A Cidadela
Capítulo 12
O salvamento de Sam Bevan não era coisa que
causasse sensação numa cidade como Aberalaw, que já havia conhecido, noutros tempos, os maiores desastres de minas.
Contudo, foi motivo de grande prestígio para
Andrew no seu distrito. Se tivesse voltado de Londres apenas com o sucesso científico, seria saudado simplesmente com um novo escárnio «por mais uma dessas tolices modernistas».
Mas pelo que se passara recebia
cumprimentos e sorrisos de pessoas que antes nem pareciam dar pela sua presença.
A verdadeira extensão da popularidade de
um médico podia ser avaliada pela sua passagem pelos quarteirões operários. Agora, onde outrora era desfeiteado por tantas portas que se fechavam estrondosamente, Andrew encontrava todas elas escancaradas. Em mangas de camisa e fumando cachimbo, os moradores conservavam-se à entrada das portas de fisionomia radiante, prontos para lhe dirigirem a palavra. As mulheres também estavam dispostas a convidá-lo a «entrar um instantinho». Quando passava na rua, as crianças saudavam-no risonhamente pelo nome.
O velho Gus Parry, chefe de turno de
brocadores do poço n.º 2 e o mais antigo do distrito oeste, resumia para os seus companheiros a nova corrente de opinião quando ficava parado olhando para a figura de Andrew que se afastava.
- Então, rapazes! É um sujeito metido com os
livros, não há dúvida. Mas também pode fazer coisas extraordinárias quando é preciso.
Começaram a voltar cartões para o consultório
de Manson. A princípio aos poucos, mas depois, quando se verificou que não recebia mal os desertores arrependidos, em repentina avalanche. Owen estava contente com o aumento de nomes da lista de Andrew. Um dia, ao procurá-lo na Praça, comentou, sorrindo:
- Eu não lhe disse? E agora?
Llewellyn demonstrou grande satisfação pelo
resultado do concurso. Felicitou Andrew efusivamente pelo telefone e sub-repticiamente requisitou-o para serviço dobrado na sala de operações.
- A propósito - observou ele, radiante, depois
de uma longa sessão de aplicações de éter - você explicou aos examinadores que era assistente numa instituição de auxílios médicos?
- Mencionei o seu nome, Dr. Llewellyn -
respondeu Andrew melifluamente, e isso foi o bastante para que tudo corresse bem.
Oxborrow e Medley, da clínica Leste, fingiram
ignorar o sucesso de Andrew. Mas Urquhart ficou realmente satisfeito, embora o seu comentário tomasse a forma de um despejar de injúrias.
- O Diabo que o carregue, Manson! Que pensa
o senhor que está a fazer? Quer humilhar-me com os seus titulescos?
A fim de homenagear o distinto colega,
consultou-o sobre um caso de pneumonia que estava a tratar e pediu-lhe que fizesse o prognóstico.
- Ela salva-se - disse Andrew e apresentou as
razões científicas.
Urquhart abanou a velha cabeça num gesto de
dúvida.
- Nunca ouvi falar nesse tal soro polivalente
ou nestes seus anticorpos ou nestas suas unidades internacionais. Ela, porém, é Powell pelo sangue e se aos Powell incha a barriga quando estão com pneumonia, morrem sempre antes de oito dias. Conheço os antecedentes da família. Ela está com a barriga inchada, não está?
O velho voltou ao assunto, com ar de sombrio
triunfo sobre o método científico quando, ao fim de uma semana, a doente morreu.
Denny, já então no estrangeiro, não teve
conhecimento do novo título de Andrew. Mas chegou ainda um último e inesperado cumprimento. Era de Freddie Hamson, que enviou uma longa carta. Freddie tinha visto os resultados dos exames no Lancet, felicitava Andrew pelo seu sucesso, convidava-o a ir a Londres, e por fim expunha minuciosamente as vitórias emocionantes que estava obtendo em Queen Anne Street, onde, como previra naquela noite passada em Cardiff, brilhava agora a sua placa.
- É uma vergonha termos perdido contacto
com Freddie - declarou Manson. - Devo escrever-lhe mais amiúde. Tenho um palpite de que iremos vê-lo outra vez. Bonita carta, não é assim?
- Sim, muito bonita - respondeu Christine
secamente. - Mas parece que trata exclusivamente dele.
