Vitória, a rainha
7. A coroação: “Um sonho das Mil e uma noites”
7. A coroação: “Um sonho das Mil
e uma noites”
Sempre lembrarei este dia como o de maior orgulho de minha vida.
RAINHA VITÓRIA, 18381
Pobre rainhazinha, está numa idade em que uma menina mal sabe escolher
sozinha uma touca; no entanto, pesa sobre ela uma tarefa perante a qual um
arcanjo recuaria.
THOMAS CARLYLE, 18382
No dia 27 de junho de 1838, à meia-noite — pouco mais de um ano após a morte de Guilherme IV —, Londres zunia com os sons de serras, martelos e plainas. Para a sorte dos que ainda estavam trabalhando, era uma noite fresca, com uma brisa leve. Em Hyde Park, anões, gigantes, albinos e garotos obesos em frágeis tendas de lona tentavam descansar um pouco antes do dia da apresentação; donos de barracas pregavam bandeiras e estandartes em suas bancas; padeiros empilhavam doces em cestas enormes; mulas zurravam e micos repuxavam as correias que os amarravam a coches, carroças e mastros. Os sinos da Igreja de St. Margaret, perto da Abadia de Westminster, repicaram até a uma da manhã, para grande incômodo dos moradores locais. Logo depois, sob um céu negro carregado, magotes de gente começaram a serpentear pelas ruas até a velha abadia cinzenta, tentando garantir os melhores lugares para a coroação da rainha Vitória, que começaria dali a poucas horas.
Às cinco da manhã, quando se abriram as portas da abadia, havia uma grande aglomeração. Os mais farristas, saindo de festas e bailes da coroação, tinham decidido varar a noite, vagueando semibêbados pelas ruas, antes que começassem os acotovelamentos e as disputas de lugares para assistir à cerimônia. “Na verdade, o dia da coroação se passará como um
sonho para essas pessoas”, comentou um repórter. 3 Nas áreas mais pobres de Londres, moleques maltrapilhos dançavam descalços pelas ruas e praças abertas, rindo, gritando e cantando “God Save the Queen” até raiar a pálida luz do dia.
Totalmente desperta em sua cama no Palácio de Buckingham, Vitória
lutava contra a sensação de que lhe aconteceria algo “terrível” naquele dia. 4 Procurou enterrar a cabeça debaixo dos travesseiros durante a salva de 21
tiros ao nascer do sol, logo antes das quatro horas.5 Era impossível voltar a dormir por causa do barulho. Já era rainha fazia um ano — as coroações costumam ser adiadas por vários meses após a morte de um monarca, para que possam ser momentos de comemoração, não de luto, e haja tempo suficiente para prepará-las. Mesmo assim, ela estava nervosa. Vitória nunca assistira a uma coroação, não sabia bem o que fazer e estava apavorada com a possibilidade de cometer algum erro. Como Lord Melbourne lhe diria mais tarde, seu desempenho era “uma coisa sobre a qual não se pode
aconselhar, deve ficar a cargo da pessoa”.6 A mãe também não lhe servia de nada; a principal preocupação da duquesa era Conroy, que só seria convidado para a cerimônia se passasse por cima do cadáver de Vitória.
Às sete da manhã, Vitória reuniu coragem para olhar para fora. Pela janela, espiou o “curioso espetáculo” no Green Park: multidões subiam a colina, carruagens de nobres e fidalgos seguiam para a abadia, damas galgavam os assentos erguidos especialmente para elas na frente de suas associações, soldados marchavam, o povo aglomerado disputava o melhor ponto para enxergar a rainha. Antes caíra uma chuva forte e a multidão soltou gritos de alegria quando o sol finalmente despontou. Ao longo do trajeto da procissão, as casas estavam enfeitadas com flores e bandeiras, os assentos forrados com tapeçarias coloridas, que se destacavam com brilho ainda maior devido às roupas de verão brancas ou de cores claras das mulheres belamente vestidas ali sentadas.
