A Cidadela
Capítulo 15
Ao chegar a casa, numa tarde de Maio,
Andrew trazia o espírito tão preocupado, ainda nessa fase estranha de depressão que persistia desde que enviara a tese, que nem notou a expressão de angústia de Christine. Acenou-lhe distraidamente, foi ao andar superior lavar o rosto e depois desceu para o chá.
Só quando, terminada a merenda, acendeu
um cigarro, observou de repente a expressão da mulher. Perguntou, ao estender-se para apanhar o jornal da tarde :
- Que é isso? Que aconteceu? Christine pareceu examinar por um momento
a colher de chá.
- Tivemos hoje umas visitas... ou melhor,
tive... quando saíste depois do almoço.
- Ah! E quem foi? Uma delegação da direcção,
cinco homens de lá inclusive Ed. Chenkin. E acompanhado por Parry; sabes quem é, o pastor de Sinai, e um homem chamado Davies.
Estabeleceu-se um silêncio pesado. Andrew
aspirou uma lenta baforada do cigarro e baixou o jornal para encarar Christine.
- Que queriam eles?
Ela manifestou claramente no olhar o vexame
e a inquietação de que estava possuída em resposta ao seu tom inquiridor.
Falou precipitadamente.
- Chegaram cá por volta das quatro da tarde.
Perguntaram por ti. Eu disse que não estavas. Então, Parry respondeu que não tinha importância. O que eles queriam era entrar. Naturalmente fiquei perturbada. Não sabia se queriam esperar por ti ou o que poderia ser. Então, Ed. Chenkin afirmou que esta casa era da direcção que eles representavam e que em nome dela podiam e queriam entrar. - Deteve-se sem fôlego. - Eu não me mexi donde estava. Estava indignada, tonta. Mas tive coragem para lhes perguntar porque queriam entrar. Parry disse então que chegara ao seu conhecimento e ao da direcção, mesmo porque toda a gente já sabia, que estavas a fazer experiências com animais. Vivissecção, como teve o arrojo de dizer. E por causa disso queriam examinar o teu gabinete de trabalho e haviam trazido com eles o Sr. Davies, da Sociedade Protectora dos Animais.
Andrew não se moveu nem deixou de a fitar. - Continua, querida - disse calmamente. - Bem, eu procurei detê-los, mas foi inútil.
Invadiram a casa, todos os sete; atravessaram o hall e entraram no laboratório. Assim que viram os porquinhos da índia, Parry soltou um gemido. «Oh! Os pobres animais, tão inocentes!». Deram busca a tudo, examinaram os teus trabalhos, o microscópio, tudo quanto havia. Depois Parry disse: «Não consentirei que esses pobres bichinhos continuem a ser torturados por mais um minuto que seja. Antes privá-los da vida e das suas dores do que deixá-los aqui. Agarrou na maleta que Davies trouxera e enfiou nela os porquinhos. Eu tentei explicar-lhe que não havia tortura, nem vivissecção, nem qualquer daquelas asneiras, e quando aqueles cinco porquinhos não fossem mais precisos para experiências, dá-los-íamos aos filhos de Boland e à pequena Agnes Evans. Mas nem ao menos me quiseram escutar. E então... retiraram-se.
Houve um silêncio. Andrew estava agora
muito corado. Levantou-se.
- Nunca me foi dado conhecer um desaforo
tão grande em toda a minha vida. Que pena teres-te visto obrigada a suportar essa inconveniência, Chris! Mas obrigá-los-ei a pagar bem caro o que fizeram!
Reflectiu um momento e dirigiu-se depois ao
hall para telefonar. Mas precisamente o telefone tocou quando ali chegou. Tirou o auscultador do descanso.
- Alo! - disse furioso, mas em seguida a voz
abrandou ligeiramente. Era Owen quem falava do outro lado da linha. - Sim, é Manson quem fala. Ouça cá, Owen...
- Já sei, já sei, doutor - Owen teve pressa em
interromper Andrew. - Passei a tarde toda procurando comunicar consigo. Ouça. Não me interrompa. Não devemos perder a cabeça. Temos de procurar enfrentar uma traição muito reles, doutor. Não diga mais pelo telefone. Eu vou já para aí.
