A Cidadela
Capítulo 6
Uma nova ideia começava a formar-se no
espírito de Andrew sem que ele mesmo tivesse consciência da sua origem. Sem se expandir com Christine, que ainda se preocupava com o equilíbrio do orçamento caseiro na base de xelins e pence, começou a perguntar a si mesmo, com impaciência, como é que um médico poderia conseguir uma clínica da alta-roda sem dispor de um automóvel vistoso. Era ridículo ir a pé a Green Street, de maleta na mão, com poeira nos sapatos, tendo de fazer frente sem um carro ao ar superior do porteiro. Havia uma garagem de tijolo no fundo da casa, o que reduzia consideràvelmente a manutenção do automóvel, e não faltavam firmas especializadas em fornecer carros aos médicos, instituições admiráveis que não se importavam de dilatar gentilmente os prazos de pagamento.
Três semanas mais tarde parou à porta do n.º
9 de Chesborough Terrace um coupé castanho, de capota convertível, novo em folha e todo reluzente. Largando o volante, Andrew galgou num pulo os degraus da entrada da casa.
- Christine - chamou, esforçando-se por não
revelar na voz a animação e o entusiasmo. - Christine! Vem ver uma coisa!
Queria produzir uma grande impressão. E de
facto conseguiu o seu fim.
- Deus do Céu! Ela juntou as mãos. É nosso?
Mas que beleza!
- Não é uma beleza? Cuidado, querida! Não
ponhas as mãos na pintura. És capaz... és capaz de deixar a marca no verniz! - Sorria-lhe como nos velhos tempos. - Uma rica surpresa, hem, Chris! Tirar a carta e comprar o carro, tudo sem te dizer coisa nenhuma. Muito diferente do nosso velho Morris, hem? Entre no carro, minha senhora, para eu fazer uma demonstração. Corre que é uma maravilha.
Christine não se cansava de admirar o
carrinho quando o marido a levou, mesmo sem chapéu, para uma boa volta pelas imediações. Alguns minutos depois já estavam de regresso. Ficaram de pé, na calçada, pois Andrew ainda não se resolvia a perder de vista o tesouro. E eram tão raros agora os momentos de intimidade, de compreensão e felicidade que passavam juntos que ela não queria perder aquele.
- Isso vem facilitar o teu trabalho de atender
as chamadas, querido. - E então timidamente. - Se pudéssemos sair um pouco, dar uns passeios ao campo, de vez em quando... Nos sábados, por exemplo... Oh! Seria delicioso.
- Naturalmente - respondeu ele distraído. -
Mas o carro é sobretudo para as minhas visitas. Não podemos ir por aí ao acaso, enchendo o carro de lama. - E Andrew pensava no efeito que o cupézinho vistoso produziria na clientela.
Contudo, o efeito que o carro produziu foi
além da sua expectativa. Na terça-feira da semana seguinte, ao sair pela porta envidraçada atrás das grades de ferro do n.º 172 de Green Street, deu de cara com Freddie Hamson.
- Olá, Hamson - disse, com toda a
naturalidade. Não pôde conter uma onda de satisfação ao notar a fisionomia de Hamson. -Freddie não o reconheceu imediatamente.
E quando viu afinal que era mesmo Andrew,
a sua expressão, ao passar por vários graus de surpresa, ainda traía um embaraço visível.
- Como? Olá, Andrew! Que fazes por aqui? - Visitando um cliente - respondeu o outro,
voltando a mão para trás, na direcção do n.º 172. - Trato a filha de Joe Lê Roy.
- Joe Le Roy!
Só essa exclamação dizia tudo a Manson. Com
ar de proprietário, pôs a mão na portinhola do automóvel novo - Para onde vais? Queres que te deixe em algum lugar?
Freddie retomou rapidamente o seu domínio.
Perturbava-se poucas vezes e nunca por muito tempo. Sem dúvida, em meio minuto, a sua opinião sobre Manson, tudo o que pensava sobre a sua utilidade, passou por uma vertiginosa e inesperada reviravolta.
- Sim - sorriu, num tom de camaradagem - ia
para Bentinck Street, para a casa de saúde da Sherrington. Ia a pé para fazer exercício. Mas irei contigo.
Houve um silêncio de alguns minutos
enquanto corriam pela Bond Street. Hamson dava tratos à imaginação. Recebera Andrew efusivamente, quando lhe apareceu em Londres, na esperança de que a clínica de Manson pudesse fornecer-lhe de vez em quando umas consultas de três guinéus. Mas agora a transformação do velho colega de turma, o automóvel, e acima de tudo o nome de Joe Le Roy que para ele tinha uma significação infinitamente maior do que para Andrew mostraram-lhe o seu erro.
