A Cidadela
Capítulo 2
A pouca distância de casa, na rua principal,
por onde Passavam os autocarros, havia uma pequena pastelaria, dirigida por uma mulherzinha gorducha, alemã naturalizada, que dizia chamar-se Smith, mas que era evidentemente Schmidt, a julgar pelo sotaque. Era um local bem típico o estabelecimento de Frau Schmidt, com o seu estreito balcão de mármore abarrotado de arenques fritos frascos de azeitonas, chucrute, várias qualidades de enchidos, pastéis, salames e um delicioso queijo chamado «Libtauer». Além disso tinha a vantagem de ser muito barato. Já que o dinheiro andava tão escasso na casa do médico e o fogão da cozinha estava em ruínas, Andrew e Christine visitavam com frequência a casa de Frau Schmidt. Nos dias bons comiam frankfurters e apfelstrudel; nos dias de crise, o almoço consistia num prato de arenques com batatas cozidas. Por vezes entravam na pastelaria, depois de examinarem com olhos gulosos a montra dos comestíveis, e saíam de lá com qualquer coisa boa dentro de um saco de corda.
Frau Schmidt não tardou em travar relações
com os novos fregueses. Demonstrava especial simpatia por Christine. Sob a massa revolta dos cabelos louros, a cara gorda e lustrosa da alemã desabrochava num sorriso diante de Andrew. E apertando os olhinhos, dizia-lhe cheia de interesse :
- Tudo correrá bem. O doutor vencerá. Tem
uma boa mulherzinha. Pequenina, como eu. Mas é boa. Espere e verá. Eu lhe arranjarei clientela!
A situação tornou-se ainda mais séria para
Andrew e Christine porque o Inverno chegou pouco depois. As ruas mergulhavam no nevoeiro, ainda aumentado, ao que parece, pelos fumos da grande estação ferroviária que ficava perto. Trataram de suportar a provação de bom humor, procurando convenser-se de que os seus transes de vida eram divertidos. Mas em Aberalaw nunca haviam tido dias tão difíceis.
Christine fez os arranjos que pôde no casarão
frio e húmido. Caiou os tectos, fez novas cortinas para a sala de espera, forrou de papel o quarto de dormir. Pintando-as de novo, conseguiu transformar por completo as portas estragadas da sala de visitas, no andar térreo.
As chamadas que recebia uma vez por outra
proporcionaram a Andrew o conhecimento das pensões da vizinhança.
O dinheiro desses clientes não era fácil de
receber. Era, em regra, uma gente miserável e mesmo suspeita, acostumada à prática do calote. Mas o médico tratava de captar a simpatia das donas da pensão, umas criaturas magras e estranhas Ficava a conversar nos corredores sombrios. Dizia: «Não supus que estivesse tanto frio! Devia ter trazido o sobretudo». Ou então: «É desagradável andar a pé. O meu carro está agora na oficina».
Fez-se amigo do sinaleiro que regulava o
trânsito da esquina da casa de Frau Schmidt. Chamava-se Donald Struthers. Descobriram imediatamente afinidades, pois tanto o polícia como Andrew eram de Fife. Struthers prometeu ajudar o patrício no que fosse possível, observando humoristicamente:
- Pode ficar certo, doutor: se houver aqui
algum atropelamento, não deixarei de o mandar chamar.
Uma bela tarde, um mês depois de ter iniciado
a sua acção profissional, Andrew saiu e correu todas as farmácias do bairro, procurando com ares importantes uma seringa Voss, tipo especial, de 10 c.c., que bem sabia não poder encontrar em nenhuma delas. Era um meio de se apresentar como o novo importante médico da zona. Ao voltar leu na cara de Christine uma boa nova.
- Há uma cliente à tua espera no consultório -
murmurou ela. Veio pela porta da frente.
A fisionomia de Andrew alegrou-se. Era o
primeiro «cliente distinto» que lhe aparecia. Talvez fosse o começo de melhores tempos. E todo agitado, entrou apressadamente no consultório.
