A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 46 de 55

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A Cidadela

Capítulo 13

A partida de Christine para Newquay foi um

alívio, uma verdadeira emancipação para Andrew. Isto durante três dias, pois que no quarto já andava, um tanto inquieto, a perguntar a si mesmo com uma réstia de ciúme: «Que estará ela a fazer agora? Sentirá saudades? Quando pensará em voltar?»

Embora tentasse convencer-se de que era um

homem livre, sentia que lhe faltava alguma coisa, sensação igual à que tivera, em Aberalaw, quando Christine fora a Bridlington para que ele pudesse dedicar-se mais tranquilamente ao exame.

Tinha diante dos olhos a imagem de Christine:

não a imagem risonha e fresca da Christine dos primeiros tempos, mas de uma Christine mais pálida, de feições mais amadurecidas, ar abatido, os olhos cansados por trás dos óculos. Não era uma imagem de beleza, mas tinha o poder de não lhe sair da cabeça.

Passava muito tempo fora de casa, ia jogar

bridge no clube com Ivory, Freddie e Preedman. Apesar da reacção que experimentara depois do primeiro encontro com StilIman, via frequentemente o americano, agora muito activo, orientando os últimos retoques do pequeno sanatório. Escreveu a Denny pedindo-lhe que fosse visitá-lo, mas Phillip não podia vir a Londres interrompendo o serviço que apenas começara. Hope era inacessível em Cambridge.

Procurou concentrar o espírito perturbado nas

suas pesquisas clínicas no hospital. Mas foi debalde. Estava demasiadamente inquieto. Possuído da mesma intensidade nervosa foi conferenciar com o gerente do banco, para saber como ia a sua conta. Muito satisfatória; tudo muito bem. Começou a formar um projecto. Passaria a casa em Chesborough Terrace, ficando apenas com o dispensário ao lado, e compraria uma nova em Welbeck Street. Teria de gastar muito dinheiro mas seria uma aplicação vantajosa. Poderia contar com o auxílio de uma empresa construtora. Naquelas noites de calor acordava de repente, a cabeça recheada de planos, preocupado com a clínica, os nervos em crise, sentindo a falta de Christine com a mão e procurando instintivamente a mesinha da cabeceira para encontrar um cigarro.

Num dia de estado de espírito mais

desorientado telefonou a Frances Lawrence.

- Estou sozinho actualmente. Gostaria de sair

comigo uma noite destas, para um passeio fora da cidade? Londres está tão quente!...

A voz dela era serena, de um estranho efeito

sedativo para Andrew.

- É uma esplêndida ideia. Esperava que me

telefonasse um dia destes. Já foi a Crossways? É uma construção de sabor isabelino, um pouco prejudicada pelo excesso de iluminação. Mas o rio ali é um encanto.

Na noite seguinte Andrew despachou os

clientes do dispensário em menos de uma hora. Antes das oito encontrou-se com Frances em Knightbridge e o carro seguiu pela estrada de Chertsey.

Ainda se notavam os últimos reflexos do

crepúsculo no longo dia de Verão. Frances ia sentada ao lado dele, falando pouco mas enchendo todo o carro com a sua encantadora presença. Levava um saia-e-casaco de fazenda muito leve, com um chapelinho escuro na cabeça pequena.

Andrew sentia de modo intenso toda a graça

da mulher, toda a sua perfeita distinção. A mão nua, perto dele, era bem a materialização do seu requinte branca, esguia. Na ponta de cada dedo comprido, a unha pintada.

Como dissera Frances, Crossways era uma

deliciosa casa da época isabelina, situada entre lindos jardins debruçados sobre o Tamisa. E era pena que as adaptações às necessidades modernas e um infame jazz-band estragassem o efeito romântico das pérgulas antigas e dos pequeninos lagos onde brotavam nenúfares. E, embora um lacaio tivesse vindo abrir a porta do carro quando entraram no pátio do edifício, já quase todo ocupado por automóveis de luxo, permanecia o encanto dos velhos tijolos cobertos de hera e das altas chaminés poligonais destacando-se serenamente no céu.

Entraram no restaurante. Sala cheia,

assistência elegantíssima. As mesas estavam colocadas de modo a deixar no centro um espaço vazio, um quadrado de soalho polido.

O maitre d’hotel tinha o mesmo aspecto, parecia

irmão do «grão-vizir» do Plaza. Andrew odiava e temia maitres d’hotel. Mas isso descobria agora era porque nunca os defrontara na companhia de uma mulher como Frances. Bastou um simples olhar para serem logo levados, com todas as provas de consideração, para a melhor mesa da sala; viram-se cercados no mesmo instante por um grupo de criados atenciosíssimos, um dos quais desdobrou o guardanapo de Andrew, colocando-o com religioso respeito sobre os seus joelhos.

