A Cidadela
Capítulo 5
Foi numa tarde de Junho, no período parado
das duas às quatro, quando normalmente nada de importante acontecia. Estava ele sentado no consultório, a fazer balanço das receitas do mês anterior, quando de repente o telefone tocou. Deu um pulo na cadeira e tomou o auscultador.
- Sim, sim! É o Dr. Manson quem fala. Através do fio ouviu uma voz angustiada e
opressa.
- Oh! Dr. Manson! Que alívio encontrá-lo em
casa! Quem fala aqui é o Sr. Winch... Winch, da Casa Laurier. Temos neste momento aqui na loja um aborrecimento. Trata-se de uma cliente. Pode vir? Pode vir imediatamente?
- Estarei aí dentro de cinco minutos. Andrew
desligou e foi a correr buscar o chapéu. Um autocarro, com o qual esbarrou em frente da casa, aguentou com firmeza a impetuosidade do pulo. Ao fim de quatro minutos e meio, Andrew passou por uma das portas giratórias e viu-se dentro da Casa Laurier. Esperava-o, ansiosa, a menina Crambs. Conduzido por ela, atravessou macias superfícies, sentindo os pés afundarem-se na agradável sensação produzida por tapetes verdes; passou diante de grandes espelhos de moldura dourada de limoeiro, nos quais se podiam ver reflectidos um chapelinho pendurado no cabide, um laço de fita, uma capa de arminho. Quando seguiam com toda a pressa, a menina Cramb explicou:
- Trata-se da menina Lê Roy, Dr. Manson.
Uma das nossas clientes. Não minha, graças a Deus; ela ocasiona sempre aborrecimentos. Mas, Dr. Manson, o senhor está a ver que eu falei a seu respeito ao chefe da casa...
- Muito obrigado - disse Andrew
bruscamente. Ainda sabia ser brusco de vez em quando. - Que aconteceu?
- Parece que ela... oh! Dr. Manson... parece que
ela está a dar espectáculo num gabinete de provas.
No cimo de uma larga escadaria, a menina
Crambs entregou-o ao Sr. Winch, rosadinho e agitado, que o encaminhou precipitadamente:
- Por aqui, doutor... por aqui... Espero que
possa fazer alguma coisa... É uma contrariedade horrorosa...
Num gabinete de provas, aquecido,
luxuosamente atapetado no mais suave tom verde, com paredes forradas de verde e ouro, uma multidão de raparigas falava pelos cotovelos; via-se uma cadeira tombada de pernas para o ar, uma toalha caída, água entornada, um verdadeiro pandemónio.
E ali, centro de toda aquela cena, a menina
Lê Roy, a mulher do ataque, a mulher que «fazia fitas». Estava estirada no soalho, rígida, com as mãos e os pés em crispações espasmódicas. Da garganta rígida subiam-lhe por vezes uns grunhidos estrangulados, de arrepiar.
Uma das empregadas mais idosas começou a
chorar quando entraram Andrew e o Sr. Winch.
- Não tive culpa - soluçava. - Lembrei apenas
à menina Lê Roy que fora este o modelo escolhido por ela mesma.
- Oh! Meu Deus, meu Deus! - murmurava
Winch. - Que coisa horrorosa! Devo... quer que eu mande vir uma ambulância?
- Não, por enquanto não - disse Andrew num
tom estranho. Curvou-se para a menina Lê Roy. De olhos azuis, muito jovem, devia ter uns vinte e quatro anos; os cabelos sedosos estavam completamente despenteados sob o chapelinho de lado. Junto dela via-se uma outra mulher, com expressão preocupada nos olhos negros. Parecia sua amiga.
- Oh! Toppy, Toppy! - murmurava a todo o
momento.
- Façam o favor de abandonar o gabinete -
disse Andrew, de repente. - Prefiro que saia toda a gente, menos... os olhos fixaram a morena que estava ao lado - menos esta senhora daqui.
As raparigas saíram, um pouco aborrecidas.
Teria sido tão interessante e divertido assistir ao tratamento da menina Lê Roy!... A Sr.a Cramb, até mesmo o Sr. Winch, também se retiraram. Nesse momento as convulsões tornaram-se alarmantes.
- É um caso extremamente grave - disse
Andrew, destacando muito as palavras.
A menina Lê Roy revirou os olhos para ele. - Dê-me uma cadeira por favor. A outra senhora pôs de pé, no centro da sala, a
cadeira derrubada. Então, vagarosamente e com o maior cuidado, levantando-a pelas axilas, Andrew ajudou a convulsa menina Lê Roy a esticar-se na cadeira. Segurou-lhe a cabeça de modo a ficar bem esticada.
