A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 23 de 55

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A Cidadela

Capítulo 09

Num dos primeiros dias de Abril, Andrew

deu por uma cárie num dente, e como consequência foi procurar, numa tarde da semana seguinte, o dentista da Sociedade. Ainda não se encontrara com Boland e não sabia quais as suas horas de consulta. Quando chegou à praça onde Boland tinha instalado o pequenino consultório, achou a porta fechada com este letreiro a tinta vermelha: «Saí para fazer uma extracção. Em caso de urgência, procure-me em casa.»

Depois de um momento de hesitação, Andrew

decidiu ir até à residência do dentista para marcar uma hora.

Depois de se informar do caminho com um

dos rapazes estacionados à porta da Sorveteria do Vale, avançou para casa de Boland.

Era uma pequena «vila», um pouca afastada,

na parte alta do lado leste da cidade. Quando Andrew atravessou a entrada suja que servia a frente da casa ouviu marteladas sonoras. Olhando pela porta escancarada de um barracão de madeira, quase em ruínas, que ficava ao lado da casa, viu um homem robusto e ruivo, que em mangas de camisa, atacava violentamente com um martelo a carrosserie desconjuntada de um automóvel. Entretanto o homem dera pela sua presença.

- Olá! - disse ele.

- Olá - respondeu Andrew um pouco

contrafeito.

- Que deseja o senhor?

- Marcar uma hora com o dentista. Sou o Dr.

Manson.

- Faça o favor de entrar - disse o homem,

acenando-lhe hospitaleiramente com o martelo. Era Boland.

Andrew entrou no barracão, que estava

atravancado com as peças soltas de um carro incrivelmente velho. No meio do barracão estava o chassis do automóvel apoiado em caixotes. Naquele momento o chassis parecia ter sido serrado ao meio. Os olhos de Andrew divagaram entre Boland e aquele extraordinário espectáculo de engenharia.

- É essa a extracção?

- É sim! - confirmou Con. - Quando consigo

uma folga no consultório venho à garage e trato um pouco do carro. - Além de falar com sotaque irlandês muito carregado, Con empregava com incontido orgulho as palavras garage e «automóvel» para significar o barracão em escombros e o veículo em frangalhos. - O senhor não compreenderá o que estou agora a fazer - continuou - a não ser que tenha, como eu, temperamento de mecânico. Há cinco anos que possuo este carro e note bem, ele já estava com três anos de uso quando o comprei. O senhor não acreditará vendo o automóvel agora todo desmantelado. Mas a verdade é que corre como um danado. Contudo, é muito pequeno, Manson; agora é pequeno de mais para a minha família. Assim, estou tratando de o aumentar. Cortei-o ao meio, como está a ver, e neste ponto aqui vou colocar um enxerto de dois pés de comprimento. Espere e verá quando a obra estiver pronta, Manson! - Foi à procura do casaco. -O automóvel ficará tão grande que poderá conduzir um batalhão. - Vamos agora ao consultório. Obturarei o seu dente.

No consultório dentário, que estava tão

desarrumado como a garage e, para falar com franqueza, igualmente sujo, Con obturou o dente sem deixar de perorar. Falava tanto e com tal violência que o bigodão ruivo estava sempre orvalhado de perdigotos. A cabeleira revolta, que desde há muito precisava dos cuidados do barbeiro, invadia a cara de Andrew quando o dentista se curvava sobre o cliente para colocar a massa de obturação que havia preparado na ponta dos dedos oleosos. Nem sequer se dera ao incómodo de lavar as mãos. Isso não tinha importância para Con.

Era um sujeito descuidado, impetuoso, de

temperamento alegre e alma generosa. A medida que ia conhecendo Boland, mais Andrew ia ficando seduzido pela sua simplicidade, pelo seu bom humor, pela sua rudeza e imprevidência.

