A Cidadela
Capítulo 11
Já era perto da meia-noite quando o comboio
chegou a Aberalaw. Vinha com trinta minutos de atraso. Em todo o percurso do vale a locomotiva lutou com um terrível vendaval. Quando desceu à plataforma quase foi arrastado pela violência do furacão.
A pequenina gare estava deserta. As árvores
plantadas em frente da estação encurvavam-se como arcos, tremendo e assobiando ao sopro da ventania. E lá em cima as estrelas brilhavam com fulgor mais distante.
Andrew seguiu ao longo da Station Road. As
rajadas, que o levavam a encolher o corpo, como que lhe excitavam o espírito. Cheio do seu triunfo, do seu contacto com os corifeus das altas rodas médicas, com as palavras de Sir Robert Abbey a ecoarem-lhe nos ouvidos, queria chegar a toda a pressa junto de Christine, para lhe contar alegremente como tudo aquilo decorrera. O telegrama já lhe antecipara a boa notícia; mas agora ele queria explicar nos mínimos pormenores toda aquela aventura emocionante.
Quando, de cabeça baixa, desembocava em
Talgarth Street, teve de repente a impressão de que corriam atrás dele. Um homem pisava fortemente mas o ruído dos seus passos na calçada ao perder-se no fragor do vendaval sugeria a ideia de um fantasma. Andrew parou instintivamente.
Quando o homem se aproximou, viu que era
Frank Davies, do serviço de socorro do poço n.º 3 da mina de antracite. Davies tinha sido um dos seus alunos no curso de Pronto-socorro que organizara na Primavera anterior.
Davies também reconheceu logo o médico. - Estava à sua espera, doutor. Ia agora à sua
casa. O vento derrubou os postes telefónicos. Uma rajada mais forte abafou as suas últimas palavras.
- Que aconteceu? - gritou Andrew. - Houve um desmoronamento no poço n.º 3. -
Chegou-se mais para junto de Manson, pondo as suas mãos em funil para ser ouvido melhor. - Um trabalhador está sepultado lá em baixo. Não parece possível arrancá-lo de lá. É o Sam Bevan. Está na sua lista. É melhor o doutor dar um pulo até lá, para socorrer o homem.
Andrew deu alguns passos em companhia de
Davies, mas de repente lembrou-se.
- Preciso da minha maleta - berrou para o
outro. - Corra à minha casa e vá buscá-la. Vou directamente ao poço n.º 3. Olhe, Frank, diga a minha mulher onde fui.
Precipitando-se pela margem da linha férrea e
atravessando depois Roath Lane, quase que arrastado pela ventania, em menos de cinco minutos Andrew chegava ao poço n.º 3. No posto de socorros encontrou à sua espera três trabalhadores e o subdirector, cuja fisionomia se desanuviou um pouco ao vê-lo.
- Boas noites, doutor. Estamos todos às voltas
com a tempestade. E ainda por cima tivemos um desmoronamento. Ninguém morreu, graças a Deus, mas um dos rapazes ficou preso pelo braço. Não podemos levantá-lo nem uma polegada. E o tecto da galeria ameaça desabar.
Dirigiram-se para a torre balouçante do poço.
Dois dos trabalhadores carregavam uma padiola com talas espalhadas. O outro levava uma caixa com material de pronto-socorro. Quando entraram no elevador de madeira um vulto apareceu do pátio, a correr. Era Davies, ofegante, com a maleta.
- Andou ligeiro, Frank - disse Manson quando
Davies, no elevador, se agachou a seu lado.
Davies apenas abanou a cabeça. Não podia
falar. Houve um rangido de cordas, um momento de ansiedade e a gaiola foi descendo, até bater no fundo da galeria. Saíram todos um a um; o subdirector em primeiro lugar, depois Andrew, Davies ainda com a maleta na mão e por fim os três mineiros.
Andrew já havia percorrido galerias de mina.
Estava acostumado às galerias altas dos jazigos de Blaenelly, grandes cavernas escuras e ressoantes, cavadas bem no fundo da terra, onde o minério era arrancado do seu leito.
Mas aquele poço n.° 3 era uma mina velha
com um longo e tortuoso caminho que ia dar aos trabalhos de mineração.
