Vitória, a rainha
28. O “pobre munshi”
A rainha parece que perdeu a cabeça.
SIR JAMES REID1
As coisas chegaram a tal ponto que a polícia foi consultada… Mas é inútil, pois
a rainha diz que é “preconceito racial” e que todos nós estamos com ciúme do
pobre munshi.
FRITZ PONSONBY2
Num gesto só, Vitória varreu de sua escrivaninha todos os enfeites, fotos, tinteiros e papéis, que foram ao chão. Endireitou-se e soltou um grande suspiro. Afinal, a rainha só queria que o munshi fosse junto com ela ao sul da França — ele já os acompanhara antes à Itália —, e agora o palácio armava uma revolta. Os cavalheiros lhe disseram: ou vai ele, ou vamos nós. Não aceitavam que Karim compartilhasse as refeições com a Casa Real. Era 1897, dez anos desde que ele ingressara na corte, nas vésperas do Jubileu de Ouro da rainha; ao longo da década, Vitória se tornara cada vez mais próxima do auxiliar indiano, e as tensões estavam em ponto de fervura. Dr. Reid conseguira inclusive o apoio do príncipe de Gales, ao comentar com Bertie “a crise que o tratamento da rainha e suas relações” com o munshi
estavam gerando. 3 Aquele tipo específico de lealdade obstinada de Vitória era algo que ela tinha desde pequena. Não seria agora, septuagenária, que iria receber ordens. O que ela parecia não perceber era que a ameaça vinha de Karim, não dos homens do palácio. A rainha vivia na constante preocupação de que ele se sentisse feliz e não a deixasse. Lord Salisbury atribuía esse seu apego à necessidade de algum tipo de emoção, coisa
raríssima na vida de uma rainha provecta.4 Ela prevaleceu e Karim foi para a França nas férias de primavera.
No começo dos anos 1890, Karim já se tornara elemento fixo da corte. Em 1893, foi passar os seis meses de licença na Índia e voltou para a Inglaterra com a esposa. Vieram mais duas “esposas”, que ele chamava de “tias”, junto com outros parentes. (Dr. Reid notou que, a cada vez que ia atender uma “sra. Abdul Karim” doente, examinava uma língua diferente.) A promiscuidade sexual de Karim resultava em surtos recorrentes de doenças venéreas, que dr. Reid parecia sentir certo prazer em informar à rainha. Karim tinha gonorreia, disse solenemente a Sua Majestade pelo menos duas vezes, registrando o espanto que ela mostrou. Albert teria estremecido, mas Vitória tolerava.
O munshi não era estimado na corte. Vitória o considerava suscetível e orgulhoso; os demais o consideravam afetado e pretensioso. Para Ponsonby, era um tolo rematado. Bertie o detestava, mas não tinha coragem de enfrentar a mãe e, em vez disso, conferenciava com dr. Reid. Este, por sua vez, desconfiava de Karim e achava que ele estava explorando a bondade da rainha. Em 1894, acompanhando a rainha em suas férias na Itália, dr. Reid se sentou à escrivaninha de seu quarto e fez uma lista das coisas que mais o incomodavam em Karim, o qual também estava no grupo em viagem. A lista incluía as reclamações de Karim sobre o lugar de seu vagão no trem, seu desejo (apoiado pela rainha) de participar dos passeios a cavalo com os cavalheiros da Casa Real, as despesas de sua ida a Roma, o fato de se apropriar de um banheiro destinado às damas da rainha, as queixas de que os jornais italianos “não prestavam quase nenhuma atenção nele”, queixas essas que a rainha providenciou que chegassem aos editores dos jornais,
para que dessem mais notícias sobre o munshi.5
Karim lutava o tempo todo para ser reconhecido como membro da Casa Real e incluído entre a pequena nobreza, para o grande horror do círculo de Vitória. John Brown sempre demonstrara profundo desdém pelo status e era mais um igualitarista do que um alpinista social, mas Karim queria subir na hierarquia. Em 1889, quando se viu sentado entre os criados numa apresentação de gala em Sandringham, ergueu-se do assento e saiu. A rainha — fiel a seu costume de acalmá-lo quando Karim ficava nervoso — lhe assegurou que isso não voltaria a acontecer. Ao ver Karim se misturando com a nobreza nas corridas de Braemar, Arthur, filho de Vitória, foi reclamar com Ponsonby. Em 1894, Karim saiu furioso do casamento de dois netos de Vitória em Coburgo, ao perceber que ficara ao lado de alguns lacaios. Escreveu imediatamente uma carta à rainha em termos tão ásperos que ela se pôs a chorar. Vitória se rendeu às exigências dele e, a partir daquele momento, o jovem escriturário de Agra passou a andar pela cidade natal do príncipe Albert numa carruagem real, com um criado de libré na boleia. Também era convidado a todos os concertos oficiais, mas, segundo
registrou dr. Reid, “todos o evitavam”.6 O círculo da corte passara a se sentir genuinamente preocupado com o domínio e a manipulação de Karim sobre a rainha e com as concessões que ela podia fazer, em vista de sua necessidade de companhia.
