A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 41 de 55

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A Cidadela

Capítulo 8

Nos meados do mês seguinte, Andrew

assumiu as funções na consulta externa do Hospital Vitória. Os seus dias de consulta eram as terças e quintas, com o horário das três às cinco da tarde. O trabalho parecia-se muito com o daqueles velhos tempos na clínica de Aberalaw. Mas agora só tinha de apreciar casos da sua especialidade: pulmões e brônquios. Além disso, para seu grande e íntimo orgulho, já não era simples assistente de médico, mas um clínico de categoria num dos mais antigos e famosos hospitais de Londres.

O Vitória era indiscutivelmente um hospital

velho. Situado em Battersea, no labirinto daquelas ruas estreitas que ficam perto do Tamisa, quase não era banhado pelo sol mesmo no Verão. No Inverno, as varandas para onde deviam ser levadas as camas de rodas dos doentes estava quase sempre envoltas pelo nevoeiro que subia do rio. Na base da fachada, sombria e carcomida, via-se um grande cartaz vermelho e branco, que parecia verdadeiramente um pleonasmo, onde se lia: «O Hospital Vitória está em ruínas».

A parte do edifício onde estava instalada a

clínica externa, em que Andrew se encontrava, era em parte uma relíquia do século XVIII. Com efeito, exibia-se ali orgulhosamente, dentro de uma caixa de vidro, na sala de entrada um almofariz usado pelo Dr. Lintel Hodges, médico da mesma secção do hospital durante o período de 1761 a 1793. As paredes, não revestidas de azulejos, haviam tomado uma cor de chocolate e os corredores, embora escrupulosamente limpos, eram tão mal ventilados que destilavam humidade. Todas as dependências estavam impregnadas do cheiro a bolor da velhice.

No primeiro dia de trabalho, Andrew visitou

todo o hospital na companhia do Dr. Eustace Thoroughgood, veterano da sua secção. Era um homem de cinquenta anos agradável e preciso. De estatura abaixo da mediana, usava uma barbicha grisalha e tinha maneiras simpáticas e paternais, como um padre com boa disposição. Thoroughgood tinha enfermeiras próprias no Hospital e, de acordo com o sistema existente, uma sobrevivência da antiga tradição sobre a qual se mostrava de uma erudição curiosa, ele julgava-se responsável por Manson e pelo Dr. Milligans, os médicos mais novos da secção.

Depois da volta pelo Hospital, o Dr.

Thoroughgood levou Andrew à grande sala comum da cave. As luzes já estavam acesas embora ainda não fossem quatro da tarde. O fogo crepitava no fogão de ferro. Nas paredes, muito brancas, viam-se os retratos dos médicos mais ilustres do Hospital, vendo-se a peruca e as gorduras do Dr. Lintel Hodges no lugar de honra, por cima do fogão. Este era também uma relíquia volumosa daquele venerável passado.

E, embora celibatário e com ares de clérigo, o

Dr. Thoroughgood amava a lareira como se fosse a sua própria filha e dilatava as narinas no prazer de a contemplar.

Tomaram, na companhia de outros médicos,

um chá agradável, com muitas torradas quentes e boa manteiga. Todos pareceram a Manson rapazes muito simpáticos.

Entretanto, notando a deferência com que

tratavam o Dr. Thoroughgood e a ele mesmo, conteve um sorriso. É que se lembrava dos atritos que tivera, ainda há poucos meses, com certos «sujeitinhos insolentes», quando procurava mandar doentes para o Hospital.

Sentara-se junto dele o Dr. Vallance, um

jovem médico que passara um ano nos Estados Unidos estudando na clínica dos irmãos Mayo. Começaram a conversar sobre o sistema do famoso sanatório. Tomado de súbito interesse, Andrew perguntou num dado momento se o Dr. Vallance ouvira falar em Stillman aquando da sua estadia na América do Norte.

- Sim, naturalmente - disse Vallance. - Stillman

goza de muito prestígio. Não tem diploma de facto, mas agora ele é mais ou menos reconhecido como um grande clínico, embora não oficialmente.

- Visitou a clínica dele?

- Não. - Vallance abanou a cabeça. - Não pude

ir até lá. Fica no Orégão.

Andrew calou-se por um instante, sem saber

se devia falar.

