A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 43 de 55

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A Cidadela

Capítulo 10

No começo das férias da Páscoa, Andrew

recebeu um bilhete da Sr.a Thornton pedindo-lhe que fosse ao Brown Hotel para ver a filha. Dizia-lhe em poucas palavras que o pé de Sybil não tinha melhorado, e, como apreciara o interesse que ele havia tomado pelo caso no almoço da Sr.a Lawrence, estava ansiosa por ouvir a sua opinião.

Lisonjeado por essa homenagem à sua pessoa,

Andrew acudiu imediatamente.

Como verificou pelo exame, o caso era

perfeitamente simples. Todavia era conveniente fazer-se uma operação preventiva. Manson empertigou-se, sorrindo para a robusta e sadia Sybil, que estava nesse momento sentada na cama, a calçar a meia. E declarou à Sr.a Thornton:

- O osso engrossou. Pode resultar daí um

joanete se não for tratado a tempo. A minha opinião é que se faça a operação quanto antes.

- Foi isso mesmo que disse o médico do

colégio. - A Sr.a Thornton não se mostrou surpreendida. Estamos preparadas para isso. Sybil pode ir para uma casa de saúde. Mas... Está bem, tenho confiança no doutor. É preciso que o doutor tome as providências. Que operador recomenda?

A pergunta deixou Andrew atrapalhado.

Como o seu trabalho era quase exclusivamente clínico, conhecia muitos médicos eminentes, mas nenhum cirurgião de Londres.

De repente lembrou-se de Ivory. E disse num

tom amável:

- O Dr. Ivory poderá fazer isso muito bem... se

estiver disponível.

A Sr.a Thornton já ouvira falar no Dr. Ivory. É

claro! Não era o cirurgião a que se tinham referido os jornais no mês anterior, por ter ido de avião ao Cairo por causa de um caso de insolação? Um nome conhecidíssimo! A Sr.a Thornton achou admirável a ideia de entregar o caso da filha a uma pessoa notável. Só uma exigência apresentou: Sybil devia ir para a casa de saúde da Sr.a Sherrigton. Tantas pessoas amigas tinham ido para lá que não podia admitir outra.

Andrew voltou para casa e telefonou a Ivory

com a hesitação de um homem que está tentando uma aproximação preliminar. Mas logo o tranquilizou o modo de Ivory tão amável, tão confiante e encantador! Combinaram ver a menina, juntos, no dia seguinte, e Ivory garantiu que, embora a casa de Ida estivesse repleta, havia de conseguir um quarto para a menina Thornton, caso fosse necessário.

Na manhã seguinte Ivory declarou perante a

Sr.a Thornton, com toda a ênfase, que estava inteiramente de acordo com a opinião de Andrew, acrescentando ser imprescindível a operação imediata. Sybil foi levada para a casa da Sr.a Sherrington. Dois dias mais tarde, depois de dar tempo à menina para se aclimatar, fez-se a operação.

Andrew serviu de assistente para atender às

instâncias gentis e amistosas de Ivory.

A operação não era difícil. Não resta dúvida

de que em Blaeneily o próprio Andrew poderia tê-la efectuado.

Embora parecesse não ter pressa, Ivory

efectuou-a com impressionante competência. Lembrava uma imagem de força e de frieza dentro do seu comprido avental branco, de onde emergia a face firme, maciça, de mandíbulas salientes.

Ninguém encarnava melhor do que Charles

Ivory a ideia popular do grande operador. Tinha as mãos delicadas e macias que o convencionalismo romântico atribui sempre ao herói da sala de cirurgia e na sua bela aparência e perfeita segurança produzia uma impressão dramática.

Andrew, que também estava de avental,

observava-o do outro lado da mesa com um respeito natural.

Uns quinze dias depois, quando Sybil

Thornton deixou a casa de saúde, Ivory convidou-o para um almoço no Sackville Club. Repasto muito agradável. Ivory era um admirável conversador de palavra fluente e interessante, com uma colecção de anedotas sociais recentes que de certo modo colocava o companheiro no mesmo pé de intimidade com o mundanismo, como se fosse também um frequentador de salões. A sala de jantar do Sackville, com o tecto decorado e os grandes lustres de cristal, estava cheia de pessoas famosas, que Ivory classificava de «interessantes».