Com a aproximação do Natal a temperatura
tornou-se mais baixa. Dias arrepiantes e gelados e noites silenciosas e estreladas. O chão duro como ferro rangia sob os pés de Andrew. O ar, muito claro, era como um vinho capitoso. Enquanto se esboçava no seu espírito o novo passo que ia dar na grande investida para o problema da inalação das poeiras.
As descobertas entre os seus próprios clientes
levaram muito longe as suas esperanças e obtivera agora a permissão de Vaughan para estender o campo das pesquisa, procedendo a exames sistemáticos de todos os trabalhadores nas três minas de antracite. Era uma oportunidade maravilhosa. Pensou empregar como elementos de verificação os operários que trabalhavam no fundo da mina e os que labutavam à superfície. Queria começar logo no começo do Ano Novo.
Na véspera de Natal voltou do consultório
com a extraordinária sensação de bem-estar físico e de antegozo espiritual. Ao passar pelas ruas não podia deixar de se aperceber dos preparativos da festa. Os mineiros daquela região tinham um grande culto pelo Natal. Desde a semana anterior, enfeitava-se de bandeirolas de papel a sala da frente de todas as casas, fechada à chave por causa das crianças. Havia brinquedos escondidos nas gavetas das cómodas e acumulavam-se nas mesas bem ornamentadas as gulodices, os bolos, as laranjas, os biscoitos e os rebuçados, tudo comprado com o dinheiro abonado nesta época do ano pela Cooperativa.
Christine também trabalhou com alegre
disposição nas suas decorações, e à noite, quando chegou a casa, Andrew notou logo uma animação maior na fisionomia da mulher.
- Não fales! - exclamou ela com vivacidade,
estendendo-lhe a mão. - Nem uma palavra! Fecha os olhos e vem comigo!
Ele deixou-se levar até à cozinha. Numa mesa
amontoava-se uma porção de embrulhos mal feitos, alguns até de papel de jornal, mas todos com um cartãozinho. Ele compreendeu imediatamente serem presentes e lembranças dos seus clientes. Alguns nem mesmo estavam embrulhados.
- Olha, Andrew - gritava Christine. - Um
ganso! e dois patos! E que lindo bolo gelado! E uma garrafa de vinho de cidra! Foram bem gentis! Não é comovente que eles se lembrem de nos dar tudo isso!
Ele nem podia falar. Sentia-se cativado pela
demonstração, por aquela prova comovedora de que a gente do distrito começava afinal a apreciá-lo, a gostar dele. Com Christine encostada ao ombro, leu os bilhetes, todos escritos com custo e eivados de erros, alguns rabiscados a lápis em velhos sobrescritos virados do avesso: «Do seu cliente grato do Cefan Row n.º 3»; «com os agradecimentos da Sr.a Williams». De Sam Bevan viera esta jóia de estilo:
«Obrigado por me ter salvo em tempo, para
que eu possa gozar o Natal, doutor». E assim por diante...
- Devemos guardar tudo isto, meu querido -
disse Christine em voz baixa. - Vou levá-los para cima.
Quando Andrew recobrou a verbosidade
habitual, com a ajuda de um bom copo de vinho de cidra feito em casa, pôs-se a andar de um lado para o outro da cozinha, enquanto Christine recheava o ganso. Andrew estava delirante.
- Era assim que os honorários deviam ser
pagos, Chris. Nada de dinheiro, nada dessas contas amaldiçoadas, nada de pagamento a tanto por cabeça, nada de ganância. Pagamento em espécie. Compreendes-me, não é, querida? O médico trata do doente e o doente manda em troca alguma coisa que ele fez, que ele produziu. Carvão, por exemplo: um saco de batatas da sua horta, ovos, se cria galinhas. Esse é o meu ponto de vista. Assim, um médico poderia ter uma ética ideal! E a propósito dessa Sr.a Williams, que nos mandou os patos... Leslie encharcou-a de poções e pílulas durante cinco anos bem puxados antes que eu curasse a sua úlcera do estômago com uma dieta de cinco semanas. Que estava eu a dizer? Ah! Sim! Vê lá! Se fosse possível aos médicos eleminarem a questão do ganho todo o sistema seria purificado...
- Sim, querido. Se não é incómodo para ti,
traz-me as taças de uva. Estão na prateleira de cima do guarda-louça.
- Que diabo, mulher! Não ouves o que te digo!
Upa! Esse ganso deve ficar bastante gostoso.
