Vitória, a rainha

Julia Baird · Capítulo 30 de 44

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Vitória, a rainha

27. Monarca de touca

 

O símbolo que une este vasto Império é uma coroa, não uma touca.

LORD ROSEBERY1

 

Queriam que ela usasse uma coroa. Afinal, era o que monarcas usavam. No Jubileu de Ouro, a rainha certamente iria usar um símbolo refulgente dos cinquenta anos de seu reinado, um símbolo de sua estatura, de seu comando, de sua riqueza e singularidade, não? Mas Vitória deu de ombros aos pedidos da família e do primeiro-ministro. Em 1887, em seu Jubileu de Ouro, usou touca e um vestido preto liso. Recusou-se a usar os tradicionais mantos de veludo roxo e a coroa cerimonial, e a carregar o cetro e o orbe que carregara com tanto cuidado em sua coroação cinquenta anos antes. Lá estavam reis, rainhas, princesas e príncipes, grandes homens e grandes mulheres da Europa, deslumbrantes em suas plumas, joias e ornamentos; mas Vitória seguiu atrás deles em sua carruagem, pequena e toda de preto. Tal era seu instinto, sua marca própria, e era totalmente original: era a

rainha que usava touca, não coroa. 2 Aparecia no topo do mais poderoso Império do mundo como a mais dócil figura de proa.

Em 21 de junho de 1887, o dia ensolarado do ofício de Ação de Graças na Abadia de Westminster, Vitória ficou sentada em sua carruagem, protegendo o rosto com uma sombrinha. Cinquenta anos antes, era uma adolescente bonita e animada: a “rosa da Inglaterra”. Agora era uma viúva envelhecida, que dera à luz nove filhos, perdera dois destes, além de cinco netos e seu mais leal amigo e companheiro. Em vez de correr pelos parques na garupa de um cavalo, como fazia na juventude, agora era conduzida num carrinho puxado a cavalo, manca, muitas vezes exausta. Olhando em torno naquele dia brilhante de primavera, os alaridos ensurdecedores, as aclamações, o oceano de rostos sorridentes inclinados, olhando para cima, encheram-na de emoção. A duquesa de Cambridge, uma de suas damas de companhia, comentou que “as massas e milhões de pessoas aglomeradas

nas ruas” pareciam “um formigueiro”.3

Um grupo de trabalhadores corria ao lado da carruagem de Vitória, aclamando e gritando o mais que podiam: “Isso aí, velhinha! Muito bem!

Muito bem!”.4 Ela acenou com a cabeça, rindo, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. À frente, seguiam em fila os homens da realeza: seus três filhos, cinco genros e nove netos. As espadas da cavalaria indiana faiscavam ao sol. Cavalos de pelagem clara puxavam carruagens oficiais cheias de membros das realezas, principalmente europeias. Vitória tinha 43 parentes na procissão da Abadia de Westminster, inclusive os cônjuges dos filhos e netos. Lá dentro, sentou-se em cima dos mantos escarlates e de arminho, postos na cadeira de sua coroação na abadia — mas,

deliberadamente, “de forma nenhuma envolveu sua pessoa neles”.5 Fitou os integrantes da Câmara dos Comuns sentados mais abaixo. Examinou o rosto de todos, sem conseguir ver Gladstone, embora ele estivesse lá.

As damas presentes usavam na maioria cores pálidas, branco e cinza, no traje simples de luto que Vitória prescrevera. Eram os homens que refulgiam pomposos: uniformes escarlates, roupas civis bordadas, vestes episcopais de veludo púrpura que se estendiam pelo chão. Os participantes mais vistosos eram os vindos das colônias distantes, “chefes de climas orientais”, que exibiam esmeraldas e diamantes do tamanho de um seixo, em fieiras cruzando o peito e cravejando os turbantes.

A rainha fez uma concessão: pela primeira vez em 25 anos, sua touca estava enfeitada com renda branca e orlada de diamantes. Dali a poucos dias, as mulheres elegantes de Londres estariam usando toucas parecidas, decoradas com diamantes. Um repórter criticou essa moda nova numa festa real ao ar livre no Palácio de Buckingham, em julho, o mês seguinte ao Jubileu: “Sua Majestade e as princesas na Abadia usaram suas toucas ornadas dessa maneira, em vez de diademas. É uma questão totalmente diferente que as damas façam das toucas adereçadas um artigo para usar em

festas ao ar livre”.6

Por toda a Inglaterra, por vários dias prolongaram-se feiras, piqueniques, regatas, torneios esportivos e jantares para jovens, pobres e idosos. Para as crianças, a expectativa era fascinante. Winston Churchill, com doze anos de idade, escreveu da escola à sua mãe: “Não consigo pensar em nada, a não ser no Jubileu”. Os dois dias de comemoração se encerraram com uma festa para 30 mil escolares no Hyde Park. Empanzinaram-se de tortas de carne, pães doces, laranjas, além de leite, limonada e gengibirra. Como entretenimento, havia seis bandas militares, vinte encenações de Punch e Judy, cem tonéis “da sorte”, oito teatros de marionetes, nove trupes com cães, cavalos e macacos adestrados, mil cordas de pular com “pegadores do

Jubileu”, 10 mil balõezinhos e outros 42 mil brinquedos.7 Gigantes e pigmeus andavam por ali, lado a lado.

