A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 7 de 55

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A Cidadela

Capítulo 7

No fim dessa mesma semana, quando voltava

do trabalho, Andrew ficou chocado ao encontrar Edward encolhido numa cadeira à porta da casa e em trajes de rua, uma colcha sobre os joelhos e um boné posto de qualquer modo na cabeça trémula. Soprava um vento desagradável e era fria e pálida a luz do sol de Abril que inundava a sua trágica figura.

- Olhe - gritou a Sr.a Page, da porta,

encaminhando-se num alvoroço triunfante para Manson. - Vê? O doutor já está de pé! Acabei de telefonar ao Sr. Watkins para lhe dizer que o doutor está muito melhor. Dentro em breve voltará ao trabalho, não é verdade, querido?

Andrew sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. - Quem o arrastou para aqui? - Eu! - disse Blodwen num tom de desafio. - E

porque não? É meu marido. E está muito melhor.

- O doutor não está em condições de sair da

cama e a senhora sabe-o muito bem - disse Andrew em voz baixa, irritado. - Faça o que lhe digo. Ajude-me a levá-lo para o quarto imediatamente.

- Sim, sim - murmurou Edward. - Leve-me

para a cama. Estou com frio. Não estou bem. Eu... eu não me sinto bem.

E com grande tristeza de Manson o paralítico

começou a gemer.

Blodwen teve então um dilúvio de lágrimas.

Caiu de joelhos e abraçou as pernas do doente, contrita, bajuladora.

- Está bem, está bem, querido. Voltas já para a

cama, queridinho. Blodwen fará tudo o que quiseres, Blodwen está aqui para cuidar de ti. A tua mulherzinha só te quer bem.

Dava beijos a escorrerem saliva na face do

marido.

Meia hora mais tarde, com Edward já deitado,

Andrew foi à cozinha a estalar de raiva.

Annie tornara-se uma verdadeira amiga.

Muita confidência havia trocado ali mesmo na cozinha e muita maçã e muito bolo tinham saído da dispensa pela mão daquela mulher solícita e discreta quando as rações de Andrew ao almoço e ao jantar eram excessivamente reduzidas. Algumas vezes até, como último recurso, ela corria à casinha de Thomas para trazer uma ceia de peixe frito e o doutor e a criada banqueteavam-se à mesa da cozinha sob a luz do candeeiro. Havia bem uns vinte anos que Annie estava ao serviço de Page. Tinha muitos parentes em Blaenelly, tudo gente remediada, e o único motivo por que continuava como criada era a sua dedicação ao Dr. Page.

- Sirva-me o chá aqui mesmo - pediu Andrew.

- Neste momento não posso tolerar a presença de Blodwen.

Ao entrar na cozinha verificou que Annie

tinha visitas, sua irmã Olwen e o marido, Emly Hughes. Já os conhecia.

Emly era um homem sólido, de boa índole,

com feições toscas e pálidas, que trabalhava como dinamitador nas pedreiras de Blaenelly.

Como Andrew hesitasse ao dar pela presença

do casal, Olwen, que era uma mulher jovem, viva, de olhos negros, disse impulsivamente:

- Não se incomode por nossa causa, doutor, se

quer tomar o seu chá aqui. Até estávamos falando a seu respeito quando entrou.

- Ah, sim?

- Sim, sem dúvida! - Olwen desviou o olhar

para a irmã. - É inútil olhares dessa maneira, Annie. O que penso tenho de dizer. Toda a gente diz, Dr. Manson, que há muitos anos não aparece por aqui um médico tão bom como o senhor. São todos unânimes em elogiar o cuidado e as atenções que o senhor dedica aos exames e aos tratamentos. Se não acredita em mim pode perguntar a Emly. E os homens estão fulos com a exploração da Sr.a Page de que o senhor está a ser vítima. Dizem que, pela justiça, o senhor é quem devia ser titular da clínica. Ela tomou conhecimento dessas conversas, compreende, doutor? E foi por isso que resolveu hoje de tarde arrancar da cama o velhinho sob o pretexto de que ele está melhor. Coitado do pobre homem.

Logo que terminou o chá, Andrew retirou-se.