Charles Dickens, que escreveu uma matéria sobre o evento para o Examiner, disse que o mundo estava “animado de gente” esperando para
ver a rainha.7 Cerca de 400 mil pessoas haviam dormido nas ruas de Londres na noite anterior. Greville escreveu:
É como se a população de repente tivesse quintuplicado. Não um aglomerado aqui ou ali, mas a
cidade toda um aglomerado só, se apinhando, se alvoroçando, se embasbacando e olhando todas as
coisas, alguma coisa qualquer ou coisa nenhuma: o parque era agora um imenso acampamento,
com estandartes flutuando no alto das tendas. Ainda assim, as estradas estão repletas, as ferrovias
carregadas com multidões chegando.8
Quando Feodora entrou no quarto, Vitória estava de pé na frente do espelho. Sua assistente lhe ajustava na cabeça o diadema de diamantes. A rainha abraçou a irmã, virou-se para o espelho e se olhou outra vez, com uma mescla de ansiedade e orgulho. Seu corpo miúdo e curvilíneo fora comprimido num corpete justo de cetim branco e um vestido de veludo vermelho. Estava pronta. Quando finalmente entrou em sua carruagem às dez da manhã, sentindo fisgadas de nervosismo no estômago, o sol atravessou as nuvens e os marinheiros hastearam o estandarte real no alto do triunfal arco à entrada do Palácio de Buckingham. Quando soou o primeiro disparo anunciando sua partida, os que a aguardavam na Abadia de Westminster, seu local de destino a quilômetros de distância, puseram-se de pé. O proprietário teatral Nelson Lee bateu num gongo em Hyde Park e todos os artistas da feira desfraldaram suas roupas em rodopios de cores fulgurantes, enquanto os donos das barracas levantavam o toldo de lona e
começavam a apregoar os artigos à venda. 9 Começava o espetáculo.
O percurso de 4,5 quilômetros até a Abadia de Westminster, subindo Constitution Hill até Hyde Park Corner, passando pelas multidões em Piccadilly, St. James’s e Pall Mall até Trafalgar Square e Whitehall, levou uma hora e meia. O compositor Felix Mendelssohn, de férias no país, assim descreveu o coche de Vitória: “dourado, como de fadas, sustentado por tritões e seus tridentes, encimado pela grande coroa da Inglaterra”. Vitória se sentiu arrebatada pela visão de seus súditos, apertando-se em bancos especialmente construídos para tal fim, agarrando-se à saída das chaminés nos telhados, em parapeitos, árvores, encarapitados uns nos ombros dos outros. Enquanto os oito cavalos cinzentos puxavam a luxuosa carruagem, Vitória olhava em todas as direções, esperando alcançar o maior número possível de olhos, sorrindo radiante e acenando. Mais tarde, escreveu:
Por mais numerosos que fossem no dia em que fui ao paço, não eram nada em comparação às
multidões, aos milhões de meus súditos leais que se reuniram em todos os locais para presenciar a
Procissão. O bom humor e a extrema lealdade deles ultrapassavam tudo, e realmente não consigo
dizer quão orgulhosa me sinto de ser a rainha desta nação.10
Quando a carruagem real se deteve em Whitehall, ela viu alguns policiais “fazendo mais uso de seus cassetetes do que as circunstâncias pareciam
exigir” e manifestou seu desagrado.11 Foi obrigada a intervir várias vezes, e insistiu repetidamente que não se empregassem medidas brutas para lhe
abrir caminho.12 Felix Mendelssohn também não conseguiu entender por que a polícia recorreu à violência naquele dia. Viu alguns tentando impedir que uma mulher bêbada de cabelos soltos e ombros nus dançasse; a cada vez que tentavam, ela gritava “coroação!”. Alguém da multidão a parou lhe dando um tapa no ouvido. Mendelssohn concluiu: “Aqui os bêbados são mais mulheres do que homens. É incrível a quantidade de uísque que
conseguem emborcar”. 13 Os gritos da multidão eram ensurdecedores.