Do extremo norte da Escócia à ponta sul da Inglaterra, “luzes ardiam na

maioria dos montes, e fogueiras acesas queimavam até o amanhecer”.8 Apenas nos 52 condados da Inglaterra e Gales foram acesas mais de mil fogueiras, e mesmo num ponto tão setentrional como as Ilhas Orkney, onde os locais mal conseguiram ver as chamas porque o céu ainda estava claro,

devido ao sol da meia-noite do solstício de verão.9 O fogoso orgulho do Império encandeou as alturas das Ilhas Britânicas. A comemoração não tinha precedentes: houve algumas escassas tentativas de comemorar o Jubileu de Prata de Jorge III em 1785, pelos 25 anos de reinado, mas o comparecimento foi pequeno.

Agora Londres parecia uma cidade encantada, cintilando com iluminação a gás, a querosene, a óxido de cálcio, a eletricidade, com castiçais e fios de luzes decorativas. Havia tantas lâmpadas iluminando a cidade que em alguns lugares a claridade era maior do que a luz do sol. Um certo sr. Breidenbach de Bond Street providenciou repuxos esguichando perfume de violetas que subiam a dezesseis metros de altura e depois ficavam acesos com lâmpadas elétricas.

 

Ao longo de tudo isso, Albert permanecia como uma presença fantasmagórica, conjurada pelo luto persistente de Vitória. Ao nascer do dia 20 de junho, Vitória, como sempre, sentiu aguda consciência de sua solidão. Escreveu no diário: “Chegou o dia e estou sozinha”. Faria 25 anos que o marido morrera. Uma geração inteira crescera sem o conhecer, mas ela ainda continuava ali teimosamente vestida de negro, tentando homenageá-lo, na certeza de que as pessoas, com as aclamações, mostravam entender quanto ela sofrera sem ele. Depois do Jubileu, Vitória redigiu uma carta agradecendo aos súditos pela bondosa acolhida que lhe deram ao ir e voltar da Abadia de Westminster: “Ela mostrou que o trabalho e as preocupações de cinquenta longos anos, 22 dos quais passei numa imperturbada felicidade, animada e compartilhada por meu amado marido, e igual número de anos repletos de dores e provações, enfrentadas sem seu braço protetor e

sua sábia ajuda, foram apreciados por meu povo”.10

Quando 3 milhões de súditos fizeram doações para um “Fundo de Mulheres para o Jubileu”, que angariou 75 mil libras, Vitória decidiu encomendar mais uma estátua de Albert (embora tenha destinado a maior parte da arrecadação à criação do Instituto de Enfermagem do Jubileu da

Rainha).11 Graças a Vitória, Albert permaneceu (embora ela tenha alterado algumas de suas regras estritas: permitiu a participação no Jubileu de mulheres consideradas inocentes em casos de divórcio; chegou a pensar em estender esse privilégio a mulheres de outros países, embora Lord Salisbury a tenha desaconselhado, “devido ao risco de admitir mulheres americanas

de caráter leviano”).12 Era um período de leniência — prisioneiros de todo o Império foram libertados, exceto os que eram cruéis com animais, pecado que Vitória considerava imperdoável.

Como de costume, Vitória fazia suas reflexões sobre a solidão em meio à numerosa parentela. Queria que os filhos expressassem amor publicamente. Ao ler os discursos dos filhos preparados para o Jubileu, ela escreveu a Ponsonby: “A rainha aprova essas respostas, mas quer que as palavras ‘minha querida mãe’ sempre venham inseridas. Não só nesta ocasião, mas sempre… a rainha quer que nunca sejam omitidas quando os filhos a representarem”.

Seus sete filhos sobreviventes, agora espalhados pelo globo, reuniram-se em Londres para brindar ao longo reinado da mãe. Affie, com 42 anos, estava estacionado em Malta com a família, como comandante-chefe da frota britânica no Mediterrâneo. Arthur, com 37, era comandante-chefe do Exército de Bombaim e vivia feliz com a esposa na Índia — e logo estariam com seus três filhos. Vicky, com 46, morava na Prússia, infeliz e extremamente impopular, perseguida por uma imprensa desconfiada, por um chanceler antibritânico, Bismarck, e pelos próprios filhos, principalmente o primogênito, Guilherme.

Os outros filhos de Vitória ainda estavam na Inglaterra: Beatrice, que acabava de completar trinta anos, estava na segunda gravidez, e alegremente recolhida com seu novo marido, Liko. Quando a filhinha Ena nasceu poucos meses depois, em Balmoral, Liko dizia que era “a netinha do Jubileu”. Louise ainda não completara os quarenta anos, e era infeliz no casamento com o marquês de Lorne. Helena estava com 41, intensamente envolvida em suas obras de caridade; no ano do Jubileu, tornou-se presidente da recém-fundada Associação Britânica das Enfermeiras.