A linguagem sem rodeios de Olwen deixara-o constrangido. Contudo, era lisonjeiro saber que a gente de Blaenelly gostava dele. E Andrew considerou uma significativa homenagem a visita que lhe fez, com sua mulher, John Morgan dias depois. Era o capataz do grupo de brocadores da mina de hematite.

Casados havia quase vinte anos, os Morgans

eram um casal de meia-idade, que nada tinha de abastado, mas com óptimo conceito em todo o distrito. Andrew ouvira dizer que estavam de viagem para a África do Sul, onde Morgan tinha um contrato em vista para trabalhar nas minas de Joanesburgo. Era frequente que bons brocadores se deixassem tentar pelas minas de ouro da Rand, onde o serviço de broca era semelhante, mas mais bem remunerado.

Ficou bastante surpreendido quando Morgan

explicou, meio acanhado, o motivo da visita.

- Bem, doutor, parece que chegou afinal a

nossa vez. Minha mulher está a preparar-se para ter um bebé. Depois de dezanove anos de casados, veja! Estamos encantados e decidimos adiar a viagem para depois do grande acontecimento. Também estivemos a pensar em quem seria o médico e chegámos à conclusão de que o doutor é o único a quem devemos confiar o caso. É o que há de mais importante para nós. E vai ser uma coisa difícil, pelo que imagino. Minha mulher já está com quarenta e três. Sim, senhor. Mas nós sabemos que com o doutor podemos ficar tranquilos.

Andrew aceitou a incumbência com a

agradável impressão de ser objecto de uma homenagem. Era uma emoção estranha que não se baseava em motivos materiais, mas que era duplamente confortante para a situação em que se encontrava. Nos últimos tempos sentia-se perdido, completamente desolado. Moviam-se dentro dele forças estranhas, perturbando-o e afligindo-o. Quando o coração estava repleto de um sentimento confuso, passava por momentos que até então, como um profissional já experimentado, julgara impossível encontrar na vida.

Até aqui nunca havia pensado a sério no

amor. Quando frequentava a universidade era tão pobre, vivia tão mal vestido e tão preocupado com os exames que nunca tivera grandes oportunidades para pensar no outro sexo. Em St. Andrew só um temperamento ardente como o do seu amigo e colega Freddie Hamson podia aventurar-se no círculo das danças, das festas e da vida de sociedade.

Tudo isso lhe fora negado. Exceptuando a sua

amizade com Hamson, pertencia a essa multidão de esquecidos que fica do lado de lá, fumando, com a gola do sobretudo levantada, e que, procurando ocasionalmente uma diversão, não vai ao clube, mas ao bilhar.

É verdade que o seu espírito não deixava de

povoar-se de imagens românticas. Mas em virtude da sua pobreza, elas geralmente projectavam-se num cenário de inatingíveis riquezas. No entanto, agora, em Blaenelly, ele encostava-se distraído à janela de um consultório desmantelado, a contemplar a imundície da ganga de minério, com o coração cheio da imagem de uma professorinha de escola primária. A modéstia das suas aspirações dava-lhe vontade de rir.

Sempre se orgulhara de ser um espírito

prático, dotado de uma forte dose de bom senso, e por isso mesmo tentava vigorosamente, como medida de defesa, reagir às suas próprias emoções. Procurou, fria e logicamente, examinar os defeitos dela. Não era bonita. A sua figura era demasiadamente pequena e esguia. Tinha aquele sinalzinho no rosto e uma ruga ligeira, visível quando sorria, no canto do lábio superior. Além disso não estava seguro dos seus sentimentos e provavelmente detestava,-o.

Andrew disse com os seus botões, irritado,

que procedia irreflectidamente deixando-se levar com tanta fraqueza pelos seus sentimentos. Tinha resolvido devotar-se ao trabalho.

Ainda era apenas um assistente. Então que

espécie de médico era ele para alimentar assim, logo no começo da carreira, um afecto que poderia embaraçar o seu futuro e que já começava a perturbá-lo no trabalho?

