Vitória, a rainha
3. A princesa malcriada e solitária
[Vitória] é tão vigiada que nenhuma criada tem sequer um momento para
cochichar “Você é herdeira da Inglaterra”. Imagino que, se pudéssemos
dissecar o coraçãozinho, descobriríamos que foi avisada por algum pombo ou
outro passarinho.
Sir Walter Scott, 18281
Vitória era uma menina insolente e de pavio curto. Detestava ficar quieta, detestava tomar remédio, detestava receber ordens. Quando seu professor de piano, sr. Sale, lhe disse que devia praticar como qualquer outra pessoa, ela bateu com força a tampa do piano e gritou: “Aí é que está! Não há
nenhum deve nisso”.2 Tantos deve em sua vida apenas aumentavam sua
rebeldia. Em 1830, sua governanta, a baronesa Louise Lehzen,3 obrigou
Vitória a registrar suas explosões em “livros de conduta”. 4 Às vezes, ela anotava três acessos no mesmo dia, escrevendo: “Muito malcomportada e impertinente com Lehzen”. Em 21 de agosto de 1832, ela foi “muito muito muito tremendamente MALCRIADA” (os “muito” estão sublinhados três vezes e “malcriada” quatro). Em 24 de setembro de 1832, à tarde, Vitória escreve que foi “MUITO MUITO MUITO MUITO MEDONHAMENTE MALCRIADA!!!!!” — a frase toda sublinhada quatro vezes —, mas, em seu diário, ela anotou apenas que “o calor estava imtolerável [sic]”. Quando escrevia exercícios de composição, suas redações eram sobre crianças
mimadas e desobedientes que precisavam se arrepender ou ser castigadas. 5
As redações da jovem princesa também mostravam como lutava contra a necessidade de ser comportada e sonhava em que lhe fizessem as vontades, em vez de ser repreendida. Numa redação, que escreveu aos sete anos, ela discorreu sobre uma “menina malcriada” chamada An. O texto dizia (com os erros incluídos):
A pequena An era muito malcriada gulosa e desobediente. Ninguém gosta de ficar perto dela pois
era muito desagradável.
Um dia o pai dela deu uma festa e veio muita gente fina; e a pequena [A]n teve permissão de
entrar na sala. Quando alguém falava com ela virava as costas e não respondia. Como seu querido
pai queria agradá-la, então ela teve permissão de jantar com seu papai; sua mãe (que era a favorita
dela) dava tudo o que ela pedia e dava seus doces em provusão. Ane sentou entre a Lady D— e sua
mamãe; An incomodou tanto a pobre da velha Lady D— que ela disse para sua mãe: “Madame,
sua filha é muito malcriada e impertinente”. A sra. G— que era a mãe de An ficou vermelha de
raiva. Na verdade madame peço sua licença para ir com minha queridinha Ane querida. Ela vai e
sai da sala com An e um prato cheio de doces na mão.6
São palavras de uma menina que conhece o prazer e os perigos de ser mimada. Vitória vivia testando não só Lehzen, mas também seu preceptor, o reverendo George Davys. Quando a mãe disse a Vitória, então com quatro anos, que lhe daria um prêmio se se comportasse durante a primeira visita de Davys, ela tentou negociar, pedindo para receber o prêmio antes. Quando Davys sugeriu que estudassem a letra o, ela disse que preferia o h.
Mas, apesar de seu temperamento, Vitória tinha bom coração e era honesta. Um dia, a duquesa disse ao preceptor da menina: “Hoje de manhã ela está boazinha, mas ontem foi um tormento”. Vitória acrescentou: “Dois
tormentos, um com a roupa, outro com o banho”.7 Sua teimosia era, em parte, alimentada pelas bajulações da criadagem do palácio, bem como pelas visitas importantes que apareciam regularmente. Ela adquiriu clara consciência de sua posição. Certa vez, disse a uma menina que a visitava, Lady Ellice, que tentou brincar com alguns brinquedos seus, entre eles um sofazinho de boneca de cetim branco e três pequenas bailarinas: “Você não deve tocar neles, são meus. E eu posso chamar você de Jane, mas você não
pode me chamar de Vitória”.8 Era como se ela fosse incentivada a ser superior, e tanta adulação levava à arrogância. Feodora, sua meia-irmã doze anos mais velha, escreveu mais tarde a Vitória, comentando a respeito da baronesa Späth, dama de companhia da mãe delas: “Era uma espécie de
idolatria, quando ela se ajoelhava à sua frente, quando você era pequena”.9 Bispos engatinhavam nos tapetes para brincar com ela, aristocratas marcavam presença durante suas aulas. Mais tarde, Vitória admitiu que sabia ser o “ídolo da casa” e às vezes desafiava as pessoas a enfrentá-la. Uma vez, avisaram para ela que seu tio, o duque de Sussex, iria castigá-la caso ela gritasse. Ela passou a se esgoelar toda vez que ele aparecia por perto.