Bertie, que Vitória passara a estimar mais nos últimos tempos, agora um quarentão corpulento, estava com 45 anos e tinha cinco filhos, mas sua sucessão ao trono parecia tão distante quanto vinte anos antes. W. T. Stead lhe deu uma alfinetada na Pall Mall Gazette: “O príncipe de Gales, ‘o homenzinho gordo e careca de vermelho’, que parecia tão insignificante ao lado de seu magnífico cunhado alemão de branco, algum dia reinará sobre

nós?”.13 Às vezes, era como se Vitória fosse um elemento permanente na paisagem britânica.

 

Uma semana depois da cerimônia do Jubileu, Fritz, o marido de Vicky, foi operado de um caroço na laringe. Os médicos disseram que não era maligno, e as esperanças de Vicky pela cura do marido aumentaram. O carocinho fora descoberto inicialmente em maio, e fizeram várias tentativas dolorosas e desajeitadas de removê-lo com fio de arame em brasa, mas, depois de removido, sempre ressurgia. Seis médicos alemães diagnosticaram câncer da garganta e recomendaram uma operação arriscada, que resultou na perda de voz de Fritz e poderia ter sido fatal. Um especialista britânico, dr. Morell Mackenzie, correra até a Prússia para examiná-lo, a pedido de Vicky. Dr. Mackenzie removeu um caroço da garganta de Fritz e disse ser benigno. Os médicos alemães insistiram que havia algo errado; dr. Mackenzie retirou outro pedaço e confirmou que, mais uma vez, não era canceroso. Vicky queria muito acreditar no dr. Mackenzie, mas sua confiança num médico inglês desagradou aos locais e também a seu primogênito, Guilherme, que começava a conspirar para eliminar o pai da linha sucessória.

Guilherme era um indivíduo orgulhoso, sem talentos e muitas vezes cruel, que nutria um ódio particular pela mãe. No parto doloroso que Vicky sofrera, ele estava em posição invertida e teve de ser puxado do útero, causando uma paralisia parcial de seu braço esquerdo, por lesão do nervo (hoje conhecido como paralisia de Erb). Com isso, o braço esquerdo de Guilherme ficou quinze centímetros mais curto do que o direito, o que ele passou anos tentando disfarçar, apoiando-o em espadas ou em outros esteios. A medicina não estava preparada para lidar com essa deficiência, que na época era considerada vergonhosa. Os tratamentos empregados para tentar corrigir o braço eram horrendos. Um deles, aplicado pela primeira vez quando ele tinha apenas alguns meses de idade, era o “banho animal”. Duas vezes por semana, matava-se e se abria uma lebre; punha-se o braço defeituoso de Guilherme dentro do corpo ainda quente do animal, na esperança de que sua força vital se transmitisse magicamente ao bebê. Também lhe aplicavam choques elétricos e ele tinha que usar um aparelho de metal que o forçava a manter a cabeça erguida. Ele culpava a mãe pela vergonha e pelos anos de tratamentos dolorosos e inúteis: nunca a

perdoou. 14

Como conservador militarista favorável ao controle do Estado, Guilherme se julgava o verdadeiro patriota da família. “Imaginava-se de enorme importância”, disse Vicky a Vitória. Pensava ser mais prussiano do que seu pai progressista, Fritz, e era grande admirador de Bismarck e de tudo o que estivesse associado ao “despotismo e Estado policial”. Vitória se irritava tanto com a arrogância do neto de 28 anos que nem queria convidá-lo para o Jubileu do Ouro. Vicky teve de intervir em favor do filho, sobretudo porque qualquer sinal de divisão entre a Inglaterra e a Alemanha iria apenas exacerbar seus próprios problemas como mulher britânica liberal na Alemanha conservadora. A ideia de Willy era deixar o pai doente na Prússia e ir a Londres por conta própria. Na Inglaterra, Vitória via com maus olhos as maquinações do neto. O próprio chanceler Bismarck reconhecia que Willy era imaturo demais para governar, impetuoso, “suscetível a lisonjas, e

poderia mergulhar a Alemanha na guerra sem querer nem prever”. 15 Acabou-se demonstrando que era uma questão de caráter, não de maturidade, pois foi exatamente isso que aconteceu anos depois, quando a impetuosidade de Guilherme para entrar em guerra se mostrou muito superior à sua competência para travá-la.

