Vitória, a rainha
16. Annus mirabilis: O ano revolucionário
16. Annus mirabilis:
O ano revolucionário
A incerteza por todas as partes, bem como em relação ao futuro de nossos
filhos, me venceu e cedi inteiramente à minha tristeza… Eu me sinto vinte anos
mais velha e como se não fosse mais possível pensar em qualquer diversão.
Tremo à ideia do que pode nos aguardar aqui, embora eu saiba quanto o povo
em geral é leal.
RAINHA VITÓRIA, 3 3 DE ABRIL DE 18481
O homem conhecido como o Rei Cidadão da França se fitava no espelho enquanto passava a navalha devagar pelas faces. A esposa, sentada atrás dele, sorriu pela primeira vez em dias ao ver o rosto barbeado do marido, emergindo das suíças ruivas que por tantos anos o haviam emoldurado. De repente, parecia tímido e vulnerável, como um menino. Luís Filipe perdera a coroa poucos dias antes, aos 74 anos de idade. Depois de dezoito anos no trono, foi obrigado a abdicar em favor do neto de nove anos, durante uma revolução sangrenta quando as ruas de Paris foram tomadas pelas chamas. Fugira com a esposa, Marie-Amélie, por motivos de segurança. Tinham passado muitas noites insones. Luís Filipe apalpou o bolso, certificando-se pela centésima vez de que os documentos falsos em nome do “sr. e sra. William Smith” estavam a salvo. Deixaram a casa de Paris, foram de barco até Le Havre na costa e, no meio da noite, embarcaram num vapor que os aguardava. Para a viagem até a Inglaterra, levavam apenas uma mala pequena e as roupas do corpo. Escaparam por pouco: duas horas depois, a
polícia chegou à casa onde estiveram escondidos, para prender o rei.2
Nos anos anteriores, ampliara-se a distância entre os ricos e os pobres na França; as condições de trabalho do operariado eram intoleráveis e o custo de vida disparara numa espiral. Antes amado pelo povo, o rei Luís Filipe era cada vez mais impopular. Quando o governo proibiu uma série de banquetes organizados para arrecadar fundos para a oposição, milhares de
pessoas saíram às ruas para protestar. 3 Em 22 de fevereiro de 1848, 52 pessoas foram mortas em tumultos violentos. Enquanto o populacho raivoso afluía ao palácio, o rei, rodeado por conselheiros em pânico, resolveu abdicar. Dezenas de parentes reais, em grupos de dois ou três, partiram em carruagens, trens, barcos e a pé, com pajens, criadas e cortesãos, para a Inglaterra; na França, os revolucionários bebiam e dançavam no palácio,
atacando as despensas reais.4 Entre os filhos do rei que foram para a Inglaterra, estavam Augustus, primo de Albert, com sua esposa, Clementine (terceira filha sobrevivente de Luís Filipe), e Victoire de Saxe-Coburgo-Kohary, prima próxima de Vitória, casada com o filho sobrevivente mais velho do rei e da rainha depostos da França. Luís Filipe, ao sair do vapor e pisar na costa britânica em segurança, usando o sobretudo do capitão e
escondendo os olhos por trás de lentes enormes, quase chorou de alívio. 5
Vitória acolheu seus amigos reais, mas não aprovava a capitulação. Achava que o rei devia ter ficado e lutado. Além de ser um gesto covarde, pensava ela, era desnecessário. Vitória, aos 28 anos, com o sexto filho no ventre, tinha nervos de ferro. Nos meses seguintes, escreveu várias vezes em seu diário que o rei da França, a seu ver, cometera um erro.
Outro ponto sensível era que Luís Filipe ludibriara Vitória apenas dois anos antes. De início, as relações entre o rei francês e a rainha britânica eram cordiais, em parte porque Louise, a filha mais velha dele, desposara Leopoldo, tio de Vitória, e sempre fora gentil com a rainha britânica, mais nova do que ela. Em 1843, Vitória foi a primeira monarca britânica a visitar seu equivalente francês em mais de trezentos anos. Ficou fascinada com a beleza do castelo d’Eu e a naturalidade do casal. A rainha Marie-Amélie lhe disse que a considerava como uma filha. Mas houve um assunto que não abordaram durante a visita: a delicada questão da Espanha. Fazia muito tempo que Luís Filipe sonhava em criar uma aliança da França com a Espanha e discretamente arranjara o casamento de um dos filhos com a infanta Luisa, irmã mais nova da rainha Isabel, de treze anos, que governava a Espanha por intermédio da mãe na regência. Luís Filipe montara um plano complicado. Queria que a rainha Isabel se casasse com o duque de Cádis, primo dela, tido como homossexual ou estéril, e não deixasse herdeiros, e assim a infanta Luisa poderia se casar com o filho dele, o duque de Montpensier, e gerar um herdeiro.
