A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 50 de 55

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A Cidadela

Capítulo 17

A reconciliação foi uma coisa sublime, a maior

maravilha da vida de Andrew e Christine desde os primeiros dias do seu amor. Na manhã seguinte, que era domingo, ficou deitado junto dela, como naqueles dias de Aberalaw, falando, falando, e, como antigamente, abrindo-lhe o coração.

Pairava lá fora a quietude do domingo. A

música dos sinos era como uma sugestão de paz e tranquilidade. Mas Andrew não estava tranquilo.

- Como cheguei a isto? - resmungava, aflito. -

Eu estava doido, Chris? Quando penso nessas coisas nem posso acreditar no que fiz. Eu metido com essa gente depois de conhecer Denny e Hope! Meu Deus! Mereço um grande castigo!

Ela procurava consolá-lo:

- Tudo aconteceu de uma forma tão

precipitada, querido!... Era de uma pessoa perder completamente a cabeça.

- Falando sério, Chris! Parece-me que

enlouqueço quando penso nessas coisas. E como deves ter sofrido durante todo esse tempo! Deus do Céu! Deve ter sido um verdadeiro martírio.

Christine sorria, começara a sorrir novamente.

Como era tocante, maravilhoso mesmo, ver o rosto dela perder o ar de desânimo e indiferença gelada, para se mostrar meigo outra vez, feliz, cheio de carinho para ele. «Graças a Deus», pensava Andrew intimamente, «estamos de novo a viver».

De repente, enrugando a testa: - Só nos resta uma coisa a fazer. - Apesar da

vibração nervosa, sentia-se forte agora, livre de um nevoeiro de ilusão, pronto para agir. - Temos de sair daqui. Afundei-me de mais, Chris, de mais! Se ficasse aqui, lembrar-me-ia a cada momento do grupo de charlatães com que me meti... E quem sabe se não voltaria a ser o que fui? Podemos passar a clínica facilmente. E sabes, Chris? Tenho uma ideia estupenda!

- Qual, querido?

Desfez-se a ruga nervosa da testa de Andrew

e sorriu para ela, tímida, carinhosamente.

- Há quanto tempo que não me chamavas

querido! Isso encanta-me! Sim, eu sei. A culpa foi minha... Mas, não me deixes, Chris, tornar a discutir essas coisas! A minha ideia... Sabes como me ocorreu esse plano? Veio-me à cabeça quando acordei hoje. Lembrei-me, indignado, da proposta do Hamson para formarmos uma sociedade ignóbil. E de repente surgiu a ideia... Porque não formar uma sociedade honesta, decente? É o que costumam fazer os médicos dos Estados Unidos. Stillman fala-me sempre nisso, embora não seja médico diplomado. Aqui, entretanto, parece que não há isso. Pensa, Chris: mesmo numa cidadezinha de província pode ter-se uma clínica, com um pequeno grupo de médicos, cada um entregue à sua especialidade. Escuta: em vez de me meter com Hamson, Ivory e Prédelman, porque não me junto a Denny e Hope, formando com eles uma trindade de primeira ordem? Denny faria todo o trabalho de cirurgia... sabes como ele é bom operador! Eu ficaria com a parte de clínica geral e Hope seria o nosso bacteriologista. Pensa que coisa boa seria cada um de nós especializado no seu sector e todos contribuindo com os seus conhecimentos para uma empresa de ajuda mútua. Talvez te recordes do que costumava dizer o Denny, e eu também, sobre o nosso deplorável sistema de clínica sem especializações. O pobre do clínico geral tem de ser pau para toda a obra, tentando carregar um peso que os ombros não podem suportar. Uma coisa intolerável. A solução, a verdadeira solução, tem de ser esta: um grupo de médicos trabalhando de acordo, honestamente. É o meio termo entre a medicina socializada e a actividade individual, o esforço isolado. Se isto ainda não existe aqui é apenas porque os grandes querem assambarcar tudo. Mas, querida! Não seria magnífico se pudéssemos formar um pequeno grupo de vanguarda científica espiritualmente puro? Seríamos uma espécie de pioneiros para acabar com preconceitos, fazer ruir os falsos ídolos e, quem sabe?, começar uma verdadeira revolução em todo o nosso sistema médico.

Com o rosto encostado no travesseiro,

Christine fitou-o com olhos brilhantes.

- Quando falas assim, parece que voltamos

aos velhos tempos, meu querido. Nem tenho palavras para te dizer como isso me agrada. É como se estivéssemos a começar outra vez! Como me sinto feliz, querido, tão feliz!

