contenciosa, e assim contentamo-nos em crer que, após uma

plena avaliação das circunstâncias e da incontestável transgressão do direito internacional

cometida, oferecerão espontaneamente a única reparação que satisfaria a este país, a saber, a

entrega dos desventurados passageiros e um pedido de desculpas adequado.25

 

Albert, muito cansado, levou o texto a Vitória, dizendo: “Mal conseguia segurar a pena”. Foi o último memorando que ele redigiu.

Depois de fazer algumas correções, Vitória o enviou aos ministros. As emendas foram unanimemente aprovadas e a versão final seguiu de perto as sugestões de Albert. (Lord Palmerston, que estava por vários dias perambulando pelos corredores do Castelo de Windsor, apoiado em sua bengala, insistindo que Albert precisava ter um tratamento médico melhor, ficou especialmente satisfeito com a resposta.) Os confederados foram libertados. Embora o governo de Lincoln não tenha apresentado nenhum pedido formal de desculpas, veio a condenar as ações do San Jacinto. Assim se evitou a guerra com a América.

 

Na segunda-feira, dia 2 de dezembro, somente o uso de opiáceos conseguia dar algum alívio a Albert, que estava letárgico. Vitória nunca o

vira tão doente e ficou “terrivelmente nervosa e aflita”.26 Em 4 de dezembro, enquanto Albert ia e vinha entre o quarto de dormir e o de se vestir, tentando descansar, o público recebia a primeira notícia de sua doença, descrita como um “resfriado com febre”. A rainha ficava feliz quando Albert conseguia dormir mesmo que fosse apenas por uma hora. Há quem suponha que dr. James Clark decidiu ocultar a gravidade da situação à família real, para poupar preocupações, mas ele também era claramente incompetente. Não solicitou ajuda de outros médicos, e tinha a infeliz tendência de anunciar uma recuperação iminente logo antes de uma grave piora. Mais tarde, Lord Clarendon comentou que os médicos de lá “não

[eram] capazes de cuidar de um gato doente”.27

Em 6 de dezembro, Vitória acordou às três da manhã para ver como estava Albert, que não sorriu nem a reconheceu quando ela se aproximou. Depois, observando-o enquanto tomava chá e comia duas torradas, Vitória não conseguiu afastar a sensação de que o marido estava em outro lugar:

“Às vezes, ele tem um estranho olhar desvairado”. 28 Mais tarde ele pareceu se recuperar, conseguindo se sentar e falar, ainda fraco, mas com o pulso mais forte. Inclusive pediu para ver as plantas da casa em que Alice ia morar com o noivo, Louis, o futuro grão-duque de Hesse. Vitória estava ficando tão ansiosa que muitas vezes pedia ao dr. Jenner que a examinasse depois de atender a Albert. Alice, de dezoito anos, que demonstrou força, paciência e notável maturidade durante esse período, passava horas lendo para o pai, sentada a seu lado.

Em 7 de dezembro, Albert se mostrava desconexo, repetindo frases como

“Sou tão tolo”.29 Vitória ficava sentada imóvel na cama, em seu próprio quarto, sentindo como “se meu coração fosse se partir”. Continuou num “suspense angustiante” até que os médicos chegaram e lhe disseram que enfim tinham diagnosticado o problema: era febre gástrica e intestinal, que normalmente levava um mês para passar. Vitória estava consumida por suas próprias necessidades e pensava sem parar no horror que seria se ver

privada do marido.30 Alice tentava reanimá-la e levava a mãe para passear. Já se passara uma quinzena, dizia a ela. Quando Vitória se sentava ao lado de um silencioso Albert, suas lágrimas escorriam constantes, pingando nos lençóis. Era como se “vivesse um sonho pavoroso”. Ele teria que parar de trabalhar tanto, pensava ela. Mal conseguia pensar na perspectiva de mais uma quinzena sem o marido.

