A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 49 de 55

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A Cidadela

Capítulo 16

Andrew mexeu-se na cama a noite toda,

inquieto, sem poder dormir. Só ao amanhecer conseguiu conciliar o sono.

Levantou-se tarde, pálido, com olheiras. Ao

descer, depois das nove, viu que Christine já havia tomado o café e saído. Normalmente o facto não teria significação. Mas naquele dia a ausência da mulher fê-lo compreender, numa angústia súbita, como estavam agora afastados.

Quando Emily lhe trouxe ovos e presunto,

Andrew nada pôde comer. Os músculos do pescoço estavam doridos recusavam-se ao trabalho de mastigar. Bebeu uma xícara de café e, num impulso, preparou uma dose forte de whisky. Bebeu-o de um golo. Só depois se decidiu a enfrentar a tarefa do dia.

Embora a acção da rotina ainda o amparasse,

os seus movimentos eram menos automáticos do que no dia anterior.

Uma réstia de luz, ainda muito ténue, ia

forçando o nevoeiro da sua combalida natureza. Compreendeu estar na iminência de uma queda brusca. Compreendeu também que se caísse no abismo nunca mais de lá sairia. Cautelosamente, procurando animar-se a si mesmo, abriu a garagem e tirou o carro. Esse simples esforço humedeceu-lhe as palmas das mãos.

O seu principal objectivo naquela manhã era

chegar ao Vitória. Tinha um encontro marcado com o Dr. Thoroughgood para observarem Mary Boland. Aquele, pelo menos, era um compromisso a que não queria faltar. Conduziu devagar até ao hospital. De facto sentia-se melhor no automóvel do que a pé. À força do hábito o conduzir tornara-se uma ocupação automática, um mero reflexo.

Chegou ao hospital, arrumou o carro e subiu à

enfermaria. Com um cumprimento de cabeça para a enfermeira, tomou a papeleta de Mary e sentou-se na ponta do leito dela. Recebeu o seu sorriso acolhedor e viu o lindo ramalhete de rosas que estava na mesinha da cabeceira, mas continuou estudando as indicações da papeleta, nada animadoras.

- Bons dias - disse ela. - Não são lindas essas

rosas? Foi Christine quem as trouxe, ontem de tarde.

Andrew fitou-a. Não estava afogueada, mas

parecia um pouco mais magra.

- Sim, são lindas. E como vai passando, Mary?

- Ora... muito bem - no primeiro momento, os

olhos dela evitaram os de Andrew, mas logo depois encararam-no cheios de confiança. - Seja como for, eu sei que não será por muito tempo. Vai-me curar muito em breve.

A confiança que havia nas suas palavras, e

principalmente no seu olhar, produziu em Andrew uma palpitação dolorosa e pensou intimamente: «Se as coisas correrem também mal neste aspecto será o fim de tudo».

Nesse momento o Dr. Thoroughgood

começou a inspecção pela enfermaria. Logo que entrou viu Andrew e dirigiu-se-lhe imediatamente.

- Bons dias, Manson - disse, com bom humor.

- Por aqui? Que há? Está doente?

Andrew levantou-se.

- Estou perfeitamente bem, obrigado. O Dr. Thoroughgood olhou-o com ar

intrigado e voltou-se para a cama de Mary.

- Gostei que me pedisse que visse este caso na

sua companhia. Deixe-me ver a papeleta, enfermeira.

Durante dez minutos observaram Mary.

Depois Thoroughgood encaminhou-se para uma janela, no fundo da enfermaria, onde, sem perder de vista toda a sala, podiam conversar sem serem ouvidos.

- E então? - perguntou Thoroughgood. Ainda absorto, Andrew ouviu a sua própria

voz:

- Não sei o que pensa, Dr. Thoroughgood, mas

tenho a impressão de que a marcha da doença não é animadora.

Thoroughgood cofiou a barbicha: - De facto, há dois ou três indícios... Parece-me

que há uma ligeira extensão.

- Não penso assim, Manson. A temperatura é

instável.

- É... talvez. Desculpe-me a insistência,

doutor... Compreendo perfeitamente as nossas posições, mas este caso interessa-me muito. Dadas as circunstâncias, o doutor não acharia

de considerar o recurso do pneumotórax? Deve lembrar-se que eu insisti para que o tentássemos quando Mary, a doente, deu entrada no hospital.

Thoroughgood olhou de lado para Manson. A

sua fisionomia alterou-se, tomou aspecto obstinado.