No esforço de dominar-se procurou várias

maneiras de se distrair. Convencendo-se agora de que estava em falta com os antigos companheiros de St. Andrew, escreveu uma longa carta a Freddie Hamson, que fora nomeado recentemente para um hospital de Londres. Procurou Denny com frequência. Mas, se bem que Phillip algumas vezes se mostrasse acessível, geralmente era frio, desconfiado, marcado com a amargura de um homem maltratado pela vida.

Por mais que tentasse, Andrew não conseguia

desviar do seu pensamento, nem libertar do coração, aquela impressão torturante. Não a tinha visto desde o seu desabafo à saída do sarau. Que pensaria ela a seu respeito? Não a via desde há tanto tempo, apesar dos olhares ansiosos que lançava à escola, ao passar pela Bank Street, que esperava não mais a encontrar.

Mas na tarde de sábado 25 de Maio, quando já

estava quase sem esperança, recebeu um bilhete dela expresso nestes termos:

«Prezado Dr. Manson:

O casal Watkins vem jantar comigo

amanhã, domingo. Se nada de melhor tiver de fazer, venha também. Às sete e meia. Sinceramente

Christine Barlow»

Teve uma exclamação tão violenta que Annie

veio a correr da copa.

- Apre, doutor - disse em tom de censura. - Às

vezes parece maluco.

- E estou de facto! - respondeu ele, ainda fora

de si. Eu... Parece que consegui afinal o que queria. Ouça, Annie querida. Quer passar a ferro as minhas calças ainda hoje? Quando eu me for deitar deixo-as do lado de fora da porta.

Na noite seguinte, livre do consultório por ser

domingo, Andrew apresentou-se, trémulo e ansioso, na casa da Sr.a Herbert, onde Christine residia. Era ainda muito cedo e ele tinha noção disso, mas não podia esperar um minuto.

Foi a própria Christine quem lhe abriu a porta

com a mais cordial das fisionomias, sorrindo para ele.

Sim, ela sorria, sorria naquele momento. E

chegara a pensar que ela o detestava! Ficou tão perturbado que quase não teve palavras para se exprimir.

- Está um dia adorável, não lhe parece? -

mastigou Andrew, seguindo-a até à saleta.

- Glorioso - concordou ela. - E eu, logo depois

do almoço, dei um grande passeio. Fui para lá de Pandy. Imagine que encontrei celidónias.

Sentaram-se. Andrew esteve a ponto de

perguntar nervosamente se ela gostava de passear, mas engoliu a tempo essa banalidade.

- A Sr.a Watkins acaba de mandar dizer-me

que ela e o marido vêm um pouco mais tarde. Ele teve de ir ao escritório. Não se importa de esperar um pouco?

Importar-se? Um pouco! Sentia vontade de rir,

numa estranha felicidade. Se ela soubesse... Havia esperado tanto isso! Era tão maravilhoso ficar ali, a seu lado... Disfarçadamente, Andrew olhou à sua volta. A sala, mobilada com as suas próprias coisas, era tão diferente de qualquer outro interior que ele conhecia em Blaenelly! Não tinha pelúcias, nem enfeites de crina, e muito menos essas almofadas de cetim que adornavam espalhafatosamente a sala de visitas da Sr.a Bramwell. O soalho era encerado e junto da lareira havia um tapetezinho castanho. O mobiliário era tão discreto e bem arrumado que quase não se notava. No centro da mesa, preparada para a ceia, havia uma jarra branca sem ornatos onde mergulhavam as celidónias que apanhara naquela manhã O efeito era discreto e agradável.

No peitoril da janela, uma pequena caixa de

madeira, cheia de terra, na qual cresciam algumas plantas, alegrava a vista. Por cima do fogão estava pendurado um quadrinho muito estranho, com uma cadeirinha de criança pintada de vermelho, e, na opinião de Andrew, extraordinariamente mal pintada.

Ela devia ter notado a surpresa que o quadro

lhe causou.

Sorriu num humor contagioso. - Espero que não imagine ser isso original. Embaraçado, ele não soube que dizer.

Perturbava-o a personalidade que Christine imprimia ao ambiente e a convicção de que ela sabia coisas que estavam fora do seu alcance. Contudo, o interesse de Andrew era tão grande que esqueceu o acanhamento e fugiu da conversa tola e banal dos comentários sobre o tempo. Encaminhou a conversa para a vida dela.