Frances pediu pouca coisa: salada, um assado.

Nada de vinho; apenas água gelada. Imperturbável, o maitre d’hotel parecia ver nessa frugalidade uma prova de distinção, e Andrew pensou, com súbito azedume, que se tivesse entrado com Christine em tal santuário e encomendasse refeição tão modesta seria naturalmente atirado pela porta fora, com o maior desprezo...

Um sorriso de Frances veio expurgá-lo dessas

ideias.

- Sabe que já nos conhecemos há muito tempo

e esta é a primeira vez que me convida para sair em sua companhia?

- Isso desagrada-lhe?

- Não, creio que não.

Andrew deliciava-se de novo com o tom

encantador de intimidade que Frances assumia, com o seu leve sorriso. Isso fazia-o sentir-se mais espirituoso, mais à vontade, como se pertencesse a uma classe superior. Não era simples pretensão ou tolo snobismo. A distinção dela era tão pessoal e envolvente que o atingia, o contagiava. Deu pelo interesse com que os ocupantes das outras mesas os observavam, a admiração masculina de que Frances era objecto e que ela parecia superiormente ignorar. Andrew não pôde deixar de sorrir à ideia de uma ligação mais íntima.

- O senhor ficará talvez muito lisonjeado

quando lhe disser que quebrei por sua causa um outro compromisso para ir ao teatro. Lembra-se de Nicol Watson? Ele convidou-me para ir a um espectáculo de bailados. Não ria dos meus gostos infantis... Era o Massin em La Boutique Fantastique. Recordo-me do Watson e da sua viagem ao Paraguai. Pessoa inteligente. É distintíssmo.

- Mas... porque não foi? Teve medo que o

teatro estivesse muito aquecido?

Ela sem responder, sorriu apenas. Tirou um

cigarro de uma caixa de esmalte em cuja tampa, de cores discretas, havia uma linda miniatura de Boucher.

- É verdade... Ouvi dizer que Watson lhe fazia

a corte. E... - continuou Andrew, com repentina veemência: - que pensa seu marido a esse respeito?

Ela também dessa vez não respondeu.

Levantou apenas, de leve, a sobrancelha, como a marcar levemente certa falta de compreensão. Mas, depois de um momento, disse:

- Então ainda não compreendeu? Jackie e eu

somos óptimos amigos. Mas cada qual escolhe as suas próprias amizades. Ele está agora em Juan lês Pins e não me interessa saber por que motivo. - E num tom ligeiro. - Vamos dançar?

Dançaram. Ela movia-se com uma graça

extraordinária, fascinante. Era leve, quase aérea, nos braços de Andrew.

- Não danço bem - disse Manson quando

voltaram à mesa. Até o modo de falar já era o dela. Como estava longe, bem longe, o tempo em que resmungava: «Que diabo, Chris! Eu não sei arrastar os pés pelo salão!».

Frances não protestou, e nisso ele viu mais um

sinal da sua distinção. Outra qualquer, para o lisonjear, teria respondido que ele dançava bem e Andrew sentir-se-ia ainda mais desajeitado. De repente, num impulso de curiosidade, perguntou:

- Explique-me uma coisa, por favor. Porque

tem sido tão gentil comigo? Porque me tem ajudado tanto durante todos estes meses?

Ela encarou-o, achando-lhe graça, mas sem se

mostrar admirada.

- O senhor tem um extraordinário encanto

para as mulheres. E ainda é mais interessante porque não se dá conta disso.

- Ora... Como? Que ideia! - Andrew corou. - E,

depois, sem à-vontade: - Acho que também valho alguma coisa como médico.

Frances riu, espalhando displicentemente com

a mão o fumo do cigarro.

- Não fique irritado. Eu fiz mal, talvez, em

explicar-lhe. De facto é um óptimo médico. Ainda uma noite destas falámos a seu respeito em casa de Joseph Le Roy. Ele anda um tanto aborrecido com o médico dietista da nossa Companhia. Coitado de Rumbold! Se soubesse o que Le Roy disse dele! Chama-lhe velho caduco. Precisa de ser aposentado. E Jackie concorda. Querem para o lugar dele um médico mais jovem, mais enérgico. Enfim, para usar a expressão corrente, «um homem mais moderno». Parece que eles querem lançar uma grande campanha na imprensa médica. Querem realmente interessar a medicina nos produtos, no ponto de vista científico, como explica Le Roy. Ora, Rumbold é um motivo de ironia entre os colegas. Mas que ideia a minha de falar nesses assuntos! Uma noite tão agradável fica estragada. E, por favor, não franza a testa como se pretendesse assassinar-me, ou ao criado, ou ao dirigente do jazz. Bem, este pode matar... Não é de facto muito antipático? Sabe que está agora com o ar sisudo com que apareceu na Laurier? Todo empertigado, cheio da sua pessoa, tão nervoso! Estava até um pouco ridículo. E quando me lembro do que fez com a pobre da Toppy! Pela sequência natural destas coisas, ela é que devia estar aqui.