Andrew voltou para junto de Christine. - Pelo que ele deu a entender - bufava de
raiva, quando contou à mulher a conversa do telefone - parece que nós é que merecemos censura.
Ficaram à espera da chegada de Owen.
Andrew caminhava de um lado para outro tomado de impaciência e indignação; Christine, continuava a costurar, com a inquietação nos olhos.
Owen chegou, mas nada havia de
tranquilizador na sua fisionomia. Disse logo, antes de dar tempo a que Andrew falasse:
- Doutor, tirou uma licença?
- Uma... quê? - Andrew encarou-o espantado.
- Que espécie de licença?
A expressão de Owen parecia agora mais
perturbada.
- Devia ter pedido uma licença no Ministério
do Interior para fazer experiências em animais: sabia disso?
- Mas com seiscentos diabos! Eu não sou
patologista, nunca serei. Não exploro um laboratório. Precisei apenas de fazer algumas experiências muito simples, relacionadas com o meu serviço clínico. Não tínhamos aqui mais do que uma dúzia de animais, não era Chris?
Owen não olhava para Andrew. - Devia ter tirado essa licença, doutor. Há um
grupo lá na direcção que lhe quer arranjar uma complicação por causa disso! - Continuou apressadamente: - Calcule, doutor, um homem como o senhor, que está a procurar fazer uma obra progressiva, que tem a honestidade de dizer o que pensa, ficar assim sujeito a uma trapalhada dessas... Bem, de qualquer maneira é bom que o doutor fique sabendo que uma malta daqui está danada para o apunhalar pelas costas. Mas havemos de dar uma volta nisso. Vai haver mais uma zaragata lá na direcção, o doutor será chamado a comparecer perante eles ou coisa parecida. Mas o doutor já tem tido os seus dares e tomares com eles e sair-se-á bem como das outras vezes.
Andrew explodiu.
- Vou preparar uma contra acção. Vou
processá-los por... violação de domicílio. Não, nada disso. Vou processá-los pelo roubo dos meus porquinhos da índia. Quero recuperá-los seja como for.
Owen torceu a cara, num gesto quase cómico. - Infelizmente não poderá recuperá-los,
doutor. O reverendo Parry e Ed. Chenkin acharam que deviam livrar os bichinhos da miséria da vida. E, num sentimento de piedade, afogaram os porquinhos com as suas próprias mãos.
Owen retirou-se e na noite seguinte Andrew
recebeu uma comunicação para comparecer perante a direcção dentro de uma semana.
O caso suscitou muita celeuma, incendiou os
espíritos como faísca em barril de pólvora. Desde que o solicitador Trevor Day fora acusado de envenenar a mulher com arsénico nunca mais Aberalaw tinha estado tão interessada por um caso tão excitante, tão escandaloso, que tanto sabor tivesse a feitiçaria. Formavam-se partidos, havia discussões violentas. Na capela Sinai, Edwal Parry anunciava atroadoramente os castigos terríveis que, neste e no outro mundo, estavam reservados aos que torturavam animais e criancinhas. No outro extremo da cidade, o reverendo David Walpole, o gordo pastor da igreja anglicana, que tinha sobre Parry a mesma opinião que tem um bom muçulmano sobre a carne de porco, cacarejava sobre o progresso e os laços que uniam a igreja liberal de Deus e a ciência.
Até mesmo as mulheres tomaram partido. A
Sr.a Myjanwy Bensusan, presidente da secção local da Liga de Resistência das Senhoras de Gales, discursou perante uma multidão reunida em comício no Temperance Hall.
Era um facto que Andrew melindrara certa
vez Myjanwy ao recusar-se a assumir a presidência na reunião anual da Liga. Mas os motivos que a inspiraram eram, de qualquer modo, indiscutivelmente puros. Depois do comício e nas noites seguintes jovens senhoras adeptas da Liga, que normalmente só apareciam em público nos dias de festa cívica, passaram a distribuir nas ruas folhetos de combate à horripilante vivissecção com a gravura de um cão horrorosamente estripado.
Na noite de quarta-feira Con Boland telefonou
para contar uma história engraçada.