Sendo uma menina que tinha tudo, cavalos para montar, viagens regulares à praia, atendentes que a adoravam, talvez seja surpreendente que Vitória
dissesse mais tarde que teve uma infância bastante triste.10 Reclamou que o Palácio de Kensington era desconfortável, sujo e infestado de besouros. Uma vez, quando lhe perguntaram o que queria de aniversário, ela respondeu que queria que limpassem os vidros das janelas. Mas, apesar de todos os seus brinquedos, roupas finas, animais de estimação e passeios de mula, o que realmente lhe faltava eram amizades. Mais tarde, contou à sua filha mais velha: “Tive uma vida muito infeliz quando criança; não podia exprimir meus fortíssimos sentimentos de afeição, já que não tinha irmãos nem irmãs para conviver. Nunca tive pai. Em minhas infelizes circunstâncias não mantinha uma relação boa nem minimamente próxima ou íntima com minha mãe… e não sabia o que era uma vida doméstica
feliz!”.11 Não se trata apenas do rigor inflexível de uma avaliação retrospectiva — sua irmã Feodora pintou mais tarde um quadro igualmente desalentador:
Foi muito duro ter sido privada de qualquer relação, sem qualquer pensamento alegre naquela
nossa triste existência. Minha única hora feliz era sair com você e Lehzen, a pé ou de coche; então
eu podia falar e ficar à vontade. Escapei a alguns anos de prisão que você, minha pobre irmã
querida, teve que suportar depois que me casei.12
Vitória tinha apenas nove anos quando Feodora se casou e mudou para a Alemanha, em 1828; ela ficou desolada. A partir de então, vivia sob a vigilância constante e sufocante dos adultos. Dormia todas as noites no quarto da mãe, com alguém velando até a hora em que a mãe se recolhia. Mesmo quando regava flores, havia um criado de libré escarlate a seu lado.
Aos dez anos, Vitória descobriu que era a terceira na linha de sucessão. Foi em 11 de março de 1830, quando estava sentada à sua pequena escrivaninha, tentando se concentrar nos livros. Havia um ramo de azevinho preso na frente de seu vestido de veludo e rendas, que a obrigava a manter o
queixo erguido e as costas retas.13 Lá fora, o sol derretia o gelo depois de um intenso frio que congelara partes do Tâmisa, e ela estava doida para ir passear a cavalo, sentada de lado na sela, galopando pelos jardins de Kensington. Montar era a coisa mais próxima da privacidade que podia ter. Começou a folhear o livro de Howlett, Tables of the Kings and Queens of England [Tabelas dos reis e rainhas da Inglaterra] e franziu a testa ao deparar com uma página que nunca vira antes: um quadro da árvore genealógica da família real britânica, com uma linha levando ao trono. O rei na época era Jorge IV, seu tio enfermiço e recluso. A seguir vinha o irmão dele, seu tio Guilherme. Depois vinha seu nome. Vitória explodiu em
lágrimas: “Eu estava mais próxima do trono do que imaginava”.14
Trinta anos depois, a baronesa Lehzen, que fora contratada inicialmente como preceptora de Feodora e depois fora nomeada governanta de Vitória, então com cinco anos, criou uma versão altamente adornada daquele momento. Segundo ela, Vitória disse em tom solene: “Ora, muitas crianças se gabariam, mas não conhecem as dificuldades. O esplendor é grande, mas
a responsabilidade é maior”.15 Ainda segundo Lehzen, Vitória ergueu o indicador ao ar e declarou: “Eu serei boa!”. Essas frases amplamente reproduzidas — demasiado formais e empertigadas para uma menina de dez anos — criaram um mito em torno de um momento desgastante e intimidador. E, embora muitas mães talvez preferissem avisar pessoalmente suas filhas de uma notícia tão importante, a duquesa de Kent ficou feliz que
Vitória tomasse conhecimento de sua situação como que por acaso. 16 (Pouco tempo antes, dois bispos que foram avaliar a educação de Vitória haviam recomendado à mãe que pusesse a filha a par da situação.) Claro que Vitória já desconfiava de sua importância antes desse episódio — por qual outra razão tanta gente se curvaria e faria reverências a uma menina tão pequena? E ainda por cima ignorando sua meia-irmã? Mas a confirmação foi preocupante. Décadas depois, o príncipe Albert revelou que Vitória ficara “muito infeliz” ao descobrir como estava próxima do trono.