- Boas tardes! Em que posso ser-lhe útil? - Boas tardes, doutor. Venho recomendada
pela Sr.a Smith.
Levantou-se para o cumprimentar. Era gorda,
robusta simpática. Trazia um casaquinho de peles e uma bolsa grande. Manson percebeu logo que se tratava de uma dessas mulheres suspeitas que frequentavam o bairro.
- Ah! Sim! - disse ele, perdendo um pouco da
animação.
- Oh! Doutor - sorria a mulher, um tanto
acanhada - O meu amigo acaba de me dar uns lindos brincos de ouro. E a Sr.a Smith, de quem sou freguesa, disse-me que o doutor poderia furar-me as orelhas. O meu amigo teme que se eu mesma o fizer provoque alguma infecção.
Andrew deu um longo suspiro. Ver-se
obrigado a chegar a tal ponto. Disse, afinal:
- Está bem. Vou furar-lhe as orelhas. Fez o trabalho cuidadosamente, desinfectando
a agulha, esfregando os lóbulos com cloreto de etilo e até mesmo colocando os brincos.
- Oh! Doutor, que encanto! - E mirando-se no
espelhinho da bolsa: - Nada senti. O meu amigo vai ficar contentíssimo. Quanto é, doutor?
Havia uma taxa fixa para os «clientes
distintos», embora a distinção não fosse muito fixa. Foy cobrava sete xelins e seis pence. Foi quanto Andrew pediu. A mulher tirou da bolsa uma nota de dez xelins. Achava o médico um cavalheiro muito amável, educado e bonito. Sempre havia apreciado o tipo moreno, como o dele. Ao receber o troco, notou que ele parecia esfomeado.
Noutra época Andrew teria ficado a andar
nervosamente de um lado para outro, com a impressão de que também se estava a prostituir com um serviço tão inferior.
Mas nada disso fez quando a mulher saiu.
Sentia em si mesmo uma estranha humildade. Com a nota amarrotada na mão, foi à janela e pôs-se a observar a cliente, até que ela desapareceu remexendo as ancas, balouçando a bolsa, orgulhosa dos brincos que levava nas orelhas. No meio dessa luta desesperada, Manson sentia profundamente a falta de bons amigos, de bons companheiros.
Assistiu à reunião de uma sociedade médica
do bairro, mas não se divertiu muito. Denny ainda estava fora. Dando-se bem em Tampico, resolvera ficar, como cirurgião da Companhia de Petróleo Novo Século. Não podia contar com ele, pelo menos nos tempos mais próximos. Hope, por sua vez, fora mandado para Cambridge, onde, como explicou humoristicamente num postal, estava a contar corpúsculos, por encomenda do Paraíso dos Maníacos.
Frequentemente sentia vontade de entrar em
contacto com Freddie Hamson. Algumas vezes chegou mesmo a procurar na lista o número do seu telefone. Mas desistia sempre de pedir ligação. «Ainda não vencera. Ainda não estava devidamente instalado na vida», pensava consigo mesmo. E essa ideia neutralizou o primeiro impulso. Freddie morava ainda na Queen Anne Street, embora noutra casa. De dia para dia, Andrew pensava cada vez mais em Hamson, a conjecturar a que deveria ele o seu triunfo, a recordar os velhos tempos de estudante. Uma vez não resistiu. A tentação era demasiadamente forte. Telefonou.
- Já te esqueceste de mim com certeza -
rosnou, já meio preparado para ouvir os protestos do amigo. - Quem fala é Manson, Andrew Manson. Faço clínica aqui, em Paddington.
- Manson! Tu, esquecido! Que ideia é essa,
meu amigo? - Freddie estava atacado de lirismo. - Mas, homem de Deus, porque não me telefonaste há mais tempo?
- Oh! Ainda não estamos devidamente
instalados.
Andrew sorria, animado pela cordialidade de
Freddie.
- Além disso, com aquele emprego na Junta,
tivemos de viajar por toda a Inglaterra. Sou agora um homem casado, sabes...