- Como passa, Manson, meu filho? De cabeça
levantada? Antes assim! Tenho uma história curiosa para lhe contar... A nossa Mary voltava do emprego, hoje à noite quando no caminho de casa foi abordada por uma dessas feministas idiotas. Queria impingir-lhe um panfleto, essas idiotices sobre crueldade que andam para aí a espalhar contra si. O senhor sabe... Ah! Ah; sabe o que fez a atrevida da Mary? Arrancou-lhe das mãos o panfleto e rasgou-o em pedacinhos. Depois levantou a mão, pespegou uns bons socos na tromba da imbecil, arrancou-lhe o chapéu e disse... Ah! Ah!... Calcule o que a Mary disse: «Se é de crueldade que anda à procura aí tem uma simples amostra».
Outros amigos tão leais como Mary também
originaram questões ao defender Andrew. Embora a sua zona o apoiasse firmemente, lá pelos sítios da clínica leste havia uma chusma de adversários.
Discussões renhidas travavam-se nas tabernas
entre os partidários e os inimigos do médico. Na noite de terça-feira apareceu no consultório Prank Davies, um tanto deteriorado. Vinha informar Andrew de que tinha partido a cara a dois clientes de Oxborrow, por dizerem que Andrew era um carniceiro sanguinário!
Depois disso, o Dr. Oxborrow acelerava o
passo ao cruzar com Andrew na rua, virando a cara para o outro lado. Sabia-se que ele apoiava abertamente as diatribes do reverendo Parry contra o colega indesejável. Ao voltar do Clube Maçónico, Urquhart andou a conversar com um truculento puritano, cujo comentário mais inocente foi o seguinte: «Um médico tem o direito de assassinar as pobres criaturinhas de Deus?».
Urquhart aventava poucos comentários da
sua autoria. Mas certa vez, sem perceber, com a sua miopia, o semblante contrafeito, nervoso, de Andrew, declarou:
- Com mil diabos! Se eu tivesse a sua idade
também me divertiria com um trabalhinho desse género. Mas agora... Oh! Diabo! Acho que estou velho.
Andrew não podia deixar de pensar que
Urquhart estava enganado. Estava muito longe de divertir-se com «trabalhinho». Sentia-se cansado, irritado, apreensivo. Perguntava a si mesmo, mal-humorado, se ia gastar toda a sua vida a bater com a cabeça nas paredes. Contudo, embora estivesse abatido, tinha um desejo desesperado de justificar-se, de ser clara e altivamente desagravado diante daquela súcia de intrigantes.
A semana passou e na tarde de sábado a
direcção reuniu-se na máxima força para, como se explicava na convocação, proceder «a uma sindicância disciplinar ao Dr. Manson». Não faltava de facto qualquer membro da direcção e, em frente, na Praça, estavam reunidos vários grupos de curiosos. Quando entrou no edifício e subiu as escadas, Andrew sentia o coração bater com violência. Dizia intimamente que devia mostrar-se calmo e inflexível. No entanto, quando se sentou na mesma cadeira que havia ocupado anteriormente na situação de candidato, estava ofegante, com os lábios secos, nervosíssimo.
A sessão começou, não com uma oração como
seria de esperar do espírito altruísta com que a oposição conduzira a sua campanha, mas com um discurso inflamado de Ed. Chenkin.
- Vou expor todos os elementos que
constituem esta questão - disse Chenkin, levantando-se de repente aos meus colegas desta direcção. Pôs-se a desfiar os motivos luma lengalenga estridente e sem gramática. O Dr. Manson não tinha o direito de se entregar àquele trabalho, fazia-o nas horas em que estava sendo pago para prestar serviços à sociedade. Além disso, a vivissecção ou coisa muito parecida estava sendo feita sem a autorização necessária, o que constituía uma infracção muito séria à lei!
Owen apressou-se a acrescentar, em aparte: - A respeito deste último ponto, devo advertir
a direcção de que, se for apresentada denúncia pelo facto de o Dr. Manson não ter requerido a licença, as responsabilidades desse facto recairão sobre a Sociedade de Auxílios Médicos.