“Chorou muito ao saber, e até lamentou essa contingência.”17 Três meses depois, o rei Jorge IV, seu tio, morreu.
Naquele 11 de março de 1830, quando Vitória descobriu seu possível destino, várias crianças que se tornariam grandes figuras da Era Vitoriana também estavam debruçadas sobre seus livros. Florence Nightingale, um ano mais nova do que Vitória, estava montando com o primo uma casinha de brinquedo em Winchester, cobrindo um sofá com urze e tentando remover a umidade das camas mofadas. (Demonstrando um talento natural para a organização, a menina Florence desenhou placas com “Frutas” e “Vegetais”, mostrando as pinhas, bolotas e vários objetos que usavam para representar pêssegos, pepinos, ervilhas e batatas na copa da casinha de
brinquedo.) 18 George Eliot — então Mary Ann Evans — estava com dez
anos, escrevendo redações impecáveis em seu internato em Nuneaton.19 (A criação de Evans era diferente da habitual: as mães geralmente educavam as filhas em casa ou em escolas que se concentravam em ensinar obediência, costura, desenho e música.) John Ruskin, o futuro crítico de arte, estava com onze anos, educado pelos pais em casa, em Surrey. Charles Dickens acabava de fazer dezoito anos e passava a maior parte do tempo trabalhando na Sala de Leitura do Museu Britânico, onde aprendia taquigrafia para poder se lançar como jornalista. Alfred, Lord Tennyson, que era um pouco mais velho que Dickens, sentia-se infeliz estudando em Cambridge. Todos se tornariam grandes nomes, mas sempre ultrapassados pela mulher que, antes, tinha sido aquela menina de dez anos aos prantos, no Palácio de Kensington.
***
Vitória só confiava numa pessoa: sua governanta. A baronesa Lehzen, filha de um pastor luterano de Coburgo, era uma mulher inteligente, excêntrica e decidida que dedicou a vida a garantir que Vitória viesse a ser uma rainha enérgica e capaz.
Vitória, que se tornou prolífica artista, desenhou retratos afetuosos da baronesa, com os cabelos escuros, olhos pensativos, nariz e queixo pontudos, com aparência séria, paciente e bondosa. A única coisa que gostava de comer eram batatas, e tinha o hábito de mastigar sementes de cominho para melhorar a digestão. Lehzen era frequentemente objeto de críticas por parte daqueles que se ressentiam de sua influência sobre a jovem princesa, mas ela era a única pessoa que pensava exclusivamente nos interesses de Vitória. Por causa disso, conquistou sua confiança e afeto e nunca traiu esses sentimentos. Quando Vitória adoecia, Lehzen ficava a seu lado, costurando roupinhas de bonecas em silêncio, enquanto a mãe de Vitória continuava a viajar e a visitar os amigos. Se Lehzen adoecia, Vitória sentia sua falta. Foi dito mais tarde: “A princesa era seu único objeto de
atenção e seu único pensamento…20 Nos treze anos em que foi governanta da princesa Vitória, nunca a deixou uma só vez”.
A maior preocupação de Lehzen era que Vitória ficasse protegida, recebesse uma boa educação e se tornasse uma rainha de espírito firme. Foi muitas vezes acusada de ser a responsável pela atitude desafiadora e independente de sua pupila, mas Lehzen apenas identificara e alimentara a determinação inata da princesa. Ela disse a Vitória: “Certamente não criei, mas nutri na princesa uma qualidade, a qual é avaliar, considerar e defender
com firmeza aquilo que julga bom e correto”.21 Na época, a mera sugestão de que valia a pena cultivar o intelecto das meninas e de que a força era uma qualidade importante numa jovem já era uma grande provocação. Embora Vitória considerasse Elizabeth I uma boa dirigente, mas uma mulher cruel e indecorosa, Lehzen disse a um dos Conroy que Elizabeth era
o “modelo de perfeição”, 22 acrescentando que podia “perdoar a maldade
numa rainha, mas não a fraqueza”. 23 Apesar de ter seus defeitos, Vitória nunca foi fraca. Era uma criança rápida, inteligente, que gostava de alquimia e detestava latim e anatomia. Mas suas maiores paixões eram mais artísticas do que acadêmicas: dança, canto, desenho, teatro, ópera e balé. Vitória era uma menina que falava e sonhava com entusiasmo.
