A Cidadela
Capítulo 3
A missão era idiota. Consistia na inspecção de
material de pronto-socorro nas diferentes instalações das minas de carvão do país: talas, ataduras, algodão, desinfectantes, torniquetes, etc. Nas minas ricas o equipamento era bom. Nas pobres, o equipamento era mau. A inspecção em subterrâneos não era novidade para Andrew. E fez centenas de inspecções arrastando-se por milhas de galerias no fundo das minas de carvão para examinar uma caixa de ataduras, cuidadosamente colocada ali meia hora antes. Nos poços insignificantes do inóspito Yorkshire ouviu cochichos do género: «Corre, Georgie, e diz a Alex que vá à farmácia...» ou então: «Sente-se, doutor; dentro de um minuto tudo estará preparado para o doutor ver». Em Nothingham animou o pessoal de uma ambulância onde não se consentia o álcool, afirmando-lhes que chá frio era um estimulante superior à aguardente. Em todos os lugares era a favor do whisky. Mas na maioria dos casos fazia o serviço com cuidados escrupulosos.
O casal tomava acomodações num centro
estratégico Dali Andrew corria o distrito de automóvel. Enquanto o marido inspeccionava Christine ficava cosendo, longe dele.
Tiveram muitas aventuras, principalmente
com donas de pensões. Fizeram amigos, sobretudo entre os inspectores de minas. Andrew não se admirava quando essa gente, rude e simplória, ria loucamente da sua missão. O pior era que Andrew ria com eles.
Em Março voltaram para Londres, venderam
o carro com um prejuízo de dez libras apenas sobre o preço de compra, e Andrew pôs-se a organizar o relatório. Tinha decidido dar aos membros da Junta um trabalho que valesse o dinheiro gasto, com estatísticas sobre o material, páginas de quadros comparativos, mapas e gráficos que mostrassem como subia a curva das ligaduras quando caía a curva das talas. Estava resolvido, explicou a Christine, mostrar à Junta como fizera um trabalho bem feito e como aproveitara bem o tempo que durara a inspecção.
Ao fim de um mês, quando já passara para as
mãos de Gill um rascunho do relatório, Andrew teve a surpresa de receber uma comunicação do Dr. Bigsby para que o procurasse no Ministério do Comércio.
- Ele está encantado com o seu relatório -
anunciava Gill, todo animado, acompanhando Andrew ao longo de Whitehall. - Não deve deixar perder esta oportunidade. Sim, senhor! Meu caro colega, é inegável que isto é um começo esplêndido para si. Nem faz ideia como Bigsby é importante. Tem toda a administração da indústria no bolso.
Levaram bastante tempo a chegar à presença
do Dr. Bigsby. Tiveram de esperar, de chapéu na mão, em duas antecâmaras, até serem admitidos no seu gabinete. Mas eis enfim o Dr. Bigsby, corpulento e cordial, com um fato cinzento e polainas de tom mais escuro, colete de abotoadura dupla, e cheio de autoridade aparatosa.
- Sentem-se, senhores. A propósito do seu
relatório, Manson, estive a ler o rascunho e, embora seja cedo para me pronunciar, devo dizer-lhe que me deu boa impressão. Altamente científico. Gráficos excelentes. De trabalhos assim é que precisamos neste departamento. Agora, como estamos em via de uniformizar os equipamentos de fábricas e minas, acho que o senhor deve conhecer os meus pontos de vista. Antes de mais vejo que recomenda ligaduras de oito centímetros como o tipo conveniente. Ora, eu prefiro ligaduras de seis centímetros e meio. Concorda comigo, não é verdade?
Andrew irritou-se; deviam tê-lo predisposto a
isso as polainas.
- Na minha opinião, pelo menos para as
minas, acho que as ligaduras mais largas são melhores. Mas, que diabo! Que diferença é que isso faz?
- Hem? Como? - Bigsby corou até à raiz dos
cabelos. - Não faz diferença?
- Absolutamente nenhuma.
- Mas o senhor não vê... não compreende que
é todo o princípio da estandardização que está em jogo? Se sugerimos seis centímetros e meio e o senhor recomenda oito, pode resultar daí uma série de complicações.
- Pois eu recomendo oito centímetros - disse
Andrew friamente.
Os pêlos de Bigsby arrepiaram-se
visivelmente.
- Não posso compreender a sua atitude. Há
muitos anos que nos esforçamos para a adopção de ligaduras de seis centímetros e meio. Está a parecer-me que o senhor não sabe quanto este assunto...