Escreveu Dickens: “Punham o coração na voz”.14
***
A nova rainha chegou à abadia logo antes do meio-dia, entre um imenso oceano de lenços se agitando, salvas de tiros, toques de clarim. “A pessoa precisava se beliscar para se certificar de que não era um sonho saído das
Mil e uma noites”, disse Mendelssohn, impressionado.15 Os repórteres multiplicavam os superlativos ao descrever a visão que saudou Vitória ao entrar na Abadia de Westminster, uma figura diminuta sob os arcos góticos.
A abadia estava decorada com tapeçarias douradas, os bancos lotados de nobres vestidos de veludo, longas filas de bispos paramentados, o presbitério e o altar rodeados por tecidos púrpura bordados em ouro e vistosos tapetes orientais no chão. As sofisticadas joias e diamantes das mulheres faiscavam em contraste com a pele clara. Até mesmo a escritora Harriet Martineau, que não era propriamente fã de religiões, abadias e rainhas, ficou impressionada: “Nunca tinha visto o pleno efeito dos diamantes. Quando a luz passava, cada dama da nobreza refulgia como um arco-íris. O brilho, a amplidão e a magnificência onírica da cena geravam
um estranho efeito de exaustão e sonolência”.16 No alto da abadia, Martineau aguardava comendo um sanduíche, lendo um livro e se apoiando contra um pilar.
Enquanto Vitória se preparava no vestiário, pondo um manto vermelho debruado de arminho, com uma longuíssima cauda de veludo, os embaixadores entraram na abadia, para grande animação e admiração geral. Houve uma aclamação especial para o velho inimigo da Inglaterra, o marechal francês Soult. A ele se seguiram a duquesa de Kent e o duque de Sussex, e depois o duque, a duquesa e a princesa Augusta de Cambridge. A procissão dos embaixadores era especialmente elegante e foi muito bem recebida, devido a suas carruagens suntuosas e, em alguns casos, aos trajes vistosos. O embaixador russo estava vestido de peles brancas. O príncipe Esterhazy da Áustria usava uma roupa feita inteiramente de pérolas e diamantes — até as botas eram incrustadas de diamantes, que refulgiram quando ele atravessou uma faixa de luz do sol ao entrar na abadia. Seu
chapéu faiscante “irradiava uma cintilação que dançava por toda a volta”.17 Quando o sol incidia sobre o príncipe, escreveu Dickens, ele “resplandecia como uma galáxia”.
Então entrou Vitória. A multidão permaneceu de pé enquanto tocavam o hino “I Was Glad”. Atrás dela, oito donzelas vestidas de branco e prata, com rosas cor-de-rosa nos cabelos, seguravam a cauda do manto. O Lord Camareiro segurava o final da cauda. À frente da rainha, o primeiro-ministro Lord Melbourne portava a Espada do Estado. Ele ingerira uma dose maciça de láudano e conhaque para combater os efeitos de um distúrbio estomacal. Estava emotivo e, nas palavras de Vitória,
“completamente tomado”.18 Naquele seu atordoamento, Melbourne lhe disse que ela parecia flutuar numa nuvem prateada. Benjamin Disraeli, tory recém-eleito para o Parlamento e futuro primeiro-ministro, disse que Melbourne estava com uma aparência “muito desajeitada e esquisita, com sua grande coroa quase batendo no nariz, o manto se arrastando debaixo dos
pés, segurando a grande espada do Estado como um açougueiro”.19
Começaram cinco horas de cerimônia. O arcebispo da Cantuária proclamou Vitória como a “rainha inconteste deste reino”, enquanto ela se
virava para o norte, o sul e o oeste.20 Ela prometeu defender o protestantismo e então se dirigiu à Capela de St. Edward atrás do altar, onde tirou os mantos e a tiara e trocou por uma roupa de linho e uma túnica dourada. Então voltou ao altar, sentou-se na Cadeira de St. Edward e foi ungida sob um dossel de ouro sustentado por cavaleiros da Ordem da Jarreteira. Nem tudo correu impecavelmente, devido à falta de ensaio e ao fato de que o deão de Westminster estava doente demais para comparecer.