Vitória, porém, queria que a rainha Isabel se casasse com um primo Coburgo. Depois de longas intrigas, durante a segunda visita de Vitória e Albert, em 1845, os respectivos ministros das Relações Exteriores da França e da Grã-Bretanha concordaram que só apresentariam um
pretendente à infanta depois que a irmã mais velha tivesse filhos.6 Esse acordo se evaporou em 1846, quando Lord Palmerston tolamente mostrou ao embaixador francês um despacho dizendo que um primo de Vitória era pretendente à mão da rainha Isabel. Num estalar de dedos, as duas jovens noivaram com o duque de Cádis e o duque de Montpensier. Vitória, “extremamente indignada”, disse à rainha Marie-Amélie que seu marido descumprira o prometido. As tensões persistiram por quase dois anos, quando se iniciaram os protestos em Paris.
Vitória se esqueceu prontamente de suas queixas. Ficou realmente assustada com as revoltas e, apesar das intrigas recentes, ainda amava seus
parentes franceses.7 “Pareciam uns pobres humilhados”, escreveu em 7 de março, no dia seguinte à acolhida de Luís Filipe e Marie-Amélie no Palácio
de Buckingham.8 Vitória, então com a gravidez avançada, enviou roupas aos refugiados e lhes cedeu a grande propriedade do tio Leopoldo, Claremont, para ficarem pelo tempo que fosse necessário. Augustus, Clementine e filhos viviam com ela no Palácio de Buckingham. Clem, na quarta gravidez, era da mesma idade de Vitória e, tentando entender os acontecimentos do mês anterior, as duas se tornaram bastante próximas. Vitória ficou mortificada ao saber que Hélène, nora de Luís Filipe e mãe do próximo rei, tivera o filho arrancado dos braços em meio ao tumulto: “Pode
haver coisa mais pavorosa?”.9
A ansiedade e a tristeza tomaram conta do palácio. “A pobre Clem”, escreveu Vitória no diário, “diz que não consegue dormir, sempre vendo diante de si aqueles rostos horríveis e ouvindo aqueles gritos e guinchos
medonhos.”10 Passou meses aflita com seus hóspedes. Ficou preocupada quando emagreceram demais e comentou que a prima Victoire parecia “uma
rosa pisoteada”.11
As revoluções europeias de 1848, alcunhadas de “Primavera dos Povos”, começaram na Sicília em janeiro, alastraram-se para a França em fevereiro e se espalharam rapidamente pela Europa. As revoltas mais violentas ocorreram na Polônia, no Império austríaco, na Alemanha e na Itália, bem como na França. As razões eram variadas e, de modo geral, não estavam interligadas, mas em muitos países foi a irrupção das classes médias e trabalhadoras — unidas em alianças temporárias e pouco usuais — depois de décadas de sucessivas mudanças. Tinham suportado o aumento do custo de vida, a quebra de safras, a superlotação das cidades, a condução parlamentar nas mãos dos ricos ociosos e apáticos, o reinado de monarcas repressores. As vozes dissidentes aumentavam cada vez mais ao debaterem as formas ideais de democracia, socialismo, liberalismo gradual e republicanismo.
Com o alastramento da rebelião, o medo de Vitória se transformou em horror. Tal caos era um anátema para os monarcas. No diário, ela se referia aos revolucionários como uma “turba de rufiões sedentos de sangue”, “a
ralé medonha”, “gente [que] procede de maneira repulsiva”.12 A rainha não gostava de hordas nem de franceses. Isso ficava claro em sua correspondência. Arthur Benson e Lord Esher, ao editarem as cartas de Vitória para publicação póstuma, censuraram suas opiniões antifrancesas mais duras para evitar constrangimentos ao filho dela, o rei Eduardo VII, que
mantinha aliança com a França.13 As cartas originais, nos Arquivos Reais, revelam seu desejo secreto de que os cidadãos franceses fossem punidos pela rebeldia. Ela escreveu numa carta a Leopoldo em abril de 1848: “Na França, coisas importantes vão pessimamente e, por uma questão de moral, deveria haver alguma grande catástrofe em Paris, pois lá é a sementeira da
Iniquidade de onde provêm todos os males”.14 Embora pessoalmente acreditasse que Luís Filipe não devia ter abdicado, ela escreveu: “A lembrança de Luís XVI e a perversidade e selvageria da turba francesa são
suficientes para justificar tudo e isso todos admitirão”.15 (As palavras grifadas foram posteriormente eliminadas por Benson e Esher.)
A Inglaterra foi, em larga medida, poupada ao ardor revolucionário que varria o continente. Em março, passada apenas uma quinzena desde a revolta em Paris, um comício muito alardeado em Trafalgar Square resultou apenas na destruição da pista de boliche do príncipe Albert e na prisão do
jovem líder, que desandou a chorar. 16 Vitória, irritada, escreveu que os
“tolos” protestos estavam assustando seus parentes franceses.17 No dia seguinte, Albert lhe contou que alguns integrantes da “turba” haviam quebrado as vidraças da casa da mãe de Vitória em Londres e tinham pensado em atacar o Palácio de Buckingham, mas desistiram ao ver o grande número de guardas. De fato não havia perigo, escreveu ela no diário, mas, “depois dos horrores de Paris, é impossível deixar de sentir um maior
nervosismo”. 18
A rainha passava seus dias examinando despachos da Europa e acalmando seus hóspedes franceses. Albert, para quem os príncipes estavam em melhor posição do que os políticos para dar conselhos sobre a política externa,
ficara arrasado ao saber do turbilhão em sua querida Alemanha.19
Sensatamente, recomendou a seu irmão, o duque de Coburgo e Gotha,20 que não usasse nem aumentasse as forças militares para reprimir os distúrbios
locais.21 Albert também se preocupava com a segurança crescente dos cartistas na Inglaterra, cuja força aumentara nos últimos anos com a libertação de muitos líderes presos. Os irlandeses também estavam em situação desesperadora, depois de vários invernos rigorosos com muita fome, e a especulação financeira criara pânico e instabilidade. Os cartistas, quando souberam que a França se tornara república, removendo o rei do trono, dançaram pelas ruas de Londres até o amanhecer.