Andrew sentia-se lisonjeado e não havia

dúvida de que Ivory não pretendia outra coisa.

- O senhor deve permitir que eu apresente a

sua proposta para sócio na primeira reunião do clube - disse o operador. - Encontrará ali um grupo de bons amigos Freddie, Paul e eu somos sócios. É verdade, o Jackie Lawrence também. Casal insinuante, os Lawrence. O marido e a mulher são óptimos amigos e cada qual trata da sua vida! Sinceramente gostaria de o propor para sócio. Com franqueza, amigo, estava com a impressão de que o senhor não tinha grande simpatia por mim. A velha desconfiança escocesa, hem? Como sabe, eu não trabalho em hospitais. Prefiro ser franco-atirador. Além disso, meu caro colega, eu vivo tão ocupado! Alguns desses medalhões dos hospitais passam um mês inteiro sem uma operação particular e eu faço a média de dez por semana! E a propósito, vamos ter notícias dos Thorntons muito em breve. Deixe o caso por minha conta. São clientes de primeira ordem. E, já que tocámos no assunto, não acha que se devia pensar nas amígdalas da Sybil? Já olhou para elas?

- Não! Ainda não reparei.

- Oh! Deve olhar, meu velho. Muito crescidas.

Um foco de infecção. Tomei a liberdade de lhe dizer que devemos arrancá-las quando chegar o Verão! Espero que não leve a mal...

Voltando para casa, Andrew não pôde deixar

de considerar com simpatia o companheiro encantador em que Ivory se transformara. Já se sentia mesmo grato a Hamson por tê-lo apresentado. O caso correra esplendidamente. Os Thorntons estavam bem impressionados. E certamente não podia haver melhor critério.

Três semanas depois, quando tomava chá na

companhia de Christine, recebeu uma carta de Ivory.

«Meu caro Hanson:

A Sr.a Thornton acaba de «explicar-se»

lindamente.

Como enviei agora ao anestesista a parte que

lhe competia, aproveito também mandar a sua por me ter assistido tão eficientemente na operação.

Sybil irá vê-lo em breve. Não se esqueça das

amígdalas, de que já falei. A Sr.a Thornton está encantada.

Cordialmente C. I.»

Dentro da carta um cheque de vinte guinéus. Andrew olhou espantado para o cheque.

Nenhuma assistência prestara a Ivory durante a operação. Mas, pouco a pouco, a sensação grata que o dinheiro agora lhe ocasionava foi invadindo o seu coração. com um sorriso complacente, passou a carta e o cheque a Christine.

- Tipo correcto, esse Ivory, não achas, Chris?!

Estava capaz de apostar que este mês vamos bater um record.

- Mas não compreendo... - Christine estava

surpreendida. -Isso é o pagamento da conta da Sr.a Thornton?

- Não, tolinha... - deu uma risadinha. É um

extraordináriozinho... Apenas pelo tempo que gastei assistindo à operação.

- Queres dizer com isso que o Dr. Ivory te dá

parte dos seus honorários?

Andrew corou de repente. E irritado: - Ora, valha-me Deus! Não é disso que se

trata. Isso é absolutamente proibido. Nem devemos falar numa coisa dessas. Não compreendes que eu ganhei esse dinheiro pelo trabalho de assistir à operação, por estar presente, assim como o anestesista ganhou o dele por ministrar o anestésico? Ivory incluiu tudo isso na conta. Creio que deve ter sido uma conta salgadíssima.

Christine abandonou o cheque em cima da

mesa, vencida, infeliz.

- Parece muito dinheiro.

- Ora essa! E porque não? - Andrew encerrou

a questão num rompante indignado. - Os Thorntons são fabulosamente ricos. Isso custa-lhes tanto como os três xelins e meio a um dos nossos clientes pobres.