- Eu também! Ouve, velho amigo; vamos
aproximar-nos de novo. O mais depressa possível. Faço questão disso. Tu, aqui em Londres. Estupendo! Deixa-me ver o livro de notas. Olha: pode ser quinta-feira? Queres vir jantar connosco?
- Sim, sim. Será óptimo. Então, até quinta-
feira, meu velho! Entretanto pedirei a minha mulher que escreva um bilhete à tua.
Christine não demonstrou entusiasmo quando
Andrew lhe falou no convite.
- Vai tu só, Andrew - sugeriu ela, depois de
uma pausa.
- Ora! Isso é absurdo! Freddie quer que
conheças a mulher dele. Eu sei que não aprecias, mas talvez haja outras pessoas, outros médicos provavelmente. Podemos ver coisas novas, querida. Além disso, não nos temos distraído ultimamente. Ele falou em smocking. Ainda bem que comprei um para aquela festa em Newcastle. E tu, Christine? Precisas de arranjar um vestido que sirva.
- Preciso de arranjar um novo fogão de gás -
respondeu, um tanto amuada.
Aquelas últimas semanas tinham sido bem
duras para ela. Perdera um pouco da sua frescura, que sempre fora o seu maior encanto, e, por vezes, como naquele momento, o seu modo de falar era impaciente e fatigado.
Mas na noite de quinta-feira, quando se
dirigiram para Quenn Anne Street, ele notou como Christine parecia interessante no seu vestidinho. Era o mesmo vestido branco que comprara para a festa de Newcastle, mas modificara-o com tanto jeito que dava a impressão de ser ainda mais novo, mais elegante. Penteado também de modo diferente, muito liso, o cabelo negro emoldurava graciosamente o rosto pálido. Andrew bem notou isso quando ela lhe endireitou a gravata. Quis mesmo dizer-lhe que estava linda, mas esqueceu-se de se manifestar pois de repente teve receio de se atrasar.
No entanto não chegaram tarde, mas cedo, tão
cedo que só ao fim de três minutos, origem de um certo constrangimento, é que Freddie apareceu, alegre, de braços abertos, explicando que chegara naquele momento do hospital e que sua mulher não tardaria a descer. Ofereceu- lhes aperitivos, batendo nas costas de Andrew, convidando-os a sentar-se. Freddie engordara bastante desde aquele encontro em Cardiff. A papada da prosperidade saía-lhe do colarinho. Mas os olhos conservavam o mesmo brilho e não havia um só fio de cabelo fora do lugar, na cabeça inundada de brilhantina. Todo ele irradiava saúde e boa vida.
- Podem crer! - Ergueu o copo. - É um encanto
para mim encontrá-los de novo. Desta vez temos de cultivar as nossas relações. Que achas isto aqui, meu velho? Lembras-te do que eu disse naquele jantar em Cardiff? E a propósito, que jantar horrível, hem? Garanto que o de hoje será melhor. Eu disse que havia de vencer em Londres. Ocupo aqui a casa toda, é claro. Não apenas um apartamento. Comprei-a no ano passado. E que dinheirão me custou! - Apertou o laço da gravata, todo cheio de si. - Não é preciso dizer por quanto isso me saiu nem mesmo explicar que sou um médico vitorioso. Mas não me incomodo que fiques sabendo, meu velho.
Tudo ali parecia realmente muito caro, não
havia dúvida: uma confortável mobília moderna, fogão de luxo, bom piano, um ramo artificial de magnolias de madrepérola numa grande jarra branca. Andrew já se preparava para exprimir a sua admiração quando entrou a Sr.a Hamson: alta, fria, com o cabelo negro apartado ao meio.
- O vestido marcava uma diferença gritante do
de Christine.