Vitória sussurrou a Lord John Thynne: “Por favor, diga-me o que devo
fazer, pois eles [os ministros] não sabem”.21 Ela teve que perguntar ao bispo de Durham o que fazer com o orbe pesado. Ele respondeu que o segurasse, junto com o cetro, enquanto colocavam em seus ombros o manto feito de fio de ouro e debruado de arminho. Infelizmente, o anel de rubi da coroação, que fora feito especialmente para seu dedo mindinho, foi dolorosamente enfiado no anular.
Londres explodiu em sons quando a esplêndida coroa nova foi posta na cabeça de Vitória: 41 canhões estrondearam, tambores rufaram, clarins soaram novamente. Homens e mulheres da nobreza colocaram suas coroas de nobres, os bispos seus solidéus, os reis de armas suas coroas heráldicas. Os presentes no interior da abadia gritavam à vontade, abalando a abóbada. A multidão nas ruas urrava de aprovação. Lord Melbourne deu um olhar “muito bondoso”, “paternal” a Vitória quando ela o fitou de relance. Ela também viu o olhar de sua “muito amada Lehzen” sentada logo acima do
camarote real, e as duas trocaram um sorriso.22 Enquanto isso, dois balões de ar quente se erguiam sobre a cidade. Em Hyde Park, os atores que interpretavam a rainha e os membros de seu círculo tentavam reproduzir exatamente a mesma cena que se passava, enquanto o público encharcado de cerveja gritava palavras de encorajamento. A alegria parecia geral.
Lord Salisbury, então com sete anos e conhecido como Lord Robert Cecil, estava entediado ao lado do pai assistindo aos rituais da mulher que, várias décadas depois, iria nomeá-lo primeiro-ministro. Mas, quando o homem a seu lado o colocou a cavalinho nos ombros para ver a nova rainha recebendo a coroa, ele ficou estupefato com o que mais tarde descreveu como “uma visão inesquecível de luz e cor deslumbrantes concentradas numa pequena e única figura solitária”.
Muito empertigada num trono revestido de ouro, Vitória ainda estava tomada de emoção. A mãe explodiu em lágrimas. Martineau disse que
Vitória se afigurava “tão pequena que parecia insignificante”.23 A Coroa Imperial do Estado, feita especialmente para ela, foi avaliada em 112 760 libras, cerca de 12,5 milhões de dólares atuais, e era encimada por uma
Cruz de Malta. 24 Os nobres numa longa fila subiam os degraus até o trono, um por vez, tocando a coroa e lhe beijando a mão — e não o rosto, embora fosse esse o costume usual, pois haviam concluído que uma jovem receber no rosto beijos de seiscentos homens mais velhos era uma “perspectiva
aterradora”.25 Quando seu tio Sussex, de saúde frágil, se esforçou com dificuldade em subir os degraus, a jovem Vitória o abraçou carinhosamente. Foi um susto geral quando Lord Rolle, ancião corpulento amparado por dois homens, caiu e rolou pelos degraus, enroscando-se no manto. Ajudaram-no a se levantar e ele tentou novamente subir até a rainha, que o aguardava, incentivado por gritos de apoio, mas Vitória se ergueu, foi até ele, sussurrou gentilmente que esperava que não tivesse se machucado e lhe estendeu a mão para beijar, fazendo-se benquista a todos os que viram e ouviram falar do incidente.
Então Vitória tirou a coroa e recebeu o sacramento. Como que numa sugestão sobrenatural, um raio de sol lhe iluminava a cabeça. O bispo de Bath e Wells pulou uma página da sequência da cerimônia e encerrou prematuramente a coroação. A seguir, a rainha teve um breve interlúdio na Capela do Confessor, onde o altar estava repleto de sanduíches, e Melbourne enxugou um cálice inteiro do vinho tinto sacerdotal. Depois disso, o coro cantou “Aleluia” enquanto ela se retirava na saída final e formal. De volta ao vestiário, tentou tirar o anel do anular, que latejava. Por fim, teve que manter a mão em água gelada durante meia hora para conseguir tirá-lo.