Em 18 de março, no auge do furacão, Vitória deu à luz sua quarta filha, Louise Caroline Alberta. Tinha quase esquecido que estava grávida, quando
começou o dolorosíssimo parto.* Quando a bebê estava com poucos dias, Vitória e Albert foram obrigados a sair de Londres, temendo pela vida. Os cartistas haviam anunciado uma enorme manifestação com meio milhão de pessoas para 10 de abril em Londres, e muitos imaginavam que a situação ficaria feia, quando não explosiva.
Vitória, ainda se recuperando do parto difícil, estava na cama, a soluçar:
O pesar com a situação da Alemanha — com a miséria e a ruína rondando tudo, vindo a se somar
às péssimas notícias da Irlanda e ao alarme no espírito das pessoas com a grande manifestação que
deve ocorrer em Londres no dia 10 estão afligindo muito meu pobre Albert… Sim, eu me sinto
vinte anos mais velha e como se não fosse mais possível pensar em qualquer diversão. Tremo à
ideia do que pode nos aguardar aqui, embora eu saiba quanto o povo em geral é leal. Estou muito
calma e plenamente preparada para receber o que Deus nos enviar, se ao menos formos poupados
de partilhar tudo.22
A família real se retirou para as matas de Osborne, onde ficou aguardando notícias de Londres com alguma ansiedade. Vitória logo retomou a compostura, gabando-se numa carta a Leopoldo: “Grandes eventos me deixam calma e tranquila; são apenas as ninharias que me irritam os
nervos”.23 O cavalariço-mor de Albert, coronel Phipps, ficou em Londres, percorrendo as ruas, entreouvindo conversas ao acaso, tentando avaliar a reação à saída da rainha. Ele escreveu: “Sua fama de bravura pessoal é tão grande que não ouvi em momento algum ninguém dizer que a partida dela
se devia a um alarme pessoal”. 24
Em Londres, estavam em curso os preparativos de tipo militar para a manifestação de 10 de abril. Uma quantidade enorme de voluntários ocupava as delegacias e foi espantoso o número de homens — 85 mil — que se inscreveram para trabalhar como guardas especiais no dia do
comício. 25 Entre os voluntários estava o príncipe Luís Napoleão Bonaparte, que depois se tornaria o imperador dos franceses. O idoso duque de Wellington, cultuado como herói, foi novamente posto no comando das Forças Armadas, pela última vez. O governo assumiu o controle dos telégrafos, para garantir que os revolucionários não difundissem falsas informações, e um Decreto de Remoção de Estrangeiros foi aprovado às pressas pelo Parlamento, dando ao ministro do Interior poderes para transferir qualquer cidadão estrangeiro contra o qual houvesse alguma
alegação. 26 Os cartistas alardearam dispor de uma petição com 5 milhões de assinaturas, tão gigantesca que precisou ser enrolada como uma grande meda de feno e puxada por quatro cavalos. Torciam pela revolução, mas, no mínimo dos mínimos, pretendiam arrancar algumas concessões do Congresso.
Em 10 de abril, sob o céu azul brilhante, os cartistas se dirigiram a quatro pontos de concentração em Londres, portando bandeiras que diziam LIVE AND LET LIVE [“Viva e deixe viver”]. Havia uma falange de 4 mil membros da Polícia Metropolitana em torno do Kennington Common, área comunal outrora usada para execuções públicas e partidas de críquete, e mais 8 mil soldados regulares estavam escondidos em vários pontos da
cidade. 27
Havia quatro baterias de artilharia instaladas ao longo de pontes, e navios armados ancorados em pontos estratégicos ao longo do Tâmisa. Havia um cordão de homens armados no Mall, para impedir o acesso ao Palácio de Buckingham. O primeiro-ministro Lord John Russell forrou suas janelas com documentos parlamentares e se retirou com a esposa grávida para a segurança da Downing Street, temendo que o som dos tiros de canhão
antecipasse o trabalho de parto.28 Nos edifícios vazios do governo, protegidos com barricadas de caixas de papéis, havia homens armados atrás de pilares e cortinas, volta e meia espiando lá fora para ver se o tumulto começara. Os soldados receberam instrução de abrir fogo, caso
necessário.29
As notícias do forte esquema de segurança tinham desorientado Feargus O’Connor, líder dos cartistas e representante parlamentar de Nottingham. Passara vários dias sem conseguir dormir. Revirando-se na cama na noite anterior, decidiu que conduziria a manifestação num espírito conciliador. Poderia mandar que os cartistas atacassem, na esperança de desbaratar e derrotar soldados e policiais, como acontecera em vários países europeus, mas sua intuição lhe disse que seria inútil. No dia do protesto, seus temores se confirmaram: apareceram somente 23 mil manifestantes, apenas um décimo do número esperado.
