A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 6 de 55

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A Cidadela

Capítulo 6

Depois de um terrível fim de tarde, durante o

qual escreveu e rasgou três cartas virulentas ao inspector de higiene, Manson tratou de esquecer o incidente. Recuperando o senso de humor, perdido momentaneamente nas proximidades de Bank Street, não perdoava a si mesmo a atitude inconciliável. Depois de vencer com esforço o rígido orgulho de escocês, chegou à conclusão de que não tinha razão nem devia pensar em apresentar queixa do caso muito menos ao antipático Griffith. Contudo por mais que tentasse não conseguia deixar de pensar em Christine Barlow.

Era absurdo que uma simples professorazita

absorvesse tão exclusivamente os seus pensamentos e que se preocupasse com o que ela poderia pensar a seu respeito.

Andrew dizia a si mesmo que era um simples

caso de amor-próprio ferido. Bem sabia que era tímido e desajeitado com as mulheres. Contudo, não havia raciocínio capaz de acalmar-lhe o ânimo inquieto e um pouco irritado. Nos seus momentos mais libertos de preocupações, como, por exemplo, quando começava a ser invadido pelo sono, a cena da escola voltava-lhe à memória com insistência renovada e ele surpreendia-se franzindo a testa no escuro. Ainda a via, esmagando o giz, os olhos castanhos faiscando de indignação. A blusa dela tinha três botõezinhos de madrepérola.

A figura era esguia e ágil, com nítida

economia de linhas, que revelava muita correria e muito pulo travesso quando menina. Andrew não perguntava a si mesmo se ela era bonita. Já bastava tê-la sempre diante dos olhos, viva e fina. E o pensamento, sem que ele o quisesse, procurava-a com uma espécie de suave opressão que anteriormente nunca sentira.

Uns quinze dias mais tarde, descia ele a

Chapei Street, absolutamente distraído, quando quase esbarrou na Sr.a Bramwell à esquina da Station Road. Teria passado sem a reconhecer. Ela, porém, parou imediatamente e saudou-o, radiante, com o melhor dos sorrisos.

- Que surpresa, Dr. Manson! Estava

exactamente à sua procura. Tenho esta noite uma das minhas reuniõezinhas. O senhor vai, não é verdade?

Gladys Bramwell era uma senhora de trinta e

cinco anos, de cabelos cor de palha, sempre vestida de forma a dar nas vistas, cheia de corpo, olhos azuis de boneca e ares de garota. Gladys classificava-se romanticamente como a mulher de um só homem. Mas nos mexericos de Blaenelly outros termos a definiam. O Dr. Bramwell morria por ela e dizia-se que só a cegueira da sua paixão o impedia de ver as atenções mais do que levianas que ela dedicava ao Dr. Gabell, o médico amulatado de Toniglan.

Enquanto a observava, Andrew procurou

apressadamente uma desculpa.

- Teria muito prazer, Sr.a Bramwell, mas julgo

ser impossível.

- Não diga isso, homem de Deus. Vai ser um

grupo de pessoas muito agradável. Os srs. Watkins, marido e mulher, da mina, e escapou-lhe um sorriso significativo o Dr. Gabell, de Toniglan. Ah! e ia-me esquecendo, a professorinha Christine Barlow.

Manson sentiu um estremecimento. Riu sem

querer.

- Pode contar que irei com toda a certeza, Sr.a

Eramwell. Muitíssimo obrigado pelo convite.

Conseguiu sustentar a conversa por alguns

minutos até que ela se despediu. Mas o resto da tarde não pôde pensar senão naquela oportunidade de ver novamente Christine Barlow.

A reunião da Sr.a Bramwell começava às nove

da noite, escolhendo-se essa hora avançada em consideração pelos senhores médicos, que podiam ficar detidos até tarde nos seus dispensários. E na verdade passava um quarto das nove quando Andrew acabou a última consulta. Lavou o rosto apressadamente, alisou o cabelo com o pente quebrado e voou para o Retiro. Ao entrar na casa, que, desmentindo o seu nome idílico, era uma construçãozinha de tijolos no centro da cidade, Andrew notou que fora o último a chegar. Censurando-o amavelmente, a Sr.a Bramwell fez passar os cinco convidados e o marido para a sala onde estava servida a ceia.

Era uma ceia de coisas frias espalhadas por

pratinhos de papel sobre a mesa escura de carvalho. A Sr.a Bramwell gabava-se de receber muito bem em sua casa e tomava ares de «espírito progressivo» em Blaenelly, o que permitia chocar a opinião pública com modernismos de elegância.

A sua ideia de «dar vida ao ambiente» era

falar e rir muito. Dava sempre a entender que o seu meio, antes de casar-se com o Dr. Bramwell, tinha sido de grande luxo.

