A Cidadela
Capítulo 14
Três dias mais tarde, no consultório da
Welbeck Street, fazia muito calor e vinha da rua, pela janela aberta, o rumor enervante do trânsito. Andrew estava cansado, sobrecarregado de trabalho, apreensivo com a volta de Christine, que devia chegar no fim da semana. Estava à espera de um telefonema, mas ficava nervoso quando ouvia a campainha. Tinha de desdobrar-se para atender em menos de uma hora seis clientes... e clientes de três guinéus!, e tinha ainda de ir apressadamente ao dispensário antes de se encontrar com Frances para jantarem fora. Foi com impaciência que viu entrar a enfermeira Sharp com um ar ainda mais azedo do que de costume.
- Está lá fora um homem que quer falar
consigo. O aspecto é horrível. Não é cliente e diz que também não é viajante. Não tem ao menos um cartão de visita. Chama-se Boland.
- Boland? - repetiu Andrew, distraído. - De
repente a fisionomia iluminou-se-lhe. - Não será Con Boland? Mande-o entrar, enfermeira. Imediatamente.
- Mas há um cliente à sua espera. E dentro de
dez minutos, a Sr.a Roberts...
- Não se incomode com a Sr.a Roberts -
ordenou Andrew irritado. - Faça o que lhe digo.
A enfermeira corou ao ouvir as suas palavras.
Esteve quase para dizer que não estava habituada a que lhe falassem naquele tom. Fungou e saiu de cabeça erguida.
Logo depois, voltava com Boland. - Ora viva, Con! - disse Andrew levantando-se
de um pulo.
- Olá, olá! - berrou Con, avançando para o
amigo, com um largo sorriso cordial que lhe escancarava a boca.
Era o mesmo dentista de cabelos ruivos. Não
se notava a menor diferença. Tão autêntico e desalinhado no seu fato azul, lustroso e larguíssimo e nos seus sapatões castanhos, como se tivesse saído naquele momento do barracão de madeira a que chamava «garage». Um pouco mais velho, talvez, mas sempre exuberante, com o mesmo excesso agressivo nos gestos e no bigode espetado, cabeludíssimo, ainda indomável. Bateu fortemente nas costas de Andrew.
- C"os diabos, Manson! Que alegrão vê-lo de
novo. Está estupendo, estupendíssimo. Eu tê-lo-ia conhecido no meio da multidão. Bravo! Sim, senhor! Gosto de ver isto aqui! É um consultório de primeira ordem. - Voltou os olhos radiantes de simpatia para a azeda Sharp, que ficara à espera, com ar desdenhoso. - Esta sua amável enfermeira não queria que eu entrasse. Só consentiu quando lhe disse que também sou formado. E é verdade. Juro por Deus, enfermeira! Eu e este amigo que é seu patrão já trabalhámos como bestas de carga na mesma organização médica. Foi há muito tempo. Lá em Aberalaw. Se for para aqueles lados, passe lá por casa, que eu e a patroa teremos muito gosto em oferecer-lhe um cházinho. A casa está sempre aberta para quem é amigo do meu amigo Manson!
A enfermeira Sharp atirou-lhe um olhar
enviesado e saiu da sala. Mas isso nenhum efeito causou sobre Con, que fervia numa alegria simples e natural. E agitando-se diante de Andrew:
- Não é grande formosura, hem, meu filho!
Mas parece uma mulher direita, isso sou capaz de apostar. E então, então? Como vão as coisas? Como passam vocês?
Não largava a mão de Andrew; balançava-a
para cima e para baixo, nas mais alegres expansões.
A presença inesperada de Con era um rico
estimulante para um dia de tanta depressão. Quando conseguiu libertar a mão daqueles apertos e balanços cordiais, Andrew deixou-se cair na cadeira giratória, sentindo-se humano outra vez. Ofereceu cigarros ao amigo e, com um polegar enfiado na cava do colete e o outro apertando a ponta húmida do cigarro que acabara de acender, Boland começou a explicar a razão da sua visita.
- Eu tinha direito a umas férias, meu velho, e,
como tinha também alguns assuntos a tratar, a patroa achou que eu devia enfiar a trouxa e vir até aqui. Estou metido numa invenção e pêras. É uma mola para apertar travões de automóvel. Estou a fazer um consumo tremendo de massa cinzenta nessa invenção. Mas é só nas horas vagas. Um inferno! Não tenho quem me ajude no consultório. Mas não faz mal. A coisa tem de ir. Aliás não é tão importante como o que cá me trouxe.
Con deixou cair no tapete a cinza do cigarro e
tomou um ar mais sério.
- Escute, Manson, meu filho! É a Mary!