O’Connor se postou no palanque montado em Kennington, cercado de bandeiras dizendo NO SURRENDER! [Não nos renderemos!”], e orientou os seguidores a não enfrentarem a polícia. A maioria obedeceu, e houve apenas uma ou outra escaramuça. Os líderes concordaram em entregar a petição — que, descobriu-se mais tarde, trazia uma infinidade de nomes falsos, inclusive “rainha Vitória” — às duas casas do Congresso em três charretes. Lord Palmerston disse que foi “o Waterloo da paz e da ordem”. Vitória vibrou com o triunfo da legalidade britânica:
Que bênção!… A lealdade de todas as classes, a excelente organização das Tropas e da Polícia, a
eficiência das Guardas Especiais, classes altas e baixas, Lords, Comerciantes — e a determinação
de pôr termo aos procedimentos — se necessário, à força — sem dúvida foram a causa do fracasso
do Comício. É motivo de orgulho para este país e confio fervorosamente que terá efeito benéfico
em outros países.30
Albert também se sentiu aliviado, embora continuasse a monitorar as brigas de rua e os comícios cartistas — alguns chegando a 50 mil participantes. Comentou com Stockmar sobre a organização sofisticada do movimento, com códigos secretos e pombos-correio. Também escreveu ao primeiro-ministro Russell, dizendo-lhe que suas pesquisas pessoais indicavam uma quantidade desalentadora de desempregados em Londres, sobretudo porque o governo cortara as verbas para obras básicas. Sugeriu que o governo procurasse maneiras de gerar empregos e de retomar projetos de assistência aos desempregados. Também relembrou ao premiê que era
obrigação do governo ajudar o operariado em tempos de crise.31
O príncipe consorte não conseguiu se livrar de um sentimento melancólico em relação à Europa em 1848. A morte recente da avó o entristecera muito e ele entrara numa forte depressão. O trabalho era incessante: “Não me lembro de ter passado tanto tempo preso na labuta como estou agora. A mera leitura dos jornais ingleses, franceses e alemães absorve quase todas as horas vagas do dia; e não se pode deixar passar nada
sem que se percam os elos e assim se chegue a conclusões erradas”. 32 Em março de 1848, ele pedira a Stockmar que o acompanhasse nas viagens e dividisse o fardo: “Sinto um peso no coração. Diariamente perco peso e força. A guerra europeia está a nossas portas… Preciso de amigos. Venha, se tem amor por mim”.
Vitória procurava dissuadi-lo de uma visão tão sombria do futuro, mas Albert vivia tão “sobrecarregado de atividades” que era acometido de insônia. Acordava todos os dias de madrugada e não conseguia adormecer outra vez. Volta e meia Vitória despertava e via o marido de olhos fitos nas colunas da cama, remoendo mentalmente os problemas. Levantava-se às sete, ia até a escrivaninha e acendia a lâmpada verde, enquanto a esposa dormia. “Minha gratidão não cobre nem metade de tudo o que ele faz para
me ajudar”, escreveu Vitória com leve sentimento de culpa.33
A gravidade da violência na Europa teve efeito duradouro sobre a rainha. Continuava assustada com a ameaça constante, ainda que latente, de um ataque. A maldição dos cartistas parecia quase bíblica: em junho de 1848, durante uma chuva torrencial em Osborne, milhares de sapos pululavam
pelo terraço e pelas encostas, “como uma praga”.34 Três dias depois, veio a falsa notícia de que os cartistas iam invadir o lar da família; os serviçais se
postaram nas aleias armados de bastões.35
Quatro dias depois, voltando à noite do teatro, Vitória ficou realmente amedrontada; recebera o aviso de que os cartistas estavam de emboscada, para atacá-la no escuro. Enquanto a carruagem rumava para o palácio, um homem se aproximou correndo até a janela aberta do lado de Albert,
murmurando várias vezes “um assassino de verdade”. 36 Foi prontamente detido — e descobriram que era louco —, mas Vitória passou horas sentindo medo.
Todos os dias, Vitória e Albert recebiam um enorme lote de despachos urgentes da Europa, que um repassava ao outro nas escrivaninhas de madeira, encostadas entre si. A carga de trabalho era extraordinária. Em 1848, somente o Departamento das Relações Exteriores lhes enviou 28 mil despachos, sobre os mais variados assuntos, desde os cartistas e as revoluções europeias ao impacto devastador do aumento das tarifas sobre o açúcar nas Índias Ocidentais (onde também se enfrentava o impacto econômico da abolição da escravatura) e o ambicioso rei da Sardenha. Vitória e Albert escreviam cartas em conjunto, corrigiam as minutas enviadas pelo premiê e pelo ministro das Relações Exteriores, enviavam cartas a inúmeros políticos nacionais e estrangeiros e preparavam memorandos sobre eventos oficiais. Envolviam-se intensamente em toda a correspondência com outros países. Ajudavam o governo a formular de maneira nuançada suas manifestações de apoio a governos legítimos e, sempre que podiam, auxiliavam parentes e aliados. O tio Leopoldo e seu reino relativamente tranquilo da Bélgica continuavam a ser para eles um farol de paz na Europa.