- Olhe - disse com a maior gentileza. E logo de
mão aberta aplicou-lhe em plena face uma tremenda bofetada. Era o acto mais corajoso que praticara havia muitos meses e infelizmente alguns meses ainda passariam sem outra prova de igual bravura.
A menina Lê Roy deixou de grunhir. O
espasmo cessou. Acabaram-se os reviramentos de olhos. Fitou-o num espanto dorido e infantil. Sem lhe dar tempo a pensar, Manson levantou a mão novamente e esbofeteou-lhe a outra face.
Era grotesca a angústia estampada na
fisionomia da jovem. Vacilou, deu a impressão de que ia voltar aos grunhidos e começou então a soluçar.
Voltando-se para a amiga, disse entre
lágrimas:
- Minha querida, quero ir para casa. Andrew dirigiu um olhar cheio de desculpas à
outra senhora, que agora o observava com um interesse fora do vulgar.
- Desculpe - murmurou. - É o único processo.
É um caso grave de histeria, com espasmos convulsivos. Ela podia ter-se magoado. E eu não tinha anestésico nem recurso algum. E, seja como for, deu resultado.
- Sim... deu resultado.
- Deixe-a chorar à vontade - disse Andrew. - É
uma válvula de segurança. Estará boa dentro de poucos minutos.
- Espere, doutor, mesmo porque... - e com
vivacidade - o doutor deve acompanhá-la a casa.
- Pois não - respondeu Andrew, no tom mais
perfeito do homem de negócios.
Passados cinco minutos, a menina Lê Roy já
estava em condições de arranjar a cara, operação meticulosa, entrecortada por alguns soluços espaçados.
- Não estou muito transtornada, não te parece,
querida? - perguntou à companheira. De Andrew parecia ignorar a existência.
Logo depois abandonaram a sala. Foi
verdadeiramente sensacional a passagem pelo grande salão de vendas, no andar térreo. Foram tão grandes o alívio e a admiração do Sr. Winch que ficou quase sem fala. Não compreendia, nunca compreenderia como se dera o milagre, como o doutor restituíra o movimento à paralítica toda ancilosada.
Acompanhou-os à porta, balbuciando
palavras de agradecimento e felicitações. Quando Andrew transpôs a estrada principal, atrás das duas mulheres, o Sr. Winch apertou-lhe a mão com fervor, derretendo-se em cumprimentos.
Tomaram um táxi e seguiram por Bayswater
Road, na direcção de Marble Arch. Não houve a menor tentativa de conversação. A menina Lê Roy estava amuada agora, como uma criança cheia de mimos que recebe um castigo.
Ainda tinha estremecimentos. De vez em
quando, as mãos e os músculos do rosto tinham pequenas crispações nervosas.
Observada agora mais serenamente, parecia
muito delgada e quase bonita no seu tipo franzino. Estava muito bem vestida, mas, apesar disso, dava a Andrew a impressão exacta de uma franguinha depenada por cujo corpo passassem de vez em quando correntes eléctricas. Ele próprio sentia-se nervoso, numa posição pouco feliz. No entanto, estava resolvido a aproveitar-se da situação criada, a extrair dela todas as vantagens.
O automóvel deu a volta por Marble Arch,
seguiu ao lado de Hyde Park e, dobrando à esquerda, parou à porta de um palacete na Green Street. Entraram imediatamente.
A casa deixou Andrew boquiaberto. Nunca
imaginara ambiente com tanto luxo - o amplo vestíbulo, o pequeno salão cheio de jades magníficos, quadros esplêndidos em molduras de alto preço, poltronas de laca vermelha e ouro, largos divãs, tapetes macios e de tons discretos.
Continuando a ignorar Andrew, Toppy Le
Roy estirou-se num sofá forrado de cetim, arrancou o chapelinho e atirou-o ao chão.
- Toca a campainha, querida. Preciso de beber
alguma coisa. Graças a Deus o papá não está.
Surgiu logo um criado a servir aperitivos.
Quando o criado saiu, a amiga de Toppy observou Andrew pensativamente, num quase sorriso que apenas se esboçou:
- Acho, doutor, que lhe devemos uma
explicação. O nosso conhecimento processou-se tão precipitadamente. Sou Lawrence. Aqui, a Toppy, isto é, a menina Lê Roy, teve uma contrariedade por causa de um modelo que mandara fazer especialmente para um baile de caridade. E... claro! Ela tem andado ultimamente esgotada. É uma criaturinha muito nervosa. Mas fique certo: embora a Toppy se mostre um pouco contrariada nós estamos-lhe muito gratas por ter vindo connosco. E agora, quero mais um aperitivo.
- Eu também - disse Toppy, ainda amuada.