No dia seguinte, Albert pediu que o levassem ao Salão do Rei — agora conhecido como Salão Azul —, mais alegre e iluminado de sol. Tinham transportado um piano para o aposento contíguo, para que ele pudesse ouvir

hinos. Ficou com os olhos marejados enquanto Alice tocava para ele.31 Tomava chá a cada três horas, com um pouco de vinho. Vitória foi tristonha para a igreja, onde não conseguiu se concentrar numa única palavra do sermão. Quando voltou para Albert, ele lhe deu uma pancadinha na mão enquanto ela tentava explicar algo ao doutor. Mas depois sorriu e tocou em seu rosto — “liebes Frauchen” — e adormeceu enquanto ela lia para ele. Os médicos disseram que estavam muito satisfeitos com sua melhora, numa maneira condescendente de falsear a situação. Todos no palácio tinham sido instruídos a andar na ponta dos pés em torno da rainha sensível e com os nervos à flor da pele, mas apenas contribuíam para o choque e o trauma que viriam depois.

Enquanto perdia as forças, Albert oscilava entre a lucidez e a confusão mental, entre a obstinação e a ternura. Em 11 de dezembro, tomou o desjejum descansando a cabeça no ombro de Vitória. Ela chorou quando ele disse ternamente: “Assim é muito confortável, Menina querida”. Então falou, como que alarmado: “Oremos ao Todo-Poderoso!”. Vitória olhou o rosto ruborizado do marido e lhe assegurou que ele sempre rezava, e muito. “Mas não juntos”, respondeu Albert, pegando-lhe as mãos entre as suas e se

curvando para rezar.32 O último sermão que Albert ouvira em Balmoral, antes de voltar para Windsor, foi sobre Amos 4:12, “Prepara-te para

encontrar Teu Deus, ó Israel!”.33 Depois que Vitória saiu da sala, ele disse à

filha Alice que estava morrendo.34

Enquanto isso, os médicos diziam a Vitória que ela não tinha absolutamente nenhum motivo para se preocupar e previram que Albert estaria melhor dentro de uma semana. Mas ela se atormentava com a respiração rasa e arfante dele. Em 13 de dezembro, Vitória acordou às quatro da manhã e pediu notícias, mas lhe disseram que Albert estava dormindo. Ele não percebeu sua presença quando ela foi vê-lo, às oito da manhã. Ao ser conduzido numa cadeira de rodas ao aposento vizinho, nem sequer olhou para a sublime Madona de Rafael que, como dissera antes, o ajudava a viver. Ficou ali arquejando, olhando as nuvens pela janela, tentando ouvir o som dos rouxinóis que lhe relembravam Rosenau. Vitória se mantinha a seu lado, saindo apenas por breves intervalos para andar a pé ou de carruagem. Tentava manter a calma quando estava com Albert, mas perdia o controle quando saía, rezando e chorando “como se estivesse

enlouquecendo!”. 35

Os médicos vertiam conhaque pela garganta de Albert a cada meia hora, numa vã tentativa de fortalecer seu pulso. Continuavam a dizer à rainha que tinham visto a recuperação de casos muito piores. Foi, como escreveu Vitória, “uma época de ansiedade pavorosa, mas ainda assim totalmente repleta de esperança. Era uma crise, uma luta de forças”. A última frase — o último registro em seu diário durante alguns dias — trazia as palavras dos médicos, dizendo que “não havia nenhuma razão para esperar qualquer

piora”.36 Recolheu-se na noite de 13 de dezembro profundamente infeliz, pedindo que a despertassem de hora em hora, com notícias do marido. Enrodilhada, uma figurinha minúscula sozinha no grande leito que normalmente dividia com Albert, pensou como eram recentes os dias em que Albert estivera caçando cervos em Balmoral. Queria que estivessem ainda lá, e não no imenso e cavernoso Castelo de Windsor. Até pouco tempo antes, o público podia passear pelos parques ao redor do castelo, e muitas vezes os meninos de Eton corriam pelas trilhas em declive ou se aventuravam clandestinamente pelo bosque. Vitória nunca tinha gostado do Castelo de Windsor, tão espraiado, e logo passaria a odiá-lo.