Depois de ele sair, Christine continuou com os

olhos fitos no cheque, seriamente apreensiva. Não sabia até então que Andrew tinha ligações e interesses profissionais com Ivory e sentiu-se possuída de repente por toda a inquietação anterior. Aquela noite passada em companhia de Denny e Hope não dera o menor resultado. Como Andrew estava agora louco por dinheiro, terrivelmente louco!

O seu trabalho no hospital parecia não ter

importância perante aquela febre de sucesso material. Mesmo no consultório observava que Andrew ia receitando remédios e mais remédios, muitas vezes para pessoas que não tinham doença alguma. E ainda insistia com eles para que voltassem à consulta, voltassem outra vez.

Christine ficou sentada ali, diante do cheque

de Charles Ivory. O rosto dela parecia diminuído, mais fino, pela expressão de profunda tristeza. Lágrimas inundaram-lhe os olhos. Tinha necessidade de falar a Andrew. Era preciso, indispensável.

Logo naquela noite, depois do trabalho,

aproximou-se dele timidamente.

- Andrew queres proporcionar-me uma

sensação agradável? Vamos dar um passeio de automóvel, pelo campo, no domingo? Prometeste-me isso quando compraste o carro.

Andrew fitou-a com admiração. - Não me lembro... mas está bem, combinado. O domingo amanheceu como ela esperava.

Um lindo dia de Primavera. Pelas onze horas, Andrew estava despachado das visitas e seguiram então, de automóvel, levando no banco traseiro uma toalha e um cesto de piquenique.

Christine foi-se animando quando

atravessaram a ponte de Hammetsith e tomaram a estrada de Kingston para Surrey. Não tardariam a passar por Dorking, virando à direita, na estrada para Shere. Havia tanto tempo que não saía da cidade que a doçura do campo, o verde alegre das paisagens, a púrpura dos olmos floridos, a poalha de ouro do sol espalhada nas árvores, o amarelo-pálido das primaveras que desabrochavam à beira do rio, impregnavam a sensibilidade de Christine, enchendo-a de boa disposição.

- Não vás tão depressa, querido - murmurava

ela numa voz mais doce do que a das últimas semanas. - O campo está tão bonito!

Mas Andrew parecia disposto a ultrapassar

todos os carros.

Chegaram a Shere por volta da uma da tarde.

com as suas casinhas de tecto vermelho e o seu riacho a deslizar mansamente entre as margens cobertas de agriões, a aldeia ainda não parecia perturbada pela avalanche dos turistas de Verão. Avançaram um pouco mais direitos a uma colina cheia de árvores. Pararam o carro num caminho retirado. Ali, na pequenina clareira onde estenderam a toalha, havia uma solidão cheia de murmúrio que era só deles e dos passarinhos.

Comeram sanduíches e beberam o café que

haviam trazido num termo. À sua volta, entre as árvores, as primaveras cresciam em profusão. Christine quis colhê-las, enterrar o rosto na sua frescura macia. Deitaram-se na relva, Andrew de olhos semicerrados, com a cabeça perto da dela. Uma tranquilidade paradisíaca foi descendo sobre a alma inquieta e sombria de Christine. Ah! Se a vida deles fosse sempre assim!...

O olhar indolente de Andrew pousou por

momentos no automóvel. De repente disse :

- Este carrito no é mau, hem, Chris? Quero

dizer, não é mau relativamente ao preço. Mas precisamos de adquirir um novo no Salão Automóvel.

Christine estremeceu, novamente inquieta

pela demonstração que Manson acabava de fazer da sua preocupação constante de riqueza.

- Mas comprámos este carro há tão pouco

tempo! Parece-me muito bom para nós.

- Ora! É uma «carroça». Não notaste como

aquele Buick passou à nossa frente? Quero uma limousine de luxo, de grande velocidade.

- Mas para quê?

- Porque não? Estamos em condições de

adquirir um carro assim. Estamos no caminho da fortuna, Chris!

Andrew acendeu um cigarro e voltou-se para

ela, com visível satisfação. - Se ainda não estás inteirada do facto, minha querida professorinha de Blaenelly, convém que saibas: estamos a enriquecer a grande velocidade.