- Tenho de me penitenciar de muita coisa -

continuou ele num tom sombrio. - Fui um doido, Chris. Pior do que doido. - Apertou a testa com as mãos. - Não me sai da cabeça o Harry Vidler. Só descansarei quando fizer alguma coisa que me redima - E de repente, resmungando: - Tive tanta culpa como o Ivory, Chris. Sinto que não me libertarei dessa ideia facilmente e não seria mesmo justo que me libertasse. Mas hei-de trabalhar como um desesperado, Chris, e tenho a certeza de que Denny e Hope me acompanharão. Conheces as ideias deles. Denny anda realmente ansioso por trabalhar de novo a sério. E quanto a Hope... Ora, se tiver um laboratoriozinho onde possa fazer nas horas vagas as suas pesquisas, ele acompanhar-nos-á até ao fim do mundo.

Saltou da cama e começou a atravessar o

quarto lado a lado com a impetuosidade dos bons tempos, excitado ao mesmo tempo pelas promessas do futuro e pelo remorso do passado, a cabeça num torvelinho, cheio de inquietações, de esperanças, de planos.

- Tenho de resolver muitas coisas, Chris -

exclamou - e uma delas não quero adiar. Escuta, querida! Vou escrever agora algumas cartas... Mas, depois do almoço, queres dar um passeio comigo fora da cidade?

Ela fitou-o interrogativamente. - Mas não disseste que tens muito que fazer? - Mas isso está em primeiro lugar.

Sinceramente, Chris, tenho uma grande preocupação por causa da Mary Boland. Ela não está a passar bem no Vitória e não me tem sido possível prestar-lhe uma assistência eficaz. Thoroughgood está com muito má vontade e parece que não compreende perfeitamente o caso, pelo menos na minha opinião. Meu Deus! Parece-me que endoideceria se acontecesse alguma coisa a Mary, tanto mais que me responsabilizei por ela perante o pai. É horrível ter de dizer isso, pois se trata do meu próprio hospital, mas a verdade é que ela nunca ficará boa no Vitória. Deve ir para o campo, para um lugar saudável, para um bom sanatório.

- Parece-te?

- É por isso que quero ir contigo até à clínica

do Stillman... Bellevue é o lugar mais bonito, mais adorável que podes imaginar. Se eu conseguisse levar a Mary para lá... Ah! Não só ficaria descansado, como teria a impressão de haver feito alguma coisa de aproveitável.

Christine respondeu logo, decidida: - Vamos lá assim que estiveres pronto. Depois de vestir-se, Andrew desceu e pôs-se a

escrever a Denny e Hope. Só tinha três visitas inadiáveis a fazer e aproveitou-as para pôr as cartas no correio. Na volta, encontrou Christine já pronta. Comeram alguma coisa e partiram.

Apesar de o espírito de Andrew continuar

dominado pela tensão nervosa, o passeio foi muito feliz. Compreendia agora, mais do que nunca, que a felicidade é um estado de alma, que não depende não obstante a opinião dos clínicos dos bens materiais. Durante todos aqueles meses em que lutara para conquistar fortuna, posição e todas as formas de sucesso material, considerara-se feliz. Mas a verdade é que não o fora. Vivera numa espécie de delírio, uma obsessão constante de obter mais e mais. «Dinheiro», pensava com amargura, «só vale quem tem o maldito dinheiro!». No começo dissera a si mesmo que precisava de ganhar mil libras por ano. Quando atingiu esta quantia quis ter o dobro. Mas quando chegou a ganhar duas mil libras, ainda não ficou satisfeito, e não foi tudo. Queria sempre mais, ainda mais, e essa ganância acabaria por liquidá-lo.

Olhou de soslaio para Christine. Quanto teria

sofrido por causa dele! Mas agora, se Andrew quisesse ter a confirmação de que estava no bom caminho, nenhuma prova seria mais concludente do que a transformação que se operara na sua fisionomia radiante, feliz. Não um rosto bonito porque a vida deixara ali as suas marcas: sinais de cansaço e de lágrimas, pequenas rugas em torno dos olhos, covas nas faces pálidas que outrora tinham sido frescas e coradas. Mas era um rosto que conservava uma expressão de serenidade e de franqueza. Aquele rosto animava-se agora de modo tão vivo e tocante que Andrew sentiu, ao observá-lo, um novo surto de arrependimento jurou intimamente que nunca mais, em toda a sua vida, havia de dar a Christine razão para mágoa.

Às três da tarde já estavam em Wycombe.

Tomaram então por um caminho lateral que levava ao alto da colina de Lacely Green. Situada esplendidamente num pequenino planalto, Bellevue tinha uma posição soberba, com lindas vistas para os vales.

Stillman acolheu-os cordialmente. Era um

homenzinho reservado, pouco expansivo, de raros entusiasmos, mas exprimiu a satisfação que lhe causava a visita de Andrew, mostrando toda a beleza e eficiência da sua criação.

O sanatório era pequeno de propósito, mas

não se podia pôr em dúvida a eficiência das suas instalações. compunha-se de duas alas com grandes terraços, que se uniam na parte central, destinada à administração. Por cima do vestíbulo e dos escritórios, uma sala de curativo e tratamento admiravelmente guarnecida de aparelhagem. Toda a parede da parte sul era de vidro vita. Eram do mesmo material todas as janelas. O sistema de aquecimento e de ventilação era a última palavra. Enquanto visitava Bellevue, Andrew não podia deixar de notar o contraste daquela maravilha de eficiência técnica com os casarões antigos, centenários, que serviam de hospital em Londres, e com as moradias mal adaptadas e mal providas de aparelhagem que se mascaravam de casas de saúde.