No dia 14 de dezembro, às seis da manhã, chegou uma notícia maravilhosa. O sr. Brown, que era médico real desde o ano da coroação de Vitória, foi lhe dizer que havia “razões para esperar que a crise chegou ao fim”. Ela ouviu lá fora o som distante dos cães uivando nos canis e dos pássaros grasnindo no aviário. O sol se erguia no azul brilhante do céu. Foi ver Albert uma hora depois, seguindo pelo corredor de chinelos, o cabelo comprido descendo pelas costas, mas se espantou ao chegar: “O aposento tinha o ar tristonho da vigília noturna, as velas queimadas até o castiçal, os médicos com ar ansioso. Entrei e nunca esquecerei como meu amado estava belo, jazendo ali com o rosto iluminado pelo sol nascente, os olhos invulgarmente brilhantes, fitando como que objetos invisíveis e sem se

aperceber de mim”.37 Parecia um santo.

Bertie, até aquele momento, fora mantido na ignorância da condição em que estava o pai. Vitória continuava zangada com o filho e não quis que ele viesse, na preocupação de que pudesse transtornar Albert. Nos últimos dias, em algumas divagações desconexas de Albert discernia-se apenas uma palavra: “Bertie”. Alice, que sempre adorou Bertie e tinha sido sua companheira em várias travessuras rebeldes, finalmente resolveu que devia lhe contar que Papai “não [estava] muito bem” e dizer que viesse o mais rápido possível. Bertie recebeu o telegrama em 13 de dezembro à noite, quando dava um jantar em Cambridge; tomou o trem para Windsor duas horas depois. Chegou às três da manhã e ficou chocado com o estado em que se encontrava o pai. Albert não reconheceu o rosto do filho, ao lado da

cama.38

Às dez da manhã, os médicos disseram a Vitória que ainda estavam “muito, muito ansiosos”, mas que Albert havia melhorado. Quando ela perguntou se podia sair para tomar um pouco de ar, pediram-lhe que voltasse em quinze minutos. Saiu atordoada para o terraço, junto com Alice, começou a chorar e não conseguia parar. Alice a abraçou e ficaram olhando o parque, em silêncio, enquanto uma banda militar tocava à distância.

Vitória estava explodindo de dor. O homem que deixara a terra natal para ficar com ela, mais de vinte anos antes, agora estava ali na cama, pálido, empapado de suor, sem reconhecer ninguém. O rosto e as mãos tinham um “tom escuro”. Albert dobrou os braços e levou as mãos à cabeça, para ajeitar o cabelo: “Estranho! Como se estivesse se preparando para outra viagem, agora maior”. Naquela tarde, por duas vezes Albert chamou Vitória de Frauchen e a beijou com ternura. Finalmente, à noite, ela entrou na antessala e caiu no chão, soluçando. Quando seu conselheiro espiritual, o deão de Windsor, recomendou que se preparasse para uma grande provação, seus soluços se intensificaram: “Por quê? Por que devo sofrer assim? Minha mãe? O que era aquilo? Pensei que era dor. Mas não era nada em

comparação a isso”.39

Dali a alguns minutos, dr. Clark pediu a Alice que fosse buscar a mãe. Vitória enxugou os olhos e se dirigiu depressa para a Sala Azul. Quando Alice disse que as esperanças tinham se extinguido, “ela saltou como uma leoa sob ataque e se lançou sobre o leito, implorando-lhe que ele falasse e

desse um beijo em sua mulherzinha”. 40 Albert abriu os olhos, mas não se mexeu; ela se inclinou e cobriu seu rosto de beijos. Então se ajoelhou ao lado e tomou sua mão. Já estava fria e a respiração era fraca. “Ah, não”, gemeu Vitória, fitando seu rosto. “Já vi isso antes. É a morte.”

Alice se postara no outro lado da cama, com as mãos dobradas, e Bertie e

Helena estavam no pé da cama. ** Atrás deles estava o sobrinho de Vitória, o príncipe Ernest Leiningen, com sua esposa, Marie, os quatro médicos da corte e o valete e os principais camaristas de Albert. No grandioso corredor revestido com tapete vermelho, do lado de fora do quarto, reunia-se com gravidade um grupo de homens da residência real.