Christine respondeu com simplicidade. Era de

Yorkshire. Perdera a mãe quando tinha quinze anos, o pai fora subdirector numa das grandes minas de carvão de Blaenelly. O seu único irmão, John, havia praticado como engenheiro na mesma mina. Cinco anos mais tarde, quando ela já tinha dezanove anos e completara o curso da Escola Normal, o pai fora nomeado director da hulheira de Porth, a vinte milhas dali. Christine e o irmão vieram com ele para Gales do Sul, ela para cuidar da casa e John para auxiliar o pai. Seis meses depois da sua chegada deu-se uma explosão em Porth Pit. John estava no fundo da mina e teve morte instantânea. Sabedor do desastre, o pai desceu imediatamente ao local, onde foi vítima do grisu. Uma semana depois foram retirados os dois corpos. Quando Christine acabou estabeleceu-se um silêncio.

- Sinto muito o que lhe aconteceu - disse

Andrew numa voz em que a simpatia se manifestava.

- Todos foram muito bons para mim -

acrescentou com simplicidade. - O casal Watkins especialmente. Consegui esta colocação na escola. - Ela calou-se; a sua expressão voltou a animar-se. - Entretanto, eu sou como o doutor. Ainda uma estranha aqui. É preciso muito tempo para nos habituarmos a estes vales.

Manson fitou-a, procurando manifestar de

qualquer modo, mesmo ligeiramente, o que sentia por ela; uma observação qualquer com o poder de encerrar habilmente o passado e abrir o futuro a todas as esperanças.

- É vulgar sentirmo-nos fora do ambiente aqui

quando se está só. Sei muito bem. Muitas vezes sinto necessidade de alguém com quem possa trocar impressões.

Ela sorriu.

- E sobre que sente necessidade de trocar

impressões?

Andrew corou, com a ideia de que ela o

pusera numa situação crítica.

- Oh, sobre o meu trabalho, por exemplo. -

Deteve-se, mas sentiu depois necessidade de explicar-se. - Parece-me, às vezes, que meto os pés pelas mãos, defrontando sempre um problema após outro.

- Quer dizer que tem tido casos difíceis? - Não é bem isso. - Ele hesitou, mas depois

prosseguiu. - Eu vim para aqui cheio de fórmulas, essas coisas em que toda a gente acredita ou finge acreditar. Que juntas inchadas querem dizer reumatismo. Que reumatismo cede ao salicilato. Esses princípios ortodoxos, como sabe! Pois bem, começo a achar que muitas dessas noções estão completamente erradas. O caso dos remédios, por exemplo. Parece-me que alguns, em vez de bem, fazem mal. O sistema é assim. O doente entra no consultório. Está convencido de que lhe vão dar um frasquinho de remédio. E, na verdade, dão-lho, ainda que seja apenas açúcar queimado, bicarbonato de sódio ou mesmo a boa e velha água do pote. Isto é, aqua. É por isto que essas coisas são receitadas em latim, para que o doente não entenda. Isso não está certo. Isso não é científico. Outra coisa ainda: creio que muitos médicos tratam as doenças empiricamente, isto é, tratam dos sintomas individualmente. Não se preocupam em ligá-los e estudá-los e deles extrair o diagnóstico. Dizem depressa, porque geralmente não podem perder tempo: «Ah, dor de cabeça? Tome essas pílulas». Ou então: «Está anémico? Deve tomar ferro». E não procuram curar das razões da dor de cabeça ou da anemia. - Parou subitamente. - Oh, perdoe-me! Estou a aborrecê-la!

- Não, não - disse ela, com vivacidade. - Isso é

interessantíssimo.

- Estou apenas começando, tacteando o

terreno - continuou ele precipitadamente, animado pelo interesse dela. - Mas, sinceramente, diante do que tenho visto, acho que os manuais de medicina estão cheios de ideias atrasadas ou anacrónicas. Há remédios que já não têm actualidade, sintomas que foram interpretados por alguém na Idade Média. Poderá dizer que isso não tem importância para o médico vulgar que faz clínica geral. Mas porque hão-de ser esses médicos meros receitadores de xaropes e emplastros? Já é tempo de pôr a ciência em contacto com a vida. Muita gente pensa que a ciência deve ficar no fundo de uma proveta de médico. Eu não admito. Julgo que os médicos que fazem clínica geral em locais afastados têm todas as oportunidades para ver as coisas como elas são e melhores ensejos para observar os primeiros sintomas de uma nova doença do que os especialistas nos hospitais. Quando um caso chega ao hospital, geralmente já está numa fase muito adiantada.