Muitos comentavam que Vitória se parecia mais com os homens do que com as mulheres da família. Em certos aspectos, isso era uma pena, em vista da tendência hanoveriana masculina a ter físico troncudo e rosto redondo, com queixo retraído, nariz grande e olhos saltados. De fato, ela nunca foi uma grande beldade e sempre lutou com seu peso, embora às vezes — sobretudo quando era pequena ou quando apaixonada ou quando ria — certamente fosse encantadora. Os retratos mostram seu belo pescoço, as maçãs do rosto delicadas, o arco límpido das sobrancelhas, a boca miúda. Parecia uma terna menininha: cabelo claro, rosto alegre e grandes olhos azuis emanando confiança. Lord Albemarle descreveu Vitória aos sete anos como uma “menina bonita e vivaz” que cuidava das flores sob a janela dele,
usando um largo chapéu de palha.24 Ao crescer, suas formas se afinaram, os cabelos escureceram e a expressão se tornou mais séria, tímida e imperiosa. As pinturas solenes não captam a leveza da voz nem a graça e desenvoltura dos gestos. Harriet Arbuthnot, amiga íntima do duque de Wellington, disse que Vitória aos nove anos era “a criança mais encantadora” que conhecera: “Uma criatura fina, bonita, de bela constituição, muito pueril e
brincalhona”.25
O que houve de mais incomum na educação de Vitória foi que seu temperamento explosivo nunca se extinguiu — e todas as tentativas iniciais de domá-lo falharam miseravelmente. Naquela época, as outras meninas aprendiam a ser dóceis e retraídas. A importante autora Hannah More escreveu no começo do século XIX que os meninos eram elogiados por terem “espírito arrojado, independente, empreendedor”, ao passo que qualquer tendência de uma menina nesse sentido devia ser suprimida quando descoberta. “As meninas devem ser ensinadas desde cedo a
renunciar a suas opiniões”, 26 escreveu More, “e não prosseguir obstinadamente numa disputa, mesmo que saibam estar certas… É da máxima importância para sua felicidade futura que adquiram um gênio
submisso e um espírito paciente.”27 Vitória era o oposto disso.
A jovem princesa adorava o que chamava de “diversão”. Tinha muito senso de humor e um grande talento para imitações e respostas rápidas. Segundo sua avó, era uma palhaça. Vitória também gostava de se fantasiar. Entre outros personagens, vestia-se como um velho advogado turco, com um grande turbante verde, barba branca e manto verde; uma freira, uma dama com turbante na cabeça; uma mulher de bandoleiro, com xale colorido e corrente de ouro. Volta e meia Leopoldo lhe dizia que a vida não se resumia à diversão — havia, por exemplo, o aprendizado e os exercícios físicos —, o que era de pouco consolo para uma adolescente irrequieta. Ela
retrucava: “O prazer faz mais bem do que cem caminhadas e cavalgadas”. 28 Dizia-lhe que “suspirava por alguma alegria”.