- Que está a dizer? - perguntou Chenkin. - Como ele é nosso assistente - sustentou
Owen - somos legalmente responsáveis pelos actos do Dr. Manson. Ouviu-se um murmúrio de aprovação a estas palavras. Disseram mesmo: «Owen tem razão! Não queremos complicações com a Sociedade. Isso tem de ser resolvido entre nós».
- Pois então não nos preocupemos com essa
maldita licença - rosnou Chenkin, ainda de pé. - As outras acusações já chegam para comprometer qualquer pessoa.
«Atenção! Ouçam!». Era alguém que clamava
lá do fundo. «E que queriam dizer aquelas histórias de ir tantas vezes a Cardiff de motocicleta naquele Verão de há três anos atrás?».
«Ele não receita remédios». Era a voz de Len
Richards.
«Espera-se uma hora inteira no consultório e
sai-se de lá sem um frasco de remédio».
Silêncio! Silêncio! - berrava Chenkin. Quando
conseguiu impor silêncio prosseguiu com a peroração. - Todos estes factos são muito graves. Mostram que o Dr. Manson nunca trabalhou honestamente para os Auxílios Médicos. Além de muita coisa que ainda poderia acrescentar, o doutor não passa atestados satisfatórios aos homens. Mas não nos afastemos do ponto principal. Temos aqui um assistente contra o qual toda a cidade se levantou porque ele incorreu num caso que na verdade deve considerar-se como de polícia, um homem que transformou a nossa propriedade num matadouro. Camaradas! Juro pelo Todo -Poderoso que vi sangue no soalho com estes meus olhos que a terra há-de comer. Este homem é nada menos que um louco. E agora, pergunto-lhes: camaradas, vamos admitir isto? Não, digo eu. Não, devem dizer vocês. Camaradas, eu sei que represento o pensamento de cada um e de todos quando digo que neste lugar e neste mesmo instante temos de exigir o pedido de demissão do Dr. Manson.
Chenkin circunvagou os olhos pelos seus
colegas e sentou-se entre estrondosos aplausos.
- Talvez deva permitir-se ao Dr. Manson que
exponha o caso - disse Owen calmamente, e voltou-se para Andrew.
Houve um silêncio. Andrew permaneceu
sentado ainda por um momento. A situação era pior do que pensara. «Vá lá alguém confiar nesta gente», reflectia com amargura. «Aqueles homens não eram os mesmos que lhe sorriram com simpatia quando lhe concederam o emprego?». Fervia-lhe o sangue. Não queria, absolutamente, pedir a demissão.
Levantou-se. Não era orador e tinha bem
consciência disso. Mas era agora um homem ferido no seu moral.
O seu nervosismo transformara-se numa
furiosa indignação diante da ignorância, da intolerante estupidez da acusação de Chenkin e da aprovação com que os outros a tinham recebido. Começou:
- Parece que ninguém disse coisa alguma a
respeito dos animais que Ed. Chenkin afogou. Isto é que é crueldade, se querem empregar o termo. Crueldade inútil. O que eu estava a fazer, não, não era crueldade! Porque levam vocês, trabalhadores, para o fundo da mina ratos brancos e canários? É para que eles denunciem a presença dos gases tóxicos. Vocês sabem todos disso. E quando esses ratos morrem pelos efeitos do gás, vocês classificam isso de crueldade? Não, vocês não consideram assim. Vocês admitem que esses animais sejam empregados para salvar a vida dos trabalhadores, talvez para salvar a vida de vocês mesmos.
«Pois era isso que eu procurava fazer por vós.
O trabalho que realizei era a investigação da causa das doenças pulmonares que vocês adquirem devido às poeiras das galerias das minas. Vós sabeis todos que os que contraem doenças do peito não recebem indemnizações quando isso acontece. Durante os três últimos anos gastei quase todas as minhas horas vagas no estudo do problema de inalação.
«Descobri alguma coisa que pode melhorar a
condição do vosso trabalho, que pode dar-vos um tratamento mais justo, que pode conservar melhor a vossa saúde do que todas essas pílulas e xaropes de que Len Richards falava ainda há pouco! Então eu não posso utilizar para isso uma dúzia de porquinhos da índia? Vocês acham que não vale a pena?
