A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 14 de 55

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A Cidadela

Capítulo 14

Embora a distância através das montanhas

não fosse grande, a viagem por caminho de ferro de Aberalaw a Blaenelly era cheia de voltas. O comboio que levava Andrew parava em todas as estações; o de Penelly, que tomou depois do transbordo em Cardiff, não andava depressa, não tinha mesmo pressa alguma. A disposição de Manson era agora bem diferente. Afundado num banco, ardendo de impaciência, doido por chegar, era atormentado pelos próprios pensamentos.

Viu pela primeira vez como tinha sido egoísta

nos últimos meses olhando só ao próprio interesse. Todas as suas dúvidas sobre o casamento, todas as suas hesitações em falar a Christine tinham girado unicamente em torno dos sentimentos dele, Manson. Baseavam-se na convicção de que ela o aceitaria. Mas se estivesse a laborar num erro?

Se ela não o amasse? Viu-se rejeitado, a

escrever com desalento uma carta à direcção para explicar que, «devido a circunstâncias posteriores, alheias à sua vontade», não podia assumir o cargo. Christine estava agora bem nítida «diante dos seus olhos. Como ele lhe conhecia o ligeiro sorriso interrogador, o modo de apoiar o queixo na mão, uma serena candura nos olhos castanhos. Uma saudade pungente dominou-o. Christine querida! Se tivesse de a perder, nada mais lhe importaria...

Às nove horas, como que arrastando-se, o

comboio chegou finalmente a Blaenelly. De um salto Andrew já estava na plataforma e num abrir e fechar de olhos encontrou-se a subir Station Road. Embora só esperasse Christine na manhã seguinte, sempre havia uma possibilidade de já ali a encontrar. Chegou a Chapei Street. Dobrou a esquina.

Uma luz no quarto dela encheu de esperança

o seu coração.

Procurando acalmar-se, explicava a si mesmo

que naturalmente era a dona da casa que arrumava o quarto.

Entrando apressadamente, precipitou-se na

salinha de espera.

Sim! Era Christine ajoelhada a um canto, no

meio de livros, a arrumá-los na prateleira mais baixa da estante, Terminando a arrumação, começou a apanhar cordéis e papéis espalhados no soalho. A mala e o casaquinho estavam numa cadeira, com o chapéu em cima. Percebeu que devia ter chegado há pouco.

- Christine!

Ela virou-se, ainda ajoelhada, com uma mecha

de cabelo caído sobre a testa. Soltou um grito de surpresa e prazer e levantou-se.

- Andrew! Que bom o senhor aparecer! Ao seu encontro, radiante, ela estendeu-lhe

uma das mãos. Mas Andrew segurou-lhe logo as duas mãos, prendendo-as com firmeza. Olhou-a enternecido. Ainda gostava mais dela: com aquela saia e aquela blusa. Como que acentuavam a sua delicadeza, a doçura da sua mocidade.

O coração de Manson batia de novo. - Chris! Tenho uma coisa para lhe dizer. Os olhos dela fixaram-no com ar preocupado.

Já ansiosa examinou Andrew, muito pálido e fatigado pela viagem Perguntou, aflita:

- Que aconteceu? Uma nova questão com a

Sr.a Page? Vai-se embora daqui?

Andrew fez um sinal negativo com a cabeça,

prendendo ainda mais nas suas as delicadas mãos de Christine. E então, num rompante, desabafou:

- Christine! Consegui um emprego, e que

emprego!... É em Aberalaw. Entendi-me hoje com a direcção. Quinhentas libras por ano e casa para morar. Uma casa, Christine! Oh! Christine... Pode... quer casar comigo?

Ela empalideceu, e na sua palidez os olhos

brilhavam. Com a respiração suspensa, respondeu num murmúrio:

- E eu pensava... eu pensava que me vinha dar

más notícias.

- Não, não. - E impulsivamente: - É a mais

maravilhosa das notícias, minha querida. Acabo de ver a cidade. Tudo aberto e claro, com campos verdes e lojas bonitas e um jardim público e... Christine! Até um hospital! Se quer casar comigo podemos começar a nossa vida lá sem mais demora.

Os seus lábios tremeram. Mas os olhos

sorriam, sorriam para ele com brilho estranho.

- É por causa de Aberalaw ou por minha

causa?

- É por si, Chris. Oh! Já sabe que gosto de si,

mas... enfim... pode não me querer...

Ela quis dizer qualquer coisa que não lhe saiu

da garganta.

Chegou-se tanto que a cabeça ficou

mergulhada no peito de Andrew. E quando os braços dele a enlaçaram, pronunciava frases soltas:

- Oh! Querido, meu amor, gostei de si desde...

- e sorrindo entre lágrimas felizes - desde que entrou naquela triste sala de aula.