O que deixava Vitória mais feliz era receber visitas, e o que a fazia mais infeliz era quando iam embora. Adorou quando seus primos, os príncipes Alexander e Ernest de Würtemberg, chegaram em 1833, e escreveu: “Ambos são extremamente altos. Alexander é muito bonito e Ernst tem uma expressão muito gentil. Ambos são extremamente simpáticos”. Os primos lhe contavam histórias fascinantes sobre a Europa e as campanhas militares, e ela ficou desolada quando partiram: “Vamos sentir a falta deles ao desjejum, ao almoço, ao jantar, montando, velejando, dirigindo, passeando,
em tudo, na verdade”.29 No verão de 1833, a encantadora Feodora e seu casal de filhos, Eliza e Charles, hospedaram-se no Palácio de Kensington. Ao partirem, Vitória desenhou um retrato de sua pequena sobrinha Eliza em roupa de viagem, para dá-lo a ela, e escreveu numa longa divagação de
catorze páginas em seu diário:30
É para mim uma FELICIDADE TÃO TÃO GRANDE ter minha QUERIDÍSSIMA a mais
AMADA E QUERIDA irmã comigo em meu quarto… Nem consigo dizer quanto eu a amo… É
PAVOROSO DEMAIS para mim pensar que daqui a uma hora não verei mais o querido rosto doce
e gentil da queridíssima Feodora, e a lindezinha Eliza aos saltos de um lado e outro e o bom e
honesto Charles correndo pelo aposento. Fiquei tremendamente triste ao pensar na partida que a
abracei [Feodora] e nós duas choramos amargamente e nos abraçamos com toda a ternura…
Quando voltei para casa, estava numa tal tristeza que não sabia o que fazer. Solucei e chorei com
toda força durante a manhã inteira…31
Em 21 de setembro de 1836, quando Leopoldo deixou a casa de Vitória em Claremont depois de uma visita de seis dias, apenas uma hora e meia depois Vitória já lhe escrevia para dizer “que estou muito, muito triste que você nos deixou e para repetir que creio que você sabe muito bem quanto o amo”. A ideia de que ele estava de partida e talvez ela passasse um ano sem o ver “me faz chorar… É pavoroso nesta vida que a pessoa esteja destinada, especialmente minha infeliz pessoa, a viver quase sempre separada daqueles a quem mais ama”. Vitória assinou como sua “sempre devotada e muito amorosamente afeiçoada sobrinha e filha”.
Na falta de amizades, a princesinha criou um grande apego por seus animais de estimação. À exceção de alguns infelizes canários que ela torturava nos viveiros do Palácio de Kensington, Vitória adorava animais. Seu cão favorito era um cavalier king charles spaniel chamado Dash, com quem passava horas brincando, vestindo-o com casaca vermelha e calças azuis e mimando-o com pães de mel e balas de goma no Natal. Quando ela adoecia, Dash dormia a seu lado; quando velejava, Dash ia nadando atrás do iate. A jovem princesa também passava muitas horas brincando com suas bonecas. Aos nove anos, Vitória enviava notícias de suas bonecas a Feodora; às vezes elas mesmas escreviam a carta. Depois que uma boneca favorita sofreu um desventurado acidente e perdeu a cabeça, Feodora escreveu: “Espero que [a boneca] esteja quase totalmente recuperada e que esse grave ferimento não afete sua saúde geral e não deixe de ser querida por ter ficado sem cabeça por algum tempo”. Mas Vitória tinha encontrado uma boneca melhor e escreveu: “Lehzen consertou a bebê e a deixei de
lado, como relíquia; apesar disso, tenho uma linda bebê, chamada Clara”. 32
Aos dez anos, Vitória enjoou de sua coleção de bebês de brinquedo. Agora se dedicava a criar uma série de 132 sofisticados bonecos de madeira. Com Lehzen, passou centenas de horas costurando cuidadosamente as roupinhas e copiando figuras de personagens da corte, do balé ou da ópera. Pintavam as figuras com todo o capricho, faziam as roupas e anotavam seus nomes num livro de registros. Às vezes Vitória levava os bonecos em suas viagens e, em cada novo ambiente, tinha o cuidado de “ajeitá-los” em belas cadeiras estofadas, com seus rostinhos melancólicos a espiá-la, todos em fila.
À falta de um pai ou de qualquer contato significativo com os tios paternos, Vitória teve em seu tio Leopoldo uma figura fundamental, a quem adorava. Ela passou alguns dos momentos mais felizes da infância em Claremont, a casa do tio em Surrey, no sul de Londres. Nas férias, Leopoldo, Vitória e sua mãe passeavam à beira-mar enquanto as crianças chapinhavam e mulheres em trajes de banho que chegavam aos tornozelos riam na beira da praia. Vitória chorava quando tinha que retornar a Kensington.