Que criatura sem linha aquela caixeira da Laurier! Vou pedir ao papá que telefone para lá, exigindo que a mulher seja despedida. Não, não quero! - Quando beberricava o segundo aperitivo um sorriso de satisfação foi aos poucos alegrando-lhe a fisionomia. - Dei uma boa lição, não dei Frances? Fiquei de facto uma «bicha»! Oh! Meu Deus! Como tinha piada a cara da mamã Winch! Era de rebentar a rir!
O pequeno molho de ossos contorcia-se
numa gargalhada. Olhou a cara de Andrew, sem má disposição.
- Vamos, doutor! Ria também! O caso foi
divertidíssimo!
- Não! Não o acho tão divertido como isso -
disse precipitadamente, na ânsia de se explicar, de estabelecer a sua posição, de a convencer de que estava doente. A menina teve realmente uma crise grave. Lamento ter sido obrigado a tratá-la como o fiz. Sem ter anestésico, só havia aquele recurso. E se não procedesse assim, seria pior para a menina. E não suponha, por favor, que eu considere fingido aquele ataque. A histeria... sim, trata-se de um caso de histerismo... é uma doença precisa, definida. Não deve rir-se. É uma consequência do sistema nervoso doente. Veja, a menina está abatidíssima. Todos os seus reflexos o demonstram. Está muito nervosa.
- Tem toda a razão - concordou Frances
Lawrence. - Tens abusado ultimamente, Toppy.
- O doutor queria de facto dar-me
clorofórmio? - perguntou Toppy, num espanto infantil. - Teria tido piada.
- Falando do caso a sério, Toppy - disse a Sr.a
Lawrence quero que te trates.
- Estás falando como o papá - observou a
jovem, perdendo o bom humor.
Houve um silêncio. Andrew terminara o
aperitivo. Pôs o cálice sobre a beira, delicadamente trabalhada, do fogão. Parecia-lhe já não ter razões para continuar ali.
- Bem! - disse com ar importante. - Tenho de
voltar ao meu trabalho. Faça o favor de seguir o meu conselho, menina Lê Roy. Tome uma ligeira refeição, vá para a cama e... já que não lhe posso ser útil em mais coisa alguma... procure o seu médico amanhã. Passe bem.
A Sr.a Lawrence acompanhou-o ao vestíbulo,
mas de um modo tão lento que ele viu-se obrigado a moderar a pressa de homem ocupado de que ia animado. Era alta e esbelta, as espáduas um pouco levantadas, cabeça pequena e elegante. Alguns fios grisalhos nos cabelos escuros, lindamente ondulados, davam-lhe uma curiosa distinção. No entanto ainda era jovem. Andrew estava certo de que não devia ter mais de vinte e sete anos. Era alta e delicada.
Os punhos, principalmente, eram muito
delgados. Na verdade, toda a sua figura flexível lembrava a preciosa vibratilidade de um florete. Estendeu a mão ao médico, fixando nele os olhos esverdeados e confusos, num rosto onde brincava um leve sorriso cordial, cheio de simpatia.
- Queria apenas dizer-lhe quanto admirei o
seu novo método de tratamento. - Os seus lábios fizeram um movimento gracioso. - Não o abandone por coisa alguma. Asseguro-lhe um sucesso formidável com a sua aplicação.
Descendo a Green Street, para tomar o
autocarro, Andrew ficou espantado ao ver que já eram quase cinco horas da tarde. A companhia das duas mulheres fizera-o perder quase três horas. Tinha o direito de apresentar uma conta substancial por esse facto. E no entanto, apesar dessa edificante reflexão, tão característica dos seus novos pontos de vista, sentiu-se confuso, num descontentamento estranho. Teria realmente aproveitado bem a oportunidade?
A Sr.a Lawrence parecia gostar dele. Mas
nunca se pode confiar em gente daquela ordem. E que casa estupenda! De súbito uma fúria exasperada o tomou. Não só se esquecera de deixar cartão, como até de dizer quem era. E ao sentar-se no autocarro cheio, ao lado de um velho operário de fato de trabalho, censurou-se a si mesmo, com irritação, por ter desperdiçado aquela oportunidade única.
Na manhã seguinte, pouco depois das onze,
quando Andrew se preparava para ir fazer algumas visitas nas imediações de Mussleburgh Market, o telefone tocou e ouviu-se a voz de um criado, solícita e solene:
- É o Dr. Manson? Ah! A Sr.a Lê Roy deseja
saber, doutor, a que horas virá cá hoje. Ah! com licença, doutor, um momento! A Sr.a Lawrence quer-lhe falar.
Andrew alvoroçou-se, numa ansiedade
palpitante, enquanto a Sr.a Lawrence lhe dizia, muito cordialmente, que esperava sem falta a sua visita.
Quando pousou o auscultador, o médico
murmurava para si mesmo, todo exultante: «Não perdi a oportunidade de ontem; não, de qualquer maneira, não a perdi».
