A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 10 de 55

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A Cidadela

Capítulo 10

Embora fosse quase meia-noite quando

chegou a Bryngover, Andrew encontrou Joe Morgan à sua espera, andando de cima para baixo, em passadas curtas, entre o consultório fechado e a entrada da casa. Ao ver o médico, a fisionomia do corpulento brocador teve uma expressão de alívio.

- Eh, doutor! Que alegria por vê-lo! Há bem

uma hora que ando aqui de um lado para outro. Minha mulher está a precisar do doutor e há bastante tempo.

Arrancado abruptamente às suas próprias

preocupações, Andrew disse a Morgan que o esperasse. Entrou em casa para ir buscar a maleta e depois partiram juntos para o n.º 12 da Blaina Terrace. O ar da noite era frio e impregnado de sereno mistério. Habitualmente tão perspicaz, Andrew mostrava-se agora triste e desatento. Não lhe passaria pela cabeça que aquela visita nocturna teria efeitos singulares e decisivos em todo o seu futuro em Blaenelly.

Os dois seguiram em silêncio até chegar ao n.º

12. Aí Joe parou de repente.

- Eu não entro - disse ele, numa voz

emocionada. Mas sei, doutor, que sob os seus cuidados tudo correrá bem para nós.

Dentro de casa uma escada estreita conduzia a

uma pequena alcova, limpa, mas mobilada pobremente, tendo apenas a iluminá-la uma lamparina. Ali, a mãe da Sr.a Morgan, uma velha alta, de cabelos brancos, orçando pelos setenta anos, e uma parteira idosa e robusta esperavam ao lado da parturiente, examinando a expressão de Andrew enquanto este se movimentava no quarto.

- Deixe-me fazer-lhe chazinho, doutor - disse a

velha, depois de alguns momentos.

Andrew esboçou um sorriso. Compreendeu

que ela, cheia de experiência, percebera que ainda havia algum tempo de espera e receava que o médico se retirasse, prometendo voltar mais tarde.

- Não se preocupe, avó. Eu não me vou

escapar.

Em baixo, na cozinha, bebeu o chá que ela lhe

serviu. Cansado como estava, Andrew sabia que se voltasse para casa não acordaria tão cedo. Sabia também que aquele caso exigia toda a sua atenção. Apoderou-se do seu espírito um estranho torpor. Decidiu ficar até ao fim.

Uma hora depois subiu novamente, observou

a parturiente, desceu outra vez e sentou-se junto do fogão da cozinha. Tudo estava silencioso, excepto o sussurro da combustão na grelha e o monótono tiquetaque do relógio de parede. Nada mais se ouvia além do ruído dos passos de Morgan na rua. Em frente de Manson estava sentada a velha, toda encolhida no seu vestido preto, absolutamente imóvel, os olhos, extraordinariamente vivos e atentos, fitos na fisionomia do médico, sondando.

Os pensamentos de Manson eram confusos. A

cena a que assistira na estação de Cardiff ainda o obcecava morbidamente.

Pensava em Bramwell, loucamente devotado

a uma mulher que o enganava de maneira sórdida; em Edward Page, amarrado à intolerável Blodwen; em Denny, vivendo como um infeliz, separado da mulher. O bom senso dizia-lhe que todos esses casamentos eram fracassos desanimadores.

Era uma conclusão que o deixava apreensivo

na disposição em que se encontrava. Gostaria de considerar o casamento como um idílio; sim, não podia considerá-lo de outro modo com a imagem de Christine diante dos olhos; os olhos dela brilhando para ele não admitiam outra conclusão. E era o conflito entre a sua razão prosaica e indecisa e o coração transbordante que o deixava triste e perturbado. Deixou o queixo cair sobre o peito, estirou as pernas e pôs-se pensativamente a contemplar o fogo.

Ficou assim tanto tempo e as suas ideias

estavam tão cheias de Christine que estremeceu quando, de repente, a velha lhe dirigiu a palavra. As reflexões dele tinham seguido rumo tão diferente...

- Susan disse que não lhe dessem clorofórmio

porque podia fazer mal à criança. Está doida por esse bebé, doutor.

Uma ideia súbita iluminou-lhe os olhos

cansados. E acrescentou em voz baixa:

- E aqui entre nós... Estamos todos doidinhos

pelo garoto.

Foi com esforço que ele voltou a si. - Nenhum mal lhe fará o anestésico - disse

afectuosamente. - Tudo correrá bem.

Nisto ouviu-se a voz da parteira chamando do

alto da escada. Andrew olhou o relógio, que marcava agora três e meia. Levantou-se e subiu ao quarto. Compreendeu que já podia começar o trabalho.

Uma hora passou. Foi uma luta demorada e

difícil.

Finalmente, quando os primeiros alvores da

madrugada se infiltraram pelos interstícios da veneziana partida, a criança veio ao mundo, mas sem vida.

Um arrepio de horror perpassou por Andrew

quando viu o corpo sem movimento e sem voz. Depois de tudo o que prometera! O rosto, afogueado pelo esforço, arrefeceu de repente. Hesitou, indeciso entre o desejo de tentar a ressurreição da criança e as suas responsabilidades para com a mãe, que se encontrava em estado desesperado.