Albert respirou suavemente três longas vezes e finou-se. Vitória se ergueu, beijou-lhe a testa e comprimiu a mão dele em seu rosto. Então soltou um grande grito de angústia que gelou o coração dos filhos e ressoou pelos corredores de grossas pedras do castelo: “Ah, meu querido amado!”. Caiu de joelhos, entorpecida e com o espírito ausente, enquanto o relógio batia as 10h45 da noite; o castelo estava envolto no negrume da noite. A família ficou ali de pé, aflita, olhando a mulher que comandava milhões, mas amara apenas um. O que seria dela agora?

Antes de se recolher à cama, Vitória foi ao quarto das crianças. Tirou Beatrice do berço, quentinha e sonolenta, pôs no colo e ficou a embalá-la em silêncio, no escuro. Ainda com a filha de quatro anos no colo, foi para seu quarto, colocou-a em seu leito vazio e se enrodilhou a seu lado. Passando da profunda dor para o torpor, sedada com ópio, Vitória chorou a noite inteira. As roupas de dormir de Albert estavam estendidas perto dela. Alice dormia numa cama pequena ao pé do leito materno, e acordou para chorar junto com a mãe. A ternura das crianças era admirável. A pequena Beatrice, quando Vitória finalmente acordou, afagou seu rosto dizendo

ternamente: “Não chore. Papai foi visitar a vovó”. 41

Os médicos vitorianos divergiram por muito tempo sobre as causas da morte do príncipe Albert. Vitória não autorizara a autópsia. Muitos julgavam que ele morreu da febre tifoide fatídica à qual facilmente teria se exposto, devido à precariedade do sistema de esgoto de Windsor, ou talvez de uma perfuração intestinal. Desde então, outros têm aventado câncer no estômago, úlcera péptica ou gastrinoma. A teoria mais recente e plausível, proposta por Helen Rappaport, é que se tratava da doença de Crohn, uma doença inflamatória do trato gastrointestinal, exacerbada pelo estresse, cujos sintomas correspondem aos de Albert. (Essa síndrome só foi identificada pela comunidade médica em 1913.) Os sinais de febre de Albert podiam corresponder à deterioração de uma inflamação gastrointestinal crônica, que explicaria seus problemas estomacais e dores

de cabeça.42

 

Na manhã seguinte, os sinos dobraram em toda a Inglaterra. Os sacerdotes, às pressas, reescreveram sermões sobre a morte. Londres inteira foi tomada por panos pretos, em casacas, vestidos, mangas, espadas, fivelas, leques, bandeiras e casas. O país não se enlutava tanto desde a morte da princesa Charlotte, quase meio século antes. As dúvidas sobre o príncipe estrangeiro se dissiparam quando os britânicos começaram a perceber o que tinham perdido. Os jornais alardeavam as virtudes do alemão agora tratado

como “o homem mais importante do país”. 43 Os políticos se indagavam nervosamente sobre as consequências de sua morte. Lord Clarendon, que

admirava desde longa data os “motivos, sagacidade e tato” de Albert,44 considerou que era uma “calamidade nacional, de importância muito maior

do que o público podia imaginar”. 45 Também se preocupava, como todos, com Vitória:

 

Nenhuma outra mulher tem a mesma responsabilidade pública ou o mesmo motivo para ser

inteiramente guiada pelo intelecto superior do marido. Esse hábito ou, melhor, necessidade, junto

com seu intenso amor por ele, que aumentou em vez de enfraquecer com os anos, vinculou-a tanto

a ele que perdê-lo será como se separar de sua própria alma e coração.46

 

Era verdade. A orgulhosa rainha se tornou uma mulher infeliz que sempre seria definida pela perda sofrida. Depois de ser levada do Salão do Rei, ela disse em voz baixa: “Não há ninguém para me chamar de Vitória agora”. Pediu que os integrantes do palácio não a abandonassem. Enquanto chegavam notícias de todo o país, ela via a grande solidariedade de seus súditos: “Mesmo os pobres das aldeolas, que não me conhecem”, escreveu

ela, “estão chorando por mim, como se fosse a dor pessoal deles”.47 Seus súditos sofriam por ela. “Os camponeses em suas cabanas”, escreveu