Em novembro de 1887, determinou-se que Fritz de fato tinha câncer; dr. Mackenzie acabou por concordar. Willy se lançou despudoradamente à tentativa de agarrar o poder, convencendo o imperador prussiano — seu avô e pai de Fritz — a autorizá-lo a assinar todo e qualquer documento em nome de Fritz. Em fevereiro de 1888, Fritz passou por uma traqueotomia. Em 23 de março, Guilherme estava como representante do imperador, trabalhando no Ministério de Relações Exteriores da Alemanha e presidindo a inúmeros comitês parlamentares. Preparou seu discurso de coroação e mantinha na escrivaninha um plano detalhado de sua sucessão no cargo. Fritz sabia que já era tratado como defunto; a mágoa só aumentou quando

Charlotte e Henry, irmãos de Guilherme, passaram a apoiá-lo.16 Vicky se queixou com Vitória: “As pessoas em geral nos consideram como mera sombra passageira a ser logo substituída pela realidade na forma de William!”. Parecia-lhe uma dolorosa injustiça que seu marido, Fritz, estivesse tão doente no momento em que estava a ponto de herdar o trono; o imperador agora estava com noventa anos e certamente morreria logo. Vicky estava convicta de que o marido seria um grande líder humanitário da Prússia e um vigoroso defensor da democracia parlamentar.

Em março de 1888, Fritz, cada vez mais debilitado, tornou-se o imperador Frederico, após a morte do pai. Vitória ficou exultante que a filha agora

fosse imperatriz: “Parece um sonho impossível”.17 Vitória, que a essa altura era uma dirigente com meio século de experiência nas costas, recomendou a ambos que fossem firmes e exigissem respeito, apesar da doença de Fritz.

Fritz não tinha voz. Escrevia as instruções no papel e respirava por uma cânula, enquanto o filho mais velho esperava sua morte com impaciência. Vicky andava com os nervos à flor da pele e às vezes suas nevralgias a deixavam confinada ao leito. Passava os dias fazendo tricô ou crochê ao lado do marido, enquanto ele comprimia um saco de pedras de gelo na garganta, ou se punha junto à porta, do lado de fora, para ouvir como estava sua respiração, ou acompanhava-o em passeios de carruagem enquanto ele se debatia com acessos de tosse. Vicky era isolada e incompreendida; as origens britânicas lhe traziam enorme impopularidade. Suas cartas particulares vazavam para a imprensa e eram publicadas na íntegra. Os três filhos também a atacavam, acusando-a de ser a causadora da doença do marido ou de garantir que não recebesse tratamento médico adequado. Mesmo quando Vicky sorria, isso era tomado como sinal de insensibilidade.

A elite dominante se impacientava e espalhava maledicências sobre Vicky. Para Herbert, filho de Bismarck, a aproximação da morte de Fritz era “uma sorte”; ficaria feliz em se ver livre de um homem casado com uma mulher de “aparência totalmente inglesa” que podia significar uma política

externa catastrófica. 18 A nobreza e o chanceler Bismarck temiam que Fritz tentasse dar a regência a Vicky. A mera ideia de Vicky assinando documentos para Fritz encontrava oposição de Bismarck e do próprio filho dela, Henry, que dizia: “A Prússia dos Hohenzollern e o Reich alemão não

devem permitir ser comandados por uma mulher”.19 A pobre imperatriz estava sitiada.

 

Era hora de uma intervenção materna. Vitória resolveu ir à Prússia, ao voltar das férias na Itália em abril de 1888, para ver Fritz e lhe mostrar apoio. Estando lá, confrontaria o velho estadista Bismarck, frente a frente. Ao mesmo tempo, estava em jogo outra delicada operação diplomática. A filha de Vicky, a princesa Victoria, queria se casar com o príncipe Alexander de Battenburg — “Sandro” —, que renunciara ao trono da Bulgária em 1886, após sete anos de reinado. Fritz dera sua permissão à filha. Bismarck, cujo filho estava de olho na bela princesa, levantou fortes objeções, alegando que o casamento provocaria raiva na Rússia, especialmente no novo tsar, Alexandre II, que era primo de Sandro. Sandro era alto, de notável beleza e adorado pela rainha Vitória, embora ela tivesse aconselhado Vicky a esperar até obter plena aprovação (haviam dito a ela também que Sandro estava apaixonado por uma cantora lírica especialmente bonita).

 

Quando Vitória entrou nos aposentos de Fritz, ele lhe estendeu um buquê; foi a última vez que ela o viu. Então recebeu Bismarck em seus aposentos no Palácio de Charlottenburg. (Lord Salisbury insistiu que ela estivesse com um ministro a seu lado, mas Vitória recusou.) Não se sabe bem o que aconteceu nos 45 minutos que passaram conversando a sós, mas, ao sair dali, Bismarck enxugou a testa com um lenço. Logo depois, declarou:

“Mein Gott! Que mulher, aquela! Com ela dá para negociar!”.20 Homem para quem o conceito de autoridade feminina era um anátema, Bismarck depois alterou seus comentários para lhes dar um ar mais condescendente:

“A vovó se comportou com muita sensatez em Charlottenburg”. 21 A pobre Vicky soluçava ao se despedir da mãe. Mas a visita de Vitória foi um triunfo, ao relembrar aos alemães o poder que possuía a mãe da imperatriz deles. Willy, invejoso, fungou: era “mais do que hora que a velha

morresse”.22

 