Ela estava a ponto de responder

animadamente quando a campainha tocou. Christine levantou-se, dizendo apenas com o seu ligeiro sorriso:

- Espero que noutra ocasião cumprirá a sua

promessa de falar nisso.

Watkins e a esposa entraram, pedindo

desculpas pelo atraso. Pouco depois sentaram-se todos à mesa para o jantar.

Era bem diferente da ceia insípida em que

haviam estado juntos na última vez. Havia vitela e puré de batata com manteiga, seguidos de uma torta de ruibarbo fresco com creme, e depois queijo e café. Embora simples, todos os pratos eram saborosos e fartos. Depois das magras rações que Blodwen servia, era um grande regalo para Andrew encontrar comida agradável e apetitosa. Suspirou:

- A senhora tem muita sorte com a sua dona

de casa, ela cozinha muito bem.

Watkins, que estivera observando com um

olharzinho zombeteiro o trabalho de Andrew a cortar a carne, rebentou subitamente numa gargalhada.

- Essa é boa! - e voltando-se para a mulher: -

Ouviste o que ele disse, minha velha? Acha que a Sr.a Herbert cozinha muito bem.

Christine corou ligeiramente. E para Andrew:

- Não ligue importância ao que ele diz. Esse

foi o melhor louvor que recebi, porque o senhor não sabia que me estava a elogiar. Para falar com franqueza fui eu quem fez a ceia. Posso utilizar a cozinha da Sr.a Herbert. Eu é que gosto de fazer as coisas. E já estou acostumada a isso.

A sua explicação tornou a alegria do gerente

da mina ainda mais ruidosa. O homem estava completamente diferente. Já não era o indivíduo taciturno que aguentara estòicamente a recepção da Sr.a Bramwell. Um pouco simplório e rude, mas de trato agradável, saboreou a ceia, lambeu os beiços depois de comer a torta, fincou os cotovelos na mesa, contou anedotas e fez rir toda a gente.

O tempo passou depressa. Quando Andrew

olhou para O relógio ficou espantado ao verificar que já eram quase onze horas. E prometera fazer uma visita a um doente em Blaina Place antes das dez e meia!

Quando se levantou, contra vontade, para

despedir-se, Christine acompanhou-o à porta. No corredor estreito o braço de Andrew tocou no corpo da jovem. Sobreveio-lhe uma onda de ternura. Ela era diferente, com a sua fragilidade, a sua quietude, os seus olhos escuros e inteligentes. Devia penitenciar-se por ter ousado classificá-la de magricela. Com a respiração apressada, ele murmurou:

- Não sei como agradecer-lhe o convite para

vir aqui esta noite. Posso ter o prazer de vê-la novamente? Eu nem sempre falo dos meus assuntos. A Christine aceitaria o convite... convite para ir ao cinema de Toniglan comigo, qualquer dia destes?

Os olhos dela fitaram-no sorrindo e pela

primeira vez levemente provocantes.

- Experimente fazer o convite.

Um longo minuto de silêncio, à porta, sob a

luz das estrelas. O ar carregado de humidade era frio na face ardente de Andrew. O hálito de Christine bafejou-o suavemente. Sentiu vontade de beijá-la. Desorientado, apertou-lhe a mão, deu meia volta, desceu estrepitosamente a rua e seguiu para casa, com ideias tumultuando na cabeça, pisando nuvens ao longo desse caminho encantado que milhões já trilharam e que a todos parece sempre novo, único, predestinado para a felicidade, eternamente bendito.

Que pequena maravilhosa! Como

compreendera bem as suas palavras quando falou das suas dificuldades profissionais. Ela era inteligente, muito mais inteligente do que ele! E além disso, que esplêndida cozinheira! E ele chamara-a pelo primeiro nome... Christine!