- Não, Manson. Não me parece que seja caso

para pneumotórax. Não o empreguei quando ela para cá veio e não o vou empregar agora.

Um silêncio se estabeleceu. Andrew nada

mais disse. Conhecia Thoroughgood, a sua teimosia invulgar. Além disso sentia-se exausto, física e moralmente, sem energia para persistir numa discussão que julgava inútil. Escutava impassível as digressões de Thoroughgood, que expunha a sua maneira de ver o caso. Quando o outro concluiu e voltou à sua inspecção, Andrew aproximou-se de Mary, disse-lhe que voltaria no dia seguinte e saiu da enfermaria.

Antes de abandonar o hospital, pediu ao

porteiro que comunicasse para casa que não o esperassem para o almoço.

Era quase uma hora. Ainda estava triste,

possuído de pensamentos dolorosos, sem vontade de comer. Perto de Battersea Bridge parou em frente de uma casa de chá. Pediu café e torradas. Mas não pôde beber o café e sentiu náuseas no estômago às primeiras torradas. Viu que a criada o olhava com curiosidade.

- Não estão boas? - perguntou ela. - Posso

trocá-las.

Fez um gesto negativo com a cabeça e pediu a

conta. Enquanto a criada escrevia, pôs-se a contar distraidamente os botõezinhos negros e lustrosos do vestido dela. Já uma vez, havia muito tempo, olhara assim para três botõezinhos de madrepérola da blusa de uma professora de Blaenelly.

Lá fora uma névoa amarelada caía

opressivamente sobre o rio. Lembrou-se de repente que tinha dois compromissos para aquela tarde, no consultório de Welbeck Street. Foi conduzindo o automóvel devagar.

A enfermeira Sharp estava de mau humor,

como sempre acontecia nos sábados em que tinha de trabalhar. Contudo, o aspecto de Andrew era de tal natureza que ela lhe perguntou se estava doente. Depois, num tom mais suave porque sempre tivera pelo Dr. Hamson a maior consideração, informou que Freddie já telefonara duas vezes depois do almoço.

Quando ela saiu da sala, Andrew sentou-se

junto da secretária, com o olhar vago, sem nada fixar. O primeiro cliente chegou às duas e meia. Era um jovem funcionário do Departamento de Minas, a quem fora indicado pelo Gill. Era um cardíaco. Sofria realmente de perturbações valvulares. Manson deu-se conta de que estava a estudar o caso muito minuciosamente, dando-lhe o máximo da atenção, explicando ao doente todos os detalhes do tratamento.

Por fim, quando este fez o gesto de tirar a

carteira, apressou-se a dizer:

- Não me pague agora. Espere que eu lhe

mande a conta.

Uma sensação estranha se apossou dele ao

pensar que nunca chegaria a cobrar a conta, que já não tinha a preocupação absorvente do dinheiro, que ainda era capaz de o desprezar como nos velhos tempos.

Entrou logo depois o segundo cliente, uma

mulher dos seus quarenta e cinco anos. Era a Sr.a Basden, uma das suas mais dedicadas clientes. Sentiu o coração oprimir-se quando ela apareceu. Rica, egoísta e hipocondríaca, era uma segunda edição, mais jovem, mas mais antipática, daquela Sr.a Reaburn que vira certa vez em companhia de Hamson, na Casa de Saúde Sherrington.

Escutou-a, aborrecido, com a mão na testa.

Ela, toda risonha, fazia um relatório circunstanciado de todas as manifestações do seu organismo desde a última consulta, alguns dias antes. De repente, Andrew ergueu a cabeça.

- É por isso que vem ao meu consultório, Sr.a

Basden?

Interrompida no meio de uma frase, a sua cara

era cómica; a parte superior ainda se manifestava prazenteira, mas a boca caía devagar, num esgar de surpresa.

- Eu sei que tenho a culpa - continuou. - Eu

disse-lhe que voltasse. Mas, com franqueza, a senhora não sofre de coisa alguma.

- Dr. Manson! - a mulher arfava, sem poder

acreditar no que ouvia.

Era a verdade absoluta. Numa análise

implacável, Manson chegara à conclusão de que todos os sintomas que a mulher apresentava eram devidos exclusivamente ao dinheiro. Nunca trabalhara um dia em toda a sua vida. O corpo era mole, gordo, superalimentado. Se não dormia era porque os músculos nenhum esforço faziam. O próprio cérebro permanecia parado. Toda a sua actividade se resumia em cortar cupões de obrigações, receber dividendos, ralhar com as criadas e inventar o que ela e o lulu da Pomerânia deviam comer. O remédio era abandonar o comodismo, fazer qualquer coisa aproveitável. Nada de pílulas, sedativos, hipnóticos, colagogos e todas essas drogas!