Apesar das tensões internas na corte e do ceticismo sobre o novo e fútil objeto de suas afeições, esses anos trouxeram alguma alegria para a rainha septuagenária. Voltava das viagens animada e conversadora. Soltava gargalhadas às anedotas engraçadas de suas damas de companhia, com as quais agora costumava jantar em reservado (em vez de jantar com toda a Casa Real, incluindo políticos e dignitários). Ao contrário dos anos de luto após a morte de Albert, a beleza do ambiente nunca deixava de animá-la: “As luzes tão encantadoras nas colinas púrpura, as bétulas douradas,
intercalando-se com árvores ainda totalmente verdes”.7 Alvoroçava-se entusiasmada entre os tableaux vivants encenados para seu entretenimento, quando os membros da Casa Real vestiam trajes de personagens históricos ou teatrais e se postavam em silêncio, enquanto ao fundo das cortinas descerradas estendia-se um cenário imóvel, cheio de detalhes. Os tableaux eram preparados em segredo, com muitas horas de ensaios e poses para as fotos. Vitória adorava os quadros vivos, criados às dezenas com personagens representando a rainha Elizabeth e Raleigh, a rainha de Sabá,
Carmen e Conto de inverno.8 Karim e Mohammed eram ativos participantes dessas encenações altamente elaboradas, fantasiando-se e posando ao lado dos filhos e acompanhantes de Vitória. A primeira trinca na personalidade assumida pelo munshi surgiu em 1894, quando se revelou que ele exagerara sua posição social. Karim havia afirmado que o pai era o cirurgião-geral do Exército britânico na Índia, mas dr. Reid, ao descobrir que ele era um mero assistente hospitalar não qualificado, resolveu desmascará-lo. Em 1894, depois de extensas investigações, quatro homens da Casa Real, inclusive dr. Reid, fizeram um relatório declarando que Karim era de baixa extração e uma fraude social. A reação de Vitória foi se lançar a uma investida contra o que, corretamente, considerava esnobismo de classe: “Mostrar que o bom e pobre munshi é tão baixo é realmente ofensivo e num país como a Inglaterra totalmente descabido… Ela conheceu dois arcebispos que eram filhos respectivamente de um
açougueiro e um merceeiro”. 9 E prosseguiu dizendo que “lamentava muito” pelos “sentimentos suscetíveis do pobre munshi”. Dr. Reid recebeu ordens de cessar as investigações, e as provas adicionais de que o pai do munshi era um simples boticário foram negadas e ignoradas.