Em seis anos de trabalho em Aberalaw não

conseguira economizar um centavo, mas arrancava da vida o máximo prazer. Tinha a mania da «mecânica», fazia constantes «gazetas» no trabalho do consultório e adorava o automóvel O próprio facto de Con possuir um automóvel já era motivo de brincadeira. Mas Con gostava imenso de brincadeiras, mesmo quando o prejudicavam. Contou a Andrew que em certa ocasião, ao ser chamado para extrair um molar estragado de um membro importante da direcção saíra de casa com a convicção de que levava o ferro dentro do bolso, mas quando deu por isso estava a arrancar o dente com uma turquês de seis polegadas.

Feita a obturação, Con atirou com os

instrumentos para dentro de um frasco de compota cheio de lisol, pois era essa a sua humorada noção de anti-sepsia e convidou Manson para tomar chá em sua casa.

- Venha, venha! - insistiu hospitaleiramente.

Venha conhecer a minha gente. Estamos justamente na hora do chá: são cinco horas.

A família de Con estava realmente a tomar

chá quando eles entraram. Mas já estava demasiadamente acostumada às excentricidades de Boland para ficar embaraçada com o facto de trazer um estranho. Numa sala quente e desarrumada, a mulher de Con estava sentada à cabeceira da mesa, dando de mamar a uma criança. Junto dela, Mary, de quinze anos, quieta, tímida.

- É a única de cabelos pretos e a predilecta do

pai - disse Con ao apresentá-la, explicando ainda que ela já estava a ganhar um bom ordenado como empregada de Joe Larkins, um bookmaker da Praça. Ao lado de Mary, Terence, de doze anos, e noutros lugares da mesa mais três crianças que começaram num berreiro jovial quando o pai apareceu.

Havia em toda a família - excepto talvez na

tímida e concentrada Mary - uma alegria imprevidente que encantou Andrew. A própria sala falava com jovial acento irlandês.

Em cima do fogão e por baixo de uma

fotografia colorida do papa Pio X, enfeitada com ramos de qualquer arbusto, secavam as fraldas do bebé. A gaiola do canário, pouco limpa mas com muitos gorjeios, estava em cima do aparador, ao lado do espartilho da Sr.a Boland que o tirava do corpo para ficar mais à vontade e de uma lata de biscoitos aberta. Seis garrafas de cerveja preta, chegada pouco antes da loja, estavam sobre a cómoda, na companhia da corneta de Terence; num canto viam-se brinquedos quebrados, um par de botas velhas, um patim enferrujado, uma sombrinha japonesa, dois livros de missa já meio estragados e um volume de Photo-bits.

Mas, ao tomar o chá, Andrew ficou fascinado

pela Sr.a Boland. Não podia desviar os olhos dela. Pálida, sonhadora, imperturbável, pôs-se a ingerir silenciosamente inúmeras xícaras de chá preto, enquanto as crianças brigavam em torno e o bebé ia mamando calmamente no seu farto seio. Ela sorria, balançava a cabeça, cortava pão para os filhos, lambuzava as fatias com manteiga, punha chá na xícara, bebia e dava de mamar, tudo com uma espécie de tranquilidade distraída, como se longos anos de barulho, sujeira e desordem e estouvamentos de Con a tivessem levado finalmente a um plano de divino alheamento das coisas, onde permanecia isolada e imune.

Andrew quase deixou cair a xícara quando,

fitando-o da outra ponta da mesa, ela lhe dirigiu a palavra, numa voz suave, como a desculpar-se:

- Há muito tempo que estou para fazer uma

visita à sua senhora, doutor. Mas ando tão ocupada...

- Pelo amor de Deus! - Contorcia-se a rir. -

Ocupada! Essa é boa! Ela não tem um vestido decente. É o que quer dizer. Tinha dinheiro para o comprar, mas, que diabo!, o Terence ou um destes catraios também precisava de um par de sapatos. Não tem importância, minha velha. Esperemos até que o carro fique pronto e então apareceremos com toda a elegância. - Voltou-se para Andrew com absoluta naturalidade. - Vivemos muito apertados, Manson. É o diabo! Graças a Deus, nunca falta para comer, mas às vezes os cobres não dão para os trapos. Essa gente da direcção é muito sovina. E, o que ainda é pior, o «tirano» ainda leva a sua fatia dos nossos proventos!