O dilema era tão premente que não teve

consciência da forma por que se decidiu. Cegamente, instintivamente, entregou a criança à enfermeira e voltou a atenção para Susan Morgan, que estava desmaiada, quase sem pulsações, ainda sob a acção do éter. A pressa de Andrew era exasperada, numa precipitação frenética para conservar as forças da parturiente, que fugiam. Num instante quebrou a ampola e injectou a pituitrina. Atirou para o lado a seringa e continuou e luta desesperada para reanimar a mulher inerte. Depois de alguns minutos de angustiado esforço, o coração dela reanimou-se. Viu que podia deixá-la momentaneamente sem maiores apreensões. Girou no quarto, em mangas de camisa, o cabelo caído sobre a testa inundada de suor.

- Onde está a criança?

A parteira fez um gesto amedrontado. Havia

posto a criança debaixo da cama. No mesmo instante já Andrew estava ajoelhado. Procurando entre os panos ensopados por baixo do leito, arrancou para fora a criança. Um menino perfeitamente constituído. O corpo, tépido e flexível, era branco e mole como cera. O cordão umbilical, cortado à pressa, era como um caule partido. A pele macia e tenra, a cabeça balançava sobre o pescoço delgado. Os membros pareciam sem ossos.

Ainda ajoelhado, Andrew fitou a criança,

atónito, com a testa franzida. A brancura só significava uma coisa: asfixia branca. Numa tensão sobre-humana, veio-lhe à mente, num relance, o caso que vira, certa vez, no Hospital Samaritano, e o tratamento que fora empregado. Levantou-se :

- Traga-me água quente e fria - gritou para a

parteira. - E bacias também. Depressa! Vamos, depressa!

- Mas, doutor... - gaguejou ela, com os olhos

no corpinho descorado.

- Depressa - berrou o médico. Arrancando um cobertor da cama, estendeu

nele a criança e iniciou o método da respiração artificial. Por fim trouxeram a chaleira, o jarro da água e as bacias.

Trabalhava com frenesim. Deitou água fria

numa bacia; na outra, água quase fervente. E então, como um malabarista desvairado, passava a criança rapidamente de uma bacia para outra, mergulhando-a ora num banho frio ora num banho escaldante.

Passaram-se quinze minutos. O suor escorria

para os olhos de Andrew, cegando-o. Uma das mangas pendia escorrendo água. Estava ofegante. Mas nenhum sinal de respiração vinha do corpo flácido da criança.

Oprimia-o uma exasperada sensação de

derrota, um raivoso desespero. Sentia a parteira a observá-lo numa consternação atenta, enquanto mais adiante, encostada à parede, onde ficara desde o começo, a velha silenciosa, não desviava dele os olhos em fogo, com a mão apertando a garganta. Lembrou-se da sua grande esperança de ter um neto, esperança tão veemente como a da filha de ter um filho. E tudo gorado, perdido, sem apelo.

O soalho era agora uma confusão suja.

Tropeçando numa toalha ensopada, Andrew quase deixou cair o bebé, que já escorregava nas suas mãos como um peixe estranho e esbranquiçado.

- Basta, doutor! - sussurrou a parteira. - A

criança nasceu morta.

Andrew não lhe deu atenção. Batido,

desesperado, tendo lutado em vão durante meia hora, ainda persistia num verdadeiro desvario, esfregando a criança com uma toalha felpuda, comprimindo e afrouxando o pequenino peito com as duas mãos, tentando dar alento ao corpo inanimado.

E então, como por milagre, o pequenino peito,

entre as suas mãos, deu um suspiro curto e convulsivo. Outro. E outro mais. Andrew desvairou. A sensação de vida que brotava debaixo dos seus dedos depois daquele esforço sobre-humano era tão estranha que por pouco não o fez desmaiar. Febrilmente redobrou de esforços. A criança agora respirava. Uma respiração cada vez mais pronunciada.

Uma bolha de muco surgiu numa das

narinas, uma bolhazinha irisada, anunciadora de vida. Os membros já não pareciam sem ossos. A cabeça já não lhe descaía como se não houvesse espinha dorsal. A pele esbranquiçada ia aos poucos adquirindo cor. E nisto, deliciosamente, ouviu-se o choro da criança.

- Meu Deus do Céu! - a parteira começou a

soluçar histericamente. - Nasceu... Nasceu viva!

Andrew entregou-lhe a criança. Sentia-se

fraco e atordoado.

À sua volta o quarto era uma confusão de

meter medo: cobertores, toalhas, instrumentos manchados, a seringa da injecção espetada pela agulha no oleado, o jarro virado, a chaleira numa poça de água. No leito em desalinho a mãe ainda sonhava plàcidamente, libertando-se progressivamente dos efeitos do anestésico. A velha ainda continuava encostada à parede. Mas as suas mãos estavam juntas, os lábios moviam-se sem ruído. Rezava.

Como um autómato, Andrew ajeitou as

mangas da camisa e vestiu o casaco.

- Virei buscar mais tarde a maleta. Desceu as escadas, dirigiu-se à cozinha. Os

lábios estavam secos. Bebeu a água de um grande copo. Agarrou no chapéu e no sobretudo.

Lá fora encontrou Joe de pé na escada, com a

fisionomia contraída, expectante.

- Tudo bem, Joe - disse com voz arrastada. - A

mulher e a criança estão muito bem.

Era dia claro. Quase cinco horas. Alguns

mineiros já estavam na rua. Os primeiros do turno da noite que voltavam do serviço. Quando Andrew seguia com eles, no mesmo andar cansado e lento, os seus passos ecoando com os dos outros sob o céu da manhã, pôs-se a pensar distraidamente, esquecido de todos os outros trabalhos que já havia feito em Blaenelly: «Fiz alguma coisa, oh! Meu Deus! Afinal fiz alguma coisa de concreto.»