Com boas razões, Vitória desconfiava que o horror e as suspeitas com que viam Karim eram, em parte, decorrentes de racismo. (Uma das queixas que dr. Reid repetiu no relatório, por exemplo, referia-se à esposa e à sogra de munshi: “Mais degradadas e sujas do que os mais baixos trabalhadores braçais na Inglaterra; cuspindo por todos os tapetes. Fazendo suas
necessidades em salas de estar etc.”.)10 Era essencial eliminar o preconceito, concluiu a rainha, que era admiravelmente pouco preconceituosa. Proibiu que se usasse a expressão “homens negros”; até mesmo Lord Salisbury teve problemas por causa disso. Os padres lhe haviam assegurado que os muçulmanos, embora não fossem cristãos,
podiam conter o espírito de Cristo, e assim ela instruiu os que a cercavam.11 Apesar de todo o seu conservadorismo em relação aos direitos das mulheres, Vitória era notavelmente progressista nesses outros aspectos. No entanto, o próprio Karim exibia grande parte do preconceito que ela abominava e do qual o julgava vítima. Ele agia como superior a seus conterrâneos, e na viagem à Itália em 1894 não permitiu a presença de
“outros indianos em qualquer parte do mesmo vagão em que estava”. 12
Os ataques ao munshi serviam apenas para que a rainha o aproximasse mais de si. Henry Ponsonby, vendo com desespero que Karim subia cada vez mais na estima de Vitória, foi perspicaz: “O avanço da Brigada Negra [Karim] é um sério transtorno. Bem que eu temia que a oposição aumentaria o desejo dela de promovê-lo ainda mais. Progressão por
antagonismo”.13 Karim recebeu os antigos aposentos de John Brown e teve seu retrato pintado sobre um fundo de ouro. Em outubro de 1889, Vitória chegou a levá-lo ao distante chalé chamado Glassalt Shiel, em Balmoral, embora tivesse jurado que nunca mais passaria uma noite lá após a morte de Brown.
Em junho de 1889, um dos broches de pedras preciosas de Vitória sumiu e ela acusou sua roupeira de não o ter prendido no xale. A roupeira insistiu que o prendera, mas as buscas não deram em nada. Algumas semanas depois, Mahomet, o outro criado indiano que fora contratado por ocasião do Jubileu, revelou que o broche tinha sido roubado por Hourmet Ali, cunhado de Karim, que o vendera a um joalheiro de Windsor. A rainha ficou furiosa quando uma de suas roupeiras, a sra. Tuck, lhe apresentou as provas. Mas ficou brava não com Ali, e sim com a sra. Tuck e o joalheiro, gritando: “É isso o que vocês ingleses chamam de justiça!”. Depois que Karim lhe disse que Ali apenas seguira um costume indiano de pegar e embolsar objetos perdidos sem dizer nada a ninguém, Vitória determinou que todos os envolvidos mantivessem silêncio e insistiu que acreditava na honestidade de Ali. Dr. Reid anotou num suspiro: “Assim o roubo, embora cabalmente provado, foi ignorado e até transformado em virtude certamente em favor
de [Karim], por quem a rainha parece que perdeu a cabeça”.14
Vitória resolveu ignorar todas as provas contra o munshi pelo tempo que fosse possível. Em abril de 1897, Henry Ponsonby escreveu:
Estamos tendo muitos problemas ultimamente com o munshi aqui e, por mais que tentemos, não
conseguimos que a rainha entenda como é perigoso permitir que esse homem veja todos os
documentos confidenciais relacionados à Índia. A rainha insiste em promover o munshi o máximo
que consegue, e, se não fossem nossos protestos, não sei onde Ela iria parar. Felizmente, acontece
que ele é um indivíduo totalmente bronco e inculto, e sua única ideia na vida parece ser não fazer
nada e comer o máximo que puder.