Porque não dava aos pobres alguma coisa do

que lhe sobrava? Porque não se interessava pela sorte do próximo, deixando de pensar exclusivamente em si mesma? Mas nunca seria de utilidade para alguém, nunca! Nada adiantava aconselhá-la. Aquela criatura estava espiritualmente morta e ai dele! ele também.

- Queira desculpar-me - disse aborrecido. -

Não lhe posso dedicar mais os meus cuidados, Sr.a Basden. Eu... é possível que tenha de viajar. Mas encontrará certamente outros médicos que terão muito gosto em alimentar-lhe as suas manias.

Ela abriu a boca repentinamente como um

peixe fora de água. Depois a fisionomia deixou transparecer uma verdadeira apreensão. Estava convencida, muito convencida, de que o médico perdera o juízo. Não quis discutir mais. Levantou-se, agarrou precipitadamente a mala e saiu a toda a pressa.

Disposto a voltar para casa, Andrew deu volta

à chave das gavetas da secretária com ar de quem fecha a loja.

Antes, porém, de levantar-se, entrou,

alvoroçada e risonha, a enfermeira Sharp.

- O Dr. Hamson chegou agora! Preferiu vir

pessoalmente a telefonar.

Logo depois entrou Freddie. Animadíssimo,

acendeu um cigarro, puxou uma cadeira. Havia qualquer coisa no seu olhar. A sua atitude nunca fora tão afectuosa.

- Desculpa, meu velho, se venho roubar-te

tempo numa tarde de sábado. Mas sabia que estavas no consultório e quis dar-te dois dedos de conversa. Olha, Manson: contaram-me esse caso da operação de ontem e não minto em dizer-te que fiquei satisfeitíssimo. Já era tempo de ficares esclarecido a respeito do nosso amigo Ivory. Nesse momento a voz de Hamson tomou um acento malévolo.

- É bom que saibas, meu velho, que tenho

andado ultimamente um pouco afastado do Ivory e do Freedman. Não têm procedido correctamente comigo. Havia entre nós uma certa combinação que rendia bastante, mas depois cheguei à conclusão de que esses dois tipos ficavam com a maior parte dos lucros. Além disso o feitio de carniceiro do Ivory já me irritava. Não sabe operar. Tens carradas de razão. Ele não passa de um miserável abortador. Ah, não sabes disso? Posso garantir-te o fundamento das minhas palavras. Aqui perto, apenas a uns cem quilómetros daqui, existem duas casas de saúde que não se dedicam a outra coisa. Tudo muito encapotado e a preços exorbitantes, é claro. E sabes quem as dirige? Ivory! Freedman não lhe fica atrás. É um negociante de drogas muito sujo e sem ao menos a distinção do Ivory. E compreende, amigo: se te conto estas coisas é para teu bem. Prefiro que fiques sabendo como são no fundo esses dois tipos porque acho que deves afastar-te deles e entrar comigo em acordos mais íntimos. Ainda não tens experiência e por isso estás a ser demasiadamente explorado. Os teus ganhos poderiam ser muito maiores. Não sabes que o Ivory costuma dar cinquenta por cento a quem lhe proporciona uma operação? É só por isso que lhe mandam tantos clientes! E quanto te dá ele a ti? Uns miseráveis quinze por cento; vinte quanto muito. Isso não é suficiente, Manson! E depois da matança de ontem, eu, se estivesse no teu caso, não o toleraria mais. Agora, aqui entre nós, tenho uma boa ideia. Ainda não disse coisa alguma, é claro; sou decente de mais para fazer isso. Mas o plano é este... vamos estabelecer um acordo, tu e eu. Vamos fazer uma boa sociedade por nossa própria conta. Afinal, somos camaradas de escola, não é verdade? Eu gosto de ti, sempre gostei e posso oferecer-te um feixe de vantagens.

Freddie parou para acender outro cigarro e

depois sorriu cordial, expansivamente, disposto a mostrar todas as vantagens como provável sócio.