O dia de Natal amanheceu lindo. No azul
distante, as montanhas pareciam feitas de pérolas, na brancura da neve. Depois de algumas consultas da parte da manhã Andrew saiu para a sua volta com a agradável expectativa de não haver trabalho à noite na clínica. Era pequena a lista de visitas a fazer. Preparavam-se grandes almoços em todas as casas, inclusive na sua. Não se cansava de dar e receber boas-festas ao longo das ruas. E não podia deixar de confrontar as recepções alegres de agora com a frieza geral com que era acolhida um ano atrás a sua passagem por aquelas mesmas ruas.
Foi talvez esse pensamento que o fez parar,
com estranha hesitação, em frente do n.° 18 de Cefan Row. De todos os antigos clientes - fora Chenkin - de quem não queria saber, Tom Evans era o único que não tinha voltado para a sua clínica. Mas nesse dia, tomado de animação fora do comum, talvez arrastado pelo sentimento de fraternidade humana, veio de repente ao seu espírito o impulso de aproximar-se de Evans e desejar-lhe feliz Natal.
Depois de bater na porta, abriu-a e foi
entrando até o fundo da cozinha. Parou ali, com uma sensação de vergonha.
A cozinha estava muito desprovida, quase
vazia, e só havia fogo aceso numa das fornalhas do fogão. Sentado ali, numa cadeira de encosto desconjuntada, via-se Tom Evans, com o braço inutilizado todo torcido para fora como uma asa. O aspecto curvado dos ombros era de quem estava abatido, sem esperança. Sobre os seus joelhos estava sentada uma garota de quatro anos de idade. Ambos contemplavam distraidamente, em silêncio, um ramo de pinheiro apoiado num balde velho. Ao pé daquela minúscula árvore de Natal, que Evans tinha ido buscar a duas milhas de distância, havia três pequeninas velas de sebo ainda por acender. Em baixo, o que constituía o banquete de Natal para a família: três laranjas pequenas.
De repente Evans voltou-se e viu Andrew.
Teve um sobressalto e a vergonha e o ressentimento foram transparecendo aos poucos na sua fisionomia. Andrew compreendeu que era uma aflição para o homem ser surpreendido assim, sem emprego, com parte da mobília empenhada, inválido, pelo médico de quem rejeitara os conselhos. Ele presumia, é claro, que Evans não estava bem da vida, mas não suspeitava que a situação fosse tão lamentável. Sentiu-se desconcertado e constrangido, quis dar meia volta, retirar-se. Nesse momento, a Sr.a Evans entrou na cozinha pela porta do fundo, com um saco de papel debaixo do braço. Assustou-se tanto ao ver Andrew, que deixou cair o saco, e este, batendo no chão de pedra, rasgou-se todo e mostrou dois pedaços de peito de vaca, a carne mais barata que podia comprar se em Aberalaw.
Olhando para a mãe a criança começou a
chorar.
- Que há, doutor? - atreveu-se a dizer,
finalmente, a Sr.a Evans, com as mãos nas ancas. - Ele fez alguma coisa?
Andrew mordeu os lábios. Estava tão
emocionado e surpreso com a cena que só tinha vontade de sair dali o mais depressa possível.
- Sr.a Evans... - não tirava os olhos do chão. -
Eu sei que houve um grande mal-entendido entre mim e o seu marido. Mas hoje é dia de Natal e... bem... eu desejava... - e concluiu atabalhoadamente. - Quero dizer, ficaria imensamente satisfeito se vocês quisessem ajudar-me a comer o almoço do Natal.
- Mas, doutor... - a mulher hesitava. - Cala-te, mulher! - Evans interrompeu-a -
orgulhosamente. - Não vamos almoçar fora. Se peito de vaca é tudo o que podemos ter, então é peito de vaca que queremos comer. Não precisamos da caridade do próximo.
- Que está o senhor a dizer? - exclamou
Andrew, consternado. - Estou a convidá-los como amigos.
- Ah! O senhor não é melhor do que os outros!
- respondeu Evans, amarguradamente. - Quando um sujeito está na mó de baixo só o que sabem fazer é atirar-lhe à cara uns restos de comida. Fique com o seu maldito almoço. Nós não precisamos dele.
- Tom, que é isso?! - protestou a Sr.a Evans. Andrew voltou-se para ela, acabrunhado, mas
ainda disposto a levar por diante a sua intenção.