«Talvez não acreditem em mim. Cheios de
prevenções e de desconfianças como estão, pensarão que estou a mentir. Podem pensar até que estive a gastar o meu tempo, o vosso, como disseram, numa série de experiências idiotas.»
Estava tão fora de si que esqueceu a sua
firme decisão de não dramatizar. Metendo a mão no bolso interior do casaco tirou a carta que havia recebido no começo da semana.
- Mas isto vos mostrará o que outras
pessoas pensam a respeito do meu trabalho, pessoas que têm capacidade para julgar. Dirigiu-se a Owen e entregou-lhe a carta. Era um ofício do secretário do Senado da Universidade de St. Andrew comunicando-lhe que, em vista da sua tese sobre inalação de pó, era-lhe conferido o grau de doutor em Medicina.
Com a fisionomia resplandecente, Owen leu o
ofício dactilografado a tinta azul num papel encorpado. Depois o ofício foi passando lentamente de mão em mão. E foi com desgosto que Andrew observava o efeito produzido pelo comunicado do Senado. Embora estivesse desesperadamente ansioso por justificar a sua conduta, chegou quase a lamentar o impulso que o levara a apresentar aquela prova. Se eles não acreditavam na sua honesta maneira de proceder sem o apoio de um atestado oficial, era porque deviam estar muito prevenidos contra ele. Com carta ou sem ela compreendeu tristemente que os homens estavam resolvidos a fazer dele um bode expiatório.
Sentiu-se aliviado quando, depois de mais
algumas observações, Owen disse:
- Agora é talvez melhor que nos deixe a sós.
Doutor, faça o obséquio...
Esperando noutra casa, enquanto o caso era
submetido a votação, Andrew começou a dar pontapés nos próprios calcanhares, fervendo de exasperação. Era um soberbo ideal aquele grupo de trabalhadores a organizar os serviços Médicos da comunidade para benefício dos seus companheiros de trabalho. Mas era somente um ideal. Os homens eram demasiadamente desconfiados, suficientemente estúpidos para executar esse plano de modo eficiente. Arrastá-los para o bom caminho era o sacrifício perpétuo de Owen.
De resto estava convencido de que naquela
ocasião nem a boa vontade de Owen poderia salvá-lo.
Mas quando Andrew entrou novamente na
sala o secretário estava risonho, esfregando as mãos de contentamento. Outros membros da direcção também o olhavam de modo mais favorável, pelo menos sem hostilidade. E, levantando-se imediatamente, Owen disse:
- Tenho o prazer de declarar-lhe, Dr.
Manson... posso mesmo dizer-lhe que me sinto pessoalmente encantado ao declarar-lhe... que a direcção decidiu por maioria pedir ao doutor que continue no cargo.
Triunfara, levara afinal todos de vencida. Mas,
passado o primeiro instante de satisfação, a consciência da vitória não o fazia exultar. Houve uma pausa. Os homens esperavam evidentemente que ele exprimisse a sua gratidão e o seu contentamento. Mas nada disso aconteceu. Sentiu-se cansado de toda aquela história tão mal interpretada, farto da direcção, de Aberalaw, de medicina, de pó de sílica, de porquinhos da índia e de si mesmo.
Disse finalmente:
- Obrigado, Sr. Owen. Alegra-me saber que,
depois de tudo que procurei fazer aqui, a direcção não exige a minha retirada. Mas sinto muito. Não posso permanecer em Aberalaw por mais tempo. Concedo à direcção um mês de prazo, a começar de hoje.
Falou friamente. Depois deu meia volta e
retirou-se da sala. Houve um silêncio de sepulcro. Ed. Chenkin foi o primeiro a voltar a si.
- Deste estamos livres - exclamou, meio
embaraçado, quando Andrew já estava longe.
Mas Owen surpreendeu todos eles com o
primeiro acesso de cólera que alguma vez havia manifestado naquela sala da direcção.
- Cala essa boca, que não sabes o que dizes,
Ed. Chenkin. - Bateu a régua na mesa com ameaçadora violência. - Perdemos o homem melhor que tivemos.