Naturalmente lembra-se da Mary; eu garanto-lhe que ela também se lembra de si. Não tem andado bem ultimamente. Nem parece a mesma. Resolvemos levá-la ao Llewellyn e ele não a conseguiu fazer melhorar. - Con indignou-se de repente. A voz tornou-se-lhe rude... - Com os diabos, Manson! Meteu-se-lhe na cabeça que a Mary está com um começo de tuberculose... Como se uma coisa dessas fosse possível na família Boland desde que o Dan, o tio dela, foi para um sanatório, há quinze anos. Ouça, Manson: quer fazer alguma coisa por este seu velho amigo? Sabemos que o senhor agora é um grande homem. Em Aberalaw não se fala noutra coisa. Quer examinar Mary? Não imagina a confiança que ela tem em si. E todos nós. Eu e minha mulher já trocámos muitas impressões a este respeito. Ela até me disse: «Quando puderes vai procurar o Dr. Manson. E se ele quiser ver a menina mandá-la-emos aonde ele achar conveniente». E agora, que me diz, Manson? Se está demasiadamente ocupado para isso, é só falar com franqueza. E pronto! Já cá não está quem falou.
Andrew foi ficando com ar preocupado. - Não diga isso, Con. O senhor não
compreende o prazer que tenho em vê-lo? E Mary... Pobrezinha! Deve calcular que farei por ela tudo, tudo.
Sem ligar aos significativos gestos da
enfermeira Sharp, gastou o seu precioso tempo a conversar com Boland. Afinal, a enfermeira não resistiu mais.
- Há cinco clientes à espera, Dr. Manson, e já
está com mais de sessenta minutos de atraso sobre as horas marcadas para as consultas. Não sei que desculpas hei-de dar, e não estou acostumada a tratar os clientes dessa maneira.
Apesar destas palavras Andrew não se
despediu de Con imediatamente. Acompanhou-o até à porta da rua, caprichando em mostrar-se hospitaleiro.
- Não consinto que volte para a sua casa, Con.
Quanto tempo vai ficar ainda por cá? Três ou quatro dias? óptimo! Onde está hospedado? No Westland? É muito fora de mão! Porque não vem para minha casa? Que diabo, somos íntimos! E tenho uma porção de quartos desocupados. Christine regressa na sexta-feira e ficará encantada por vê-lo, Con, encantada. Poderemos conversar como nos velhos tempos.
No dia seguinte Con trouxe a mala para
Chesborough Terrace. À noite, terminado o serviço do dispensário, os dois amigos foram à segunda sessão de um teatro de variedades. Era espantoso como tudo parecia agradável na companhia de Boland. A gargalhada fácil do dentista causava um certo espanto no primeiro momento, mas logo depois contagiava quem estava perto. Havia pessoas que se voltavam para Con, sorrindo-lhe com simpatia.
- Repare, meu velho! - Con estorcia-se na
cadeira. - Veja aquele tipo com a bicicleta. Lembra-se do seu tempo, Manson?
No intervalo foram ao bar. Chapéu atirado
para a nuca, a espuma de cerveja a escorrer-lhe pelo bigode, os sapatões castanhos firmes no varão metálico do balcão, Con expandiu-se:
- Manson: nem avalia como isto me diverte. O
senhor é realmente a bondade personificada!
Era tão viva e natural a gratidão reflectida no
rosto de Con que Andrew se sentiu um hipócrita acabado.
À saída do teatro comeram bife com batatas e
beberam cerveja num restaurante das proximidades. Em casa acenderam o fogão da sala da frente e puseram-se a palestrar. Conversavam, fumavam e esvaziavam garrafas de cerveja.
Andrew esqueceu-se por um momento das
complicações da sua existência supercivilizada. A exaustiva tensão da clínica, as perspectivas de trabalhar para Lê Roy, a possibilidade de ser promovido no Hospital, a situação da sua conta bancária, a formosura e a pele macia de Frances Lawrence, o medo dos olhos acusadores de Christine tudo isso se esbateu no seu espírito enquanto Con se expandia.
- Manson, lembra-se do tempo do nosso
combate com o Llewellyn? E o Urquhart e os restantes do grupo a desertarem no momento do sarilho... A propósito, o Urquhart manda-lhe recomendações. É ainda o mesmo homem. Mas lembra-se de que quando ficámos sozinhos bebemos o resto da cerveja?
Chegou o dia seguinte e veio inexoravelmente
o momento em que Andrew devia enfrentar Christine. compreendendo, irritado, como era falsa a sua aparente tranquilidade, Manson arrastou até à estação o simples Con, considerando-o uma tábua de salvação.
Quando o comboio chegou, o coração de
Andrew batia acelerado, numa expectativa tumultuosa. Que momento de aflição e remorso quando viu o rosto delgado e tão conhecido de Christine avançando entre a multidão dos passageiros, a procurá-lo ansiosamente! Mas depois esqueceu tudo na ânsia de demonstrar uma cordialidade despreocupada.
- Olá, Chris! Pensei que não mais voltasses!
Repara quem está comigo! É o Boland em carne e osso! É ainda o mesmo do nosso tempo. Este amigo não envelhece. Está hospedado lá em casa, Chris... Contar-te-ei tudo no automóvel.