- Sim, eu sei! - Andrew também perdeu a
paciência. - O senhor já esteve no fundo de uma mina? Eu já! Já fiz uma operação sangrenta, estirado numa poça de água, à luz de uma lanterna e num lugar onde não se podia estar de pé. E posso garantir-lhe que uma diferença de dois centímetros e meio nas suas ligaduras não vale um caracol.
Saiu do edifício mais apressadamente do que
havia entrado. Desanimado, Gill torcia as mãos e lamentava-se por todo o caminho.
Ao chegar ao seu gabinete, Andrew pôs-se à
janela, contemplando, de sobrolho carregado, o tráfego do rio, as ruas cheias de movimento, os autocarros, os «eléctricos» passando estrondosamente sobre as pontes, o burburinho da multidão, o desenrolar palpitante da vida.
«Não tenho jeito para vegetar aqui», -
pensava, num acesso de impaciência. - «Nasci para viver lá fora... lá fora».
Abbey deixou de comparecer às reuniões da
Junta. Challis deixara-o desalentado, quase num estado de terror. Ao acompanhá-lo para almoçar preveniu-o de que Whinney estava a empenhar-se fortemente para conseguir que ele fosse designado para a investigação sobre fadiga muscular antes de tratar da questão da silicose. Andrew pensou esforçando-se desesperadamente para achar graça: «Se for assim, depois das ligaduras o melhor que tenho a fazer é ficar cliente do Museu Britânico».
Ao voltar para casa, surpreendeu-se a olhar
com inveja as placas de metal fixadas nas grades diante das portas das residências dos médicos. Parava, via um cliente a tocar à campainha da porta e entrar... E então, prosseguindo melancolicamente o seu caminho, ficava a imaginar a cena, as perguntas do médico, o exame com o estetoscópio, toda a excitante ciência do diagnóstico. Também era médico. Não era de facto? Pelo menos, durante um certo tempo...
Pelos fins de Maio precisamente, e nessa
disposição de espírito, subia ele a Oakley Street, por volta das cinco da tarde, quando viu de repente uma multidão reunida em torno de um homem estendido na calçada. No meio da rua estava uma bicicleta arrebentada e mais adiante um camião atravessado.
Momentos depois Andrew já estava no meio
da multidão, observando o homem atropelado. Junto dele ajoelhava-se um polícia. O homem sangrava abundantemente de uma ferida profunda nas virilhas.
- Deixe-me passar. Sou médico.
O polícia, que se esforçava inutilmente por
fixar um torniquete, voltou o rosto perturbado.
- Não consigo estancar o sangue, doutor. A
ferida é muito profunda.
Andrew viu que era impossível aplicar o
torniquete. A ferida era muito profunda, atingindo o vaso ilíaco e o homem desfazia-se em sangue.
- Levante-o - disse ao guarda. - Ponha o
homem de peito para cima.
Então, fechando a mão direita, inclinou-se e
empurrou a barriga do homem na direcção da aorta. Todo o peso do seu corpo, assim transmitido à grande artéria, deteve imediatamente a hemorragia. O polícia tirou o quépi e limpou a testa. Cinco minutos mais tarde, a ambulância chegava. Andrew acompanhou-a. Na manhã seguinte telefonou para o hospital. Como de costume em casos idênticos, o cirurgião de serviço respondeu bruscamente:
- Sim, sim, o homem está a passar bem. Quem
faz a pergunta?
- Oh! - murmurou Andrew, da cabina do
telefone publico. Ninguém.
E esta palavra, pensou com amargura,
sintetizava exactamente o que ele era: ninguém, nada fazia, não tinha futuro. Suportou a situação até ao fim da semana, e então, calmamente, sem comentários, entregou a Gill, para que o transmitisse à Junta, o seu pedido de demissão.
Gill ficou desconcertado, mas reconheceu que
já receava esse melancólico desfecho. Pronunciou algumas palavras de consolação e ao terminar:
- Afinal de contas, meu caro colega, eu
compreendo que o seu lugar é... Bem, para empregar uma expressão do tempo de guerra, o seu lugar não é na retaguarda, mas... sim, na linha da frente... com os que combatem.
Hope interpôs-se:
- Não ligue importância ao que diz esse
amador de pinguins e de roseiras. O senhor tem sorte. Eu farei o mesmo se conservar o juízo... Assim que terminar os três anos do contrato!
A Andrew nada constou sobre as actividades
da Junta quanto à inalação das poeiras até que, meses depois, Lord Ungar levantou a questão, dramaticamente, no Parlamento, declarando-se baseado em documentação médica produto das investigações do Dr. Maurice Gadsby.
Gadsby foi aclamado pela imprensa como um
grande cientista e um benfeitor da Humanidade, e nesse ano a silicose foi classificada como doença de origem industrial.