O ministro das Relações Exteriores nessa época era Lord Palmerston, homem com uma convicção inabalável sobre seus próprios talentos diplomáticos. Conhecido como Lord Cupido por ter sido um grande galanteador quando solteiro, em 1848 ainda era uma bela figura, com 54 anos, agora casado com Emily, a inteligente irmã de Lord Melbourne. Quando a rainha era mocinha, Palmerston lhe parecera uma pessoa agradável, mas agora Albert e ela desconfiavam dele. Numa noite de inverno de 1839, foi flagrado no quarto de uma das damas de companhia, onde estaria alegadamente tentando abusar dela até que seus gritos soaram pelos corredores e ele fugiu do aposento. Palmerston insistiu que estava apenas perdido; na verdade, entrara no quarto achando que ali estaria Lady
Emily Lamb, que na época era sua noiva. 37 Mas Albert ficou em dúvida e, uma década depois, recorreu a esse caso para se pronunciar contra
Palmerston.38
Lord Palmerston era um intervencionista liberal unilateral, com tendência a apoiar os movimentos de independência e os rebeldes europeus. Ministro whig que começara a carreira como tory, seu tratamento da política externa era muito diferente do de Vitória e Albert. O casal tinha suas próprias preferências, querendo manter uma aliança próxima entre a França e a Inglaterra e apoiando o domínio territorial austríaco na Itália (Palmerston queria a independência e a unificação da Itália, e secretamente encaminhava armas aos rebeldes italianos). Albert queria uma Prússia forte comandando uma Alemanha unificada. Mas os atritos do casal com o ministro das Relações Exteriores se referiam não só à sua linha política, mas também à sua conduta. Desagradava-lhes que Palmerston não os consultasse nem seguisse seus conselhos, além de enviar despachos sem os submeter à leitura prévia do casal. Já em 1841, Vitória o repreendera por desrespeitar os procedimentos. Palmerston redigiu uma resposta tipicamente polida e afável, assegurando à rainha que iria providenciar que isso nunca mais acontecesse, ao mesmo tempo continuando placidamente a ignorá-la na prática. Vitória e Albert o consideravam perigoso.
Para Vitória, a política externa era parte central do papel de um monarca, pois envolvia questões de guerra e paz. Acreditava que um dos aspectos mais importantes de seu cargo era defender “a dignidade, o poder e o prestígio” da Grã-Bretanha. Enquanto Palmerston era voluntarioso e impulsivo, ela se considerava acima das intrigas políticas, mais apta a “manter em todas as circunstâncias uma cortesia digna e sincera em relação
a outros soberanos e seus governos”. 39 A seu ver, Palmerston tinha a obrigação ministerial de mantê-la plenamente informada, de obter seu consentimento, adotar seus conselhos e não alterar posteriormente os documentos e as linhas de ação que ela já tivesse aprovado.
Em 20 de agosto de 1848, Vitória redigiu uma nota de advertência a Palmerston depois de descobrir que uma “carta particular” dirigida a ela fora “aberta no Ministério das Relações Exteriores”. Poucos dias depois, repreendeu-o novamente por não a ter atualizado sobre o conflito entre a
Áustria e a Sardenha. 40 A rainha também se enfureceu com uma série de despachos arrogantes e ditatoriais de Palmerston à Espanha e depois a Portugal — ignorando as recomendações do primeiro-ministro, que era seu superior. Palmerston queria ajudar a livrar a Itália do domínio austríaco e converter Veneza numa república, o que Vitória considerava abominável: por que ajudar esses rebeldes estrangeiros quando estavam enfrentando
problemas com seus próprios rebeldes na Irlanda?41
Vitória e Albert, em reservado, chamavam Palmerston de “Pilgerstein”, ou o filho do diabo. (Isso foi depois eliminado pelos editores na
correspondência oficial de ambos.)42 Vitória falou ao primeiro-ministro Lord John Russell que não suportaria mais ver Palmerston em ocasiões sociais, pois não conseguiria tratá-lo com respeito. Avaliou com Russell as maneiras de se verem livres dele — talvez um cargo no exterior, na Irlanda, por exemplo. Vitória achava que Russell demonstrava “lamentável fraqueza” por não enfrentar Palmerston, mas o premiê temia pôr em risco o apoio dos radicais e liberais comandados por Palmerston. Houve um vaivém constante de cartas irritadas entre a rainha e seu ministro do Exterior, principalmente entre 1848 e 1851. Vitória anotou em seu diário,
muitas vezes durante dias seguidos, o desprezo que sentia por Palmerston.43