Nessa noite, quando os convidados se

sentaram, ela disse, toda esfuziante:

- Muito bem! Agora sirvam-se do que

quiserem.

Ainda esbaforido pela pressa com que viera,

Andrew ficou a princípio profundamente embaraçado. Durante uns dez bons minutos não se atreveu a olhar para Christine.

Conservou-se de olhos baixos, oprimido pela

ideia de que ela estava sentada ao outro canto da mesa, entre o Dr. Gabell, um dandy de tez bem morena, com polainas, calças de riscas e pérola na gravata, e o Sr. Watkins, o velho director da mina, de cabelos bem arrumados na cabeça, que lá a seu modo, um tanto abrutalhado, se desfazia em amabilidades. Por fim, foi atraído pela alusão risonha de Watkins:

- Então, menina Christine, continua a ser a

minha namoradinha?

Manson, com involuntário ciúme, levantou a

cabeça e olhou para ela. Achou-a tão à vontade ali, com o seu vestido cinzento discreto, gola e punhos brancos, que se perturbou e baixou os olhos antes que a jovem pudesse ler o que eles diziam.

Para disfarçar, quase sem saber o que dizia,

começou a dedicar-se exclusivamente à sua vizinha, Sr.a Watkins, um bocadinho de mulher que levava para a reunião o seu tricot.

Durante o resto da ceia Andrew sofreu a

angústia de conversar com uma pessoa quando estava doido por falar a outra. Quase deixou escapar um suspiro de alívio quando o Dr. Bramwell, que presidia à cabeceira da mesa, passou os olhos com benevolência sobre os pratos vazios e fez um gesto napoleónico.

- Creio, minha querida, que já todos

terminaram. Devemos passar ao salão.

Os convidados distribuíram-se pela sala. Era

evidente que a música estava no programa. Bramwell sorriu embevecido para a esposa e conduziu-a ao piano.

- Qual é a primeira canção com que irás

deliciar-nos esta noite, meu amor? - Trauteando folheava as páginas do caderno de música na estante.

- Os Sinos do Templo - sugeriu Gabell. - Nunca

me canso de ouvir isso, Sr.a Bramwell.

Sentando-se no banquinho giratório, a Sr.a

Bramwell tocou e cantou, enquanto o marido, uma das mãos atrás das costas e a outra erguida no gesto de quem vai tomar rapé, ficava a seu lado e ia virando as páginas diligentemente. Gladys tinha uma voz cheia, de contralto, puxando do peito todas as suas notas profundas com um esticar de queixo. Depois de Couplets de Amor ofereceu aos convidados Vagueando e Apenas Uma Garota.

Houve aplausos calorosos. Distraidamente,

Bramwell murmurava num meio tom satisfeito:

- Ela hoje está com uma linda voz. O Dr. Gabell foi então intimado a levantar-se.

Girando o anel no dedo, alisando o cabelo bem engordurado, com pretensões, o galã de pele cor de azeitona curvou-se afectadamente para a dona da casa e, esfregando as mãos, cerrou convictamente Amor na Doce Sevilha. Depois, atendendo a insistentes pedidos, cantou ainda Toreador.

- O senhor interpreta essas canções espanholas

com verdadeira alma, Dr. Gabell - comentou a amável a Sr.a Watkins.

- É o meu sangue espanhol, creio eu - riu

Gabell modestamente ao sentar-se.

Andrew notou uma faísca maliciosa no olhar

de Watkins.

- O velho director da mina, verdadeiro

homem de Gales, conhecia música, ajudara no último Inverno os seus trabalhadores a apresentarem uma das menos conhecidas óperas de Verdi e agora, fumando sonolentamente o cachimbo, estava a divertir-se de modo enigmático. Não passara despercebido a Andrew quanto era delicioso para o velho Watkins observar essa gente estranha que vinha para ali com ares de espalhar cultura em forma de cançonetazinhas sentimentais e sem valor. Quando Christine se recusou, num sorriso, a cantar, Watkins voltou-se para ela e disse baixinho:

- Pelo que vejo, minha querida, a menina é

como eu. Gosta demasiadamente de piano para tocar.

Chegou o momento solene da noite. O Dr.

Bramwell ocupou o centro da cena. Aclarou a voz, atirou um pé para a frente, lançou a cabeça para trás, pôs a mão teatralmente na abertura do paletó, e anunciou: «Minhas senhoras e meus senhores: A Estrela Cadente, monólogo musicado». Ao piano Gladys passou a arremedar um acompanhamentozinho adequado. E Bramwell começou.

O recitativo, que se inspirava nas vicissitudes

patéticas de uma actriz outrora famosa e lançada agora à mais negra miséria, era gelatinoso de tanto sentimentalismo. Bramwell interpretava-o com a alma comovida. Quando o drama aquecia, Gladys apelava para as notas graves.