Fora da abadia, o policial John Robinson continha um homem que tentava forçar a entrada para pedir Vitória em casamento. Mais tarde, quando um magistrado perguntou ao indivíduo, capitão Thomas Flower do 13º Regimento da Cavalaria Ligeira, qual era sua profissão, ele respondeu: “A profissão ou a atividade não tem nada a ver com a questão. Sou apenas um
pretendente à mão de Sua Majestade”.26 Ele já fora acusado duas vezes de perturbação da ordem e tinha “criado um grande distúrbio” no Teatro de Ópera Italiana tentando entrar no camarote de Vitória. Foi declarado insano e enviado a Tothill Fields, uma casa de correção no centro de Londres. (Tom Flower não era o primeiro a tentar pedir a mão da rainha Vitória. Outro já fora detido por perseguir a princesa, e um terceiro foi preso por tentar invadir a Capela Real.)
O desempenho de Vitória foi perfeito, sua compostura quase anulando as gafes cometidas pelos outros. De volta ao Palácio de Buckingham, estava cansada, mas aliviada. As multidões continuavam aclamando e as senhoras acenavam seus lenços perfumados dos parapeitos, sacadas e palanques. Vitória estava morrendo de fome, mas a primeira coisa que fez ao chegar foi pegar e colocar seu cachorrinho Dash numa tina para lhe dar banho, vertendo cuidadosamente a água em sua pelagem.
Após o término da procissão, por volta das onze da manhã, milhares de pessoas começaram a afluir ao Hyde Park, para a feira. Era uma visão deslumbrante: quase mil barracas espalhadas por cinquenta acres. Havia bancas, toldos e tendas com bandeiras e estandartes coloridos de todas as nações. Havia fartura de carnes, presuntos, frangos, saladas, cerveja e vinho. Os frequentadores perambulavam entre as bancas que vendiam nozes, brinquedos, pães de mel, sorvetes e laranjas, ao som de gongos e bandas tocando, enquanto malabaristas faziam suas acrobacias. Paravam para olhar os dioramas e panoramas modernos, mostrando paisagens e momentos históricos, desde as Cataratas do Niágara (que cabiam misteriosamente numa caixa) até a Morte de Lord Nelson e a Captura de Napoleão. A maioria, porém, estava lá pelas barracas de bebidas e pistas de dança, animadas por palhaços, “lotadas a ponto de sufocar”, enfeitadas com
cortinas e bandeiras britânicas, onde fumavam, bebiam e flertavam.27 A feira havia começado e poucas horas depois a mulher do confeiteiro que fazia pães de mel deu à luz. O bebê ganhou o nome de Hyde Park e se tornou uma atração por si só — depois de encerrada a feira, a banca continuou aberta por vários dias e as mulheres levavam presentes para a
mãe e a criança.28 Na noite da coroação, um jovem de 23 anos morreu numa pista de dança, com suspeita de epilepsia ou, oficialmente, pela “visita de Deus”.
Algumas das tendas e barracas mais frequentadas apresentavam “espetáculos de aberrações”, um gênero bizarro e geralmente cruel das diversões vitorianas. Havia mulheres e homens imensos de gordos, garotos de pele manchada, crianças de duas cabeças, animais sem cabeça. Havia também dezenas de macacos, um elefante esquelético e cavalinhos da sorte; um encantador de serpentes, anões, “esqueletos vivos”, gêmeas gigantes dos Estados Unidos, a mulher de duas cabeças e a admirada madame Stevens, a “Senhora com Cara de Porco”, que na verdade era um urso castanho com a cara e as patas barbeadas, usando luvas brancas, touca, xale, capa e vestido, amarrado numa cadeira, que um garoto escondido cutucava com uma vara
quando seu dono lhe fazia uma pergunta.29
Charles Dickens passou por um desses espetáculos e balançou a cabeça, dando risada: por que as tendas dos gigantes são sempre as menores? Dickens era o autor mais famoso na Inglaterra. Saíra de Twickenham, onde estava passando férias, para assistir às comemorações da coroação em Hyde Park. Há tanta gente esnobe quando se trata do prazer das classes trabalhadoras, pensou ele: são acusadas das mais variadas farras, lascivas e pecaminosas, mas vejam como isso é maravilhoso! Era uma “cena muito
agradável e aprazível”.30 Segundo as estimativas, dois terços da população de Londres estiveram na feira. Como escreveu Greville: “O principal
objetivo [da coroação] parece ter sido entreter e divertir” o povo.31 Era algo incomum e marcou o início de uma nova época na relação entre monarca e cidadãos.