As cartas de Leopoldo a Vitória mostram o lado afetuoso do futuro rei dos belgas, que ficara profundamente pesaroso com a perda da jovem esposa Charlotte. Era cortês, bem-apessoado e elegante, mas alguns, como seu sogro, rei Jorge IV, o julgavam traiçoeiro e maçante. Com o passar dos anos, tornou-se cada vez mais excêntrico. Gostava de usar saltos de quase oito centímetros de altura e um boá de plumas, usava uma peruca para evitar resfriados e calços de ouro na boca para mantê-la aberta durante o sono (por motivos que ninguém conseguia decifrar). Ao que constava, tinha um apetite sexual enorme, mas tratava algumas amantes com desprezo. Em 1829-30, quando Vitória tinha dez anos, ele atraiu a bela atriz prussiana Caroline Bauer à Inglaterra. A pretexto de que se casaria com ela, instalou-a numa mansão no campo e ia visitá-la todos os dias. Para o azar de Caroline, Leopoldo andava entusiasmado com uma prática então em voga, o “chuvisco”: tiravam-se das dragonas as borlas de ouro e prata, que então eram colocadas numa trituradora, de onde então “chuviscava” um pó que podia ser fundido e convertido em metal. Leopoldo passava horas chuviscando e Caroline ficava ali sentada com tanto tédio que, dizia ela,
“praticamente desaprendi a rir”.33 Nos meses que antecederam a chegada do irmão de Caroline, vindo da Alemanha para cuidar de seu retorno, Leopoldo transformou em chuvisco uma quantidade de borlas suficiente para fazer uma sopeira de prata. Deu-a de presente para Vitória.
Leopoldo desenvolveu grande interesse pelo bem-estar da sobrinha, a
quem se referia como “querida pombinha”.34 Dava-lhe periódicas lições de moral. Primeiro, recomendava-lhe constantemente que examinasse seus próprios defeitos e se esforçasse muito. “Um bom coração e um caráter realmente honrado”, disse ele quando Vitória fez treze anos, eram as
“qualificações mais indispensáveis para sua futura posição.”35 Quando fez catorze anos, ele advertiu que não ficasse “embriagada pela grandeza e
sucesso nem abatida pelo infortúnio”. 36 Segundo, ensinou-a a ser imparcial, lição que ela contestaria durante a vida toda. Terceiro, aconselhou-a a ser firme e decidida, mas aguardar antes de decidir. Quarto, a estudar história e aprender com ela. E quinto, a se proteger contra a hipocrisia. Também aconselhou vivamente a adolescente, cujos antepassados eram propensos à obesidade, a fazer exercícios físicos e controlar o hábito de comer muito ou rápido demais. Aos quinze anos, Vitória pediu que Leopoldo fosse visitá-la, a fim de “ser testemunha ocular de minha extrema prudência ao comer, que
o surpreenderia”.37
O rei Jorge IV não era um dirigente muito popular. O duque de Wellington o considerava o pior homem que conhecera na vida, sem uma única qualidade redentora. Tory reacionário, o rei combateu o movimento de reforma em curso e foi obrigado a aceitar uma lei, em 1829, permitindo que os católicos concorressem ao Parlamento. Para William Makepeace Thackeray, Jorge IV “não passava de uma casaca e uma peruca encimando
uma máscara sorridente”.38 O rei extravagante também se convertera em símbolo dos grandes excessos da elite inglesa, drenando o dinheiro público enquanto o país sofria com os custos de uma guerra com a França que terminara em 1815. Quando ocupou o trono, aos 58 anos, ele pesava mais de 110 quilos, com 120 centímetros de cintura, e era dependente de ópio. A barriga chegava aos joelhos. (Quando Vitória era pequena, tão gorducha que mal conseguia andar, Lady Granville a chamava de “le roi George de
saias”.)39
Mas Vitória ficou encantada quando recebeu um convite, em 1826, para visitar o tio rei na residência real em Windsor, onde estava morando com a amante. O rei corpulento, com o rosto coberto de maquiagem e usando uma peruca branca, o corpanzil reluzindo com bijuterias, presenteou Vitória com uma miniatura de si mesmo. A princesa Lieven, a perspicaz esposa do embaixador russo, disse que, apesar dos “carinhos que o rei prodigalizou a ela”, via-se que “ele não gostava de ter nos joelhos de 64 anos aquele
pedacinho do futuro, de sete anos de idade”.40 Mas, posteriormente, Vitória declarou que seu tio “corpulento e gotoso” tinha “uma magnífica dignidade
e maneiras encantadoras”. 41 Em 1828, o rei se tornara um recluso que passava a maior parte do tempo dormindo em seu leito no Castelo de Windsor. Para o biógrafo Roger Fulford, Jorge IV passou seus últimos anos “a mimar uma amante impopular, a acumular todas as roupas que usava, a mandar esvaziar as ruas antes de sair a passeio em seu coche, para que