Fritz ocupou o trono por apenas 99 dias: ele faleceu em 15 de junho de

1888. Àquela altura estava um “verdadeiro esqueleto”.23 Escrevera na

véspera um bilhete à esposa: “O que está acontecendo comigo?”.24 Vicky ficou horas sentada ao lado de sua cama, segurando uma esponja embebida em vinho branco para que ele sorvesse. Depois do último suspiro, cerrando os olhos com força, Vicky depôs a espada em seu braço e beijou as mãos e os pés do marido. Guilherme entrou prontamente em ação. Suas forças — dezenas de hussardos com casacas escarlates — cercaram depressa a casa. Pôs um cordão de isolamento na sala do telégrafo, enquanto revistavam o gabinete de Fritz buscando provas de algum complô liberal.

O novo Kaiser foi ao quarto da mãe e vasculhou o aposento, acusando-a de esconder documentos secretos que, segundo ele, seriam enviados à Inglaterra. Vicky ficou ali parada, de pé, olhando-o e chorando. (Ela também previra isso: por ocasião do Jubileu de Ouro, Vicky já levara para a Inglaterra uma caixa com os papéis particulares de Fritz, que escondeu num cofre de ferro no Palácio de Buckingham. Mais tarde, quando Fritz percebeu que estava à morte, conseguiu que um médico levasse secretamente seus diários de guerra para o embaixador britânico em Berlim, a fim de preservar um registro preciso do papel que desempenhara nas guerras franco-prussiana e austro-prussiana e na unificação de sua terra

natal.)25 A seguir, quando Vicky tentou ir até o terraço e cortar algumas rosas para colocar sobre o corpo de Fritz, um guarda a agarrou rudemente pelo braço e a fez voltar.

Sentada sozinha em seu quarto, atônita, Vicky escreveu à mãe, que a entenderia melhor do que ninguém: “Sou uma viúva, não mais a esposa

dele. Como vou suportar? Você suportou e eu suportarei”.26 Vitória foi solidária: “Não tive a agonia de ver outro ocupar o lugar de meu marido angelical, o que sempre pensei que nunca conseguiria suportar!”. E o lugar fora ocupado por um filho que não só mandava, mas também desprezava a mãe. Mesmo Herbert von Bismarck, que era amigo de Fritz, dizia que ele era “frio como uma pedra de gelo. Convencido desde o começo de que as

pessoas só existem para ser usadas… e depois podem ser postas de lado”. 27 Guilherme enterrou o pai o mais rápido possível, esquecendo-se convenientemente de abrir e ler suas instruções para o funeral.

O novo Kaiser nacionalista tinha uma profunda ambivalência em relação à Grã-Bretanha, o que constituía uma mudança significativa nas relações anglo-germânicas. Usava uniforme britânico quando estava em visita à avó, que ele amava, e disputava entusiasticamente corridas de iate pela Ilha de Wight. Mas também sentia uma grande rivalidade, e se concentrou em montar uma Marinha prussiana que fosse capaz de concorrer com a britânica. Ele acabaria em guerra com a família do lado materno, o que fez com que a família real mudasse seu nome de Saxe-Coburgo-Gota para Windsor durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Grã-Bretanha combatia a Alemanha. Guilherme foi de uma grosseria ímpar com Bertie, recusando-se a recebê-lo em Viena não muito depois de se tornar Kaiser, por causa de algo que Bertie dissera no funeral de Fritz. Vitória ficou chocada, julgando-o detestável e pretensioso e a esposa “odiosa”. Só com muita relutância permitiu que ele a visitasse em Osborne em 1889, quando então se sentiu desarmada pelo afeto dele e sua alegria em ter permissão de usar um uniforme de almirante britânico. Guilherme exultou: “O mesmo

uniforme de St. Vincent e Nelson; é suficiente para dar vertigens”.28

O que teria acontecido se o câncer não tivesse levado Fritz em idade prematura? A Alemanha teria ficado sob o governo de um imperador liberal e compassivo, um dirigente que desejava melhorar a vida dos trabalhadores e que sentia especial desprezo pelo movimento antissemita. “Como homem civilizado moderno, como cristão e cavalheiro, ele o considerava abominável”, escreveu Vicky; sempre que pôde, procurou se contrapor ao

antissemitismo.29 Seu filho Guilherme era o oposto, atiçando e promovendo o antissemitismo e escrevendo em 1927, durante o exílio na Holanda, que “a imprensa, os judeus e os mosquitos… são pragas de que a humanidade precisa se livrar de um ou outro modo. Creio que o melhor seria o gás”. O

pai certamente teria combatido o que o filho fomentava.30

 