Por toda a Inglaterra, Escócia, Irlanda e Gales, todas as camadas sociais participaram dos festejos da coroação, fossem turbulentos ou ordeiros: piqueniques, almoços oficiais, ofícios religiosos, festas de rua, jantares e bazares. Nas cadeias e reformatórios, os detentos ganharam rosbife e carne ensopada com legumes, pudim de ameixas, cerveja, tabaco, chá e açúcar. Os indigentes receberam um auxílio da coroação. Em Newgate, os delegados forneceram aos prisioneiros carne, batatas, pão e um caneco de cerveja forte. Os reclusos em solitárias tiveram permissão de se reunir brevemente aos outros. Nas feiras do interior, os homens com mais de cinquenta anos disputaram corridas cujo prêmio era um bom colete, e as mulheres com mais de cinquenta competiram por meia libra de rapé.
A rainha passou a cavalo pelo Hyde Park no dia seguinte, depois que a chuva cessou. Vitória, entusiasmada com o comentário de Lord Melbourne, que lhe dissera que seu desempenho fora “excelente — todas as partes dele, com muito bom gosto”, postou-se à sua sacada à meia-noite, para assistir
aos fogos de artifício daquela noite.32 A multidão se deslumbrou com os milhares de luzes e estrelas pipocando, serpentes, rojões e foguetórios. Mas o mais empolgante foi o espetáculo final — uma projeção de Vitória com seus trajes completos da coroação, cintilando e se estendendo em luzes pelo céu.
No dia posterior à coroação, Melbourne foi se deitar com uma dose reforçada de calomelano. Ausentou-se do gabinete ministerial por uma semana, mas não teve a complacência do Palácio de Buckingham. Em 4 de julho, a rainha escreveu: “Isso é uma extrema provocação e humilhação, e me deixa profundamente irritada, pois estou tão habituada e mal-acostumada a ver esse bondoso e posso arriscar a dizer até querido amigo… todos os dias que fico profundamente aborrecida e desconcertada quando não recebo minha agradável visita diária… E hoje tenho um Conselho… e lá devo estar, por assim dizer, sem a pessoa que me faz sentir segura e
confortável”.33 (Sabendo que a ciumenta Lehzen leria suas anotações, Vitória se apressou em acrescentar que ele lhe era de conforto apenas quando Lehzen não estava com ela.)
Alguns meses depois, a coroação era a peça central das novas instalações de Madame Tussaud em Baker Street. Vitória autorizara a confecção de réplicas exatas de seus trajes para a ambiciosa exposição, que incluía uma cópia em papel machê do interior da Abadia de Westminster e capturava um momento que só viria a se repetir mais de um século depois: uma jovem sendo ungida como dirigente de milhões de pessoas. Os britânicos eram “fundamentalmente monarquistas”, escreveu Lady Cowper à princesa
Lieven: à rainha, “basta se mostrar para ser adorada”.34 Naqueles momentos, tudo era glorioso, dourado, envolto em luz; atribuíam-se todas as virtudes à formosa rainha. The Champion and Weekly Herald escreveu que, em vista da juventude e dos encantos de Vitória, era “impossível” que
“tal soberana possa ter inimigos”.35 Em pouco tempo, essa situação mudaria. Não era coragem nem compostura que faltavam à jovem rainha, como ela logo viria a descobrir. Era bom senso. Por causa disso, sua estrela despencaria com a mesma rapidez com que ascendera.