Desprezou as outras visitas, urgentes ou não,
e foi directamente ao palacete de Green Street.
Aí encontrou Joseph Le Roy, que o esperava
com impaciência no pequeno salão ornado de jades Era um tipo robusto, calvo, muito empertigado. Mastigava o charuto, indício de impetuosidade de um homem pouco habituado a perder tempo. Num momento, os seus olhos apreenderam a figura de Andrew. E essa rápida operação acabou por satisfazê-lo. Disse então com ar feroz, com um acento colonial:
- Ouça, doutor. Estou com muita pressa. A
Sr.a Lawrence fez uma trapalhada dos diabos, obrigando-o a vir aqui esta manhã. Vejo que o senhor é um homem inteligente e não transige com tolices. É casado, não é verdade? Isso agrada-me. E agora, tome a pequena aos seus cuidados. Ponha-a boa, forte; tire-lhe do corpo o diabo desse histerismo. Não poupe coisa alguma. Eu posso gastar. Até à vista.
Joseph Le Roy era da Nova Zelândia. Apesar
do dinheiro, da casa na Green Street e da sua pequenina e exótica Toppy, não era difícil acreditar na verdade: o seu bisavô fora um tal Michael Cleary, trabalhador rural muito ignorante das vizinhanças de Greymouth Harbour, a quem os companheiros tratavam familiarmente por Leary.
Por certo, quando começou a lutar pela vida,
esse Joseph Le Roy não passava de Joe Leary, um rapazola cujo primeiro emprego tinha sido o de ordenhador de vacas nas grandes estâncias de Greymouth. Mas Joe nascera, como ele próprio dizia, para espremer tetas mais rendosas.
E trinta anos mais tarde era Joseph Le Roy,
que nos escritórios instalados no último andar de um arranha-céus pusera a sua assinatura na escritura que incorporara todos os estábulos e estâncias da ilha num grande consórcio de lacticínios.
Foi um negócio estupendo o Consórcio
Cremogen.
Nesse tempo o leite conservado era pouco
conhecido, ainda não estava industrialmente organizado. E foi Le Roy quem viu as suas possibilidades, quem o lançou no mercado mundial anunciando o artigo como elemento nutritivo abençoado para crianças e doentes. A essência do empreendimento estava, não nos produtos de Joe, mas na sua audácia. As sobras do leite desnatado, que até então se desperdiçavam ou se davam aos porcos em centenas de granjas de Nova Zelândia, passaram a ser vendidas em todas as cidades do mundo nas latinhas de Joe, com os vistosos rótulos de Cremogen, Cremax e Cremfat, por preço três vezes superior ao do leite fresco.
Jack Lawrence, co-director do Consórcio Lê
Roy, era quem dirigia os seus negócios na Inglaterra. Embora pareça ilógico, tinha sido oficial da guarda antes de se entregar às actividades comerciais. Contudo, a união da Sr.a Lawrence e de Toppy não resultara apenas dessas associações de interesses materiais. Rica também e muito mais à vontade nas rodas elegantes de Londres pois Toppy de vez em quando traía a origem dos seus antepassados, Frances alimentava uma afeição divertida pela garota mimada. Quando Andrew se dirigiu ao andar superior depois da conversa com Le Roy, ela esperava-o em frente da porta do quarto de Toppy.
Nos dias seguintes também Frances Lawrence
apareceu à hora da visita do médico servindo de agente de ligação com a doença caprichosa e cheia de exigências, pronta a salientar qualquer melhora no estado de Toppy, insistindo com ela para que se submetesse ao tratamento, perguntando a Andrew quando voltava novamente.
Grato à Sr.a Lawrence, Manson ainda era, no
entanto, bastante tímido para estranhar que pudesse interessar-se por ele, mesmo assim tão levemente, uma fidalga como aquela, que se confessava muito exigente na escolha de relações e que ele bem sabia ser exclusivista, antes mesmo de ver o seu retrato nas páginas elegantes das revistas ilustradas. A sua boca rasgada e um tanto displicente exprimia sempre desdém acerca das pessoas que não eram da sua roda íntima. Todavia, qualquer que fosse a razão, nunca se mostrara hostil para com ele. Andrew sentia um desejo extraordinário, maior do que o da simples curiosidade, de aprofundar-lhe o carácter, a personalidade. Tinha a impressão de tudo ignorar da verdadeira Sr.a Lawrence.
Era uma delícia observá-la nos seus
movimentos harmoniosos quando girava pelo quarto. Estava sempre à vontade, mas muito atenta a tudo quanto fazia. E, apesar da graciosa naturalidade da conversa, mantinha o espírito vigilante no fundo dos olhos repletos de simpatia, mas também de reserva.