A democracia não fazia sentido, declarou Vitória, quando resultava apenas na reeleição de um homem como William Gladstone. Em 1892, ele voltou a ser primeiro-ministro, a terceira vez em doze anos. Era, escreveu a rainha, “um defeito de nossa tão afamada Constituição: ter que afastar um governo admirável como o de Lord Salisbury sem nenhuma questão de qualquer importância ou nenhuma razão em particular, só por causa do número de

votos”.31 Na circular da corte, Vitória, provocadora, anunciou “com pesar” a renúncia de Salisbury. Realmente era demais ter de convocar “um velho

incompreensível e desvairado de 82 anos e meio”.32 A idade de Gladstone, dez anos mais velho do que ela, irritava a rainha. Dizia que Gladstone estava “muito envelhecido… o rosto enrugado, mortalmente pálido, com

olhar estranho, expressão cansada na boca e voz alterada”. 33 Vitória ressaltou que ele estava curvado e andava de bengala. Mas, até aí, ela também.

Quanto mais os dois envelheciam, mais perto Gladstone precisava se sentar ao lado da rainha, por causa da surdez crescente que o acometia. Os dois detestavam seus encontros e mal conseguiam manter uma conversa; aquilo tinha virado “uma farsa”, disse a rainha. Para seu desprezo, em 1893 Gladstone tentou mais uma vez introduzir a “gradual autonomia de governo” para os irlandeses, o que resultou em brigas a socos na Câmara dos Comuns. A Câmara dos Lordes lhe impôs uma derrota retumbante de 419 a 41 votos. Gladstone não viveu para ver os irlandeses governarem a si mesmos.

 

Em 28 de fevereiro de 1894, depois de outros dezoito meses como primeiro-ministro, o idoso Gladstone subiu devagar as escadarias de Windsor. Armou-se para a reação da rainha à sua renúncia. Nos últimos tempos, ele andava politicamente desestabilizado por não ter apoiado o reforço da Marinha, num momento em que a força naval da Alemanha aumentava. Mas Gladstone declarou que sua decisão de se retirar se devia à sua depauperação física; não conseguia mais ver nem ouvir direito. O GOM e sua rainha pouco afável passaram meia hora juntos, num clima de desconforto, tentando engatar alguma conversa amena e por fim comentando o tempo, a chuva e também a iminente viagem de Vitória até a Itália. O alívio da rainha era evidente. “Nunca a vi mais bem-disposta”, escreveu Gladstone. “Estava no auge da alegria. Comportou-se com grande gentileza o tempo todo.” Em contraste, vários ministros choraram à notícia. Gladstone se referiu a eles como “aquele gabinete chorão”. Sua carreira se prolongara por seis décadas; fora primeiro-ministro por doze anos e integrante do Conselho Privado (grupo de políticos que aconselhavam o soberano) por 53 anos.

A resposta da rainha à carta de renúncia de Gladstone foi curta e insípida. Reconheceu que, após “muitos anos de árduo labor e responsabilidade”, ele estava “certo em querer, em sua idade, ser aliviado dessas árduas obrigações, e ela confia que [ele] poderá gozar de paz e tranquilidade, com sua excelente e devotada esposa, em saúde e felicidade, e que sua vista melhorará”. E continuou, um tanto brusca: “A rainha ficaria contente em oferecer um título de nobreza ao sr. Gladstone, mas sabe que ele não

aceitaria”.34 Aquilo foi como um tapa para Gladstone. Depois de tantas décadas, nenhum sinal de cordialidade? Ela não podia ao menos ter feito um rápido elogio ou um mero reconhecimento? A saída dele não a abrandava nem um tiquinho? Gladstone comparou a despedida deles ao final de umas férias que passara na Sicília em 1831. Durante toda a sua permanência, ele tinha usado um jumento. Mas, relembrou Gladstone, mesmo tendo passado “muitas e muitas horas no lombo da besta”, que lhe fora de “serviço muito valioso”, nunca lhe fazendo mal algum, “eu não conseguia sentir o menor traço de sentimento pelo animal. Não conseguia

apreciá-lo nem gostar dele”.35

Depois de fazer seu vigoroso discurso final na Câmara dos Comuns, Gladstone foi com a esposa, Catherine, no dia seguinte a Windsor, para jantar com a rainha, e pernoitaram lá. Na manhã seguinte, Catherine foi ver Vitória, soluçando durante todo o encontro. Queria tentar remendar a relação, queria assegurar ao marido, estranhamente sensível, que o rancor entre ele e a rainha não supuraria nem era fato amplamente conhecido. Pediu duas vezes que Vitória entendesse que Gladstone lhe era devotado, “quaisquer que fossem seus erros”. Então, escreveu Vitória, Catherine “me rogou permissão para dizer a ele que eu acreditava nisso, o que fiz; pois penso que é mesmo esse o caso, embora às vezes suas ações tornassem difícil crer em tal coisa”. Catherine foi hábil; relembrou Albert, comentou o longo tempo que se conheciam. Vitória escreveu: “Ao sair, dei-lhe um

beijo”.36

Depois de todas as décadas de conflito, Gladstone ficou mortificado com a rudeza da rainha perante sua renúncia. Não conseguia entender por que ela o despachara com a “mesma brevidade” que se usava para “acertar as

contas com um vendedor”.37 Em 10 de março de 1894, ele escreveu no diário que havia em sua relação com a rainha “uma espécie de mistério, que

não consegui e provavelmente nunca conseguirei desvendar”.38 Queria que a família “deixasse para trás” sua difícil relação com a rainha nos anos finais. Pelo menos agora estava livre de qualquer obrigação de falar com ela.