- Quem? - perguntou Andrew, espantado. - Llewellyn! Tira um quinto dos nossos

ganhos, tanto do meu como do seu.

- Mas porque tem de ser assim? - Oh! Lá uma vez na vida examina um cliente

meu. Durante os últimos anos extraiu em doentes meus dois quistos dentários. E é ele quem tira alguma radiografia quando é preciso. Mas é um sujo! - As crianças tinham ido brincar para a cozinha, de modo que Con pôde falar sem papas na língua. - Quero que ele e a sua carroça vão para o inferno. A limousine com todas as suas pinturas. Deixe-me contar-lhe, Manson. Uma vez, quando eu subia o morro Mardy, atrás do automóvel dele, resolvi pisar o acelerador. Ah! Jesus! Se o doutor visse a cara do homem quando teve de engolir a poeira que levantei!

- Ouça, Boland - disse Andrew, com

vivacidade. - Essa pouca vergonha de Llewellyn nos roubar um quinto do nosso ordenado é uma exploração miserável. Porque não tentamos acabar com isso?

- Como?

- Porque não tentamos acabar com isso -

repetiu Andrew, levantando a voz. Sentiu o sangue ferver ao som das suas próprias palavras. - É uma injustiça flagrante. Vivemos a trabalhar fortemente, procurando fazer a nossa vida... Ouça, Boland, o senhor é justamente o homem de que eu precisava encontrar. Quer acompanhar-me nesta questão? Reuniremos os outros assistentes. Faremos uma frente única...

O olhar de Con animou-se pouco a pouco. - Quer dizer com isso que pretende lutar com

Llewellyn?

- Isso mesmo.

Con estendeu-lhe a mão, num gesto

expressivo.

- Manson, meu filho - declarou solenemente. -

Estamos aliados desde este momento.

Andrew correu para casa a comunicar a

Christine a rotura das hostilidades, cheio de animação, ansioso por combater.

- Chris! Chris! Encontrei um homem que é

uma jóia. Um dentista, de cabelos cor de fogo, completamente maluco... Isto é, igual a mim. Isso já tu sabes! Ouve, minha querida, vamos fazer uma revolução. Ria animadamente.

- Oh! Meu Deus! Se o velho Llewellyn

soubesse o que lhe estamos a preparar!

Andrew não necessitou de recomendação de

prudência de Christine para agir com cuidado. Estava resolvido a proceder acertadamente em todas as coisas. Começou, portanto, no dia seguinte com uma visita a Owen.

O secretário mostrou-se interessado e

objectivo. Disse a Andrew que a história da percentagem para Llewellyn fora uma combinação amigável entre o médico-chefe e o seus assistentes, a que a direcção fora estranha.

- Veja, Dr. Manson - concluiu Owen. - O Dr.

Llewellyn é um homem muito inteligente e prestigiado por muitos títulos. Consideramos uma sorte tê-lo junto de nós. Mas ele recebe uma bela remuneração da Sociedade como superintendente médico, mas foram os senhores assistentes quem foram de opinião de que ele devia ganhar mais...

«Pois vamos acabar com isso», disse Andrew

consigo mesmo. E saiu satisfeito. Telefonou a Oborrow e a Medley e conseguiu que acedessem a comparecer em sua casa naquela noite. Urquhart e Boland comprometeram-se a não faltar. E, pelo que pudera apreender de anteriores conversas, Andrew sabia que nenhum deles gostava de perder um quinto dos seus honorários. Uma vez reunidos, a coisa andaria por si mesma.