Mas, fora do palácio, a popularidade de Palmerston era enorme, sendo o único ministro do governo a ter seguidores entre o público. Era visto por amplos setores como herói democrático e gostava de gestos teatrais e grandiosos. Em 1850, meteu-se numa embrulhada quando a casa de um português, dom Pacífico, em Atenas foi saqueada. Pacífico tentou obter uma enorme indenização do governo grego, mas não conseguiu. Como era natural de Gibraltar, ele recorreu ao governo britânico como súdito da Coroa. Numa iniciativa inacreditável, Palmerston determinou que se enviasse uma frota ao Pireu para lhe mostrar o apoio oficial do governo. Vitória e Albert ficaram coléricos e a Câmara dos Lordes condenou as ações do ministro, mas, depois de um longo e inspirado discurso de Palmerston, sua conduta imprópria foi saudada na Câmara dos Comuns como um ato de heroísmo. Aclamaram sua ideia de que todo cidadão britânico devia ser obrigatoriamente defendido, em qualquer hipótese. Incentivado por esse amplo apoio, Palmerston ignorou as sugestões de Vitória e Albert na minuta de um despacho a ser enviado ao ministro britânico na Grécia. A rainha disse que não admitiria “que um servidor da Coroa e seu ministro aja contra
suas ordens, e isso sem seu conhecimento”.44 Tal conduta prosseguiu por anos a fio — o unilateralismo de Palmerston, as objeções de Vitória, a intervenção relutante de Lord John Russell, as desculpas fingidas de Palmerston. Quando as exageradíssimas reivindicações de dom Pacífico finalmente foram atendidas, anos depois, ele recebeu apenas uma pequena fração do que pleiteara de início. Por esse valor insignificante, pensou Vitória, a Inglaterra quase entrara em guerra, despertara a ira da Grécia e a
antipatia da França.45
Em agosto de 1850, após o fiasco grego, Vitória escreveu ao primeiro-ministro Russell, expondo com firmeza suas reclamações contra Palmerston e frisando suas expectativas de que seus ministros a mantivessem plenamente informada, de maneira imediata e respeitosa. Do contrário,
disse a rainha, ela iria utilizar seus poderes constitucionais para demiti-lo.46 Palmerston foi ver Albert com lágrimas nos olhos, dizendo ter pensado que sua única divergência com a rainha era de linha política. Sua contrição foi apenas passageira e logo depois recomeçaram as escaramuças.
Em 1850, o general austríaco Julius Jacob von Haynau, um sádico despótico que tratara os rebeldes na Áustria com grande brutalidade, esteve em visita na Inglaterra. Alguns operários o reconheceram; atiraram-lhe projéteis na cabeça e o arrastaram pela rua puxando-o pelo longo bigode grisalho. Vitória ficou horrorizada que atacassem um estadista estrangeiro em seu país; mas o liberal Palmerston achou que “o carniceiro austríaco” merecia. Por outro lado, quando o líder rebelde húngaro Lajos Kossuth percorreu a Inglaterra discursando contra os imperadores da Áustria e da Rússia, Palmerston quis logo recebê-lo. Mas teve de cancelar o convite depois das objeções do gabinete ministerial e das ameaças de Vitória de demiti-lo. No entanto, dez dias depois, Palmerston recebeu uma delegação de radicais que se referiram aos imperadores da Áustria e da Rússia como déspotas e tiranos. Greville declarou que essa provocação constituía “uma
ofensa sem precedentes”.47
O erro mais caro e derradeiro de Lord Palmerston foi sua declaração unilateral de apoio a Luís Napoleão, quando o rei francês mandou prender os líderes da Assembleia Nacional em Paris, em dezembro de 1851, e num golpe de Estado proclamou-se imperador vitalício. O governo britânico decidira se manter neutro, instruindo o embaixador a não apoiar nenhum dos lados. Palmerston, porém, congratulou o embaixador francês e manifestou seu apoio ao golpe, o que foi extremamente constrangedor para o governo britânico. Lord John Russell finalmente o dispensou, e Vitória ficou muito contente.
Ninguém conseguiria persuadir a rainha de que uma revolução podia ser boa coisa. Em agosto de 1848, ela afirmou: “Sustento que revoluções são sempre ruins para o país e causa de miséria indescritível para o povo. A obediência às leis e ao soberano é a obediência a um poder superior, divinamente instituído para o bem do povo, não do soberano, que tem tanto
deveres quanto obrigações”. 48 Para Vitória, a hierarquia era divina: homens são chefes da casa, soberanos são chefes do Estado. A seu ver, a paz no casamento e no país requeria obediência — muito embora sua própria obediência raramente se manifestasse. Surgira uma forte corrente de simpatias liberais na Europa, mas, por ora, a Inglaterra continuava em segurança e poucas coisas haviam mudado.