- Está lá fora. Então divertiste-te muito? Surpreendida pela recepção imprevista pois
receava até que ele não a fosse esperar à estação Christine perdeu o ar abatido e, numa alegria nervosa, as suas faces coraram. Ela também andara apreensiva, metida em si mesma, ansiosa por uma vida nova. Sentia-se agora cheia de esperança. Encolhida no banco traseiro, na companhia de Con, falava animadamente, dirigindo olhares furtivos para Andrew, que ia na frente conduzindo o carro.
- Como é bom voltar para casa! - deu um
longo suspiro ao transpor a porta da rua; e de repente, falando ansiosa: - Sentiste a minha falta, Andrew?
- Parece-me que sim. Todos nós. Emily, venha
cá! Con! Que diabo está a fazer com a bagagem?
Num momento estava na porta da rua
ajudando Con, sem nenhuma necessidade, a trazer as malas. E então, antes que se dissesse ou fizesse mais alguma coisa, desculpou-se dizendo ser a altura de ir atender os clientes.
Insistiu para que o esperassem à hora do chá.
E resmungou ao sentar-se no automóvel: «Ora graças a Deus! Isto já passou! Ela parece nada ter melhorado com o passeio. Que inferno! Em todo o caso, tenho a convicção de que nada notou. E isso é o principal, por enquanto!»
Embora voltasse tarde, vinha exageradamente
vivo e animado. Con mostrou-se encantado com tão boa disposição.
- Estou a gostar de o ver, meu filho. O senhor
está ainda mais animado do que nos velhos tempos.
Mais de uma vez sentiu o olhar de Christine a
procurá-lo, ansioso por um sinal, por um gesto de entendimento.
Percebeu que a doença de Mary a preocupava
e até a distraía dos seus íntimos pensamentos. Num intervalo da conversa ela contou-lhe que fizera o Con telegrafar a Mary, para que viesse quanto antes, no dia seguinte mesmo, se possível. Esperava que se fizesse tudo por ela, sem demora.
Tudo correu melhor do que Andrew esperava.
Mary telegrafou, comunicando que chegaria no dia seguinte, pela manhã, e Christine estava ocupadíssima nos preparativos para a receber. A agitação que reinava na casa servia até para disfarçar a cordialidade forçada de Manson.
Mas quando Mary chegou Andrew voltou a
ser, de repente, o antigo Andrew. Notava-se logo à primeira vista que ela estava doente. Era agora uma rapariguinha de vinte anos, alta e magra, com as espáduas um pouco curvadas, com essa beleza de pele, quase sobrenatural, que logo esclareceu Andrew. Estava muito fatigada da viagem. No prazer de vê-los novamente, não se queria ir deitar entretida com a conversa, mas acabou por convencer-se a ir para a cama logo depois do jantar. Foi então que Andrew subiu para a observar.
Ficou lá em cima uns quinze minutos.
Quando desceu, para reunir-se a Con e Christine na sala de visitas, a sua expressão estava dessa vez involuntariamente perturbada.
- Receio que seja um caso positivo. O vértice
esquerdo. Llewellyn tinha razão, Con. Mas não se preocupe. Está ainda no começo. Podemos vencer a doença.
- Quer dizer... - murmurou Con,
profundamente apreensivo - ...que pode haver cura?
- Sim. Afirmo isso. Naturalmente, é preciso
prestar-lhe toda a atenção, uma assistência constante, o máximo cuidado. - Ficou a meditar com uma ruga profunda na testa. - Parece-me, Con, que Aberalaw é um péssimo lugar para ela. É sempre inconveniente conservar em casa um caso incipiente de tuberculose. Quer deixar-ma levar para o Vitória? Tenho bastante influência no Dr. Thoroughgood. Estou certo de que conseguirei instalá-la na sua enfermaria. Não perderei Mary de vista.
- Manson! - foi impressionante a exclamação
de Con. - Isso é uma prova de verdadeira amizade. Se soubesse a confiança que o senhor inspira a essa criança! Se há um médico que a pode curar só é possível ser o senhor!
Andrew telefonou imediatamente a
Thoroughgood e comunicou-lhe que já no fim da semana Mary poderia ser levada para o hospital. Con alegrou-se visivelmente. O seu fácil optimismo reapareceu com a ideia do hospital para tuberculosos, da assistência de Andrew e da supervisão de Thoroughgood. Já via Mary boa de todo, completamente curada. Os dois dias seguintes foram pesadíssimos de ocupações.
Na tarde de sábado, quando Mary foi para o
hospital e Con tomou o comboio de regresso, a tranquilidade de Manson parecia garantida. Pelo menos no momento. Pôde agarrar no braço de Christine e dizer alegremente, ao dirigir-se ao dispensário:
- Que bom estarmos juntos de novo, Chris!
Meu Deus! Que semana atarefada tivemos!
Pareceu-lhe que falara num tom muito
natural. Mas foi bom que não tivesse olhado para o rosto de Christine.
Ela sentou-se na saleta, sozinha, a cabeça
levemente curvada, as mãos no colo, parada. Estava tão desanimada como no próprio momento em que chegara. Havia nela um terrível pressentimento: «Deus do Céu! Quando, como é que isso acabará?»