A galeria era menos um corredor que uma
furna apertada e baixa, tosca e gotejante, através da qual tinham de engatinhar muitas vezes, mesmo rastejar, numa distância de quase meia milha. De repente a lanterna que trouxera o subdirector imobilizou-se logo adiante de Andrew e este compreendeu que tinham chegado.
Manson avançou um pouco, rastejando
devagarinho.
Três homens, ligados, cada um puxando pela
cintura o que estava na frente, faziam o que lhes era possível para arrancar do fundo de um buraco o operário que jazia numa atitude confusa, o corpo torcido para um lado, um ombro virado para trás, aparentemente perdido na massa das rochas desmoronadas em torno dele. Ao lado dos homens viam-se instrumentos espalhados, dois bornais de merenda amolgados, casacos abandonados.
- Como se passam as coisas, rapazes?
Perguntou o subdirector em voz baixa.
- Não há possibilidade de o arrancarmos dali -
o homem que respondeu voltou a cara suada e suja. - Já experimentámos tudo.
- Pois não continuem - disse o subdirector
lançando um olhar ansioso para o tecto da mina. - Aqui está o doutor. Afastem-se um pouco, rapazes, e deixem espaço livre. É melhor irem lá para trás.
Os três homens afastaram-se do buraco e
Andrew, a quem abriram caminho, avançou. Nesse instante pela sua cabeça perpassou a lembrança do seu exame recente, do progresso da bioquímica, da terminologia pomposa, das frases científicas. O exame não havia previsto uma contingência semelhante.
Sam Sevan não perdera os sentidos. Mas as
suas feições estavam muito pálidas sob a poeira produzida pelo desmoronamento. Esboçou um fraco sorriso para Manson.
- Está a parecer-me que o doutor vai agora
fazer uma demonstração do serviço de pronto-socorro à minha custa Bevan fora aluno do curso de socorro de emergência e mais de uma vez tinha sido requisitado para ajudar ao serviço de curativos.
Andrew chegou junto do sinistrado. A luz da
lanterna do subdirector, projectada por cima do seu ombro, correu as mãos pelo corpo do ferido, que estava livre, menos o antebraço esquerdo, preso nos escombros ao comprido e esmagado sob o enorme peso da rocha que imobilizava o homem. Estava ali como um prisioneiro.
Andrew verificou imediatamente que o único
meio de libertar Bevan era amputar-lhe o antebraço. E o pobre Sam, que o observava com os olhos aflitos onde se patenteava dor, leu essa decisão no momento em que ela fora considerada inevitável.
- Faça o que tem a fazer, doutor - murmurou -
mas tire-me daqui depressa.
- Não se preocupe, Sam - disse Andrew. - Eu
vou fazê-lo adormecer. Quando acordar já estará na cama.
Agachado na lama sob o tecto de dois pés
apenas de altura, ele tirou o casaco, dobrou-o e enfiou-o por debaixo da cabeça de Bevan. Arregaçou as mangas da camisa e pediu a maleta. O subdirector entregou-a e cochichou ao ouvido de Andrew.
- Por amor de Deus, doutor, ande depressa.
Este tecto vai desabar em cima de nós de um momento para o outro.
Andrew abriu a maleta. Sentiu imediatamente
um cheiro forte de clorofórmio. Antes mesmo de mergulhar a mão no bojo escuro da maleta e tocar num pedaço de vidro já adivinhara o que acontecera. Na pressa de chegar à mina Frank deixara cair a maleta. Quebrara-se o frasco. O clorofórmio entornara-se; o mal era irreparável. Um arrepio perpassou pelo corpo de Andrew. Não havia tempo para mandar alguém à superfície e não tinha anestésico!
Talvez durante trinta segundos ficou
paralisado. E então, automaticamente, procurou com os dedos a seringa de injecção, encheu-a e aplicou a Bevan uma dose máxima de morfina. Não podia ficar à espera que o anestésico produzisse todo o efeito. Colocou a maleta inclinada de modo a ter os instrumentos ao alcance da mão, e disse, enquanto apertava o torniquete:
- Feche os olhos, Sam!
A luz era mortiça e as sombras moviam-se
numa confusão bruxuleante. À primeira incisão um gemido passou através dos dentes cerrados de Bevan. E gemeu outra vez.