Vitória não se incomodara em perguntar a Gladstone quem devia substituí-lo. Ela escolheu Lord Rosebery, um liberal moderado que era tímido, nervoso e imperialista. Rosebery lhe garantira que não defenderia a autonomia local, o que era extremamente gratificante. Depois de um atrito inicial sobre sua intenção de apresentar projetos de lei para desinstituir as igrejas de Gales e da Escócia, a relação entre ambos foi amistosa. A clareza e a decisão da rainha surpreenderam o novo primeiro-ministro. Com 46 anos, ele era bem mais jovem do que Vitória, invertendo a dinâmica dos anos anteriores. Seu governo foi em larga medida ineficaz, com um gabinete dividido e uma série de reformas sociais rapidamente descartadas pela Câmara dos Lordes. O governo durou apenas até junho do ano seguinte. Vitória ficou triste com sua saída. Fato incomum, ela chegava a preferir Rosebery, em termos pessoais, a Lord Salisbury, o líder tory com quem geralmente tinha mais afinidades políticas. Mas os tories, na eleição de 1895, tiveram uma vitória esmagadora. O partido preferido de Vitória estava de volta ao poder.

 

No centro do mundo da rainha estavam os filhos e os netos, e ela continuava a se ocupar da vida deles. Adorava os netinhos engatinhando pelo chão, entre suas pernas, sorrindo com covinhas nas bochechas; o amor de Vitória por crianças pequenas, escreveu Arthur Ponsonby, era agora “abrangente”. Passara a ser conhecida como “a Avó da Europa”: seus descendentes lotavam as cortes do continente e continuavam a povoar as Casas Reais da Alemanha, Rússia, Espanha, Grécia, Romênia, Portugal e

Noruega.39 A bela princesa Alix de Hesse, filha de Alice, concordou em se casar com o tsarévitch Nicolau da Rússia. Em 1894, três semanas antes das núpcias, ela ganhou enorme destaque aos olhos do público, com a morte do tsar russo, pai do noivo. Alix, o marido, agora tsar, e os filhos mais tarde

morreriam sob a Revolução Russa. 40

Vitória sempre considerou enorme injustiça ter de enterrar um neto, sobretudo um herdeiro. Mas, em 14 de janeiro de 1892, Bertie perdeu seu primogênito, o príncipe Albert Victor, conhecido como Eddy, que sucumbiu a uma pneumonia. Eddy tinha apenas 27 anos e iria se casar dentro de poucas semanas com a prima princesa Mary de Teck. Ele queria se casar com outra prima, Alix de Hesse, mas ela o recusara.

George, irmão mais novo de Eddy, na dor pela perda, aproximou-se de Mary, e os dois acabaram se casando em junho. (Anos mais tarde, em 1910, ele se tornou rei Jorge V.) Alix e Bertie ficaram arrasados com a perda do filho alegre e bonito; Alix manteve um santuário para ele até o final da vida. Era o segundo filho que ela enterrava, pois o caçula morrera 24 horas depois de nascer. Por mais de um século, a morte de Eddy tem sido objeto de falatórios infundados ou incomprovados. Em vida, diziam os boatos que ele frequentava um bordel homossexual, que tinha um filho bastardo e que, coisa escandalosíssima, seria ele próprio Jack, o Estripador (mais de cem homens foram associados aos sinistros assassinatos de prostitutas em Londres, em 1888, no distrito pobre de Whitechapel, mas o assassino nunca foi identificado. A acusação de que seria Eddy foi desmentida).

 

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Quando a carruagem de Vitória saiu pelos portões do palácio na comemoração do Jubileu de Ouro, em 1887, um indiano alto e esguio de olhos intensos ficou observando, postado a uma janela. Abdul Karim fora convidado a servir à rainha, agora com 68 anos, durante o ano do Jubileu; logo ele conquistaria a afeição incondicional de Vitória. Karim, então com 24 anos, representava para ela o melhor do Império; falava-lhe das ricas tradições da Índia, a “joia da coroa”, discorrendo sobre a interessante cultura e história do país. Também lhe ensinou a língua e lhe preparava deliciosos pratos com caril.

