A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 52 de 55

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A Cidadela

Capítulo 19

Eram quase sete horas quando Andrew

abandonou Bellevue. Demorou-se muito mais do que esperava. É que ficara a conversar na varanda, gozando a frescura da tarde e a agradável conversa de Stillman. No caminho de regresso, achava-se possuído de uma extraordinária sensação de tranquilidade, de paz. Compreendeu ser a influência do americano, da sua personalidade, da sua quietude moral, da sua indiferença pelas vaidades da vida. E isso era um sedativo para o seu espírito sobressaltado.

Além disso sentia-se aliviado a respeito de

Mary. Comparava o que fizera no começo, despachando-a sumariamente para um hospital em ruínas, com o que realizara naquela tarde. Sem dúvida que lhe dera muito trabalho, muito incómodo e não estava muito em regra com a ortodoxia médica. Tinha também de pensar na conta. Embora não tivesse falado com Stillman na questão do preço, sabia que Boland não estava em condições de suportar as contas de Bellevue. Ele é que teria de pagar. Mas isso não tinha importância perante a satisfação íntima de ter levado a cabo uma tarefa que o dignificava. Pela primeira vez depois de tantos meses acreditava ter praticado uma acção realmente elevada. Era uma convicção que o animava, que o confortava, como o começo da sua reabilitação. Conduzia devagar, desfrutando da doçura da noite.

A enfermeira Sharp ia novamente no banco

traseiro, mas calada e, mergulhado nas suas meditações, Andrew ignorava-a. Quando entraram em Londres, perguntou-lhe onde queria que a deixasse e, consoante a sua indicação, largou-a na estação do metro de Notting Hill. Era um alívio despachá-la.

- Boa enfermeira, não havia dúvida, mas

antipática e incómoda. Sentia que ela sempre o detestara.

Decidiu mandar-lhe pelo correio, no dia

seguinte, o ordenado do mês. Era um recurso para não a aturar mais.

Ao atravessar Paddington Street, toda a

satisfação íntima de Manson desapareceu como por encanto. Sentia-se mal todas as vezes que passava pela loja de Vidler. Olhando furtivamente, viu a tabuleta «Consertos em Geral, Ld.a». Um empregado fechava as portas.

Esse simples facto era tão significativo que

Manson sentiu um arrepio. Mal disposto, acelerou o andamento até Chesborough Terrase. Guardou o carro e entrou em casa com uma tristeza estranha a oprimir-lhe o coração.

Christine veio ao seu encontro toda

entusiasmada. Ao contrário do marido, parecia satisfeitíssima. Os olhos brilhavam com o reflexo de boas notícias.

- Está tudo vendido! - declarou com alvoroço.

- Tudo, querido! Clínica, móveis, casa, garagem, até a cave. Acabam de sair agora mesmo daqui. O doutor e a Sr.a Lowry. - E explicou a rir-se. - O homem ficou tão nervoso por não apareceres para atender os clientes que ele mesmo fez o serviço do dispensário. Convidei-os para jantar. Conversámos bastante. Sem se abrir muito, a cara da Sr.a Lowry dava a entender que talvez tivesses sido vítima de um desastre de automóvel. Acabei por ficar apreensiva. Mas agora que chegaste, estou contente. Terás de te encontrar com o Dr. Lowry amanhã, na agência. As onze horas. É para assinar o contrato. Ah! É verdade... O doutor já deu o sinal ao Sr. Turner.

Andrew acompanhou-a à sala de jantar, de

cuja mesa haviam já sido retirados os pratos. Embora Andrew tivesse gostado de ter passado a clínica, não podia demonstrar naquele momento um grande entusiasmo.

- Foi de facto uma boa solução, não foi? -

continuou Christine. - Resolvemos isso depressa. Suponho que ele não vai exigir uma apresentação muito demorada à clientela. Estive a pensar em muitas coisas antes de tu chegares. E se nós passássemos um tempo fora antes de retomares a actividade? Em Vale André, por exemplo... Vivemos ali um tempo tão agradável! - parou de repente, olhando de frente o marido. - Que tens, meu amor?

- Nada - sorriu ele, sentando-se. - Apenas um

pouco cansado. Talvez porque não jantei.

- Que me dizes! - exclamou Christine,

alarmada. - Pensava que tivesses jantado em Bellevue, antes do regresso. - Olhou em torno da sala. - E já levantei a mesa e deixei a criada ir ao cinema!

- Não tem importância.

- Tem, sim. Compreendo agora porque não

ficaste alegre com a venda da clínica. Espera um momento, que eu vou arranjar-te qualquer coisa. Que preferes? Posso aquecer um pouco de sopa, estrelar uns ovos... Que mais queres?

- Bastam os ovos, Chris! Não te preocupes.

Bem, se puderes, traz também um bocado de queijo.

Momentos depois já ela estava de volta,

trazendo numa bandeja talheres, pratos, ovos estrelados, um pouco de salada, pão, biscoitos, manteiga e queijo. Colocou a bandeja na mesa. Quando Andrew se sentou, ela foi à despensa e trouxe uma garrafa de cerveja.