Esse afã social de Karim era, em larga medida, inofensivo. O mais preocupante para os homens do palácio era que o munshi se insinuara gradualmente e agora manuseava — e cada vez mais moldava — a correspondência da rainha referente à Índia. Karim queria convencer a rainha a atender aos apuros das minorias muçulmanas na Índia, inclusive sua representação nos conselhos locais. Vitória começou a passar automaticamente para Karim todas as petições indianas que, a seu ver, requeriam apenas uma recusa de cortesia, permitindo que fosse ele a
responder. 15
O verdadeiro problema, prosseguia Ponsonby, era que Karim podia ser meio obtuso, mas tinha um amigo esperto e inteligente, Rafiuddin Ahmed, que estava envolvido com a Liga Patriótica Muçulmana em Londres. Karim já insistira antes que Vitória ajudasse a promover a carreira de Ahmed na advocacia, o que ela prestimosamente fez. A certa altura, a rainha chegou a sugerir que ele fosse enviado à embaixada em Constantinopla, para assegurar uma presença diplomática dos muçulmanos. Essa solicitação foi negada pelo primeiro-ministro, Lord Salisbury, que lhe disse que aproveitaria a oportunidade se não fosse o preconceito alimentado por outras pessoas. Havia grandes suspeitas de que Ahmed andara vazando segredos de Estado para inimigos britânicos no Afeganistão — então controlado pela Grã-Bretanha — e extraindo informações cruciais do munshi, que agora lia “as cartas do vice-rei e todas as cartas importantes
que vêm da Índia”.16 Quando o munshi acompanhou Vitória em sua viagem à Europa no verão de 1898, contrariando os desejos da corte, fez a tolice de convidar Ahmed também. Ahmed foi prontamente vetado por Arthur Bigge, que, após a morte de Sir Henry Ponsonby, em 1895, sucedera a ele como secretário particular da rainha. Foi então, quando a corte se instalou no Hotel Excelsior Regina, com vista para as águas cintilantes do Mediterrâneo em Nice, que finalmente as tensões explodiram.
O médico de Vitória se preparou para um longo e desagradável confronto com sua rainha. Sabia que não tinha muita escolha; não era apenas o fato de que aquele indiano era irritante e controlador, mas que constituía uma potencial ameaça à segurança da Grã-Bretanha. Armando-se de ousadia, dr. Reid declarou a Vitória, que o ouvia com ar muito solene, que o que agora estava em jogo era a reputação do trono. O chefe de polícia em Londres contara ao dr. Reid que o munshi estava envolvido com a Liga Patriótica Muçulmana. Dr. Reid, movido por uma mistura de reclamações legítimas e boatos esnobistas, fez questão de informar à rainha que andavam
“perguntando [a ele] sobre sua sanidade mental”.17 Vitória desandou a chorar. Ela sabia o que as pessoas falavam a seu respeito e reconheceu ao dr. Reid que “tinha sido tola em aceder às constantes demandas de promoção [do munshi], mas ainda assim tentando protegê-lo”. Nos dias subsequentes, Vitória oscilou entre o arrependimento e a raiva.
Finalmente era hora de enfrentar Karim, aquele “vigarista”. Enquanto os outros membros da corte passeavam pelas curvas da praia, dr. Reid partiu para cima dele, dizendo que era “um impostor”, de classe baixa, sem instrução, sem experiência como secretário, e tinha “duas caras, uma que você mostra para a rainha e outra quando sai do aposento dela”. Também acusou Karim de roubar a rainha. Ele dissera que na Índia não se exigia recibo para nenhuma despesa e assim não deviam lhe exigir recibos na
Inglaterra; conforme suas despesas aumentavam, as suspeitas cresciam.18 Quando o grupo deixou a França, semanas depois, Karim se mostrou submisso. Vitória, exausta, disse aos cavalheiros da corte que parassem de
falar “desse assunto penoso”.19 Continuou a defender seu “pobre M.” e repetia que, se havia indianos que não gostavam dele, era porque eram hinduístas, ao passo que Karim era muçulmano. Vitória continuou a resistir pelos dois anos seguintes, procurando limpar o nome do munshi e de seu amigo Ahmed.
O apego de Vitória a seus assistentes indianos nascia, em parte, de sua necessidade pessoal de ser tratada com delicadeza física. Já estava bem entrada na casa dos setenta e, devido às complicações decorrentes das gestações, dos partos e do ganho de peso, era-lhe penosíssimo andar e impossível ficar de pé pelo menor tempo que fosse. Tal como fazia Albert nos períodos de resguardo, ela queria que a carregassem com cuidado e delicadeza da cama para a cadeira, e da cadeira para a carruagem. Os indianos, escreveu ela, eram “muito hábeis” ao erguê-la e “nunca me
beliscam”.20 O que a corte via, mas se negava a admitir, era o valor que a ajuda que um homem atencioso e calado tinha para uma rainha idosa.