- Procure convencê-lo, Sr.a Evans. Eu ficaria
realmente desapontado se não viessem. À uma e meia. Ficamos à espera.
E antes que alguém pudesse responder, virou
as costas e abandonou a casa.
Christine nada disse quando Andrew contou
precipitadamente o que tinha feito. Se não tivessem ido à Suíça, para os desportos de Inverno, seria quase certo que os Vaughan viriam almoçar com eles. E era numa tal ocasião que se lembrara de convidar um mineiro desempregado com toda a sua família. Era nisso que Andrew estava a pensar, de costas para a lareira, vendo Christine preparar novos lugares na mesa.
- Estás aborrecida, Chris? - perguntou ele,
afinal.
- Eu pensei que me tinha casado com o Dr.
Manson -respondeu ela com um vislumbre de aspereza - e não com S. Bernardo. Na verdade, querido, és um sentimental incorrigível.
Os Evans chegaram exactamente à hora
marcada, penteadíssimos e endomingados, muito pouco à vontade, cheios de receio e de amor-próprio. Esforçando-se nervosamente por criar um ambiente de hospitalidade, Andrew tomou precauções exageradas para que Christine mostrasse boa cara e a reunião não fosse um fracasso desanimador.
Olhando todo envergonhado para Andrew,
Evans sentiu-se muito acanhado na mesa, por causa do braço doente.
A mulher era obrigada a cortar a carne e a pôr
manteiga no pão para ele. Por pouca sorte, quando Andrew agarrou no galheteiro, a tampa do frasco da pimenta e uma boa quantidade de tempero caíram no seu prato de sopa. Houve um silêncio constrangedor, mas nisto a pequena Agnes, deu uma risadinha que não pôde reprimir. Tomada de pânico, a mãe virou-se para ralhar com ela, mas ao ver a expressão de Andrew não prosseguiu. Daí a momentos todos se puseram a rir.
Perdendo o receio de ser tratado como um
protegido, Evans revelou-se um ser humano entusiástico jogador de rugby e grande apaixonado pela música. Três anos antes tinha ido mesmo a Cardigan para cantar no Eisteddfod7 dali. Orgulhoso de mostrar os seus conhecimentos, discutiu com Christine a oratória de Elgar, enquanto Agnes se entretinha com Andrew.
7 Eisteddfod é o nome dado ao congresso de poetas e musicistas do país de Gales, que se reúne em várias cidades para a conservação e progresso do folclore tradicional daquela região da Grã-Bretanha.
Mais tarde, Christine levou a Sr.a Evans e a
garotinha para a outra sala. Houve um silêncio de constrangimento quando Andrew e Evans ficaram sós. Um pensamento comum dominava o espírito de ambos, porém nem um nem outro sabia como exprimi-lo. Finalmente, numa espécie de arranque desesperado, Andrew disse:
- Sinto muito o que aconteceu com o seu
braço, Tom. Eu sei que ainda por cima o senhor perdeu o lugar que tinha na mina. Não julgue que eu pretendo cantar vitória à sua custa ou coisa parecida. Lamento profundamente tudo isso.
- Não lamenta mais do que eu - disse Evans. Houve uma pausa, e depois Andrew concluiu
:
- Interessar-me-ia saber se o senhor me
autoriza a que eu fale ao Sr. Vaughan sobre o seu caso. Se lhe parece que estou a meter-me na sua vida, calo-me! Mas a verdade é que tenho certa influência junto dele e poderia conseguir com certeza um emprego para si fora da mina. Um lugar de apontador, ou coisa assim...
Parou, não ousando olhar para a cara de
Evans. Desta vez o silêncio foi prolongado. Afinal, Andrew levantou os olhos, mas foi apenas para os baixar de novo no mesmo instante. Corriam lágrimas pelas faces de Evans, todo o seu corpo tremia no esforço de não se deixar vencer pela emoção. Mas era inútil. Estendeu na mesa o braço são e nele mergulhou a cabeça.
Andrew levantou-se e dirigiu-se à janela, onde
ficou por alguns minutos. Quando voltou Evans já se dominara. Não pronunciou palavra, absolutamente nada, e os seus olhos evitaram os de Andrew numa longa reticência, muito mais significativa do que qualquer expressão.
Às três e um quarto a família de Evans partiu
numa disposição que contrastava vivamente com o ar constrangido da chegada. Christine e Andrew entraram na saleta.