- Creio que é uma coisa notabilíssima - disse

afinal. - Tive ocasião de entrar em contacto com Stillman há já alguns anos. Foi ele quem me escreveu primeiro a propósito de um trabalho que publiquei no American Journal of Hygiene. Observei então fotografias e detalhes da clinica. Não pode desejar-se sanatório mais perfeito para o tratamento da tuberculose. Fica na montanha, no meio de pinheiros, bem isolado, com varandas envidraçadas, um sistema especial de ar condicionado que permite absoluta pureza e temperatura invariável no Inverno. - Andrew parou como a desculpar-se do seu próprio entusiasmo pois uma interrupção na palestra geral permitiu que todos os presentes escutassem o que dizia. - Quando se pensa nas nossas condições em Londres, isso parece um ideal inatingível.

O Dr. Thoroughgood sorriu secamente,

mesmo com aspereza.

- Os médicos londrinos têm sabido sempre

agir muito bem nas condições em que trabalham, Dr. Manson. Podemos não ter as novidades e os exotismos a que se referiu, mas não tenho dúvidas em afirmar que os nossos métodos seguros e experimentados, embora menos espectaculares, também produzem resultados satisfatórios e provavelmente mais duradouros.

Cabisbaixo, Andrew não deu resposta.

Compreendeu que, como novato, cometera uma imprudência em exprimir tão abertamente o seu ponto de vista. O Dr. Thoroughgood, para mostrar que não o pretendera melindrar tratou gentilmente de desviar a conversa para outro assunto. Falou a respeito da arte de aplicar ventosas. A história da medicina tinha sido por muito tempo a sua mania e dispunha de grande número de Informações sobre os barbeiros-cirurgiões da velha Londres.

Quando se levantaram, disse amavelmente a

Andrew:

- Tenho uma verdadeira colecção de ventosas.

Hei-de mostrar-lha um dia destes. É realmente lamentável que a ventosa tenha caído em desuso. Era... e ainda é... um processo admirável para provocar contra-irritação.

Passado esse incidente o Dr. Thoroughgood

tratou de mostrar-se um colega simpático e prestável. Era bom clínico, quase infalível nos diagnósticos e tinha gosto em levar Andrew a visitar as suas enfermarias, mas no aspecto do tratamento o seu espírito rotineiro não admitia a adopção de novidades. Não queria admitir a tuberculina, sustentando que o seu valor terapêutico ainda não fora absolutamente comprovado. Era muito avaro no uso do pneumotórax e a sua percentagem de insuflações era a mais baixa do hospital. Entretanto, era extremamente generoso na administração de malte e óleo de fígado de bacalhau.

Andrew não pensou mais em Thoroughgood

desde que começou a trabalhar. «Era estupendo», dizia para si mesmo, «encontrar-se, depois de tantos meses de espera, na situação de quem começa de novo». E nessa primeira fase apoderou-se dele uma animação quase semelhante ao seu antigo ardor e entusiasmo.

Como era natural, as suas velhas pesquisas

sobre lesões pulmonares produzidas por inalação de pó haviam-no levado mais tarde a considerar em conjunto toda a questão da tuberculose. Esboçou vagamente um plano para investigar, de acordo com a experiência de Von Pirquet, os primeiros sinais físicos de lesão primária. Podia dispor de um enorme material de pesquisas: as crianças subalimentadas que as mães traziam ao hospital para beneficiarem da conhecidíssima liberalidade do Dr. Thoroughgood na concessão de óleo de fígado de bacalhau.

E no entanto, por mais que procurasse

convencer-se do contrário, Andrew não trabalhava com alma. Não podia recuperar o entusiasmo espontâneo das suas investigações sobre inalação. Tanta coisa o preocupava, tinha tantos casos importantes na clínica, que não lhe era possível concentrar a atenção sobre obscuros indícios que talvez mesmo não conduzissem a coisa alguma. Ninguém melhor do que ele sabia o tempo necessário para um exame cuidadoso. Estava sempre atarefadíssimo. Esse argumento era irrespondível e Andrew não tardou a assumir uma atitude de admirável conformismo. Era-lhe humanamente impossível fazer o que pretendia.

A pobre gente que vinha ao dispensário do

Hospital não exigia muito dele. O seu predecessor tinha sido, ao que parecia, um fanfarrão, mas, como receitava muito e sabia contar de vez em quando uma boa anedota, a sua popularidade manteve-se até ao fim. Andrew também entrou na intimidade do Dr. Milligan, o companheiro de clínica, e dentro de pouco tempo já adoptava os métodos do colega no contacto com os doentes. Mandava-os entrar aos grupos para junto da sua mesa e despachava-os rapidamente.

Quando receitava: «Repita-se o remédio»,

nem tinha tempo para se lembrar como troçara noutras épocas dessa frase clássica. Andrew, de facto, percorria o caminho que conduzia à classificação de clínico admirável.