O passo seguinte era falar a Llewellyn. Depois

de reflectir sobre o assunto, chegara à conclusão de que seria uma atitude pouco correcta não avisar o médico do que pretendia fazer. Naquela tarde teve de ir ao hospital para agir como anestesista. Quando observou Llewellyn no decurso da operação um difícil e complicado caso abdominal não pôde reprimir o sentimento de admiração. Llewellyn era extraordinariamente competente. E não só competente como suave. Era a excepção, a única excepção, que para Denny vinha apenas confirmar a regra. Fazia tudo muito bem. Nada havia que o desorientasse. Desde os regulamentos de saúde pública, que sabia de cor, até à mais moderna técnica radiológica, todo o conjunto das suas múltiplas obrigações encontrava Llewellyn esplendidamente apto e preparado para executar.

Depois da operação, enquanto Llewellyn

lavava as mãos Andrew avançou para ele, tirando bruscamente o avental

- Desculpe-me melindrar a sua modéstia, Dr.

Llewellyn mas não posso deixar de lhe manifestar a minha admiração pela maneira como tratou daquele tumor. Foi realmente magistral.

- Alegra-me muito a sua opinião, Manson. E, a

propósito, o senhor está a progredir consideràvelmente na aplicação de anestésicos.

- Não, não - mastigou Andrew. - Nunca serei

hábil nesta coisa.

Houve uma pausa. Llewellyn continuou a

ensaboar calmamente as mãos. Andrew, a seu lado, tossiu nervosamente. Agora, que chegara o momento, achava quase impossível expressar-se. Mas conseguiu dizer:

- Ouça, Dr. Llewellyn. Sinto-me no dever de o

avisar. Nós outros, assistentes, achamos injusto ter de lhe pagar uma percentagem dos nossos ordenados. É uma coisa difícil de dizer mas... Estou resolvido a propor que suspendam a contribuição. Vai haver uma reunião, hoje à noite, em minha casa. Prefiro que o senhor tome conhecimento antes agora do que mais tarde. Eu... eu quero que o senhor compreenda que sou leal para consigo.

Antes que Llewellyn pudesse responder, e

sem o olhar, Andrew deu meia volta e saiu. Dissera aquilo muito mal. Mas de qualquer modo, estava dito. Quando os assistentes lhe comunicassem a resolução, Llewellyn não poderia queixar-se de ter sido tratado traiçoeiramente.

A reunião em Vale View estava marcada para

as nove horas da noite. Andrew mandou vir algumas garrafas de cerveja e pediu a Christine que preparasse sanduíches. Depois desses preparativos ela saiu calmamente, a fim de passar uma hora em casa dos Vaughan. Tomado de impaciência, Andrew marchava de um lado para outro do hall procurando concentrar as ideias. Começaram então a chegar os interessados: primeiro Boland, logo a seguir Urquhart, e por fim Oxborrow e Medley, os quais vieram juntos.

Na sala de visitas, servindo cerveja e

oferecendo sanduíches, Andrew procurou criar um ambiente cordial.

Como Oxborrow era o que lhe inspirava

menos simpatia, dirigiu-se a ele em primeiro lugar.

- Sirva-se à vontade, Oxborrow! Ainda há

mais lá dentro!

- Obrigado, Manson. - A voz do evangelista

era glacial. - Eu não bebo álcool de qualquer maneira que se apresente. É contra os meus princípios.

Com os diabos! - disse Con com o bigode

branco da espuma de cerveja.

Como entrada aquilo não parecia auspicioso.

Enquanto mastigava sanduíches, Medley estava atento e desconfiado, manifestando no rosto a ansiedade concentrada do surdo. A cerveja já começava a excitar a beligerância natural de Urquhart. Depois de o encarar uns momentos, desfechou subitamente esta frase:

Agora que estamos juntos, Dr. Oxborrow,

talvez ache conveniente explicar como foi que Tudor Evans, de Glyn Terrace, 17, passou da minha lista para a sua.

- Não me recordo do caso - respondeu

Oxborrow, que fazia estalar distraidamente as juntas dos dedos.