Christine não correspondeu ao sorriso do

marido. Sentiu de repente um calafrio percorrer-lhe o corpo, que repousava ao calor do sol. Começou a arrancar punhados de erva e a torcer nervosamente a ponta da toalha. Disse vagarosamente:

- Querido, nós precisamos de facto de

enriquecer? Eu, pelo menos, não preciso. Porque falar tanto em dinheiro? Quando quase nada tínhamos... Oh! como éramos felizes! Nunca falávamos de dinheiro. Mas agora não falas de outra coisa.

Ele sorriu de novo superiormente: - Depois de patinharmos na lama tantos anos,

comer salsichas e arenques em conserva, aguentar comissões idiotas e atender operários em quartos imundos, eu proponho, para variar, uma melhoria no nível das nossas condições de vida. Tens alguma objecção a fazer?

- Querido, não leves o caso para a brincadeira.

Noutros tempos não me falavas assim. Tu não vês, então tu não vês que estás sendo vítima do próprio sistema que outrora censuravas, do que odiavas tanto?! - A expressão dela era de causar pena, de agitada. - Não te lembras de que consideravas a vida como se fosse um assalto ao desconhecido, uma investida para a altura?... Era como se quisesses conquistar uma cidadela que não vias mas que tinhas a certeza de que estava lá, no alto...

Andrew murmurou, embaraçado: - Ora! Então era eu muito jovem... Um

sonhador! Aquilo tudo era romantismo. Observa os outros. Todos fazem a mesma coisa procurando vencer, ganhar o máximo que podem. Não há outra coisa a fazer.

Ela teve um suspiro trémulo. Sabia que devia

falar naquele momento ou nunca mais.

- Meu querido! Não é só isto que se pode

fazer. Por favor, atende-me. Peço-te. Tenho sofrido tanto com isso... Com esta tua mudança! Denny também notou. Isto afasta-nos um do outro. Já não és o Andrew Manson com quem casei. Ah! Se ao menos quisesses voltar a ser o que eras!...

- Mas, afinal, que fiz eu? - protestou ele,

irritado. Eu dou-te pancada, eu embriago-me, eu já matei alguém? Cita um dos meus crimes!

Desesperada, Christine replicou: - Não são coisas que se possam apontar. É

toda a tua atitude, querido. Vê, por exemplo, aquele cheque que Ivory te mandou. É uma coisa sem grande importância aparentemente, mas no fundo... No fundo, não é coisa limpa, decente, honesta.

Ela percebeu que Andrew fora tocado ao vivo.

Levantou-se, ofendido, com o olhar incendiado.

- Ora, valha-me Deus! Porque voltar a este

assunto? Que mal pode haver em ter recebido o cheque?

- Então, não vês? - Toda a emoção acumulada

nos últimos meses dominou Christine, que não podia discutir, que se desfazia de repente em lágrimas. Gritou, no auge do nervosismo. - Por amor de Deus, querido, Não te tornes venal!

Andrew cerrou os dentes, furioso. Falou

lentamente com energia causticante.

- Aviso-te, pela última vez, de que deves

abandonar esses histerismos, essas loucuras. Porque não me ajudas, em lugar de me aborrecer, de manhã à noite, com remoques?

- Eu não procuro aborrecer-te com remoques -

soluçava ela. - Queria apenas convencer-te. Mas não posso.

- Pois então, não fales mais. - Andrew perdeu

a calma e gritou de súbito. - Escuta o que te digo. Não fales. Isso deve ser algum complexo que de ti se apoderou. Falas-me como se eu fosse um charlatão indecente. Eu quero apenas avançar. E se quero ganhar dinheiro é porque é o único meio de vencer na vida. Julga-se uma pessoa pelo que tem de seu. Quem nada tem é mandado, montam-no. Pois bem: já suportei isso demasiado tempo. Para o futuro quero ser dos que mandam. Deves compreender-me. E nunca mais me fales nessas tolices irritantes.

- Está bem, está bem - Christine chorava

ainda. - Não falarei mais. Mas ficas avisado... Um dia arrependes-te.