Em 1895, o luto voltou a se abater sobre a corte. O marido de Beatrice, o amado Liko, perguntou se podia servir na missão ashanti na África, por meio da qual a Grã-Bretanha ganharia o controle da região aurífera agora conhecida como Gana. A relação entre Liko e Beatrice esfriara e ele se tornara íntimo da bela cunhada Louise. Mulher inteligente e artística, Louise era uma escultora talentosa com um marido quase certamente homossexual; ela tinha casos amorosos fora do casamento e mantinha uma ligação de décadas com um preceptor, o escultor Joseph Edgar Boehm. Quando Liko e Beatrice desconfiaram que Louise estava de caso com Arthur Bigge, o novo secretário da rainha, Louise os acusou de difamação. Quando as brigas na família real se intensificaram, Lord Lorne foi obrigado a sair em defesa de Louise. Liko escapou para a guerra, com a relutante permissão de Vitória.
Poucas semanas depois, Liko contraiu malária e morreu num navio de transporte a caminho de Gana em 20 de janeiro de 1896, antes mesmo de presenciar qualquer batalha. Vitória ficou arrasada. Sua filha favorita agora estava curvada sob sua própria dor, e as duas mulheres de negro se igualavam no infortúnio. O sofrimento de Beatrice então aumentou ainda mais quando Louise, despeitada, lhe disse que tinha sido “a confidente de Liko e Beatrice não significava nada para ele, referindo-se a ela com um dar de ombros!”. A biógrafa Lucinda Hawksley conclui que “era muito alta a probabilidade de que Liko tivesse encontrado em Louise uma confidente
(na verdadeira acepção do termo) mais compreensiva do que Beatrice”.21 Esta, conhecida como “a princesa tímida”, passou o resto da vida como fizera de início: devotada à mãe e à preservação — e expurgo — das palavras maternas. A obra de sua vida foi reescrever e editar os diários de Vitória, num dos maiores atos de censura da história.
Dr. Reid não desistiu de sua missão de desacreditar Karim, e em 1897 por fim obteve algum sucesso. Em fevereiro daquele ano, dr. Reid comentara com a rainha “sobre uma recaída do munshi num problema de doença venérea”. Ao saber que a gonorreia de Karim retornara em dezembro, a
rainha ficou “muito surpresa”. 22 Mas o que finalmente fez a rainha parar para pensar foi o desejo oportunista e inconveniente de Karim de obter publicidade. Numa foto publicada no Daily Graphic em 16 de outubro de 1897, a rainha roliça aparecia usando um xale branco e um chapéu preto de plumas, assinando papéis com um imponente Karim postado a seu lado, olhando a câmera com ar muito convencido e petulante. A legenda dizia: “A vida da rainha na Escócia, Sua Majestade recebendo uma aula de hindustâni do munshi Hafiz Abdul Karim, Membro da Ordem do Império Indiano”. O fotógrafo disse ao dr. Reid que essa foto — uma constrangedora quebra do protocolo palaciano — fora publicada por insistência de Karim. Quando dr. Reid contou à rainha, ela lhe escreveu uma carta de catorze páginas, tomando a si a culpa de ter permitido tal coisa a Karim:
Estou extremamente aborrecida… Não sei o que fazer… Sinto-me constantemente magoada que
meus Cavalheiros queiram espionar e interferir com um integrante de meu círculo do qual não
tenho nenhuma prova ou razão pessoal de duvidar e fico grandemente desgostosa com o que
aconteceu.
Ela pediu ao dr. Reid que pusesse um fim à história e evitasse escândalos: “Minha paz de espírito está terrivelmente transtornada. Receio ter cometido erros crassos nesse assunto… Não consigo ler [a matéria] até o fim e lhe
peço que a queime junto com minha carta de hoje de manhã”. 23 Mas Karim continuou.