Vitória tinha decidido que uma ótima maneira de marcar seu Jubileu seria empregar alguns criados indianos em seus palácios. Afinal, era imperatriz da Índia fazia mais de uma década e iria precisar de auxílio para receber o grupo de indianos da realeza que chegariam para comemorar o Jubileu. Karim, escriturário de uma prisão de Agra, ficou entusiasmado com o convite e passou meses aprendendo sofregamente a etiqueta da corte. Chegou a Windsor três dias antes do início do Jubileu, junto com o roliço e afável Mohammed Buksh, com as malas repletas de túnicas de seda colorida muito bem dobradas e organizadas. Quando os dois, nervosos, se viram na presença de Vitória, beijaram-lhe os pés. Ela comentou que Karim era “muito mais leve” do que Buksh, “alto e com um belo semblante sério”,

acrescentando que o pai dele era um “médico nativo em Agra”.41

Esses súditos polidos e respeitosos correspondiam plenamente ao que Vitória queria em seus auxiliares: discrição, devoção e boa disposição. Ambos progrediram rápido. Poucos dias depois da chegada, Vitória

escreveu: “Os indianos agora sempre servem e muito bem e silenciosos”.42 Karim conversava longamente com ela sobre sua exótica terra natal. Vitória se sentia encantada e ampliou as funções de Karim. Ele lhe falou que nunca tivera a intenção de vir apenas para servir à mesa. Era ambicioso e queria mais. Vitória logo se sentiu persuadida a promovê-lo, e em agosto escreveu no diário: “Foi um erro trazê-lo como criado para servir à mesa, coisa que ele nunca havia feito, tendo sido escriturário ou munshi em seu país e

pertencendo a uma classe bastante diferente da dos outros”.43 Naquele mês, Karim começou a lhe ensinar hindustâni. A rainha escreveu: isso “me

interessa e me diverte muito”.44 Em dezembro, já tentava falar um pouco em hindustâni com a realeza indiana que a visitava. (Henry Ponsonby comentou malicioso com a esposa: “Ela me deu um dicionário indiano para estudar”.) Quando Karim saiu de licença para ir à Índia, Vitória sentiu sua

falta, escrevendo que ele era “muito habilidoso e útil de várias maneiras”.45

Saltando de uma vez só vários degraus na escala hierárquica da corte, em 1888 o orgulhoso Karim foi nomeado munshi, ou escriturário, oficial da rainha. Todas as fotografias em que ele aparecia servindo as refeições à rainha foram destruídas. Fazia apenas cinco anos que Brown morrera, e a rápida ascensão de Karim enfureceu o palácio. Ele não tinha a integridade e o longo histórico de serviços de Brown, e era muito mais hábil em manipular sua senhora, granjeando favores para si e para a família. Vitória lhe concedeu uma grande área em Agra, bem como um bangalô mobiliado em Windsor e chalés em Osborne e Balmoral. Karim também conseguiu promoções e convites para funções de prestígio na Índia para o pai e o irmão. Foi condecorado com a alta honraria de Membro da Ilustríssima Ordem do Império Indiano, geralmente concedida a pessoas que tivessem realizado obras de importância nacional. Inflado com o sucesso, Karim

fazia solicitações cada vez mais absurdas. 46 Pediu, por exemplo, “quantidades enormes” de narcóticos, inclusive morfina e láudano, para enviar ao pai. Segundo o médico de Vitória, Sir James Reid, a quantidade

de droga era suficiente para matar 15 mil homens.47 Enviaram um emissário ao munshi para informá-lo da recusa de Reid.

Em parte porque seu protegido estava longe do lar, Vitória se preocupava com todos os detalhes da estadia de Karim. O fato de ter se apegado a ele tão depressa e com tanta confiança demonstra claramente a solidão de uma mãe com filhos já crescidos e casados, e cujas companhias masculinas mais próximas — Albert, Brown e Disraeli — não existiam mais. Reid, relutante, ficou incumbido de cuidar dos criados indianos, e Vitória lhe enviava longas missivas sobre as roupas, as atividades e a saúde deles. Receava que o clima frio fosse a causa da escabiose e de um carbúnculo de Karim. Quando este ficou de cama, Vitória o visitava várias vezes ao longo do dia e se sentava ao lado, afagando-lhe a mão. Reid — que foi quem documentou essa relação mais detalhadamente, apesar de certa má vontade — comentou, cada vez mais desconfiado, que Vitória passava horas “no quarto dele recebendo aulas de hindustâni, assinando papéis, examinando o pescoço

dele, afofando os travesseiros etc.”.48

A rainha colocara de forma rápida e unilateral uma equipe muçulmana desconhecida nos escalões superiores da monarquia. O caso de Abdul Karim mostra a lealdade, o horror ao racismo e a bondade de Vitória, e também sua suscetibilidade ao encanto e sua profunda carência de intimidade. Sendo o segundo companheiro íntimo da rainha, oriundo de uma classe inferior, a ter uma ascensão fulminante, Karim logo passou a ser visto como sucessor de John Brown. Mas Vitória tinha 44 anos a mais que Karim e era muito mais maternal com o rapaz. Também acreditava nele e confiava em sua palavra, sendo que devia duvidar dela. Não demorou muito para que, mais uma vez, sua sanidade mental fosse questionada.