O passeio estava estragado para ambos e

principalmente para ela. Embora enxugasse os olhos e colhesse um grande ramo de primaveras, embora estivesse ainda uma hora inteira deitada na relva, em pleno sol; embora tivesse parado na volta em Lavender Lady para tomar chá, embora conversasse com o marido com aparente amizade sobre assuntos banais, a verdade era que todo o encanto do dia desaparecera.

Quando voltaram para casa, no fim da tarde, o

rosto de Christine estava pálido e sem expressão.

A ira de Andrew foi pouco a pouco

transformando-se em indignação. Porque era Christine a única pessoa contra ele? Outras mulheres... e mulheres encantadoras... estavam entusiasmadas com o seu rápido triunfo.

Alguns dias mais tarde, Frances Lawrence

telefonou-lhe. Tinha andado pelo estrangeiro. Passara o Inverno na Jamaica, de onde escrevera algumas cartas a Andrew. Agora estava de volta, ansiosa por ver os amigos, irradiando a luz do sol que absorvera na pele. Frances disse que precisava de o ver antes de perder o tom moreno do ar da praia.

Andrew foi tomar chá com ela. Como dissera,

Frances estava deliciosamente queimada pelo sol, o magro rosto tão bronzeado como o de um fauno. O prazer de vê-la de novo era extraordinariamente aumentado pela expressão dos olhos de Frances, esses olhos tão indiferentes para muitas pessoas e irradiando tanta luz para ele, como para um velho amigo. Sim, falaram como velhos amigos.

Ela contou-lhe a viagem, os jardins de coral,

os peixes que se viam por baixo das canoas de fundo de vidro, a beleza e a doçura do clima. Em troca, Andrew confidenciou-lhe os seus últimos triunfos. Talvez um pouco das suas preocupações íntimas tivesse transparecido nas suas palavras, pois Frances comentou graciosamente:

- O senhor está solene de mais. E tão prosaico

que até perde a graça. É o que lhe acontece quando não estou aqui. Não! Com franqueza, tenho a impressão de que o senhor trabalha de mais. Precisa de manter todo esse serviço de clientela barata? Se eu fosse a si, pensava já ser tempo de montar um consultório numa zona elegante da cidade. Wimpole Street ou Welbeck, por exemplo. É aí que o senhor deve exercer clínica.

Nesse momento entrou o marido de Frances,

alto, ar de boa vida, cerimonioso. Cumprimentou Andrew a quem conhecia agora muito bem, pois jogara bridge com ele uma ou duas vezes no Sackville Club e aceitou de bom humor uma chávena de chá.

Embora declarasse cordialmente que não

queria de forma alguma perturbá-los, a entrada de Lawrence interrompeu o lado sério da conversa. Começaram a discutir, com divertida animação as últimas invenções de Rumbold-Blane.

Mas meia hora depois, quando Andrew

voltava para casa, a sugestão da Sr.a Lawrence ocupava-lhe o cérebro.

Sim, porque não montaria um consultório na

Welbeck Street? Já era tempo para isso. De nenhum modo queria abandonar a clientela de Paddington. O dispensário era rendoso de mais para pensar em largá-lo sem mais nem menos. Mas podia facilmente combinar as horas com as de um consultório na zona aristocrática. Teria assim um endereço mais pomposo para a correspondência, um cabeçalho de maior efeito para o papel de receitas, para as contas.

A ideia expandia-se dentro dele, estimulava-o

para uma conquista maior. Que boa amiga era Frances! Tão útil como a Sr.a Everett e muito mais encantadora, muito mais atraente! E ainda por cima ele estava em óptimas relações com o marido. Podia fitá-lo calmamente. Não precisava de sair sorrateiramente daquela casa como se fosse um cãozito ordinário de alcova. Ah! a amizade era uma grande coisa!

Sem tocar no assunto a Christine, começou a

procurar um consultório conveniente no West End. Um mês depois quando o encontrou, teve a grande satisfação de declarar numa indiferença estudada, quando lia os jornais da manhã:

A propósito... Talvez te interesse saber...

Montei consultório na Welbeck Street. É para a minha clientela mais distinta.