Na Irlanda, a safra de batatas de 1848 falhara outra vez e o povo nas ruas
de Dublin clamava por alimentos. 49 O Parlamento britânico ficou tão preocupado com a possibilidade de uma rebelião que suspendeu o habeas
corpus, e assim as pessoas na Irlanda podiam ser presas sem mandado.50 A ira latente no país empobrecido ameaçava apenas piorar. Em 1848, apreensiva com os acontecimentos na Europa, Vitória estava plenamente convicta de que qualquer irlandês descontente devia ser “esmagado” e receber uma lição. Mesmo na época, suas posições foram consideradas
excessivas.51
A Grande Fome da Batata, uma das maiores calamidades do século, semeara o ódio na Irlanda contra os britânicos e desencadeara a emigração em massa. A população irlandesa tinha disparado no começo do século XIX, mas entre 1846 e 1851 despencou de 8 para 6,5 milhões de pessoas. Cerca de 1 milhão de habitantes morreram de fome, e outros de disenteria e cólera. Entre os restantes, 3 milhões dependiam de assistência do governo para sobreviver. A inércia dos ingleses em estancar a enorme mortandade criou um mal-estar permanente entre os dois países. Entre 1801 e 1841, houve 175 comissões e comitês sobre a situação da Irlanda — todos previram a calamidade e nenhum forneceu aos irlandeses condições para transporem o crescente abismo de miséria em que o país se despenhava. Muitos viviam apenas de água e batatas.
Há historiadores que qualificam de genocídio a morte de mais de 1 milhão de pessoas à fome — mas ela foi causada basicamente por fanatismo e negligência cega, e não por um assassinato em massa deliberado. Muitos políticos britânicos estavam mais empenhados em reformar a economia irlandesa e implantar seus ideais de livre-comércio do que em prevenir a mortandade. Grande parte da relutância em tomar qualquer medida se devia aos preconceitos contra os irlandeses e à crença de que eram fracos, propensos ao crime, acomodados vivendo à custa alheia; muitos tomavam a fome não só como prova dos defeitos do caráter irlandês, mas também como sinal do descontentamento de Deus. A culpa recaiu, um tanto injustamente, sobre os ombros de Vitória. Chamavam-na de “a rainha da fome” e foi acusada de negligência e falta de compaixão. Ela fez uma doação de 2 mil libras (cerca de 200 mil libras nos valores de hoje), a maior doação individual de auxílio à Irlanda, a qual, porém, foi criticada e considerada insuficiente; publicou duas cartas conclamando o público a fazer doações para a Irlanda; racionou o consumo de pão no palácio; encomendou peças de popelina irlandesa; concordou em impor a observação dos dias de jejum em apoio aos pobres. Doou mais quinhentas libras em 1849.
É muito forçado responsabilizar Vitória pela fome irlandesa, embora ela pudesse ter feito muito mais em prol de uma causa que se tornara impopular, e só tomou várias de suas iniciativas públicas por insistência do primeiro-ministro, Lord John Russell. De início, ela tinha críticas aos latifundiários tirânicos, mas, quando alguns dos que conhecia pessoalmente
foram assassinados, sua simpatia pelos arrendatários se dissipou.52
Albert se preocupava tanto com as causas quanto com os resultados das revoltas. Simpatizava muito mais com os trabalhadores do que com os aristocratas, dizendo que eram os que “tinham a maioria do trabalho e a
minoria dos prazeres deste mundo”.53 Numa reunião a que presidiu em maio de 1848 na Sociedade para a Melhoria da Condição das Classes Trabalhadoras, Albert afirmou que, embora os conjuntos habitacionais, as linhas de crédito e os loteamentos que o governo criara fossem importantes, qualquer melhoria nas condições “deve resultar do esforço dos próprios trabalhadores”, sem ser ditada por capitalistas. Apresentou quatro princípios essenciais para a melhoria da condição do operariado: educação para os filhos com formação prática na indústria, melhoria habitacional, concessão
de terrenos com casas e criação de caixas econômicas. 54 Recebeu elogios nas matérias da imprensa.
Os políticos de extrema direita se irritavam com o ativismo político de Albert. Comentou com o irmão, em maio de 1849, que os “ultra-tories” detestavam que ele trabalhasse “energicamente… contra seus projetos”. Seu desagrado pela aristocracia era notório e Albert era claro sobre os objetivos de seu trabalho: “A divisão desigual da propriedade e os resultantes perigos da pobreza e inveja constituem o grande mal. É absolutamente necessário encontrar meios não para diminuir as riquezas (como querem os comunistas), e sim para criar facilidades para os pobres. Mas aí é que reside
o problema”.55 Tais observações mostram que Albert estava lidando com as questões levantadas pelas revoluções europeias — e esperando, ao tratar delas, conter a insatisfação local. Ao contrário da esposa, decidida a aniquilar a dissidência, ele queria preveni-la. Eram ideias raras em sua posição social.
Albert tinha o cuidado de tratar bem seu pessoal e era aplaudido por tentar melhorar a vida dos que viviam presos em estruturas desiguais. Por exemplo, quando foi mestre da Trinity House, os lastradores de navios lhe deram o título de Albert, o Bom, pois ele descobrira que os lastradores só recebiam trabalho por intermédio de taberneiros, os quais insistiam que bebessem antes de trabalhar, deixando-os num estado lastimável, e o
príncipe ajudou a corrigir esse problema.56
Também organizou um sistema de aposentadoria para criados, depois de ler um informe sobre albergues e perceber o número desproporcional de ex-criados entre os albergados. Uma referência negativa de um único patrão podia lançá-los na miséria. Setenta por cento dos criados na Inglaterra ou em Gales — quase 700 mil — terminavam em albergues ou asilos de caridade. Tais são as iniciativas que revelam os clarões de gênio de Albert, bem como sua estatura e seu potencial como monarca em exercício.
