A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 2 de 55

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A Cidadela

Capítulo 2

Ainda chovia quando atravessou as trevas

viscosas de um terreno baldio e seguiu ao longo de Chapei Street, na direcção vagamente indicada pela Sr.a Page. Na escuridão da noite, a cidade ia tomando forma diante de Andrew.

Lojas e igrejas Zion, Capell, Hebron, Bethel,

Bethseda, passou por muitas, depois os armazéns de uma grande cooperativa e a filial de Western Counties Bank, tudo na rua principal, mergulhada no fundo do vale. Era extraordinariamente impressionante a sensação de estar sepultado no fundo daquela cadeia de montanhas. Havia pouca gente por ali. A pouca distância, estendendo-se de um lado e de outro de Chapei Street, havia filas de casas com tectos azuis de trabalhadores das minas. Mais além, na extremidade da garganta, sob o clarão que se espalhava como um leque no céu opaco, a mina de hematite de Blaenelly e as fábricas metalúrgicas.

Andrew chegou ao n.º 7 da Glydar Place,

bateu ansiosamente na porta, e logo o levaram à cozinha, onde a doente estava deitada numa cama, a um canto. Era uma mulher jovem, esposa de um operário metalúrgico chamado Williams.

Ao aproximar-se da cabeceira, com o coração

a bater apressadamente, ele sentiu com toda a nitidez a significação deste acto. Era o verdadeiro ponto de partida da sua carreira.

Quantas vezes imaginara aquela cena,

quando, no meio de uma multidão de estudantes, acompanhava uma aula prática na enfermarias do Prof. Lamplough! Agora não havia uma multidão para o amparar, nem a exposição fácil do mestre. Estava sozinho, diante de um caso que devia diagnosticar e tratar sem ajuda estranha. De repente, numa verdadeira aflição, ele teve a consciência do seu nervosismo, da sua inexperiência, da sua completa falta de preparação para tal eventualidade.

Sob o olhar do marido, na divisão acanhada,

com chão de pedra e iluminação escassa, ele examinou a mulher com escrupuloso cuidado. Não havia dúvida: estava doente.

Queixava-se de intolerável dor de cabeça.

Temperatura, pulso, língua, tudo indicava perturbação, perturbação bem séria. Mas que podia ser? Andrew fez angustiosamente a si mesmo essa pergunta quando se inclinou novamente sobre a enferma. O seu primeiro caso! Oh! Ele sabia que estava demasiadamente nervoso. Mas, e se cometesse um erro, um terrível erro? Pior ainda e se não pudesse fazer um diagnóstico? Nada esqueceu. Nada. Contudo, ainda lutava para chegar a uma conclusão das suas observações, à solução do seu problema, esforçando-se por classificar os sintomas correspondentes de alguma doença definida. Afinal, compreendendo que não poderia prolongar o exame por mais tempo, endireitou-se lentamente, enrolando o estetoscópio, procurando com esforço o que havia de dizer.

- Ela teve um resfriamento? - perguntou sem

levantar a vista.

- Sim, realmente - respondeu Williams com

ansiedade. Mostrara-se apreensivo durante o demorado exame. - Há três ou quatro dias. Estou certo de que foi um resfriamento, doutor.

Andrew confirmou com a cabeça, tentando

dolorosamente inspirar uma confiança que não sentia. Murmurou:

- Havemos de vê-la curada dentro em breve.

Vá ao dispensário daqui a meia hora. Eu lhe darei um remédio.

Despediu-se e, cabisbaixo, pensando

desesperadamente, arrastou-se para o dispensário, uma construção de madeira arruinada que ficava à entrada do caminho da casa de Page. Lá dentro acendeu o gás e começou a andar de um lado para o outro diante dos frascos azuis e verdes sobre as prateleiras empoeiradas, quebrando a cabeça, esforçando-se por uma solução. Não havia sintomas precisos. Devia ser, sim, devia ser um resfriamento. Mas, no íntimo, ele sabia que não era um resfriamento. Resmungava exasperadamente, desanimado e raivoso em face da sua própria insuficiência. Contra a sua vontade, via-se forçado a contemporizar.

Para quando se lhe deparava um caso

duvidoso na sua enfermaria, o Prof. Lamplough tinha preparada uma fórmulazinha que aplicava com tacto: P.O.D. pirexia de origem desconhecida. Era exacta e não comprometia.

E soava tão bem como coisa científica! Sentindo-se muito infeliz, Andrew tirou de

um canto de um armário um frasco de seis onças e, com uma ruga de preocupação, começou a compor uma preparação febrífuga.

- “Espírito de nitro doce, salicilato de sódio.

Onde estava o diabo do salicilato? Ah, está aqui!”

Tentou animar-se reflectindo que todas

aquelas drogas eram esplêndidas, excelentes, destinadas a fazer baixar a temperatura. Só podiam fazer bem. O Prof. Lamplough declarara muitas vezes não haver remédio tão eficaz na generalidade dos casos como o salicilato de sódio.

Exactamente quando Andrew acabava de

fazer a composição e escrevia o rótulo, com a sensação exaltada de haver praticado uma façanha, a campainha tocou, a porta da rua abriu-se e entrou, seguido de um cão, um homem de trinta anos, baixo, de compleição robusta, faces avermelhadas.