Terminada a visita, Stillman convidou-os para

tomar chá. E nesse momento, num arranco, Andrew entrou no assunto:

- Tenho horror a pedir favores, Sr. Stillman. -

Christine teve de sorrir ao escutar a velha chapa, já quase esquecida. - Mas seria possível receber uma doente minha? Começo de tuberculose. Tudo parece indicar que é um caso para pneumotórax. Trata-se da filha de um grande amigo meu, um dentista... A jovem não segue bem onde está. Nos olhinhos azuis de Stillman notava-se uma ponta de ironia.

- Isso significa que me quer enviar um

cliente... Os médicos daqui não costumam fazê-lo, embora costumem fazer os da América. Não se esqueça de que eu aqui sou um curandeiro, um charlatão, que mantém um sanatório suspeito onde os doentes tem de passear descalços sobre a relva molhada antes de ingerirem as suas cenouras grelhadas.

Andrew não sorriu.

- Não tome o meu pedido por graça, Sr.

Stillman. O caso dessa pequena interessa-me extraordinariamente. Ando preocupadíssimo com ela.

- Receio, meu amigo, não ter lugar para novos

clientes. Apesar da desconfiança de que sou vítima por parte de toda a classe médica, há uma porção de gente à espera de vaga. É estranho! - Stillman deixou transparecer afinal, discretamente, um sorriso. - Com tantos médicos há uma multidão que quer tratar-se comigo

- Que pena! - murmurou Andrew. A recusa do

americano representava uma grande decepção para ele. - E eu que estava quase a contar com isso! Se pudéssemos internar a Mary aqui... que alívio seria para mim. A verdade é que tem aqui o melhor sanatório da Inglaterra. Não estou a adulá-lo. Digo isso porque o sinto. Quando penso naquela velha enfermaria do Vitória onde a minha doente permanece... Quando me lembro de que ela está ali com baratas a correr por debaixo da cama!...

Inclinando o corpo, Stillman tomou uma

sanduíche da mesinha próxima. Tinha um jeito especial, engraçado, de tomar qualquer coisa com as pontas dos dedos, como se tivesse acabado de lavar as mãos cuidadosamente e temesse sujá-las.

- Muito bem! Está a representar a sua comédia

irónica, hem? Não, não devo falar assim. Vejo que está preocupado. Eu ajudá-lo-ei. Embora se trate de um médico, tomarei a sua doente ao meu cuidado. - Notando a expressão parada de Andrew, o americano fez um trejeito. - Note que não tenho as vistas curtas. Não me importo de tratar com a gente da profissão, quando a isso me vejo obrigado. Porque não acha graça? Não vê que é uma ironia? Não faz mal. Mesmo sem ironia é cem vezes mais esclarecido do que a maioria dos seus colegas. Deixe-me ver. Só na próxima semana é que terei um quarto vago. Julgo que quarta-feira. Traga-me a sua doente na quarta-feira da próxima semana e desde já lhe prometo fazer por ela tudo o que puder.

Com a gratidão expressa nos olhos, Andrew

não sabia como exprimi-la.

- Eu... eu não sei como lhe agradecer... Eu... - Pois então não agradeça e não procure ser

muito educado. Gosto mais de si quando parece que vai atirar a gente pela janela fora. Sr.a Manson, ele nunca lhe atirou com a louça à cabeça? Um grande amigo meu, lá na América, proprietário de dezasseis jornais, costuma partir toda a louça de casa quando se zanga com a mulher. Pois bem, um dia...

Pôs-se a contar uma longa anedota, que

pareceu a Andrew absolutamente sem sentido. Mas, ao voltar para casa, já ao anoitecer, dizia ele a Christine:

- De qualquer maneira é já uma coisa

resolvida. Um grande peso que tiro da consciência. Tenho a certeza de que Mary não poderia ter melhor tratamento. É um tipo extraordinário, esse Stillman. Gosto dele, de facto. À primeira vista nada se dá pelo homem, mas por dentro é feito de aço. Quem sabe se não poderíamos ter uma clínica deste género? Uma coisa assim, embora mais pequena, para mim, o Hope e Denny. Parece uma esperança absurda, hem? Mas quem sabe? Estive a pensar... Se Denny e Hope me acompanhassem e nos instalássemos juntos na província... Poderíamos escolher um local perto de uma dessas zonas carboníferas, porque assim poderia retomar o trabalho sobre inalação. Que dizes, Christine?

A sua única resposta foi olhar para um lado e

para outro e, com risco de provocar escândalo na rua movimentada, dar-lhe um beijo bem repenicado.