Era preciso não esquecer também os títulos de
Andrew, muito apreciáveis, úteis, utilíssimos. Enxergando longe, astucioso, Freddie viu uma base melhor, muito mais proveitosa para uma cooperação entre Andrew e ele. Devia agir cuidadosamente pois Manson era um diabo cheio de melindres e desconfianças.
- Porque não vens comigo ver a Ida? - disse
ele. - É uma pessoa que convém conhecer, embora mantenha a pior casa de saúde de Londres. Homem, sei lá. Provavelmente não é pior do que as outras. Mas em compensação cobra muito mais.
- Ah, sim?
- Vem... Vem ver a minha cliente. É inofensiva,
a velha Raeburn. Ivory e eu estamos a fazer umas experiências à custa dela. Em assuntos de pulmões és um barra, não é o que consta? Vem vê-la. Isso dar-lhe-á muito prazer. E são cinco guinéuzinhos que ganhas.
- Como? Queres dizer... Mas que tem ela nos
pulmões?
- Nada de notável. - Freddie sorriu. - Não te
mostres tão impressionado! Ela está, provavelmente, com um pouco de bronquite senil. E gostará de te ver! É como nós fazemos aqui. Ivory, Freedman e eu. Deves entrar também na combinação, Manson. Não podemos falar disso agora. Não há tempo; já cá estamos. Mas ficarás espantado quando a coisa começar.
Andrew parou o carro em frente da casa
indicada por Hamson. Era uma moradia vulgar que evidentemente não tinha sido construída para casa de saúde. Na verdade, dando para uma rua movimentadíssima, de intenso tráfego, era difícil acreditar que alguém pudesse estar ali em sossego. Parecia precisamente um local destinado a provocar e não a debelar uma crise nervosa. Andrew falou nisso a Hamson quando subiram os degraus da entrada.
- Eu sei, meu velho, eu sei. - Disposto a
mostrar-se cordial, Freddie concordava. - Mas são todas assim. Neste pedacinho do West End há uma porção delas. Compreendes que nessa questão de casas de saúde devemos cuidar também das nossas próprias conveniências. O ideal seria que elas ficassem afastadas, em lugares tranquilos, mas..., por exemplo..., que cirurgião se dignaria viajar dez milhas por dia para ver um doente durante cinco minutos? Deixa estar que com o tempo ficarás a conhecer bem esses pequeninos albergues do West End que têm o nome de casas de saúde. Freddie parou no vestíbulo estreito, onde entrara com Andrew. Em todas elas há três cheiros característicos: anestésicos, cozinha e excremento. Uma sequência lógica... Perdoa-me a piada, meu velho. E agora vamos ver Ida.
Com ar de quem já conhece a casa, dirigiu-se
para um gabinete muito acanhado, no andar térreo, onde estava sentada, junto de uma pequena secretária, uma mulherzinha de uniforme de cor de malva e com um gorro branco, muito engomado na cabeça.
- Bons dias, Ida, - saudou Freddie num acento
intermédio de adulação e familiaridade. - Contando os lucros?
Ela levantou os olhos e, ao vê-lo, sorriu com
bom humor. Era baixa, robusta e extremamente corada. Mas era tão espessa a camada de pó de arroz que o rosto, vermelho e lustroso, tomava um tom de malva, quase da cor do uniforme.
Vinha dela uma nota de vitalidade grosseira e
ruidosa, de risonha esperteza, de disposição para viver. Os dentes eram postiços e mal colocados. O cabelo, grisalho. Dava de certo modo a impressão de que devia usar um vocabulário impróprio e que tinha todos os requisitos para gerente de um cabaré de segunda ordem.
No entanto a casa de saúde de Ida Sherrington
era a mais elegante de Londres. Metade da aristocracia havia já por lá passado, damas da sociedade, figurões do Turf, diplomatas e advogados famosos. Bastava abrir um jornal para se ficar sabendo que mais uma brilhante estrela do teatro ou do cinema acabava de deixar o apêndice na casa hospitaleira de Ida. O uniforme de todas as enfermeiras era do mais delicado tom de malva. O despenseiro, que cuidava da adega, tinha o ordenado de duzentas libras por ano e o chefe da cozinha ganhava o dobro. Em compensação, os doentes tinham de pagar preços quase proibitivos.