- Mas recordo-me eu! - explodiu Urquhart. -

Foi um dos clientes que o senhor me furtou, com todo o seu ar de reverendo da medicina. E há mais...

- Colegas! - exclamou Andrew, alarmado. -

Por favor, por favor! Como poderemos chegar a alguma coisa de positivo se começarmos a brigar uns com os outros? Lembrem-se do motivo por que estamos reunidos aqui.

- Mas porque estamos aqui? - perguntou

Oxborrow efeminadamente. Eu devia estar a atender um cliente.

De pé, encostado ao fogão, com ar sisudo e

concentrado, Andrew aproveitou imediatamente a ocasião para não deixar fugir a oportunidade de entrar na questão:

- Pois o motivo é este, senhores! - Tomou

fôlego. - Eu sou o mais novo dos que se encontram aqui e estou há pouco tempo neste emprego, mas... espero que me desculpem. Talvez por ser novo é que me vejo forçado a encarar certos assuntos. São coisas a que os senhores já estão habituados desde há muito tempo. Parece-me, em primeiro lugar, que o nosso sistema aqui está todo errado. Passamos o tempo a desprestigiar-nos e a estragar a nossa reputação, combatendo-nos uns aos outros sem considerarmos a nossa situação como membros da mesma sociedade médica, com maravilhosas oportunidades para trabalharmos juntos. Todos os colegas que conheço preguejam que o médico passa uma vida de cão. Queixam-se de que trabalham de mais, têm as pernas cansadas, não dispõem de um minuto de descanso, comem à pressa, sempre ocupadíssimos com as chamadas. Qual é a origem disso? É que não pensam em organizar a nossa profissão. Para explicar o que quero dizer, tomemos um exemplo: chamadas à noite! Os senhores sabem que todos nós vamos para a cama com um medo horrível de ser acordados no melhor do sono, para ir ver um doente. Estraga-nos as noites só a admissão da possibilidade de ter de sair. Suponham agora como seria confortável a certeza de não sermos chamados durante a noite. Um de nós ficaria incumbido de atender todas as chamadas nocturnas durante uma semana, em troca do sossego e do sono garantidos para o resto do mês. Cada um de nós faria o seu turno. Não seria excelente? Pensem como seria tranquilo o trabalho de todos durante o dia.

Fez uma pausa observando as caras

inexpressivas dos colegas.

- Não concordo - zombou Urquhart. - Macacos

me mordam! Antes passar uma noite inteira sem pregar olho do que deixar ir para as mãos desta raposa velha que e Oxborrow um dos meus doentes. Hi! Hi! Quando ele pede emprestado, não paga.

Andrew interveio febrilmente. - Deixemos então isso de lado até nova

reunião, pelo menos, já que parece não se chegar a acordo. Mas num ponto somos todos unânimes. E é por isso que estamos aqui. Essa tal percentagem que pagamos ao Dr. Llewellyn. - Calou-se. Todos agora olhavam para ele, interessados na questão que dizia respeito à algibeira. - Sabemos que isso é injusto. Já falei a Owen sobre o assunto. Ele diz que é assunto que não diz respeito à direcção, mas sim um caso para ser tratado por nós.

- É de facto assim - explicou Urquhart. -

Lembro-me da ocasião em que isso foi estabelecido. Foi há coisa de uns nove anos. Nessa época havia aqui dois azelhas como assistentes. Um na clínica Leste e o outro cá do meu lado. Atrapalhavam a vida de Llewellyn com as suas complicações. Um belo dia chamou-nos e disse que não estava disposto a prestar-nos mais auxílio, a não ser que fizéssemos um acordo com ele. Foi assim que a história começou. E é assim que continua ainda hoje.

- Mas o ordenado que recebe da direcção já o

compensa muito bem do seu serviço. E ainda recebe um dinheirão dos outros empregos. O homem está podre de rico.