Então, quando o bisturi tocou o osso, teve a
sorte de desmaiar.
Um suor frio inundava a fronte de Andrew
quando pinçou a artéria da carne mutilada de onde jorrava o sangue. Não podia ver o seu trabalho. Sentia-se sufocado ali, naquele buraco muito abaixo da superfície do solo, enterrado na lama. Não havia anestésico, nem sala de operações, nem uma série de enfermeiras para acorrer ao seu chamamento. Não era cirurgião. Estava apenas a fazer o que podia e talvez nem chegasse a um resultado satisfatório. O tecto da mina ia desabar em cima de todos.
Atrás dele ouvia a respiração opressa do
subdirector. De cima escorriam gotas de água muito fria que lhe caíam no pescoço. Ardiam os dedos manchados de sangue, que trabalhavam febrilmente. Tinha a percepção do ranger da serra e da voz de sir Robert Abbey, de muito longe: «A oportunidade para a prática científica...» Oh! Deus do Céu! Nunca chegaria a um resultado feliz!
Enfim! O alívio foi tão grande que quase
soluçou. Pôs um tampão de gase sobre o coto ensanguentado. Com as pernas a tremer disse:
- Podem retirar o homem.
À distância de uns metros numa clareira da
galeria da mina, com espaço para ficar de pé e quatro lâmpadas em torno dele, ultimou o trabalho. Ali era mais fácil. Limpou, ligou, ensopou a ferida com anti-séptico. Um dreno agora, depois as suturas. Bevan continuava sem sentidos, mas embora fraca, a pulsação era normal. Andrew passou a mão pela testa. Pronto!
- Levem com cuidado a padiola. Cubram o
homem com esses cobertores. Precisaremos de sacos de água quente assim que sairmos daqui.
Curvando a cabeça nos lugares mais baixos, a
lenta procissão começou a vencer as sombras da furna. Os homens não tinham dado uns sessenta passos quando ecoou na escuridão atrás deles um estrondo surdo e abafado.
Era o último rumor de um comboio entrando
num túnel.
O subdirector não olhou para trás. Disse
apenas a Andrew, numa emoção a custo contida:
- Aí está. É o resto do tecto que foi abaixo. A caminhada de volta durou cerca de uma
hora. Tinham de arrastar a padiola meio inclinada para um lado nos lugares mais estreitos. Andrew já nem podia calcular desde quanto tempo estavam ali em baixo. Mas afinal chegaram todos à boca da mina.
Subir, subir depressa, sair daquelas
profundezas, era a aspiração de todos. A chicotada fina do vento azorragou-lhes a cara quando saíram do elevador. Numa espécie de êxtase, Andrew deu um longo suspiro. Ficou ao pé da escadinha de saída, encostado ao corrimão. Estava escuro ainda, mas tinham pendurado no pátio da mina uma grande lanterna de petróleo que crepitava e tremia em labaredas incertas. Em redor da lanterna, Andrew viu um pequeno grupo de figuras expectantes. Havia muitas mulheres com xale na cabeça.
De repente, quando a padiola vinha
lentamente atrás dele, Andrew ouviu alguém gritar alucinadamente o seu nome. A seguir os braços de Christine enlaçaram-lhe o pescoço. Abraçada ao marido, soluçava desesperadamente.
De cabeça descoberta, apenas com um casaco
sobre a camisa de dormir, os pés sem meias enfiados em chinelinhas de casa, era uma figura quase irreal naquela escuridão tempestuosa.
- Que aconteceu? - perguntou ele, espantado,
tentando afrouxar os braços de Christine para lhe poder ver o rosto.
Ela, entretanto, não o queria largar. Agarrava-
o freneticamente, como quem se está a afogar e murmurava entre soluços:
- Disseram que o tecto da mina tinha
desabado e que tu... que tu tinhas lá ficado.
A pele estava azulada, os dentes rangiam.
Andrew levou-a até ao fogão do posto de socorros, envergonhado, mas profundamente comovido. Tomaram ali cacau bem quente. Beberam os dois pela mesma xícara fumegante.
E passou-se muito tempo antes que um deles
se lembrasse de falar sobre o novo e grande título científico que Andrew conquistara.