Ao subir ao trono, em 1901, Bertie quis erradicar todos os sinais de amizade entre a mãe e um escrevente indiano, e mandou queimar todos os papéis do munshi numa grande fogueira. Vitória determinara que Karim estivesse presente na procissão de seu sepultamento, mas, logo após o funeral, Bertie ordenou que o munshi e a esposa partissem imediatamente para a Índia. Enviou detetives para lá, a fim de vigiar Karim, caso tivesse contrabandeado documentos da Inglaterra. O munshi voltou a Agra, engordou com a terra que a rainha lhe concedera e morreu em 1909, com apenas 46 anos. Karim nunca falou mal da família real. Seu nome estará sempre associado ao de sua crédula e amorosa rainha.
Numa manhã de 1896, Gladstone despertou num sobressalto de culpa. Sonhara que estava tomando o desjejum com Vitória. Tinham, pelo visto, mantido relações sexuais, o que incluiu desacertos sobre “como e onde
aconteciam alguns acessos”. 24 Gladstone ficou horrorizado com o sonho. Era inimaginável, claro, que algum dia tivesse existido tal intimidade entre ele e a rainha. Mas, no ano seguinte, haveria um momento de breve reaproximação. Graças a Louise, filha de Vitória, em 1897 Gladstone e a esposa Catherine viram Vitória num hotel em Cannes. Pela primeira vez, Vitória e Gladstone, ambos semicegos, idosos, andando com dificuldade, trocaram um aperto de mãos. A rainha declarou que ambos estavam “muito envelhecidos”. Os dois couraçados falaram por alguns minutos, e depois Gladstone concluiu que “a peculiar faculdade e hábito de conversação da rainha desaparecera”. Ele estava com 87 anos, lutando com uma nevralgia facial, câncer na face e catarro, o que levara ao afastamento de qualquer atividade política. O último discurso que Gladstone proferiu foi em 24 de setembro de 1896 — sobre as novas atrocidades dos turcos na Bulgária. Embora estivesse se preparando para o Jubileu de Diamante, em 1897, Vitória não convidou Gladstone para participação alguma.
No final da madrugada de 19 de maio de 1898, quatro anos depois de deixar o cargo, Gladstone morreu. Registrou-se como causa do óbito uma “síncope senil”; o coração deixara de bater. Nem mesmo a solenidade da morte impediu que Vitória fosse grosseira. Relutou em escrever a Catherine Gladstone simplesmente porque não gostava do homem: “Como vou dizer que lamento, se não lamento?”. Numa carta a Vicky, a rainha explicou seu permanente desrespeito: “Não posso dizer que penso que ele era ‘um grande inglês’. Ele era inteligente, muito talentoso, mas nunca procurou manter a honra e o prestígio da Grã-Bretanha. Cedeu o Transvaal e abandonou Gordon, destruiu a igreja irlandesa e tentou separar a Inglaterra da Irlanda e pôs classe contra classe. Não será fácil desfazer o dano que ele causou… Mas era um homem bom e muito religioso”. Muito estranhamente, a morte de Gladstone não foi citada na Circular da Corte. Mais tarde, Vitória disse ao primeiro-ministro, Lord Salisbury, que tinha sido “exclusivamente por mero descuido”.
Duzentas e cinquenta mil pessoas foram visitar o corpo de Gladstone na câmara-ardente da Abadia de Westminster, antes do funeral em 28 de maio. Bertie, que sempre mantivera relações amistosas com Gladstone, estava entre os que carregaram o caixão no funeral, bem como seu único filho sobrevivente, o futuro rei Jorge V. Vitória, quando soube da intenção de Bertie de carregar o caixão de seu antigo inimigo, telegrafou ao filho para perguntar a razão: procedera assim a conselho de quem, e quais eram os precedentes? O príncipe de Gales respondeu rispidamente que não sabia de nenhum precedente e que não seguira o conselho de ninguém. Num telegrama posterior a Catherine Gladstone, o maior elogio que Vitória conseguiu fazer a Gladstone, o homem agora considerado como o grande colosso da Era Vitoriana, foi que era “um dos mais destacados estadistas de meu reinado”. A rainha não saiu encomendando uma sucessão de estátuas do GOM nas cidades da Grã-Bretanha. Primeiros-ministros, filhos, amigos e parentes continuavam a morrer e Vitória seguia em frente: alguns súditos começavam a achar que ela era imortal.