ninguém visse a devastação que os anos haviam trazido à sua aparência”.42
Enquanto o rei enfraquecia, fortaleciam-se as intrigas no círculo próximo de Vitória, sobretudo por obra de um homem que ela veio a detestar. O capitão John Conroy, indivíduo atraente e manipulador, era um ex-soldado de origem irlandesa que fora cavalariço-mor do pai de Vitória e agora era o conselheiro mais íntimo de sua mãe. Quando Victoire enviuvou, Conroy lhe prometera proteção e se insinuou em sua estima. De vez em quando era gentil com Vitória, mas também a magoava cruelmente, tendo-lhe dito certa vez que ela se parecia com o feioso duque de Gloucester — um terrível escárnio para uma jovenzinha e que a assombrou por décadas. A principal colega de brincadeiras de Vitória era Victoire, uma entre os seis filhos de Conroy, com quem ela passava muitas horas andando a cavalo, brincando de se fantasiar e construindo castelos de cartas. Mas Vitória nunca realmente gostou ou confiou nela. Acima de tudo, detestava Conroy, que julgava ter hipnotizado sua mãe. Ofendia-se com sua “conduta indecente e insultante” e com sua pretensão de achar que podia mandar nela. Conroy fiscalizava cada movimento seu e cobiçava uma posição oficial — como, por exemplo, secretário particular da rainha — que lhe permitiria controlá-
la.43
Conroy tinha a paranoia de que os membros da família real queriam sequestrar ou corromper Vitória. Por isso, a duquesa e ele cortaram quase todos os contatos dela com os demais parentes. Ele também demitiu a baronesa Späth, dama de companhia da duquesa — que Vitória amava e conhecia desde o nascimento —, pois achava que ela, além de mimar Vitória, era espiã do rei. A família real ficou perplexa com essa repentina decisão, já que fazia mais de vinte anos que a baronesa servia lealmente à duquesa. Vitória ficou com muito receio de que a próxima fosse Lehzen, “a
amiga mais afetuosa, devotada, dedicada e desinteressada que tenho”. 44
A família real foi ficando irritada e atônita com a influência desproporcional de Conroy. Em 1830, a duquesa de Clarence (posteriormente rainha Adelaide), tia de Vitória, escreveu manifestando sua preocupação quanto ao isolamento cada vez maior de Victoire. A duquesa transmitiu o “desejo geral” da família real de que ela não permitisse “demasiada influência” de Conroy sobre si. Afinal, a posição social da família de Conroy não era tão elevada a ponto de se tornar o único círculo da futura rainha da Inglaterra. A carta apenas alimentou ainda mais a paranoia de Conroy, também partilhada por Victoire. Quase não falavam de outra coisa a não ser da saúde do rei, e a atmosfera no palácio estava tensa de complôs e maquinações.
No dia 26 de junho de 1830, às três e meia da madrugada, Jorge IV teve um violento acesso de tosse, chegando a exclamar: “Bom Deus, o que é isso?”. Agarrou a mão de seu pajem e, ao que consta, respondeu a si mesmo: “Rapaz, é a morte”. Abafou-se o luto. Ficou decidido que ele morrera por “obesidade do coração”, embora o grande consumo de láudano
tenha contribuído para o declínio de sua saúde.45 Seu irmão Guilherme comemorou. Agora sexagenário, vinha se preparando para o trono fazia anos, dando longas e vigorosas caminhadas e tomando um tônico medicinal de água de cevada com sabor de limão. Não tinha feito muita coisa na vida, além de procriar dez filhos ilegítimos, e estava doido para usar a coroa.
Mas Vitória, com onze anos, ficou consternada com a notícia. No dia seguinte, acordou de madrugada e ficou horas no aconchegante leito que levava em todas as suas viagens, com o peito apertado de ansiedade. Ao desjejum, queixando-se de dor de cabeça, pediu licença para ir espairecer num passeio a cavalo. Brandiu o chicote e se firmou na sela; galopou por horas a fio — avançando contra o vento, os olhos ardendo, o sol às costas. Logo o trono seria seu, mas ela não queria. Sabia que a ambição tomava conta do coração de sua mãe, assim como a apreensão se apoderava do seu. Foi nesse momento que ela, ainda uma criança que brincava com bonecas, iniciou uma batalha de sete anos contra a mãe, e que lhe deixou profundas cicatrizes. Mas as suas preces mudariam quando ela percebesse que sua mãe estava tentando roubar a coroa antes que pudesse ser colocada na cabeça de Vitória.