- Eu sei, eu sei - disse Urquhart com

impaciência. - Mas pondere, Manson, que o homem é utilíssimo para nós. É o mesmo Llewellyn de sempre. E ele sabe isso muito bem. Se resolver não nos prestar o seu auxílio ficaremos em muito maus lençóis.

- Mas porque temos de lhe pagar? - insistiu

Andrew implacàvelmente.

- Silêncio! Silêncio! - exclamou Con, enchendo

mais uma vez o copo.

Oxborrow lançou um olhar ao dentista. - Se me permitem que exponha a minha

opinião, eu concordo com o Dr. Manson em que é uma violência o desconto que sofremos no ordenado. Mas a verdade é que o Dr. Llewellyn é um homem de alta posição, com muitos títulos prestigiosos, que com o seu nome dá uma grande distinção à Sociedade. Além disso, ele não se nega a tomar conta dos nossos casos mais difíceis.

Andrew, surpreendido, fitou o colega. - O senhor deseja entregar a outro os seus

casos difíceis?

- Naturalmente - disse Oxborrow com

petulância. - Porque não?

- Pois não está certo que faça isso - berrou

Andrew. - Eu faço questão de os conservar, de os tratar até ao fim!

- Oxborrow tem razão - sussurrou Medley

inesperadamente. - É a primeira regra da prática da medicina, Manson. O senhor compreenderá isso quando tiver mais idade. Passar a outro os casos complicados, ver-se livre deles!

- Isso é o diabo, é o diabo! - protestou

Andrew, esquentado.

A discussão continuou, mas sem cordialidade,

durante três quartos de hora. Por fim, Andrew, com o sangue a ferver, encontrou uma oportunidade para exclamar:

- Nós temos de andar para a frente. Estão a

ouvir-me? Já estamos metidos nisto. Llewellyn sabe que estamos a tratar do assunto. Eu mesmo o avisei hoje de tarde.

- Como? - A exclamação saiu ao mesmo tempo

de Oxborrow, Urquhart, e até de Medley. - Está a dizer, doutor, que preveniu o Dr. Llewellyn?

Meio levantado da cadeira, Oxborrow lançou

a Andrew um olhar estupefacto.

- É claro que sim! Ele saberia mais cedo ou

mais tarde. Mas o senhor não vê que basta apenas unirmo-nos, formarmos uma frente única para vencer pela certa?

- Oh diabo! - Urquhart estava lívido. - O

senhor tem uma coragem! O colega conhece a influência de que dispõe o Llewellyn. Manda em toda a parte. Teremos muita sorte se não formos todos para o olho da rua. Imaginem eu, com a minha idade, ter de arranjar outro emprego! - Seguiu na direcção da porta. - O senhor é um bom sujeito, Manson. Mas ainda é muito jovem. Boas noites.

Medley levantara-se também apressadamente.

A expressão do seu olhar denunciava a sua intenção de ir directamente ao telefone a fim de declarar a Llewellyn, desfazendo-se em desculpas, que ele, Llewellyn, era um médico extraordinário e ele, Medley, podia servir-lhe de capacho.

Oxborrow também estava de pé. Em dois

minutos a sala esvaziou-se. Só ficaram Con, Andrew e o resto da cerveja.

Terminaram a bebida em silêncio. Então

Andrew lembrou-se de que ainda havia seis garrafas na dispensa.

Esvaziaram as seis garrafas e começaram a

falar. Disseram coisas sobre a origem, a família e o carácter de Oxborrow, Medley e Urquhart. Trataram especialmente de Oxborrow e do seu harmónio. Nem ouviram Christine entrar e subir as escadas. Conversavam de coração aberto, como irmãos miseravelmente traídos.

Na manhã seguinte Andrew começou o seu

trabalho de mau humor e com uma terrível enxaqueca. Na Praça cruzou com o automóvel de Llewellyn. Andrew levantou a cabeça cumprimentando-o num tom contrafeito de desafio, mas Llewellyn dirigiu-lhe o melhor dos seus sorrisos.