Quando a tragédia esfriava um pouco, ela

martelava as notas agudas. Quando chegou ao ponto culminante, Bramwell empertigou-se e lançou o último verso:

«Ei-la...»

uma pausa

«morrendo de fome na sarjeta...» uma longa pausa

«apenas uma estrela cadente!».

A pequena Sr.a Watkins, com o tricot caído no

chão, levantou para ele os olhos húmidos.

- Pobrezinha, pobrezinha! Dr. Bramwell, o

senhor recita isso sempre de maneira tão patética!

O claret cup chegou a tempo para aliviar os

espíritos.

Nessa altura já eram mais de onze horas. O

apogeu a que chegara Bramwell não podia ser ultrapassado e por isso começou a retirada. Houve risos, amáveis expressões de agradecimento e um movimento geral para o hall. Quando Andrew vestia o sobretudo, meditou tristemente que não chegara a trocar uma palavra com Christine durante a noite.

Ao sair, resolveu parar na porta. Sentia

necessidade de falar à jovem. Pesava-lhe como chumbo o pensamento da longa noite perdida em que pretendera tão naturalmente e de modo tão agradável desfazer o mal-entendido entre ambos. Embora não parecesse dar-lhe atenção, ela estivera ali, perto dele, na mesma sala. E Andrew ficara estupidamente a olhar os sapatos. «Oh, meu Deus!», pensava angustiado. «Eu sou pior que A Estrela Cadente. O melhor que tenho a fazer é ir para casa e meter-me na cama.

Mas não procedeu assim. Ficou ali e o seu

coração pôs-se a bater apressadamente quando Christine apareceu à porta, dirigindo-se para onde ele estava. Andrew apelou para todas as suas forças e gaguejou:

- Menina Barlow, posso acompanhá-la a casa? - Julgo que não. - Fez uma pausa. - Prometi

esperar pelo casal Watkins.

Desanimou. Sentiu ímpetos de abalar como

um cão perseguido. No entanto qualquer coisa ainda o prendia ali. Estava pálido, mas decidido. As palavras vieram atropelando-se umas às outras, num só fôlego.

- Eu só queria dizer-lhe que lamento muito o

que sucedeu a propósito de Howells. Fiz uma exibição de autoridade pires. Merecia uma boa sova. O que a menina fez com a criança parece-me agora admirável. Afinal de contas, é melhor observar o espírito do que a letra da lei. Lastimo maçá-la com tudo isso, mas é um imperativo da minha consciência. Boas noites!

Andrew não pôde ver a fisionomia dela. Nem

esperou pela sua resposta. Deu meia volta e seguiu o seu caminho.

Pela primeira vez- em muitos dias sentia-se

feliz.

Chegara dos escritórios da Companhia o

pagamento semestral da clínica. A Sr.a Page teve, portanto, assunto para sérias meditações e outro motivo para discutir com Aneurin Rees, o gerente do banco. Pela primeira vez em ano e meio os algarismos mostravam progresso acentuado.

Na lista do Dr. Page havia mais setenta

homens do que antes da chegada de Manson.

Embora encantada com o aumento dos

réditos, Blodwen tinha qualquer coisa que a preocupava: Andrew muitas vezes a surpreendera às refeições cravando nele olhos inquisidores e desconfiados. Na quarta-feira que se seguiu à festazinha da Sr.a Bramwell, Blodwen apareceu ao almoço toda alvoroçada, numa grande demonstração de alegria.

- É o que eu tenho a dizer! - observou ela. -

Estava a pensar nisso agora mesmo. O senhor já está aqui há quase quatro meses, doutor, e, com franqueza, não tem ido mal. Não tenho razão de queixa. Mas, compreende, não é a mesma coisa que o Dr. Page. Oh, meu amigo, isso não! Ainda outro dia, o Sr. Watkins esteve a dizer-me que todos ansiavam pela volta do meu marido. «O Dr. Page é tão inteligente!», dizia-me o Sr. Watkins, «que não poderíamos pensar em substituí-lo».

E ela entrou a descrever, com pitorescos

pormenores, a extraordinária competência e habilidade do marido.

- O senhor não acredita - exclamou

arregalando os olhos - mas nada há que ele não possa fazer ou não tenha feito. Operações!? Só vendo! Basta contar isto, doutor: uma vez ele tirou os miolos da cabeça de um homem e colocou-os depois de novo no lugar. Sim! Olhe bem para mim e veja se tenho cara de mentirosa. O Dr. Page retirou a massa encefálica e recolocou-a na cabeça do homem.

Inclinou-se na cadeira e encarou Manson

tentando ler o efeito das suas palavras. Depois sorriu, confiante.

- Vai ser uma grande alegria para Blaenelly

quando o Dr. Page voltar ao trabalho. Isso não deve tardar. No Verão, eu já avisei o Sr. Watkins, no Verão o Dr. Page retomará a clínica.