- Pois eu prefiro que não seja ela - disse

Andrew sem levantar a vista.

- Não me considere uma criatura banal, por

favor não admitiria que o fizesse. Creio que somos duas pessoas inteligentes... E é claro! Eu, pelo menos, não acredito em grandes paixões. Fraseados românticos não são comigo. Mas acho que a vida é muito mais agradável quando se tem um bom amigo para nos distrair um pouco. - Os olhos iluminaram-se, numa expressão risonha. - Parece que me sinto possuída pelo estilo de mulher à Rossetti... E isso é uma tristeza! - Agarrou na cigarreira. - Aqui está tão abafado! Vamos embora! Quero que o senhor veja o luar no rio.

Andrew pagou a conta e saiu pela grande

porta envidraçada que, com vandalismo, haviam aberto na parede. Movia-se em surdina no terraço a música da orquestra.

Foram andando por uma alameda de belas

árvores ladeadas que levava ao rio. A alameda era sombria, mas o luar punha pálidos desenhos na copa das árvores. Mais Bem, o rio era um lençol prateado.

Passearam pela margem, sentaram-se num

banco. Ela tirou o chapéu e ficou contemplando em silêncio as águas lânguidas que se arrastavam. O seu eterno murmúrio foi perturbado, de modo estranho, pelo rumor surdo de um possante automóvel que passava ao longe a toda a velocidade.

- Que música estranha a da noite! - desabafou

Frances. - O velho e o novo. Faróis de automóveis em contraste com o luar. É assim o nosso tempo.

Andrew beijou-a. Ela submeteu-se ao beijo,

sem outras expansões. Os lábios eram cálidos e secos. Foi só passado um momento, que ela disse :

- Muito agradável o seu beijo. Porém muito

mal dado.

- Posso beijar melhor - murmurou Andrew,

imóvel.

Atordoado, sentia-se tacanho, sem convicção,

acanhado, nervoso. Irritado consigo mesmo, procurou convencer-se que era maravilhoso estar ali, numa noite tão linda, com uma mulher tão graciosa e encantadora. Segundo as convenções do luar e das novelas de cordel, devia estreitá-la loucamente nos braços. Mas, em vez disso, sentia-se sem jeito, parado, com vontade de fumar, e o vinagre da salada azedara-lhe o estômago.

Sem saber como, viu reflectido na água do rio

o rosto de Christine, um rosto abatido, um pouco aflito, com uma das faces manchada com a tinta com que pintara as portas da casa quando da sua instalação em Chesborough Terrace. Essa visão aborreceu-o e exasperou-o. Se estava ali era porque as circunstâncias o haviam arrastado. E que diabo! Afinal de contas era um homem e não um cliente para o Voronoff! Num íntimo desafio, beijou Frances de novo.

- Pensei que talvez fosse preciso um ano para

o doutor se decidir - e nos olhos dela brilhava a mesma chama afectuosa e divertida. - E agora acho que nos devemos ir embora. Noites como estas são muito perigosas para a alma de um puritano.

Andrew estendeu a mão para ajudar Frances a

levantar-se.

Ela conservou-a presa nas suas, apertando-a

levemente quando se dirigiam para o automóvel. Andrew deu um xelim de gorjeta ao vigilante fardado e pôs o carro em movimento. Ao voltarem para Londres, o silêncio de Frances tinha a eloquência da felicidade.

Andrew, entretanto, não se sentia contente.

Considerava-se um idiota, um cãozinho de luxo. Indignado consigo próprio, em luta com os próprios sentimentos, repugnava-lhe voltar para o seu quarto abafado, para a sua cama solitária, onde não encontraria repouso. O coração estava frio. Mil ideias lhe povoavam a cabeça. A memória desenrolou perante os seus olhos, com doçura aflitiva, a lembrança do seu primeiro amor por Christine, o êxtase palpitante daqueles dias de Blaenelly, e foi com esforço irado que afastou do seu espírito essas imagens.

Em frente da casa de Frances, Andrew ainda

estava irresoluto. Saiu do carro e abriu a porta, para que ela saísse. Ficaram juntos na rua, enquanto Frances abria a bolsa e tirava a chave.

- Não quer entrar? Os criados já devem estar a

dormir.

Hesitante, Andrew gaguejou: - É muito tarde... Não lhe parece? Ela pareceu não o ouvir. Subiu os degraus

exteriores com a chave na mão. Quando Andrew a acompanhou, teve a impressão de ver a sombra de Christine, de volta do mercado, com o seu velho saco das compras.