- Sabes, Chris - filosofava Andrew - de toda a
desgraça deste pobre homem, isto é, o seu braço inutilizado, não é ele o culpado. Não confiou em mim porque eu era novato. Mas o amigo Oxborrow, que aceitou o seu cartão, este devia saber. Ignorância, ignorância, pura e amaldiçoada ignorância! Os médicos deviam ser obrigados por lei a estar em dia com os progressos da medicina, o responsável por isso tudo é o nosso sistema gangrenado. Devia haver cursos obrigatórios para médicos depois de formados. De cinco em cinco anos...
- Meu querido! - protestou Christine do sofá,
sorrindo para o marido: - Já estive assoberbada o dia inteiro com a tua filantropia. Contemplei o esvoaçar das tuas asas de anjo. Não me impinjas ainda por cima um sermão. Vem sentar-te aqui, ao meu lado, que eu tenho hoje um motivo de facto importante para querer ficar assim sozinha contigo.
- Ah, sim? - disse num ar de dúvida. E depois
indignado: - Espero que não estejas a lamentar-te. Acho que procedi correctamente. Afinal de contas... É Natal!
Ela riu silenciosamente. - Oh! Meu querido, até te mostraste
demasiadamente bom. Se tivesse havido logo depois uma tempestade de neve, sairias acompanhado do teu cão S. Bernardo e agasalhado até ao pescoço... irias procurar alguém que andasse perdido na montanha, bem tarde, altas horas da noite.
- Eu sei de alguém que foi ao poço n.° 3, bem
tarde, altas horas da noite... - resmungou ele, com mordacidade - e essa pessoa não estava devidamente agasalhada.
- Senta-te aqui - e ela estendia-lhe os braços. -
Tenho uma coisa para te contar.
Andrew ia sentar-se ao lado dela, quando, de
repente, soou na rua o ruído estridente de uma buzina de automóvel.
- Bolas! - foi tudo quanto Christine achou para
dizer.
Só uma buzina de automóvel em toda
Aberalaw tinha aquele som. Era de facto Con Boland.
- Não contavas com eles? - perguntou
Andrew, um tanto surpreendido. - Con disse que viria com a família tomar chá connosco.
- Está bem! - disse Christine, levantando-se e
acompanhando-o à porta.
Avançaram ao encontro dos Bolands, que
estavam em frente do portão, no carro remodelado. Con, ao volante, todo empertigado com um chapéu de coco e umas luvas novas e enormes, que subiam muito acima do pulso. A seu lado, no banco da frente, Mary e Terence. As três outras crianças vinham atrás, ao lado da Sr.a Boland, que carregava nos braços o bebé. Estavam todas tão apertadas, apesar do alongamento do veículo, como sardinha em lata.
De repente, a buzina começou de novo: «Krr-
krr-krr...».
Ao virar-se para o lado de fora, Con apertara
inadvertidamente o botão e este ficara preso interiormente. A buzina não parava: «Krr-krr-krr...» Atrapalhado, Con mexia numa coisa e noutra e praguejava. Abriam-se janelas na vizinhança, mas a Sr.a Boland continuava sentada com uma expressão distraída no rosto imperturbável, segurando o bebé sonhadoramente.
- Raios a partam! - exclamou Con, com as
pontas erisadas do bigode roçando o guarda-lama. - Vai-se abaixo a bateria. Que será? Curto-circuito ou quê?
- É o botão, papá! - disse Mary com toda a
calma.
Enfiou a ponta da unha na parte inferior do
botão da buzina e levantou-o. A algazarra cessou.
- Antes assim - suspirou Con. - Como vai,
Manson meu filho? Que lhe parece esta dona-elvira? O comprimento foi aumentado de uns dois pés pelo menos. Não está estupendo? Imagine que ainda há um pequeno defeito na mudança. Não conseguimos dar tudo na ladeira.
- Nós só parámos alguns minutos na subida,
papá - disse Mary.
- Não tem importância - disse Con. - Em breve
o problema estará resolvido, quando eu desmontar o carro novamente. Como tem passado, Sr.a Manson? Aqui estamos todos para lhes desejar as boas festas e tomar chá.
- Entre, Con - Christine sorriu. - Estou
encantada com as suas luvas!
- Presente de Natal cá da senhora - respondeu
Com, contemplando as luvas enormes. São sobras de fornecimento para o exército. A senhora acredita que ainda estão a liquidar essas coisas! Ah! Que tem esta porta?