- Não fazes ideia dos recursos de que

disponho. Queres saber a minha última? Injecções a três guinéus... de água destilada! Um destes dias uma cliente veio tomar a sua vacina. Pois eu não me esqueci em casa do diabo da ampola? Pois bem! Para que ela não perdesse os passos, injectei-lhe a velha ITO. E a mulher voltou no dia seguinte para me dizer que aquela injecção lhe dera mais resultado, pois que se sentira melhor, do que as outras. Então continuei. E porque não? A fé é que salva. Mas fica sabendo que também prescrevo toda a espécie de remédios, quando necessário. Graças a Deus, nunca deixo de ser um profissional! Graças a Deus! E justamente por ser correcto é que eu e tu podemos entrar num acordo. Ah! Manson! Tu, com os teus títulos, e eu, com o meu savoir-faire, podemos fazer grandes coisas. É claro que a combinação tem de ser habilidosamente preparada. Manda para mim o cliente que entenderes para eu confirmar o diagnóstico. Além disso tenho em vistas um operador, jovem e distinto, cem vezes melhor que o Ivory! Poderemos montar mesmo, no futuro, a nossa casa de saúde. E então, velho amigo, estaremos conservados!

Andrew continuava estático, rígido, mudo.

Não tinha raiva a Hamson. Sentia apenas um amargo desprezo por si mesmo. Nada poderia ter mostrado de modo mais expressivo a que ponto havia chegado, tudo o que tinha feito, que caminho seguira... Por fim, compreendendo que tinha de responder qualquer coisa, murmurou:

- Não posso entrar num acordo contigo,

Freddie. Eu... aborreci-me disto tudo de repente. Parece-me que vou deixar isto aqui por algum tempo. Há canalhas de mais nesta zona de Londres. Bem sei que existe um certo número de homens de bem, procurando trabalhar com decência, escrupulosos na clínica, dignos de apreço. Mas os outros não passam de canalhas. São canalhas que dão essas injecções inúteis, que arrancam amígdalas e apêndices que não fazem mal algum, que mandam os clientes de um para outro como se fossem bolas de futebol; que dividem honorários, fazem abortos, recomendam médicos pseudocientíficos, ganham o dinheiro de qualquer maneira.

A cara de Hamson foi-se avermelhando pouco

a pouco.

- Que diabo é isso! - balbuciou Freddie. - Não

tens feito a mesma coisa?

- Não nego, Freddie - disse Andrew, num tom

pesado. - Não sou melhor do que os outros. E não quero que haja o menor ressentimento entre nós. Foste sempre o meu melhor amigo.

Hamson pulou na cadeira.

- Perdeste o juízo ou quê?

- Talvez tenha perdido de facto o juízo. Seja

como for, quero mudar de vida, deixar de pensar em dinheiro e em sucesso material. Essas coisas não são dignas de um bom médico. Quando um colega nosso ganha cinco mil libras por ano é um caso perdido. E porque... porque se há-de querer ganhar dinheiro à custa dos sofrimentos alheios?

- Mas que grandíssimo idiota! - respondeu

Hamson em voz bem clara. Voltou as costas e abandonou a sala.

Andrew sentou-se novamente à secretária,

sozinho, desolado. Por fim levantou-se e foi para casa. Ao aproximar-se, sentiu o coração bater com força. Eram quase seis da tarde. Toda a tensão do seu longo dia atribulado parecia chegar ao auge. A mão que enfiou a chave na fechadura da porta da rua estava trémula, muito trémula.

Encontrou Christine na sala da frente. Ao vê-

la ali, pálida e silenciosa, um arrepio perpassou-lhe pelo corpo.

Como desejava que ela perguntasse, com o

interesse antigo, porque tinha passado tantas horas longe dela! Mas Christine disse apenas numa voz desinteressada:

- Tiveste hoje um dia muito comprido. Queres

tomar chá antes do serviço do dispensário?

- Hoje à noite não há dispensário. Christine fitou-o:

- Mas é sábado... O dia de maior movimento. A única resposta de Andrew foi escrever um

aviso no qual declarava que o dispensário estaria fechado à noite.

Atravessou o corredor, pendurou o aviso na

porta. O coração agora batia tanto como se fosse rebentar. Quando voltou, encontrou Christine no consultório, ainda mais pálida, com os olhos cheios de apreensão.

- Que aconteceu? - perguntou ela numa voz

estranha.

Andrew encarou-a e então extravazou toda a

angústia que procurava conter, a onda do sentimento rompeu todos os diques da contensão nervosa.

- Christine!

Tudo dentro dele falou nesta única palavra.

No mesmo instante caiu ajoelhado junto dela, a soluçar.