Não era raro cobrar-se a diária de seis
guinéus por um quarto. Como se isso não bastasse, vinham os extraordinários, a conta da farmácia (às vezes bem puxada), da sala de operações e da enfermeira especial que fazia o serviço nocturno. Mas se alguém reclamava a resposta de Ida era ornamentada de vez em quando com palavrinhas de calão. Tinha também as suas dificuldades com partilhas e percentagens a conceder e frequentemente dava a impressão de ser ela a explorada.
Ida tinha um certo «fraco» pelos médicos
jovens e recebeu Manson de muito boa cara quando Freddie lhe disse :
- Olha bem para ele. Há-de mandar muito em
breve tantos clientes que a Ida poderá encher com eles o Plaza Hotel.
- O Plaza Hotel é que está a encher a minha
casa!
E abanou a cabeça de modo significativo. - Ah! Ah! - Freddie soltou uma gargalhada. -
Essa é muito boa. Devo contá-la ao velho Freedman. Paul vai achar graça. Vem, Manson. Vamos lá acima.
O elevador apertado, onde só diagonalmente
podia entrar a maca, levou-os ao quarto andar. O corredor era estreito. Viam-se bandejas do lado de fora das portas. As flores das jarras murchavam na atmosfera pesada e quente. Entraram no quarto da Sr.a Raeburn.
Era uma mulher de mais de sessenta anos.
Recostada nas almofadas esperava a visita do médico com um papel na mão. Escrevera ali algumas impressões sentidas durante a noite, assim como as perguntas que pretendia fazer. Andrew não teve dúvida em classificá-la como um caso de hipocondria da velhice. O tipo que Charcot chamava «malade au petit morceau de papier».
Sentado na beira da cama, Freddie falou com a
cliente, tomou-lhe o pulso, nada mais do que isso escutou o que ela disse, tranquilizou-a. Preveniu-a de que o Dr. Ivory apareceria de tarde, com o resultado de alguns exames do maior valor científico. Apresentou-lhe o colega, Dr. Manson, especialista de pulmões, e pediu-lhe que se deixasse examinar. A Sr.a Reaburn ficou lisonjeada. Gostava extraordinariamente dessas coisas. Havia dois anos que estava aos cuidados de Hamson. Era rica, não tinha parentes e passava o tempo ora nos hotéis familiares mais selectos, ora nas casas de saúde do West End.
- Ora graças! - exclamou Freddie quando
deixaram o quarto. - Nem podes fazer ideia da mina de ouro que esta velha tem sido para nós. Já arrancámos dela uma fortuna.
Andrew não respondeu. Não se sentia muito
bem naquela atmosfera. A velha nada tinha nos pulmões e só o olhar de gratidão que ela dirigiu a Freddie tirara ao acto o seu carácter de completa desonestidade. Procurou convencer-se.
- Porque havia de querer endireitar o mundo?
Nunca seria um êxito na vida se continuasse
intolerante, intransigente nas suas convicções. E a intenção de Freddie tinha sido tão boa, dando-lhe uma oportunidade para examinar a cliente...
Despediu-se de modo muito cordial antes de
entrar no carro. E no fim do mês, quando recebeu, com os melhores agradecimentos da Sr.a Reaburn, um lindo cheque de cinco guinéus, Andrew já estava apto a rir-se dos seus escrúpulos idiotas. Tinha tomado gosto ao recebimento de cheques.
E, para cúmulo de satisfação, os cheques
estavam a chegar cada vez em maior número.
A clientela, em aumento prometedor,
começava agora a expandir-se em todas as direcções, de forma rápida, impressionante, e Andrew sentia-se cada vez mais envolvido na torrente do sucesso fácil. Era de certo modo vítima da sua própria actividade. Fora sempre muito pobre. No passado só tivera decepções com o seu obstinado individualismo. Podia agora achar uma justificação para si mesmo nessas demonstrações impressionantes de êxito material.
Pouco depois da chamada de emergência à
Casa Laurier, teve uma conferência agradabilíssima com o Sr. Winch, e daí por diante ainda mais frequentes foram as consultas das caixeirinhas e até das chefes de secção.
Procuravam-no principalmente por motivos
triviais. Contudo, era de admirar como reapareciam com frequência as pequenas que o visitavam uma vez. Andrew tinha modos tão acolhedores, tão simpáticos e efusivos...