- Vem, querida - acolheu-a Freddie com
carinho, mesmo com deferência, e apressou-se a encher e oferecer-lhe um cálice de Xerez. Decorreu tempo suficiente para que ela beberricasse displicentemente o aperitivo antes que aparecessem os outros convidados: o casal Charles Ivory, o Dr. Paul Fredman e a mulher. Quando estes chegaram, fizeram-se as apresentações e houve risinhos e troca de palavras entre os Ivory, Fredman e Manson. Pouco depois era servido o jantar.
O aspecto da mesa era de luxo refinado. Era como um Mostruário opulento que Andrew tinha visto na montra de Labin & Benn, os famosos joalheiros de Regent Street. Até os candelabros. A comida era irreconhecível: não se sabia se era peixe ou carne, mas tinha um sabor admirável.
E serviu-se champanhe. Depois de duas taças,
Andrew tornou-se mais comunicativo. Começou a conversar com a Sr.a Ivory, que se sentara à sua esquerda. Era uma mulher esguia, vestida de preto, portadora de uma soberba colecção de jóias. Os olhos azuis, grandes e salientes, voltavam-se de vez em quando para ele numa expressão quase infantil.
O marido era o grande cirurgião Charles
Ivory, explicou ela, sorrindo, quando Andrew lhe fez a pergunta. Ela pensava que toda a gente conhecia Charles. Morava em New Cavendish Street, logo ao virar da esquina. Numa casa própria. Era agradável residir tão perto do casal Hamson. Charles, Freddie e Paul Fredman eram tão bons amigos! Todos três sócios do Sackville Clube. Ficou espantada quando Andrew confessou não ser sócio. Pensava que toda a gente tinha de pertencer ao Sackville. E pôs-se a conversar com o outro vizinho da mesa.
Manson voltou-se então para a Sr.a Fredman,
à sua direita. Achou-a mais gentil e agradável, com uma pele aveludada, quase como a de uma oriental. Encorajou-a a falar também acerca do marido. E dizia consigo mesmo:
«Preciso de informar-me acerca desses
senhores. Parecem tão prósperos e triunfantes...» Paul, explicou a Sr.a Fredman, era médico. O casal morava num palacete de Portland Place, mas Paul tinha consultório em Harley Street. A clientela era magnífica, explicava tão afectuosamente, que nem parecia gabarolice, composta principalmente por hóspedes do Plaza Hotel. Naturalmente, o Dr. Manson, conhecia o Plaza, aquele hotel, novo e elegantíssimo, que dá para o Parque. É conhecidíssimo, mesmo porque está sempre cheio de celebridades. Paul era praticamente o médico oficial do Plaza. E são tantos os milionários americanos e astros de cinema. Sim. tudo o que é importante se hospeda no Plaza. E isso é estupendo para o Paul.
Andrew gostou da Sr.a Fredman. Ficou a
ouvi-la até que a Sr.a Hamson se levantou. Então apressou-se amavelmente a afastar a cadeira da vizinha de mesa.
- Charuto, Manson? - perguntou Freddie, com
ar de entendido no assunto, quando as senhoras se retiraram. - Hás-de gostar destes. E aconselho-te a não desprezares este brande. É de 1894. Posso garantir a qualidade.
Com o charuto aceso e um pouco de brande
num copo bojudo na sua frente, Andrew arrastou a cadeira para junto dos outros. Era exactamente isso que ele desejava, uma palestra de médicos bem animada, assuntos profissionais e nada mais. Esperava que Hamson e os seus companheiros se decidissem a falar. E de facto falaram bastante.
- A propósito - disse Freddie. - Encomendei
hoje, na Casa Glickert uma das novas lâmpadas de irradiação. É um pouco puxada de preço. Custou-me quase oitenta guinéus. Mas vale a pena.
- Safa!... - exclamou Fredman, pensativo. Era
magro de olhos negros, com fisionomia inteligente de judeu. - Deve render bastante para compensar o custo.
Andrew apertou o charuto entre os dedos
preparando-se para discutir.
- Essas lâmpadas não me parecem famosas.
Deves ter lido, naturalmente, o artigo de Abbey no Medical Journal, sobre o mito da helioterapia. Essas lâmpadas de irradiação absolutamente nenhum raio infravermelho contêm.