Richard Monckton Milnes, “falam como se a rainha fosse uma deles”.48

Os filhos ficaram arrasados com a morte do pai. Vicky, grávida e sem poder sair do continente, estava desesperada com a dor da separação. Bertie, horrorizado, lançou-se aos braços da mãe e prometeu que dedicaria sua vida a consolá-la. Alice ficou arrasada, mas se manteve estoica, cuidando da mãe com carinho e altruísmo, como fizera com o pai em seus últimos dias. Alfred soube da notícia quando ainda estava no mar, perto do México, e só pôde voltar para casa em fevereiro. O príncipe Leopoldo, com oito anos de

idade, estava longe, na França, e só exclamou: “Ah! Quero minha mãe!”.49 A pequena Beatrice, quase miraculosamente, continuava a reanimar a mãe. Os nove órfãos agora vestiam o luto da corte abatida: usando roupas de crepe escuro, rígido e pesado, estavam proibidos de rir ou de mostrar qualquer tipo de entusiasmo pela vida. Era um fardo pesado para os filhos que precisavam de consolo.

Vitória não compareceu ao funeral do marido. Com presença triste e discreta, Arthur e Bertie tentavam conter os soluços perante as filas de senhores idosos e solenes. Vitória, porém, determinara uma alteração no ofício fúnebre. Depois de ler o esboço da declaração em que se rogava a Deus para “abençoar e preservar” a rainha “com longa vida, saúde e felicidade”, com sua pena de tinta negra ela riscou a palavra “felicidade”. Substituiu por “honra”: não conseguia imaginar uma vida que agora

pudesse trazer felicidade.50

 

O Natal de 1861 foi uma ocasião melancólica. Segundo Lady Augusta

Bruce, foi uma agonia, 51 como se uma “nuvem impenetrável” pesasse sobre

todos: “A casa inteira parece Pompeia”.52 Todos os ocupantes da Casa Real foram presenteados com lembranças de Albert. Vitória ficou sentada em silêncio na sala de estar, enquanto as pessoas falavam em voz baixa ao redor dela. Vez ou outra, colocava a mão no bolso e apalpava o lenço vermelho e o relógio de ouro de Albert, triste, pensando que não parecia justo que o relógio ainda funcionasse, agora que ele partira. Certa vez lamentara a rápida passagem do tempo; agora, cada hora parecia interminável. Determinou que dessem corda diariamente em todos os relógios do marido e que os visitantes continuassem a assinar o livro de visitas dele, ao lado do dela. As pessoas precisavam entender: Albert podia ter morrido, mas não tinha ido embora.

Mergulhada em sua dor, Vitória odiava estar sob os olhos atentos do público: os binóculos de teatro voltados em sua direção, as filas de políticos ou plebeus esticando o pescoço para espiá-la nas trilhas em que andava a pé ou dentro da carruagem. Por toda parte, era objeto constante de olhares. Não conseguia suportar. Vitória sonhava com amplas paisagens vazias, com a vista do mar, com a solidão. E o que mais a consolava era sua própria dor: uma dor excessiva, indulgente, intensa, desabrida, exigente, escandalosa. Para uma mulher que não conseguia e não queria recompor o coração sangrando despedaçado, o consolo da poesia, por ora, deixava a política na sombra. Alguém entenderia quando ela exclamava que perder do marido era como “arrancarem a carne de meus ossos”? Já não se dizia a rainha, e se assinava como a “Viúva de Coração Partido”.

* Shakespeare, em As you like it. (N. T.)

** Arthur, com onze anos, e Louise, com quinze, tinham se despedido do pai no começo da noite e receberam ordens de se deitar. Estavam ausentes quatro filhos: Vicky estava grávida, sem poder sair de Berlim, Affie estava no México com a Marinha e Beatrice, de quatro anos, não tinha autorização de entrar no quarto do enfermo. O frágil Leopoldo, agora com oito anos, acabara de ser diagnosticado com hemofilia e estava numa viagem de recuperação — depois de uma hemorragia grave — no sul da França. Outros presentes no aposento, naquele dia, eram o general Robert Bruce (preceptor de Bertie); o deão de Windsor, Gerald Wellesley; Sir Charles Phipps (secretário particular de Albert) e o general Charles Grey.