As receitas subiam verticalmente. Andrew
diligenciou para que a fachada da casa fosse pintada de novo. Graças a uma dessas firmas que vendem equipamentos e aparelhos de consultório (todas sempre dispostas a ajudar os jovens médicos a aumentar os seus réditos), conseguiu reformar o gabinete da parte da frente e o dispensário do lado, adquiriu um novo divã, um fauteil de rodas de borracha e vários armários elegantes, com espelhos esmaltados de branco.
A evidente prosperidade da casa pintada de
novo, do automóvel, do equipamento moderno e luzidio não tardou a espalhar-se pela vizinhança, trazendo de novo muitos dos antigos clientes «distintos» do Dr. Poy, que se tinham afastado quando o velho médico e o seu consultório entraram em decadência.
Tinham acabado para Andrew os dias em que
ficava na expectativa esperando doentes que não vinham. Tão grande era a frequência na clínica nocturna que tinha de se desdobrar para atender a tudo. Tocava a campainha da porta da frente, batia a sineta da porta do dispensário. Gente à espera nas duas salas e o doutor a desdobrar-se de um lado para o outro. Era imprescindível tomar providências.
Andrew viu-se forçado a pensar num plano
para economizar tempo.
- Chris, ouve - disse certa manhã. - Pensei
agora numa coisa que me poderá ajudar muito nessas horas de aperto. Tu sabes... Quando acabo de examinar um doente do dispensário tenho de vir aqui dentro para preparar o remédio. Gasto geralmente com isso uns cinco minutos. Perco um tempo enorme que poderia aproveitar para despachar um desses clientes «distintos» que ficara à espera no consultório. Compreendes onde quero chegar? Para o futuro incumbir-te-ás da parte da farmácia.
Ela olhou-o com um espantado franzir de
sobrancelhas:
- Mas eu nada entendo de preparação de
remédios.
Andrew sorriu, tranquilizador.
- Não faz mal, querida. Tenho sempre
preparadas algumas fórmulas excelentes. Todo o teu trabalho será apenas encher os frascos, colar os rótulos e embrulhar.
- Mas... - A confusão estampava-se nos olhos
de Christine. - Oh! Eu quero ajudar-te, Andrew... mas... parece-te realmente...
- Não compreendes que isso é indispensável? -
O seu olhar fugiu do dela. Foi com irritação que acabou de beber o café. - Bem sei que em Aberalaw eu costumava dizer uma série de tolices contra os remédios. Tudo teorias! Agora... agora sou um homem prático. Além disso, essas raparigas da Casa Laurier são todas anémicas. Um bom fortificante só lhes pode fazer bem.
Antes que ela pudesse responder, o som da
campainha do dispensário fê-lo abandonar a sala.
Noutro tempo, Christine teria discutido,
defendido energicamente o seu ponto de vista. Mas agora pôs-se apenas a meditar, com melancolia, sobre a transformação que sofrera a vida de ambos. Ela já não tinha influência nele, já não o conduzia. Era ele quem ia na frente.
Christine começou então a passar no cubículo
da farmácia essas horas amargas de trabalho, aguardando que Andrew ordenasse, num tom seco, enquanto se movimentava apressadamente, entre os «clientes distintos» e os doentes pobres. «Ferro»! «Magnesia», «Carminativo» ou qualquer outra coisa. Quando ela o prevenia de que a solução de ferro tinha acabado, rosnava Andrew com impaciência: «Então outra coisa qualquer! com os diabos! Seja o que for.»
Muitas vezes o serviço nocturno ia além das
nove e meia. Depois de encerrado, faziam a escrita do volumoso Caixa do Dr. Foy, que ainda estava com mais de metade das páginas em branco quando Manson adquirira a clínica.
- Meu Deus! Que dia, Chris! - exclamava,
triunfante. - Lembras-te daquela primeira consultazinha de três xelins e meio que me provocou uma alegria infantil? Pois bem, hoje... hoje fizemos mais de oito libras. E dinheiro à vista.
Arrumava o dinheiro - pesadas pilhas de
prata e algumas notas - numa caixinha de charutos que o Dr. Foy usava como mealheiro e fechava-o na gaveta da secretária.
Conservava a caixinha assim como o livro
Caixa do Dr. Foy para dar sorte. Esquecia-se agora por completo de todas as antigas dúvidas e louvava a própria esperteza de ter ficado com a clínica.
- Isso está a tornar-se uma verdadeira mina,
de todos os pontos de vista, Chris. - Andrew exultava. - Uma clínica pobre que rende bastante e uma boa clientela de classe média. E melhor que tudo, estou adquirindo por minha própria conta muitos clientes da alta sociedade.