Freddie olhou-o espantado e depois sorriu.
- Mas contêm a grande vantagem de se cobrar
três guinéus de cada cliente por aplicação. Além disso, dão à pele um tom bronzeado muito apreciado.
- Ouça, Freddie - interrompeu Fredman. - Eu
sou contrário à aquisição de aparelhagem dispendiosa. Tem de ser paga muito antes que comece a render qualquer coisa. Além disso envelhece depressa, passa de moda. com franqueza, caro colega, nada há tão vantajoso como a velha injecção.
- E o colega sabe com certeza aproveitá-la bem
- disse Hamson.
Ivory juntara-se ao grupo. Era volumoso, mais
velho que os outros, pálido, bem escanhoado, com o desembaraço de um homem mundano.
- A propósito, encomendei hoje uma série de
injecções Doze. Manganês, claro. Vejam o que eu fiz. É uma coisa que rende actualmente. Disse ao cliente: o senhor é um homem de negócios. Esta série de injecções vai-lhe custar cinquenta guinéus, mas se quer pagar adiantado custam-lhe quarenta e cinco. O cliente entregou-me o cheque imediatamente.
- Que espertalhão me saiu! - comentou
Freddie. - Pensei que o colega fosse cirurgião.
- E sou de facto - Ivory balançou a cabeça. -
Amanhã vou fazer uma raspagem na Casa de Saúde Sherrington.
- Não se deve sair disso - murmurou Predman
distraído, tirando baforadas do charuto e voltando ao assunto. - Não se deve sair disso. É interessante. Numa clínica de gente bem os remédios por via gástrica estão completamente postos de lado. Se eu receitasse para um hóspede do Plaza... por exemplo, uma solução de arsénico, não ganharia com isso mais do que um miserável guinéu. Mas sabem o que faço? Aplico a mesma coisa hipodèrmicamente. Esta coisa de esterilizar a agulha, esfregar a pele com algodão embebido em álcool e todo o restante cenário é uma coisa que impressiona. O cliente acha isso científico e convence-se de que o médico é o melhor do mundo.
Hamson declarou com convicção: - Acreditem que é bem bom para os médicos
que o tratamento por via gástrica esteja fora de voga nas zonas elegantes. Veja-se o caso do nosso amigo Charlie. Suponhamos que ele receita manganês... ou manganês e ferro, o bom remédiozinho dos velhos tempos. É o que convém ao doente, mas que ganharia o Charlie com isso? Nada mais de três guinéus. No entanto se aplicar a mesma droga numa dúzia de injecções ganha cinquenta guinéus...
- Oh! Desculpe, Charlie, quero dizer...
quarenta e cinco.
- Menos doze xelins - murmurou Fredman
jovialmente. - Desconte o custo das ampolas.
A cabeça de Andrew estalava. Espantava-o,
pela sua novidade, aquele argumento em favor da abolição dos remédios em frascos. Tomou mais um gole de brande para fortalecer o ânimo.
- E ainda há mais - acrescentou Fredman. - O
público não sabe o preço das injecções. Quando vê uma caixa de ampolas num consultório de médico, a cliente pensa logo: «Isto deve custar um dinheirão».
- Repare - disse Hamson, piscando o olho para
Andrew -repare como Fredman emprega quase sempre no feminino a palavra cliente. A propósito, Paul, ouvi falar na caçada de ontem. Dummett quer organizar um grupo de caça, se você, o Charles e eu o acompanharmos.
Durante uns dez minutos ficaram
conversando sobre caçadas, golfe e automóveis. Ivory comprara um carro novo, feito de encomenda para ele. Andrew escutava, fumava, bebia brande. Já estavam todos bem bebidos. Um pouco transtornado, Andrew tinha a impressão de que eram todos companheiros óptimos, magníficos. Não o excluíam da conversa. Pelo contrário, davam sempre a entender, por uma palavra ou por um olhar, que ele fazia parte do grupo. Na companhia de gente tão distinta até se esqueceu de que o seu almoço tinham sido apenas arenques de escabeche e quando se levantaram, Ivory bateu-lhe afectuosamente no ombro:
- Vou mandar-lhe o meu cartão, Manson. Será
para mim um prazer examinar um caso na sua companhia...