Enquanto o marido comia, ela observava-o

risonha, cheia de solicitude.

- Queres saber uma coisa? Tenho pensado

muitas vezes que nós seríamos felizes, mesmo se vivêssemos numa casa pobre, apenas com uma cozinha e um quarto. Essa história de aristocracia não liga connosco. Agora que voltei a ser a mulher de um trabalhador, sinto-me completamente feliz.

Andrew continuou a comer. Era evidente que

a comida lhe estava a saber bem.

- Outra coisa, querido - e Christine pôs as

mãos no queixo, de uma maneira muito particular. - Tenho pensado muito nestes últimos dias. Anteriormente andava embrutecida, mesmo parva. Mas, desde que novamente nos entendemos tudo me parece claro!... As coisas só têm valor quando se é obrigado a lutar por elas. Quando vêm sem esforço, quando são presentes da sorte, não dão o menor prazer. Lembras-te daqueles dias em Aberalaw? Como vivíamos, como vivíamos contentes mesmo com tantas privações! Pois bem! Tenho a impressão de que recomeçamos. É a nossa maneira de ser, querido. Somos assim! Sou tão feliz por isso!

Andrew fitou-a.

- Sentes-te realmente feliz?

Christine deu-lhe um beijo.

- Nunca fui tão feliz em toda a minha vida. -

Estiveram uns instantes calados. Andrew pôs manteiga num biscoito e levantou a tampa do prato do queijo. Ficou decepcionado. O que havia não era o seu predilecto Libtauer, mas um queijo barato que a criada usava como condimento. Ao dar por isso Christine soltou uma exclamação de quem se censura e continuou: - Eu devia ter ido hoje à casa de Frau Schmidt!

- Não tem importância, Chris! - Mas não está certo! - tirou-lhe o queijo antes

que ele se servisse. - Eu aqui a fazer de menina sentimental, sem pensar nas minhas obrigações, e tu tão cansado, cheio de fome! Que bela mulher de trabalhador estou a demonstrar ser! - Levantou-se, olhou para o relógio. - Deixa-me ir depressa, antes que feche a pastelaria.

- Ora, Chris! Deixa...

- Peço-te, querido! - fê-lo calar alegremente. -

Empenho-me nisso. É natural... Tu gostas do Libtauer, eu gosto de ti... então...

E saiu da sala antes que ele pudesse protestar.

Andrew ouviu os seus passos apressados no vestíbulo, o leve ruído da porta que se fechava. Os olhos ainda sorriam. Só Christine era capaz dessas coisas! E pôs manteiga noutro biscoito, à espera do queijo saboroso que ela traria.

O silêncio era completo dentro de casa. A

criada fora ao cinema e a Florie com certeza estava a dormir. Boa ocasião para se entregar aos seus pensamentos: Stillman era um homem admirável e Mary não tardaria a ficar completamente curada. Que sorte ter deixado de chover durante a tarde! A viagem de regresso fora uma delícia.

A paisagem era tão alegre e tranquila! Graças

a Deus, Christine teria em breve um jardinzinho. Ele, o Denny e o Hope poderiam ser linchados pelos cinco médicos de West Midlands. Mas mesmo assim Chris teria, o jardinzinho.

Começou a comer distraidamente um dos

biscoitos. Perderia o apetite se ela se demorasse. Devia estar a conversar com a Frau Schmidt. Boa criatura a alemã. Fora ela quem lhe tinha mandado os primeiros clientes. Se ao menos tivesse continuado modestamente, com decência, em vez de... bom, eram águas passadas, graças a Deus! Christine e ele estavam bem novamente. Mais felizes que nunca. Que maravilha ser digno de ouvir o que ela dissera momentos antes.

Acendeu um cigarro.

Nisto a campainha da porta retiniu com

estridência.

Levantou a cabeça, abandonou o cigarro e

encaminhou-se para a porta. A campainha vibrou mais uma vez. Andrew abriu a porta.

Percebeu imediatamente haver um tumulto

do lado de fora: uma multidão na rua, cabeças e ombros que se comprimiam no escuro. Antes que pudesse descobrir de que se tratava, o guarda que havia tocado a campainha avançou.

Era o amigo Struthers, o sinaleiro. Mas como

estava pálido!

- Doutor! - ofegava como um homem que

viesse a correr. - A sua mulher foi atropelada. Ia a atravessar a rua... Deus do Céu... Ia a atravessar a rua... e nisto veio um autocarro!...

Andrew sentiu gelar o coração. Antes que

pudesse pronunciar palavra, a confusão, num momento, entrou pela casa dentro; num torvelinho a multidão invadiu o hall.

Frau Schmidt, debulhada em lágrimas, um

condutor de autocarro, outro polícia, pessoas estranhas, todos a empurrá-lo, a arrastá-lo para o consultório. Depois, avançando por entre a multidão, carregada por dois homens, a pobre Christine. A cabeça pendia para trás, inanimada.

Os dedos da mão esquerda ainda seguravam

pelo cordão o embrulhinho do queijo. Deitaram-na sobre a marquesa do consultório. Estava morta.