Não conseguindo abrir a portinhola do carro,
passou as pernas compridas por cima dela, pulou, ajudou as crianças e a mulher a saírem do fundo do automóvel, passou revista ao veículo tirando com o maior carinho um salpico de lama do pára-brisas e acompanhou a família à entrada de Vale View.
O chá foi muito cordial. Con estava
animadíssimo, todo envaidecido com a sua obra.
- Vocês não vão reconhecer este carro depois
de pintado.
A Sr.a Boland, sempre distraída, bebeu seis
xícaras de chá preto, bem forte. As crianças começaram pelos biscoitos de chocolate e terminaram com uma questão para a conquista do último bocadinho de pão. Limparam tudo o que havia sobre a mesa.
Depois do chá, enquanto Mary foi lavar os
pratos, insistia em dizer que Christine parecia cansada Andrew tirou o bebé dos braços da Sr.a Boland e pôs-se a brincar com ele no tapete, junto da lareira. Era o bebé mais rechonchudo que alguma vez vira, um menino de Rubens, olhos enormes e solenes e dobras de gordura nas articulações.
Tentava teimosamente enfiar um dedo nos
olhos de Manson. E todas as vezes que fracassava, uma expressão de majestoso espanto desenhava-se no seu rosto. Sentada com as mãos no colo, Christine não se mexia. Contemplava o marido a brincar com o garotinho.
Mas Con e a família não podiam demorar-se
mais. A noite aproximava-se e Con, preocupado com a bateria, tinha dúvidas, que não chegou a confessar, sobre o funcionamento dos faróis. Quando se levantaram para sair, ele convidou com solenidade:
- Venham assistir à partida.
Novamente Andrew e Christine vieram ao
portão, enquanto Boland enchia o carro com a sua prole. Depois de dois solavancos, o motor obedeceu e, fazendo-lhes um cumprimento triunfante com a cabeça, Con encaixou o chapéu de coco de modo petulante e ajeitou-se todo orgulhoso na direcção.
Nesse momento quebrou-se a parte que
Boland ligara ao chassis. O carro deu um estalo e desabou. Carregado com a família inteira de Con, o veículo alongado artificialmente afundou-se como um animal de carga que caísse no máximo do esforço. As rodas saltaram fora, ante os olhares estupefactos de Andrew e Christine. Houve um ruído de peças que se desconjuntam, uma invasão de instrumentos partindo da caixa de ferramentas e o arcabouço do carro repousou ao nível da rua. Um pouco antes era um automóvel e um pouco depois era uma gôndola de carrocel de feira. Na proa via-se Con com o volante Barrado; na ré, a Sr.a Boland segurando o bebé. A Sr.a Boand ficou com a boca aberta, com os olhos perdidos no lago. Era irresistível o pasmo da cara de Con diante daquela repentina perda de nível.
Andrew e Christine torciam-se a rir.
Começaram e não podiam parar. Riram até ficar com o corpo dorido.
- C"os diabos! - disse Con, erguendo-se, a
coçar a cabeça. Observando que nenhuma das crianças estava ferida, e que a mulher permanecia pálida, mas imperturbável, no seu lugar, passou revista aos escombros, examinando tudo desorientadamente.
- Foi sabotage - declarou afinal, atirando
olhares para as janelas da casa fronteira, quando lhe ocorreu uma explicação. - Algum desses demónios daqui andou a mexer no carro. - Nisto a fisionomia iluminou-se-lhe. Agarrou o indefeso Andrew pelo braço e apontou com melancólico orgulho para a parte da frente em monte, sob a qual o motor ainda batia convulsivamente: - Está a ver, Manson! Ainda funciona!
Arrastaram como puderam os restos do
veículo para o quintal de Vale View, depois do que a família Boland voltou para casa a pé.
- Que dia! - exclamou Andrew quando se
viram finalmente em sossego. - Nunca hei-de esquecer até ao fim da minha vida a cara de Boland!
Estabeleceu-se silêncio por um momento e
depois, voltando-se para Christine, Manson perguntou:
- Que tal passámos o Natal?
Christine respondeu enigmaticamente: - Gostei de te ver a brincar com o pequenito
do Con Boland.
Ele encarou-a:
- Porquê?
Ela não olhou para o marido. - Foi isso que eu te quis dizer durante todo o
dia. Oh! Não foste capaz de adivinhar, querido?! Afinal de contas não acho que sejas um médico tão esperto como se diz por aí.