- Em qualquer ocasião.
Voltando à sala de visitas, encontraram ali
uma atmosfera que, pelo contraste, parecia cerimoniosa. Mas o Freddie, numa animação tremenda, mais radiante que nunca, mãos nos bolsos o peitilho da camisa a luzir imaculadamente, achou ser ainda muito cedo e que deviam terminar a noite juntos, no Embassy.
- Receio - Christine lançou um olhar furtivo
para Andrew - que não possamos ir.
- Que tolice, querida! - Andrew sorriu, um
tanto afogueado. - Não podemos pensar em ser desmancha-prazeres.
Via-se logo que Freddie era conhecidíssimo no
Embassy. Instalados numa mesa de canto, ele e os companheiros faziam vénias e dirigiam sorrisos para todos os lados.
Champanhe de novo. Dança. «Esses senhores,
sabem levar a vida», pensava Andrew, um tanto tocado pela bebida, muito expansivo. «Oh! Bonito! Bonito isto que estão a tocar! Quem sabe... quem sabe se Christine não gostaria de dançar?».
No táxi, ao voltar para casa afirmou
alegremente:
- Companheiros de primeira ordem, Chris!
Noite magnífica! Não concordas?
Ela respondeu numa voz seca e decidida: - Foi uma noite horrorosa!
- Hem? Como?
- Gosto de Denny e Hope... São os que me
parecem teus colegas, Andrew... Mas estes, estes superficiais, estes fúteis...
- Mas que é isso, Chris?... Que achaste ruim? - Oh! Então não deste por coisa alguma? -
respondeu ela, numa fúria gelada: - Tudo. A comida, a mobília, o assunto das conversas. É dinheiro, dinheiro o tempo todo. Não reparaste talvez como a Sr.a Hamson olhou para o meu vestido. Deu a entender que gasta mais num só tratamento de beleza do que eu com os meus fatos durante um ano inteiro. Chegou a ser engraçada a cena na sala de visitas quando percebeu que eu não sou alguém. Ela, sim, é filha de Whitton... O Whitton do whisky! Nem podes imaginar o que foi a conversa antes de vocês voltarem lá de dentro. Mexericos de alta-roda, quem tinha ido passar o fim de semana na casa de campo de Fulano, qual o último aborto da sociedade, o que disse o cabeleireiro... E nem uma só palavra sobre coisas decentes. Ora! Ela até insinuou que estava a «ser gentil»... os termos são dela... com o chefe da orquestra de dança do Plaza.
Era tremendo o sarcasmo da sua voz.
Confundindo-o com inveja, Andrew disse com a voz meio espapaçada:
- Hei-de arranjar muito dinheiro para ti, Chris!
Comprarás uma porção de vestidos caros.
- Não preciso de dinheiro - disse ela, com
energia. E detesto os vestidos caros.
- Mas... querida. - Aproximou-se, meio
embriagado, dela. -
- Não te chegues! - O tom assustou-o. - Eu
gosto de ti, Andrew, mas não quando estás bêbado.
Ele encolheu-se no canto, desconcertado,
furioso. Era a primeira vez que ela o repelia.
Pagou o táxi e entrou em casa à frente dela.
Então, sem uma palavra, subiu ao quarto mal mobilado. Tudo parecia feio e triste ao voltar de ambientes tão luxuosos.
O comutador da luz estava avariado. Toda a
instalação da casa era defeituosa.
«Que diabo»! - pensava, ao atirar-se para a
cama. - «Preciso de sair desta situação. Christine verá! Quero ganhar dinheiro. Que posso fazer sem dinheiro?».
Pela primeira vez o casal dormiu em quartos
separados.