Houve um silêncio. O cão de pêlo negro

assentou-se sobre as patas traseiras enlameadas. Entretanto o homem que usava um fato velho de veludo de algodão, meias castanhas e sapatos com tachas, uma capa de oleado encharcadíssima sobre os ombros fitou Andrew de alto a baixo. Quando se decidiu a falar fê-lo com um tom de voz de uma polidez irónica, intoleràvelmente bem educada.

- Ao passar vi luz na janela. Pareceu-me que

devia entrar para lhe apresentar as boas-vindas. Sou Denny, assistente do conceituado Dr. Nicholls, L. S. A. Isso quer dizer, se ainda não sabe: Licenciate of the Society of Apothecaries, o título mais elevado que Deus e os homens conhecem.

Andrew baixou a vista, embaraçado. Phillip

Denny sacou um cigarro de um maço amachucado, atirou o fósforo ao chão e começou a passear insolentemente. Tomou o frasco do remédio, leu o rótulo, as indicações, destapou-o cheirou-o, tapou-o de novo e colocou-o outra vez no mesmo lugar, deixando transparecer no semblante avermelhado e aborrecido uma expressão de amabilidade melíflua.

- Esplêndido! Já começou a trabalhar

lindamente! Uma colherada de três em três horas. Valha-me Deus! Como é confortante a velha e querida mistificação! Mas, doutor, porque não três vezes ao dia? Não compreende, colega, que, pela ortodoxia mais estrita, as colheradas devem passar três vezes por dia pelo esófago do doente?

Fez uma pausa, tornando-se ainda mais

ofensivo na sua delicadeza, com o ar afectado de intimidade.

- E agora, diga-me, doutor, que é isso? Pelo

cheiro é espírito de nitro doce. Estupendo esse espírito de nitro doce, tão eficiente como ele é! Estupendo, meu caro doutor, estupendo! Carminativo, estimulante, diurético, e pode beber-se à vontade um garrafão. Não se lembra do que diz o livrinho de receitas? Quando em dúvida, recomende espírito de nitro. Ou é iodureto de potássio? Ora essa! Parece que já esqueci alguma das minhas noções essenciais.

Mais uma vez se estabeleceu silêncio no

barracão de madeira, quebrado apenas pelo tamborilar da chuva no telhado de zinco. De repente Denny soltou uma gargalhada, saboreando a expressão confusa do rosto de Andrew.

E acrescentou com ar de troça: - Deixando a ciência de parte, doutor, poderia

satisfazer a minha curiosidade? Que ideia foi essa de vir para aqui?

Por essa altura Andrew já estava meio

irritado. Respondeu asperamente:

- Tive a ideia de transformar Blaenelly numa

estância de cura; uma espécie de estação de águas, compreende?

Denny riu-se novamente. O seu riso era como

um insulto que dava a Andrew vontade de lhe bater.

- Engraçado, muito engraçado, meu caro

doutor. É o espírito contundente dos verdadeiros escoceses. Infelizmente não lhe posso recomendar a água daqui como especialmente indicada para uma estação de cura. Enquanto aos senhores médicos, meu caro colega, são eles neste vale o rebotalho, o refugo de uma profissão gloriosa e verdadeiramente nobre.

- Inclusive o senhor mesmo?

- Precisamente.

Denny balançou a cabeça num gesto

confirmativo das suas palavras. Depois ficou calado um momento, a contemplar Andrew por baixo das sobrancelhas castanho-carregado. Então abandonou o tom irónico e trocista e o seu rosto tornou-se concentrado. Embora amargo, era sério o tom da voz.

- Tome nota, Manson! Bem sei que começa

agora a sua carreira para ser um médico de prestígio mas até lá há duas ou três coisas sobre isto aqui que deve saber. Não achará o lugar muito de acordo com as melhores tradições do exercício romântico da medicina. Não há hospital, nem ambulância, nem raios X, nem coisa alguma. Quando há necessidade de operar, usa-se a mesa da cozinha. Para lavar-se depois, tem de o fazer na pia da cozinha. Os sanitários são coisas que não se podem ver. Quando o Verão é seco, as criancinhas morrem, como moscas, de cólera infantil. Page, o seu patrão, foi um elemento bom na medicina, mas agora é um homem acabado, que Blodwen explora. Nunca mais voltará a ser o que era. Nicholls, o meu patrão, é um tipozinho de parteira que só pensa em dinheiro. Bramwell, o Rei da Prata, nada sabe, a não ser alguns recitativos sentimentais e os Salmos de Salomão. E, quanto a mim, é melhor antecipar as boas referências: bebe como uma esponja. Ah! E o Jenkins, o boticário da casa, faz um óptimo negócio, por seu lado, com pastilhas para doenças de senhora. Creio que é tudo. Anda, Hawkins, vamos embora.

Chamou o cão e dirigiu-se para a porta. Ali

parou, passeando a vista desde o frasco do remédio, sobre o balcão, até Manson. A sua voz era natural, quase desinteressada.

- A propósito, se eu fosse a si consideraria a

hipótese de enterite no caso de Glydar Place. Alguns casos não têm características definidas.

Pum... bateu a porta de novo. Antes que

Andrew pudesse responder, o Dr. Phillip Denny e Hawkins desapareceram na escuridão e na chuva.