No final das contas, a Irlanda não se revoltou, em larga medida porque o povo estava faminto demais. A Grã-Bretanha escapou ilesa à turbulência de 1848. Os aristocratas whigs continuavam a comandar o Parlamento, Vitória ainda usava a coroa, a Grã-Bretanha prosseguia em seu avanço pelo globo, anexando terras e dominando os mares. No fim do ano, Luís Napoleão Bonaparte foi eleito presidente da França. Houve vários tumultos na Prússia e na Áustria, mas a Europa, de modo geral, readquirira a estabilidade. As principais mudanças democráticas reivindicadas pelos dissidentes em 1848 só vieram a se concretizar, na maioria dos países, no final dos anos 1860. Como afirma o historiador Miles Taylor: “Tanto para os contemporâneos quanto para os pósteros, 1848 foi o ano em que a peculiaridade britânica
pareceu se ressaltar uma vez mais”.57 A Grã-Bretanha evitou a revolução por várias razões: uma classe média leal que amava a rainha, um governo que empregava impiedosamente a força quando necessário, políticos perspicazes como Peel que criaram leis reduzindo o custo dos alimentos. Além disso, ao transferir os dissidentes mais radicais para colônias distantes como a Austrália, o governo pôde remover alguns dos principais líderes
políticos da independência irlandesa e dos movimentos cartistas.58 E por último, naquela época, a Grã-Bretanha simplesmente não era a terra dos
revolucionários. Vitória sentia imenso orgulho disso.59
Em 29 de junho de 1850, o ex-premiê Robert Peel foi arremessado da sela e pisoteado por seu cavalo, que lhe quebrou clavícula, a parte de trás do ombro e uma costela que perfurou seus pulmões. Sua casa em Londres ficou cercada por multidões durante horas a fio, esperando os policiais lerem uma série de preocupantes boletins médicos e escrutando a expressão no rosto dos visitantes que entravam e saíam. Peel morreu três dias depois. Vitória comentou que Albert sentiu profundamente e “perdeu um segundo
pai” — o homem que fora seu aliado para subir ao poder.60 Albert escreveu à duquesa de Kent: “Golpes e mais golpes têm recaído sobre nós… E agora a morte nos levou Peel, o melhor dos homens, nosso mais leal amigo, o baluarte mais sólido do trono, o maior estadista de sua época”. A
popularidade de Peel à morte era enorme.61 Quase 500 mil pessoas doaram um pêni cada uma para um fundo criado em seu nome, destinado a comprar livros para associações e bibliotecas de trabalhadores.
Foram anos duros para Vitória e Albert. “Cada dia”, escreveu o príncipe em julho de 1850, “traz uma nova dor.” No final dos anos 1840, vários amigos próximos morreram numa sucessão de espantosa rapidez; cada perda era um grande golpe e o príncipe ficou ainda mais solitário. Em novembro de 1849, George Anson, secretário particular e grande amigo do príncipe, morreu aos 37 anos de idade. Albert o pranteou como a um irmão,
escreveu Vitória.62 A majestosa rainha Adelaide, viúva do rei Guilherme IV e tia de Vitória, faleceu em dezembro de 1849. Em julho de 1850, foi a vez do duque de Cambridge, tio de Vitória. Então, em agosto de 1850, Luís Filipe, antigo rei da França, morreu no exílio em Claremont. Em outubro, o
tio Leopoldo perdeu sua segunda esposa, a amada Louise.63 Vitória ficou inconsolável.
O único que restou para aconselhar o príncipe foi Stockmar, o leal conselheiro da família que agora morava na Alemanha; Albert lhe escrevia assiduamente, rogando que viesse para a Inglaterra. Albert se levantava uma hora antes de Vitória para responder às cartas e trabalhava até a meia-noite. Começou a ficar com aparência “pálida e exausta”, como disse Vitória, ganhando peso e acordando muito cedo, ainda torturado pela insônia.
Apesar da melancolia, a determinação de Albert não fraquejou. Prestes a completar trinta anos em 1849, finalmente estava pronto para governar sozinho. A Inglaterra estava em paz, Vitória se sentia contente e Albert agora atuava como monarca, com a permissão da esposa. Se era para haver uma era albertina, com suas características de prudência, zelo religioso, operosidade, energia e determinação, seria a década seguinte. Nos anos 1850, o príncipe consorte — prematuramente envelhecido, preocupado, mas muito capaz — iria alcançar seus plenos poderes.
* A menina roliça e graciosa se tornou em idade adulta uma escultora de opiniões firmes, com simpatia muito maior do que a mãe pelos movimentos sociais, como o direito de voto. No primeiro aniversário da “boa filhinha”, Vitória escreveu: “Ela nasceu nos tempos mais agitados e, portanto, há de ser algo peculiar”. Queen Victoria’s Journal, domingo, 18 de março de 1848.